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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Deus em Sophia

Este texto é de autoria de Frederico Lourenço, foi publicado na sua página de Facebook e foi-me autorizada a sua utilização neste blogue.

Deus – nos poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

"No dia 2 de Setembro deste ano, tive o grato prazer de participar numa conversa íntima (só que diante de 400 pessoas) sobre a obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os meus interlocutores eram Ana Luísa Amaral e Miguel Sousa Tavares. Fomos admiravelmente moderados por Anabela Mota Ribeiro. O auditório da Biblioteca Almeida Garrett (Porto) encheu-se para nos ouvir – e tanto a Ana Luísa como o Miguel deram pistas extraordinárias para a compreensão da poesia de uma autora que, cada vez mais, se revela aos falantes de língua portuguesa como criadora de uma obra que, na sua aparente e desarmante simplicidade, está, como a de Mozart, ao nível do maior conseguimento artístico em termos absolutos.

A minha intervenção centrou-se sobretudo no tema «Sophia e Deus». Há muito tempo que esta pista para a compreensão da sua obra me atrai e fascina. Mas não é uma clave de leitura evidente. Na verdade, quem faça a extraordinária viagem da alma que é ler, de fio a pavio, as mais de 900 páginas da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen na excelente edição da Assírio & Alvim, rapidamente chega a esta conclusão: nos poemas da genial autora não faltam «deuses». Mas «deus» é uma palavra que encontramos com muito menos frequência. E as vezes em que por «deus» se pode entender «Deus» são mesmo raríssimas.

No entanto, a obra poética de Sophia está cheia de Deus. Quantas vezes é enunciada a palavra «Deus» na «Arte da Fuga» de Bach? O facto de a resposta ser «zero» não significa que a «Arte da Fuga» não tenha como sujeito, tema e objecto «Algo» que só podemos enunciar por meio da palavra Deus.

Deus é ubíquo na obra poética de Sophia, porque é a sua aparente ausência que denuncia a sua presença. Num livro publicado em 1958, a autora escreve «és sempre um deus que nunca tem um rosto / por muito que eu te chame e te persiga» (Mar Novo).

Já antes, num livro publicado em 1947, lêramos uma das mais assombrosas definições de Deus que eu conheço: «Deus é no dia uma palavra calma / um sopro de amplidão e de lisura» (Dia do Mar).

Para Sophia, Deus não está ausente do mundo: está dentro dele, em cada milímetro quadrado do mundo. Basta estarmos atentos para captarmos a presença de «esse deus que se oferece, como um beijo, nas paisagens» (Dia do Mar).

Deus é o visível, é a imanência do real. Amá-lo significa amar a realidade, o visível: o «amor pelas coisas visíveis» e o canto poético que as celebra actuam como «oração em frente do grande Deus invisível» (Livro Sexto). Amar a Deus é amar o real.

Cinco anos após a publicação de Livro Sexto, foi-nos dado a ler em Geografia (1967) este credo extraordinário: «não trago Deus em mim mas no mundo o procuro / sabendo que o real o mostrará» (Geografia).

A relação entre o plano divino e o plano humano é vista como um enigma de sugestão e de silêncio: «Escuto e não sei se o que oiço é silêncio ou deus» (Geografia).

Que deus é este? É o Deus criador do céu e da terra? Em Geografia, lemos «o universo não brota das mãos de um deus do gesto e do sopro de um deus da alegria e da veemência de um deus».

É o Deus trino dos cristãos? «O Deus uno de desvios nos protege» (Ilhas)

É um Deus que nos dá a vida eterna? A única resposta de Sophia é: «Buscamos um deus que vença connosco a morte.... pois caminhamos nos cadafalsos do tempo» (Geografia).

Dentro deste deus não estarão deuses anteriores ao Deus cristão? Dioniso, «deus que nos deste a vida e o vinho» (Poesia, 1944)? E Apolo, «deus puro... deus sem espinhos e sem cruz» (Dia do Mar)?

Mas o Deus cristão também é puro. O que O separa do nada é a palavra. E não é o teólogo que tem poder sobre ela, mais sim o poeta, o aedo, «o recitador... que entoa a veemência pura da palavra, / Fronteira de puro Deus e puro nada» (O Nome das Coisas)

Numa obra poética exígua em igrejas cristãs, mas rica em templos gregos, afinal onde Deus está é cá fora – não é na igreja, não é no templo.

Porquê? Porque «a casa de Deus está na terra onde os homens estão» (Poemas Dispersos).

E perguntemos de novo: porquê? «Porque Deus nos criou para a alegria» (Poemas Dispersos)"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Reis com Sophia

A estrela


Eu caminhei na noite
E entre o silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.

Grandes perigos na noite me apareceram:
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
Duma cidade a néon enfeitada.

A minha solidão me pareceu coroa.
Sinal de perfeição em minha fronte.
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era dum ferro
Tão pesado, que toda me dobrava.

Do frio das montanhas eu pensei:
“Minha pureza me cerca e me rodeia”.
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza as coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu.

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito

Em monstruosa voz se transformaram:
Pedi às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram.
Sozinha me vi, delirante e perdida.

E eu caminhei na noite; minha sombra
De gestos desmedidos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins dos desertos caminhavam:
Então vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim me disseram: “Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela”.
Então soube que a estrela me seguia.

Era real e não imaginada.
Grandes e humanas miragens nos mostraram
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava.
E eu espantada vi que aquela estrela
Para cidade dos homens nos guiava.

E a estrela do céu parou em cima
duma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha o mesmo tom que a cinza
Longe do verde-azul da Natureza.

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água.
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais negra e mais sem luz
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado.

Nesse lugar pensei: Quando deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens tão perto.


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 21 de março de 2011

O poema: abraço à impureza do mundo

O poema

Simone Weil lamentava que se considerasse a estética como um estudo especial, uma recôndita disciplina universitária, pois «a estética é aquilo que nos torna o espaço e o tempo sensíveis». Sophia de Mello Breyner escreve: «Dizer que a obra de arte, que o poema faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. O poema, a obra de arte faz parte do real». De facto, a beleza não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o Ser e a Beleza se pudessem, de alguma maneira, separar. Aquilo que o poema ensina é que a beleza é uma metafísica concreta, um ponto de união entre o  invisível e o visível,  encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, o poema restaura a inevitabilidade da experiência

Procurar uma sílaba: poder-se-ia descrever assim a sua demanda. Enfrentar o máximo no mínimo, no insignificante, no inútil,  no ínfimo, no reduzido, no simples fragmento, na pequena dobra, no pormenor. Enfrentar o absoluto no débil e relativo, a imensidão no côvado minúsculo do que diariamente, do que obscuramente divisamos. Isso que nos esforçamos por esquecer, porque a nossa vida estremeceria se em vez dos discursos que nos saem tão fluidos ou temos à mão para explicar tudo, para nos justificar a nós próprios, tivéssemos que passar pelo embaraço de procurar as sílabas, de habitar o silêncio, a infatigável atenção, a longa e áspera noite do não-saber com seus corredores desertos e alagados, como quem espera a salvação. 

Se a filologia ensina alguma coisa sobre os processos humanos, podemos então concluir que o poema é, antes de tudo, uma forma de ação. A existência é feita de ações: lavar o rosto, preparar os alimentos, declarar um amor, cumprir um rito de tristeza, levantar a mão num aceno quase impercetível. De todas as ações que compõem a vida, umas são exteriores, outras interiores. Umas são passadas, outras ainda chegarão. Mas nenhuma destas divisões é muito rígida. Porque, simplesmente, há coisas que não passam. E há acontecimentos exteriores que se gravam em nós, nunca saberemos bem de que maneira, como o nosso segredo mais íntimo. O poema é uma ação humana, entre outras. Só isso. Que sabedoria a daqueles poetas chineses para quem a arte dos versos não se sobrepunha à arte de varrer o pátio da sua casa.

O poema só pode ser um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira), publicado por SNPC

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sophia: a poetisa assertiva do catolicismo

Convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exatidão da cruz
Na luz branca de Creta


Sophia de Mello Breyner era «assumidamente católica» mas «reconhecia Deus, a religiosidade e o mundo espiritual em termos mais universais», defende o escritor Richard Zenith.

Em entrevista à Agência Ecclesia, o investigador considera que o poema “Ressurgiremos”, em particular a sua quarta e última estrofe - «Pois convém tornar claro o coração do homem / E erguer a negra exatidão da cruz / Na luz branca de Creta» - constitui, «talvez», o texto «mais emblemático do sincretismo» de Sophia.

«Embora não haja qualquer menção de Deus ou de deuses», acrescenta, “Ressurgiremos” tem «inequívocas referências à teologia cristã e a crenças pagãs», designadamente na «ressurreição», que «terá lugar não em Jerusalém ou em Roma, mas sim em Creta», ilha do Mediterrâneo evocativa de narrativas e personagens da mitologia grega.

Richard Zenith foi um dos oradores do colóquio internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) que decorreu entre 27 e 28 de janeiro em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Na sua intervenção, o tradutor defendeu que a poesia de Sophia é «assertivamente cristã», sendo simultaneamente influída “pelo mundo antigo, que respira fundo o sentimento pagão”, entendido como a “perceção direta e objetiva da natureza”.

A novidade é que esta convivência dos deuses pagãos com o Deus do cristianismo «não decorre de uma atitude estética nem de uma estratégia literária», referiu o ensaísta durante a conferência intitulada “Uma Cruz em Creta: a salvação sophiana”.

Para «chegar à claridade e limpidez», a poesia de Sophia conduz o leitor por um «confuso labirinto de alusões e associações, cruzando Creta com Delfos, a Grécia com o Algarve, o reino de Deus com o reino do homem, o mundo da terra com o do mar, o cristianismo com o paganismo».

O tradutor natural dos Estados Unidos da América e radicado em Lisboa frisou que as «dualidades» associadas ao universo da autora «não costumam estar nem inteiramente concordes nem em plena oposição».

«Talvez toda a sua poesia tenha sido uma metáfora ou sombra de uma fé nesta Igreja [Católica] e nos seus ensinamentos, que ela não dizia claramente por não haver palavras que a consigam dizer com justiça», salientou.

Segundo Richard Zenith, a obra de Sophia evidencia um catolicismo que, «fiel ao sentido primitivo desta palavra, se caracteriza pela sua amplitude e abertura, preocupando-se pouco ou nada com doutrinas ou dogmas».

«A sua poesia – prosseguiu – é essencialmente liturgia, culto, oração, profecia, sendo as palavras que a compõem elos, anéis, instrumentos de religação com o reino do ser humano, o qual foi criado, segundo alguns creem, à imagem de Deus».

No entender de Richard Zenith, «a palavra é o fio de linho» que guia Sophia, criando «o laço entre o mundo subjetivo – atravessado por zonas obscuras e perigosas – e o mundo claro e evidente que todos conhecemos», ao mesmo tempo que liga o «humano ao divino, a mitologia pagã à doutrina cristã”.

«Assumindo-se como um oráculo, não por presunção mas por vocação que lhe foi dada, Sophia de Mello Breyner insere-se numa linhagem antiga que não fazia distinção entre poesia e profecia», sublinhou o ensaísta especializado na obra de Fernando Pessoa.

por Rui Martins, In Agência Ecclesia
sophia assertiva e catolica

domingo, 23 de janeiro de 2011

Batata ou cebola? Viagem ao centro da alma e a atenção ao silêncio


A atenção

Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nos seus tratados ou pode ser formulada por um mestre espiritual.

O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que «tudo é interpretação», isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspetivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. Uma visão espiritual do mundo, por outro lado, está certamente do lado da batata, pois considera que mesmo escondida por uma crosta ou por um véu persiste uma realidade que é substanciosa e vital.

A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la muitas vezes como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.

Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia que ela é fundamentalmente feita de atenção: «é a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz». Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da vida espiritual.

Possamos dizer a verdade do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen:

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Os sentidos espirituais abrem-se e maturam no silêncio. Se mergulhamos neles, tornam-se trilhos para o nosso caminho. É esse o conselho que os mestres unanimemente fazem para passarmos da cebola à substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio, um dos Padres do Deserto (eremitas cristãs que fundaram a espiritualidade monacal) soava assim - «Foge. Cala-te. Permanece no recolhimento». Poemen garantia - «Se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». João Clímaco, na primeira metade do século VII, escreveu: «o amigo do silêncio aproxima-se de Deus, e encontrando-se com Ele em segredo, recebe a sua luz». Isaac de Nínive prescrevia aos que o procuravam: «Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever… Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do teu silêncio

José Tolentino Mendonça

In Diário de Notícias - Madeira, a 16 de Janeiro de 2011
publicado por SNPC

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ser o fiel jardineiro da alma

Arte de Jardinagem

Sophia de Mello Breyner escreveu: «Em todos os jardins hei de florir…». Acho que a podemos compreender bem, pois quem conhece minimamente o seu próprio coração sabe quanto ele se assemelha a um jardim. Por saber isso é que nos tornamos, claro está, nos primeiros interessados na peculiar arte de jardinagem que é o cuidado do nosso mundo interior. Há uma passagem bíblica, de um dos livros sapienciais, que traduz o que, a esse nível, nos cabe fazer. Diz assim: «Regarei as plantas do meu jardim e saciarei de água os meus canteiros» (Eclo 24,30).

A arte de jardinagem pede de nós três coisas. A primeira delas é o autoconhecimento. É necessário que nos debrucemos sobre o nosso mundo interno, antes de tudo para reconhecê-lo. Lembro-me de uma pergunta de Marguerite Yourcenar: «Quem pode haver tão insensato que se deixe morrer sem ter dado, pelo menos uma volta à sua prisão?». Se isto é verdade, em relação aos nossos limites (à nossa prisão), quanto mais em relação à nossa alma. Vivemos na época da grande mobilidade. A paisagem encheu-se de aeroportos, estações, vias rápidas. Não sei, contudo, se nos tornou mais disponíveis para essa que é a grande viagem: a descida ao íntimo do coração. Às vezes a sensação é que nos tornamos estrangeiros de nós próprios.

A segunda tarefa desta arte de jardinagem é, chamemos-lhe assim, uma solicitude ativa. O «Principezinho», o irrequieto alter-ego de Saint-Exupéry, ajuda-nos a concretizar isto de que falamos. É a propósito dos embondeiros. Cito: «No planeta do principezinho, havia como em todos os planetas, ervas boas e ervas daninhas. E por conseguinte boas sementes de ervas boas e más sementes de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que uma delas se lembra de despertar... Se se trata de um rebento de rabanete ou de roseira, podemos deixá-lo crescer à vontade. Mas no caso de se tratar de uma planta daninha, é necessário arrancá-la imediatamente mal formos capazes de a reconhecer. Ora, existiam sementes terríveis no planeta do principezinho... eram as sementes dos embondeiros. O solo do planeta estava infestado delas. Se não arrancarmos o embondeiro a tempo nunca mais nos conseguimos desembaraçar dele. Atravanca o planeta todo».

A terceira etapa da nossa arte interior é o florescer. Não podemos estar a vida inteira em busca de conhecimento, mesmo se um bom quinhão de teoria não faça mal a ninguém. Nem podemos ficar apenas pela enérgica sacudidela do pó que se amontoa e torna tudo ilegível. Há estações interiores em que só nos falta isto: florir. Também aqui aprendamos dos jardins alguma sabedoria. As flores, por exemplo, não nascem apenas nos canteiros demarcados. Também acontece (e às mais belas) brotarem à beira dos caminhos ou fora de tempo. Numa das inesquecíveis passagens diarísticas de Raul Brandão ele conta o seguinte: ainda hoje recordo «aquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou».
José Tolentino Mendonça
In Dnoticias.pt

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um sopro de música

O que antes era frequente, tornou-se mais raro no século XX: as encomendas que a Igreja fazia de arte sacra, fosse ela talha, pintura ou música. Podemos estar a virar uma nova página com o novo século nes te começo de milénio. De facto, tem havido um movimento nesse sentido, muito dinamizado (ou simplesmente divulgado) pela Pastoral da Cultura. Um dos bons exemplos tem sido a Capela do Rato. 

"Vento": Missa de Pentecostes de João Madureira vai ser apresentada este mês
 O CD “Vento”, interpretado pelos “Sete Lágrimas”, que corresponde a uma Missa de Pentecostes encomendada pela Capela do Rato, em Lisboa, vai ser apresentado a 25 de novembro.

As 10 músicas do disco, executadas pela primeira vez a 23 de maio de 2010 na Capela do Rato – que vai receber a sessão de lançamento – foram compostas por João Madureira (n. 1971), a partir de textos litúrgicos e poemas de Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, Maria Gabriela Llansol e José Augusto Mourão.

O livro que acompanha o CD inclui textos de José Tolentino Mendonça, Alberto Vaz da Silva, Cristiana Vasconcelos Rodrigues, Joana Carneiro e João Madureira.

Sete Lágrimas
Os “Sete Lágrimas” têm direção artística dos tenores Filipe Faria e Sérgio Peixoto. Sofia Diniz (viola da gamba) e Hugo Sanches (tiorba) completam o agrupamento.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Novos usos para um instrumento musical: Música por uma causa

A Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas à “Music Fund” e ao seu projeto de recolha de instrumentos musicais para posterior doação a escolas de música em Moçambique, República Democrática do Congo e Médio Oriente.
Paralelamente à recolha de instrumentos, a iniciativa integra-se num conjunto de iniciativas que decorrem a 12 de dezembro, todas com entrada gratuita:

Beatriz Batarda dirá “A Menina do Mar”, o conto de Sophia de Mello Breyner Andresen musicado por Fernando Lopes-Graça, acompanhada ao piano por Bernardo Sassetti;

Catarina Furtado fará a narração de “Pedro e o Lobo” , de Sergei Prokofiev, pela Orquestra Gulbenkian, dirigida por Joana Carneiro. Será também interpretado O Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, e Guia da Orquestra para Jovens, de Benjamin Britten.

Contam-se ainda actuações de outros artistas e intérpretes que decidiram associar-se a esta acção de solidariedade: Orquestra Geração, Divino Sospiro, o grupo de percussão Drumming, Tocá-Rufar, Mário Laginha Trio, Moreira’s Septeto, Bernardo Sassetti e Beatriz Batarda, Pedro Carneiro, Carlos Martins com os Sons da Lusofonia e Filipe Melo, entre outros.

Serão ainda exibidos vários filmes sobre a temática da inserção social através da música e realizados ateliês e demonstrações de reparações de instrumentos.

A música é «prioritária para os jovens que têm a sorte de poder ter acesso a ela em lugares como Gaza, Kinshasa ou Maputo», diz o belga Lukas Pairon, diretor da Music Fund, organização internacional sem fins lucrativos que apoia a formação musical de jovens de países em desenvolvimento e em zonas de conflito, recolhendo instrumentos, reparando-os e distribuindo-os.

O programa completo:
http://www.musica.gulbenkian.pt/cgi-bin/wnp_db_dynamic_record.pl?dn=db_musica_season_2010_2011_pt&sn=all&orn=158

«Este tipo de evento – refere Lukas Pairon, fundador e presidente de Music Fund - foi desenvolvido com sucesso noutras capitais europeias (Paris, Madrid, Bruxelas ou Amesterdão), tendo como resultado a distribuição de centenas de instrumentos por países como a Palestina, a República Democrática do Congo e Moçambique – outros países virão a ser contemplados em futuras campanhas. Na última destas iniciativas, realizada no ano passado em Madrid e onde foi batido o recorde de ofertas, foram reunidos cerca de 400 instrumentos musicais». A cada instrumento recolhido é atribuído um número de registo, o que permite a cada doador ter conhecimento da utilização dada ao seu instrumento, sabendo sempre onde se encontra e quem o adoptou. Para além de distribuir instrumentos, Music Fund apoia também a formação de técnicos locais para garantir a sua manutenção e reparação.
Uma vez que todos os instrumentos doados são sujeitos a uma reparação, a campanha vai também incentivar donativos financeiros. Estes incentivos destinam-se não só a suportar o envio dos instrumentos para a sede do Music Fund , em Bruxelas, como também a garantir a sua posterior reparação nas oficinas e luthiers parceiros do projecto.


Mais informações:
contacte musicaporumacausa@gulbenkian.pt
consulte http://www.musicfund.be/

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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