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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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segunda-feira, 26 de março de 2018

Balanço de 5 anos de pontificado do papa Francisco

“A grande revolução foi a resignação de Bento XVI; foi como um choque elétrico”

O académico do Vaticano Sergio Tapia-Velasco afirma que a Igreja precisava de um Papa como Francisco "para reagir" à verdadeira revolução que foi a resignação de Bento XVI. Foi há 5 anos.

Um mês foi quanto durou uma das maiores reviravoltas da história recente da Igreja Católica. A 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciava a inédita decisão de abdicar do pontificado (o último Papa a resignar havia sido Gregório XII, em 1415); a 13 de março, o mundo via assomar à varanda na praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco, um aparente oposto do seu antecessor. Completam-se esta terça-feira cinco anos desde que foi eleito o primeiro Papa jesuíta, que surpreendeu o mundo desde o primeiro dia com gestos de simplicidade: o seu primeiro ato foi deslocar-se pessoalmente à residência onde tinha dormido durante o Conclave que o elegeu, para pagar a conta.

Para o padre e professor mexicano Sergio Tapia-Velasco, professor de comunicação da Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma, aquele mês foi o início de uma revolução na Igreja Católica. Numa entrevista ao Observador em Lisboa, em que fez um balanço dos cinco anos do papa Francisco, o académico do Vaticano e comentador de assuntos relacionados com a Igreja em meios de comunicação social internacionais como a CNN ou a RAI explica que a resignação de Bento XVI foi “a grande revolução”, comparando o momento a um “choque elétrico” que transformou radicalmente uma Igreja a precisar de ser agitada e de mudar. Francisco, explica o sacerdote, foi o “fisioterapeuta” que veio colocar a Igreja em movimento novamente depois desse choque.

O que mudou na Igreja nestes cinco anos?A primeira revolução nos últimos cinco anos foi a resignação do Papa Bento XVI. De facto, ninguém esperava que um Papa resignasse. Não houve uma resignação de um Papa durante mais de 400 anos, e quando o Papa Bento XVI resignou foi um choque para todos nós, especialmente para nós, que vivíamos em Roma. Não estávamos mesmo à espera.

A Igreja não estava preparada para a resignação de um Papa?Penso que a Igreja estava preparada. Agora, passados cinco anos, quando olhamos para trás e analisamos o último ano do Papa Bento XVI, podemos encontrar diferentes gestos, ou diferentes sinais, que nos fazem pensar que, de facto, o Papa estava a preparar tudo. Mesmo que não estivéssemos a reparar.

Por exemplo?Tanto quanto sabemos, o Papa Bento XVI tomou a decisão de resignar no dia em que caiu, na viagem ao México, em 2012, e percebeu que no ano seguinte teria de enfrentar uma nova viagem à América, para as Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro. Ele pensou: “Se caí aqui e magoei a cabeça, o que irá acontecer no próximo ano?” Ele já sentia as pernas muito fracas, e hoje vemos que é verdade, ele está muito fraco.

Outro sinal foi que na viagem de regresso a Roma, depois da visita ao México, ele decidiu dar imediatamente início ao restauro do mosteiro onde vive hoje. Ainda demorou seis meses a fazer os preparativos da casa, mas já estava a pensar em mudar-se para lá. Depois, quando começamos a ler os últimos discursos, a partir de julho de 2012, começamos a ver que ele fazia várias referências que indicavam que estava de saída, que a Igreja está nas mãos de Deus. Como que a preparar as pessoas para a decisão que ele estava a tomar.
E é por isso que no dia em que se marcam os cinco anos do papado de Francisco, a primeira parte desta entrevista é exactamente sobre o homem que o antecedeu.

Mas posso dizer que, de facto, ninguém estava à espera. Até podemos lembrar quando ele visitou Áquila, quando houve lá um grande terramoto. Um dos edifícios que ruiu foi a catedral da cidade, onde estava sepultado São Celestino. O papa Bento XVI, nesse dia, deixou a sua estola no túmulo de São Celestino. Hoje, associamos o gesto, porque Celestino foi um dos papas que resignaram. Ou seja, há pequenos sinais, para os quais não temos uma leitura formal, mas que nos podem indicar isso.

Há quem diga que ele já estava a pensar nisso desde a eleição. Se lermos a entrevista que ele deu a Peter Seewald, The Light of the World, o Papa Bento XVI responde explicitamente que ele tinha estado a pensar em resignar.

Como avalia o papado de Bento XVI, a uma distância de cinco anos?Bom, obviamente eu sou um crente. Sou um padre, sou verdadeiramente convicto de que a Igreja é guiada pelo Espírito Santo. Acredito que Deus inspirou o Papa Bento XVI a resignar e inspirou os cardeais a eleger o Papa Francisco. Nunca duvidei disso. A resignação foi um ato providencial. Deus previu-o e usou-o para agitar a Igreja e para nos fazer mudar, para nos fazer refletir na necessidade de mudarmos.

A verdade é que o Papa Bento XVI foi muito criticado pelos seus pontos de vista mais tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, muitos teólogos consideram o seu trabalho um dos contributos mais importantes para a evolução da teologia nas últimas décadas.Penso que, na maioria das vezes, as críticas são preconceitos com origem na má informação sobre alguém. Quando entramos em contacto com a pessoa, a maioria dos nossos preconceitos desfazem-se. O que aconteceu com o Papa Bento XVI? Ele é provavelmente o melhor teólogo do século XX. A Igreja teve grandes teólogos no último século, certamente, mas quando pensamos, por exemplo, no diálogo entre Joseph Ratzinger e Jürgen Habermas e vemos duas grandes mentes a debaterem sobre todos os assuntos, é como assistir a dois grandes fogos de artifício. É surpreendente. O que aconteceu foi que, devido ao trabalho que tinha enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi rotulado com o cliché de “grande inquisidor”.

Estereótipos, na maioria das vezes?Sim, penso que foram sobretudo estereótipos. Na verdade, qualquer pessoa — e posso garantir isto — que tenha conhecido diretamente o papa Bento XVI derretia imediatamente. Ele é uma pessoa muito gentil. Não apenas gentil, mas também com uma forma de falar que é verdadeiramente convincente. Eu sou professor de retórica e fazemos muita investigação sobre a retórica do papa Bento XVI. Certamente, também o faremos no caso do papa Francisco, mas no caso do papa Bento XVI conseguimos ver uma forma de pensar muito profunda.

Nós hoje temos acesso à Internet com facilidade, por isso, sugiro a qualquer pessoa que ainda tenha preconceitos sobre o papa Bento XVI que vá ouvir a gravação original da última audiência geral, na última quarta-feira antes do dia 28 de fevereiro de 2013, quando ele deixou o governo da Igreja. É um discurso adorável e mostra bem como ele se sentia e como ele pensava.

Nas ‘Conversas Finais’, quando o jornalista Peter Seewald pergunta ao Papa Bento XVI como é que ele olhava para as críticas que lhe dirigiam sobre a abertura da Igreja a outras religiões e culturas, dá alguns exemplos interessantes: tinha sido o próprio Bento XVI a nomear um protestante para o Conselho Pontifício para a Ciência, a colocar um professor muçulmano na Pontifícia Universidade Gregoriana, a abrir a tradição católica aos anglicanos, e por aí fora. Na sua opinião, as críticas eram injustas?Hoje, ao fim de cinco anos, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Vivo em Roma há 24 anos. Estive lá com João Paulo II, com Bento XVI e com Francisco, e acredito genuinamente que os três foram dons do Espírito Santo. Mas quando penso em Bento XVI, sinto uma simpatia particular por causa disso. Ele foi maltratado por muita gente, sem perceberem o peso que tinha aos ombros e a luz que ele espalhou pela Igreja, naquela dia e no futuro.

Muitas pessoas criticaram-no, por exemplo, apenas por ser simpático, por não gritar. Diziam que ele não governava a Igreja. Mas se olharmos para os números e tentarmos perceber, por exemplo, quantos bispos ele obrigou a resignar durante os oito anos do seu pontificado, foram cerca de 80 bispos. Isso significa pedir a um bispo que resigne, por razões graves, quase todos os meses. Se isso não é governar, então o que é governar?

Um dos principais problemas que emergiram durante o pontificado de Bento XVI foi o escândalo dos abusos sexuais. Ele lidou bem com esse escândalo?Novamente, acho que ele foi providencial. Se hoje temos este programa de tolerância zero para com os abusos sexuais, é devido ao Papa Bento XVI.

Porquê?É um processo longo. Ainda no tempo do papa João Paulo II, quando o cardeal Ratzinger estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, era ele quem estava encarregado dos julgamentos deste tipo de crimes. Só para dar um exemplo, foi Bento XVI quem exigiu que se fosse até ao fim no caso do padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, [que em 2006 foi obrigado por Bento XVI a renunciar ao ministério por ter cometido abusos sexuais contra jovens seminaristas durante as décadas de 50 e 60].

Mas não foi apenas esse caso. Como estava a dizer há pouco, durante a sua governação, o papa Bento XVI não apenas seguiu os casos de abusos como também expulsou da liderança da Igreja 80 bispos, que ele pensou que não estavam a governar de forma justa ou que estavam a obstruir.

Muitas críticas vieram precisamente de bispos e cardeais. Recordo, por exemplo, quando ele escreveu a carta aos católicos da Irlanda, no início do escândalo da pedofilia, a defender que estes casos deviam ser entregues às autoridades civis. Na altura houve bispos a defender que os casos não deviam ser expostos dessa forma.Houve muitas críticas dentro da Igreja. Enquanto crente, defendo sempre que a Igreja é uma instituição sobrenatural, na medida em que é de Deus e existe para nos guiar para a salvação, mas ao mesmo tempo a Igreja é uma sociedade humana, e sempre houve conflito entre as duas dimensões. Lembro-me de um antigo professor de Filosofia que eu adorava, o Leonardo Polo. Na sua introdução à filosofia, ele começava por referir que o livro se chama “Quem é Homem?” para responder: “O Homem é o animal que problematiza”. Essa é a sua categoria de entender o Homem. Quando um leão tem um problema com outro leão, mata-o. Não está pronto para argumentar. Pelo contrário, nós argumentamos, e num certo sentido é bom que muita dessa discussão venha do interior da Igreja, porque isso faz a Igreja crescer.

Como estava a dizer antes, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Mesmo alguns bispos foram injustos. Por exemplo, quando o papa Bento XVI levantou a excomunhão de quatro bispos que foram ordenados à revelia da Santa Sé pela Fraternidade São Pio X, do arcebispo Marcel Lefebvre, houve um enorme escândalo, porque um dos bispos, Richard Williamson, era negacionista do Holocausto. [Os bispos ordenados naquela fraternidade tradicionalista entram automaticamente em excomunhão com a Igreja Católica, porque a fraternidade não é reconhecida canonicamente pelo Vaticano. A fraternidade defende que a Igreja devia tornar a ser como era antes do Concílio Vaticano II, sendo a favor, por exemplo, das missas em latim de costas para o povo.]

Houve vários grandes escândalos que se criaram à volta dele. Como é que é possível que ninguém o tenha avisado de aquilo podia acontecer? Vemos que, em alguns casos, as pessoas não estavam a remar na mesma direção, e isso causou sofrimento na Igreja.

As críticas contra o Papa Bento XVI contribuíram para a decisão de resignar?Certamente, tiveram um peso, porque todos somos humanos e quando sentimos o peso das tarefas difíceis que nos pedem, podemos pensar que não somos a pessoa indicada ou que aquilo é demasiado difícil. Estou certo de que estes pensamentos passaram pela cabeça dele. Mas, ao mesmo tempo, acredito que ele disse a verdade quando disse que tomou a decisão porque sentiu que não tinha a força física para continuar e que provavelmente um homem mais novo podia fazê-lo melhor. É um grande exemplo de humildade e um grande exemplo de fé dizer: “Eu não sou indispensável”. De facto, depois da resignação, pelo menos na Itália, muita gente disse que aquele era um bom exemplo para alguns políticos (risos).

Há um conjunto de decisões do papa Bento XVI que deram origem a polémicas. Já nos últimos dias do pontificado, em resposta ao escândalo do primeiro Vatileaks, sobre os problemas na gestão financeira da Santa Sé, Bento XVI nomeou o alemão Ernst von Freyberg para presidente do banco do Vaticano. Mais tarde veio a descobrir-se que era alguém ligado à indústria militar. Terá sido mau timing?Penso que muitos dos problemas que apareceram no Vaticano, nomeadamente nesta área, estão muito relacionados com a maneira italiana de fazer as coisas. Eu adoro a Itália, mas ao mesmo tempo vejo que em alguns casos as coisas não são completamente claras. Talvez não tenha sido o melhor timing, nessa e noutras decisões. Mas aquilo de que tenho completamente a certeza é que o primeiro Vatileaks — tal como o segundo, que já afetou o papa Francisco –, quando aconteceu, mesmo tendo produzido dor, também produziu uma reação. Fez-nos pensar sobre como podemos fazer as coisas melhor. Sempre que somos feridos, sempre que um cão nos morde, todos aprendemos, crescemos em experiência, e pensamos no que podemos fazer para não tornar a falhar.

Penso que o processo de reforma económica que foi iniciado pelo papa Bento XVI — foi ele que começou tudo, depois o papa Francisco continuou, com a secretaria para a Economia — é um dom para a Igreja. Não é perfeito, porque somos humanos e temos falhas, mas penso que é um bom processo. Hoje, vemos que o Banco do Vaticano já não está na lista negra, mas já passou para a lista branca dos bancos europeus, e está a seguir todas as normas para evitar o branqueamento de capitais e a lavagem de dinheiro. Aliás, é esse o nome oficial: Instituto para as Obras Religiosas. Quando se diz que é um banco, atenção, não é um banco. É um instituto para ajuda económica. Imagine a Igreja na China. Não se pode mandar dinheiro para lá de forma normal através de um banco, porque provavelmente não o iriam receber. Precisamos de encontrar canais para ajudar os cristãos que precisam. Seguindo a lei, claro, mas encontrar uma forma de ajudar as pessoas.
Para o papa Francisco, “a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada”

Isto leva-nos a março de 2013, à eleição do papa Francisco. Nos primeiros tempos, falava-se muito dos pequenos gestos: a recusa do apartamento papal, os telefonemas de surpresa… O Papa estava a mandar uma mensagem sobre o que viria a ser o seu pontificado?Sim e não. Muito do encantamento das pessoas pelo papa Francisco foi por ele ser transparente, autêntico. Todos nos lembramos das primeiras fotografias que vimos dele, quando ele era bispo na Argentina e viajava de metro. Depois vimo-lo, já após ser eleito Papa, a ir pagar a residência onde tinha ficado quando foi a Roma para o conclave, ou quando disse que não podia mudar de sapatos porque tem uma perna maior do que a outra e precisa dos seus sapatos ortopédicos…

Quebrava o protocolo…Acho que ele não mudou a sua forma de ser, a sua humanidade. Isso é fascinante. Ele é um homem que é completamente coerente com a sua forma de ser e de estar. Talvez não estivesse intencionalmente a querer mandar uma mensagem, mas certamente que o Espírito Santo ajudou a elegê-lo para nos mandar essa mensagem. Precisamos de pastores que não sejam príncipes, que estejam ao lado das pessoas, que preguem com palavras simples e normais que todos possamos entender, mas que ao mesmo tempo sejam profundos, que nos façam pensar e rezar, e até que nos façam sofrer. Porque muitas vezes o papa Francisco dá uns murros. Atinge-nos para nos provocar reações, para nos fazer crescer na nossa vida espiritual. Precisávamos de um Papa assim, para reagirmos.

Esta forma simples do papa Francisco criou uma onda de apoio generalizada, até vinda de fora da Igreja, que Bento XVI não tinha. Fala-se de uma abertura da Igreja, até em temas historicamente sensíveis como o divórcio ou a homossexualidade. Mas alguma coisa mudou concretamente na doutrina católica?Penso que para tentarmos entender o papa Francisco temos de entender Jorge Bergoglio. São o mesmo homem. Temos de perceber o que ele defendia antes de se tornar Papa. Da mesma forma que vemos que ele é coerente na vida quotidiana — antes andava de metro, hoje recusa um Mercedes –, vemos a mesma forma de pensar nas diferentes doutrinas que ele tem pregado.

Para mim, no início, há duas fontes principais que me ajudaram a entender o papa Francisco. Em primeiro lugar, há o documento de Aparecida, de 2007. Ele foi o redator principal, escolhido pela conferência dos bispos da América Latina, para escrever as conclusões da conferência, e vemos que o documento é como uma espécie de rascunho do que viria a ser a Evangelii Gaudium [primeira exortação apostólica do papa Francisco]. Se analisarmos os dois documentos, encontramos muitas coisas na Evangelii Gaudium que já apareciam no documento de Aparecida. Depois, há um outro livro muito interessante, que são os diálogos que ele teve, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, com o rabino Abraham Skorka. Chama-se “Sobre o Céu e a Terra” e era baseado num programa regular que ele tinha na rádio a conversar com este rabino. Aí, vemos que ele já dizia muita das coisas que diz hoje.

O que é que o papa Francisco propõe? De novo temos de entender o homem. Ele é um jesuíta, e os jesuítas têm sido, ao longo dos anos, diretores espirituais preocupados com a salvação pessoal de cada um, e não com toda a gente no geral. O dom do papa Francisco é que ele diz: “Não façam programas pastorais em massa. Vão alma a alma, e cada alma é importante”. E nesse sentido, o que ele nos diz é que, quando falamos com alguém que se divorciou ou alguém que é homossexual, não devemos ter nenhum preconceito. Cristo morreu por toda a gente.

Ou seja, ele está a tentar acabar com a ideia de que a Igreja exclui algumas pessoas?Sim, esse é um dos objetivos dele. Ele repete constantemente que a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada. Para ele, a Igreja é um barco que traz a salvação a quem se está a afogar no mar. É essa a imagem da Igreja, um barco salvador que atira bóias para salvar as pessoas. Eu pelo menos, na minha experiência pastoral enquanto padre e não apenas como professor em Roma, recebi muito dele e agradeço a Deus porque ele mudou a minha forma de pensar. Ele diz: “Não podem estar só preocupados com doutrinas gerais ou grandes filosofias. Não. Tomem conta da pessoa que têm em frente a vocês”.

Mas ele não mudou a doutrina base da Igreja sobre esses assuntos.Não, não a mudou.

E não o vai fazer?Não. Penso que devemos analisar e interpretar o que o papa Francisco diz pelas suas palavras originais. Quando lemos a Evangelii Gaudium, quando lemos a Amoris Laetitia, ou quando lemos qualquer discurso do papa Francisco, o que descobrimos é um pastor muito exigente, que diz que não quer mudar a doutrina. Ele diz isso de forma explícita na Amoris Laetitia, por exemplo. O que ele quer é uma conversão pastoral da Igreja. O que ele quer é que nós, sacerdotes, não façamos juízos de valor, porque somos ministros de Cristo e temos de ajudar as pessoas a entrarem em contacto com as feridas de Cristo e a encontrarem a salvação. Penso que esse é um grande dom e toda a gente se devia sentir tocada por ele.

Começou por dizer, no início da entrevista que a mudança do papa Bento XVI para o papa Francisco foi uma grande revolução. Em que sentido, então?Penso que a grande revolução foi a resignação do papa Bento XVI. Isso foi como um choque elétrico.

Mas esse foi um sinal de que a Igreja precisava de uma mudança?Penso que o Concílio Vaticano II já tinha notado que precisávamos de entrar mais em diálogo com o mundo moderno. Eu sempre sugeri às pessoas que lessem a convocatória do Concílio, escrita por João XXIII, a dizer porque é que ele queria um concílio, e depois que lessem a Lumen Gentium ou a Gaudium et spes, e vissem que de facto a Igreja mudou. Aquele foi um grande momento.

Agora, cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e vejo que os quatro papas — tivemos cinco, se contarmos com João Paulo I –, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco, são diferentes encarnações do espírito do Concílio Vaticano II. Cada um deles, com a sua própria humanidade, ajudou-nos a crescer. Paulo VI era um ótimo sociólogo, muito preocupado com a dimensão económica e social da sociedade, e escreveu tantos documentos sobre o caminho do pensamento da Igreja moderna. Depois, João Paulo II era um grande filósofo, e todos crescemos no sentido antropológico durante o seu pontificado. Já Bento XVI foi um grande teólogo, e todos nós crescemos na dimensão da liturgia e da teologia dogmática por causa do seu dom. Hoje, temos o papa Francisco e vejo novamente que ele é um dom do Concílio Vaticano II. Pensamos: “É muito bom ser um sociólogo, é muito bom ser um filósofo, é muito bom ser um teólogo. Mas temos de voltar os nossos olhos para aqueles que temos junto a nós”.

Para mim, a revolução começou com a resignação. O que o papa Francisco está a fazer é, depois de a resignação ter agitado a Igreja como um choque elétrico, é preciso ajudar toda a gente a recomeçar a mexer novamente. O papa Francisco é como um fisioterapeuta que está a ajudar alguém que tem estado muito quieto a mexer-se novamente.

Devido àquilo a que se está a referir, a essa diferença entre Francisco e os seus antecessores, o Vaticano enfrenta uma onda de críticas internas, que se opõe ao apoio que vem de fora. Uma divisão que talvez possamos simplificar em tradicionalistas contra o Papa versus progressistas a favor do Papa. Que impacto é que esta divisão tem na Igreja de hoje?Faz-me sofrer. Todos os dias, quando celebramos a missa, há diferentes momentos em que rezamos pela unidade da Igreja. Quando pensamos no último discurso de Jesus na última ceia, uma das principais ideias foi a oração de Jesus, virado para Deus, pedindo-lhe: “Pai, faz com que eles sejam um”. Provavelmente, Jesus já estava a prever este perigo de desagregação constante. Volto ao que estava a dizer: nós problematizamos tudo, somos humanos, discutimos, temos pontos de vista diferentes. É o típico caso do copo de água que pode estar meio cheio ou meio vazio. Há formas diferentes de entender um problema, mas a ideia central é que estas divisões me fazem sofrer.

Por outro lado, não classificaria todos os que criticam Francisco como tradicionalistas, porque quando pensamos em pessoas como os Lefebvrianos, a maioria deles têm a esperança de finalmente encontrar a união com a Igreja novamente. Lembro-me sempre de que tem sido o papa Francisco a fazer pressão para concretizar esse sonho do papa Bento XVI, de chegar à comunhão com eles. Ele está a destruir barreiras e dizer que se quer aproximar deles.

Há casos extremos de bispos a acusar o Papa de ser herege.Bom, não penso que haja um bispo que diga “o Papa é um herege”. Mas, de facto, há bispos, muitos bispos, que estão preocupados sobretudo com a confusão. Não porque estejam preocupados com a possibilidade de a doutrina mudar ou algo do género. Estão preocupados com ideias como quando o papa Francisco diz, na Amoris Laetitia, que precisamos de um caminho de discernimento. Há quem diga que isso abre as portas do Inferno (risos), que abre uma grande confusão. Afinal, o que é o discernimento? Qual é o protocolo? O que temos de fazer? A minha posição é que o que devemos fazer, se não queremos essa confusão, é investir na boa formação dos padres. Precisamos de diretores espirituais que ajudem as pessoas.

E a resposta do papa Francisco a estas críticas internas tem sido adequada?Para dar um exemplo: há uns meses, o papa Francisco visitou o novo dicastério para a família, os leigos e a vida e esteve com os trabalhadores desse novo departamento do Vaticano. Tenho vários amigos que trabalham lá e pelo menos dois deles disseram-me o mesmo. O Papa estava cansado de ouvir estas críticas e a única coisa que lhes disse foi: “Por favor, onde quer que vão, digam às pessoas que o capítulo importante é o capítulo IV, e não o capítulo VIII”.

Ele estava a referir-se à Amoris Laetitia, a dizer que o propósito daquele documento é ajudar as pessoas a viver melhor o seu matrimónio. O capítulo IV é, de facto, extremamente belo, é um comentário muito profundo sobre o casamento e é uma joia que ninguém teve em consideração. Temos estado constantemente a discutir em torno das situações irregulares ou o que quer que lhes queiramos chamar, em torno dos problemas, e provavelmente estamos a falhar a parte principal do documento, que é a alegria do amor.

Eu, pelo menos, tento apoiar o papa Francisco nessa ideia. Por favor, estou cansado de discutir sobre esse assunto. Aquilo de que preciso é ajudar os meus irmãos padres a terem uma boa formação que lhes permita serem bons diretores espirituais e ajudar as pessoas a discernir, a tomar as decisões corretas. O que quero é ajudar tantos jovens que não estão a casar a pensar novamente que o casamento é uma boa opção. É uma grande vocação. Infelizmente, em alguns círculos de discussão só estão a argumentar sobre situações hipotéticas que na verdade não acontecem.

Ou seja, o problema é a discussão estar a ser colocada num nível geral, abstrato, de proibição ou autorização.Exatamente. Para mim, o grande dom do papa Francisco é dizer para cuidarmos de cada pessoa que temos à nossa frente. Se me encontro com alguém que esteve casado e cujo casamento falhou, como é que eu posso ajudar essa pessoa a descobrir novamente a alegria de estar perto de Deus.

Uma das frases mais famosas dele é mesmo a tal “quem sou eu para julgar?”, referindo-se aos homossexuais.Sim, na primeira viagem, no regresso do Rio de Janeiro para Roma.

Porque é que a frase não foi muito bem recebida dentro da Igreja?Bom, em alguns círculos da Igreja não foi bem recebida. Novamente, eu digo às pessoas que leiam a resposta completa, que não se fiquem pela frase. Algumas pessoas, infelizmente até alguns lóbis, estão a criar esse estereótipo em torno do papa Francisco, como se ele não estivesse a governar porque aceita tudo sem discutir, e usam essa frase: “Então mas ele diz ‘quem sou eu para julgar’!”. Não é verdade. Novamente, se há alguém que está a governar a Igreja é o Papa. Ele tomou muitas decisões fortes. Ele julga! Dizer que é um relativista, que não julga, não é verdade.

Leiam a resposta completa. Ele nessa entrevista diz algo como: “Eu nunca recebi no Vaticano alguém com um cartão a dizer ‘eu pertenço ao lóbi gay’, mas se eu receber alguém que me diz que é homossexual, quem sou eu para julgar? Devo lembrar-me apenas do que o Catecismo da Igreja Católica diz e ajudá-lo a viver de acordo com essa proposta”. Ele não está a mudar a doutrina. Isso acontece com muitos padres. Se eu receber alguém em confissão que me diz algo, eu devo ouvir e tentar fazer o melhor para ajudar a pessoa.

Falou aí do lóbi gay. Existe no Vaticano?Bom (risos), tal como o papa Francisco disse, eu nunca estive com ninguém com um cartão a dizer que pertence ao lóbi gay. Acredito verdadeiramente que existe um lóbi gay internacional, mas isso seria uma outra grande entrevista só a discutir todas as dimensões em que se manifesta. O papa Francisco, em várias ocasiões, tem falado sobre a colonização ideológica que alguns grupos praticam no mundo moderno. Explicitamente, em alguns casos, ele faz denúncias fortes à ideologia do género, dizendo que não a pode aceitar. O problema, em muitos casos, é que as pessoas não estão a ler o que ele diz efetivamente. Temos acesso à Internet e é uma pena não lermos em primeira mão o que ele diz.

Para levar a cabo esta revolução, o papa Francisco tem chamado para cargos importantes várias pessoas, com o objetivo de, de alguma forma, purificar a instituição. Mas para o C9, o seu conselho consultivo mais próximo, chamou pelo menos três cardeais (George Pell, Óscar Maradiaga e Francisco Errázuris) que estão ligados à ocultação de casos de pedofilia, como notava o jornalista italiano Emiliano Fittipaldi. O cardeal Pell até teve de voltar à Austrália para ser julgado. Não acha que o Papa se pode estar a rodear das pessoas erradas?Antes de me tornar padre, trabalhei como advogado durante vários anos e trabalhei em casos relacionados com acusações a piratas mexicanos — lá, infelizmente, muitos negócios dependem da pirataria (risos). Mesmo assim, dentro dessa atmosfera complicada, sempre acreditei que toda a gente é inocente até ser provado o contrário. Acredito que esse princípio da lei é válido para toda a sociedade, incluindo para a Igreja. Há muitos casos. Por exemplo, mencionou o cardeal Pell. Admito que não conheço as outras duas acusações diretamente, mas quando olhamos para a vida do cardeal Pell e para a forma como ele tem enfrentado estes julgamentos, podemos ver que em muitos casos têm sido muito injustos. Não há provas, e infelizmente mesmo que os tribunais ainda não tenham chegado a uma decisão final, a imprensa já fez o julgamento. Assim que um padre ou um bispo tem alguma acusação, toda a gente lhe salta em cima. Talvez estejamos a esquecer-nos que, em teoria, toda a gente é inocente até ser provado o contrário.

Se me pergunta se esses são os melhores conselheiros para o papa Francisco, eu acho que o C9 é um excelente grupo. Cada um deles vem de diferentes perspetivas. Tento sempre lembrar quem se lembrou de criar aquele conselho de cardeais. Não foi o papa Francisco, foi o papa Bento XVI. É parte do seu legado, foi uma das coisas que ele sugeriu, e um dos assuntos que foram tratados nas congregações gerais antes da eleição foi que o Papa não deve governar sozinho, deve ter um conselho de cardeais que não trabalhem na Cúria e que o ajudem a ter uma visão mais alargada. Cada um deles vem de um país diferente, todos têm as suas experiências humanas próprias. Penso que são bons conselheiros. Se podíamos encontrar alguém melhor? Podemos sempre encontrar alguém melhor, claro. Não somos super-heróis, mas todos somos chamamos à perfeição. Por outro lado, quando uma pessoa chama alguém para seu conselheiro, chama os seus amigos, os que estão mais próximos, como é o caso do cardeal Maradiaga, ou então pessoas que foram sugeridos por outros, como o cardeal Pell. Até o cardeal Pell, nos anos que ele passou em Roma a tentar pôr em ordem a secretaria para a Economia, fez muito bem à economia da Igreja.

Já vimos que a doutrina não mudou, mudou a abordagem. O senhor é especialista em comunicação na Igreja. Podemos dizer que a mudança de Papa mudou a forma como a Igreja comunica com o mundo exterior?Há uma coisa interessante que eu digo muitas vezes às pessoas: vão ao site do Vaticano e façam download das homilias diárias do Papa na capela de Santa Marta. Podem ajudar muito na oração pessoal de cada um e podem ajudar os padres a preparar as suas próprias reflexões junto das comunidades. O papa Francisco trouxe esta proximidade com as pessoas. Diz-nos que não devemos fazer homilias abstratas e distantes, mas sim concretas e fáceis de perceber. Homilias para toda a gente. Fáceis de entender não significa não serem profundas, sublinho sempre isso. Significa apenas fáceis de entender. De novo, alguns preconceitos dizem que se comunicamos de forma simples somos maus comunicadores, mas é o oposto. Os melhores comunicadores são os que usam a linguagem mais simples e transmitem as melhores ideias.

Os padres e bispos estão a seguir esse exemplo?Devíamos seguir o exemplo (risos). Teria muito a dizer sobre isso. Esse é o meu trabalho, eu tento treinar pessoas para melhorarem a sua forma de falar em público, de pregar. Há muito espaço ainda para melhorar. Há contextos diferentes, mas se entendermos a comunicação enquanto oração, há muito espaço para melhorar. Já no que toca à comunicação da Igreja enquanto instituição, acho que o que temos hoje é um grande esforço para simplificar a comunicação. O novo portal, o Vatican News, por exemplo, que apenas numa página mostra toda a comunicação do Vaticano. Eles estão a fazer um ótimo trabalho. É um projeto muito ambicioso, há muitos bons amigos meus que trabalham lá, e estão a dar o seu melhor.

O Papa Francisco mudou definitivamente a ideia que a sociedade tem de um Papa?Cada Papa é um dom para a sua era. Mas se pesquisarmos no Youtube os primeiros filmes de Leão XIII, a primeira vez que chegaram ao Vaticano com câmaras de filmar, para fazer umas imagens do Papa. Foi em 1890 ou por volta dessa altura. É engraçado porque já nessa altura, no final do século XIX, víamos o Papa a tentar usar os novos media para comunicar. Tem havido um esforço, há mais de um século, de estar próximo das pessoas. Há vários exemplos. Até Pio IX, ainda no século XIX, a cumprimentar os jardineiros do Vaticano. São realidades que talvez desconheçamos, por sermos muito novos, por não estudarmos a fundo a biografia de cada Papa, mas a proximidade é algo da modernidade. E hoje o Papa Francisco pede-nos precisamente isso: que não estejamos longe das pessoas, tal como Jesus não esteve longe das pessoas.

João Francisco Gomes, 13 de Março de 2018 in Observador

sexta-feira, 23 de março de 2018

Bento XVI, o papa que se despojou

Escultura: Busto de Bento XVI causa sensação e motiva críticas e aplausos

Falando aos artistas no Vaticano, no final de novembro de 2009, o papa emérito Bento XVI sublinhou que a beleza não deveria ser algo ilusório ou enganoso, mas algo que dá «asas», e por vezes até «perturba» e conduz ao sofrimento.

Citando o filósofo grego Platão, ele afirmou que o principal efeito da beleza, visto pela arte, devia ser o de dar ao ser humano um « sobressalto saudável que o faz sair de si mesmo, o arranca à resignação, ao conformar-se com o quotidiano».

Jacopo Cardillo, escultor italiano de fama internacional, cujo nome artístico é Jago, levou definitivamente essa definição para um nível totalmente novo quando recentemente decidiu "despir" Bento XVI e retratá-lo com o torso sem roupa, em vez de se vestir com os habituais paramentos papais.

Desde então, a escultura tecnicamente notável tem sido objeto tanto de crítica quanto de louvor, com algumas pessoas a considerar que profana a imagem do anterior pontífice, enquanto outras a julgam como um retrato sincero. Para Jago, a obra de arte nunca quis ser derisória, mas sim uma celebração de Bento XVI, que considera modelo do que todo o papa deveria ser.

«Considero este homem como o maior teólogo vivo», afirmou ele à página Crux, numa entrevista por telefone.

A escultura controversa de Jago e algumas das suas obras de arte são exibidas numa exposição, em Roma, chamada “Habemus hominem”, título que evoca a proclamação “Habemus papam”, proferida na eleição de um papa.

O busto nu de Bento XVI está sentado numa sala sem adornos, uma luz branca brilha sobre ele marcando fortemente as rugas profundas do seu rosto e peito, enquanto segura firmemente as mãos com um olhar de serena resignação.

«Talvez seja a primeira vez que o vemos como ele realmente é, representado na sua humanidade e sem as roupas que usa sempre», disse um estudante do ensino secundário que visitou a exposição, juntamente com a sua turma, como parte de uma lição sobre história da arte.

A história deste busto começa em 2009, quando Jago foi comissionado para criar uma imagem semelhante ao papa. A peça acabada, que estava coberta com os paramentos pontifícios, obteve um sucesso discreto, obtendo vários prémios e críticas positivas.

«O próprio papa escreveu a comunicar que queria conceder-me a medalha pontifícia pela escultura», explicou Jago. O cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, concedeu-lhe a medalha em 2012.

«Esse trabalho tornou-se, de certa forma, uma relíquia, algo que é querido, mas para mim esse apego tornou-se insuportável, no sentido de que o trabalho não me representava tanto quanto a sua realização», acrescentou.

«Quando se está realmente ligado emocionalmente a esse objeto, intervir novamente e destruí-lo significa destruir esse anexo. E assim foi», prosseguiu.

A 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou que renunciaria, surpreendendo a comunidade católica e o mundo. Naquele dia, Jago estava a encerrar a sua primeira exposição individual promovida pelo famoso, embora algo controverso, historiador de arte italiano Vittorio Sgarbi, quando o seu pai lhe contou a notícia.

O pai usou o termo «desnudado» ou «despojado» para descrever o que tinha acontecido, dando a Jago o último empurrão para revisitar a sua obra-prima. Ele pegou nas suas ferramentas e esculpiu a partir das pesadas roupas, a pele nua e frágil do papa emérito.

«Nesse dia decidi intervir e modificá-la, mas não de forma derisória», explicou Jago, que optou por manter todos os fragmentos do original. «Ainda mantenho hoje o peso dessas roupas, desse hábito. Tenho todos os detritos e poeiras que foram produzidas, não foram para o desperdício», referiu.

O artista escolheu deixar apenas dois elementos, a “papalina”, o solidéu branco usado pelos papas, e o anel do pescador, ou anel de São Pedro, único para cada pontificado.

«Fiz isso porque um papa não retrocede, não pode dizer “não posso mais ser papa, voltarei a ser cardeal". Não, o papa é o papa porque a jornada que começou não pode ser cancelada», declarou Jago.

O trabalho foi concluído em 2016, mas o interesse do artista em Bento XVI remonta a muito antes desta peça. Jago é um católico, nascido na cidade de Frosinone, traz sempre consigo uma cruz ao pescoço, e o pai partilha o dia de aniversário com o de Joseph Ratzinger.

«Lembro-me de que quando ele foi entrevistado, mesmo enquanto cardeal, não falou de religião, mas de espiritualidade, foi abrangente de maneira tão simples e falou para todos.» «Isso é o que um papa deve fazer, comunicar com todos», frisou o escultor.

Aos olhos do artista, a renúncia de Bento XVI «tornou-o ainda mais humano» e empático, algo que ele desejava refletir no seu trabalho, que espera vir a servir como testamento desse momento histórico.

Ele descreve a escultura como «uma celebração do corpo», algo que todos os seres humanos têm.

Um aspeto surpreendente da escultura em mármore são os olhos do papa, que parecem seguir o espetador de todos os pontos de vista. Inicialmente a estátua não tinha olhos, uma evocação do escultor italiano Adolfo Wildt, que, como nas estátuas de bronze clássicas, optou por não colocar os olhos nas suas obras.

Só depois de Bento XVI ter renunciado, Jago decidiu dar vista à estátua. Pintou no interior de semi-esferas invertidas, resultando na ilusão inesperada de que o olhar de Bento XVI segue os espectadores ao redor da sala.

Jago referenciou um jovem seu conhecido que sofre esclerose múltipla, doença degenerativa que afeta progressivamente o movimento, observando que as últimas partes do corpo que ainda se podem mover são os olhos.

«Esse é o elemento final e mais importante que permite reconhecer que uma pessoa está viva. Que ela está lá», salientou.

Do mesmo modo, acentua o escultor, os olhos mostram que Bento XVI «está lá naquele momento. Está lá, está presente. É uma estátua viva».

Com 240 mil seguidores no Facebook, Jago é considerado um “artista social", que frequentemente publica fotos e vídeos na sua página. Um desses filmes é a história da criação e "descascamento" do busto de Bento, que foi visto mais de 15 milhões de vezes.

Para o artista, o pontífice tem um papel importante na promoção da beleza, e atualmente «é o momento certo para trazer de volta algo do que estamos a perder».

«Olhando para Roma, vivemos num momento de conservação total [da arte]. Mas o que é que estamos a acrescentar?», questiona. «Antes os papas, apesar das críticas ao seu nepotismo etc., eram pessoas preocupadas com a criação de beleza. Essas coisas de que hoje estamos orgulhosos.»

Jago anseia que os papas voltem a esse papel crucial, embora reconheça a importância de manterem uma imagem de humildade. Quando lhe perguntamos se faria um retrato do papa Francisco, responde: «Por que não? Claro».

Mas o artista também disse que iria impor três condições fundamentais: que seja encomendado pelo Vaticano, que seja sinceramente desejado e, acima de tudo, que possa ser autorizado a fazer o que quiser.

Os papas têm a experiência de longa data de lidar com artistas caprichosos, de Miguel Ângelo a Caravaggio, mas a história também sugere que, muitas vezes, a recompensa pelas dores de cabeça que colocam vale bem a pena.

Claire Giangravè In Crux
Tradução de SNPC
Imagem: D.R.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Visita

Advento: tempo para acolher a presença


O significado da expressão "advento" inclui também o de visitatio que, simples e propriamente, quer dizer "visita"; neste caso, trata-se de uma visita de Deus: Ele entra na minha vida e quer dirigir-se a mim.

Na existência quotidiana, todos nós vivemos a experiência de ter pouco tempo para o Senhor e pouco tempo também para nós. Terminamos por ser absorvidos pelo "fazer". Não é porventura verdade que com frequência é precisamente a atividade que nos possui, a sociedade com os seus múltiplos interesses que monopoliza a nossa atenção? Não é talvez verdade que dedicamos muito tempo à diversão e a distrações de vários tipos? Às vezes, a realidade "arrebata-nos".

O Advento, este tempo litúrgico forte que estamos a começar, convida-nos a refletir silenciosamente para compreender uma presença. Trata-se de um convite a compreender que cada um dos acontecimentos do dia é um sinal que Deus nos faz, um vestígio da atenção que Ele tem por cada um de nós.

Quantas vezes Deus nos faz sentir algo do seu amor! Manter, por assim dizer, um "diário interior" deste amor seria uma tarefa bonita e saudável para a nossa vida! O Advento convida-nos e estimula-nos a contemplar o Senhor que está presente. Não deveria porventura a certeza da sua presença ajudar-nos a ver o mundo com olhos diferentes? Não deveria acaso ajudar-nos a considerar toda a nossa existência como uma "visita", um modo como Ele pode vir ter connosco e estar ao nosso lado em cada situação?

Outro elemento fundamental do Advento é a espera, expectativa que é ao mesmo tempo esperança. O Advento leva-nos a compreender o sentido do tempo e da história como "kairós",como ocasião favorável para a nossa salvação. Jesus explicou esta realidade misteriosa mediante muitas parábolas: na narração dos servos convidados a esperar o retorno do dono; na parábola das virgens que esperam o esposo; ou naquelas da sementeira e da colheita.

Na sua vida, o homem está constantemente à espera: quando é menino, deseja crescer; quando é adulto, tende para a realização e o sucesso; na idade avançada, aspira ao merecido descanso. Mas chega a hora em que ele descobre que esperou demasiado pouco se, para além da profissão ou da posição social, nada mais lhe resta para esperar. A esperança marca o caminho da humanidade, mas para os cristãos ela é animada por uma certeza: o Senhor está presente no fluxo da nossa vida, acompanha-nos, e um dia enxugará também as nossas lágrimas. Um dia, não distante, tudo encontrará o seu cumprimento no Reino de Deus, Reino de justiça e de paz.

No entanto, existem modos muito diferentes de esperar. Se o tempo não foi preenchido por um presente dotado de sentido, a espera corre o risco de se tornar insuportável; se se espera algo, mas neste momento não há nada, ou seja se o presente permanece vazio, cada instante que passa parece exageradamente longo, e a expectativa transforma-se num peso demasiado grave, porque o futuro permanece totalmente incerto. Ao contrário, quando o tempo é dotado de sentido, e em cada instante compreendemos algo de específico e de válido, então a alegria da espera torna o presente mais precioso.

Queridos irmãos e irmãs, vivamos intensamente o presente, em que já nos são concedidos os dons do Senhor, vivamo-lo projetados para o futuro, um porvir repleto de esperança. Deste modo, o Advento cristão torna-se ocasião para despertar em nós o autêntico sentido da espera, voltando ao coração da nossa fé que é o mistério de Cristo, o Messias esperado durante longos séculos e nascido na pobreza de Belém.

Quando veio ao meio de nós, trouxe-nos e continua a oferecer-nos o dom do seu amor e da sua salvação. Presente entre nós, fala-nos de muitas maneiras: na Sagrada Escritura, no ano litúrgico, nos santos, nos acontecimentos da vida quotidiana e em toda a criação, que muda de aspeto se Ele se encontra por detrás dela, ou se a mesma está ofuscada pela neblina de uma origem incerta ou de um futuro inseguro.

Por nossa vez, podemos dirigir-lhe a palavra, apresentar-lhe os sofrimentos que nos afligem, a impaciência e as interrogações que brotam do nosso coração. Estamos persuadidos de que nos ouve sempre! E se Jesus está presente, já não existe tempo algum sem sentido e vazio. Se Ele está presente, podemos continuar a esperar mesmo quando os outros já não conseguem garantir-nos qualquer apoio, até quando o presente se torna cansativo.

Queridos amigos, o Advento é o tempo da presença e da espera eterna. Precisamente por esta razão é, de modo particular, o tempo da alegria, de um júbilo interiorizado, que nenhum sofrimento pode anular. A alegria pelo facto de que Deus se fez Menino. Esta alegria, invisivelmente presente em nós, encoraja-nos a caminhar com confiança. Modelo e ajuda deste íntimo júbilo é a Virgem Maria, por meio da qual nos foi oferecido o Menino Jesus. Que Ela, discípula fiel do seu Filho, nos conceda a graça de viver este tempo litúrgico vigilantes e diligentes na esperança.

Bento XVI
publicado in SNPC

sábado, 1 de dezembro de 2012

O que nos diz a Incarnação

John Collier
Como falar de Deus ao nosso tempo?


A questão central que hoje nos colocamos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir caminhos à sua verdade salvífica no coração frequentemente fechado dos nossos contemporâneos e nos seus espíritos às vezes atordoados pelos numerosos clarões ofuscantes da sociedade?

O próprio Jesus, dizem-nos os evangelistas, ao anunciar o Reino de Deus interrogou-se sobre esta questão: «A que coisa podemos comparar o reino de Deus ou com que parábola poderemos descrevê-lo?» (Marcos 4, 30). Como falar de Deus hoje?

A primeira resposta é que podemos falar de Deus porque Ele falou connosco. A primeira condição do falar de Deus é por isso a escuta que quando o próprio Deus disse. Deus falou connosco! Deus não é portanto uma hipótese longínqua sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito afastada de nós. Deus interessa-se por nós, ama-nos, entrou pessoalmente na realidade da nossa história, autocomunicou-se até se incarnar. Assim Deus é uma realidade da nossa vida, é de tal forma grande que também tem tempo para nós, ocupa-se de nós.

Em Jesus de Nazaré encontramos o rosto de Deus, que desceu do seu céu para penetrar no mundo dos homens, no nosso mundo, e ensinar a «arte de viver», a estrada da felicidade; para nos libertar do pecado e tornar-nos filhos de Deus (cf. Efésios 1, 5; Romanos 8, 14). Jesus veio para salvar-nos e mostrar-nos a vida boa do Evangelho.
Falar de Deus quer dizer antes de tudo ter bem claro o que devemos levar aos homens e às mulheres do nosso tempo: não um Deus abstrato, uma hipótese, mas um Deus concreto, um Deus que existe, que entrou na história e está presente na história; o Deus de Jesus Cristo como resposta à pergunta fundamental do porquê e do como viver.
Por isso, falar de Deus requer uma familiaridade com Jesus e o seu Evangelho, supõe um nosso pessoal e real conhecimento de Deus e uma forte paixão pelo seu projeto de salvação, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o método do próprio Deus.

O método de Deus é o da humildade - Deus faz-se um de nós - é o método realizado na Incarnação na casa simples de Nazaré e na gruta de Belém, o da parábola do grão de mostarda. É preciso não temer a humildade dos pequenos passos e confiar no fermento que penetra na massa e lentamente a faz crescer (cf. Mateus 13, 33).
No falar de Deus, na obra de evangelização, sob a orientação do Espírito Santo, é necessário reencontrar a simplicidade, regressar ao essencial do anúncio: a boa notícia de um Deus que é real e concreto, um Deus que se interessa por nós, um Deus-amor que se faz próximo de nós em Jesus Cristo até à cruz e que na ressurreição nos dá a esperança e nos abre para uma vida que não tem fim, a vida eterna, a vida verdadeira.
(...) falar de Deus quer dizer dar espaço Àquele que o dá a conhecer, que nos revela o seu rosto de amor; quer dizer afastar o próprio eu oferecendo-o a Cristo, na consciência de que não somos nós a poder ganhar os outros para Deus, mas devemos esperá-lo do próprio Deus, pedir-Lho. O falar de Deus nasce, assim, de uma escuta, da nossa consciência de Deus que se realiza na familiaridade com Ele, na vida de oração e segundo os Mandamentos.
Comunicar a fé, para São Paulo, não significa levar-se a si mesmo, mas dizer aberta e publicamente o que se viu e sentiu no encontro com Cristo, o quanto se experimentou na existência desde então transformada por esse encontro: é levar aquele Jesus que sente presente em si e que se tornou a verdadeira orientação da sua vida, para fazer compreender a todos que Ele é necessário para o mundo e é decisivo para a liberdade de cada pessoa.
O apóstolo não se contenta em proclamar palavras mas convoca toda a sua própria existência na grande obra da fé. Para falar de Deus é preciso dar-lhe espaço, na confiança de que é Ele que age na nossa fraqueza; dar-lhe espaço sem medo, com simplicidade e alegria, na convicção profunda que quanto mais colocarmos Deus ao centro, e não nós, mais a nossa comunicação será frutuosa.
E isto vale também para as comunidades cristãs: são chamadas a mostrar a ação transformadora da graça de Deus, superando individualismos, fechamentos, egoísmos, indiferenças, e vivendo o amor de Deus nas relações do dia a dia. Perguntemo-nos se são verdadeiramente assim as nossas comunidades. Devemos pôr-nos a caminho para nos tornarmos sempre e realmente assim, anunciadores de Cristo e não de nós próprios.
Aqui chegados devemos perguntar-nos como é que o próprio Jesus comunicava. Jesus na sua unicidade fala do seu Pai - Abbà - e do Reino de Deus com o olhar pleno de compaixão pelos problemas e dificuldades da existência humana. Fala com grande realismo e, diria, o essencial do anúncio de Jesus é que Ele torna o mundo transparente o mundo e a nossa vida tem valor para Deus.
Jesus mostra que no mundo e na criação transparece o rosto de Deus e mostra-nos como na história quotidiana da nossa vida Deus é presente. Seja na parábolas da natureza, o grão de mostarda, o campo com várias sementes, ou na nossa vida - pensemos na parábola do filho pródigo, em Lázaro e outras parábolas de Jesus.

No Evangelho vemos como Jesus se interessa por todas as situações humanas que encontra, mergulha na realidade dos homens e das mulheres do seu tempo, com confiança plena no auxílio do Pai. E vemos que realmente nesta história, de maneira oculta, Deus está presente, e se estivermos atentos podemos encontrá-lo. E os discípulos, que vivem com Jesus, as multidões que o encontram, veem as suas reações aos problemas mais diversos, veem como fala, como se comporta; veem nEle a ação do Espírito Santo, a ação de Deus. Nele anúncio e vida entrelaçam-se: Jesus age e ensina, partindo sempre de uma relação íntima com Deus Pai.
Este estilo torna-se um indicador essencial para nós, cristãos: o nosso modo de viver na fé e na caridade torna-se um falar de Deus no hoje, porque mostra com uma existência vivida em Cristo a credibilidade, o realismo do que dizemos com as palavras, que não são só palavras, mas mostram a realidade, a verdadeira realidade.
E nesta atitude devemos estar atentos a colher os sinais dos tempos na nossa época, discernindo as potencialidades, os desejos, os obstáculos que se encontram na cultura atual, em particular o desejo de autenticidade, o anseio à transcendência, a sensibilidade pela salvaguarda da criação, e comunicar sem temor a resposta que oferece a fé em Deus.
O Ano da Fé é ocasião para descobrir, com a fantasia animada pelo Espírito Santo, novos percursos a nível pessoal e comunitário, para que em todos os lugares a força do Evangelho seja sabedoria de vida e orientação da existência.
Também no nosso tempo um espaço privilegiado para falar de Deus é a família, a primeira escola para comunicar a fé às novas gerações. O Concílio Vaticano II fala dos pais como os primeiros mensageiros de Deus (cf. Lumen gentium, 11; Apostolicam actuositatem, 11), chamados a redescobrir esta sua missão, assumindo a responsabilidade no educar, no abrir a consciência dos mais pequenos ao amor de Deus como um serviço fundamental à sua vida, no ser os primeiros catequistas e mestres da fé para os seus filhos.
E neste sentido é importante antes de mais a vigilância, que significa saber discernir as ocasiões favoráveis para introduzir na família o discurso da fé e para fazer amadurecer uma reflexão crítica no que respeita aos numerosos condicionamentos a que são submetidos os filhos. Esta atenção dos pais é igualmente uma sensibilidade para acolher as possíveis questões religiosas presentes na interioridade dos filhos, às vezes evidentes, às vezes escondidas.
Depois, a alegria: a comunicação da fé deve ter sempre uma tonalidade de alegria. É a alegria pascal, que não cala ou esconde a realidade da dor, do sofrimento, do cansaço, da dificuldade, da incompreensão e da própria morte, mas sabe oferecer os critérios para interpretar tudo na perspetiva da fé cristã.
A vida boa do Evangelho é precisamente este olhar novo, esta capacidade de ver com os próprios olhos de Deus cada situação. É importante ajudar todos os membros da família a compreender que a fé não é um peso mas uma fonte de alegria profunda, é perceber a ação de Deus, reconhecer a presença do bem que não faz rumor; e oferece orientações preciosas para viver bem a própria existência.
Por fim, a capacidade de escuta e de diálogo: a família deve ser um meio onde se aprende a estar junto, a reconciliar as oposições no diálogo recíproco, que é feito de escuta e de palavra, a compreender-se e a amar-se, para ser um sinal, um para o outro, do amor misericordioso de Deus.
Falar de Deus, portanto, que dizer fazer compreender com a palavra e com a vida que Deus não o concorrente da nossa existência, mas é o seu verdadeiro garante, o garante da grandeza da pessoa humana.
Assim regressamos ao início: falar de Deus é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e com a vida, o que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor de tal forma grande ao ponto de incarnar, morrer e ressuscitar por nós; esse Deus que pede que o sigamos e nos deixemos transformar pelo seu imenso amor para renovar a nossa vida e as nossas relações; esse Deus que nos deu a Igreja, para caminharmos juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovar toda a Cidade dos homens, para que se possa tornar Cidade de Deus.
Bento XVI

Audiência geral no Vaticano, 28.11.2012
Trad.: SNPC/rjm

in SNPC

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Carta de LGBT cristãos ao Papa Bento XVI

Uma carta escrita por cristãos LGBT em Maio de 2011, alertando o Papa da violação dos direitos humanos básicos das pessoas LGBT ...

Lê-la aqui.

domingo, 24 de julho de 2011

Um Papa aberto ao mundo da Arte

Discurso de Bento XVI na inauguração da exposição "O esplendor da verdade, a beleza da caridade"


Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Caros Amigos,

é para mim uma grande alegria encontrar-vos e receber a vossa homenagem criativa e multifacetada por ocasião do 60.º aniversário da minha ordenação sacerdotal. Sou-vos sinceramente grato pela vossa proximidade nesta ocasião tão significativa e importante para mim. Na celebração eucarística do passado 29 de junho, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo [dia do 60.º aniversário da ordenação sacerdotal de Bento XVI], agradeci ao Senhor pelo dom da vocação sacerdotal. Hoje agradeço-vos pela amizade e gentileza que me manifestastes. Saúdo cordialmente o Cardeal Angelo Sodano, decano do sacro Colégio [Cardinalício], e o Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, que, juntamente com os seus colaboradores organizaram esta singular manifestação artística, e agradeço-vos pelas palavras amáveis que me dirigiram. Endereço também a minha saudação a todos os presentes, de modo particular a vós, caros artistas, que acolhestes o convite para a apresentar uma criação vossa nesta mostra.

O nosso encontro de hoje, no qual tenho a alegria e a curiosidade de admirar as vossas obras, pretende ser uma nova etapa deste percurso de amizade e diálogo que estabelecemos a 21 de novembro de 2009, na Capela Sistina, um acontecimento que trago ainda gravado no coração. A Igreja e os artistas tornam a encontrar-se, a falar-se, a sustentar a necessidade de uma conversa que quer e deve tornar-se sempre mais intensa e articulada, mesmo para oferecer à cultura, sobretudo às culturas do nosso tempo, um exemplo eloquente de diálogo fecundo e eficaz, orientado para tornar este nosso mundo mais humano e mais belo.
Hoje apresentais-me o fruto da vossa criatividade, da vossa reflexão, do vosso talento, expressões dos variados âmbitos artísticos que representais: pintura, escultura, arquitetura, joalharia, fotografia, cinema, música, literatura e poesia. Antes de as admirar juntamente convosco, permiti-me que nos detenhamos um breve momento sobre o sugestivo título desta Exposição: “O esplendor da verdade, a beleza da caridade”. Precisamente na homilia da missa pro eligendo pontifice [eucaristia para a eleição pontifícia, em 18.4.2005, presidida por Bento XVI, então cardeal Joseph Ratzinger], comentei a bela expressão de São Paulo da Carta as Efésios “veritatem facientes in caritate” (4,15), e disse que “fazer a verdade na caridade” como uma fórmula fundamental da existência cristã. E acrescentei: “Em Cristo, coincidem verdade e caridade. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também na nossa vida, verdade e caridade fundem-se. A caridade sem verdade seria cega; a verdade sem caridade seria como "um címbalo que retine" (1 Cor 13, 1).”

É da união, eu diria da sinfonia, da perfeita harmonia de verdade e caridade, que emana a autêntica beleza, capaz de suscitar admiração, deslumbramento e alegria verdadeiras no coração dos homens. O mundo em que vivemos tem necessidade de que a verdade resplandeça e não seja ofuscada pela mentira ou pela banalidade; tem necessidade de que a caridade se incendeie e não seja vencida pelo orgulho e pelo egoísmo. Precisamos que a beleza da verdade e da caridade atinja o íntimo do nosso coração e o torne mais humano.
Caros amigos, gostaria de renovar a vós e a todos os artistas um apelo amigo e apaixonado: nunca separeis a criatividade artística da verdade e da caridade, nunca procureis a beleza longe da verdade e da caridade, mas com a riqueza do vosso génio, do vosso impulso criativo, sede sempre, com coragem, buscadores da verdade e testemunhos da caridade; fazei resplandecer a verdade nas vossas obras e fazei de modo que a sua beleza suscite no olhar e no coração de quem as admira o desejo e a necessidade de tornar bela e verdadeira a existência, toda a existência, enriquecendo-a daquele tesouro infalível, que faz da vida uma obra-prima e de cada homem um extraordinário artista: a caridade, o amor.

O Espírito Santo, artífice de toda a beleza que há no mundo, vos ilumine sempre e vos guie para a Beleza última e definitiva, que aquece a nossa mente e o nosso coração e que esperamos poder contemplar um dia em todo o seu esplendor. Uma vez mais, obrigado pela vossa amizade, pela vossa presença e por trazeres ao mundo um raio desta Beleza, que é Deus. De todo o coração vos concedo, aos vossos queridos e a todo o mundo da arte a minha Bênção Apostólica.

Bento XVI
Vaticano, 04.06.2011
Trad.: Rui Martins
in SNPC | 05.07.11 

sábado, 2 de julho de 2011

Poema português no Vaticano

O padre e poeta José Tolentino Mendonça é um dos 60 convidados para a homenagem dos artistas a Bento XVI, por ocasião do 60.º aniversário da sua ordenação sacerdotal que ocorreu a 29 de junho.

No encontro dos artistas com o Papa que vai decorrer esta segunda-feira, 4 de julho, no Vaticano, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura vai estar presente com um poema, que apresentará pessoalmente a Bento XVI.


O Mistério está todo na infância
E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

A tradução para italiano que Bento XVI vai ler foi feita por Manuele Masini.

Tutto il mistero risiede nell’infanzia
E, finalmente, Dio ritorna
carico di intimità e d’imprevisto
i secoli ormai lo osservano dall’alto
umile misura di un orale silenzio
che credevamo destinato alla sconfitta

Ecco che Dio sale la scala ripida
che abbiamo ripetuto mille volte
e si trattiene in attesa senza nessuna impazienza
con la dolcezza di un agnello malato

Di noi due, chi sarà l’ombra dell’altro?
Anche se nessuna pietà conserverà le mappe
scenderemo quasi subito
smisurati e vuoti
come il tronco di un albero

Tutto il mistero risiede nell’infanzia:
è necessario che l’uomo segua
ciò che di più luminoso esiste
come fosse il fanciullo futuro

José Tolentino Mendonça
in SNPC

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Carta aberta dos cristãos LGBT para Bento XVI

foto: Teleny
O fórum europeu de grupos cristãos LGBT elaborou uma carta aberta a Bento XVI que apela ao respeito pelos direitos humanos e o respeito pela verdadeira integridade das pessoas LGBT.

Em 10 de Junho de 2011, o Fórum Europeu de grupos cristãos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros e Transexuais redigiu uma carta ao Papa Bento XVI apelando ao respeito pelos direitos humanos e da verdadeira "integridade pessoal" das pessoas LGBT. O Fórum representa 44 grupos cristãos de 23 países europeus.

Com esta carta, o Fórum pede ao Papa que uma posição clara contra a violência homofóbica e contra qualquer pressão das autoridades religiosas se submeter a "terapia reparadora", que muitas vezes causam danos psicológicos significativos.

A carta foi apresentada ao público na Conferência Europeia "As pessoas homossexuais e transexuais e as igrejas cristãs na Europa", organizado por ocasião da EuroPride Roma. A conferência, organizada pelo grupo "Nova Proposta", em Roma, com o apoio de grupos cristãos em colaboração com o Fórum Europeu, teve como palestrante John McNeil, um dos fundadores da teologia gay, excluído pela ordem dos jesuítas por causa da sua homossexualidade.

Segue-se uma tradução livre para português do documento:

Uma carta aberta dos cristãos LGBT para Bento XVI ter em atenção os direitos humanos

Santo Padre, nós apelamos que condene a violência contra Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transgéneros e Transexuais (LGBT) e pedimos a colaboração de Sua Santidade para a descriminalização dos atos homossexuais no mundo.

O silêncio de Sua Santidade muitas vezes é interpretado por pessoas que cometem atos de violência, tortura e assassinato como um parecer favorável às suas ações.

Por exemplo, em janeiro deste ano, David Kato, um ativista na luta pelos direitos LGBT, foi brutalmente assassinado no Uganda.

A violência, tortura e assassinato contra as pessoas LGBT são frequentes em diferentes partes do mundo e que muitas vezes os seus actores parecem convencidos que estão a respeitar a vontade da Igreja Católica .

Esta convicção é reforçada pelo fato de que em dezembro de 2008, a Santa Sé se recusou a apoiar a Declaração da ONU sobre orientação sexual e identidade de género.

A Declaração contém um parágrafo que apela a todos os Estados a assegurar que a orientação sexual ou identidade de género não podem ser em qualquer circunstância, a base para a aplicação de sanções penais, incluindo execuções, prisões ou detenções.

Apelamos pois a Sua Santidade, que forneça informações claras a todos os cristãos sobre as passagens bíblicas que são usados ​​para tentar justificar esses atos abomináveis.

Tal como as medidas a favor da escravidão, os versos usados para apoiar o assassinato de pessoas envolvidas em atividades sexuais com pessoas do mesmo sexo não devem ser interpretados literalmente.

Existe ainda uma forma de pressão de alguns membros do clero da Igreja Católica de Roma para que os cristãos LGB se submetam a "terapias reparadoras" para mudar a sua orientação sexual. Esta estratégia da Igreja e o pedido para que as pessoas LGBT vivam na castidade são a causa de muitas tragédias, incluindo suicídios e estados graves de depressão entre aqueles que heroicamente tentam observar e seguir os ensinamentos da Igreja.

Além disso, de acordo com estudos recentes da psiquiatria e da psicologia, a orientação sexual não pode ser mudado e essas tentativas muitas vezes resultam em graves danos psicológicos. Além disso, uma vida de castidade não pode ser forçada aqueles que não se sente dentro de si esta vocação.

Para os cristãos LGBT não pode ser negado o direito fundamental de um relacionamento amoroso, independentemente do sexo da pessoa amada.

Porque a ciência provou que a homossexualidade é uma variante da sexualidade, pedimos esta evidência científica esteja incluída nos ensinamentos da Igreja.

Assim, solicitamos que Sua Santidade não dê mais como uma indicação de que as pessoas homossexuais devem submeter-se ao tratamento, mas sim que eles têm direito a uma vida que também inclui uma relação amorosa como um sinal de lealdade.

Os benefícios sociais e pessoais disto são: uma vida feliz, saúde mental, a capacidade de dar o seu melhor no trabalho e em ajudar os outros.

Viver de outra forma, muitas vezes se transforma numa triste existência com uma série de tratamentos psicológico e psiquiátrico desnecessários, perda da fé em Deus, na humanidade e no amor, como evidenciado pelas cartas frequentes e bons exemplos de cristãos LGBT.

Mundialmente, muitas lésbicas, gays, transgéneros e transexuais vivem relações baseadas no amor, na fidelidade e na assistência mútua.

Assim como em relações heterossexuais maduras, o amor é essencialmente uma experiência espiritual e também física. Infelizmente, por causa do preconceito e da desinformação, muitas pessoas associam o conceito de homossexualidade só o amor físico.

No que diz respeito à declaração de Sua Santidade, em dezembro de 2008, sobre a necessidade de proteger a humanidade como o ecossistema de uma floresta tropical, após a mesma metáfora, podemos dizer que as pessoas LGBT são menos numerosas, mas uma espécie que se encontra constantemente no ecossistema e, como sabemos, cada espécie é importante e necessária para assegurar um equilíbrio criado por Deus.

Pedimos-lhe que reconsidere a posição da Igreja sobre as relações entre as pessoas do mesmo sexo e sobre pessoas transexuais, além de apoiar a aceitação e bênção destas relações no seio da Igreja.

Fazemos um apelo a Sua Santidade para que deixe de exercer pressão sobre os católicos para votarem contra leis que reconheçam as relações entre pessoas do mesmo sexo.

Relações entre pessoas do mesmo sexo ou com pessoas transexuais não são um perigo para a existência da família tradicional. Pelo contrário, vêem apoiar e reforçar os valores da família e do casamento. As pessoas LGBT representam apenas uma pequena percentagem da população, número que permanece constante ao longo dos tempos.

A experiência de não aceitação de jovens LGBT por parte de suas famílias e da Igreja, quase sempre leva a problemas no desenvolvimento de suas personalidades. As consequências são muitas vezes dramáticas e podem resultar, por exemplo, em tentativas desesperadas para entrar em casamentos heterossexuais, para mascarar a sua orientação sexual ou a escolher a vida religiosa, mesmo sem vocação.

Tendo em conta os motivos que temos apresentado, compreende-se como criar ambiente seguro e acolhedor, permitindo que as pessoas LGBT sejam elas próprios, é importante para a sociedade em geral.

O Catecismo da Igreja Católica diz que os homossexuais devem ser tratados com compaixão, respeito e sensibilidade. Respeito e sensibilidade deve ser concedido a todos, independentemente da orientação sexual ou identidade de género. Se fosse realmente assim, a compaixão não seria necessária. Os comportamentos e pontos de vista homofóbicos são particularmente dolorosos quando agitados por aqueles que se afirmam cristãs, seja seculares ou religiosos, e certamente não são uma forma de respeito.

Deus abençoe a Sua Santidade

Berlim, 7 de maio de 2011

Diane Xuereb (Holanda / Malta) - Dr. Michael Brinkschröder (Alemanha)

(Co-Presidentes dos Grupos do Fórum Europeu de Cristãos Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros e Transexuais em nome dos grupos membros)



Mais informações em: www.euroforumlgbtchristians.eu
in Portugalgay

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Será mesmo verdade?

Hesitei antes de publicar esta mensagem, pois li-a no dia 1 de Abril e receei que se tratasse de uma piada do "dia das mentiras"... Mas atrevo-me a divulgar, para o caso de ser mesmo verdade:



Papa reúne-se com gays e lésbicas na Alemanha

A LSVD Berlin-Brandenburg congratula-se com o diálogo "Erstes Netzwerktreffen DER PAPST KOMMT"

O Papa Bento XVI irá visitar a Alemanha e representantes da Associação Lésbica e Gay de Berlim-Brandemburgo (LSVD) anunciaram que no dia 22 Setembro 2011 irá haver um encontro de activistas com o papa. O anúncio foi feito hoje pela Arquidiocese de Berlim.

A LSVD Berlin-Brandenburg congratula-se com o novo diálogo do papa. É a primeira reunião oficial do mundo entre representantes papais e representantes de uma Associação Lésbica e Gay.

Em 17 de Maio 2011 (Dia Internacional Contra a Homofobia) será realizada uma reunião preparatória da viagem papal com Marechal Alberto Gasbarri.

O convite vem como uma oferta surpresa do Vaticano. No passado Joseph Ratzinger tem lançado críticas à decisão dos parlamentos democraticamente eleitos de reconheceram legalmente os casais do mesmo sexo que classificou como uma "legalização do mal". Mas há quem já tema agora uma "mudança político-sexual" e uma "ditadura do relativismo papal".

Mais detalhes desta notícia em: www.berlin.lsvd.de.
in portugalgay

sábado, 19 de março de 2011

Iluminismo, religiões e razão comum

"Pátio dos Gentios" em contagem decrescente
O Vaticano apresentou esta sexta-feira, 18 de março, a sua nova estrutura para o diálogo com os não crentes, denominada “Pátio dos Gentios”, destinada a «derrubar» muros, segundo o presidente do Conselho Pontifício da Cultura (CPC), o cardeal italiano Gianfranco Ravasi.

«Crentes e não crentes estão em territórios diferentes, mas não se devem encerrar num isolamento sacro ou laico, ignorando-se ou, pior, lançando troças e acusações recíprocas, como desejariam os fundamentalistas de uma e outra parte», sublinhou o prelado na conferência de imprensa realizada no Vaticano.

O diretor executivo do “Pátio dos Gentios”, padre Laurent Mazas, recordou aos jornalistas que o “Cortile dei Gentili” vai ter a sua primeira iniciativa internacional a 24 e 25 de março em Paris, cidade escolhida por representar a «herança do iluminismo». Segundo os responsáveis do CPC, a iniciativa não quer ter um caráter neutro mas mostrar «testemunhos apaixonados» que consigam chegar a resultados e convergências.

A diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, o ex-primeiro-ministro italiano Giuliano Amato e o filósofo Jean-Luc Marion são algumas das presenças confirmadas.

Três colóquios sobre o tema “Iluminismo, religiões e razão comum” ganham destaque nesta «iniciativa de intercâmbio, diálogo e ação comum entre crentes e não crentes», promovida por indicação do Papa Bento XVI.

As conferências, que decorrem em espaços simbólicos do mundo laico, realizam-se na tarde de 24 de março (na sede da UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), e no dia seguinte (Universidade de Sorbonne e Academia de França). Depois das sessões está prevista uma mesa-redonda no Colégio dos Bernardinos, edifício histórico do século XIII. A iniciativa inclui uma festa pensada para os mais jovens, designada “No pátio do Desconhecido”, que vai decorrer na catedral de Notre Dame, também na capital francesa, com música, espetáculos e um encontro de reflexão, seguindo-se uma vigília de oração e uma meditação.

Durante este momento, agendado para 25 de março, o Papa vai falar sobre o «significado e os objetivos» da iniciativa através de uma ligação em direto ao Vaticano.

O nome “Pátio dos Gentios” evoca o espaço com o mesmo nome que no antigo Templo de Jerusalém hospedava os não judeus.

O Conselho Pontifício da Cultura precisa que a nova instituição é «um espaço complementar para o diálogo inter-religioso, desenvolvido há muitas décadas, e constitui um compromisso da Igreja a longo prazo, que vai interessar a numerosas pessoas no mundo, crentes e não crentes».

O objetivo do “Pátio” é, segundo a Santa Sé, «contribuir para que as grandes interrogações da existência humana, sobretudo as de caráter espiritual, sejam verdadeiramente tomadas em conta».

O Vaticano assinala que, depois de Paris, as iniciativas do «Pátio dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA).

O CPC, segundo as tarefas definidas em 1988 pelo Papa João Paulo II, tem como missão promover as relações entre a Santa Sé e «os cultores das ciências, das letras e das artes».

Octávio Carmo / SNPC
In Agência Ecclesia, publicado in SNPC

domingo, 13 de março de 2011

Nos anos 80: a Igreja deve acompanhar a pessoa homossexual

Esta é a primeira de uma série de mensagens sobre a ideia de uma pastoral homossexual. São mensagens adaptadas a partir de um blogue do outro lado do Atlântico (Brasil).

Pastoral Homossexual 

1

A Igreja recomenda atendimento aos homossexuais


"A ideia de uma Pastoral, estruturada para acolher e atender os homossexuais, não é minha. A própria Igreja, através de alguns documentos, recomenda este trabalho. A Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada por vários anos pelo atual Papa Bento XVI (então Cardeal Joseph Ratzinger), enviou a todos os bispos da Igreja Católica a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"(leia aqui o texto completo). Apesar de apresentar várias opiniões discutíveis (até mesmo do ponto de vista da ciência), o documento traz um incentivo (não sei se posso chamá-lo "ordem") aos bispos: 

Esta Congregação encoraja os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. (...) Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos [...], como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis. 

Evidentemente, os trechos acima, parecem bastante animadores e, realmente, vale a pena aproveitá-los para dar o primeiro passo. O resto do texto é, digamos, extremamente cauteloso (para não dizer contraditório), mas isso também podemos compreender. O próprio assunto continua ainda a assustar os líderes da Igreja, assim como a maioria do povo. Precisamos de tempo, de perseverança e de uma corajosa clareza na hora apresentar ao povo tal projeto. 

Lembro-me, neste momento, das primeiras iniciativas em implantar as casas de acolhimento para portadores do vírus HIV (anos 80). Houve muitos protestos, não raro bastante violentos, promovidos pelos habitantes naquelas localidades. Muitas casas, simplesmente, não tiveram chance alguma para começar a sua missão. E tudo isso devido uma tremenda falta de conhecimento básico[...]. 

Assim como, naquela época (e às vezes até hoje), as pessoas acreditavam que o vírus "se pega" respirando o mesmo ar, da mesma forma muitos acham que os gays, só pela sua presença, irão "perverter os normais", especialmente as crianças e os jovens, mas também alguns piedosos e honestos pais e mães de família. Outra "ideia genial" diz que a moda, promovida pelo poderoso lobby gay, faz com que "a praga entre até na Igreja, como se não bastasse a invasão nos média e o escândalo das paradas de orgulho gay". 

Resumindo: temos argumento nas mãos (a recomendação do Vaticano), mas também um árduo e longo trabalho pela frente. Vamos? Alguém se arrisca?

por Teleny, in Retorno (G-A-Y)

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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Os textos e as imagens

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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