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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sábado, 7 de abril de 2018

Palavras de um monge

Irmão Luc, monge e médico de Tibhirine: «Não tive muito na vida, mas sou feliz»

Paul Dochier, que se tornará irmão Luc, nasceu a 31 de janeiro de 1914, em França. Após os estudos em Medicina, entra, em dezembro de 1941, no mosteiro trapista (Ordem Cisterciense de Estrita Observância) de Aiguebelle.

Em 1946 parte para Tibhirine, na Argélia, onde durante 50 anos, até à sua morte, será responsável por um posto médico daquela região pobre e interior, realizando até 100 consultas por dia.

De 26 para 27 de março de 1996, Luc e os restantes seis membros da comunidade foram raptados, tendo sido encontrados mortos em maio desse ano.

A vida dos monges esteve na base do multipremiado filme “Dos homens e dos deuses”, realizado em 2010 pelo cineasta francês Xavier Beauvois.

Organizada por François Buet, a obra “Frère Luc – Moine et médecin à Tibhirine” (128 pp.), lançada em 2014 pela editora francesa Nouvelle Cité, permite ao leitor conhecer a fecundidade de uma vida aberta ao infinito e fraterna com a comunidade religiosa e a população muçulmana.

Apresentamos um excerto das 15 meditações incluídas no livro, extraído da tradução italiana.

Irmão Luc – Monge e médico em Tibhirine
Ed. Gribaudi (Itália)


Diante de Deus permanecemos na posição de mendigo. Os seus dons são perfeitamente gratuitos. Nenhum esforço e nenhum trabalho exigem uma retribuição da sua parte a título de justiça. Deus não nos deve nada. O mendigo de Deus abandona-se a este arbítrio divino, do qual depende inteiramente. O cristão assumirá a atitude do homem que, «tendo consciência da sua impotência para satisfazer as suas aspirações ao Reino de Deus», fica à procura de Deus em todos os encontros. A vida cristã não é posta em causa por causa de uma prestação bem conseguida. Depende da iniciativa divina. O mendigo de Deus nunca terá a sensação de ter chegado. Incessantemente, avança à procura de Deus. Assim aceitará sem rebelião os seus fracassos espirituais ou outros insucessos. Sem amargura nem adjetivações das suas falhas, o desencorajamento dificilmente o constrangerá. Compreende que a vida espiritual não é apropriar-se da virtude mas abrir-se ao enriquecimento divino. Nenhum método, nenhuma técnica e nenhuma arte nos trazem Deus se não aceitarmos ir com Ele, mendigando-o, e merecer a bem-aventurança «daqueles que têm uma alma de pobre».

A salvação vem-nos dos outros, que são para nós a presença de Deus que chama à vida. Se a fé salva é porque ela desvia o nosso olhar para um outro, e assim cria uma relação que nos arranca da nossa solidão mortal... Cada vez que deixamos a preocupação por nós próprios, substituindo-a pelas preocupações por outro, vivemos esta fé que é, talvez sem o sabermos, fé em Deus: «Perder a própria vida por Cristo»... Recebendo a vida dos outros, reencontramos a nossa verdade originária: não nos demos a nossa vida, querer poupá-la coloca-nos em contradição com a nossa criação. Se se quer ser feliz, vai-se direito à desilusão, à infelicidade. «Se queres ser feliz, torna alguém feliz!» O retorno do dom não depende de nós, e é aqui que se joga a fé, o salto no vazio... Não se trata de acreditar que o outro nos restituirá alguma coisa, que teremos uma recompensa – seria querer salvar a própria vida. Se o outro não responde, não tem nenhuma importância, é no próprio ato de dar que encontramos «a vida». Perder a própria vida: Cristo não existe para si próprio, e é por isto que nós encontramos a nossa salvação existindo para Ele; isto é, para os seus irmãos que são também os nossos.

Alegremo-nos por sermos pecadores, mas pecadores perpetuamente perdoados, perpetuamente levantados para lá do nosso pecado. O que descobrimos nas nossas confissões válidas é que errámos o pecado. A nossa verdadeira culpa não foram estes atos insípidos que nos eram servidos como passatempo; era preciso que enganássemos a nossa fome. A nossa verdadeira culpa foi não termos acreditado verdadeiramente na existência de alguém capaz de aplacar para sempre esta fome, de não ter ousado acreditar num amor que nos dispensasse de todas estas contrafações.

O monge não é alguém que converte – é uma testemunha: testemunha diante de Deus em nome do mundo do qual ele é como que a décima oferenda em holocausto ao Deus soberano, testemunha diante dos homens do primado das obrigações para Deus, da procura de Deus e da vida nele dentro de si. O seu testemunho é eficaz, mas desta eficácia ele não se preocupa, não a procura. Não testemunha, é testemunha pelo próprio facto de ser aquilo que é. O mundo é o que as grandes almas nele fazem, aquelas que, no fundo de si, chegaram até Deus. É realizando a paz em si que se realiza a paz no mundo.   dentro de si que se vencem os poderes das trevas que percorrem o mundo e o dominam.

Deus acompanha-nos para onde quer que vamos, mesmo no nosso vaguear, para nos fazer encontrar o caminho de saída. Deus não é contra nós mas connosco. Deus mesclado em nós para nos conduzir à nossa verdade (Espírito e Verbo) e ao nosso cumprimento. O Espírito é aquele que nos conduz à nossa forma definitiva... O essencial não é ter sucesso segundo os critérios da Terra, mas tornar-se um homem verdadeiro, um homem que sofre, mas repleto de alegria, criador de alegria. Não tive muito na vida, mas sou feliz. Tive a revelação da misericórdia de Deus e da amizade dos homens.

Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O que procuras?

Quando nos aproximamos de Deus, temos de clarificar o que procuramos

Um vizinho encontrou o Sr. Simão de gatas, em plena rua, à procura de alguma coisa no chão. «Que procuras, amigo?» Simão, erguendo o olhar como quem pede ajuda, respondeu: «A minha chave. Perdi-a». Por isso o bom vizinho ajoelhou-se ali mesmo e os dois puseram-se à procura da chave perdida. Passado largo tempo, o vizinho perguntou-lhe: «Onde a perdeste?». Simão, quase como se se desculpasse, com uma voz que saía para dentro, respondeu: «Dentro de casa». «Santo Deus! Então porque é que andamos à procura no meio da rua?» «Porque aqui há mais luz» (tomado com alguma liberdade criativa de Anthony de Mello, “O canto do passáro”).

É uma verdade bastante óbvia, mas estou convencido de que não só é importante saber o que estamos à procura, como também ter claro onde o fazer; quando queremos aproximar-nos de Deus temos de clarificar primeiro o que é que procuramos, o que é que queremos dele; por que o invocamos, o que lhe pedimos... Mas isto não basta. Também é importante definir muito bem onde o vamos procurar; porque pode ser que haja lugares aparentemente iluminados que nos parecem mais próprios para encontrar Deus; e, todavia, Ele pode estar à nossa espera noutro lugar menos luminoso, como a nossa vida normal e quotidiana.

Costumo começar a experiência dos Exercícios Espirituais perguntando às pessoas «o que procuram?», porque me parece fundamental que cada uma estabeleça o seu próprio encontro com o Senhor esclarecendo, para si mesma, o que a leva a procurá-lo. As motivações que se desvelam diante de nós são muito variadas e, muitas vezes, contraditórias. O milagre que essa experiência realiza é muito simples: quando aclaramos o que procuramos, quando dizemos que procuramos Deus, então começa a concretizar-se o lugar onde o devemos procurar.

Uma pergunta como esta foi a que Jesus lançou um dia a dois dos discípulos de João Batista, que o seguiam pelo caminho: «Que procurais?» Eles disseram: «Mestre, onde vives?». A resposta foi: «Venham e vejam». A Igreja propõe-nos este texto do Evangelho porque quer suscitar em nós a fome do encontro com Deus e o desejo de saber mais dele. Peçamos-lhe (...) que Ele nos mostre onde vive, para que o conheçamos cada vez mais, para que mais o amemos e o sigamos nas nossas vidas. O importante é não acabarmos como o protagonista da história, procurando onde Ele não está.

P. Hermann Rodríguez Osorio, S.J.
Decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Xaveriana, Bogotá, Colômbia
In "Periodista Digital"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins
Publicado em 22 de Janeiro de 2015 in SNPC

quinta-feira, 22 de março de 2018

A espiritualidade do quotidiano

Há muita sede no coração humano

Por vocação e missão dei por mim, nos meus 25 anos de vida sacerdotal, a trabalhar pastoralmente no âmbito do pensamento e da cultura. Se há lugar em que a Igreja se assemelha a um hospital de campo – para retomar a imagem mais do que oportuna do papa Francisco –, é precisamente este, onde as perguntas são exigentes e contínuas, as procuras de sentido são intensas, por vezes extremas, na sua vulnerabilidade, e a fome de Deus é, sim, latente, mas também se oculta sob uma dor humana nem sempre confessada, um grande vazio, muito sofrimento, em conflito e em solidão no modo de se confrontar com a vida ou com a fé. Por isso, quem trabalha no sector da cultura não pode ser uma simples pessoa de gabinete ou gestor de sacristia. Apesar de trabalhar há muitos anos numa universidade, vejo-me, com efeito, como um padre de estrada, dado que a cultura, na sua fantástica e dramática vitalidade, é isto: é estar no meio da estrada, é o desarmante espaço aberto da vida. A cultura é um extraordinário motor de procura, no qual a complexa ansiedade do viver está sempre presente. Um território que não é fácil, mas é apaixonante. E este campo pastoral ensinou-me o valor da escuta.

A escuta é já, por si, um modo de cuidar, uma maneira de se ocupar das feridas do coração humano. Um sacerdote não deve ser necessariamente um megafone. Muitas vezes aquilo que Deus lhe pede é ser uma humilde antena. Não tem de seguir diretamente para Jerusalém sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, indiferente aos dramas dos outros. Muitas vezes, o que Deus lhe pede é que seja o Bom Samaritano de plantão. O amor de Cristo pelos humanos é um amor sem reservas, é uma misericórdia que nos abre à vastidão, baseando-se nos pontos de partida já existentes, ainda que frágeis e insuficientes no turbilhão da vida. A pastoral deve tentar ser uma arte da hospitalidade. Só quem está disposto a escutar as perguntas até ao fim pode dar respostas. Se há coisa que eu aprendi ao trabalhar no campo da cultura é o significado espiritual da sede. Agradeço a Deus todos os dias por isso. Há muita sede no coração humano. O coração, podemos dizer, é um interminável reservatório de sede. Sede de amor. Sede de verdade. Sede de reconhecimento. Sede de razões de viver. Sede de um refúgio. Sede de novas palavras e de novas formas. Sede de justiça. Sede de humanidade autêntica. Sede de infinito. E Jesus identificou-se com os sedentos. Uma das suas últimas palavras na cruz foi «tenho sede» (João 19, 28). A sede torna-se assim uma interpretação necessária não só para chegar ao coração humano, mas também para compreender o mistério de Deus.

Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe que eu sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado “Elogio da sede”. A sede é um tema bíblico, elaborado muitas vezes pela tradição cristã, e ao mesmo tempo é um mapa real, muito concreto, que nos ajuda a ficarmos sintonizados com a vida de todos os dias. Interessa-me sobretudo uma espiritualidade do quotidiano.

José Tolentino Mendonça In Avvenire
publicado pelo SNPC  em 15 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Ética da Atenção

Advento: atender e estar atento

A “atenção” (attentio) vem de “atender” (attendere) e significa orientar o espírito e a mente para aquilo que vem. Esta orientação corporal de si pressupõe a vigilância e a meditação enquanto experiência espiritual e lugares onde se exercita a atenção. A oração é um ato corpóreo, de quase suspensão do tempo e do espaço, de mobilização sensível que nos envolve totalmente na reciprocidade de uma relação. O tempo de advento é um tempo de exercitação da atenção, de prática de uma “ética da atenção”, como escreve a filósofa francesa Natalie Depraz (in Attention et vigilance. À la croisée de la phénoménologie et des sciences cognitives).

Atender é olhar o tempo de um outro modo, a partir da doação e da dádiva. Dar tempo, é dar-se por inteiro nesse tempo de espacialidades e vida cruzadas, sem o esgotar e sem se esgotar, é um ato de reconhecimento de que a condição temporal nos é dada; é a acreditação da possível vinda de… Dar o seu tempo é ser dom para os que se sentem esquecidos nas brumas temporais da história, sem eternidade. Dar algo do seu tempo, é fazer do presente grávido de futuro promitente; é atender, olhar o outro/a, é dizer que em cada sobressalto invernal pode florir uma amendoeira; é perguntar: O que te perturba?” (Simone Weil). Vigiar é atender, qual ato litúrgico expectante de floração em tempos de “esplendor do caos” (Eduardo Lourenço) e de barbárie.

Muitos são os lugares e espaços expressivos do exercício vigilante da vida, de desabrochamento da criatividade adormecida dos humanos. A arte, em sua manifestação profunda da condição humana de outrem (além do contentamento autobiográfico), é uma das expressões onde se poderá exercitar essa “ética da atenção”, do olhar proexistencial e proafetivo, de cuidado das vítimas da voragem mecânica dos mercados e da solidão inóspita do abandono total.

Simone Weil, filósofa e mística de olhos abertos ao drama do homem moderno, dá corpo à «ética da atenção», quando, no seu livro À espera de Deus, escreve que «não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo senão de homens capazes de lhe prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre; é um milagre».

O ato sábio de saber olhar não é algo inato. A visão sim! O olhar exige aprendizagem em profundidade e amplitude. O olhar, se o é, é sempre um olhar atento, de expectação e pasmo diante do que ou de quem nos chega como absolutamente inesperado. Por que será que deixamos de nos espantar? A filosofia é tida como a arte do questionamento, melhor a arte do espanto diante dos fenómenos que vêm até nós à espera de acolhimento interpretativo. Paul Tillich, filósofo e teólogo crente, tem razão quando escreve que «a espera antecipa o que não é ainda real. Se esperarmos com esperança e paciência, o poder daquilo que esperamos age em nós… Nós somos mais fortes na expectativa do que na posse».

Na base da vigilância está a atenção e a meditação. A atenção porque coloca o sujeito em estado de tensão, de atendimento, de mobilização corpórea da sua sensibilidade para o que vem ou que possa advir de qualquer evento, do interior ou do exterior, de si ou da relação intercorpórea com a “carne do mundo”. A meditação porque ela exercita e coloca em ato a mente corpórea, o estar no mundo como devir, como processo, à espera da irrupção do novo que advém imprevisivelmente. A «atenção é uma espera, e não há consciência sem uma certa atenção à vida. O devir é aí: ele chama-nos, ou melhor ele nos atrai para ele; esta tração ininterrupta, que nos faz avançar sobre a rota do tempo, é a causa de agirmos continuamente. Toda a ação está sedimentada sobre o futuro» (Natalie Depraz) que vem inesperadamente até nós.

De igual modo, o neurofisiologia alemão Wolf Singer assegura que a «meditação é um processo muito ativo, que exige atenção em grande medida, como processos de aprendizagem, que levam a mudanças duradouras das redes neuronais respetivas... Atividades do cérebro deixam vestígios» (referência facultada pelo professor Manuel Moreira Costa Santos). Esta atividade meditativa, mobilização sensível toda de si ou de uma comunidade, gera uma prática intercorpórea da atendibilidade. A meditação profunda, exercitada quotidianamente, é um ato de kenose, de descentramento e despojamento de si, que permite imaginar novas realidades e transfigurar a existência a partir da palavra, do gesto, do silêncio, do encontro, da saudade, da promessa ou da angústia…

A experiência de tudo isso, como uma constante e variante existencial, precede as pias formulações inquestionáveis. A experiência cristã vive da parusia, da atendibilidade, e por isso, o crente dirige a sua atenção, o seu olhar, o seu movimento corpóreo singular e comunitário para à vinda do corpo glorioso. Adventus de advenio, advinda, chegada ou vinda (de algo para vir). A conversão do olhar e de acolhimento afetivo do Outro que nos chega, que surpreendentemente nos aparece e advém até nós. Atender é tornar-se disponível para o quotidiano e para a sua possível transfiguração. A atenção é uma espera, que «não possuímos, e por isso mesmo esperamos» (Paul Tillich), na surpresa e no espanto de um novum existencial.

Este ato de espera é simultaneamente passivo-ativo. Passivo porque nos é dado, está para além das nossas capacidades e méritos, tal como recebemos o nosso nascimento passivamente. Ativo porque envolve a pessoa toda, o seu empenho e compromisso ao longo da sua existência com os outros. E, nesse sentido, é um ato livre, consciente e responsável do humano crente, de reciprocidade aceitante ou não daquilo que vem como dom, como oferta e como totalidade.

Para Natalie Depraz, que tem procurado realizar um profícuo entrelaçamento entre fenomenologia, espiritualidades ortodoxa e neurociências, existe uma ética atencional que «é um movimento de abertura orientado para as coisas, para os outros e para o mundo; ser consciente, é ser consciente de qualquer coisa». Esta consciência corpórea, na medida em que o corpo se movimenta no espaço intersubjetivo de relação a outrem, é uma consciência em vigilância, «qualidade de presença a si que é condição de presença justa aos outros».

Esta dimensão particular do tempo que envolve a espera ativa e vigilante, na atenção e na meditação orante, parece ter desaparecido em geral da experiência cristã contemporânea, excetuando algumas e belas experiências monásticas de alto perfil antropológico. Paradoxalmente, o esquecimento de uma “teologia do advento” enquanto “ética da atenção e da vigilância” é o mais puro esquecimento de Deus feito carne, de uma vida crente centrada mais na formulação doutrinária, na organização estrutural (sedimentação do presente) sem profecia nem poesia.

Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, num artigo recente, di-lo doutro modo: «Eis o verdadeiro Natal cristão: nós recordamos o teu nascimento em Belém, Senhor, atendemos a tua vinda gloriosa, acolhemos o teu nascimento em nós, hoje. Por isso o místico do século XVII Angelo Silesio podia afirmar: "Mesmo que Jesus nascesse mil vezes em Belém, se não nasce em ti… tudo é inútil"».

João Paulo Costa
SNPC

Sobre o divórcio entre Igreja e Arte moderna e contemporânea

«A arte pode viver sem desconfiança» em relação «ao mundo do espírito»

O escultor Rui Chafes, recentemente distinguido com o Prémio Pessoa, está convicto de que arte e espírito não têm de ser antagónicos, ainda que a contemporaneidade tenha perdido uma das características da Idade Média, o «ir para Deus através da arte».

Em entrevista publicada este sábado no suplemento do semanário "Expresso", Chafes (n. Lisboa, 1966) diz que «tecnicamente» não se considera uma pessoa religiosa, embora pense que o seu trabalho «está muito próximo do sentido religioso das pessoas».

«Por vezes é como se não estivesse a trabalhar por vontade própria mas como alguém que obedece a uma voz que lhe diz "agora vais fazer isto"», voz que «é qualquer coisa imaterial, misteriosa, espiritual e absolutamente irracional», assinala.

Rui Chafes, que também se exprime artisticamente através do desenho, menciona também a «separação da arte da igreja, no mundo ocidental»: «Esse afastamento mútuo está relacionado com o modernismo. Com o facto de a Igreja desconfiar da arte moderna e a arte moderna desconfiar da Igreja».

«Alguma arte tentou consolar as pessoas que ficaram órfãs dessa vida espiritual. E esse consolo é muito curioso porque transforma a arte numa divindade, numa religião. Dá um sentido às coisas. Houve artistas que quiseram ser uma espécie de xamãs para uma humanidade sem religião. E isso é um motivo de esperança e ao mesmo tempo de ceticismo», declara.

A «atração» que sente pela Idade Média funda-se, entre «várias razões», na «proximidade entre as pessoas e a arte, através de uma coisa que elas não sabiam o que era, que era a fé, a espiritualidade».

«Uma catedral era uma imensa instalação que tinha pintura e escultura, era uma obra de arte total, um ir para Deus através da arte. Isso perdeu-se. Creio que hoje já aprendemos a respeitar a arte como uma linguagem possível e partilhável e não ter de ir vê-la ao jardim zoológico», afirma.

A mudança na forma como a arte é vista é feita de passos, como as obras que o próprio Rui Chafes tem em igrejas da Áustria e da Alemanha, ou «quando a catedral de Colónia encomenda um vitral a Gerhard Richter» ou quando uma «igreja em Zurique encomendou vitrais a Sigmar Polke».

Referindo-se à relação da arte com a Igreja, Rui Chafes sustenta que «há uma convergência», e dá como exemplo um projeto que tem em mãos: «Eu vou fazer uma instalação na igreja de São Cristóvão, em Lisboa. Num projeto do Paulo Pires do Vale, que vai dinamizar a igreja com peças de vários artistas».

«O padre [Edgar Clara], que é um homem novo, tem uma visão sem complexos do que pode ser a participação das pessoas na igreja. E isso mostra que a arte pode viver sem desconfiança e sem ressabiamento em relação ao mundo do espírito».

Chafes lembra que «cineastas como Tarkovski, por exemplo, tiveram mil razões para fugir da Rússia, mas o que se passava é que ele tinha uma necessidade imensa dessa espiritualidade e a Rússia dos anos 60 e 70 negava-lhe isso».

Questionado sobre se a sua religião é a arte, o escutor é perentório: «Sim, absolutamente. A minha religião é a arte, a música, a literatura, que é tudo a mesma coisa. E se não houver nem música, nem pintura, nem escultura, se não houver arte, caímos na barbárie, como o Estado Islâmico quer».

«Talvez por isso se pergunte se o Estado Islâmico tem alguma coisa a ver com religião e claro que não tem, tem a ver com terrorismo. Com crime. Com assassinos», acentua.

E será que a arte pode salvar? «É uma boa ideia», mas não é certo que possa acontecer: «Pelo menos a arte não pode salvar uma sociedade, não pode salvar uma política, não pode salvar um sistema social. Mas pode salvar a ética das pessoas, pode dar esperança e nesse sentido pode salvar o mundo».

A «única bandeira política» que considera «realmente válida é o anarquismo» - onde se sente acompanhado por «grandes companheiros, como Jesus Cristo e Friedrich Nietzsche» -, sistema político que seria «civilizado, não violento, feito de e para pessoas responsáveis e que não precisariam de polícias nem de soldados».

«Para mim não existe arte se não houver essa ambição de criar silêncio, de criar um momento onde o tempo é suspenso. E alguma arte contemporânea suspende o tempo», assinala Rui Chafes.

Com o valor de 60 mil euros, o Prémio Pessoa, atribuído pelo "Expresso" com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, reconhece a intervenção de uma personalidade portuguesa na vida cultural e científica de Portugal.

Para os autores da entrevista, Alexandra Cabrita e Celso Martins, a atribuição da distinção a Rui Chafes «valoriza a coerência de um programa e a teimosia de uma ética inabalável».

Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC a 19 de dezembro de 2015

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Desporto e espiritualidade

As olimpíadas e o cristianismo

"As festas de Olímpia no Peloponeso eram as mais antigas e celebradas da Grécia clássica, ao ponto de se tornarem, na sua cadência quadrienal a medida de rferência da própria cronologia. As várias competições desportivam tinham como base uma visão geral da pessoa, da sociedade e da própria cultura. A "paideia", isto é, a formação grega da pessoa, associava-se à "euritmia", ou seja, a harmonia física (pense-se nas imagens das pinturas vasculares ou no "Discóbolo" do escultor "Míron). As mesmas Olimpíadas ligavam-se à poesia, como atestam as "Olímpicas", célebres odes de Píndaro (séc. V a.C.) e as dos poetas Simónides e Baquilides.

Por ocasião do acontecimento olímpico do Rio de Janeiro, tentaremos um esboço sobre a relação entre desporto e espiritualidade no cristianismo. O judaísmo, a esse respeito, foi mais reticente, por causa do risco de contaminação idolátrica, como aconteceu em alguns judeus "traidores" durante a grande epopeia dos macabeus. Eles, com efeito, entravam nus nos "ginásios", as sedes educativas e desportivas helenistas, e chegavam ao ponto de se submeter a uma intervenção cirúrgica, dita em grego "epispasmós", para eliminar o sinal da circuncisão.

A reserva anti-idolátrica estava presente também em alguns Padres da Igreja - reserva que se alargava aos espetáculos teatrais -, que se opuseram aos Jogos Olímpicos, como Ambrósio, que impede o imperador romano Teodósio de os repropor em 393. Na raiz, além do risco de contaminação com a idolatria e o paganismo, havia a crítica ao exibicionismo dos atletas que, através do exercício físico, pareciam contradizer ou deformar a obra do Criador em relação ao corpo humano.

Todavia, diferente foi a atitude nas origens cristãs primordiais. O próprio Jesus, efetivamente, tinha partido do jogo das crianças para definir a geração que o estava a ouvir, incapaz de uma opção como aqueles jovens que, «estando sentados na praça gritam aos companheiros: tocámos a flauta e não dançastes, entoámos lamentações e não batestes no peito» (Mateus 11, 16-17). Dito por outras palavras, àquelas crianças tinham sido propostos os jogos mais díspares, como imitar uma festa de casamento ou um funeral, mas elas tinham sempre oposto uma recusa pouco amigável.

É, contudo, sobretudo S. Paulo que, por diversas vezes, recorre a metáforas desportivas para delinear o compromisso apostólico e do cristão. Em particular, ele faz referência à corrida no estádio e ao pugilismo, dois desportos muito praticados na sociedade greco-romana.

Interessante é um parágrafo da Primeira Carta aos Coríntios onde é usado o léxico técnico desportivo: «Não sabeis que nas corridas no estádio todos correm, mas só um conquista o prémio? Correi também vós de modo a conquistá-lo. Mas cada atleta ("agonizómenos", "que compete lutando") submete-se em tudo à disciplina. Fazem-no para onter uma coroa corruptível, nós, ao contrário, incorruptível. Eu, portanto, corro mas não como quem está sem meta. Faço pugilato ("pyktéuô", "faço com murros"), mas não como alguém que bate no ar. Na realidade, atinjo duramente ("hypopiàzô", literalmente "atinjo sob os olhos", isto é, no ponto mais fraco do adversário) o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, depois de ter pregado aos outros, eu próprio seja desqualificado» (9, 24-27).

Também naquela espécie de testamento que ele endereça ao seu fiel colaborador Timóteo, o apóstolo, depois de ter usado imagens rituais (o ser «entregue em libação»), náuticas ou nómadas («desfazer as velas» ou «as tendas») e militares («combati a boa batalha»), recorre à cena desportiva da corrida no estádio para exprimir o seu compromisso total em conservar alta a chama da fé. A frase em grego é até ritmada, "ton drómon tetélexa, ten pístin tetéreka", «levei ao termo a corrida, conservei a fé» (2 Tomóteo 4, 7). E continua, referindo-se sempre à simbologia desportiva: «Resta-me a coroa de justiça que o Senhor, justo juiz, me entregará nesse dia, não só a mim mas a todos aqueles que esperaram com amor a sua epifania» (4, 8).

Chegados aqui não podemos, contudo, ignorar um capítulo que é dramaticamente verdadeiro também para o desporto. Em termos religiosos é o exercício da liberdade no pecado que atinge também este âmbito. Assim, o jogo-desporto torna-se lucro económico, e já não é mais livre exercício; o espetáculo transforma-se em doença violenta (a palavra italiana "tifosi", "adeptos", baseia-se no grego "typhos", "febre"); a beleza e a força física são devastadas pelo "doping", falsificando o exercício desportivo que nas Olimpíadas gregas era dito "àskesis", isto é, "ascese". Ela amplia ao máximo a potencialidade do organismo, tornando o ato físico natural e espontâneo, como acontece à dançarina clássica ou ao atleta autêntico. Além disso, o jogo, de instrumento até de cura ("ludoterapia"), degenera em formas maníacas ("ludopatia"). As sublevações mais ameaçadoras e obscuras do ser humano revelam-se através da brutalidade, a vulgaridade e o racismo nos estádios.

Uma nota particular de partilha e de apoio merecem, ao contrário, os atletas dos Jogos Paralímpicos que não se deixam vencer pela sua deficiência, empenhando-se em superá-lo num desafio contínuo a ir mais longe, em direção a uma meta mais prestigiosa. Assim, além de representarem um verdadeiro e próprio exemplo no desafiar os limites das possibilidades físicas - alma de toda a competição desportiva -, são chamados a superar também a fasquia da sua deficiência. São, por isso, pessoas que podemos legitimamente considerar "duplamente atletas".

As Paralimpíadas nasceram oficialmente nos anos 60 do século passado, contribuindo para contar e representar inúmeras histórias de feitos atléticos, acompanhadas de emoções, sentimentos, lágrimas e sorrisos, alegrias e sofrimentos. Permitiram descrever autênticos feitos heróicos, ajudando-nos a superar preconceitos ancestrais, lugares-comuns destituídos de qualquer fundamento. Comovemo-nos com estas mulheres e estes homens, vendo demolidos os muros da indiferença e do ceticismo, da suficiência coberta de comiseração, admirando-os pela coragem e pela orgulhosa dignidade dos seus gestos atléticos, convictos de que as medalhas por eles conquistadas não valem menos do que as olímpicas.

Concluímos regressando à relação entre jogo e religião, fazendo-o, em espírito ecuménico, com uma bela representação que Lutero delineia da meta paradisíaca precisamente na base da analogia do jogo: «Então o homem com o Céu e com a Terra, jogará com o Sol e com todas as criaturas. E todas as criaturas experimentarão um prazer imenso e uma felicidade lírica e rirão contigo, Senhor». Também o monge Notker, da abadia de S. Galo, falecido em 912, poeta, músico e bibliotecário, descreveu assim a Igreja que joga em paz sob a videira fecunda, símbolo de Cristo, no jardim celeste: «Eis, ó Cristo, a tua Igreja que joga serena e em paz á sombra de uma videira luxuriante»."

Card. Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura In "Italpress"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC em 31 de julho de 2016

domingo, 3 de dezembro de 2017

Preparar o Natal

Lisa Lapointe
Como será este Natal?

Estamos empenhados em preparar a vinda do Senhor, em preparar-lhe simbolicamente um espaço, e isso torna-se uma parábola do grande acolhimento, da grande hospitalidade à qual estamos dispostos. E dizemos: «Vem, Senhor Jesus».

Abrimos as casas, encontramos um lugar no seu interior, preparamos formas diferentes para o tráfico dos nossos dons, das palavras, dos sentimentos, dos votos e desejos. Encontramos na nossa vida um modo de Deus chegar. As portas estão abertas. A contagem decrescente começou.

E então dá-se o volte-face: ao rei David, que tem um papel emblemático na expetativa messiânica, Deus diz: «Não és tu que me preparas uma casa, sou Eu que preparo uma casa para ti».

Não mergulhamos profundamente no mistério do Natal se não acolhermos esta reviravolta no nosso coração: não somos nós que preparamos um presépio para Deus nascer; é Deus que prepara o lugar, é Deus que prepara a possibilidade, as condições do renascimento de cada um de nós.

Jesus é o Deus que se torna homem para que o homem e mulher que somos se possa divinizar. Ele nasceu para potenciar os nossos nascimentos.

Como Maria, podemos perguntar: «Como será isso, se eu não vejo essa possibilidade? Que o Menino possa nascer simbolicamente em minha casa, eu acredito, mas que a minha casa toda e o que ela significa possa renascer, não vejo como. Que eu me possa preparar e abrir as portas para o Deus connosco vir, isso entendo; mas que eu, na minha rigidez, nos meus entraves, nos meus dilemas, no caminho que estou a fazer, possa verdadeiramente recomeçar e renascer, não vejo como».

A dupla palavra do anjo é uma das grandes palavras de Natal: «Não temas». Não desanimes, não penses que não é para ti. O Espírito Santo virá em teu socorro, a sombra do Altíssimo te cobrirá. E o mistério que acontece na nossa vida, humaníssima e fragilíssima, é ação do próprio Deus: é Ele que pode renovar, é Ele que pode transformar as nossas vidas; é Ele que pode fazer acontecer, dentro de cada um de nós, o Natal, essa irrupção de vida nova e cintilante, a possibilidade de uma esperança maior do que aquela de que somos capazes.

O que é este novo nascimento? S. Paulo, com uma palavra só, com uma das palavras mais importantes desse texto maior da memória cristã que é a carta aos Romanos, diz: o grande mistério, esperado desde sempre e agora revelado, é este: Deus Pai confirma-nos. Uma palavra só: «Confirma-nos».

O que é o Natal de [2017] que estamos prestes a celebrar? É sentir dentro de si que se é confirmado por Deus, confirmado como filho e filha amado, querido, em quem Deus coloca todo o seu amor. E a nossa vida passa a valer mais: porque não é só o que somos, o que conseguimos, o que trazemos - não é só isso; é o olhar de Deus pousado na fragilidade que eu sou.

É o olhar de Deus que me confirma, muitas vezes para lá das evidências e contrariando-as, contra toda a esperança. Deus confirma-nos e diz: «Tu és a minha filha, tu és o meu filho». É isso que nos faz nascer: a certeza do amor de Deus depositado, mostrado por Jesus face a face na nossa história, a certeza indefetível desse amor que não falha, desse amor em que podemos confiar. O Deus connosco é um Deus credível, em quem um homem e uma mulher podem acreditar. Nós acreditamos nesse amor, e acreditamos que ele nos é dado como fundamento, como pedra angular, como razão, como possibilidade, como manjedoura onde nascemos.

Temos de olhar para os nossos dias e sentir que não somos nós que estamos a construir uma manjedoura; é Deus que faz do tempo da nossa vida, deste tempo onde estamos, deste aqui e agora, o lugar da nossa confirmação, o lugar do nosso nascimento. Abramos, por isso, o nosso coração em alegria."

P. José Tolentino Mendonça
Capela do Rato, Lisboa, 21 de dezembro de 2014

sábado, 2 de dezembro de 2017

Tempo de Cura

Natal, tempo para curar feridas

«Permiti-me que vos exorte a transformar este Santo Natal numa verdadeira ocasião para curar cada ferida e para curar-se de cada falta. »

«Por isso exorto-vos a curar a vossa vida espiritual, a vossa relação com Deus, porque ela é a coluna vertebral de tudo o que fazermos e de tudo o que somos. Um cristão que não se alimenta com a oração, os sacramentos e a Palavra de Deus, inevitavelmente vai desfalecendo e seca.»

«Curar a vossa vida familiar, dando aos vossos filhos e aos vossos queridos não apenas dinheiro, mas sobretudo tempo, atenção e amor.»

«Curar as vossas relações com os outros, transformando a fé em vida e as palavras em boas obras, especialmente para os mais necessitados.»

«Curar o vosso falar, purificando a língua das palavras ofensivas, da vulgaridade e do léxico da decadência mundana.»

«Curar as feridas do coração com o óleo do perdão, perdoando as pessoas que nos feriram e tratando as feridas que infligimos aos outros.»

«Curar o vosso trabalho, fazendo-o com entusiasmo, com humildade, com competência, com paixão, com alma que sabe agradecer a Deus.»

«Curar-se da inveja, da concupiscência, do ódio e dos sentimentos negativos que devoram a nossa paz interior e nos transformam em pessoas destruídas e destrutivas.»

«Curar-se do rancor que nos conduz à vingança e da indolência que nos conduz à eutanásia essencial, do apontar o dedo que nos conduz à soberba, e do lamentar-se continuamente que nos conduz ao desespero.»

«Eu sei que algumas vezes, para conservar o trabalho, fala-se mal de alguém para defesa própria; entendo estas situações, mas o caminho não acaba bem – no fim seremos todos destruídos entre nós e isso não serve.»

«Pedir a Deus a sabedoria de morder a língua a tempo para não dizer palavras injuriosas que mais tarde te deixam a boca amarga.»

«Curar os irmãos frágeis (...), os idosos, os doentes, os esfomeados, os sem-abrigo e os estrangeiros, porque por isto seremos julgados.»

«Curar o santo Natal, para que ele não seja nunca uma festa do consumismo comercial, da aparência ou dos presentes inúteis, ou dos gastos supérfluos, mas da alegria de acolher o Senhor no presépio do coração».

Imaginemos como o nosso mundo mudaria se cada um de nós começasse agora, e aqui, a curar-se seriamente e a curar generosamente a sua relação com Deus e com o próximo. Cada um de nós pode pensar: qual é a coisa que precisa mais de cura? E curá-la.»

«Mas sobretudo a família, a família é um tesouro, os filhos são um tesouro. Uma pergunta que os jovens pais podem fazer-se: tenho tempo para brincar com os meus filhos, ou estou sempre comprometido, comprometida, e não tenho tempo para eles? Deixo a perguntar. Brincar com os filhos é semear o futuro.»

Papa Francisco no Encontro natalício com os colaboradores da Santa Sé
Vaticano, 22 de dezembro de 2014
Tradução e adaptação de Rui Jorge Martins , publicado em SNPC

sábado, 21 de outubro de 2017

Como seres inacabados

«Nas mãos do oleiro/ o universo descobre-se/ inacabado»

Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora de tempo, na nossa vida. E numa vida adulta avançada, muitas vezes é isto que experimentamos: descobrimo-nos inacabados porque nos descobrimos nas mãos do oleiro.

É importante associar a experiência da vida em aberto e a experiência de estarmos a viver continuamente um processo de criação.

Este dia da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, em que parece que já vivemos tudo o que havia a viver, é um dia da criação.

«O que se instala na perfeição/ desconhece aquilo/ que só a indigência revela»

Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a ideia ou desejo de perfeição, porque eles se configuram como o anseio de sair para fora da nossa vida, imaginar uma vida outra, viver com a culpa ou a miragem de uma vida que não é nossa.

O objetivo do trabalho espiritual não é colocar-nos fora de órbita, mas reenviar-nos para o coração da existência, para o que somos, abrindo-nos para uma arte inesperada que é a da indigência - percebermos que na nossa imperfeição há uma sabedoria que está a ser revelada.

A verdadeira sabedoria, que nos faz tocar o coração da vida, é a da indigência, da pobreza, do tosco. Tudo o resto são fórmulas, que podem até ser úteis, mas não são a experiência; podem ser um belo sentimento, uma bela paixão, mas não são aquilo que nós podemos viver.

«Diariamente repito/ escolhas e imperfeições:/ a natureza dos seres em solidão»

É importante percebermos que a nossa escolha é sempre imperfeita, e que diariamente habitamos o imperfeito de forma estável.

É importante levarmos a sério a nossa própria vida, aquilo que somos, abraçarmos a nossa solidão. Porque esse abraço àquilo que somos de forma desprevenida, despojada, é a única possibilidade de um abraço de Deus, a única possibilidade de um abraço que nos salva.

«O meu desejo na primavera:/ que mesmo as flores selvagens/ venham florir à minha porta»

Gostamos da arte da jardinagem, e por vezes a nossa vida é uma arte permanente. Olhamos para o jardim, gostamos, não gostamos, intervimos, cortamos, cerceamos; é muitas vezes um jardim à maneira francesa, com aquele gosto pelas figuras geométricas, pelas formas, pelo jogo da simetria, pelo pandã.

Por vezes, a nossa forma de arrumação torna-se uma obsessiva ilusão, porque a vida é viva, isto é, é informe, em bruto, não trabalhada. Temos de desejar os nossos canteiros muito bem ordenados e floridos, mas também desejar que as flores selvagens, de que não conhecemos o nome nem a forma, venham florir à nossa porta.

Elas dão-nos o espelho do nosso inacabamento, dão-nos a impressão não de uma vida doméstica, que é sempre uma vida domesticada, mas a impressão de uma vida outra, de uma vida na sua torrente, na sua originalidade, na sua verdade.

«A vida monástica/ é uma forma de nudez/ que não se envergonha de si»

É essencial olharmos para uma das imagens iniciais do livro do Génesis, quando Adão e Eva se descobriram nus e se esconderam de Deus. Esta metáfora é também muito da nossa existência.

A nossa vida espiritual é muitas vezes uma arte de esconder, uma arte de não revelar. E a vida que mostramos a Deus é subtraída, é uma vida que nós queremos ser digna de ser vista por Deus, mas que deixa de ser a nossa própria vida.

Os mestres da vida espiritual mostram-nos precisamente o contrário: a Deus, temos de levar a nossa nudez, isto é, a nossa radical verdade, a vida destapada, desoculta e informe."

José Tolentino Mendonça 

Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, Lumiar, Lisboa a 9 de novembro de 2013
In SNPC

sábado, 26 de abril de 2014

Mira Schendel, uma artista ainda desconhecida


Uma obra espiritual

Fui ver uma exposição a Serralves, no Porto, de uma artista brasileira do século passado - não nasceu no Brasil. Fiquei impressionado com a densidade - e em simultâneo a leveza - do seu trabalho, tão rico quanto subtil e sensível. Mira Schendel é efectivamente uma das grandes artistas sul-americanas do século XX e, pasme-se, o seu trabalho é muito pouco conhecido a nível internacional. Aconselho vivamente os leitores deste blog a irem conhecer o seu trabalho, na maior retrospectiva jamais feita da sua obra.

"Arte é nostalgia de Deus, não precisa pintar aquilo que se vê, nem aquilo que se sente, mas aquilo que vive em nós [...]. Tanta dor me levou a um meio de expressão. Não sei se minha pintura é grande, só sei que é arte."
Mira Schendel


Para saber mais:
mira schendel: o corpo e a alma
mira schendel em serralves

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O papa fala aos jovens

Por ocasião do Dia Mundial da Juventude (próximo Domingo de Ramos), aqui vão aguns excertos da mensagem do papa Francisco:

Queridos jovens,

(…) gostaria nos próximos três anos de reflectir, juntamente convosco, sobre as Bem-aventuranças que
lemos no Evangelho de São Mateus (5, 1-12). Começaremos este ano meditando sobre a primeira: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5, 3); para 2015, proponho: "Felizes os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5, 8); e finalmente, em 2016, o tema será: "Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7).

A força revolucionária das Bem-aventuranças

É-nos sempre muito útil ler e meditar as Bem-aventuranças! Jesus proclamou-as no seu primeiro grande sermão, feito na margem do lago da Galileia. Havia uma multidão imensa e Ele, para ensinar os seus discípulos, subiu a um monte; por isso é chamado o "sermão da montanha". Na Bíblia, o monte é visto como lugar onde Deus Se revela; pregando sobre o monte, Jesus apresenta-Se como mestre divino, como novo Moisés. E que prega Ele? Jesus prega o caminho da vida; aquele caminho que Ele mesmo percorre, ou melhor, que "é" Ele mesmo, e propõe-no como "caminho da verdadeira felicidade". Em
toda a sua vida, desde o nascimento na gruta de Belém até à morte na cruz e à ressurreição, Jesus encarnou as Bem-aventuranças. Todas as promessas do Reino de Deus se cumpriram n'Ele.

Ao proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a segui-Lo, a percorrer com Ele o caminho do amor, o único que conduz à vida eterna. Não é uma estrada fácil, mas o Senhor assegura-nos a sua graça e nunca nos deixa sozinhos. Na nossa vida, há pobreza, aflições, humilhações, luta pela
justiça, esforço da conversão quotidiana, combates para viver a vocação à santidade, perseguições e muitos outros desafios. Mas, se abrirmos a porta a Jesus, se deixarmos que Ele esteja dentro da nossa história, se partilharmos com Ele as alegrias e os sofrimentos, experimentaremos uma paz e uma alegria que só Deus, amor infinito, pode dar.

As Bem-aventuranças de Jesus são portadoras duma novidade revolucionária, dum modelo de felicidade oposto àquele que habitualmente é transmitido pelos "mass media", pelo pensamento dominante. Para a mentalidade do mundo, é um escândalo que Deus tenha vindo para Se fazer um de nós, que tenha morrido numa cruz. Na lógica deste mundo, aqueles que Jesus proclama felizes são considerados "perdedores", fracos. Ao invés, exalta-se o sucesso a todo o custo, o bem-estar, a arrogância do poder, a afirmação própria em detrimento dos outros.

Queridos jovens, Jesus interpela-nos para que respondamos à sua proposta de vida, para que decidamos qual estrada queremos seguir a fim de chegar à verdadeira alegria. Trata-se dum grande desafio de fé. Jesus não teve medo de perguntar aos seus discípulos se verdadeiramente queriam segui-Lo ou preferiam ir por outros caminhos (cf. Jo 6, 67). E Simão, denominado Pedro, teve a coragem de responder: "A quem iremos nós, Senhor? Tu tens  palavras de vida eterna" (Jo 6, 68). Se souberdes, vós também, dizer "sim" a Jesus, a vossa vida jovem encher-se-á de significado, e assim será fecunda.

A coragem da felicidade

O termo grego usado no Evangelho é makarioi, "bem-aventurados". E bem-aventurados quer dizer felizes. Mas dizei-me: vós aspirais deveras à felicidade? Num tempo em que se é atraído por tantas aparências de felicidade, corre-se o risco de contentar-se com pouco, com uma ideia "pequena" da vida. Vós, pelo contrário, aspirai a coisas grandes! Ampliai os vossos corações! Como dizia o Beato Pierjorge Frassati, "viver sem uma fé, sem um património a defender, sem sustentar numa luta contínua a verdade, não é viver, mas ir vivendo. Não devemos jamais ir vivendo, mas viver" ("Carta a I. Bonini", 27 de Fevereiro de 1925). Em 20 de Maio de 1990, no dia da sua beatificação, João Paulo II chamou-lhe "homem das Bem-aventuranças".

Se verdadeiramente fizerdes emergir as aspirações mais profundas do vosso coração, dar-vos-eis conta de que, em vós, há um desejo inextinguível de felicidade, e isto permitir-vos-á desmascarar e rejeitar as numerosas ofertas "a baixo preço" que encontrais ao vosso redor. Quando procuramos o sucesso, o prazer, a riqueza de modo egoísta e idolatrando-os, podemos experimentar também momentos de inebriamento, uma falsa sensação de satisfação; mas, no fim de contas, tornamo-nos escravos, nunca estamos satisfeitos, sentimo-nos impelidos a buscar sempre mais. É muito triste ver uma juventude "saciada", mas fraca.

Escrevendo aos jovens, São João dizia: "Vós sois fortes, a palavra de Deus permanece em vós e vós vencestes o Maligno" (1 Jo 2, 14). Os jovens que escolhem Cristo são fortes, nutrem-se da sua Palavra e não se "empanturram" com outras coisas. Tende a coragem de ir contra a corrente. Tende a coragem
da verdadeira felicidade! Dizei não à cultura do provisório, da superficialidade e do descartável, que não vos considera capazes de assumir responsabilidades e enfrentar os grandes desafios da vida.

Felizes os pobres em espírito...

A primeira Bem-aventurança, tema da próxima Jornada Mundial da Juventude, declara felizes "os pobres em espírito", porque deles é o Reino do Céu. Num tempo em que muitas pessoas penam por causa da crise económica, pode parecer inoportuno acostar pobreza e felicidade. Em que sentido podemos conceber a pobreza como uma bênção?

Em primeiro lugar, procuremos compreender o que significa "pobres em espírito". Quando o Filho de Deus Se fez homem, escolheu um caminho de pobreza, de despojamento. Como diz São Paulo, na Carta aos Filipenses: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus: Ele, que
é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens" (2, 5-7). Jesus é Deus que Se despoja da sua glória. Vemos aqui a escolha da pobreza feita por Deus: sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). É o mistério que contemplamos no presépio, vendo o Filho de Deus numa manjedoura; e mais tarde na cruz, onde o despojamento chega ao seu ápice.

O adjectivo grego ptochós (pobre) não tem um significado apenas material, mas quer dizer "mendigo". Há que o ligar com o conceito hebraico de anawim (os "pobres de Iahweh"), que evoca humildade, consciência dos próprios limites, da própria condição existencial de pobreza. Os anawim confiam no Senhor, sabem que dependem d'Ele.

Como justamente soube ver Santa Teresa do Menino Jesus, Cristo na sua Encarnação apresenta-Se como um mendigo, um necessitado em busca de amor. O Catecismo da Igreja Católica fala do homem como dum "mendigo de Deus" (n. 2559) e diz-nos que a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa (n. 2560).

São Francisco de Assis compreendeu muito bem o segredo da Bem-aventurança dos pobres em espírito. De facto, quando Jesus lhe falou na pessoa do leproso e no Crucifixo, ele reconheceu a grandeza de Deus e a própria condição de humildade. Na sua oração, o *Poverello* passava horas e horas a perguntar ao Senhor: "Quem és Tu? Quem sou eu?" Despojou-se duma vida abastada e leviana, para desposar a "Senhora Pobreza", a fim de imitar Jesus e seguir o Evangelho à letra. Francisco viveu "a imitação de Cristo pobre e o amor pelos pobres" de modo indivisível, como as duas faces duma mesma moeda.

Posto isto, poder-me-íeis perguntar: Mas, em concreto, como é possível fazer com que esta *pobreza em espírito* se transforme em estilo de vida, incida concretamente na nossa existência? Respondo-vos em três pontos.

Antes de mais nada, procurai "ser livres em relação às coisas". O Senhor chama-nos a um estilo de vida evangélico caracterizado pela sobriedade, chama-nos a não ceder à cultura do consumo. Trata-se de buscar a essencialidade, aprender a despojarmo-nos de tantas coisas supérfluas e inúteis que nos sufocam. Desprendamo-nos da ambição de possuir, do dinheiro idolatrado e depois esbanjado. No primeiro lugar, coloquemos Jesus. Ele pode libertar-nos das idolatrias que nos tornam escravos. Confiai em Deus, queridos jovens! Ele conhece-nos, ama-nos e nunca se esquece de nós. Como
provê aos lírios do campo (cf. Mt 6, 28), também não deixará que nos falte nada! Mesmo para superar a crise económica, é preciso estar prontos a mudar o estilo de vida, a evitar tantos desperdícios. Como é necessária a coragem da felicidade, também é precisa a coragem da sobriedade.

Em segundo lugar, para viver esta Bem-aventurança todos necessitamos de "conversão em relação aos pobres". Devemos cuidar deles, ser sensíveis às suas carências espirituais e materiais. A vós, jovens, confio de modo particular a tarefa de colocar a solidariedade no centro da cultura humana. Perante
antigas e novas formas de pobreza - o desemprego, a emigração, muitas dependências dos mais variados tipos -, temos o dever de permanecer vigilantes e conscientes, vencendo a tentação da indiferença. Pensemos também naqueles que não se sentem amados, não olham com esperança o futuro, renunciam a comprometer-se na vida porque se sentem desanimados, desiludidos, temerosos. Devemos aprender a estar com os pobres. Não nos limitemos a pronunciar belas palavras sobre os pobres! Mas encontremo-los, fixemo-los olhos nos olhos, ouçamo-los. Para nós, os pobres são uma
oportunidade concreta de encontrar o próprio Cristo, de tocar a sua carne sofredora.

Mas - e chegamos ao terceiro ponto - os pobres não são pessoas a quem podemos apenas dar qualquer coisa. Eles "têm tanto para nos oferecer, para nos ensinar". Muito temos nós a aprender da sabedoria dos pobres! Pensai que um Santo do século XVIII, Bento José Labre - dormia pelas ruas de Roma e vivia das esmolas da gente -, tornara-se conselheiro espiritual de muitas pessoas, incluindo nobres e prelados. De certo modo, os pobres são uma espécie de mestres para nós. Ensinam-nos que uma pessoa não vale por aquilo que possui, pelo montante que tem na conta bancária. Um pobre, uma pessoa sem bens materiais, conserva sempre a sua dignidade. Os pobres podem ensinar-nos muito também sobre a humildade e a confiança em Deus. Na parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-14), Jesus propõe este último como modelo, porque é humilde e se reconhece pecador. E a própria viúva, que lança duas moedinhas no tesouro do templo, é exemplo da generosidade de quem, mesmo tendo pouco ou nada, dá tudo (Lc 21, 1-4).

… porque deles é o Reino de Deus

Tema central no Evangelho de Jesus é o Reino de Deus. Jesus é o Reino de Deus em pessoa, é o Emanuel, Deus connosco. E é no coração do homem que se estabelece e cresce o Reino, o domínio de Deus. O Reino é, simultaneamente, dom e promessa. Já nos foi dado em Jesus, mas deve ainda realizar-se em plenitude. Por isso rezamos ao Pai cada dia: "Venha a nós o vosso Reino".

Há uma ligação profunda entre pobreza e evangelização, entre o tema da última Jornada Mundial da Juventude - "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" (Mt 28, 19) - e o tema deste ano: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5, 3). O Senhor quer uma Igreja pobre, que evangelize os pobres. Jesus, quando enviou os Doze em missão, disse-lhes: "Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem
cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento" (Mt 10, 9-10). A pobreza evangélica é condição fundamental para que o Reino de Deus se estenda. As alegrias mais belas e espontâneas que vi ao longo da minha vida eram de pessoas pobres que tinham pouco a que se agarrar. A evangelização,
no nosso tempo, só será possível por contágio de alegria.

Como vimos, a Bem-aventurança dos pobres em espírito orienta a nossa relação com Deus, com os bens materiais e com os pobres. À vista do exemplo e das palavras de Jesus, damo-nos conta da grande necessidade que temos de conversão, de fazer com que a lógica do "ser mais" prevaleça sobre a lógica
do "ter mais". Os Santos são quem mais nos pode ajudar a compreender o significado profundo das Bem-aventuranças. Neste sentido, a canonização de João Paulo II, no segundo domingo de Páscoa, é um acontecimento que enche o nosso coração de alegria. Ele será o grande patrono das Jornadas Mundiais da Juventude, de que foi o iniciador e impulsionador. E, na comunhão dos Santos, continuará a ser, para todos vós, um pai e um amigo.

(…)

Queridos jovens, o Magnificat, o cântico de Maria, pobre em espírito, é também o canto de quem vive as Bem-aventuranças. A alegria do Evangelho brota dum coração pobre, que sabe exultar e maravilhar-se com as obras de Deus, como o coração da Virgem, que todas as gerações chamam "bem-aventurada" (cf. Lc 1, 48). Que Ela, a mãe dos pobres e a estrela da nova evangelização, nos ajude a viver o Evangelho, a encarnar as Bem-aventuranças na nossa vida, a ter a coragem da felicidade.

Vaticano, 21 de Janeiro - Memória de Santa Inês, virgem e mártir - de 2014.

FRANCISCO

Sobre a Eucaristia

Porque a Páscoa se aproxima, parece-me oportuno algumas leituras em profundidade sobre o mistério da Eucaristia

Exigência da Eucaristia

A Eucaristia não é a conservação mágica de uma presença materializada, é a oferenda infinitamente real de uma presença universal à qual não podemos unir-nos senão tornando-nos nós próprios universais: na realidade a Eucaristia, que reúne toda a Igreja, que é o lugar eminente da Caridade, é uma exigência formidável.
É que a Eucaristia supõe que nós estejamos dispostos a todos os despojamentos, a todas as humildades, a todos os perdões que o nosso encontro com o Homem-Deus implica.
A Eucaristia implica que, para suscitar a humanidade dos nossos irmãos, para que os nossos irmãos se tornem ou sejam homens autênticos e verdadeiros, seja necessário mostrar-lhes em nós mesmos esse espaço ilimitado e silencioso onde se respira Deus!

Algumas comparações

Se a Eucaristia tem tanto valor para nós, é porque não se trata de maneira nenhuma de um rito mágico.
Tentemos algumas comparações, eu sei que é um terreno um pouco perigoso mas é preciso mesmo assim esclarecer a nossa religião.
Não é porque um livro está em cima da mesa que podemos agarrar, com a mão, a ciência que ele contém com a mão. É que o livro é o símbolo de um saber que nos será necessário assimilar por meio de uma presença espiritual: será preciso, para que ele signifique alguma coisa essencial para nós, que refaçamos à nossa escala todo o trabalho do escritor, todo o trabalho do sábio se for um livro de ciência, e é quando vós próprios tiverdes entrado no diálogo com a verdade que ele contém, que o livro terá cumprido a sua função.
A ciência não pode ser colocada em cima da mesa. Do mesmo modo que não se pode colocar a vossa amizade em cima da mesa, o vosso sorriso em cima da mesa, e pô-lo ao alcance da vossa mão ou da nossa.
Podeis trazer no vosso casaco a carta, e o pensamento, de um ser amado, mas sabeis muito bem que o pensamento do vosso amigo, tal como ele está expresso na carta, vós não o meteis no bolso. Colocais a carta no bolso, mas não o pensamento que ela exprime. Esse, vós colocai-lo no vosso espírito.
Na Eucaristia há algo de análogo: nós não pomos Deus em cima da mesa ou sobre o altar, não colocamos Deus na nossa boca ou no nosso bolso, mas há o pão e o vinho consagrados, como na carta, o veículo de uma presença real, do mesmo modo que a carta é o veículo de um pensamento real. E tal como não podeis entrar em contacto com esse pensamento real na carta ou no livro senão lendo a carta ou o livro, e assimilando espiritualmente o seu conteúdo, da mesma maneira para a Presença real eucarística: ela é infinitamente real, escusado será dizer, mas não é de modo nenhum local, de modo nenhum tangível, de modo nenhum fisicamente acessível, e de modo nenhum podeis entrar em contacto com ela senão através das espécies que, essas, podeis tocar.
Podeis tocar o pão e o vinho consagrados, transportá-los, consumi-los, bebê-los e comê-los, mas todos estes actos não se relacionam com a presença do Senhor, o pão e o vinho consagrados não são outra coisa senão o seu sacramento: a manducação física é o sinal que representa e realiza uma assimilação espiritual, se nós estivermos realmente presentes.

Presença real recíproca

Deus escapa-nos enquanto não vivermos na caridade, Deus escapa-nos enquanto não estivermos na corrente do amor. Deus escapa-nos enquanto não entrarmos nesse horizonte universal. De outro modo, ele seria então um «pequeno Bom Deus» feito à nossa medida, seria um ídolo!
Daqui resulta que a Eucaristia é essencialmente uma presença comunitária, uma presença à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.
Não é que Cristo não esteja presente: Ele está sempre inteiramente presente a cada um de nós! É que se nós não podemos ser presentes e interiores aos outros, no interior dos outros, porque somos limitados e as nossas fronteiras nos impedem essa presença aos outros, e porque o nosso egoísmo nos enclausura na nossa solidão, Cristo, Ele, não tem fronteiras, nem limites e, por conseguinte, é interior a cada um de nós: Ele habita-Se no interior dos outros.
Cristo já está portanto presente em todos, dignos ou indignos, Ele é presente em todos, nós é que não estamos presentes em Cristo, e na Eucaristia trata-se precisamente de nos tornarmos presentes nEle, de nos apossarmos dEle, não um apossar-se material, não! Trata-se de, com a nossa intimidade, assimilar esta intimidade de Deus que se nos oferece. E, precisamente, o gesto comunitário, se o realizarmos lealmente, vai dar os seus frutos.
Finalmente, que fazemos nós na liturgia? Não pronunciamos palavras mágicas para pôr Deus num cálice. Que fazemos na Eucaristia? Fazemos com que toda a humanidade invoque Cristo e se solidarize com Ele dizendo sobre Ele: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue!», vindo toda a humanidade colocar-se aos pés da Cruz.
E Cristo com as mesmas palavras investe a Sua comunidade e dá-Se à humanidade dizendo sobre ela: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue.» E, no termo da formulação destas palavras, a Presença real é realizada dos dois lados, e Cristo, na refeição da fraternidade, dá-Se verdadeiramente aos seus, dá-Se à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.

Uma comparação grosseira

Se quiserdes, ainda uma comparação extremamente grosseira: na missa, ligamos o rádio juntos para entrar em contacto e assimilar uma Presença que já lá está, precisamente como as ondas já lá estão na sala antes de acender o rádio, nós ligamos o rádio para captar essa Presença que é oferecida sempre, que já está em nós, mas à qual nós ainda não estamos presentes. As espécies eucarísticas são uma abertura para essa Presença.
Não se trata de imaginar que Cristo cai do céu sob a forma do pão e do vinho, trata-se bem de ver que o pão e o vinho se abrem a uma Presença que já lá está, interior a nós-mesmos, dada a cada um: ela abre-se e permite-nos entrar em contacto com ela porque, precisamente, as espécies são o símbolo da fraternidade visto que estamos ali numa refeição que reúne virtualmente a humanidade inteira e realiza um horizonte universal.
Nós não nos apossamos fisicamente de Cristo pela Eucaristia, apossamo-nos espiritualmente, e o sinal de que essa ligação espiritual é verdadeiramente realizada é que estamos juntos e realizamos juntos a comunidade humana da qual ninguém é excluído.
E isto é de tal modo verdade – ouvi bem – é de tal modo verdade que, se já não houvesse no mundo um só ser aberto pelo menos no estado de desejo, toda a consagração seria impossível, porque faltaria então a condição essencial: ser um apelo da comunidade, para a comunidade e na comunidade.
Se a consagração pudesse ser válida sem esta garantia de amor, sem esta garantia de uma intimidade humana oferecendo-se à intimidade de Deus, então Deus verdadeiramente seria apanhado na armadilha das fórmulas, e os sacramentos seriam ritos mágicos!
Mas não! Os sacramentos são o horizonte comunitário expresso por meio de sinais que comunicam realmente a presença de Deus tal como a carta comunica realmente o pensamento, tal como o livro comunica realmente a ciência, tal como um beijo comunica realmente a ternura sob a condição de que haja ternura, sob a condição de que as intimidades estejam reconciliadas e se fundem uma na outra.
É claro que, quando as portadas estão fechadas, o sol não pode penetrar, mas não é por culpa do sol. De igual modo Deus quando Ele está presente: se as nossas portadas estiverem fechadas, a sua presença permanece ineficaz.
É claro que todo o sobrenatural repousa sobre esta corrente de amor ao mesmo tempo que sobre esta comunhão da nossa intimidade com a intimidade de Deus: se separardes essa corrente de amor da nossa intimidade com Deus, já não existe senão magia!

A assimilação espiritual a Cristo

Se colocarmos um livro em cima da mesa, o livro contém na verdade o saber, mas o saber não está em cima da mesa, e é preciso que nós assimilemos o saber, e o livro é o sacramento do saber quando todo o nosso ser se abrir a ele.
Do mesmo modo, quando recebemos a carta de um amigo, podemos meter a carta no bolso mas não podemos meter no bolso o pensamento do amigo. O nosso pensamento e o nosso coração é que assimilam o conteúdo da carta: a carta é o sacramento do pensamento e da amizade ou do amor do amigo.
Da mesma maneira, não metemos Cristo na nossa boca quando comungamos. A manducação é o sacramento da nossa assimilação espiritual a Cristo que vem realizar-se através dela.
Sem amor não pode haver consagração válida: para que a consagração seja válida, é preciso que haja um apelo vindo do coração da comunidade e, se já não houvesse amor, já não haveria Igreja. A consagração supõe a comunidade que se dá como partilha de amor.
Todos os sacramentos têm um horizonte comunitário com um apelo universal, e não devemos fazer de Deus um ídolo: se já não houvesse uma intenção de amor no sacramento, já não haveria senão uma escandalosa magia!
O sacramento considerado a partir da aparência, sem a nossa presença sobrenatural, é um absurdo e uma negação de Deus e do homem. O sacramento traça um horizonte comunitário e preserva-nos assim da tentação de nele ver magia, e de reduzir Deus à nossa medida.
No sacramento é exigida a nossa presença.
O drama do sobrenatural mágico é de todos os tempos. E na medida em que a cristandade adere a este drama, ela tem a obrigação perante a humanidade de se insurgir contra esse Deus limite e obstáculo, colocado sob tutela.
A nossa intimidade com Deus não pode constituir-se senão como presença a um Deus sem limites e sem fronteiras.

(textos extraídos de MAURICE ZUNDEL, Un autre regard sur l’Eucharistie –Textes inédits présentés par Paul Debains. Paris, Éditions du Jubilé, 2006)


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A vontade de Deus

O êxtase das Vossas vontades

Quando aqueles que amamos nos pedem alguma coisa, ficamos-lhes gratos por no-lo pedirem.

Senhor, se quisésseis pedir-nos uma única coisa em toda a nossa vida, ficaríamos maravilhados, e ter feito a Vossa vontade essa única vez seria o acontecimento da nossa existência.

Mas, como em cada dia, cada hora, cada minuto, Vós colocais nas nossas mãos uma tal honra, nós achamos isso tão natural que lhe somos indiferentes, que estamos cansados disso.

E contudo, se compreendêssemos até que ponto o Vosso mistério é impensável, ficaríamos estupefactos por poder conhecer essas centelhas do Vosso querer que são os nossos minúsculos deveres. Ficaríamos deslumbrados por conhecer, nessa imensa treva que nos cobre, as inumeráveis, as precisas, as pessoais luzes das Vossas vontades.

No dia em que compreendêssemos isto, caminharíamos na vida como espécies de profetas, como videntes das Vossas pequenas providências, como agentes das Vossas intervenções. Nada seria medíocre, porque tudo seria querido por Vós.

Nada seria demasiado pesado, porque tudo teria origem em Vós.

Nada seria triste, porque tudo de Vós seria querido.

Nada seria enfadonho, porque tudo seria amor de Vós.

Nós todos estamos predestinados para o êxtase, todos chamados a sair das nossas pobres combinações, para surgir, hora após hora, no Vosso plano.

Nós nunca somos lamentáveis rejeitados, mas ditosos convocados, chamados a saber aquilo que Vos agrada fazer, chamados a saber o que esperais de nós em cada instante: pessoas que Vos são um pouco necessárias, pessoas cujos gestos faltariam se nos recusássemos a fazê-los. O novelo de algodão a cerzir, a carta a escrever, a criança a levantar, o marido a desanuviar, a porta a abrir, o telefone a atender, a enxaqueca a suportar: tantos trampolins para o êxtase, tantas pontes para passar da nossa pobre, da nossa má vontade, à margem serena do Vosso bom prazer.

[Madeleine DELBREL (1904-1964) extraído de Alcide, colecção Livre de vie, Seuil, pg. 89-91.]



Tradução de José Mendonça

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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