Um artigo de John L. Allen Jr., publicado no
National Catholic Reporter, a 13 de Agosto de 2010 revela-nos um pouco mais d
a relação que os italianos têm com a Igreja católica:
"A título de prefácio, vou admitir que não há razão, à partida, para que as vicissitudes da Igreja na Itália sejam relevantes para, digamos, a República Democrática do Congo, as Filipinas, ou os Estados Unidos – países cujas populações católicas ultrapassam a do
Bel paese.
No entanto, a Itália desponta como um país desproporcionalmente grande por, pelo menos, duas razões. A primeira é
o papel histórico da Igreja e do papado na Itália, sendo que praticamente
tudo o que acontece ou deixa de acontecer aí é visto como um referendo sobre a influência da Igreja. Em segundo lugar,
a Itália é como um segundo lar para uma grande faixa dos legisladores, intelectuais e activistas da Igreja.
Como resultado disto,
quando a Igreja italiana espirra, o mundo católico tende a apanhar gripe.
Nesta perspectiva, os católicos de todo o mundo podem querer aumentar o stock de canja e de Becêgripe antes de consultarem a edição actual da revista
Il Regno, uma conhecida publicação católica italiana dos padres dehonianos, que apresenta os resultados de
uma investigação abrangente sobre o comportamento e a fé religiosa italiana liderada pelo sociólogo Paolo Segatti, da Universidade de Milão.
A preocupante conclusão de Segatti é que,
dentro de uma geração, os católicos podem ser uma minoria em Itália. O estudo traz um título provocador: "
Sobre a Itália religiosa: De católica a genericamente cristã".
Na verdade, os resultados não são tão maus para a Igreja:
• 81,3% dos italianos identificam-se como católicos (oficialmente falando, 96% foram baptizados como católicos).
• Quase 28% dos católicos italianos vão à missa pelo menos uma vez por semana, uma taxa comparável à dos Estados Unidos e extraordinariamente alta para os padrões europeus.
• Quase 60% dos italianos dizem sentir-se pessoalmente ofendidos quando ouvem alguém falar mal da Igreja ou do Papa.
• Quase metade dos italianos dizem que é importante ser católico para ser um "verdadeiro italiano".
• Mais de dois terços dos italianos, 67,8%, dizem confiar na Igreja, um resultado significativamente superior a qualquer parlamento nacional ou partido político.
Esses resultados parecem ser basicamente impressionantes para um país no coração da
Europa ocidental contemporânea, onde o secularismo faz parte do pacote cultural básico. Pode-se entender a razão de alguns especialistas afirmarem que a secularização está realmente a ser "travada" ou até "revertida" na Itália.
O aspecto mais marcante dos dados de Segatti, porém, é o
grande gap geracional entre os nascidos depois de 1981 – ou seja, qualquer pessoa com menos de 30 anos –
e os italianos mais velhos, especialmente aqueles com 65 anos ou mais:
• Embora 27% dos italianos em geral irem à missa pelo menos uma vez por semana, a taxa é de 44% para o grupo com 65 anos ou mais, e de apenas 13% para a população com menos de 30 anos.
• Embora 72% dos italianos dizerem que acreditam em Deus, a taxa é de 80% para os que têm mais de 65 anos, e um pouco mais de 50% para os menores de 30 anos.
• Apenas 14% dos italianos com menos de 30 anos dizem que "frequentemente" se consideram católicos, e apenas 28% pensam que há alguma ligação entre ser católico e ser italiano.
• Embora 77% dos italianos com mais de 65 dizerem confiar na Igreja, esse número cai para menos da metade, 44%, entre os menores de 30 anos.
Analisando as crenças e as práticas dos italianos mais jovens, Segatti escreve: "
Tem-se a sensação de se observar um mundo diferente", um mundo que "oferece um lampejo de
um futuro em que os crentes em Deus são uma minoria".
Há ainda um conjunto de resultados preocupantes para os líderes católicos: ou seja, o fraco papel da Igreja no debate público.
Diante de uma longa lista de questões sociais palpitantes – incluindo os cuidados paleativos, o aborto, a homossexualidade, o desemprego, a imigração e o comportamento moral pessoal dos políticos: a maioria dos italianos em praticamente todos os casos disseram que
o facto de se pronunciar sobre esses assuntos não deveria fazer parte da missão da Igreja. A única excepção foi o desemprego, em que 51% disseram que a Igreja deve fazer com que sua posição seja conhecida – talvez reflectindo a tradição da doutrina social católica, assim como o importante papel do trabalho organizado na Itália.
Segatti tira a seguinte conclusão: "
A religiosidade dos italianos tem assumido características que forçam as instituições eclesiásticas, se quiserem desempenhar um papel na esfera pública, a competir com as forças seculares. Mais frequentemente do que parece, elas sucumbem a essas forças seculares na formação das opiniões dos seus próprios fiéis sobre questões públicas".
O futuro da religião na Itália, conclui Segatti, será "mais diversificado e evanescente", já que "
um país, que atrás foi católico, torna-se genericamente cristão"."
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=35471
a imagem é um trabalho de Andy Warhol sobre a última ceia de Leonardo da Vinci.