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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sábado, 7 de abril de 2018

Igreja é Comunhão

«Comunhão», um dos mais belos nomes da Igreja

Se nos pudéssemos lembrar sempre de que Cristo é comunhão ...

Ele não veio à Terra para criar mais uma religião, mas para dar a todos a possibilidade de uma comunhão em Deus. Os seus discípulos são chamados a, humildemente, ser fermento de confiança e de paz na humanidade.

Quando a comunhão entre os cristãos é uma vivência, e não uma teoria, transporta um brilho de esperança. Mais ainda: ela pode sustentar a indispensável busca da paz do mundo.

Assim sendo, como é que os cristãos podem continuar ainda separados?

A reconciliação dos cristãos é hoje urgente. Não pode ser eternamente adiada para mais tarde, até ao fim dos tempos.

Ao longo dos anos, a vocação ecuménica proporcionou partilhas extraordinárias. São as premissas de uma reconciliação. Mas quando a vocação ecuménica não se concretiza em comunhão, não leva a lado nenhum.

O Patriarca ortodoxo grego de Antioquia, Inácio IV, é o autor destas palavras impressionantes: «As nossas divisões tornam Cristo irreconhecível. Precisamos urgentemente de iniciativas proféticas que façam sair o ecumenismo dos meandros nos quais receio que se esteja a enterrar. Temos uma necessidade urgente de profetas e de santos que ajudem as nossas Igrejas a converterem-se através do perdão recíproco.» E o Patriarca apelava a que se «privilegiasse a linguagem da comunhão em vez da linguagem da jurisdição».

O papa João Paulo II, ao receber em Roma os responsáveis da Igreja Ortodoxa da Grécia, falava do «ecumenismo da santidade, que nos conduzirá por fim à comunhão plena, que não é nem uma absorção nem uma fusão, mas um encontro na verdade e no amor».

Na longa história dos cristãos, a certa altura, multidões de crentes deram por si separadas, por vezes sem sequer saberem porquê. Hoje é essencial fazer tudo para que o maior número possível de cristãos, frequentemente inocentes nessas separações, se descubram em comunhão.

Será que a Igreja pode dar sinais de grande abertura, tão grande que se possa constatar que os que no passado estavam divididos já não estão separados, mas vivem agora em comunhão?

Será dado um passo em frente quando se verificar que existe já uma vida de comunhão em alguns lugares do mundo. Será preciso coragem para o constatarmos e para nos adaptarmos. Os textos virão depois. Se privilegiarmos os textos, não acabaremos por nos distanciar da interpelação do Evangelho: «Vai primeiro reconciliar-te»?

São inúmeras as pessoas que desejam a reconciliação do fundo do coração. Aspiram a esta alegria infinita: um só amor, um só coração e uma só e mesma comunhão.

Sim, a comunhão é a pedra de toque. Ela nasce em primeiro lugar no coração de cada cristão, no silêncio e no amor. Começa, desde logo, no interior de cada pessoa.
Há cristãos que, sem esperar mais, vivem já reconciliados nos lugares onde se encontram, de forma muito humilde e simples.

Através das suas próprias vidas, gostariam de tornar Cristo presente para muitas outras pessoas. Sabem que a Igreja não existe para si mesma, mas para o mundo, para nele depositar um fermento de paz.

«Comunhão» é um dos mais belos nomes da Igreja: nela não há lugar para a brusquidão recíproca, mas apenas para a clareza, a bondade do coração, a compaixão...

Nesta comunhão única que é a Igreja, Deus dá-nos tudo para irmos às fontes: o Evangelho, a Eucaristia, a paz do perdão... E a santidade de Cristo deixa de ser inalcançável; está presente, muito próxima.

Permitam-me que volte a dizer que a minha avó materna descobriu, intuitivamente, uma espécie de chave da vocação ecuménica e que ela me abriu um caminho para a concretizar.

Depois da Primeira Guerra Mundial, habitava nela o desejo de que ninguém tivesse de viver aquilo que ela tinha vivido: na Europa, os cristãos tinham pegado em armas para combater uns contra os outros. Que ao menos eles se reconciliem para tentar impedir uma nova guerra, pensava ela. A minha avó era de origem evangélica mas, começando a reconciliação por si própria, começou a ir à igreja católica, sem, no entanto, romper com as pessoas da sua tradição.

Marcado pelo testemunho da sua vida, e ainda muito novo, encontrei a minha identidade de cristão seguindo as suas pisadas, reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé católica, sem quebrar a comunhão com ninguém.

Ir. Roger de Taizé
In "Não pressentes a felicidade?", ed. Paulinas
Publicado em Janeiro de 2015 in SNPC

segunda-feira, 19 de março de 2018

Frederico Lourenço: Jesus e as prostitutas

Jesus e as Prostitutas

Voltando à eterna questão «Cristão e gay, uma equação difícil de resolver» a que fiz brevemente alusão num post de Facebook a propósito do homossexual casado com um homem que foi impedido de ser padrinho de crisma por um padre que leva à letra a letra da doutrina cristã sobre a homossexualidade (Romanos 1:26-32; 1 Coríntios 6:10), gostaria de focar agora um aspecto curioso que, na minha qualidade de gay ex-católico, que toda a vida dialogou com entusiasmo (e dialoga ainda) com cristãos de todas as denominações, me chama a atenção há muitos anos.

Não falo agora de diálogos com cristãos como o padre literalista que recusou aceitar como padrinho de crisma alguém que, na opinião dele, não levava uma vida consentânea com a fé cristã. Falo, antes, dos muitos diálogos que tenho tido com cristãos progressistas, com padres católicos de espírito arejado e aberto (felizmente eles não faltam «no terreno»), com protestantes eclesiásticos e laicos.

Um tema que vem sempre à baila é, em primeiro lugar, a questão de a mensagem de Jesus ser «Deus é amor» (frase que nunca é atribuída no Novo Testamento a Jesus, mas que não é impossível que ele realmente tenha dito; cf. 1 João 4:8); outra questão é a pretensa amizade e solidariedade de Jesus com profissionais do sexo: com prostitutas.

Já ouvi muitas vezes as pessoas dizerem-me com a melhor das intenções, «se Jesus conviveu com prostitutas e as perdoou e disse que elas entravam à frente dos sumo-sacerdotes no reino de Deus, também teria a mesma atitude em relação aos gays».

Bom, não vou comentar a facilidade com que ocorre à mente de certos cristãos a equivalência «gay ~ puta», mas vou comentar a ideia fantasiosa do excelente relacionamento que as pessoas projectam na pessoa de Jesus face às prostitutas. É uma ilusão.

Se lermos todas as frases que são atribuídas a Jesus pelos evangelistas, vemos que ele pronuncia a palavra «prostituta» apenas três vezes, sendo que a terceira é em discurso indirecto, quando pela boca de Jesus ouvimos o irmão do Filho Pródigo a acusá-lo de ter torrado o dinheiro do pai com prostitutas (Lucas 15:30). De resto, Jesus só fala em prostitutas em duas frases consecutivas do Evangelho de Mateus: 21:31 e 21:32.

Em Mateus 21:31, o contexto é uma discussão de Jesus com os sumo-sacerdotes e anciãos sobre o homem que tinha dois filhos. A um deu uma ordem a que o filho obedeceu primeiramente, mas depois desistiu dela; ao outro, deu uma ordem a que o filho desobedeceu, mas à qual ele depois decidiu obedecer. Jesus pergunta aos sumo-sacerdotes: qual dos dois filhos fez a vontade do pai, o primeiro ou o segundo? A resposta deles é: «o primeiro». É face a esta resposta, que valoriza o comportamento de alguém que deu a aparência de obedecer ao pai mas cuja obediência não passou de fachada hipócrita, que Jesus exclama: «Amém vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas entram antes de vós no reino de Deus».

A frase parece maravilhosa, porque dá a entender que as prostitutas entrarão no reino de Deus. Mas não é essa a única interpretação possível da frase. O que Jesus está a dizer também se presta a ser interpretado como uma condição impossível, análoga à frase «no dia de São Nunca à tarde». O que ele parece estar a dizer aos sumo-sacerdotes é que, para eles entrarem no reino de Deus, teriam primeiro de entrar os cobradores de impostos (!!) e as prostitutas (!!!).

No versículo seguinte (Mateus 21:32), Jesus critica os mesmos sumo-sacerdotes por não terem acreditado em João Baptista, quando (diz Ele) até os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram. Mais uma vez, o uso do termo «prostitutas» parece funcionar mais para fustigar e humilhar os sumo-sacerdotes do que para dar uma imagem reabilitável das prostitutas. «Vocês são piores do que prostitutas!» é uma interpretação válida das duas únicas frases em que Jesus fala em profissionais do sexo. Porque, na realidade, Ele está é a falar dos sumo-sacerdotes.

Agora: onde é que se foi buscar a ideia de que Jesus convivia com prostitutas e as aceitava ao ponto de, por indução «lógica», se extrapolar para a probabilidade de ele poder ter tido a mesma atitude em relação aos gays (e volto a não comentar a equação, que salta à vista de tantos cristãos, «gay ~ puta»)?

Muitas pessoas parecem pensar que Maria Madalena era uma prostituta que Jesus acolheu como discípula; mas isso nunca é dito em nenhuma frase do Novo Testamento. Também a «mulher pecadora» («gunê hamartôlós») de Lucas 7:36-50, que lava os pés de Jesus e os seca com os seus cabelos, é muitas vezes vista como prostituta; mas isso, mais uma vez, não está no texto. O que Jesus diz de concreto sobre a vida passada desta mulher é que ela «amou muito» («êgápêsen polú»). Não me parece que isso seja um eufemismo para «prostituiu-se muito» (até porque, em linguagem bíblica, quando é isso que está a ser dito, é dito com todas as letras: basta ler as versões gregas de Oseias e de Ezequiel).

Talvez a mulher que seca os pés de Jesus com os seus cabelos tenha sido uma mulher que AMOU mais do que um homem – como a Samaritana, ou a Mulher Adúltera, do Evangelho de João. De nenhuma delas se diz no Novo Testamento que eram prostitutas. «Amaram muito». Talvez demais. Mas isso é outra coisa. Não é prostituição.

Na verdade, das quatro vezes que Jesus pronuncia a palavra «prostituição» (Mateus 5:32; 15:19; 19:9; Marcos 7:21), a conotação é fortemente negativa. Em dois casos constitui motivo de divórcio: é a única justificação para o divórcio, aliás, coisa em relação à qual Jesus é tão taxativamente reprovador nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas (mas não no de João, evangelho em que o tema do divórcio está ausente).

Em jeito de conclusão: a tod@s @s amig@s homossexuais, aconselho que, da próxima vez que vos disserem que Jesus vos aceita porque «aceitava as prostitutas», por favor recomendem aos vossos interlocutores que leiam o Novo Testamento.

Artigo de Frederico Lourenço, escritor, tradutor e professor universitário. Texto publicado originalmente no Facebookin dezanove em 7 de junho de 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

Sete perguntas sobre Jesus

1. Jesus existiu?
Sim. A sua historicidade é comummente admitida. Se o Novo Testamento e os escritos dos primeiros Padres da Igreja constituem o material mais abundante para os historiadores, estes apoiam-se também nos testemunhos de autores profanos. Nas "Antiguidades judaicas", o historiador judeu Flávio Josefo (que morreu cerca do ano 100) alude a Jesus no âmbito do processo de Tiago, «irmão de Jesus, chamado o Cristo».

Arquivista na corte do imperador Adriano, Suetónio evoca em "As vidas dos doze césares" «judeus que não cessavam de perturbar a cidade (Roma) por causa de um certo "Christus"». Tácito, outro historiador romano, descreve o incêndio que destruiu Roma em 64, causado, segundo o imperador Nero, pelos cristãos: «Este nome de cristão vem-lhes do nome de Cristo, que foi condenado no reino de Tibério, pelo procurador Pôncio Pilatos (...)».

Encontram-se outras alusões a Cristo e aos seus seguidores no governador Plínio, o Jovem (61-114), no filósofo romano Celso (séc. II) e também no Talmude de Babilónia, que reteve por escrito, no séc. IV, toda a tradição judaica oral: «Na véspera da Páscoa, suspendeu-se Yeshu (...)».

Esta acumulação de testemunhos judaicos e romanos, insuspeitos de simpatias, e até mesmo hostis ao cristianismo, sustenta a convicção dos cientistas quanto à existência histórica de Jesus.

2. Os Evangelhos são "fiáveis"?
Sim. «Mas na condição de os analisar com critérios históricos», sublinha Jean-Christian Petitfils, autor de "Jesus", obra que procura esboçar o seu retrato histórico a partir dos recursos da ciência. Com efeito, os Evangelhos apresentam entre si importantes diferenças.

O fio cronológico de Lucas, Marcos e Mateus, por exemplo, não segue o de João. Os primeiros obedecem a um plano linear: a pregação de João Batista, o batismo de Jesus, a pregação na Galileia durante um ano, a subida a Jerusalém, a crucificação e ressurreição; João, por seu lado, refere várias idas e regressos de Jerusalém e a pregação de Jesus dura três anos.

«Os textos de Lucas, Marcos e Mateus foram, na verdade, redigidos por vários autores e relatam a vida de Jesus com um fim didático», sustenta Petitfils. «João, testemunha ocular direta dos acontecimentos, surge como o mais fiável aos olhos dos historiadores.»

Recentemente, descobertas arqueológicas vieram corroborar a existência de personagens e práticas citadas nos Evangelhos. A base de uma estátua com os nomes de Tibério e Pôncio Pilatos foi exumada em Cesareia, atual Israel, em 1961.

«É o primeiro documento epigráfico que diz respeito ao que os cristãos consideram uma referência história maior porque o seu nome é o único mencionado no Credo - "crucificado sob Pôncio Pilatos"», destaca o teólogo Michel Quesnel. Foram também descobertos numerosos túmulos semelhantes ao de Jesus, segundo a descrição dos Evangelhos, escavados em encostas e fechados com uma pedra rolada até à entrada; o corpo envolvido em pano e deposto num leito de pedra.

Jean-Christian Petitfils sublinha também que «numa sociedade em que os textos sagrados se transmitiam oralmente, as técnicas de memorização rabínicas eram suficientemente eficazes para que se possa creditar os Evangelhos com um alto grau de fidelidade».

3. Jesus nasceu no ano zero?
Não. Em primeiro lugar porque a contagem dos anos a partir do nascimento de Cristo não comporta um ano zero. Depois porque o monge Denys le Petit (que morreu em 545), a quem se deve o calendário, errou nos cálculos.

Ao definir o nascimento de Jesus no ano 753 da fundação de Roma, entra em contradição com o que é referido por Lucas e Mateus, que situam a natividade durante o reino de Herodes, o Grande, morto em 750 - ou seja, três anos mais cedo.

«Se se considerar que os seus pais só poderiam fugir para o Egito, para escapar à repressão de Herodes, quando Jesus tivesse alguns meses, senão mesmo alguns anos, o seu nascimento remonta ao ano 5 ou 6 da nossa era», explica Michel Quesnel.

Historiadores há que colocam a hipótese do ano 7 a.C., apoiando-se em cálculos astrológicos para explicar a aparição de uma grande estrela na noite do nascimento.

4. Jesus tinha irmãos e irmãs?
Quatro homens são designados como os «irmãos de Jesus» no Novo Testamento: Tiago, o mais conhecido, que se tornará chefe da Igreja de Jerusalém nos anos 50, José, Simão e Judas.

Os seus nomes são citados duas vezes nos Evangelhos: Marcos 6, 3 e Mateus 13, 55. Quanto às «irmãs» de Jesus, os textos nada dizem.

Há três explicações, sintetiza Michel Quesnel. Primeira hipótese: tratar-se-iam de filhos que José e Maria teriam tido após Jesus. Defendida por Helvidius, no séc. IV, é contrariada por uma passagem de Marcos que narra a presença, aos pés da cruz, de «Maria, mãe de Tiago Menor e de José» (15, 40).

Marcos apresenta estes personagens como os «irmãos» de Jesus. Mas para os exegetas, se Tiago e José tivessem nascido da mesma mãe de Jesus, o evangelista teria simplesmente escrito: «Maria, a mãe de Jesus». Tratar-se-ia de outra Maria que não a mãe do Crucificado.

Segunda teoria: os irmãos e irmãs de Jesus designariam parentes próximos. Fortemente defendida no seu tempo por S. Jerónimo, foi sempre a privilegiada pela Igreja católica. O termo "anepsios" remete para o substrato aramaico "hâ", que significa sobrinho, primo, membro de uma mesma família ou de um mesmo clã.

«Na Palestina, naquele tempo, todos eram "irmãos", um pouco como numa aldeia africana», explica Jean-Christian Petitfils.

Por outro lado, antes de morrer na cruz, Jesus confia a sua mãe a João - um dos seus discípulos; se houvesse irmãos ou irmãs de sangue, seria a eles que o cuidado de Maria seria entregue.

Terceira hipótese: os «irmãos» e «irmãs» de Jesus designariam os filhos que José teria de um primeiro casamento. «Várias tradições apócrifas apresentam José como idoso quando toma Maria por esposa», lembra Michel Quesnel. O que a iconografia confirma ao representar José como homem maduro, até envelhecido, ajoelhado diante do presépio.

Esta interpretação goza do favor das Igrejas cristãs orientais.

5. Jesus era um rabi como os outros?
Não. Se Jesus era espiritualmente próximo dos fariseus, uma das três correntes dominantes do pensamento judaico do primeiro século, a sua atitude transgride todas as convenções estabelecidas.

A começar pela maneira de utilizar as «parábolas» - narrativas imagéticas extraídas da vida quotidiana - para apresentar o seu ensinamento moral e religioso. «À exceção de alguns casos no Antigo Testamento, esta forma de expressão não se tinha espalhado. A sua utilização fazia de Jesus um rabi (mestre) inovador aos olhos dos seus contemporâneos», assinala Michel Quesnel.

Os fariseus falavam já da ressurreição e do amor ao próximo. Mas Jesus retoma a mensagem e vai muito mais longe. «Eis alguém que pede, pela primeira vez, para amar os inimigos», realça Jean-Christian Petitfils.

Diferentemente dos profetas que o precederam, Jesus apresenta-se como o Reino que anuncia: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (João 14, 6).

A sua autoridade extraordinária assombra as multidões e escandaliza os meios sacerdotais. «Moisés disse-vos... Mas Eu digo-vos...», insiste publicamente o carpinteiro de Nazaré. Outra transgressão inconcebível aos olhos de um judeu foi a maneira como Jesus chamou a Deus: «Abba» («Pai», em hebraico).

«O que torna o seu ensinamento credível é a sua atitude misericordiosa para com todos aqueles - inimigos, párias - que Ele encontra: uma prostituta, um coletor de impostos, um legionário romano...», aponta Michel Quesnel. Numa palavra, Jesus perdoa. E é isto que faz a diferença aos olhos dos seus contemporâneos.

«Crente ou não, o historiador acaba por ser confrontado com o mistério da sua pessoa», conclui Jean-Christian Petitfils.

6. Jesus foi crucificado?
Sim. Neste ponto, os Evangelhos são corroborados tanto por autores profanos como pelo Talmude.

No primeiro século havia duas formas de condenação à morte no Império Romano: a decapitação, reservada aos notáveis, e a crucificação, para as pessoas do povo, suplício particularmente terrífico.

Em 1968 foram encontrados os restos de um crucificado num bairro de Jerusalém cujo calcanhar tinha sido atravessado por um prego em ferro com 17 cm.

«Pernas fletidas, tíbias partidas... O estado do esqueleto permitiu reconstituir uma forma precisa de execução aproximadamente correspondente ao suplício descrito nos Evangelhos», afirma Michel Quesnel. Em matéria de crucificação, prática que os romanos teriam tomado dos Partos, existiam muitas variantes. A morte ocorria, geralmente, por asfixia.

7. O sudário de Turim é uma "fotografia" de Jesus?
A incerteza permanece. Muito foi escrito sobre este pano de linho branco de 4,36 x 1,10 m conservado em Turim, atual Itália, que apresenta o desenho de um crucificado que, de acordo com a tradição, teria envolvido o corpo de Jesus no túmulo.

Sobre o "Santo Sudário", que será novamente exposto em 2015 e venerado pelo papa Francisco a 21 de junho, os especialistas confrontam-se com duas questões essenciais: a datação - Idade Média ou primeiro século da nossa era? - e o processo como foi feito, em particular a impressão em "negativo", que nunca se conseguiu reproduzir.

Em 1988, a técnica do Carbono 14, bíblia dos arqueólogos, apresentou o seu veredito: o lençol teria sido fabricado entre 1260 e 1390, período que corresponde à sua primeira aparição comprovada (1357) numa igreja de Lirey, no atual departamento de Aube, em França.

Mas a controvérsia não se ficou por aqui. Para os opositores à tese da origem medieval, o sudário remontaria ao século I devido às técnicas de costura, ao fio utilizado e aos detalhes históricos que o sudário revela quanto ao modo como a crucificação foi executada.

Os defensores da autenticidade salientam, ainda, que o material sujeito ao teste do Carbono 14 foi extraído de pontas do sudário, provenientes de um restauro tardio.

E ainda que se trate da "fotografia" de um crucificado, como é verosímil, falta provar, com dados científicos, a quem pertenceu. A devoção, que tem atraído sempre mais pessoas a Turim aquando das ostensões, é outra história."

In "Pèlerin"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins para SNPC a 27 de dezembro de 2014

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quem era Maria Madalena?

Santa caluniada e glorificada

Em 1989, Giovanni Testori pediu-me para introduzir um perfil bíblico a um seu volume dedicado à iconografia de Maria de Magdala na história da arte (tema em que sagrado e eros se entreteciam, segundo uma tipologia cara ao escritor). Escolhi como título: «Uma santa caluniada e glorificada». Sim, porque bem arraigado na mente dos leitores está o estereótipo que classifica esta mulher evangélica como uma prostituta redimida por Cristo.

A sua história é efetivamente feita de equívocos, que se consumaram a vários níveis. A vida desta discípula de Jesus começa em Magdala (do hebraico "migdol", torre), povoação de pescadores no litoral ocidental do lago de Tiberíades, centro de comércio piscatório denominado em grego "Tarichea", "peixe salgado", descoberto pela arqueologia, ainda que submergido sob as águas daquele lago.

Partiremos da parte final da sua existência. Estamos na alvorada primaveril do primeiro dia de Páscoa, segundo o Evangelho de João (20, 1-18). Maria está diante do sepulcro onde, poucas horas antes, estava deposto o corpo sem vida de Jesus.

Paradoxal é o equívoco que tem por protagonista a mesma mulher que confunde Jesus, regressado à nova vida e presente diante dela, pelo cuidador do recinto cemiterial de Jerusalém. Como é possível ter ocorrido aquele engano? A resposta está na própria natureza do acontecimento pascal que incide na história, mas é ao mesmo tempo um ato sobrenatural, misterioso, transcendente. Para "reconhecer" o Ressuscitado, não chegam os olhos do rosto, nem sequer ter andado com ele e escutado os seus discursos nas praças palestinas, ou ceado com ele. É necessário um olhar profundo, uma via de conhecimento superior. De facto, Maria "reconhece" Jesus só quando ele a chama pelo nome, e os olhos da sua alma se abrem e «exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» (20,16), e, assim, recebe a missão de ser testemunha da ressurreição: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: "Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus." Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: "Vi o Senhor!" E contou o que Ele lhe tinha dito» (20,17-18).

Ora, Maria de Magdala entrou em cena pela primeira vez no Evangelho de Lucas como uma das mulheres que assistiam Jesus e os discípulos com os seus bens. Naquela ocasião, foi acrescentada uma precisão muito significativa: dela «tinham saído sete demónios» (8,1-3). Foi precisamente sobre esta informação que se consumou o equívoco radical que nunca mais a deixou. Esta expressão na linguagem bíblica podia indicar um gravíssimo (o sete é o número da plenitude) mal físico ou moral, que tinha atingido a mulher e de que Jesus a tinha libertado.

Mas a tradição, mil vezes repetida na história da arte e persistente até aos nossos dias, fez de Maria uma prostituta. Isto aconteceu apenas porque na página evangélica precedente - o capítulo 7 de Lucas - é narrada a história da conversão de uma anónima «conhecida naquela cidade como pecadora», que tinha derramado óleo perfumado aos pés de Jesus, hóspede na cada de um fariseu distinto, lavou-os com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Foi assim, sem nenhuma ligação textual real, que se identificou Maria de Magdala com aquela prostituta sem nome.

Este gesto de veneração será repetido noutra ocasião, aquando do encontro de Jesus com uma outra Maria, a irmã de Marta e Lázaro (João 12,1-8). E assim se consumará um outro equívoco para Maria de Magdala, que em algumas tradições populares será identificada com esta Maria de Betânia, depois de ter sido confundida com a prostituta da Galileia.

Mas ainda não tinha terminado a deformação do rosto desta mulher. Alguns textos apócrifos cristãos, compostos no Egito cerca do séc. III, identificam Maria de Magdala até mesmo com Maria, a mãe de Jesus! Lentamente, a sua transformação ampliou-se a tal ponto que, em alguns escritos não canónicos, converteu-se num símbolo, isto é, numa imagem da Sabedoria divina que sai da boca de Cristo. É por isto - e não por maliciosas alusões a que seremos tentados a crer a partir de uma leitura superficial, alusões transformadas em desprezíveis "provas" históricas de "O código Da Vinci", de Dan Brown - que o Evangelho apócrifo de Filipe diz que Jesus «amava Maria mais do que todos os discípulos e a beijava na boca».

Ora, na Bíblia diz-se que a Sabedoria «sai da boca do Altíssimo» (Ben-Sirá 24,3). Estranho destino o de Maria de Magdala, rebaixada a prostituta e elevada a Sabedoria divina. Por felicidade, o único que a chamou pelo nome e a reconheceu foi o próprio Jesus, o seu Mestre, o Rabbuni, naquela manhã de Páscoa.

Aqui chegados, regressemos brevemente ao livro a que fazíamos referência. A obra introduz Maria Madalena com um perfil totalmente espiritual, mas sempre segundo os equívocos acima indicados, que a faziam irmã de Marta e Lázaro e, naturalmente, ex-prostituta.

A elaboração deste retrato coube a um importante representante da escola francesa de espiritualidade, o cardeal Pierre de Bérulle, nascido em 1585 no castelo de Sérilly, em Troyes, cidade onde foi assinado o famoso tratado homónimo que pôs fim ao segundo período da Guerra dos Cem Anos. Pierre de Bérulle exerceu um notável influxo sobre a cultura religiosa do seu tempo, fundou uma congregação, compôs uma vasta bibliografia, delineou uma espiritualidade fortemente cristocêntrica de matriz paulina, que tinha como eixo temático a "kénosis" - isto é, o "esvaziamento" que o Filho de Deus experimenta ao tornar-se homem, ou seja, na Incarnação -, e chegou a ser conselheiro do rei francês Luís XIII e da sua mãe, Maria de Médici, antes de morrer, em 1629.

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura
In Il Sole 24 Ore

Trad.: rjm in SNPC publicado a  07.08.13

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Alargar o abraço

As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte III

Um espírito ecuménico

Uma forma de o espírito contemplativo ser forjado é o recurso às tradições de outras religiões. Etty tinha um vasto e inclusivo espírito ecuménico. Na sua busca, ela atravessava, sem qualquer consciência disso, as fronteiras que a separavam de outras tradições religiosas. O seu exemplo ajusta-se ao inquiridor moderno que não se preocupa com a fonte de onde provém a sabedoria (embora a Igreja possa preocupar-se). Etty quebra o nosso nervosismo, dizendo-nos: alargai os vossos horizontes.

Aqueles dentre nós que pertencem à Igreja cresceram dentro das fronteiras da «nossa» fé, em contraposição com a fé de outros: judeus, muçulmanos, hindus, budistas e sikhs. Foi assim que nos ensinaram a pensar. Há uma longa e sangrenta história de medo e desconfiança entre as tradições de fé do mundo, dos cruzados e do colonialismo e o conflito inter-religioso. E isto ainda se mantém, apesar de mudanças e avanços significativos em termos de diálogo e de entendimento nos últimos anos. Não obstante, nós continuamos a pensar apenas em termos da «nossa» fé, observando mentalmente as suas fronteiras. Isto é compreensível, pois cada tradição religiosa tem as suas próprias narrativas e símbolos, que brotam da sua própria história e contexto particulares. Assim, cada tradição religiosa é diferente, e tais diferenças precisam de ser respeitadas. Esta abordagem, porém, também pode ser demasiado restritiva. Nós continuamos a ter uma ignorância profunda acerca das outras tradições religiosas, e permanecemos desconfiados e tímidos, receosos de ultrapassar as fronteiras para aprender com elas.

Etty Hillesum não tinha nenhum problema deste tipo. A ideia teológica mais fundamental para ela residia na raiz da tradição judaica: todos os seres humanos transportam a imagem de Deus dentro de si, por muito escondida e esquecida que essa imagem possa estar; todos são criados para se irem tornando cada vez mais semelhantes a Ele.

Portanto, não existem fronteiras, e tudo o que nos possa ajudar a desenterrar esse Deus oculto do nosso coração deve ser valorizado e apreciado... seja qual for a sua proveniência. Assim, incentivada por Spier, Etty ia lendo o Novo Testamento; mergulhou nos Evangelhos, sobretudo de Mateus, sem consciência aparente de que pertencessem a uma tradição «diferente»; regressou uma e outra vez a Santo Agostinho «tão austero, tão fervoroso e tão cheio de simples devoção nas suas cartas de amor a Deus»; citava continuamente «o judeu Paulo», que deixara para trás a sua identidade judaica - mas isso não a incomoda: foi o seu cântico ao amor, na sua carta aos Coríntios, que trabalhou nela «como uma vara divinizante». O seu maior amor era Rilke, que escreveu o Livro das Horas, na pessoa de um monge ortodoxo russo. Quando, à sua chegada a Westerbork, a sua malinha foi revistada, encontraram aí, lado a lado, o Alcorão e o Talmude; além disso, durante o seu último ano de vida, Etty leu muitas obras de Mestre Eckhart.

Tal como o monge cisterciense Thomas Merton, que acolheu e abraçou conceitos inspirados do budismo zen e da tradição sufi, Etty chama-nos a tomar consciência de que as intuições das diversas tradições religiosas se cruzam e complementam nas profundezas do coração do contemplativo onde se dá a adoração daquele que está para lá de todos os nomes.

Um convite a ver

Terceiro, a história de Etty quebra a forma fácil como nós falamos e nos confrontamos - ou não nos conseguimos «confrontar» (pois esta palavra sugere olharmo-nos de frente) - com o nosso inimigo. Tal como entendemos o conflito primordial do nosso tempo, Etty convida-nos a ultrapassar abismos de desentendimento do nosso mundo e a explorar aquilo que pode estar implicado no ver, abrindo assim caminho para a justiça e a reconciliação.

(...) Como judia da Holanda, em 1941, Etty foi confrontada com um inimigo cego por uma terrível ideologia de pureza racial ativada pelo ódio, e que tinha por objetivo destruir o seu povo.

Hoje em dia, o mundo ocidental confronta-se com um inimigo terrorista cujo terrorismo é impelido por uma ideologia religiosa profundamente distorcida. Esta encerra em si um ódio profundo pelo mundo ocidental, de modo particular pela América. Esse ódio deu azo a terríveis atos de violenta destruição contra cidadãos de países ocidentais. E, como reação, suscitou o medo.

A forma como Etty reagiu à sua realidade interpõe-se às formas pelas quais nós podemos reagir à nossa, pondo-as em questão. Primeiro, Etty recusou-se a odiar o seu inimigo. Trata-se, por si só, de uma postura perturbadora, pois significa que temos de repensar a nossa. Recusar-se a odiar é, em última análise, recusar-se a ver alguém, ou um grupo de pessoas - que são manifestamente um inimigo votado à nossa destruição - comoum «inimigo». É viver com este paradoxo e implica - mesmo que o nosso país se defenda do seu ódio - tentar prestar atenção ao contexto mais vasto e mais complexo das suas vidas, e perguntar, de forma inquisitiva, porque é que eles estão, e porque é que nós estamos, enredados nesse ódio? Quem somos nós para eles, e quem são eles para nós?

[Ver] o inimigo como ser humano

Apesar da compreensão clara daquilo com que se estava a confrontar, Etty esforçou-se por ver aqueles que a perseguiam como seres humanos. Olhou no rosto o jovem oficial da Gestap, «digno de dó», que a ameaçou junto ao balcão dos registos, e tentou estabelecer ligação com a sua humanidade; perscrutou os rostos dos guardas grosseiros na esperança de detetar o mínimo vislumbre de vida dentro deles. Muito raramente, o seu olhar era recompensado. Liesl, uma amiga de Etty, conta que um soldado alemão a quem esta encontrou na rua, lhe meteu um papel na mão dizendo-lhe que ela lhe fazia lembrar a filha de um rabino de quem ele, o soldado alemão, tratara, e que gostaria de visitá-la. Foi um pequeno raio de luz no meio da escuridão do ódio. Etty escreveu: «Do meio de todos aqueles uniformes, um deles agora recebeu um rosto. Haverá ainda outros rostos, nos quais poderemos ver qualquer coisa compreensível...» Um uniforme que agora recebeu um rosto.

Foi uma maravilhosa exceção. No meio da carnificina da guerra, Etty continuava a procurar rostos. «Tento olhar de frente para o rosto das coisas», escreveria ela, «até dos piores crimes, e descubro o pequeno ser humano nu por entre os destroços monstruosos causados pelos atos desvairados dos homens» .

No meio dos destroços monstruosos das atrocidades que experimentámos - os terríveis «atos desvairados» que moldaram os acontecimentos deste novo século - é muito duro para nós ver os autores de tais atos como «pequenos» e «nus» - isto é, vulneráveis e «humanos». Contudo, em todos os conflitos e ataques, é sempre a realidade mais profunda que se deve procurar. Oculta atrás do rosto distorcido daqueles que cometem atos tão monstruosos, há, algures, um pequeno ser humano vulnerável. Etty sabia que o mal, em última análise, é apenas uma máscara, uma grosseira distorção que pode obscurecer por completo o verdadeiro rosto da pessoa subjacente, mas, no entanto, continua a ser apenas uma máscara.«Ninguém - insistia Etty, dirigindo-se a Klaas - é verdadeiramente "mau" no seu ser mais profundo.» No dia em que não conseguiu ver um rosto no comandante que estava a enviar mil judeus para a morte, mas apenas «uma longa e fina cicatriz», Etty não se rendeu a essa convicção. Ela nunca perdeu a esperança de ver - através dos abismos da guerra - o rosto de outro que também seja humano. Tal como nós, também eles são portadores da imagem divina, por muito alterada e oculta que possa estar, por isso, são pessoas a quem nós pertencemos.

Remover da mente o rótulo de «inimigo» é como remover as persianas de uma janela e deixar a luz entrar. Se não os quisermos odiar, então, talvez comecemos a vê-los. Aqueles que desejam destruir-nos são seres humanos. Têm histórias para contar, e famílias e comunidades de onde provêm, tal como nós. Tal como nós, foram moldados pelos seus próprios contextos pessoais e sociais muito particulares. As suas fidelidades, costumes e tradições fazem deles aquilo que eles são. E também têm desgostos, injustiças e humilhações - por vezes terríveis - com que se confrontar.

Esta remoção das persianas permitiu a Etty, no seu tempo, ver a guerra à escala humana, (des) construindo assim a sua mitologia.

Embora teimosamente centrada na pessoa, ela também reconheceu que as guerras e os conflitos são maiores do que os indivíduos. As pessoas são arrebatadas por sistemas que as devoram: «...não podemos extravasar o nosso ódio sobre os indivíduos - escreveu ela -, a culpa não é de ninguém, o sistema assumiu o controlo...» Com isto Etty queria dizer que a ideologia nazi que envenenara a mente coletiva de um povo inteiro «...uma estrutura ameaçadora capaz de cair sobre nós, esmagando-nos a todos, tanto os que interrogam como os que são interrogados».

Este fenómeno também nos convida a ver e a compreender: a desconstruir sistemas coletivos de pensamento - incluindo o nosso - e a perguntar como e por que razão eles surgiram, e o que está subjacente a eles. As pessoas de ambas as partes dos conflitos podem ficar cegas. Tudo isso só é possível se não houver ódio, pois só assim podemos ser suficientemente desapaixonados para ter alguma probabilidade de ver.

Quando os alemães invadiram a Holanda e a perseguição começou, o ódio passou a ser a moeda corrente de cada conversa entre os judeus, de tal modo que eles já não podiam ver, só podiam odiar. Não conseguiam «apreender as tendências principais», «sondar correntes subterrâneas», não conseguiam perguntar «Porquê?». E os amigos de Etty não queriam fazê-lo. Preferiam o caminho mais fácil. Mantinham as persianas fechadas e só falavam de ódio - tudo muito «claro e muito feio».

Quando nos apercebemos da intensidade da paixão de Etty por desvelar a verdade, o leitor do Novo Testamento é recordado das palavras que se repetem uma e outra vez como um suave e insistente convite dirigido ao leitor, no início do Evangelho de João: «Vinde... e vede.»

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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sábado, 19 de março de 2011

A Paixão em música: Arvo Pärt na Gulbenkian

Na próxima segunda-feira, dia 21 de Março de 2011, às 19h no Grande Auditório da Gulbenkian, poder-se-á ouvir a obra "Passio" do compositor Arvo Pärt (já o referi várias vezes no blogue). Os intérpretes vêm do Porto: Coro Casa da Música e Remix Ensemble e a direcção será de Paul Hillier.


Esta obra é construída a partir dos textos da Paixão do Evangelho de S. João. A não perder!

"Since he left Estonia in 1980, Arvo Pärt concentrated on creating a new musical language and on the composition of works based on religious texts which have been incorporated in the standard repertories of choirs all around the world. Hillier is a dedicated performer of Arvo Pärt’s music and has developed a narrow and extensive cooperation with the composer. Passio is based on St John’s Gospel."

Judas ou o outro morto

Caravaggio

Teatro da Cornucópia apresenta "Morte de Judas", de Paul Claudel
O Teatro da Cornucópia vai levar à cena numa muito curta série de espetáculos um texto de Paul Claudel que, como acontece com toda a obra do autor toca em importantes temas de natureza teológica: o monólogo “Morte de Judas”, na tradução de Regina Guimarães.

Ao lado da cruz, imagem simbólica de uma História feita à luz da ideia de um Deus que se fez carne, num curto monólogo, Claudel mostra outro dos mortos daquela Páscoa, mostra outro madeiro, a figueira, onde Judas, o Apóstolo para sempre associado ao Mal, à Traição e ao Demónio, depois de trair Cristo, se enforcou. Inventa a fala do enforcado, faz o exercício de lhe dar voz, de, em oposição aos textos sagrados, contar a Morte de Cristo pelo ponto de vista de quem desencadeou toda a Paixão.

Ao contrário dos Evangelhos que mistificam a narrativa dos acontecimentos, Judas fala do lugar do Homem, e resgata a sua própria condenação moral com um ponto de vista exemplarmente dialético em que demonstra como a sua traição serviu Deus.

A figueira, árvore viva e de ramos em todas as direções torna-se no símbolo da crítica, da lucidez, do materialismo, do próprio "livre arbítrio", do próprio Homem, e opõe-se para sempre à cruz, madeira já morta, indicadora do caminho da salvação.

O resultado é um estranho e incómodo "objeto", o monumento a que o Mal não tem direito. Essa estátua ali fica para sempre e afirma, por outras palavras a frase popular: "Deus escreve direito por linhas tortas". E que é o Homem quem trabalha para Deus. Trata-se, no fundo, de uma resposta aos Evangelhos, sobretudo aos capítulos 26 e 27 de Mateus (cuja leitura integramos no espetáculo), trata-se de uma reflexão sobre a relação do Homem com o Deus do Cristianismo.

É o ator Dinarte Branco quem interpretará essa fala do enforcado. Trabalhou o monólogo em diálogo com Luis Miguel Cintra e Cristina Reis. E apesar de se tratar de um espetáculo para qualquer público, julgamos que tem especial interesse para um público católico e para quem assume responsabilidades dentro da Igreja. Sem que propositadamente para isso fosse preparado, não podia ser criado em melhor momento que o tempo litúrgico da Quaresma e ao mesmo tempo que o Papa publica novo livro sobre Jesus.

Os espetáculos, com a duração de 55 minutos, realizam-se nos dias 24, 25, 26, 27 e 31 de março e 1, 2 e 3 de abril, de quinta a sábado às 21h30h, e ao domingo às 16h00, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa.

in SNPC

terça-feira, 15 de março de 2011

Singularidades de uma oração cristã

Rezar até à impossibilidade de rezar
A cada instante da sua vida, Jesus reza. Tome-se, por exemplo, o testemunho que nos dá o Evangelho de São Lucas. É «no momento em que Jesus se encontra em oração» que o Espírito se manifesta no batismo (3,21): «Tu és o meu Filho muito amado; em ti coloquei toda a minha alegria»; antes de escolher os Doze, Ele «passa toda a noite a rezar a Deus» (6,12); a questão que provoca a «confissão de Pedro» é colocada aos discípulos «num dia que Ele rezava» (9,18); e se um deles lhe pede para que os ensine a orar, é porque viu o próprio Senhor «rezando» (11,1). Cristo ora ainda para que a fé de Pedro não desfaleça (22,32) e, pregado à Cruz, Ele reza ao Pai pelos homens (23,34): «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem», e por si mesmo (23,46): «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.»

Para Jesus, a oração não fazia apenas parte da vida: ela era a vida. A sua existência era cumprida na presença de Deus, seu Pai, a cada instante. Jesus não esconde nada ao Pai. As suas alegrias e dores, as suas esperanças e as suas noites foram sempre partilhadas com o Pai.

A oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo. Não é um movimento introspetivo. Não é uma diagnose dos nossos pensamentos e moções externas ou íntimas. A oração cristã é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante da sua presença, com uma atenção vigilante Àquele que nos convida a um diálogo sem cesuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos, mas entregar-lhe todos os pensamentos, tudo o que somos e experimentamos.

A oração é uma conversão de atitude, porque a verdadeira oração cristã descentra-nos de nós mesmos - das nossas preocupações e afanos, dos nossos desejos egóticos e pouco purificados - e orienta-nos para Deus, de modo que tudo o que passamos a desejar é a vontade de Deus, o dom do seu olhar que, como dizia Santo Agostinho, é «mais íntimo a nós que nós próprios». Isso que a “Oração de Abandono”do Beato Charles de Foucauld, traduz tão bem:


Meu Pai,
Eu me abandono a ti,
Faz de mim o que quiseres.
O que fizeres de mim,
Eu te agradeço.
Estou pronto para tudo, aceito tudo.
Desde que a tua vontade se faça em mim
E em tudo o que Tu criaste,
Nada mais quero, meu Deus.
Nas tuas mãos entrego a minha vida.
Eu te a dou, meu Deus,
Com todo o amor do meu coração,
Porque te amo.
E é para mim uma necessidade de amor dar-me,
Entregar-me nas tuas mãos sem medida
Com uma confiança infinita
Porque Tu és... meu Pai!


Quanto tempo devemos rezar? É essencial que existam tempos fortes neste caminho quotidiano de entrega e, com todo o realismo, temos mesmo de reservar em cada dia um quinhão para Deus e Deus só. Mas não nos iludamos: a oração não pode ser um compartimento do meu dia, um pequeno nicho que eu encho de pensamentos e fórmulas piedosas. A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, rezar é viver, com todas as nossas forças e com toda a nossa realidade, na presença de Deus. Precisamos passar de um entendimento egocêntrico da oração, para um entendimento teocêntrico, fundado afetiva e efetivamente em Deus. Pondo os nossos olhos em Cristo, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. Todo o Ser de Jesus é uma intimidade e uma revelação permanente do Pai. «Ninguém viu jamais o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai» (Jo 6,46).

Quanto tempo devemos rezar? No nosso interior devemos sentir que rezamos continuamente. Não há, talvez, outra maneira mais simples ou mais vibrante de compreender a natureza da oração de Jesus. Que lição maravilhosa e necessária nos concede o clássico da espiritualidade cristã, “Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual”. Começa assim: «Por graça de Deus sou homem e sou cristão; pelas minhas ações sou um grande pecador. Meus bens são: as costas, uma sacola com pão duro, a santa Bíblia no bolso e só... Por estado, sou peregrino da mais baixa condição, andando sempre errante de um lugar a outro. No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer as minhas orações durante a liturgia. Estava a ser lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: "Orai incessantemente(1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida.»

A verdade é que a nossa conversão à oração incessante está longe de ser fácil. Experimentamos uma resistência inexplicável à ideia de vivermos vulneráveis, pobres e sem defesas diante de Deus. Não foram apenas Adão e Eva que, ao ouvirem os passos de Deus no jardim, se esconderam (Gn 3,8). Certamente, dispomo-nos a amar a Deus e a adorá-lo, mas queremos guardar para nós uma parte da nossa vida espiritual. Por isso caímos frequentemente na tentação de escolher muito bem os pensamentos que vamos ter presentes nos nossos colóquios com Deus. Seja por medo ou por insegurança, facilmente damos um caráter demasiado introspetivo à oração e, muitas vezes, escondemos de Deus (mas será que podemos esconder?) aquilo, em nós, que está mais necessitado da sua ação transformante e pacificadora.

O peregrino russo faz um longo caminho, e longo também será o nosso. Mas, ajudado pela comunidade orante, ele chega realmente àquele ponto em quê a oração se torna a presença ativa do Espírito de Deus, que conduz pela mão a nossa vida.

Lembremos algumas palavras marcantes que constituíram pedras de apoio no caminho do peregrino russo, que no fundo é o itinerário de todo o cristão.
1. «O Apóstolo disse: “Orai sem cessar”(l Ts 5,17), isto é, ele diz-nos que nos lembremos de Deus em qualquer altura e em todas as coisas. Em tudo o que faças, deves ter em mente o Criador de todas as coisas. Se vês a luz, lembra-te de quem ta deu. Se vês o Céu, a terra, o mar e tudo o que neles se encontra, admira e enaltece o seu Criador. Ao vestires-te, lembra-te de quem te deu essa dádiva e agradece-lhe, a Ele, que provê a tua vida. Enfim, qualquer que seja o movimento, será uma razão para lembrar e enaltecer o Senhor. A tua alma estará sempre alegre, se rezares sem cessar.»
2. «A oração interior permanente é o esforço constante do espírito do homem para com Deus. Para se ter sucesso nesse piedoso exercício, deve pedir-se a Deus que Ele nos ensine a orar sem cessar. Ao orares mais e aplicadamente, a oração por si só mostrar-se-á permanente. Para isso, é necessário bastante tempo.»
3. «Dá graças a Deus, querido irmão, por Ele ter despertado em ti o insuperável gosto do conhecimento pela oração interior permanente. Aceita o reconhecimento de Deus e acalma-te, certo de que até ao momento presente se operou em ti uma experiência de acordo com a tua vontade aos olhos de Deus, e que te foi dado compreender que não se alcança a luz celestial - a oração interior sem cessar – pelo conhecimento do mundo onde se vive, nem pelo desejo do conhecimento externo, mas, ao contrário, pela pobreza do espírito e pela experiência ativa, na simplicidade do coração
4. «Senta-te em silêncio e isolado, baixa a cabeça, fecha os olhos, respira silenciosamente, imagina-te a olhar para dentro do teu coração e faz com que o teu raciocínio, isto é, o teu pensamento passe da cabeça para o coração. Ao respirares diz: «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!»,mexendo os lábios silenciosamente ou apenas em pensamento. Esforça-te por afugentares os pensamentos, não te impacientes e repete cada vez mais este exercício.»
5. «A oração interior e permanente de Jesus é a invocação ininterrupta do nome divino de Jesus Cristo, com os lábios, com a cabeça e com o coração, imaginando-o sempre na nossa presença, e pedindo-lhe a graça para todos os nossos atos, em qualquer lugar, em qualquer momento, até durante o sono. Expressamo-la com as seguintes palavras: "Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim." Finalmente, passado algum tempo, comecei a sentir que a oração, por si própria, passava para o coração, isto é, o coração no seu próprio ritmo, lá no seu interior, começou como que a dizer as palavras da oração, acompanhando a cadência: l - Senhor... 2 - Jesus... 3 - Cristo... e assim por diante. Deixei de dizer a oração com os lábios e comecei a escutar com fervor o que dizia o coração.»

Jesus é o verdadeiro Mestre da oração cristã, quer porque a sua oração é o modelo de toda a oração, quer porque Ele nos ensina a rezar. A parábola que Jesus conta em Lucas 18,9-14 é um importante ensinamento sobre a oração.
«Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, publicano ou cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: "Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo." O publicano, manten-do-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem pie­dade de mim, que sou o pecador." Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»

Podemos rezar como o fariseu. O vocativo inicial, «Ó Deus», confere às suas palavras uma cadência solene e retórica. A sua é uma oração autorreferenciada: ouve-se o «eu», «eu», «eu» por toda a parte. O motivo de louvor que encontra é a diferenciação face aos outros, que são isto e aquilo: ladrões, adúlteros, injustos, que são sobretudo como aquele publicano que está atrás dele no templo. Ele é um bom praticante, que se contempla a si mesmo, deslumbrado com as suas obras que, na oração dele, não têm um caráter penitenciai ou de súplica.

Enquanto o fariseu faz um uso do espaço sem grandes preocupações nem pruridos (ele está simplesmente de pé e fala, fala muito), o publicano distingue o próximo e o distante, o alto e o baixo, o corpo e a palavra: ele sente-se «longe», não ousa erguer o olhar e bate no peito enquanto profere algumas escassas palavras. Tem consciência daquilo que o afasta. Desloca-se não no eixo horizontal, mas no vertical. Ele não finge uma proximidade que não existe. Mas mostra-se assim, tal qual, a Deus. Quando, na oração, ele se identificar como «o pecador», isso não será um mero artifício do discurso, mas corresponderá a uma verdade existencial que a intensidade simbólica da sua atitude corporal vibrantemente corrobora.
Diversos autores consideram que o gesto do publicano bater no peito deve ser interpretado como um sinal da sua contrição. O significado mais frequente deste gesto, no mundo daquela época, é o de uma emoção intensa, provocada por um desgosto ou por uma situação desesperada, associando-se também à ideia de lamento. A sua angústia, porém, não é total: do fundo áspero da sua noite ele clama a Deus. E reza: «Ó Deus, tem misericórdia de mim, o pecador.» Esta passagem é a única do Evangelho em que a «pecador» se junta o artigo (o pecador). Isto não quer dizer que o publicano seja o maior pecador à face da terra, mas é assim que ele se sente e se coloca diante de Deus.

O ponto espiritual de viragem na parábola é esta atitude de verdade do publicano, em significativo contraste com a do fariseu. Ele faz convergir para Deus toda a sua vida, o seu bloqueio, as suas lágrimas, o seu desespero. Ele coloca-se completamente na dependência de Deus. Que Deus faça. Que Deus tenha misericórdia. Rezar, outra coisa não é que expor-se a Deus, sem máscaras, nem véus, nem falsas virtudes, nem diferenciações. É expor tudo. Expor até a nossa impossibilidade de rezar.

José Tolentino Mendonça
In O tesouro escondido, ed. Paulinas, publicado por SNPC

sexta-feira, 11 de março de 2011

De pecadora a perdoada: a mulher aos pés de Jesus em imagens

As mulheres dos evangelhos: a inominada

Anthony Frederick Sandys

O dia da Mulher passou de forma despercebida, entre o Carnaval e o feriado, a chuva e a festa. Publico um texto a propósito de uma mulher do tempo de Jesus, que vulgarmente se associa à imagem de Maria Madalena mas, de facto, nunca o seu nome foi nomeado. É uma bela imagem para esta Quaresma que começamos: imagem de acolhimento, louvor, perdão, serviço, humildade e amor.
Uma mulher aos pés de Jesus
Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!» Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» - respondeu ele. «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.» (Lucas 7, 36-50)

O terceiro Evangelho [Lucas] é aquele que guarda mais relatos de mulheres: é, por exemplo, o único que conta a história de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a viúva de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (19, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a viúva insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (23, 27-31). Para lá daquelas mulheres cuja referência partilha com os outros Sinópticos, como é o caso da sogra de Simão (5, 38-39; Mateus 8, 14-15; Marcos 1, 29-31), a hemorroíssa e a filha de Jairo (8, 40-56; Mateus 9, 18-26; Marcos 5, 21-43), a viúva que dá tudo quanto tinha para o tesouro do Templo (21, 1-4; Marcos 12, 41-44), as mulheres galileias que descobrem o túmulo vazio (24, 1-8; Mateus 28, 1-8; Marcos 16, 1-8).

Para um leitor de Lucas não é, portanto, estranho que uma mulher acorra à procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E à partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo à narração.

O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, é o modo como apresenta a mulher: «uma pecadora». Isto é tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas não caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em relação aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de silêncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso não nos é referido por Lucas, que poderia ter utilizado o substantivo πóρνη, como o faz noutra passagem, Lucas 15,30. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (v.37), e tal é reiterado pelo próprio fariseu (v.39).

A mulher irrompe pela narrativa. A sua presença não tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra à mesa do fariseu. É, portanto, desde o início, um personagem que se coloca na órbita de outro e assume essa dependência.
Uma justificação que o narrador subtilmente avança para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece à mulher um motivo, uma função; e, por outro, empresta uma espécie de ingrediente novo e específico à narrativa. Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage às abluções, às disputas dos lugares ou à lógica retributiva que presidia à organização dos banquetes. O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intricar: a qualidade do acolhimento a Jesus.

É difícil permanecer indiferente ao trânsito deste personagem que nos é descrito num impressionante regime de showing. A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitenciai do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois «desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra»).

Nas passagens paralelas a Lucas 7, 36-50 (Marcos 14, 3-9; Mateus 26, 6-13; João12, 1-8) a mulher unge Jesus, mas não chora. No episódio lucano as suas lágrimas substituem a água da hospitalidade que faltou. «Pelas minhas lágrimas, eu conto uma história», explica Roland Barthes. Segundo aquele ensaísta as lágrimas são uma realidade tudo menos insignificante. Porque temos muitas formas de chorar e essas revelam não só a intensidade do nosso desgosto, mas também a natureza da nossa sensibilidade. Porque ao chorar, mesmo na mais estrita solidão, nos dirigimos a alguém: esforçamo-nos para o outro não ver que nós choramos, mas a verdade é que nós choramos sempre para um outro ver. Porque as lágrimas emprestam um realismo particular, dramático à expressão de nós próprios. Na tradição bíblica é muito comum que o pranto acorde no homem a consciência da dependência divina. Ele reconhece a sua insuficiência, a debilidade das suas seguranças e reclama a intervenção favorável e protectora de Deus (1 Samuel 1, 10; Lamentações 1, 16).

A inominada não cumpre os rituais de hospitalidade ao serviço da casa do fariseu. Em relação ao fariseu ela é uma intrusa, e não uma associada. O seu nexo é com Jesus: os seus gestos, tão distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferença que se requer a quem habitualmente presta, aos hóspedes, esse serviço, são interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na fé: por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada. E a transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo não só na perícope, mas pelo próprio Evangelho.

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé do texto original.

José Tolentino Mendonça
In A Construção de Jesus, ed. Assírio & Alvim
publicado por SNPC

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Quem são os inimigos, estes que somos chamados a amar?

David e Saul
Amar os inimigos
Das leituras para o 7.º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Da santidade de Deus desce o mandamento de amar o próximo como a si mesmo (1.ª leitura); da perfeição de Deus brota o mandamento de amar o inimigo (Evangelho). Os textos propõem uma ética teologal, uma ética que encontra no ser e no agir de Deus para o homem o seu fundamento. O critério ético que orienta o agir humano pode ser expresso assim: “Como Deus agiu para ti, também tu age da mesma fora para com os outros”. Desta maneira, não só se supera o nível da vingança. do “Faz também ao outro o que ele fez a ti”, como é fundado e tornado praticável o amor do inimigo graças à fé em Cristo que amou também os inimigos.

As palavras de Jesus em Mateus 5, 38-42 enfrentam o problema da violência. Se a lei de Talião é já uma barreira à violência indiscriminada e desmesurada, Jesus propõe uma prática de ativa não-violência aplicada a diversos âmbitos. Mas ainda antes de propor uma estratégia que se opõe à violência, a Bíblia e a palavra evangélica em particular, ajudam o homem a discerni-la, a desmascará-la nas suas camuflagens e a reconhecer que não lhe é estranha.

O caso da bofetada (v. 39) refere-se aos casos de explosão violenta nas relações familiares e sociais de todos os dias, integrando-se por conseguinte no horizonte da vida quotidiana. Todos nós conhecemos uma violência diária e subtil que – sem derramamento de sangue e sem cair na agressão física, mas o deixando o coração profundamente ferido – ocorre no interior das relações familiares, nas relações entre irmãos, entre pais e filhos, entre homem e mulher, a do homem que não sabe domesticar a animalidade que habita o próprio coração, a que começa de maneira escondida ou pouco visível, que se insinua furtivamente num olhar, num comportamento, em palavras.

O caso apontado no v. 40 diz respeito a um processo de arresto: entreveem-se as situações de injustiça e violência social, estrutural; as instituições que, colocadas ao serviço da justiça, podem tornar-se instrumentos de injustiça. Podemos pensar na violência da burocracia, com a sua impessoalidade e indiferença à individualidade humana.

O caso do v. 41 refere-se à coação, à tirania, à violência do abuso, de dobrar a vontade do outro para que ele faça o que nós queremos. E o alcance do abuso abrange o plano físico e sexual, psicológico e espiritual. E pode também configurar-se como violência a pressão, a insistência de um pedido para obter dinheiro e empréstimos (v. 42). O âmbito económico é certamente desencadeador de cobiça e violência.

Jesus pede ao crente para não opor resistência ao malvado: esta dimensão negativa será completada pelo mandamento positivo de amar o inimigo (v. 41). A violência faz parte do mundo não libertado, opondo-se ao Reino de Deus, pelo que não pode reentrar na prática messiânica. O pedido de amar os inimigos situa-se no coração da “diferença cristã”: o que é que diferencia o cristão em relação a pagãos e publicanos, a indiferentes e não crentes? Jesus pede aos crentes para sair do fechamento daquilo que é homólogo, similar, recíproco, autoreferencial: amar quem já se ama, saudar só os irmãos. Trata-se, em vez disso, de ousar a alteridade, de ter a coragem da diversidade e de vencer com o amor o medo do diferente e do outro. São fatores de violência a absolutização do mesmo, do idêntico, que se pode traduzir na redução das relações sociais à mera materialidade dos elementos naturais, à exaltação da consanguinidade, da homogeneidade do elemento étnico.

Praticar o amor com o inimigo contém em si uma promessa escatológica que tem implicações históricas no hoje: «Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu» (v. 45). Viver o amor do inimigo significa estar imerso no amor de Deus que em Cristo se manifestou como amor pelos inimigos: essa imersão regenera o crente, dá à luz um filho de Deus, pertencente a Deus e semelhante a Jesus Cristo. O útero e a matriz deste nascimento à semelhança de Deus (cf. v. 48) é a experiência do amor universal de Deus, do seu amor a bons e maus, da sua bondade incondicional.

Luciano Manicardi, da Comunidade de Bose

Tradução de Rui Martins in SNPC
Ler sobre o Mosteiro de Bose

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vigília Ecuménica Jovem

O mês de Janeiro é dedicado à Oração pela Unidade dos cristãos. Orar com as outras demoninações, unidos no que nos junta, é um chamamento forte a quem leva a sério as páginas do evangelho.

"Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações"
(Actos dos Apóstolos 2, 42)

A Vigília Ecuménica Jovem é preaparada por jovens católicos, metodistas, presbiterianos e lusitanos, por altura do Oitavário de oração pela unidade dos cristãos. Será no sábado 22 de Janeiro, às 21h na Igreja do Campo Grande.

A Vigília Ecuménica Jovem deste ano tem com subtítulo Orar com os cristãos de Jerusalém. E haverá um gesto solidário associado ao momento: uma Colecta especial de géneros alimentícios não perecíveis (arroz, massas, enlatados,...), mantas e sacos-cama que são destinadas ao serviço aos sem-abrigo da Comunidade de Sant'Egídio.

A oração e a devoção devem existir bem enraizadas na realidade da vida e não devem andar longe dos gestos concretos de serviço aos mais desfavorecidos.

http://www.juventude.patriarcado-lisboa.pt/?evento=37
sobre o Serviço de Juventude do Patriarcado de Lisboa
http://www.juventude.patriarcado-lisboa.pt/

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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