Ser heterossexual é um acidente no marco da castração do sujeito.
A opinião é do psicanalista argentino Marcelo A. Pérez, num artigo para o jornal
página/12, a 20 de Maio deste ano, extraído do seu livro
¿Cómo se llega a ser heterosexual?. Tradução com base na de Moisés Sbardelotto. Vamos ver o que o nosso psicólogo acha disto...
"Como se chega a ser heterossexual? (…)
A sexualidade do sujeito é um ponto de chegada, não de partida. "Constrói-se" independentemente do sexo anatómico, e essa produção inclui os avatares da lógica fálica, do caso por caso. A essa fábrica, Freud chamou Édipo & Complexo de Castração, e a sua matéria-prima pulsional é a linguagem. (…).
A sexualidade assume existência a partir dessa linguagem-esburacada e é um conceito cultural que já não é possível confundir com a anatomia genital dos seres falantes. E se é cultural é o mesmo que perguntar: como é possível que uma senhora alta oriental se apaixone por um cavalheiro caucasiano baixo? Ou como se chega a ser histérico em vez de psicótico?
Mas então, como? Uma resposta pontual pode ser esta: "falando", gerúndio que serve de caminho para que o sujeito chegue. Mas esse falar [1], longe de ser interpretado como um conjunto de códigos comuns para se entender mutuamente, nada mais é do que o representante do gozo sexual. Esse nó é problemático, porque o sujeito já não sabe o que diz quando fala, já que – repetimos – não se trata de "fazer-se entender", mas sim de gozar.
Estamos a dizer, pois, que existe algo chamado falo, que une o real – anatómico, sexual – com o significante. Essa contingência determinará a escolha sexual do objecto. Isto é,
ser heterossexual é um acidente no marco da castração do sujeito.
Esse acidente de castração é elaborado em três etapas. E – a julgar pela clínica –
se a neurose existe, é porque há acidentes, e a passagem do segundo tempo do Complexo para o terceiro – no qual
o sujeito reconhece que o pai não é a lei, mas sim que a transmite – é muito mais problemático do que acreditávamos.
Mas, então,
não nascemos heterossexuais? Não só não nascemos, como também, nem que queiramos, não o somos.
A sexualidade, como o corpo, temo-la, adquirimos, conquistamos. Como dirá Lacan: "é um presente da linguagem". Em todo o caso, já desde Freud sabemos que
o inconsciente é homossexual, desde o momento em que não há mais do que a inscrição de um único significante: o falo. A partir do narcisismo, o auto erotismo tem o seu auto recolhimento no homossexual. A partir de Lacan, o sujeito está ancorado no "todo fálico". Essa posição implica que o inconsciente rejeite o Outro sexo. Segundo se lê no seminário “Ainda” – e isso está na base da axiomática "a relação sexual não existe" –
o gozo, enquanto sexual, é fálico. Isto é, não se relaciona com o Outro enquanto tal. E também podemos responder a partir da nossa praxis:
o inconsciente repete o próprio real, base de qualquer sintoma: o homossexual também se encontra nele.
Ouvimos actualmente, mais do que nunca, certos pacientes (amantes da precisão científica) que se vêem a duvidar da potencial escolha sexual de seus filhos. Principalmente porque, em muitos casos, eles mesmos já se divorciaram para viver com uma pessoa do seu próprio sexo.
Quando se trata do inconsciente, não há maneira consciente de garantir um não-acidente no trajecto.
Assim como não há método para definir um objecto único para a pulsão: se houvesse, estaríamos no campo da natureza e não do ser falante.
Numa sociedade muito mais tolerante e melhor informada – o que não é pouco –, podemos acompanhar nesses avatares lógicos o devir de cada experiência subjectiva para, mesmo sem responder sempre, pelo menos questionar a partir de um lugar em que dois pássaros sejam juntos num só laço: desejo e amor. Isto é,
administrar o gozo de uma maneira mais produtiva."
[1] Seminário 22, Lacan
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=32631