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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Alargar o abraço

As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte III

Um espírito ecuménico

Uma forma de o espírito contemplativo ser forjado é o recurso às tradições de outras religiões. Etty tinha um vasto e inclusivo espírito ecuménico. Na sua busca, ela atravessava, sem qualquer consciência disso, as fronteiras que a separavam de outras tradições religiosas. O seu exemplo ajusta-se ao inquiridor moderno que não se preocupa com a fonte de onde provém a sabedoria (embora a Igreja possa preocupar-se). Etty quebra o nosso nervosismo, dizendo-nos: alargai os vossos horizontes.

Aqueles dentre nós que pertencem à Igreja cresceram dentro das fronteiras da «nossa» fé, em contraposição com a fé de outros: judeus, muçulmanos, hindus, budistas e sikhs. Foi assim que nos ensinaram a pensar. Há uma longa e sangrenta história de medo e desconfiança entre as tradições de fé do mundo, dos cruzados e do colonialismo e o conflito inter-religioso. E isto ainda se mantém, apesar de mudanças e avanços significativos em termos de diálogo e de entendimento nos últimos anos. Não obstante, nós continuamos a pensar apenas em termos da «nossa» fé, observando mentalmente as suas fronteiras. Isto é compreensível, pois cada tradição religiosa tem as suas próprias narrativas e símbolos, que brotam da sua própria história e contexto particulares. Assim, cada tradição religiosa é diferente, e tais diferenças precisam de ser respeitadas. Esta abordagem, porém, também pode ser demasiado restritiva. Nós continuamos a ter uma ignorância profunda acerca das outras tradições religiosas, e permanecemos desconfiados e tímidos, receosos de ultrapassar as fronteiras para aprender com elas.

Etty Hillesum não tinha nenhum problema deste tipo. A ideia teológica mais fundamental para ela residia na raiz da tradição judaica: todos os seres humanos transportam a imagem de Deus dentro de si, por muito escondida e esquecida que essa imagem possa estar; todos são criados para se irem tornando cada vez mais semelhantes a Ele.

Portanto, não existem fronteiras, e tudo o que nos possa ajudar a desenterrar esse Deus oculto do nosso coração deve ser valorizado e apreciado... seja qual for a sua proveniência. Assim, incentivada por Spier, Etty ia lendo o Novo Testamento; mergulhou nos Evangelhos, sobretudo de Mateus, sem consciência aparente de que pertencessem a uma tradição «diferente»; regressou uma e outra vez a Santo Agostinho «tão austero, tão fervoroso e tão cheio de simples devoção nas suas cartas de amor a Deus»; citava continuamente «o judeu Paulo», que deixara para trás a sua identidade judaica - mas isso não a incomoda: foi o seu cântico ao amor, na sua carta aos Coríntios, que trabalhou nela «como uma vara divinizante». O seu maior amor era Rilke, que escreveu o Livro das Horas, na pessoa de um monge ortodoxo russo. Quando, à sua chegada a Westerbork, a sua malinha foi revistada, encontraram aí, lado a lado, o Alcorão e o Talmude; além disso, durante o seu último ano de vida, Etty leu muitas obras de Mestre Eckhart.

Tal como o monge cisterciense Thomas Merton, que acolheu e abraçou conceitos inspirados do budismo zen e da tradição sufi, Etty chama-nos a tomar consciência de que as intuições das diversas tradições religiosas se cruzam e complementam nas profundezas do coração do contemplativo onde se dá a adoração daquele que está para lá de todos os nomes.

Um convite a ver

Terceiro, a história de Etty quebra a forma fácil como nós falamos e nos confrontamos - ou não nos conseguimos «confrontar» (pois esta palavra sugere olharmo-nos de frente) - com o nosso inimigo. Tal como entendemos o conflito primordial do nosso tempo, Etty convida-nos a ultrapassar abismos de desentendimento do nosso mundo e a explorar aquilo que pode estar implicado no ver, abrindo assim caminho para a justiça e a reconciliação.

(...) Como judia da Holanda, em 1941, Etty foi confrontada com um inimigo cego por uma terrível ideologia de pureza racial ativada pelo ódio, e que tinha por objetivo destruir o seu povo.

Hoje em dia, o mundo ocidental confronta-se com um inimigo terrorista cujo terrorismo é impelido por uma ideologia religiosa profundamente distorcida. Esta encerra em si um ódio profundo pelo mundo ocidental, de modo particular pela América. Esse ódio deu azo a terríveis atos de violenta destruição contra cidadãos de países ocidentais. E, como reação, suscitou o medo.

A forma como Etty reagiu à sua realidade interpõe-se às formas pelas quais nós podemos reagir à nossa, pondo-as em questão. Primeiro, Etty recusou-se a odiar o seu inimigo. Trata-se, por si só, de uma postura perturbadora, pois significa que temos de repensar a nossa. Recusar-se a odiar é, em última análise, recusar-se a ver alguém, ou um grupo de pessoas - que são manifestamente um inimigo votado à nossa destruição - comoum «inimigo». É viver com este paradoxo e implica - mesmo que o nosso país se defenda do seu ódio - tentar prestar atenção ao contexto mais vasto e mais complexo das suas vidas, e perguntar, de forma inquisitiva, porque é que eles estão, e porque é que nós estamos, enredados nesse ódio? Quem somos nós para eles, e quem são eles para nós?

[Ver] o inimigo como ser humano

Apesar da compreensão clara daquilo com que se estava a confrontar, Etty esforçou-se por ver aqueles que a perseguiam como seres humanos. Olhou no rosto o jovem oficial da Gestap, «digno de dó», que a ameaçou junto ao balcão dos registos, e tentou estabelecer ligação com a sua humanidade; perscrutou os rostos dos guardas grosseiros na esperança de detetar o mínimo vislumbre de vida dentro deles. Muito raramente, o seu olhar era recompensado. Liesl, uma amiga de Etty, conta que um soldado alemão a quem esta encontrou na rua, lhe meteu um papel na mão dizendo-lhe que ela lhe fazia lembrar a filha de um rabino de quem ele, o soldado alemão, tratara, e que gostaria de visitá-la. Foi um pequeno raio de luz no meio da escuridão do ódio. Etty escreveu: «Do meio de todos aqueles uniformes, um deles agora recebeu um rosto. Haverá ainda outros rostos, nos quais poderemos ver qualquer coisa compreensível...» Um uniforme que agora recebeu um rosto.

Foi uma maravilhosa exceção. No meio da carnificina da guerra, Etty continuava a procurar rostos. «Tento olhar de frente para o rosto das coisas», escreveria ela, «até dos piores crimes, e descubro o pequeno ser humano nu por entre os destroços monstruosos causados pelos atos desvairados dos homens» .

No meio dos destroços monstruosos das atrocidades que experimentámos - os terríveis «atos desvairados» que moldaram os acontecimentos deste novo século - é muito duro para nós ver os autores de tais atos como «pequenos» e «nus» - isto é, vulneráveis e «humanos». Contudo, em todos os conflitos e ataques, é sempre a realidade mais profunda que se deve procurar. Oculta atrás do rosto distorcido daqueles que cometem atos tão monstruosos, há, algures, um pequeno ser humano vulnerável. Etty sabia que o mal, em última análise, é apenas uma máscara, uma grosseira distorção que pode obscurecer por completo o verdadeiro rosto da pessoa subjacente, mas, no entanto, continua a ser apenas uma máscara.«Ninguém - insistia Etty, dirigindo-se a Klaas - é verdadeiramente "mau" no seu ser mais profundo.» No dia em que não conseguiu ver um rosto no comandante que estava a enviar mil judeus para a morte, mas apenas «uma longa e fina cicatriz», Etty não se rendeu a essa convicção. Ela nunca perdeu a esperança de ver - através dos abismos da guerra - o rosto de outro que também seja humano. Tal como nós, também eles são portadores da imagem divina, por muito alterada e oculta que possa estar, por isso, são pessoas a quem nós pertencemos.

Remover da mente o rótulo de «inimigo» é como remover as persianas de uma janela e deixar a luz entrar. Se não os quisermos odiar, então, talvez comecemos a vê-los. Aqueles que desejam destruir-nos são seres humanos. Têm histórias para contar, e famílias e comunidades de onde provêm, tal como nós. Tal como nós, foram moldados pelos seus próprios contextos pessoais e sociais muito particulares. As suas fidelidades, costumes e tradições fazem deles aquilo que eles são. E também têm desgostos, injustiças e humilhações - por vezes terríveis - com que se confrontar.

Esta remoção das persianas permitiu a Etty, no seu tempo, ver a guerra à escala humana, (des) construindo assim a sua mitologia.

Embora teimosamente centrada na pessoa, ela também reconheceu que as guerras e os conflitos são maiores do que os indivíduos. As pessoas são arrebatadas por sistemas que as devoram: «...não podemos extravasar o nosso ódio sobre os indivíduos - escreveu ela -, a culpa não é de ninguém, o sistema assumiu o controlo...» Com isto Etty queria dizer que a ideologia nazi que envenenara a mente coletiva de um povo inteiro «...uma estrutura ameaçadora capaz de cair sobre nós, esmagando-nos a todos, tanto os que interrogam como os que são interrogados».

Este fenómeno também nos convida a ver e a compreender: a desconstruir sistemas coletivos de pensamento - incluindo o nosso - e a perguntar como e por que razão eles surgiram, e o que está subjacente a eles. As pessoas de ambas as partes dos conflitos podem ficar cegas. Tudo isso só é possível se não houver ódio, pois só assim podemos ser suficientemente desapaixonados para ter alguma probabilidade de ver.

Quando os alemães invadiram a Holanda e a perseguição começou, o ódio passou a ser a moeda corrente de cada conversa entre os judeus, de tal modo que eles já não podiam ver, só podiam odiar. Não conseguiam «apreender as tendências principais», «sondar correntes subterrâneas», não conseguiam perguntar «Porquê?». E os amigos de Etty não queriam fazê-lo. Preferiam o caminho mais fácil. Mantinham as persianas fechadas e só falavam de ódio - tudo muito «claro e muito feio».

Quando nos apercebemos da intensidade da paixão de Etty por desvelar a verdade, o leitor do Novo Testamento é recordado das palavras que se repetem uma e outra vez como um suave e insistente convite dirigido ao leitor, no início do Evangelho de João: «Vinde... e vede.»

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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A fé fora do templo


As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte II


Um convite à oração

A segunda forma pela qual a vida de Etty nos interpela e desafia é sobre as pressuposições da própria religião: de que as instituições a detêm e controlam, acerca da questão que reside no cerne da mesma e a forma pela qual nós pensamos nas suas fronteiras. (...)

A sua caminhada até à fé em Deus transformou a sua vida, mas aconteceu fora de qualquer instituição religiosa. Etty é uma figura contemporânea, também neste sentido. A sua história convida-nos a reconhecer caminhadas de fé alheias a instituições religiosas, e anima-nos nessa caminhada. Também desafia aqueles que trabalham nas instituições religiosas a refletir mais profundamente sobre a razão pela qual são tão desconsiderados, e a escutar aqueles que se encontram para lá das suas fronteiras.

Grande número de pessoas do mundo ocidental, sobretudo jovens, sentindo as pressões de uma irrequieta sociedade consumista, sentem que o seu estéril secularismo não lhes oferece nada em termos das questões de significado mais profundo. Podem sentir-se num deserto espiritual... e assim, por entre as exigências, as pressões e o ritmo de vida vivido à superfície das coisas, existe uma fome profunda de «espiritualidade». Contudo, este interesse pela «espiritualidade», que se revela numa grande diversidade de maneiras, não se encaixa facilmente nas narrativas e nas expectativas das instituições religiosas preestabelecidas. Assim, na Europa (a situação nos Estados Unidos parece ser diferente), verifica-se a situação paradoxal de que um interesse crescente pela «espiritualidade» corresponde a um declínio da frequência institucional da Igreja. Isto conduz-nos ao que reside no coração da espiritualidade num mundo pós-moderno.

Num útil artigo intitulado «A crise da pós-modernidade», o escritor e teólogo Philip Sheldrake sugere que, aqui, se verifica uma confusão de interrogações. Há a interrogação em que as instituições religiosas ainda se centram com afinco, nomeadamente, «O que é ou quem é Deus?» Mas, por detrás da «busca espiritual contemporânea», há uma questão diferente (embora, na tradição mística, com ela relacionada), designadamente, «Quem sou eu?» O problema para as instituições religiosas é que, nos seus credos, liturgias e, muitas vezes, na sua pregação, exploram e expõem uma resposta para a primeira questão, que tem vindo a ser cada vez menos colocada.
(...)

A questão do ego

(...)Esta questão sobre Deus já não é o ponto em que começa a busca espiritual contemporânea. O que conduz esta busca é a questão - a surpreendente, e até misteriosa questão - do ego. Quem sou eu, no caráter único dos meus sentimentos, relações, reações e sentido de pertença ou não pertença; no contexto particularíssimo da minha vida, da minha história e do meu possível futuro?

As instituições religiosas não parecem ter apreendido toda a força desta mudança: o poder do terramoto secular a nível do entendimento que ocorreu e que alterou o centro dos interesses. Continuam a comportar-se como se a antiga visão do mundo continuasse a imperar. Não deviam estar tão surpreendidos pelo facto de os seus números continuarem a declinar.

Etty Hillesum fala ao mundo moderno porque a sua caminhada começou com a psicoterapia, com a questão que muitos outros fazem, de vários modos: «Quem sou eu?» Ela começou com o enigma desconcertante e perturbador de si própria, e a sua caminhada prosseguiu fora de qualquer instituição religiosa.

[6 pistas para a caminhada orante]

Houve cinco elementos-chave nessa caminhada: uma relação de aceitação incondicional dentro da qual ela se sentia segura para explorar a sua experiência; exploração intelectual do pensamento de alguns escritores-chave, nomeadamente Jung e Rilke; a influência do seu mentor, uma pessoa de fé, que a introduziu em textos religiosos fundamentais, nomeadamente os Salmos, o Novo Testamento e Santo Agostinho, e em vários outros, ainda; a sua própria resposta à ânsia que sentia dentro de si para rezar; e o desenvolvimento de discipli­nas particulares da vida espiritual.

O seu caminho particular constitui um estímulo e um encorajamento para aqueles para quem parece difícil pertencer às instituições religiosas. Quer uma pessoa continue a ser ou não membro de uma igreja ou sinagoga ou da instituição de qualquer outra tradição de fé, Etty convida-nos a aprofundar mais a nossa exploração pessoal.

(...)
O momento mais íntimo e talvez mais importante da caminhada de Etty foi quando ela começou a rezar. Escreveu que «deu consigo», de repente, ajoelhada no tapete castanho de fibra de coco na casa de banho. Parece ter ocorrido de forma involuntária, como reação a «uma grande necessidade» proveniente mais de uma parte profunda de si própria do que da sua mente. Sentiu-se profundamente embaraçada com isso, e a «porção ateia racional e crítica» da sua pessoa fitou-a, estupefacta, chamando-lhe louca. Eis um momento-chave da sua caminhada de fé: um momento em que temos de nos libertar de todo o nosso «palavreado», de nos libertar do desapego da mente inquisitiva, e de responder a alguma necessidade primitiva do coração, e - ignorando o embaraço e qualquer sentido de insensatez - atrever-se a dizer «Sim».

Uma vez atravessada esta barreira - embora o embaraço volte a surgir e a parte racional e crítica das nossas pessoas, que tem uma importância profunda, certamente volte a afirmar-se - a oração poderá, lentamente, começar a ser habitual, e até, como Etty descobriu, muito necessária. Em determinado ponto do seu diário, Etty escreve: «Continuo a dar comigo em oração.»

Se quisermos entrar realmente neste potencial - para descobrir aonde o mesmo nos pode conduzir - as disciplinas desta vida têm de ser praticadas. Tal como aprender a pintar, ou a tocar um instrumento musical, é um trabalho difícil e não pode ser aprendido de um dia para o outro. Para Etty, a sua espiritualidade e a sua oração significava aprender «a viver artisticamente», uma expressão que ela foi buscar a Rilke. Para o conseguir, ela sabia que «a paciência é tudo» (fazendo ressoar mais uma vez as palavras de Rilke); a paciência e a prática de certas disciplinas. E quais são essas disciplinas?

- silêncio - «há um vasto silêncio em mim que continua a crescer»
- solidão - «no profundo de nós mesmos, todos nós carregamos uma vasta e frutífera solidão»
- atenção, na tomada de consciência e na abordagem dos «rebanhos selvagens» dos pensamentos e sentimentos
- uso de imagens, aprendendo a conhecer tanto o seu poder como os seus perigos
- ler os Salmos, extraindo deles apenas uma frase e plantando-a nas profundezas do coração, onde o seu significado pode crescer.
E (o mais importante para Etty):
- aprender a escutar «tudo o que nos chega de fora... e... tudo o que brota de dentro» - o desenvolvimento de uma consciência intuitiva daquilo que é «mais essencial e mais profundo» em nós próprios, nos outros, na interligação da vida.

Tudo isto e mais ainda fazia parte da caminhada de Etty, que, sobretudo depois de ter deixado os seus amigos em Amesterdão e de Spier ter morrido, se tornou solitária. Na sua carta dirigida a Henny Tideman vislumbramos a sua solidão. Para este trabalho de espiritualidade se manter, precisamos de amizades e de comunidades. Também precisamos, depois de termos confiança suficiente para nos confrontarmos com ele, do desafio, ajuda e correção mais vastos que a instituição religiosa competente pode oferecer à nossa caminhada pessoal. Sejam quais forem as nossas reservas, é isso que dá vida à nossa tradição: o lugar onde a nossa história é publicamente assumida e celebrada. Nós pertencemos-lhe... e precisamos de participar da sua vida e de contribuir para ela.

E assim, além de encorajar os que não pertencem a instituições religiosas, a história de Etty desafia aqueles que têm a responsabilidade de moldar tais instituições, mediante uma interrogação profunda. Como podemos garantir que as nossas liturgias, rituais e cerimónias respiram com o tipo de espírito contemplativo que atrairá os de fora da instituição além de seduzir mais profundamente aqueles que se possam manter hesitantes nas suas margens?

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Rilke e Maria

Sobre a morte de Maria

I

O mesmo grande Anjo que outrora
lhe trouxera a mensagem da conceção,
ali estava, aguardando a sua atenção,
e disse: o tempo do teu aparecimento é agora.
E ela perturbou-se como antes e mostrou
ser de novo a serva, assentindo profundamente.
Mas ele irradiava e, aproximando-se infinitamente,
desapareceu como que no rosto dela e mandou
aos Apóstolos que se tinham afastado
que se juntassem na casa da encosta,
a casa da Ceia derradeira. Eles vieram a passo pesado
e entraram cheios de temor: ali se encontrava posta
sobre estreito leito, aquela que tinha mergulhado
misteriosamente no declínio e na eleição,
imaculada, como criatura de indiviso coração,
escutando o coro angelical com ar maravilhado.
Então, quando os viu atrás das suas velas,
expectantes, arrancou-se ao excesso de harmonia
das vozes e ofereceu-lhes ainda as duas vestes belas,
de todo o coração, as únicas que possuía,
e ergueu a sua face para este aqui e aquele além...
(Ó fonte de inomináveis lágrimas em caudais!)

Mas ela reclinou-se nos seus requebros finais
e atraiu os céus para tão perto de Jerusalém
que a sua alma, ao escapar,
apenas teve de um pouco se elevar:
e já a levava Aquele que tudo dela sabia
para a Natureza divina a que ela pertencia.


II

Quem poderia pensar que até à sua chegada
o vasto Céu imperfeito era?
O Ressuscitado ocupara a sua morada,
porém a seu lado, havia vinte e quatro anos, estivera
um trono vazio. E todos já começavam
a habituar-se à pura ausência
que estava como que fechada, pois a ofuscavam
os raios de luz do Filho em permanência.

E assim ela também, ao entrar no Céu naquele dia,
não se dirigiu a Ele, por muito que o desejasse;
ali não havia ligar, só Ele lá se encontrava e resplandecia
numa claridade que a ela lhe doía.
Porém, como agora essa figura comovente
aos bem-aventurados se juntasse
e discretamente, luz na luz, um lugar viesse ocupar,
expandu-se então do seu ser um brilho incandescente
de tal intensidade que o Anjo que ela estava a iluminar
gritou, ofuscado: quem é esta?
Houve um silêncio de espanto. Depois todos viram em festa
Deus Pai nas alturas Nosso Senhor deter
de modo a, envolto na luz do amanhecer,
o lugar vazio, como um pouco de compunção,
se mostrar, uma réstia de solidão
como algo que ainda suportava, um nada
de tempo terreno, uma cicatriz sarada.
Olharam para ela: o seu olhar com receio aí pousou,
profundamente inclinado, como se sentisse: eu sou
a sua dor mais longa; e, de súbito, caiu para diante.
Mas os Anjos consigo a tomaram
e a apoiaram e cantaram de felicidade exultante
e a elevaram e no lugar cimeiro a colocaram.


III

Porém, diante do Apóstolo Tomé, chegado
já demasiado tarde, apareceu
o rápido Anjo, há muito para tal compenetrado,
e junto ao lugar da sepultura a ordem deu:

afasta a pedra para o lado. Queres saber
onde está aquela que comove o teu coração?
Vê: como almofada de alfazema, a jazer
se encontrou ali, em breve posição,

para que a Terra tivesse o seu odor
nas dobras, como um pano raro.
Tudo o que está morto (tu o sentes), toda a dor
Estão envoltos no seu aroma claro.

Olha para a mortalha: onde está a brancura
que a torne mais deslumbrante, sem a alterar?
A luz que emana desta morta pura
mais a iluminou do que a luz solar.

Não te admiras de quão suavemente lhe escapou?
Quase como se ela ainda aí estivesse, nada saiu do lugar.
Porém todo o Céu nas alturas se agitou:
Homem, ajoelha-te, segue-me com o olhar e começa a cantar.

Rainer Maria Rilke
In A Vida de Maria, ed. Portugália
Trad.: Maria Teresa Dias Furtado

terça-feira, 1 de março de 2011

O enigma do Anjo

Angelus Novus, Paul Klee
O anjo que nos resiste


«Todo o anjo é terrível. Mesmo assim - ai de mim -/vos invoco, pássaros (...) da alma/ sabendo quem sois». Este verso de Rainer Maria Rilke, que a Modernidade tem relido tantas vezes, está construído sobre um aparente paradoxo: primeiro define o anjo como “o terrível”, isto é, inscreve-o no território transcendente do divino, mas depois diz saber quem ele é. A primeira afirmação, porém, tem uma intensidade tal que condiciona a leitura a fazer da segunda. Que concluir? Que apesar do conhecimento que possamos ter, o Anjo permanecesse um enigma, uma espécie de pergunta que nunca se desfaz.

É interessante constatar que mesmo na tradição judaico-cristã a figura do Anjo surge esboçada numa espécie de penumbra categorial, mantendo-se sempre como que indistinta, indefinível, e morfologicamente mutante. Na cena da luta noturna com Jacob, por exemplo, o anjo depois de lutar por muito tempo com ele, pede-lhe: «Deixa-me partir, porque já rompe a aurora» (Gen 32,27). É como se a luz pudesse, de alguma maneira, perturbar aquela evidência que na escuridão se dá tão palpável. A presença angélica revela-se sempre pontual face à narrativa da história (é uma espécie de manifestação extraordinária) e não se deixa fixar. Analisando os textos bíblicos percebe-se como o mecanismo textual conspira para, a propósito do Anjo, fazer isso: mostrar sem desvendar, dizer sem prender, tornar maximamente visível sem ferir minimamente o invisível.

Uma história recente pode ajudar-nos a perceber aquela de sempre. Em 1921, o filósofo Walter Benjamin adquiriu uma pintura de Paul Klee, intitulada Angelus Novus. Benjamin ficou com o quadro até ao fim da vida, como referência espiritual e objeto privilegiado do seu pensamento. Ao jornal de ideias que queria fundar deu, por exemplo, o nome de Angelus Novus. Walter Bejamin construiu uma fortíssima amizade epistolar com outro grande pensador de extração hebraica, Gershom Scholem, e ambos trocaram muitas impressões sobre a figura do Anjo. Numa carta datada de 19 de setembro de 1933, Scholem junta um poema intitulado “Saudações do Angelus”. A última quadra é particularmente precisa:

Sou uma coisa antissimbólica
Que só significa o que eu sou.
Giras em vão o anel mágico,
Não tenho nenhum sentido.

O crítico Robert Alter, que estudou esta ampla correspondência à luz do motivo do Anjo, escreve: «O anjo “antissimbólico” de Scholem resiste a qualquer tentativa de traduzir aquilo que ele é…». O mistério permanece intacto, portanto. Mas não deixa de ser relevante o facto de dois pensadores contemporâneos, com a dimensão de Scholem e Benjamin, acreditarem que não há substituto moderno adequado para o profundo léxico espiritual que a tradição coloca como pedras da sua busca de verdade.

José Tolentino Mendonça

In Diário de Notícias da Madeira, publicado por SNPC

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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