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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quinta-feira, 22 de março de 2018

A boa solidão

Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire, publicado pelo SNPC em 15 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quando o silêncio ganha voz

Pequeno Tratado da Oração Silenciosa

«O silêncio e a interioridade não são apanágio exclusivo das tradições religiosas do Oriente, como comumente se pensa, pois existe também uma forma cristã muito simples de orar em silêncio. Na longa história da prática orante dos cristãos, desde os seus primórdios, é usada a repetição continuada do Nome de Deus, como forma de se recentrar a atenção na presença divina.»

É desta constatação que parte o novo livro "Pequeno tratado da oração silenciosa", de Jean-Marie Gueullette, OP, que a Paulinas Editora acaba de publicar, realçando aquele método de oração «que, no Ocidente, passou por períodos de difusão e de esquecimento».

«No entanto, a aproximação recente às tradições ortodoxas, onde se manteve sempre viva e particularmente incentivada pelas comunidades monásticas, está a reavivar, agora, de forma progressiva essa edificante prática entre nós», refere o texto de apresentação do volume, de que apresentamos um excerto.

Uma oração simples
In "Pequeno tratado da oração silenciosa"de Jean-Marie Gueullette

O gosto pela complexidade
A maneira de rezar de que falamos é extremamente simples, e muitas vezes, por essa mesma razão, pode parecer difícil. Nós temos uma vida complicada, incessantemente confrontada com dificuldades de todo o tipo. A simplicidade não nos é natural, nem sequer na vida espiritual. Aquele para quem a oração parece uma realidade ausente da própria vida terá tendência para pensar que é por falta de tempo e de competência. «Se eu não rezo, é certamente porque isso toma muito tempo, mas, de qualquer forma, eu não sei como hei de rezar.»

Na Bíblia, há uma história que nos permite refletir sobre essa necessidade que sentimos de olhar para a relação com Deus como uma coisa complicada, sendo preferível renunciar a ela: 2Reis 5. O sírio Naaman era leproso e veio visitar o profeta Eliseu na esperança de obter dele a sua própria cura. Este recomenda-lhe que faça uma coisa muito simples: que se lave sete vezes seguidas no rio. Naaman sente-se despeitado. Esperava que o profeta fizesse gestos muito estranhos, pronunciando palavras misteriosas; ele, pelo contrário, manda-o lavar-se. Começa a matutar dizendo que na sua terra também se poderia lavar e que não havia necessidade de fazer uma viagem daquelas para ouvir uma prescrição terapêutica daquele tipo. O seu servo, cheio de sabedoria, diz-lhe: «Se o profeta te tivesse mandado fazer alguma coisa extraordinária, tu não a terias feito?» Também hoje, constatamos um interesse crescente por métodos terapêuticos estranhos, recorrendo a substâncias exóticas ou a exercícios complicados; muitos apaixonam-se por conceções antropológicas complexas, persuadidos de que têm três ou quatro corpos, dos quais um é luminoso, etc. Frente a semelhante arsenal, pode parecer muito pobre dizer que, para rezar, devemos assumir a posição conveniente e colocar-nos na presença de Deus com todo o nosso ser. Contudo, esse é um ensinamento muitíssimo presente na tradição cristã. Muitíssimo presente e, no entanto, ignorado, talvez por ser demasiado simples.

Quando contrapomos conhecimento e amor, é porque, com frequência, colocamos uma distância excessiva no ato do conhecimento – como no caso do conhecimento científico –, ou porque colocamos demasiado sentimento no amor, bem como na experiência amorosa. No entanto, é possível articular os dois movimentos interiores

Entregar-se, pura e simplesmente, a Deus 
A tradição cristã atribuiu um lugar importante à inteligência humana na vida espiritual: colocando no âmago da sua fé o acolhimento da Palavra de Deus, suscita um movimento em que a palavra e a relação com o texto são essenciais. Escutar uma palavra, ler um texto, requer não só que se procure entender, mas também que se aspire a conhecer aquele que é o seu autor. Assim, estamos habituados a utilizar a nossa inteligência para tentar conhecer Deus, compreender a sua Palavra e conhecermo-nos a nós mesmos. Nós estamos bem cientes de que uma busca assim nunca está terminada, mas, pelo menos, temos a impressão de saber como empreendê-la. Há que ler vários textos, que refletir e, eventualmente, que falar deles com outras pessoas.

Amar a Deus, porém, como poderemos chegar a fazê-lo? Como amar Aquele que não vemos? Fala-se muito de amor no cristianismo, mas será que o amor de Deus tem alguma coisa de comparável com as várias formas do amor humano? Ao colocarmos estas interrogações, retomamos novamente e reflexão, e deste modo, portanto, deixamos de estar no amor.

A proposta que fazemos aqui é a de que se tomem as coisas de outra forma. Com efeito, não é muito fecundo distinguir de forma demasiado radical conhecer e amar, como se o esforço para conhecer Deus fosse um obstáculo à relação com Ele; ou como se o amor que o crente nutre por Ele não tivesse nada a ver com aquela inteligência que é própria do ser humano. Quando contrapomos conhecimento e amor, é porque, com frequência, colocamos uma distância excessiva no ato do conhecimento – como no caso do conhecimento científico –, ou porque colocamos demasiado sentimento no amor, bem como na experiência amorosa. No entanto, é possível articular os dois movimentos interiores, de modo a que aquilo que conhecemos de Deus alimente o amor que temos por Ele, e que esse amor nos aproxime dele de uma forma que ajude a descobri-lo por aquilo que Ele é.

Limitemo-nos, portanto, a fazer atos de amor a Deus, com todo o nosso coração. Voltemo-nos para Ele com todo o nosso ser, incluindo a inteligência, num movimento que implica, ao mesmo tempo, adoração, veneração, confiança, afeto filial, amizade, esperança, todo o tipo de harmonia, diferente, consoante as pessoas e os momentos. O essencial é entregarmo-nos completamente a Ele. Porquê? Porque essa é a única maneira de entrarmos em relação com Ele em modo de igualdade. Ele dá-se completamente àquele que está disposto a acolhê-lo. Ele está presente, de forma incondicional, ao lado daqueles que criou e que considera seus filhos. Tudo o que nós podemos fazer, é fazer como Ele: dar-mo-nos completamente, mantermo-nos presentes. Sabendo apenas que a sua autodoação precederá sempre a nossa.

O ser humano tem a característica de não poder manter-se por muito tempo no mesmo ato interior. Muito depressa, as preocupações devidas ao trabalho e às preocupações quotidianas invadem o espírito e desviam-no do seu movimento para Deus. A meditação contemplativa repousa, pura e simplesmente, sobre a divisão do tempo em pequenas unidades: nós não somos capazes de amar a Deus, de nos entregarmos a Ele durante muito tempo, de maneira uniforme, mas podemos fazê-lo numa sucessão de momentos muito breves. Em cada um desses momentos é possível querer amar a Deus; querermos manter-nos na sua presença com tudo aquilo que somos.

Regressar, mediante uma palavra, à presença de Deus
Esta maneira de rezar é muito simples, consistindo em dizer interiormente uma palavra, enquanto nos mantemos calmamente sentados.

A oração do Nome
Nesta etapa, a oração apoiar-se-á numa única palavra. O ideal é utilizar o nome pelo qual, na oração, nos dirigimos es pontaneamente a Deus: Pai, Abba, Jesus, Senhor, Deus, Kyrie eleison, Adonai... Não é necessário interrogarmo-nos muito sobre a escolha dessa palavra. Como é óbvio, não existe uma palavra melhor nem mais eficaz do que outra. Basta tomar o nome que se atribui, natural e espontaneamente a Deus. Todavia, é importante que seja um nome de Deus, e não uma ideia sobre Deus nem um qualificativo de Deus, como «amor» ou «bondade».

Aquele que reza assim empenha todo o seu ser num movimento de fé e de amor para com Deus, enquanto profere interiormente o Nome. Depois, recomeça. Não é mais complicado do que isso. O sentido da palavra não tem muita importância, visto que não a devemos meditar intelectualmente. Não se deve tentar saborear todos os seus significados, todas as suas harmonias. O essencial é voltarmo-nos para Deus através desse nome, apoiando-nos nesse nome, como diz o Catecismo da Igreja Católica a propósito da oração baseada no nome de Jesus: «Muitas vezes repetida por um coração humildemente atento, a invocação do santo Nome de Jesus é o caminho mais simples da oração contínua » (CIC, n. 2668).

Se não sabemos que palavra devemos escolher, podemos rezar ao Espírito Santo, que reza em nós e que murmura no nosso coração «Abba, Pai», como diz São Paulo (Rm 8,15-26). Não é complicado, basta voltarmos a nossa atenção para Deus e deixar brotar do nosso coração um nome pelo qual o invocamos. Por vezes começa por escolher-se, de forma um pouco intelectual, uma palavra que parece acertada e cheia de sentido, mas depois, rapidamente, passado pouco tempo de oração, outra palavra se impõe, substituindo a primeira. Não se deve fazer isso com demasiada frequência, mas, por vezes, ao princípio, há um pequeno período de adaptação.

Depois de se ter começado a rezar repetindo esse nome, continua-se a repercutir sempre o mesmo, não só durante o tempo da oração, mas durante vários anos. Há aqui uma diferença notável em relação a outra forma de contemplação repetitiva próxima, de que já falava João Cassiano no século V, que consiste em repetir, ao longo do dia, um versículo ou uma expressão extraídos da leitura da Bíblia ou da oração do Saltério. Essa meditação é uma forma de prolongar, de maneira quase física, a leitura, de continuarmos a alimentar-nos de um texto no meio das nossas atividades. Como se trata de uma meditação – o que significa, aqui, que se saboreia o sentido ou os sentidos dessa palavra escolhida –, é normal que esta mude em cada dia, visto que essa prática é uma forma de ressonância da oração à leitura. Aqui, porém, o nome de Deus não está presente para alimentar a reflexão, para fazer descer ao fundo do coração determinado aspeto do mistério contemplado na palavra. A sua função é ser um ponto de apoio para permanecermos tranquilos na presença de Deus, para nos voltarmos para Ele. Quando se tem dificuldade em caminhar, não se muda de bengala em cada caminhada; neste caso, não se muda de nome.

Ao longo da vida, a oração silenciosa apoiar-se-á nesse nome, sempre o mesmo. Isso tem um efeito simplificador: mal pronunciamos o Nome interiormente, entramos em oração, sem termos de nos interrogar sobre a forma como fazê-lo hoje. Mais misteriosamente ainda, esse Nome torna-se no caminho da interioridade, permitindo manter-nos no fundo, eliminar toda a agitação em que estamos superficialmente mergulhados. É difícil de explicar, mas todos aqueles que fazem essa experiência confirmam esta ideia: o Nome permite-nos ter mais rapidamente acesso àquele lugar de silêncio, àquele lugar santo que trazemos em nós, santuário onde Deus reside. Como se, através do Nome, conhecêssemos o caminho desse santuário.

O nome de Deus 
Se cada um tiver sempre a liberdade de usar a palavra que lhe for mais natural, só podemos recomendar a oração apoiada numa palavra que seja um nome de Deus. Dizer o nome de alguém é, ao mesmo tempo, designá-lo a ele, e não a outra pessoa, fazer referência àquilo que ele é, mas sem por isso o definir. Quando falamos de alguém, ou a alguém, utilizando um diminutivo, um título ou uma qualidade psicológica ou profissional, apoderamo-nos muito mais daquele a quem designamos, delimitando o ponto de vista a partir do qual o vemos, e que nos interessa. Se eu vou «ao médico», a vida afetiva deste ou o seu gosto pela pintura não me interessam, só espero dele que seja médico, e um bom médico. Se designamos alguém por um diminutivo, como «o Luisinho», isso torna muito difícil termos sempre presente que o Luís é grande sob outros aspetos da sua pessoa, mesmo que seja baixinho.

Quando falamos de Deus como «o Salvador» ou «o Criador», aquilo que dizemos é verdade, mas limita, de igual modo, a nossa perceção de Deus. Nós escolhemos um aspeto do mistério que nos toca ou que nos interessa, correndo sempre o risco de pensar que esse aspeto revela o Mistério, revela Deus na sua globalidade. Pelo contrário, se dizemos «Deus» ou «Jesus», não os abordamos por aquilo que Eles fazem por nós, mas por aquilo que Eles são, e que nos escapa. Quando dizemos o nome de alguém, colocamo-nos em relação com ele e, ao mesmo tempo, não dizemos nada dele, não temos a ilusão de o definir.

O conhecimento que nós temos de Deus não é da ordem da definição, da descrição. Um monge ortodoxo do fim da Idade Média escrevia: «Com efeito, desde que o pensamento não cesse de proferir o nome do Senhor, e que a inteligência esteja claramente atenta à invocação do nome divino, a luz do conhecimento de Deus cobre com a sua sombra toda a alma como uma nuvem resplandecente. A recordação exata de Deus gera o amor e a alegria».

Encontramos com frequência textos espirituais que designam Jesus Cristo como «meu Esposo», ou «meu Irmão», ou «o Bom Pastor»; tudo isso é possível, tem a sua parte de verdade, mas corre-se o risco de encerrar a relação com Cristo num registo simbólico, esquecendo-se de que Aquele de quem se fala se situa para lá de todas essas fórmulas. Nenhuma delas é adequada para dizer plenamente quem Ele é. Para não o encerrarmos numa maneira de dizer que é verdadeira, mas limitada, tentaremos enunciar todas as palavras possíveis, como se pode fazer nas litanias, ou limitar-nos-emos a uma palavra que contém todas as outras, porque não designa uma qualidade, um ato ou uma função, mas Alguém. Dizer o nome de Deus significa colocarmo-nos na presença daquele que é santo, para lá de toda a medida humana, como São Pedro Crisólogo ensinava, no século V, a propósito do Pai-nosso: «Nós [...] pedimos para merecermos ter nos nossos costumes tanta santidade, quanto é santo o nome de Deus».

Invocar o nome do Senhor: eis uma definição muito antiga da oração, segundo o versículo do profeta Joel, retomado por São Paulo: «Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (Jl 3,5; Rm 10,13). Invocar o nome do Senhor é voltarmo-nos para Ele, abandonarmo-nos a Ele, sem lhe apresentarmos qualquer pedido particular. Se a salvação está ligada a essa invocação, não será porque o ser humano se coloca por ela no seu justo estatuto de criatura, incapaz de se salvar por si mesmo?

Num dia 1 de janeiro, Francisco de Sales enviou uma peque na carta a Joana de Chantal, antes de esta ter fundado a Visitação. À laia de desejos de bom ano, animou-a a proferir o nome de Jesus interiormente, com amor, a fim de que a sua presença marcasse toda a sua vida e todo o seu ser:

«Minha filha, a minha pressa é tanta, que só tenho para vos escrever a grande palavra da nossa salvação: Jesus. Sim, minha filha, que nós possamos, pelo menos uma vez, pronunciar esse nome sagrado do fundo do coração. Ó, que bálsamo ele espalharia sobre todas as potências do nosso espírito! Como ficaríamos felizes, minha filha, se tivéssemos apenas Jesus no entendimento, Jesus na memória, Jesus na vontade, Jesus na imaginação! Jesus estaria em toda a parte em nós, e nós em toda a parte nele. Treinemo-nos nisso, minha queridíssima filha, pronunciemo-lo, muitas vezes só o conseguiremos balbuciar, no fim, porém, conseguiremos pronunciá-lo bem. Mas que significa pronunciar bem esse nome sagrado? De facto, pedis-me que eu vos fale claramente. Infelizmente, minha filha, não sei; sei apenas que, para pronunciá-lo bem, há que ter uma língua toda de fogo, ou seja, devemos pronunciá-lo só por amor divino que, sem mais, exprime Jesus na nossa vida, gravando-o no fundo do nosso coração. Coragem, porém, minha filha, sem dúvida amaremos a Deus, porque Ele nos ama. Pensai nisto com alegria e não permitais que a vossa alma se perturbe com coisa alguma».

Deixar aquilo que não é Deus 
Proferindo interiormente esta simples palavra, o espírito volta-se para Deus, da forma mais radical possível. É-nos difícil, ou até impossível, estarmos completamente voltados para Deus sem nos distrairmos durante meia hora ou uma hora, mas será que não nos conseguimos empenhar o mais completamente possível apenas o tempo necessário para dizer uma palavra? Em seguida, só teremos de recomeçar. Esse movimento para Deus requer duas coisas: que deixemos tudo o que nos ocupa e que mobilizemos a nossa atenção, voltando-nos para Deus com fé. Escrevia Dom Chapman, monge inglês que viveu no início do século XX: «O caminho mais simples para fazer um ato de atenção a Deus é fazer um ato de inatenção a tudo o resto».

Esta forma de rezar baseia-se, com efeito, num movimento de desapego em relação a tudo o que não seja Deus. Devemos, portanto, desligar-nos de qualquer preocupação, de qualquer ideia, de qualquer recordação, boa ou má. Desligarmo-nos não é rejeitar ou esquecer, mas largar, pelo menos temporariamente, para nos podermos dar a Deus. Pôr de lado, para nos recentrarmos na presença de Deus. Na verdade, tudo isso nos pode encher a cabeça, mesmo que sejam ideias muito piedosas ou a solicitude cheia de caridade para com o nosso próximo. Mesmo que seja bom, a oração não é o momento para isso.

Se quisermos prestar atenção às confidências de um amigo, tentaremos desligar-nos dos ruídos da rua, que, noutras circunstâncias, nos poderiam fazer olhar pela janela. Deixaremos também as recordações, boas ou más, que temos das suas outras visitas, pois elas impedem-nos de o receber tal como esse amigo se encontra hoje. Todo o tipo de ideias ou de imagens atravessar-nos-ão a mente, mas nós deixá-las-emos passar, para nos mantermos atentos àquilo que ele nos diz hoje. E essa atenção não será apenas a concentração do cientista debruçado sobre a sua experiência, mas a manifestação do amor que nos habita."

In SNPC

sábado, 2 de dezembro de 2017

Quem é o meu anjo?

Se Deus nos enviar um anjo, dar-nos-emos conta?

"Maria é aquela que tornou possível a incarnação do Filho de Deus, «a revelação do mistério, envolvido no silêncio por tempos eternos» (Romanos 16, 25). Tornou possível a incarnação do Verbo precisamente graças ao seu "sim" humilde e corajoso.

Maria ensina-nos a colher o momento favorável em que Jesus passa na nossa vida e pede uma resposta pronta e generosa. E Jesus passa. Com efeito, o mistério do nascimento de Jesus em Belém, acontecido historicamente há mais de dois mil anos, atua, como evento espiritual, no «hoje da liturgia».

O Verbo, que encontrou morada no ventre virginal de Maria, na celebração do Natal vem novamente bater ao coração de cada cristão: passa e bate. Cada um de nós é chamado a responder, como Maria, com um "sim" pessoal e sincero, colocando-se plenamente à disposição de Deus e da sua misericórdia, do seu amor.

Quantas vezes Jesus passa na nossa vida, e quantas vezes nos envia um anjo, e quantas vezes não nos damos conta porque estamos muito ocupados, imersos nos nossos pensamentos, nos nossos afazeres e até, nestes dias, nos nossos preparativos de Natal, quantas vezes não nos damos conta dele que passa e bata è porta do nosso coração, pedindo acolhimento, pedindo um "sim", como o de Maria.

Um santo dizia: «Tenho medo de que o Senhor passe». Sabeis porque tinha medo? Medo de não o acolher e deixá-lo passar. Quando nós ouvimos no nosso coração: «Quero ser melhor... Estou arrependido do que fiz...» - é precisamente o Senhor que bate à porta.

Deus faz-te sentir isto: a vontade de seres melhor, a vontade de permaneceres mais próximo dos outros, de Deus. Se tu sentes isto, então para: o Senhor está aí. Vai rezar, e talvez à confissão, fazer uma limpeza: faz bem. Recordai-vos bem: se sentis esta vontade de melhorar, é ele que bate - não o deixeis ir embora.

No silêncio do Natal, junto a Maria está a silenciosa presença de S. José, como está representada em cada presépio - e também naquele que podeis admirar aqui, na Praça de S. Pedro.

O exemplo de Maria e de José é para todos nós um convite a acolher Jesus com total abertura de alma, Ele que por amor se fez nosso irmão. Ele vem trazer ao mundo o dom da paz: «Paz na Terra aos homens por Ele amados» (Lucas 2, 14), como anunciaram em coro os anjos aos pastores.

O dom precioso do Natal é a paz, e Cristo é a nossa verdadeira paz. E Cristo bate aos nossos corações para nos dar a paz, a paz da alma. Abramos as portas a Cristo.

Confiamo-nos à intercessão da nossa Mãe e de S. José para viver um Natal verdadeiramente cristão, livre de toda a mundanidade, pronto a acolher o Salvador, o Deus connosco."

Papa Francisco  no Angelus de 21 de dezembro de 2014
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A fé fora do templo


As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte II


Um convite à oração

A segunda forma pela qual a vida de Etty nos interpela e desafia é sobre as pressuposições da própria religião: de que as instituições a detêm e controlam, acerca da questão que reside no cerne da mesma e a forma pela qual nós pensamos nas suas fronteiras. (...)

A sua caminhada até à fé em Deus transformou a sua vida, mas aconteceu fora de qualquer instituição religiosa. Etty é uma figura contemporânea, também neste sentido. A sua história convida-nos a reconhecer caminhadas de fé alheias a instituições religiosas, e anima-nos nessa caminhada. Também desafia aqueles que trabalham nas instituições religiosas a refletir mais profundamente sobre a razão pela qual são tão desconsiderados, e a escutar aqueles que se encontram para lá das suas fronteiras.

Grande número de pessoas do mundo ocidental, sobretudo jovens, sentindo as pressões de uma irrequieta sociedade consumista, sentem que o seu estéril secularismo não lhes oferece nada em termos das questões de significado mais profundo. Podem sentir-se num deserto espiritual... e assim, por entre as exigências, as pressões e o ritmo de vida vivido à superfície das coisas, existe uma fome profunda de «espiritualidade». Contudo, este interesse pela «espiritualidade», que se revela numa grande diversidade de maneiras, não se encaixa facilmente nas narrativas e nas expectativas das instituições religiosas preestabelecidas. Assim, na Europa (a situação nos Estados Unidos parece ser diferente), verifica-se a situação paradoxal de que um interesse crescente pela «espiritualidade» corresponde a um declínio da frequência institucional da Igreja. Isto conduz-nos ao que reside no coração da espiritualidade num mundo pós-moderno.

Num útil artigo intitulado «A crise da pós-modernidade», o escritor e teólogo Philip Sheldrake sugere que, aqui, se verifica uma confusão de interrogações. Há a interrogação em que as instituições religiosas ainda se centram com afinco, nomeadamente, «O que é ou quem é Deus?» Mas, por detrás da «busca espiritual contemporânea», há uma questão diferente (embora, na tradição mística, com ela relacionada), designadamente, «Quem sou eu?» O problema para as instituições religiosas é que, nos seus credos, liturgias e, muitas vezes, na sua pregação, exploram e expõem uma resposta para a primeira questão, que tem vindo a ser cada vez menos colocada.
(...)

A questão do ego

(...)Esta questão sobre Deus já não é o ponto em que começa a busca espiritual contemporânea. O que conduz esta busca é a questão - a surpreendente, e até misteriosa questão - do ego. Quem sou eu, no caráter único dos meus sentimentos, relações, reações e sentido de pertença ou não pertença; no contexto particularíssimo da minha vida, da minha história e do meu possível futuro?

As instituições religiosas não parecem ter apreendido toda a força desta mudança: o poder do terramoto secular a nível do entendimento que ocorreu e que alterou o centro dos interesses. Continuam a comportar-se como se a antiga visão do mundo continuasse a imperar. Não deviam estar tão surpreendidos pelo facto de os seus números continuarem a declinar.

Etty Hillesum fala ao mundo moderno porque a sua caminhada começou com a psicoterapia, com a questão que muitos outros fazem, de vários modos: «Quem sou eu?» Ela começou com o enigma desconcertante e perturbador de si própria, e a sua caminhada prosseguiu fora de qualquer instituição religiosa.

[6 pistas para a caminhada orante]

Houve cinco elementos-chave nessa caminhada: uma relação de aceitação incondicional dentro da qual ela se sentia segura para explorar a sua experiência; exploração intelectual do pensamento de alguns escritores-chave, nomeadamente Jung e Rilke; a influência do seu mentor, uma pessoa de fé, que a introduziu em textos religiosos fundamentais, nomeadamente os Salmos, o Novo Testamento e Santo Agostinho, e em vários outros, ainda; a sua própria resposta à ânsia que sentia dentro de si para rezar; e o desenvolvimento de discipli­nas particulares da vida espiritual.

O seu caminho particular constitui um estímulo e um encorajamento para aqueles para quem parece difícil pertencer às instituições religiosas. Quer uma pessoa continue a ser ou não membro de uma igreja ou sinagoga ou da instituição de qualquer outra tradição de fé, Etty convida-nos a aprofundar mais a nossa exploração pessoal.

(...)
O momento mais íntimo e talvez mais importante da caminhada de Etty foi quando ela começou a rezar. Escreveu que «deu consigo», de repente, ajoelhada no tapete castanho de fibra de coco na casa de banho. Parece ter ocorrido de forma involuntária, como reação a «uma grande necessidade» proveniente mais de uma parte profunda de si própria do que da sua mente. Sentiu-se profundamente embaraçada com isso, e a «porção ateia racional e crítica» da sua pessoa fitou-a, estupefacta, chamando-lhe louca. Eis um momento-chave da sua caminhada de fé: um momento em que temos de nos libertar de todo o nosso «palavreado», de nos libertar do desapego da mente inquisitiva, e de responder a alguma necessidade primitiva do coração, e - ignorando o embaraço e qualquer sentido de insensatez - atrever-se a dizer «Sim».

Uma vez atravessada esta barreira - embora o embaraço volte a surgir e a parte racional e crítica das nossas pessoas, que tem uma importância profunda, certamente volte a afirmar-se - a oração poderá, lentamente, começar a ser habitual, e até, como Etty descobriu, muito necessária. Em determinado ponto do seu diário, Etty escreve: «Continuo a dar comigo em oração.»

Se quisermos entrar realmente neste potencial - para descobrir aonde o mesmo nos pode conduzir - as disciplinas desta vida têm de ser praticadas. Tal como aprender a pintar, ou a tocar um instrumento musical, é um trabalho difícil e não pode ser aprendido de um dia para o outro. Para Etty, a sua espiritualidade e a sua oração significava aprender «a viver artisticamente», uma expressão que ela foi buscar a Rilke. Para o conseguir, ela sabia que «a paciência é tudo» (fazendo ressoar mais uma vez as palavras de Rilke); a paciência e a prática de certas disciplinas. E quais são essas disciplinas?

- silêncio - «há um vasto silêncio em mim que continua a crescer»
- solidão - «no profundo de nós mesmos, todos nós carregamos uma vasta e frutífera solidão»
- atenção, na tomada de consciência e na abordagem dos «rebanhos selvagens» dos pensamentos e sentimentos
- uso de imagens, aprendendo a conhecer tanto o seu poder como os seus perigos
- ler os Salmos, extraindo deles apenas uma frase e plantando-a nas profundezas do coração, onde o seu significado pode crescer.
E (o mais importante para Etty):
- aprender a escutar «tudo o que nos chega de fora... e... tudo o que brota de dentro» - o desenvolvimento de uma consciência intuitiva daquilo que é «mais essencial e mais profundo» em nós próprios, nos outros, na interligação da vida.

Tudo isto e mais ainda fazia parte da caminhada de Etty, que, sobretudo depois de ter deixado os seus amigos em Amesterdão e de Spier ter morrido, se tornou solitária. Na sua carta dirigida a Henny Tideman vislumbramos a sua solidão. Para este trabalho de espiritualidade se manter, precisamos de amizades e de comunidades. Também precisamos, depois de termos confiança suficiente para nos confrontarmos com ele, do desafio, ajuda e correção mais vastos que a instituição religiosa competente pode oferecer à nossa caminhada pessoal. Sejam quais forem as nossas reservas, é isso que dá vida à nossa tradição: o lugar onde a nossa história é publicamente assumida e celebrada. Nós pertencemos-lhe... e precisamos de participar da sua vida e de contribuir para ela.

E assim, além de encorajar os que não pertencem a instituições religiosas, a história de Etty desafia aqueles que têm a responsabilidade de moldar tais instituições, mediante uma interrogação profunda. Como podemos garantir que as nossas liturgias, rituais e cerimónias respiram com o tipo de espírito contemplativo que atrairá os de fora da instituição além de seduzir mais profundamente aqueles que se possam manter hesitantes nas suas margens?

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Somos únicos?

Vittorio Carvelli
Cada um de nós é uma parcela de infinito

Não é possível propôr para todos uma palavra única sobre o amor, sobre a felicidade, sobre a procura do sentido da vida ou sobre a espiritualidade. É evidente que certas palavras podem pôr em comunicação as experiências ou os itinerários de todos. Poder-se-ia mesmo supôr que, para os crentes, a palavra Deus bastaria, tão grande ela é, para os reunir numa visão unificante de todas as suas aspirações e percursos espirituais. E contudo, esta palavra imensa tanto é fonte de contradições e conflitos como também pode anunciar em cada ser aquilo que o constitui e o habita para a consumação nele de um destino que o transfigura e funda a sua liberdade.

Quando, entre os homens, o mistério de Deus está em causa – e seria possível que o não esteja na confrontação das religiões – eu quereria entregar-me ao olhar sem limite da relação contemplativa. Sejamos único uns para os outros, não banalmente porque somos diferentes, mas porque cada um de nós é habitado por uma parcela de infinito e o seu ser próprio é a parte singular do divino que não pertence senão a ele e de que ninguém pode apropriar-se nem julgar. Ninguém é herético no seu mistério.

Àquele que fixa em mim um olhar contemplativo, eu diria: «Quereria revelar-me a ti para te deixar vislumbrar o segredo que me habita sem destruir aquele que dá à tua vida essa luz que mais ninguém possui. E se me tiver acontecido querer ensinar-te aquilo que não se ensina, esquece esses discursos indevidos que não são senão expressão da fragilidade. Também eu, na minha noite, avanço para a luz, e se procuro a tua presença não é para te convencer, mas porque desejo que te mantenhas ao meu lado. Em ti reconheço um companheiro cuja fé e oração são a oferenda do teu ser a esse Deus não revelado para o qual o nosso comum desejo inventou as religiões como um caminho inacabado

Como seria belo que entre os homens o mistério de Deus não os opusesse. Que a palavra pronunciada por cada um sobre a sua própria fé seja investida pela escuta da fé do outro. Que toda a humanidade esteja à escuta do silêncio de Deus, acompanhada por esse murmúrio que a atravessa, esse murmúrio da fé e da oração que revelaria a comum expectativa. Que todo o rito e toda a palavra possam nascer dessa vibração de infinito. Que ninguém impeça a passagem a fim de que os céus permaneçam abertos à consciência de todos.

Apreender o instante desta vibração, um instante próximo da surpresa. Nada dizer, nada explicar, conservando a memória, e sorrir diante do não-saber.

Que todo o homem seja uma sugestão do infinito.

Bernard Feillet in "L’arbre dans la mer" tradução de José Mendonça

domingo, 2 de dezembro de 2012

Uma jornalista no convento de clausura

As coisas do mundo dizem-nos tão pouco...


A vida de 27 Clarissas do Mosteiro de Santa Clara, em Monte Real, cruzou-se “por vontade de Deus”. A mais nova tem 22 anos; a mais velha 86. Em comum têm um mesmo desejo: seguir Jesus da forma mais radical que a Igreja prevê – a clausura.

Lurdes

Tem 28 anos, mas parece que o rosto parou de envelhecer aos 17, quando decidiu sair de casa para se tornar Clarissa.
Deixou a família na Guarda a braços com as perguntas dos amigos e conhecidos. “Que se passou com a Lurdes? Sofreu algum desgosto?” Dez anos depois abre as mãos, conservadas brancas pela quietude da clausura, e garante-nos que seguram o mundo. “Redondo, a girar.” Lurdes vigia-o, reza por ele.

“É feliz?” Responde, quase sem pensar, com outra pergunta: “Não se nota?” Quebrámos a hora do silêncio maior entre as 14 e as 15 horas, para conversar, a sós, na horta. “Claro que tenho saudades lá de fora. De quando ia passear. Gostava de ir à serra da Estrela. Sentia Deus naquela imensidão de terra. Mas cá dentro o mundo é maior.”

Ao jantar, Lurdes é a mais atenta de todas. Observa-nos, sorri quando cruzamos o olhar com o dela. Parece divertida com o ar deslocado e de aflição permanente típico de quem acabou de chegar.
No refeitório só há um objecto de decoração – um quadro da Última Ceia de proporções consideráveis. As mesas e as cadeiras, dispostas em rectângulo, ocupam quase toda a sala.

A encabeçar o desenho está Maria Clara, a abadessa, que, minutos depois do início da refeição, abre uma gaveta pequenina por debaixo da mesa e, surpreendentemente, retira o comando da televisão. Ao jantar assiste-se aos primeiros 15 minutos do telejornal. “As únicas notícias que interessam”, justifica. Mas afinal vêem televisão? Todas se riem da pergunta. “Claro. Para podermos rezar pelo mundo precisamos de saber o que se passa.”

Donzília

Dizem que se afastaram do mundo por tanto o amarem. Rezam, trabalham e vivem numa comunidade silenciosa, longe dos olhares e dos vícios da sociedade. Vinte e quatro horas por dia, prestam adoração ao Santíssimo Sacramento na igreja do mosteiro. Acordam a meio da noite para se revezarem em turnos que duram uma hora. Levantam-se, vestem o hábito, lutam contra o sono e percorrem os enormes corredores sem luz natural que ligam as celas à igreja.
Conhecem a geometria da casa e por isso não precisam de acender as luzes. Enquanto o resto do mundo dorme, as Clarissas caminham, silenciosas, no meio da escuridão. Na igreja, em frente ao baldaquino, ajoelham e ficam em contemplação.

Donzília é, aos 73 anos, a irmã sacristã. Toma conta da igreja quando, às seis da tarde, os fiéis começam a chegar para assistir à missa. É a única que dá a cara. O resto da comunidade habita no coro, na parte de cima da igreja, escondida dos olhares curiosos. Donzília é uma das mais antigas da casa e interpela os fiéis pedindo-lhes que façam as leituras. Rodopia à volta do padre André Batista, que é capelão da base aérea de Monte Real, prepara as hóstias, acende os candelabros.

No final da celebração apaga as velas e recolhe ao coro. As Clarissas esperam que a igreja fique vazia e, até às oito da noite, a hora do jantar, concentram-se nos breviários e desdobram-se em orações e cânticos.

Ana

É pequenina e não parece ter mais de 20 anos. Mas Ana Maria já conta 38 e chegou a Monte Real há nove. Não sabe explicar porquê. “É Ele quem nos escolhe”, diz. Nem sequer era baptizada quando, aos 23 anos, se aproximou da Igreja.

Terminou o curso de Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Aveiro e quis ser baptizada. Ainda deu aulas de Português e Latim. Passou por Cascais, Serpa, Beja e Santiago do Cacém. No espaço de um mês tomou a decisão que lhe mudou a vida. E começou a procura pelas várias ordens religiosas em Portugal.

Quando encontrou o nome do Mosteiro de Santa Clara na lista, estremeceu. “Anos antes, tinha ligado para as informações à procura de um número de um amigo e, por engano, deram-me o do mosteiro.” Ligou, atendeu a irmã Maria Clara, pediu desculpa pelo engano e o episódio caiu no esquecimento. Nessa altura a vida religiosa era coisa que não lhe passava pela cabeça.

Entretanto, um colega de Latim apaixonou-se por ela. Nunca conseguiu corresponder-lhe. Um dia conheceu um advogado que lhe disse: “Ana, gosto de ti, mas não consigo tocar-te e não sei porquê.” Nunca mais se viram. Agora não tem dúvidas de que “foram sinais de Deus” a indicar-lhe o caminho.

No início queria ser missionária. “Mas quantas pessoas iria ajudar? Na clausura, pela oração, consigo interceder pela humanidade inteira”, acredita. Pouco antes de chegar a Monte Real ganhou uma bolsa para uma pós-graduação na Grécia. Mas nem isso a convenceu.

“As vocações não são nenhum bicho-de-sete-cabeças nem são histórias místicas”, explica a abadessa, Maria Clara. “São escolhas racionais e dolorosas, porque as famílias não aceitam, especialmente no primeiro momento.”

Quando Maria Fernanda decidiu abandonar a carreira do ensino, aos 22 anos, a mãe telefonou para todos os mosteiros para saber onde estava. Quando conseguiu a morada do de Monte Real, “apareceu cá, arreliada”, mas acabou por aceitar a escolha da filha. “E fui eu que lhe vali quando ela morreu”, recorda Maria Clara.

Maria Clara

A abadessa, eleita por voto secreto pela comunidade, faz parte do grupo inicial de quatro mulheres que acompanharam Maria Teresa, a fundadora, quando se mudou do Mosteiro do Louriçal para abrir uma nova casa em Monte Real. Tinha 19 anos e um namorado. Décadas mais tarde reencontraram-se. Ele casado, ela de hábito. “Disse-me que não me tinha esquecido, mas eu disse-lhe que não pensava voltar atrás.” Perguntou-lhe se era feliz. Ela disse que sim. “Eu sei. Percebi assim que te vi passar.” Foi a última vez que se encontraram.

Arriscamos a pergunta: e viver sem sexo, como é? “Tentamos elevar o lado espiritual. Nenhum caminho na vida é perfeito e completo. Mas aqui há uma relação espiritual com Deus que suplanta todas as dificuldades. Aliás, toda a relação de amor entre um casal suplanta a ligação física, e é isso que há com o meu marido, que é Deus”, responde. “Dizem que vivemos em clausura, mas lá fora é que se vive enclausurado. É-se escravo do trabalho, do dinheiro, de preocupações que aos nossos olhos não significam nada.”

E o próprio recolhimento tem limites. As Clarissas podem sair em caso de doença grave de um familiar e estão autorizadas a receber visitas no locutório, uma sala à entrada do mosteiro, dividida a meio por um pequeno muro. É aí que recebem também pedidos particulares de orações. Ultimamente, a maioria chega pela internet. E nenhum é recusado.

Nos 37 anos de história do mosteiro, as Clarissas deram abrigo a mulheres vítimas de violência doméstica, atenderam pedidos de ajuda desesperados a meio da noite. “Como uma mulher que se preparava para se suicidar na praia da Vieira”, recorda Maria Fernanda. Não negam esmola a quem lhes bate à porta e chegaram a dar guarida, durante nove anos, a um homem que aparentemente não tinha nada, logo a seguir ao 25 de Abril.

Quando morreu descobriu-se que era dono de vários prédios em Lisboa. Deixou-lhos em testamento, mas repudiaram o documento. Apesar disso, a comunidade não recebe qualquer subsídio da Igreja, por isso têm de trabalhar. Venderam os trabalhos de costura, até há bem pouco tempo, a uma loja em Lisboa. “Mas a crise chega a todo o lado e o acordo caiu por terra”, explica a abadessa.

A principal fonte de rendimento é a pequena hospedaria, contígua ao mosteiro. Mas o negócio é sazonal – os turistas só chegam a Monte Real no Verão, para a praia ou para as termas. Todos os meses há despesas. “Só para a Segurança Social vão mais de mil euros.”

Para poderem tratar destes assuntos, e apesar de viverem em clausura, quatro Clarissas têm autorização do Vaticano para sair quando for necessário. E gostam? A resposta é categórica: não. “Quando saio só quero voltar para casa o mais depressa possível. As coisas do mundo dizem-nos tão pouco...”

Rosa Ramos (i) / SNPC
Para saber mais sobre as clarissas:
http://www.clarissasmontereal.com/
http://clarissasmontereal.blogspot.pt/

sábado, 12 de março de 2011

Para lá do Ouvido sensível

A arte de escutar

A dada altura passamos a aceitar o invisível em nós e nos outros. Isto é, damos por nós a aceitar serenamente que a vida tem camadas geológicas como a terra, que a vida se expande por tempos de formação ocultos à superfície, e que em todas as existências há uma crosta terrestre e metros e metros de filamentos, mergulhados em silêncio. Ao contrário dos juízos apressadamente rasos, nos quais todos caímos, é preciso dizer que somos inacessíveis. E que os instrumentos que temos para chegar ao coração uns dos outros são inquietantemente limitados. Basta reconhecer como o nosso olhar, este olhar que tão a miúdo absolutizamos, está prisioneiro do presente: aquilo que o olhar anota é sempre e só o presente histórico nas suas configurações. Enquanto que no interior de cada um, o passado e o futuro têm uma força insuspeitável, um impacto a perder de vista.

Por isso, se nos perguntam, «a vida pertence mais ao domínio do visível ou do audível?», parece-me mais sensato optar pelo segundo. Na verdade, enquanto que o silêncio de uma vida nem sempre se consegue detetar com os olhos, a invisibilidade da vida pode sempre ser escutada. A escuta talvez seja o sentido de verificação mais adequado para acolher a complexidade que uma vida é. Contudo, nós escutamo-nos tão pouco e, dentre as competências que desenvolvemos, raramente está a arte de escutar.

Na regra de São Bento há uma expressão essencial se queremos perceber como se ativa uma escuta autêntica: «abre o ouvido do teu coração». Quer dizer: a escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração. A escuta não é apenas a recolha do discurso verbal. Antes de tudo é atitude, é inclinar-se para o outro, é confiar-lhe a nossa atenção, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou a sua dor mais ou menos ciciada, o sentimento de plenitude ou de frustração. E fazer isto sem paternalismos e sem cair na tentação de se substituir ao outroOuvir é oferecer um ombro, onde o outro possa colocar a mão, para rapidamente se levantar. Ouvir é colaborar amigavelmente num processo de discernimento cuja palavra derradeira cabe sempre à liberdade do próprio. Mas podermos ser escutados, até ao fundo e até ao fim, abre, só por si,  horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da confiança.

Um dos textos mais impressionantes sobre o valor da escuta é o conto “Tristeza” de Tchékov. Conta a história de um cocheiro, Iona, que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, ninguém disponível para o amparar. «Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...», mas ninguém o ouve. O cocheiro volta-se então para o seu cavalo e enquanto lhe dá aveia começa a expor-lhe, num longo e dorido monólogo, tudo o que viveu. E as últimas palavras do conto são estas:
«O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo».

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira, publicado por SNPC

domingo, 23 de janeiro de 2011

Batata ou cebola? Viagem ao centro da alma e a atenção ao silêncio


A atenção

Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nos seus tratados ou pode ser formulada por um mestre espiritual.

O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que «tudo é interpretação», isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspetivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. Uma visão espiritual do mundo, por outro lado, está certamente do lado da batata, pois considera que mesmo escondida por uma crosta ou por um véu persiste uma realidade que é substanciosa e vital.

A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la muitas vezes como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.

Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia que ela é fundamentalmente feita de atenção: «é a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz». Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da vida espiritual.

Possamos dizer a verdade do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen:

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Os sentidos espirituais abrem-se e maturam no silêncio. Se mergulhamos neles, tornam-se trilhos para o nosso caminho. É esse o conselho que os mestres unanimemente fazem para passarmos da cebola à substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio, um dos Padres do Deserto (eremitas cristãs que fundaram a espiritualidade monacal) soava assim - «Foge. Cala-te. Permanece no recolhimento». Poemen garantia - «Se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». João Clímaco, na primeira metade do século VII, escreveu: «o amigo do silêncio aproxima-se de Deus, e encontrando-se com Ele em segredo, recebe a sua luz». Isaac de Nínive prescrevia aos que o procuravam: «Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever… Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do teu silêncio

José Tolentino Mendonça

In Diário de Notícias - Madeira, a 16 de Janeiro de 2011
publicado por SNPC

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Do Japão, sobre Deus

arte em Origami
"O Senhor não ficará em silêncio.
Mesmo admitindo que Ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará d’Ele para todo o sempre."
Shusaku Endo

sábado, 20 de novembro de 2010

Rezar com ou sem palavras

10 pistas para a Oração

4ª pista
Para rezar é preciso falar?

«Deixar que as preces se tornem oração é aceitar calar-se, deixar o silêncio estabelecer-se em nós, no esquecimento de nós mesmos, para nos concentrarmos nas palavras de Jesus, permitindo que o Espírito as grave nos nossos corações até que elas dêem frutos de fé, esperança e caridade», refere o padre carmelita Dominique Steckx.

«Em seguida, pronunciar palavras breves e simples, como servo e amigo, perguntando: “Que queres que eu faça?”. A oração, como todo o encontro entre amigos, tem tonalidades diferentes como os dias.

Às vezes, um versículo da Bíblia absorve-me e oferece-me a possibilidade de gozar a presença de Deus. Noutras ocasiões é-me suficiente pronunciar apenas o nome de Jesus para que Ele se torne presente. Contento-me então em olhá-lO e deixar-me olhar por Ele. Mas por vezes parece que Ele deixou de existir para mim. Crer, apesar de tudo, na sua presença em mim é um acto de fé na sua palavra. O Senhor não precisa de uma sirene para se fazer entender!»

Um conselho: «O silêncio abre a capacidade de receber Deus, começando por abandonar nas suas mãos o que somos, com as nossas fraquezas e neuroses», explica o P. Antoine de Augustin, formador no Seminário de Paris.

Martine de Sauto
in La Croix
tradução de Rui Martins para o site da SNPC (publicado a 19 de Novembro de 2010)
http://www.snpcultura.org/paisagens_dez_conselhos_oracao.html

Ler no blogue:
1ª pista http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/10-pistas-para-oracao-quando-onde-e.html
2ª pista http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/orar-com-o-corpo.html
3ª pista http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/orar-com-o-canto-com-os-salmos-com.html

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Silêncio

Na verdade, é preciso querer para se ter um bom silêncio, é preciso querê-lo e dar-lhe valor. Nesse caso, consegue-se sempre. E se uma vez ele é saboreado, fica-se sem se perceber como se podia viver sem ele. É preciso que o silêncio não seja apenas uma coisa exterior, como no caso em que ninguém fala nem se mexe. O silêncio verdadeiro implica que os pensamentos, os sentimentos e o coração estejam igualmente em repouso.

(desconheço a autoria)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma carta aberta de Hans Küng

Uma voz incómoda, uma pedra no charco. Partilho esta carta aberta de um teólogo:


Perda histórica de confiança

Igrejas vazias – e agora ainda por cima um escândalo: Cinco anos após Bento XVI ter sido eleito Papa, a Igreja Católica vê-se a braços com a maior crise de confiança desde a Reforma.

Venerados bispos,
Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, e eu éramos em 1962-1965 os teólogos mais jovens do Concílio. Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em actividade. Entendi sempre o meu trabalho teológico como sendo também um serviço para a igreja. Assim, no quinto aniversário do pontificado do papa Bento XVI, escrevo-vos uma carta aberta, pois estou preocupado com a nossa igreja, que se debate com a crise de confiança mais profunda desde a Reforma. Não tenho outra maneira de chegar a vós.
Prezei muito o facto de Bento XVI me ter convidado para uma conversa de quatro horas, pouco depois da sua eleição, apesar de eu ser um crítico seu. A conversa foi amigável e deu-me esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubinga encontrasse o caminho para o prosseguimento da renovação da igreja e do entendimento ecuménico, no espírito do Concílio Vaticano II.

Oportunidades perdidas
Infelizmente, as minhas esperanças, assim como as de tantos católicos e católicas empenhados, foram vãs e eu comuniquei isso ao papa Bento XVI em diversas cartas. Ele cumpriu sem dúvida conscienciosamente os seus deveres papais e até já nos deu três proveitosas encíclicas sobre a fé, a esperança e o amor.
Mas no que respeita aos grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado é cada vez mais caracterizado pelas oportunidades perdidas e não pelas ocasiões aproveitadas:
— Perdeu-se a oportunidade de aproximação com as igrejas evangélicas: não são entendidas como igrejas em toda a acepção da palavra, pelo que não é possível reconhecer os seus ministros e realizar celebrações conjuntas da eucaristia.
— Perdeu-se a oportunidade de diálogo com os judeus: o papa reintroduziu uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus e abre as portas da igreja a bispos cismáticos notoriamente anti-semitas, beatificou Pio XII e entende o judaísmo somente como raiz histórica do cristianismo, e não como comunidade de fé existente com um caminho próprio de salvação. Irritação dos judeus em todo o mundo por causa da homília de Sexta-Feira Santa do pregador da Casa Pontifícia, que comparou as críticas ao papa com ódio anti-semita.
— Perdeu-se a oportunidade de diálogo confiante com os muçulmanos: sintomático foi o discurso de Bento em Regensburgo, no qual, mal aconselhado, falou do Islão como uma religião da violência e da desumanidade, tendo provocado uma desconfiança duradoura entre os muçulmanos.
— Perdeu-se a oportunidade de reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o papa tem afirmado seriamente que eles “ansiavam” pela religião dos seus conquistadores.

Luta contra a SIDA
— Perdeu-se a oportunidade de ajudar os povos africanos: na luta contra a sobrepopulação através da aprovação de medidas de contracepção e na luta contra a SIDA através da autorização do uso do preservativo.
— Perdeu-se a oportunidade de selar a paz com a ciência moderna: através de um reconhecimento sem reservas da teoria da evolução e da aprovação diferenciada de novos campos da investigação, como a investigação sobre células estaminais.
— Perdeu-se a oportunidade de transformar finalmente o espírito do Concílio Vaticano II na bússola da Igreja Católica dentro do próprio Vaticano e de levar por diante as reformas nele preconizadas.
O último ponto, venerados bispos, é especialmente importante. Este papa tem vindo sempre a relativizar os textos do Concílio e a interpretá-los contra o espírito dos pais do Concílio, recuando em vez de avançar. Toma até uma posição expressa contra o Concílio Ecuménico que, segundo o direito canónico católico, constitui a autoridade máxima da Igreja Católica:
— Admitiu incondicionalmente na igreja bispos da tradicionalista Fraternidade Pio X, ilegalmente ordenados, à margem da Igreja Católica, que rejeitam o Concílio nos seus pontos centrais.
— Promove com todos os meios a missa medieval segundo o rito tridentino e celebra ocasionalmente a eucaristia em latim de costas voltadas para o povo.
— Não cumpre o acordo delineado em documentos ecuménicos oficiais com a Igreja Anglicana (ARCIC), mas tenta atrair para a Igreja Católica Apostólica Romana religiosos anglicanos casados, libertando-os da obrigação do celibato.
— Fortaleceu globalmente as forças anticonciliares no interior da Igreja, através da nomeação para cargos de chefia (secretários de estado, congregação da liturgia, etc.) de pessoas com posições anticonciliares e bispos reaccionários.

Política de restauração falhada
O papa Bento XVI parece distanciar-se cada vez mais da grande maioria do povo católico, que se preocupa cada vez menos com Roma e, na melhor das hipóteses, se identifica apenas com a comunidade e o bispo local. Sei que muitos de vós também sofrem com isso: a política anticonciliar d o papa é inteiramente apoiada pela cúria romana. Esta procura sufocar as críticas no episcopado e na igreja, e desacreditar os críticos por todos os meios.
Através de uma renovada sumptuosidade barroca e de manifestações com impacto nos meios de comunicação social, Roma procura apresentar uma Igreja forte, com um “Vigário de Cristo” absolutista, que reúne nas suas mãos todo o poder legislativo, executivo e judicial.
No entanto, a política de restauração de Bento XVI fracassou. Todas as suas aparições, viagens e documentos não conseguiram alterar, no sentido da doutrina romana, as opiniões da maioria dos católicos acerca de questões controversas, principalmente em termos de moral sexual. E mesmo os encontros de juventude, frequentados sobretudo por agrupamentos carismáticos conservadores, não conseguiram travar o abandono da Igreja por parte de fiéis, nem despertar mais vocações para o sacerdócio.

Abandonados
Serão justamente os bispos quem mais profundamente lamentará este facto: desde o Concílio, dezenas de milhares de sacerdotes abandonaram o sacerdócio, sobretudo devido à lei do celibato obrigatório. A renovação não só de sacerdotes, mas também de congregações religiosas, freiras e irmãos laicos decaiu, tanto em quantidade como em qualidade. A resignação e a frustração alastram no seio do clero e entre os membros mais activos da igreja.
Muitos sentem-se abandonados nas suas necessidades e sofrem na Igreja. Em muitas das vossas dioceses deve acontecer isto: cada vez mais igrejas vazias, seminários vazios, residências paroquiais vazias. Nalguns países as comunidades católicas são fundidas, por falta de padres e frequentemente contra a sua vontade, em “unidades de assistência espiritual” gigantescas, nas quais os poucos padres disponíveis estão completamente sobrecarregados e que apenas servem para simular uma reforma da Igreja.
E eis que aos muitos factores de crise vêm ainda juntar-se escândalos que bradam aos céus: acima de tudo, o abuso de milhares de crianças e jovens por clérigos, nos Estados Unidos, na Irlanda, na Alemanha e noutros países — tudo isto ligado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes.

Não ao silêncio
Não se pode calar o facto de que o sistema de encobrimento global de delitos sexuais de clérigos foi dirigido pela Congregação para a Doutrina da Fé do Cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, ainda no pontificado de João Paulo II, os casos foram compilados sob o mais estrito sigilo.
Ainda em Maio de 2001, Ratzinger enviou uma carta solene acerca dos delitos graves (“Epistula de delictis gravioribus”) a todos os bispos. Nesse documento os casos de abuso eram colocados “sob Secretum Pontificium”, cuja violação pode implicar severas penas canónicas. É, pois, com justiça que muitos exigem do então prefeito e agora papa um ”Mea culpa” pessoal. Contudo, infelizmente este deixou passar a oportunidade de o fazer na Semana Santa. Em vez disso, fez atestar “urbi et orbi” a sua inocência através do cardeal decano, no Domingo de Páscoa.
As consequências de todos estes escândalos para o prestígio da Igreja Católica são devastadoras. Isto é confirmado também por titulares de altos cargos da Igreja. Inúmeros pastores e educadores irrepreensíveis e altamente empenhados são agora vítimas de uma suspeita generalizada.
É a vós, venerados bispos, que cabe perguntar como deve ser o futuro na nossa Igreja e nas vossas dioceses. Contudo, gostaria de vos esboçar um programa de reformas; é algo que fiz por várias vezes, antes e depois do Concílio.

Dêem uma perspectiva à nossa Igreja
Gostaria de fazer apenas seis sugestões, que é minha convicção serem comuns a milhões de católicos que não têm voz:
1. Não calar: O silêncio torna-vos cúmplices de tantos males graves. Muito pelo contrário, nos casos onde considerem determinadas leis, disposições e medidas como contraproducentes, devem dizê-lo publicamente. Não enviem declarações de submissão a Roma, mas sim reivindicações de reforma!
2. Ajudar as reformas: São muitos os que se queixam de Roma, na Igreja e no Episcopado, mas nada fazem. No entanto, quando, numa diocese ou paróquia, os serviços religiosos não são frequentados, a assistência espiritual é pobre, a abertura às necessidades do mundo é limitada, a colaboração ecuménica é mínima, então a culpa não pode ser assacada simplesmente a roma. Bispo, sacerdote ou leigo – cada um faça algo pela renovação da Igreja no âmbito maior ou menor da sua vida. Muitas coisas extraordinárias, tanto a nível paroquial como na totalidade da Igreja, começaram por iniciativas solitárias ou de pequenos grupos. Na vossa qualidade de bispos, há que apoiar e estimular essas iniciativas, e ir ao encontro das queixas fundamentadas dos fiéis, sobretudo agora.
3. Agir em colegialidade: O Concílio decretou, após um debate intenso e contra a oposição persistente da cúria, a colegialidade do papa e dos bispos, no sentido da história dos apóstolos, na qual Pedro não agia sem o colégio dos apóstolos. Mas, no período pós-conciliar, os papas e a cúria têm vindo a ignorar esta decisão conciliar central. Desde que o papa Paulo VI, apenas dois anos depois do Concílio, publicou uma encíclica em defesa da controversa lei do celibato, sem ter consultado o episcopado, o magistério e a política papais regressaram ao velho estilo não colegial. Até na liturgia o papa se apresenta como autocrata, perante o qual os bispos, de que ele gosta de se rodear, surgem como meros comparsas, sem direitos nem voz. Por isso, venerados bispos, há que agir não apenas individualmente, mas em comunidade com os outros bispos, os sacerdotes e o povo da Igreja, homens e mulheres.

A obediência é devida apenas a Deus
4. A obediência incondicional é devida apenas a Deus: Na sagração solene como bispos, todos fizeram um voto de obediência incondicional ao papa. Mas também todos sabem que a obediência incondicional nunca é devida a uma autoridade humana, mas apenas a Deus. Assim, o vosso voto não deve impedir-vos de dizer a verdade acerca da actual crise da Igreja, da vossa diocese ou do vosso país. Em absoluta conformidade com o exemplo do apóstolo Paulo, que resistiu [a Pedro] frente a frente, porque merecia censura“ (Gal 2, 11)! Pressionar as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítimo, quando estas não correspondem ao espírito do Evagelho e à sua missão. A utilização das línguas nacionais na liturgia, a alteração das disposições relativas aos casamentos mistos, a aceitação da tolerância, da democracia, dos direitos humanos, do entendimento ecuménico e tantas outras coisas, apenas foram conseguidas graças a uma perseverante pressão vinda de baixo.
5. Procurar soluções regionais: O Vaticano mostra-se frequentemente surdo às reivindicações do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Tanto mais necessária é, pois, a procura inteligente de soluções regionais. Um problema particularmente delicado, bem o sabeis, é a lei do celibato, oriunda da Idade Média, que está a ser justificadamente posta em causa no contexto dos escândalos de abusos sexuais. Uma alteração contra a vontade de roma parece quase impossível. No entanto, isso não significa que se esteja condenado à passividade: um sacerdote, que após madura reflexão pensa em casar, não teria de renunciar automaticamente ao seu cargo, se o bispo e a comunidade o apoiassem. As várias conferências episcopais poderiam avançar com soluções regionais. Mas o melhor seria procurar uma solução para toda a Igreja. Portanto:
6. Exigir um Concílio: Tal como foi necessário um Concílio Ecuménico para alcançar a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o diálogo ecuménico e interreligioso, o mesmo acontece para a resolução dos problemas que agora eclodem de modo tão dramático. O Concílio de Constança, no século anterior à Reforma, determinou a convocação de um Concílio a cada cinco anos, mas essa decisão tem sido ignorada pela cúria romana. Sem dúvida que esta também agora fará tudo para evitar um Concílio do qual tem a recear uma limitação do seu poder. É responsabilidade de todos vós levar a cabo a realização de um Concílio ou, pelo menos, de uma assembleia representativa do episcopado.

Enfrentar os problemas com sinceridade
É este, venerados bispos, o apelo que vos faço perante uma igreja em crise, pôr na balança o peso da vossa autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta difícil situação, os olhos do mundo estão postos em vós. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja Católica. Só uma abordagem aberta e séria dos problemas e a adopção das reformas indispensáveis pode ajudar a recuperar essa confiança. Peço-vos com todo o respeito, que cumpram a vossa parte, sempre que possível em colaboração com os outros bispos, mas em caso de necessidade também sozinhos, com “desassombro” apostólico (Act 4, 29.31). Dêem sinais de esperança e coragem aos vossos fiéis e uma perspectiva à nossa Igreja.

Saúdo-vos na comunhão da fé cristã
Vosso
Hans Küng

uma entrevista à Euronews
sobre Hans Küng (biografia)

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

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