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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quarta-feira, 28 de março de 2018

domingo, 18 de março de 2018

Papa inspira os não-cristãos

Alexandra Lucas Coelho fala sobre o Papa

A jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho considera que «não é pouco» o que o papa «inspira em não-cristãos, talvez especialmente não-crentes», como também «não é pouco que muitos milhões de cristãos no mundo tenham em Francisco a sua referência de carne-e-osso».

«Nas palavras escolhidas» pelo papa há «uma qualidade rara da própria palavra, do verbo resgatado à usura, ao abuso», assinala a cronista em texto publicado esta sexta-feira no portal Sapo.

Depois de referir que Francisco «é o primeiro papa» que ouve «como um contrapoder», ao tornar-se «uma voz visceralmente avessa ao capitalismo contemporâneo, a voz de um outro futuro», Alexandra Lucas Coelho escreve: «Não acredito num Deus mas acredito em Francisco».

«Quem já tenha estado no meio de uma multidão a escutar Francisco é testemunha de como este papa tem uma extraordinária capacidade empática, que vem da postura, da voz, da entoação, da proximidade, ou humanidade, que consegue pôr no que diz, sem nada soar a falso, ou a esforço», assinala.

Ainda que parecendo distantes de realidades específicas, as mensagens do papa contêm «uma força que só por si é ação» e podem ser aplicadas a acontecimentos particulares, como acontece quando evoca «um modelo de progresso já ultrapassado» que «continua a produzir degradação humana, social e ambiental».

«Mesmo para tudo o que este ano ardeu em Portugal estas palavras cabem, têm sentido, experimentem aplicá-las aos incêndios tal como eles se deram. Muito do mundo hoje, em todas as suas veredas, cabe nas palavras de Francisco, e essa não é a sua virtude menor. Encontrarmo-nos tantos, e tão diferentes, no que ele diz», aponta.

Alexandra Lucas Coelho manifesta a esperança de que Francisco «ainda venha a ser a pessoa que fará da Igreja Católica uma instituição menos injusta, mais à altura do papa que hoje tem. E como nessa nova imaginação sonhada por ele fariam diferença contrapoderes assim à frente de outras crenças».

Edição: SNPC
Fonte: Sapo
30 de Dezembro de 2017

Entrevista ao novo bispo do Porto: uma lufada de ar fresco?

Bispo do Porto está convencido de que um casal em abstinência sexual não é bem família 

Por João Francisco Gomes, 17 de Março de 2018, no Observador

Em entrevista ao Observador no dia da nomeação, o novo bispo do Porto, D. Manuel Linda, diz-se fã do papa Francisco a "200%" e admite que dará o seu contributo para a discussão sobre os divorciados.


O novo bispo do Porto, D. Manuel Linda, ainda está a fazer as malas para se mudar da casa patriarcal de Lisboa — onde reside, como diz, por “amabilidade do senhor patriarca D. Manuel Clemente”, uma vez que a diocese das Forças Armadas, que liderava até hoje, não tem um território físico. Porém, diz-se decidido a dar, mesmo que não seja para já, o seu contributo para uma das discussões mais atuais da Igreja Católica: a situação dos divorciados que voltaram a casar.

A diocese do Porto está sem bispo desde a morte de D. António Francisco dos Santos, em setembro do ano passado, vítima de um ataque cardíaco fulminante, que deixou a Igreja Católica portuguesa em choque. Por isso, ainda não foram publicadas orientações locais para a aplicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, do papa Francisco, sobre a família — como se fez, por exemplo na arquidiocese de Braga (num documento muito elogiado pela abertura que demonstrava) e no patriarcado de Lisboa (num documento que colocou o patriarca D. Manuel Clemente sob fogo por propor a abstinência sexual aos divorciados que casaram novamente).

Em entrevista ao Observador no dia em que foi tornada pública a sua nomeação como bispo do Porto, D. Manuel Linda, 61 anos, que se diz fã do papa Francisco a “200%”, garante que conhece vários casais de divorciados recasados que, “por motivos de fé e da sua convicção interior”, vivem em abstinência sexual. “Mas temos de nos perguntar: isso é mesmo família? Estou convencido de que não é bem família“, considera o novo bispo do Porto.

Na entrevista, D. Manuel Linda conta também como percebeu que o papa Francisco estava “interessado de forma pessoal” no seu nome para a diocese do Porto; garante que apesar de ser “absolutamente contra” o aborto e a eutanásia, não vai passar o seu tempo “na praça pública” a denunciar propostas que choquem com a doutrina da Igreja, preferindo propor a doutrina “a quem a queira ouvir”. E ainda critica a “verdadeira exploração” de muitas freiras ao serviço do clero.

Na mensagem que deixou aos membros das Forças Armadas diz que o pedido do Papa para ir para o Porto era “irrecusável”. Só porque não se pode recusar nada ao Papa, ou o pedido foi especial?
Fundamentalmente por esse motivo, mas depois porque há uma série de indícios em que noto que o Papa estava muito interessado, de forma pessoal, personalizada, no meu nome. Quando assim acontece, a um amigo não se pode dizer que não.

Que indícios eram esses?Uma série de circunstâncias desde outubro até agora (risos). Algumas coisas lidas retrospetivamente, telefonemas que me fizeram de Roma… Eu tinha pedido determinados trabalhos aqui na nossa peregrinação militar a Fátima e foram adiando. Eu não entendia porquê e agora entendo que era uma forma indireta de me dizer “nessa altura podes já estar comprometido com outro assunto”.

Como foi feito o convite?O convite foi feito de forma normal. O embaixador da Santa Sé, que é o núncio apostólico, telefonou-me. Eu estava no estrangeiro com uma peregrinação militar, curiosamente. Ele telefonou-me exatamente a dizer: “O Santo Padre escolheu-o, agora você tem de refletir se aceita ou não aceita”. Quando vim, fui à Nunciatura, depois de muito refletir, dizer que aceitava.

Quanto tempo refletiu?Quase uma semana, de segunda a sexta, creio.

Durante essa reflexão, que fatores pesaram a favor e contra?O grande fator é a vontade do Papa e é também o facto de eu estar habituado a dizer “sim”. Eu não sou militar, mas de alguma maneira a cultura militar passou para mim e quando nos apresentam uma guia de marcha nós não olhamos para trás. Temos de seguir para onde nos mandam.

Havia uma lista que saiu para a imprensa com três nomes. O senhor era um deles, havia o bispo de Coimbra…E também o auxiliar do Porto, D. António Augusto.

O que pesou nessa escolha final? A sua proximidade direta do Papa, de que falava?Aí não me posso pronunciar, só o Santo Padre e quem esteve mais diretamente ligado ao processo é que podia dizer. De qualquer maneira, todos os bispos de Portugal que estão no ativo, todos sem qualquer exceção, podiam ser bispos do Porto. Agora, por exemplo, para ser o meu colega de Coimbra, ao tapar o furo do Porto abria um em Coimbra. O meu colega que vai trabalhar comigo, que é o D. António Augusto, seria um ótimo bispo para o Porto. Mas ele é muito novo. É um jovem, próximo de 50 anos, só tinha um contra: como depois não iria passar de uma diocese importante para outra menos importante, teria de lá ficar 20 ou 25 anos, o que é muito. De resto, insisto nesta tónica: todos os bispos de Portugal, esses dois de que me falou e todos os outros, podiam ser ótimos bispos do Porto.

Passou pela arquidiocese de Braga como auxiliar e depois pelas Forças Armadas, ou seja, esta vai ser a sua primeira experiência à frente de uma diocese, digamos, tradicional. Com um território. Vai ser mais desafiante?A esse nível sim, é mais desafiante, na medida em que aquele âmbito que eu conhecia aqui no Ordinariato era mais de um contacto com as pessoas adultas. Por exemplo, nós praticamente não temos crianças, não temos catequese, não temos formação da juventude, não temos trabalho com adolescentes, não temos lares da terceira idade, não temos colégios. A realidade é outra. A diocese das Forças Armadas só por analogia se pode considerar uma diocese. O trabalho da realidade do dia a dia, de lidar com as mais diversas pessoas, desde o bebé até ao velhinho, entre aspas, aqui nas Forças Armadas não encontrava. Tentarei adaptar-me.

Porque é que as Forças Armadas têm um bispo?Têm em praticamente todas as nações da NATO. Curiosamente os Ordinariatos — chamam-se assim as dioceses militares — nem sequer surgiram na Europa, surgiram na América Latina. O primeiro do mundo foi o Peru. Porquê? Por todos os motivos e mais alguns. Há um conjunto de capelães que prestam assistência às Forças Armadas e às forças de segurança que têm necessidade de uma espécie de referência. Chamemos-lhe, em linguagem simples, um bispo que os coordene. Depois, há também muitos sacramentos que são típicos dos bispos, por exemplo o batismo dos adultos e os crismas. Na própria Inglaterra, que é um país maioritariamente Anglicano, há um Ordinariato Católico para acompanhar os católicos que estão nas Forças Armadas. Portanto, é uma estrutura habitual, que não existe a não ser para militares — em qualquer parte do mundo não há outros Ordinariatos –, e que a Igreja historicamente criou para acompanhar estes homens e mulheres que são portadores de muita mobilidade. Têm missões no exterior e é preciso que haja quem lhes proporcione os sacramentos e quem coordene os capelães.

Em Portugal há muitos militares a procurar esse apoio ou trabalhava com uma minoria dos militares?Trabalho com todos. Mesmo aqueles que porventura não se revejam nos valores católicos são portadores de imensa simpatia. Quando se fala em fé não é passar todo o dia com as mãos erguidas a rezar Pai-Nossos e Avé-Marias. Há dimensões prévias, como a simpatia, o convívio. Também o ouvir e o desabafar, um trabalho tão frequente, o maior trabalho dos capelães e da parte do bispo inclusivamente. Tudo isso, que são relações humanas, são de alguma maneira já enquadradas na assistência religiosa que nós prestamos. Portanto, quando me pergunta se é uma minoria… Se for aos sacramentos, pode ser só o grupo dos que precisam, dos que os procuram. Mas no trabalhar, trabalhamos com todos, incluindo com gente de outras confissões religiosas.

Já estudou os problemas e os desafios da diocese do Porto?Não (risos)! Se calhar lá não há problemas e é tudo muito simples!

Mas então que desafios acha que vai ter?Os grandes desafios são exatamente criar uma cultura de simplicidade, uma cultura do que nós chamamos a corresponsabilidade, todos nos entusiasmarmos pelo mesmo projeto. Enfim, não é na dimensão pastoral, uma técnica nova que vai movimentar todas as pessoas. Não é nada disso, isso não interessa absolutamente nada. O que nos interessa é que falemos todos a mesma linguagem, a linguagem da simplicidade, da abertura ao mundo, de estarmos voltados para os grandes problemas e darmos o nosso contributo para conseguirmos resolver alguns deles.

Já que fala de simplicidade, na primeira mensagem aos católicos do Porto fala muitas vezes em ideias que o papa Francisco repete frequentemente. A proximidade aos mais pobres, às periferias, aos doentes, esta ideia do regresso à simplicidade do Evangelho… É um fã assumido do estilo do papa Francisco?A 200%! Completamente, completamente.

Porquê?Por isso mesmo. A pastoral da Igreja, o anúncio que temos de fazer, não é uma técnica, não é uma sabedoria, não é uma capacidade como os televangelistas — sem desprimor para eles — que usam um discurso eloquente convencidos de que assim cativam muitas pessoas, e porventura cativarão. Não. A nossa pastoral é a presença, uma presença fermentadora. Não há outra chave para abrir o coração humano que não seja a simpatia, a cordialidade, a afetividade, o estarmos ao mesmo nível. Se nos colocamos num patamar diferente, a nossa voz não é ouvida nem os outros querem escutá-la.

É essa a novidade que o papa Francisco trouxe?Fundamentalmente passa por aí, por essa capacidade de nos voltarmos para aqueles a que ele chama os excluídos, os da periferia. Ao fim ao cabo, com um critério de misericórdia, e a misericórdia é um dado muito global e neste sentido muito concreto, que reflete precisamente esta proximidade afetiva, este coração que se aproxima de outro coração, como uma espécie de bluetooth, deixe-me usar uma expressão da tecnologia (risos).

Em 2015, num artigo de opinião da Ecclesia falava da questão do aborto. Na altura, criticou o Parlamento pela forma como discutiu uma petição relativamente à alteração da legislação do aborto e disse que os deputados simplesmente tinham reafirmado os pressupostos ideológicos por trás daquela legislação. Acha que agora, enquanto bispo do Porto, que tem uma visibilidade maior na sociedade, vai ter uma capacidade de intervenção maior nestes assuntos? Por exemplo, agora discute-se a questão da eutanásia.Porventura terei de o fazer, até porque a Igreja e a sociedade esperarão de quem tem uma maior visibilidade uma tomada de posição. Durante muitos anos, eu fui professor de ética social, de moral social, na Faculdade de Teologia, e dizia aos meus alunos uma expressão e permita-me que a repita. A denúncia do mal é uma espécie de carta de condução por pontos. Se nós passamos a vida a denunciar tudo, a dizer mal de tudo, vamos perdendo os pontos e já não temos credibilidade. Portanto, não se espere de mim que passe a vida a dizer mal da sociedade, das propostas que os partidos ou outros setores da cultura ou da sociedade façam e que, porventura, choquem contra os meus pressupostos doutrinais. Não se espere que venha para a praça pública com uma espada da mão e com um elmo noutra mão a desafiar todos. A nossa missão não é tanto de estar a fazer desafios, de denunciar, é propor. Claro que na proposta da doutrina serei irrecusável. Aquela doutrina que é a minha procurarei propô-la aos cristãos e a outras pessoas que a queiram ouvir. Mas uma coisa é propor, outra coisa é passar a vida a denunciar.

Ou seja, em questões como o aborto ou a eutanásia, é absolutamente contra.Absolutamente contra. Disse bem.

Há um assunto que tem estado na ordem do dia que é a forma como as dioceses têm aplicado a exortação Amoris Laetitia, do papa Francisco. O patriarca de Lisboa foi muito criticado pelo documento que fez por ter proposto a abstinência sexual, ao passo que, por exemplo, o arcebispo de Braga fez um documento que foi muito elogiado. O D. Manuel prevê fazer um documento para o Porto que toque neste ponto da abstinência sexual?É verdade que essa é uma problemática, que é mais um processo do que uma tomada de decisão pessoal. É das coisas que não se resolvem fazendo um decreto e pondo lá a minha assinatura. É um processo de consulta, de diálogo, das estruturas de participação da diocese, que tem vários conselhos — o conselho pastoral, o conselho presbiteral, o conselho de consultores. Tudo isso tem de ser implicado. O documento do senhor D. Jorge, de Braga, é exatamente o resultado disso tudo. Também o documento dos bispos do centro de Portugal é resultado disso tudo. Claro que, evidentemente, eu também não ficarei para trás, mas isso é com o tempo. Não se espere que seja daqui a oito dias que vá tomar uma posição. Aqui no Ordinariato nunca a tomei em função de outros âmbitos. Primeiro que tudo, nós não temos o casamento canónico nas nossas capelanias. Há a transcrição do registo civil e são as paróquias territoriais que se encarregam de mandar o processo e de o organizar na relação da Igreja com o Estado. Nós não temos isso, portanto essa problemática dos recasados — já que nós não temos também Tribunal Eclesiástico — diz mais respeito às dioceses territoriais do que propriamente a esta estrutura onde eu estava até este momento.

Vai passar a dizer-lhe mais agora.Agora no Porto vai ter de me dizer mais, evidentemente. Começa a haver caminho feito, caminho que é um processo, que aliás é muito típico deste Papa. Este Papa desencadeia processos e põe toda a Igreja a refletir. Claro que, quando é toda a Igreja na sua diversidade, uns podem seguir mais por uma linha direita, esquerda, de frente, de trás, de um lado e de outro. Mas é depois de tudo isto acalmar, daqui a alguns anos, que poderemos ter uma ideia mais perfeita, mais global. Também darei o meu contributo.

Diz que há várias linhas. A sua linha coincide com a de D. Manuel Clemente?A linha de D. Manuel Clemente é a linha oficial da Igreja, como todas as outras. A forma como ele se expressou a respeito da abstinência sexual é que pode ser mais mal interpretada. E também, se me permite, eu estou convencido de que quem divulgou o documento leu apenas esse bocadinho e não prestou atenção ao contexto. Portanto, não tenho nada contra o documento do senhor D. Manuel Clemente, nem de longe nem de perto. Mas, de facto, para ser sincero, sei que há alguns casais recasados, que já tinham vivido em matrimónio canónico e que depois refizeram a sua vida e estão noutro casamento já não canónico, que por motivos de fé e da sua convicção interior e de consciência, de facto vivem em abstinência sexual. Mas temos de nos perguntar: isso é mesmo família? Estou convencido de que não é bem família. Uma coisa é uma convivência como eu tenho aqui na casa com outras pessoas, mas não somos família. Outra coisa é ser família. Portanto, não insistiria muito neste tema da abstinência sexual, de facto.

Recentemente foi publicado na revista do Osservatore Romano uma reportagem sobre a exploração de freiras por parte de membros do clero. Vai procurar, na diocese do Porto, tentar perceber se isto existe e tentar combater esta realidade?É verdade. Os religiosos [n.d.r. membros consagrados de institutos religiosos, como freiras e frades, mas não padres do clero secular] têm o voto de pobreza. Não querem dinheiro por opção própria. Ninguém lhes impôs, são eles que assim desejam, querem viver à maneira de São Francisco, de São Bento ou de São Domingos, na pobreza, na obediência e na castidade. Como os religiosos, teoricamente, serão mais próximos do pessoal dirigente, dos bispos, dos cardeais de Roma, às vezes algum bispo diz assim: “Ó minha irmã, você não tem aí duas ou três irmãs que queiram, por exemplo, na minha casa, fazer o almoço?”. E depois aquelas pessoas acabam por receber, de facto, uma quantia muito pequenina. Em termos do que nós chamamos o mercado de trabalho, seria uma verdadeira exploração. Verdadeira exploração. Entretanto, não nos podemos esquecer que são pessoas que, por opção, querem viver na pobreza. Estou convencido de que nessas circunstâncias, quando as pessoas trabalham para alguma estrutura da Igreja, devem ganhar o justo. Depois, farão com aquele dinheiro o que muito bem entenderem. O grande entendimento será o de dá-lo aos pobres. Se as pessoas querem viver na pobreza, ótimo. Mas então, aquilo que ganham fruto legítimo do seu trabalho que seja reencaminhado para um fim bom, como serão as carências humanas.

Um problema que esta reportagem levanta é também a desigualdade entre homens e mulheres na Igreja. A maioria, para não dizer a totalidade, dos que faziam aqueles serviços domésticos eram religiosas e não religiosos. A Igreja discrimina as mulheres?Quer dizer, não discrimina as mulheres. O grande teor do âmbito mental de quem escreveu, aquilo a que se referia, era fundamentalmente aos trabalhos domésticos. Ora, por motivo da nossa cultura ocidental, quem faz habitualmente os trabalhos domésticos é a parte feminina, portanto referia-se mais à parte feminina do que aos religiosos masculinos.

Essa ideia de que quem faz os trabalhos domésticos são só as mulheres não está a mudar?Evidente que sim.

E a Igreja não tem de acompanhar essa mudança?Tem, evidentemente. Às vezes nesse campo até cometeu exageros. Por exemplo, antigamente nos seminários os funcionários eram praticamente só homens. Depois, passou exatamente para o contrário, só senhoras. Temos de perder os nossos complexos, se é que os temos, e viver uma naturalidade como ela é na vida e na cultura de hoje.

Suceder a um bispo como D. António Francisco dos Santos, considerado um grande bispo, aumenta a responsabilidade?É óbvio. Não tenhamos ilusão, qualquer pessoa reconhecerá. Só um cego é que é capaz de não o ver. O D. António Francisco não se impôs por um discurso eloquente, embora tivesse essa capacidade. Não foi por gestos mirabolantes. Era por aquela simpatia que cativa e isso deixa marcas. Um pensamento extingue-se facilmente. Uma técnica especial que uma pessoa possua também acaba por, direta ou indiretamente, se desfazer. Mas quando se cativam os corações, eles ficam lá com esta marca muito viva. O D. António Francisco está muito vivo no coração dos diocesanos do Porto. Logicamente, não tenho ilusão, vou ser confrontado com ele. Vai haver quem diga: “O D. António Francisco era assim e o senhor é desta maneira”. Não tenho ilusão, isso vai acontecer de certeza absoluta. Procurarei honrar a sua memória, que muito admiro, exatamente com um comportamento e uma ação muito semelhante à dele.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sobre o divórcio entre Igreja e Arte moderna e contemporânea

«A arte pode viver sem desconfiança» em relação «ao mundo do espírito»

O escultor Rui Chafes, recentemente distinguido com o Prémio Pessoa, está convicto de que arte e espírito não têm de ser antagónicos, ainda que a contemporaneidade tenha perdido uma das características da Idade Média, o «ir para Deus através da arte».

Em entrevista publicada este sábado no suplemento do semanário "Expresso", Chafes (n. Lisboa, 1966) diz que «tecnicamente» não se considera uma pessoa religiosa, embora pense que o seu trabalho «está muito próximo do sentido religioso das pessoas».

«Por vezes é como se não estivesse a trabalhar por vontade própria mas como alguém que obedece a uma voz que lhe diz "agora vais fazer isto"», voz que «é qualquer coisa imaterial, misteriosa, espiritual e absolutamente irracional», assinala.

Rui Chafes, que também se exprime artisticamente através do desenho, menciona também a «separação da arte da igreja, no mundo ocidental»: «Esse afastamento mútuo está relacionado com o modernismo. Com o facto de a Igreja desconfiar da arte moderna e a arte moderna desconfiar da Igreja».

«Alguma arte tentou consolar as pessoas que ficaram órfãs dessa vida espiritual. E esse consolo é muito curioso porque transforma a arte numa divindade, numa religião. Dá um sentido às coisas. Houve artistas que quiseram ser uma espécie de xamãs para uma humanidade sem religião. E isso é um motivo de esperança e ao mesmo tempo de ceticismo», declara.

A «atração» que sente pela Idade Média funda-se, entre «várias razões», na «proximidade entre as pessoas e a arte, através de uma coisa que elas não sabiam o que era, que era a fé, a espiritualidade».

«Uma catedral era uma imensa instalação que tinha pintura e escultura, era uma obra de arte total, um ir para Deus através da arte. Isso perdeu-se. Creio que hoje já aprendemos a respeitar a arte como uma linguagem possível e partilhável e não ter de ir vê-la ao jardim zoológico», afirma.

A mudança na forma como a arte é vista é feita de passos, como as obras que o próprio Rui Chafes tem em igrejas da Áustria e da Alemanha, ou «quando a catedral de Colónia encomenda um vitral a Gerhard Richter» ou quando uma «igreja em Zurique encomendou vitrais a Sigmar Polke».

Referindo-se à relação da arte com a Igreja, Rui Chafes sustenta que «há uma convergência», e dá como exemplo um projeto que tem em mãos: «Eu vou fazer uma instalação na igreja de São Cristóvão, em Lisboa. Num projeto do Paulo Pires do Vale, que vai dinamizar a igreja com peças de vários artistas».

«O padre [Edgar Clara], que é um homem novo, tem uma visão sem complexos do que pode ser a participação das pessoas na igreja. E isso mostra que a arte pode viver sem desconfiança e sem ressabiamento em relação ao mundo do espírito».

Chafes lembra que «cineastas como Tarkovski, por exemplo, tiveram mil razões para fugir da Rússia, mas o que se passava é que ele tinha uma necessidade imensa dessa espiritualidade e a Rússia dos anos 60 e 70 negava-lhe isso».

Questionado sobre se a sua religião é a arte, o escutor é perentório: «Sim, absolutamente. A minha religião é a arte, a música, a literatura, que é tudo a mesma coisa. E se não houver nem música, nem pintura, nem escultura, se não houver arte, caímos na barbárie, como o Estado Islâmico quer».

«Talvez por isso se pergunte se o Estado Islâmico tem alguma coisa a ver com religião e claro que não tem, tem a ver com terrorismo. Com crime. Com assassinos», acentua.

E será que a arte pode salvar? «É uma boa ideia», mas não é certo que possa acontecer: «Pelo menos a arte não pode salvar uma sociedade, não pode salvar uma política, não pode salvar um sistema social. Mas pode salvar a ética das pessoas, pode dar esperança e nesse sentido pode salvar o mundo».

A «única bandeira política» que considera «realmente válida é o anarquismo» - onde se sente acompanhado por «grandes companheiros, como Jesus Cristo e Friedrich Nietzsche» -, sistema político que seria «civilizado, não violento, feito de e para pessoas responsáveis e que não precisariam de polícias nem de soldados».

«Para mim não existe arte se não houver essa ambição de criar silêncio, de criar um momento onde o tempo é suspenso. E alguma arte contemporânea suspende o tempo», assinala Rui Chafes.

Com o valor de 60 mil euros, o Prémio Pessoa, atribuído pelo "Expresso" com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, reconhece a intervenção de uma personalidade portuguesa na vida cultural e científica de Portugal.

Para os autores da entrevista, Alexandra Cabrita e Celso Martins, a atribuição da distinção a Rui Chafes «valoriza a coerência de um programa e a teimosia de uma ética inabalável».

Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC a 19 de dezembro de 2015

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Primeiro-damo

Durante a manhã, Destenay juntou-se às primeiras-damas numa visita ao Museu Magritte
(Foto de Eric Lalmand/AFP/Getty Images)
O marido do primeiro-ministro luxemburguês

Não é uma notícia nova, mas só agora consegui publicá-la. Partilho-a mas desejaria que não fosse necessário escrever notícias sobre estes assuntos... que o respeito fosse regra em todas as sociedades humanas.

"É a foto de família das primeiras-damas da NATO. Entre nove mulheres, está um homem. É Gauthier Destenay, o marido do primeiro-ministro do Luxemburgo.

***

Já é habitual. As mulheres dos líderes mundiais que se reúnem nas cimeiras da NATO posam para a fotografia oficial das primeiras-damas. A deste ano introduz um pormenor histórico. Pela primeira vez, há um marido de um primeiro-ministro entre as nove mulheres. É Gauthier Destenay, casado com o líder do Luxemburgo.

A fotografia foi tirada na passada quinta-feira durante um jantar no Castelo Real de Laeken, na Bélgica, enquanto os líderes mundiais estavam reunidos. De fato preto e gravata azul, Destenay posou na segunda fila ao lado dos vestidos e saltos altos das primeiras-damas.

Destenay estava atrás da mulher de Donald Trump e de Emine Erdogan, mulher de Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia. Brigitte Trogneux, mulher de Emmanuel Macron, Presidente da França, também estava na fotografia.

Gauthier Destenay, de 44 anos, é arquiteto e casou com o atual primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, em 2015, numa cerimónia com cerca de 500 convidados no Cercle Cité no Place d’Armes, no centro da capital, tornando-se o primeiro líder homem a casar com alguém do mesmo sexo durante o seu mandato. Na altura, o casamento foi visto como um sinal de abertura para o Luxemburgo."

In Observador, a 26 de Maio de 2017

O Casamento

"Xavier Bettel, primeiro-ministro do Luxemburgo, casou-se com Gauthier Destenay. Este é o primeiro casamento homossexual de um líder europeu.

***

O primeiro-ministro do Luxemburgo, Xavier Bettel e o seu parceiro Gauthier Destenay chegaram de mão dada à câmara municipal da capital para se casarem.

A cerimónia civil aconteceu durante a tarde de sexta-feira, dia 15 de maio, e juntou a imprensa e cerca de 250 pessoas. Antes de Bettel entrar na câmara municipal com o seu parceiro, o primeiro-ministro luxemburguês desejou que todos os presentes sejam tão felizes como ele esteve durante o dia do seu casamento.

Tal como previa Stéphane Bern, amigo próximo e locutor francês, foi uma cerimónia “rápida mas com um simbolismo muito forte.

Para além de Bern, estavam entre os convidados Félix Braz, ministro da Justiça luxemburguesa e François Bausch, ministro das Infraestruturas. Também esteve presente o especialista em sociedade Pierre Dillenburg, que recentemente celebrou o seu casamento com Roland Hüdsch.

Charles Michel, primeiro-ministro belga, também assistiu ao acontecimento. Em declarações à imprensa, Michel acredita que este casamento é um sinal de abertura luxemburguesa a certos assuntos sociais, numa altura em que a homofobia cresce na Europa.

Xavier Bettel torna-se o primeiro líder europeu a casar com alguém do mesmo sexo. Após a cerimonia, Bettel e Destenay celebraram a união com cerca de 500 convidados no Cercle Cité no Place d’Armes, no centro da capital. As celebrações continuaram amanhã no La Gaichel, o prestigiado restaurante com uma estrela Michelin.”

In Observador, a 15 de Maio de 2017

Vozes de um bispo chegam ao céu

A propósito da recente morte do antigo bispo de Setúbal D. Manuel Martins, partilho um artigo de Setembro passado em modo de homenagem

Morre um bispo, vai morrendo meia Igreja
Marcelo Rebelo de Sousa na análise aos “católicos progressistas”.

Por Paulo Mendes Pinto

"Quando no dia 19 de Abril assisti à apresentação do livro de Joaquim Franco e António Marujo sobre o Papa Francisco (Papa Francisco - A Revolução Imparável, Manuscrito, 2017), não esperava grande reflexão por parte de Marcelo Rebelo de Sousa, que apresentava a obra. A simples presença do Presidente da República na inspiradora igreja do convento dos dominicanos, em Lisboa, era por si só motivo de aglomeração de gentes. Era já um facto inegável e um momento especial. Mas nada me faria prever uma mensagem que fosse além do que seria normal dizer sobre a pastoral de um jesuíta auto transformado em Francisco.

Mas como o melhor da vida são as coisas inesperadas, a apresentação do livro feita pelo Chefe de Estado fez jus ao que de melhor tem o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Católico, conhecedor da realidade da sua Igreja, ator e personalidade atenta a esse universo e a toda a sociedade civil, Marcelo rapidamente complementou a sua reflexão sobre o Papa Francisco com uma reflexão sobre os autores, a forma apaixonada como abordaram este Papa e, acima de tudo, o próprio catolicismo nacional.

Teria sido muito bom se muitos bispos tivessem assistido à única e irrepetível aula de Marcelo sobre Cristianismo Contemporâneo e, em especial, sobre catolicismo e sociedade no Portugal contemporâneo. Se todos o sabemos conservador, de direita, o que ele afirmou foi de uma sobriedade, de um esclarecimento, de uma capacidade de entender o tecido social e a sua relação com as instituições, verdadeiramente única.

Que os autores do livro se posicionavam do lado dos que aguardavam do Papa ainda mais reformas, ainda mais posições a favor das questões sociais, das problemáticas que a Igreja tem vindo a adiar, isso era claro para Marcelo, tal o era para todos os que, em sintonia, assistimos à sessão. Mas Marcelo foi mais longe. Ao olhar intelectualmente para os autores, para o Joaquim Franco e para o António Marujo, fazendo a ressalva das suas jovens idades, colocava-os na genealogia dos católicos progressistas da década de sessenta do século passado.

E ao alinhar estes dois jornalistas com essa plêiade de intelectuais católicos, e de esquerda, valorizava de forma clara, explicitando-o, o lugar social da luta de esquerda dentro de uma Igreja que não pode ser monolítica. O ponto alto, para um quase êxtase místico de muitos que não esperavam ouvir isto, foi quando o católico e conservador Presidente da República afirmou que hoje faz falta, à Igreja e à sociedade, o incómodo, a luta desses católicos comprometidos com um discurso político de esquerda. E a Igreja está mais pobre na medida em que esse grupo vindo das décadas de sessenta e de setenta se vai erodindo, vai perdendo gente e espaço social, vai sendo menos influente. Essa via de pensamento e de atitude faz falta à Igreja Católica, afirmava Marcelo Rebelo de Sousa.

E hoje, essa via faz ainda mais falta. Faleceu talvez a voz mais consequente dos chamados católicos de esquerda, o “Bispo Vermelho”. É claro que a vitalidade de pensamento da Igreja Católica em Portugal tem várias outras vozes de consenso com a rutura, que não se preocupam por se aproximarem das margens, por fazerem novo pensamento fora da tradição e do imobilismo que gera o conservadorismo. Podemos ler Frei Bento Domingues, o.p., tal como o fazemos com Anselmo Borges. Podemos ter sempre a voz também incómoda e até irreverente de Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança, ou de Frei Fernando Ventura. Mas retomo Marcelo Rebelo de Sousa na sua ímpar capacidade de analisar a complexidade social.

Se as sociedades são diversas, se as interpretações dos Textos Sagrados são, também elas, diversas, então a unanimidade nunca será saudável em horizonte religioso, qualquer que ele seja. Marcelo Rebelo de Sousa deu-nos duas lições nessa sessão. Por um lado, que faz falta a diversidade, especialmente quando ela funciona como alarme social para nos fazer pensar e agir. Mas, por outro, deu-nos uma segunda lição: que a diversidade é sempre positiva e deve ser valorizada. Quem dera que os católicos de esquerda tivessem hoje mais peso, disse Marcelo.

Hoje têm, de facto, menos peso, numa Igreja que precisa destas vozes que nos estremeçam e nos retirem da letargia. Seja na Igreja Católica ou noutra confissão, seja em casa, na família ou no trabalho.

Ser conformado é a pior das sinas.

Coordenador da área de Ciências das Religiões da Universiade Lusófona"
In Público, 26 de Setembro de 2017

sábado, 2 de novembro de 2013

A política: forma elevada da caridade

Envolvimento na política «é uma obrigação para um cristão»

«Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão», vincou o papa esta sexta-feira, ao responder a perguntas colocadas por algumas das nove mil crianças e jovens de escolas e movimentos Jesuítas com quem se encontrou no Vaticano. Os cristãos não podem «fazer de Pilatos, lavar as mãos»: «Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum», frisou Francisco (…). «Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão», apontou.

Francisco pediu aos participantes para se tornarem «homens e mulheres com os outros e para os outros, verdadeiros campeões no serviço aos outros». «Num mundo que tem tanta riqueza e tantos recursos para dar de comer a todos, não se pode compreender como há tantas crianças esfomeadas, tantas crianças sem educação, tantos pobres. A pobreza, hoje, é um grito. Todos nós devemos pensar se nos podemos tornar um pouco mais pobres», assinalou.

O papa sublinhou que «a esperança se encontra em Jesus pobre», e que ele é quem abre «a janela ao horizonte». Francisco afirmou ainda que não quis ser papa e explicou que prefere viver na Casa de Santa Marta, e não no Palácio Apostólico, como os seus antecessores, porque gosta de «estar entre as pessoas».

(…)
O elemento fundamental do ensino é fazer com que os estudantes aprendam a ter «o coração grande» e «grandes ideais», sublinhou Francisco, que não leu o discurso previamente redigido. (…) «Não se pode educar apenas na zona de segurança; isso é impedir que a personalidade cresça. Mas também não se pode educar apenas na zona de risco, que é demasiado perigoso», acrescentou.

Rui Jorge Martins
Com agências
in SNPC (texto) a 07.06.13

Breve retrato da Coreia do Norte

"Haverá pelo menos dez mil católicos a viver a fé em segredo"

«Pelo menos dez mil norte-coreanos continuam a cultivar a fé católica na profundidade do seu coração, mas é difícil crer que possa existir uma Igreja subterrânea» no país, acredita Lee Eun-hyung, padre da Coreia do Sul. As declarações do secretário-geral da Comissão para a Reconciliação do Povo Coreano, organismo criado em 1999 no âmbito do episcopado da Coreia do Sul, foram publicadas esta sexta-feira no site "Vatican Insider".

Numa conversa com a Ajuda à Igreja que Sofre, fundação internacional que a ação pastoral em países onde os católicos são perseguidos ou têm falta de meios financeiros, o sacerdote descreveu as condições da população da Coreia do Norte e recordou as suas três viagens à capital, a última das quais em 2011. «De cada vez que estive em Pyongyang celebrei missa na igreja católica de Jangchung, a única reconhecida pelo regime. Havia sempre muitas pessoas sentadas nos bancos mas não posso dizer se eram católicos, dado que fui severamente proibido de me aproximar e falar com eles», referiu. A comunidade de Jangchung é orientada por um leigo que todos os domingos celebra a Liturgia da Palavra: «Não poderia ser de outra forma porque não me parece que haja algum sacerdote na Coreia do Norte».

O número de católicos no país asiático é praticamente impossível de determinar: «As autoridades falam de três mil fiéis, mas não sabemos se esse dado é credível nem como foi calculado». Os últimos números remontam a 1945, ano da divisão das duas Coreias, quando os católicos no Norte eram mais de 50 mil e Pyongyang era considerada a "Jerusalém do Oriente". «Nesse tempo a obra dos missionários era muito viva e até a mãe de Kim Il-sung, o imperador que morreu em 1994, pertencia a uma família protestante muito devota», assinala o padre Lee. Havia também muitas igrejas cristãs, quase todas destruídas durante a guerra de 1950-53 ou que a seguir ao conflito foram atribuídas pelo regime a outras finalidades.

A Coreia do Norte está hoje entre os países em que a liberdade religiosa é maioritariamente negada, mas apesar dos longos anos de perseguição religiosa o padre Lee acredita que pelo menos dez mil pessoas continuam ativamente ligadas ao catolicismo. Uma tese que parece encontrar confirmação em muitos dos testemunhos de refugiados norte-coreanos, que falam de mulheres idosas sentadas em círculo, passando grãos pela mão como se estivessem a rezar o terço.

«Quando se ultrapassa a "cortina de bambu" tem-se a impressão de voltar no tempo pelo menos 40 ou 50 anos. Além da grave falta de alimentos, a população não tem nada para se aquecer», afirmou o responsável. A enorme necessidade de lenha conduziu ao abate de muitas árvores, com o consequente aumento de deslizamentos de terra e inundações. «Em 2007 demos mais de 300 mil caixas de carvão. A nossa camioneta conseguiu chegar até Kaesong, a poucos quilómetros da fronteira, e apesar de ser severamente proibido, falámos com habitantes da localidade e ouvimos as suas dificuldades», disse.

Há três anos, em 2010, a Coreia do Sul interrompeu a ajuda humanitária ao vizinho do norte: «Todas as nossas atividades de ajuda foram suspensas. AGora esperamos uma mudança de política da parte do presidente Lee Myung-bak. Infelizmente conhecemos perfeitamente as muitas necessidades do lado de lá da fronteira». «Através da associação católica Joseon, a única reconhecida pelo regime de Kim Jong-un, continuam a chegar pedidos de ajuda à Comissão para a Reconciliação do Povo Coreano. E a igreja de Jangchung precisa de obras urgentes», assinalou.

Para o padre Lee, a retoma do diálogo entre os dois países é a única solução possível: «As tensões agravaram as condições da população norte-coreana. E mesmo a nossa economia ressentiu-se. Uma guerra causaria apenas feridas mais profundas. Os acordos e a cooperação são o único caminho de saída desta situação angustiante».

Vatican Insider
publicado in SNPC (trad.) a 07.06.13

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Resgate à beleza

Salvar a beleza do mundo

A feliz expressão de Fédor Dostoievski, «a beleza salvará o mundo», faz com que cada um chegue à perceção de que o mundo pode ser resgatado com a beleza, a beleza do gesto, da inocência, do sacrifício, do ideal, da gratuitidade.

Hoje, porém, num mundo que relegou a beleza para o campo do fútil ou do ornamental, é legítimo interrogar-se: quem salvará a beleza do risco de se tornar vazia? Na nossa modernidade, a beleza rebaixa-se, permanece uma palavra que todos pronunciam, de que não conseguem privar-se, mas está confinada a um ângulo banal e sem valor: o efémero.

Foi reduzida a pouca coisa, frente às questões económicas, financeiras e científicas que agitam a nossa sociedade. Foi-lhe reservado um lugar entre as mil coisas inúteis da vida, ficou confinada ao decorativo, àquilo que é máscara da realidade. Marginalizada também pela teologia.

É necessário salvar a beleza do mundo (Stefano Zecchí). Ela encontra-se, hoje, perante uma encruzilhada: entre a beleza-cosmética, autorreferencial, para a qual não tem sentido a busca do bem e do verdadeiro, porque não existe verdade, e a beleza-símbolo, porta que abre para o conhecimento e para o futuro, em que o homem aperfeiçoa a sua pessoa, intensifica a pesquisa, leva a cabo contínuas aproximações ao ser.

«O bem, separado da verdade e da beleza, é apenas um sentimento indefinido, um impulso privado de força. A beleza sem bem e verdade não passa de um ídolo. A verdade é o bem; a beleza é esse mesmo bem e essa mesma verdade encarnados numa forma viva e concreta» (Vladimir Solov'êv).

A beleza, em sentido próprio, é aquela que nos faz continuar a interrogar-nos com obstinado amor sobre o que vemos. Ela traz uma memória e uma profecia: evoca o reflexo de uma justiça ou de uma harmonia originária da criação, prefigura, com a força do seu fascínio, a restituição da criação ao seu sentido.

Ao invés, desviada da sua profecia, distraída da sua memória, a beleza autorreferencial encoraja também uma extinção voraz do desejo, uma posse destrutiva, como para Narciso. Exilada do seu nómos primeiro, que é o amor, pode introduzir uma trágica anestesia diante da dor do mundo, uma indiferença aos aviltamentos da Terra. A beleza separa-se, então, da esperança do homem.

Cabe a cada um, com as suas escolhas individuais, salvar esta beleza do mundo. Preservar a beleza que conserva em nós a capacidade de êxtase e de comunhão, a possibilidade do prazer de viver e de crer. Preservar o deslumbramento matinal do mundo.

A beleza confere, então, à existência, o sentido de uma aventura inédita que, com a arte e a realidade, com as coisas e com o espírito, com os afetos e com o absoluto, se mede por uma incessante maravilha (Salvatore Natali) e com obstinado amor.

Ermes Ronchi
In Tu és beleza, ed. Paulinas

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Gays no boxe


Pugilista sai do armário

Nota: Este artigo está escrito em português do Brasil

O lutador Orlando Cruz, de Porto Rico, divulgou um comunicado oficial na quarta-feira assumindo publicamente ser homossexual. Dessa maneira, segundo informações do americano US Today, o boxeador de 31 anos se tornou o primeiro pugilista a confirmar ser gay.

Cruz fez questão de agradecer o apoio dado pela família e pelos amigos para conseguir assumir sua opção sexual. “Sempre tive e seguirei tendo orgulho de um homem gay. Não quero esconder minha identidade de mais ninguém. Quero que as pessoas me vejam por minhas habilidades no boxe, meu caráter e minha conduta esportiva”, disse no comunicado.

Na conta supostamente do pugilista no Twitter, ele recebeu apoio dos fãs, entre eles, do cantor e conterrâneo Ricky Martin. O artista escreveu para o atleta: “Parabéns pela sua coragem! Como estou feliz por você! Força! Muita paz para você e sua família! Abraços!”.

Logo depois, Cruz agradeceu as palavras de Ricky. “Obrigado irmão! Estou muito feliz e orgulhoso como você quando deu o mesmo passo que eu. Espero encontrá-lo em breve. Abraço!”, disse no perfil da rede social.

Cruz tem um grande histórico em sua carreira. São 21 lutas, 18 vitórias, duas derrotas e um empate. Das 18 vitórias, nove foram por nocaute. Atualmente, o pugilista é o campeão latino da OMB no peso pena, até 57 kg.

O lutador disputou tem sua próxima luta marcada para o dia 19 de outubro, quando irá defender seu título contra o mexicano Jorge Pazoz, em Kissimmee, nos EUA.

Fonte:Ag.LGBT Brasil
in http://www.folhadofora.com/outros-temas/celebridades?start=84

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Idolatria nos dias de hoje

Uma cultura cheia de ídolos

Para as pessoas hodiernas, a palavra idolatria evoca imagens de povos primitivos a inclinarem-se diante de estátuas. O livro neotestamentário dos Atos dos Apóstolos contém vivas descrições das culturas do antigo mundo greco-romano. Cada cidade adorava as suas divindades preferidas e construía santuários à volta de imagens de culto. Quando Paulo foi a Atenas, viu que esta estava literalmente cheia de imagens dessas divindades (Atos 17,16). O Pártenon de Atenas ofuscava tudo o resto, mas havia outras divindades representadas em cada espaço público. Havia Afrodite, a deusa da beleza; Ares, o deus da guerra; Ártemis, a deusa da fertilidade e da riqueza; Vulcano, o deus forjador e do fogo.

A nossa sociedade contemporânea não é fundamentalmente diferente dessas sociedades antigas. Cada cultura é dominada pela sua própria série de ídolos. Cada uma tem os seus «sacerdócios», os seus totens e os seus rituais. Cada uma tem os seus santuários - quer se trate de torres de escritórios, de spas e ginásios, de estúdios ou de estádios -, onde têm de se fazer sacrifícios, a fim de obter as bênçãos de uma boa vida e de afastar as catástrofes. Não serão esses os deuses da beleza, do poder, do dinheiro e da realização pessoal, precisamente aquelas coisas que assumiram proporções míticas na nossa vida individual e na nossa sociedade? Podemos não nos ajoelhar fisicamente frente à estátua de Afrodite, mas muitas jovens mulheres de hoje caem na depressão e em distúrbios alimentares devido a uma preocupação obsessiva com a sua imagem física. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevados a proporções cósmicas, fazemos uma espécie de «sacrifício de crianças», negligenciando a família e a comunidade para alcançar um posto mais elevado na empresa, e para ganhar mais dinheiro e prestígio.

Depois de o governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, ter destruído a sua carreira, devido ao seu envolvimento numa rentabilíssima rede de prostituição, David Brooks observou que a nossa cultura produziu uma classe de altos executivos com «desequilíbrios, no estabelecimento de relações». Têm aptidões sociais para se relacionarem verticalmente, para melhorar a sua posição junto de mentores e chefes, mas carecem das mesmas para estabelecer laços genuínos, em termos de relações horizontais, com os cônjuges, os amigos e a família. «Muitos candidatos às presidenciais afirmam que se candidatam em prole das famílias, embora toda a sua vida tenha sido gasta em campanhas, longe da sua própria família.» À medida que os anos passam, chegam à tremenda conclusão de que «a sua grandeza não é suficiente e de que se sentem sozinhos». Muitos dos seus filhos e cônjuges vivem à margem deles. Eles procuram, então, curar essa ferida. Envolvem-se em aventuras amorosas ou tomam outras medidas desesperadas para medicar o seu vazio interior. Depois, vem a rutura familiar ou o escândalo, ou ambos.

Sacrificaram tudo ao deus do êxito, mas não foi suficiente. Na Antiguidade, as divindades eram sedentas de sangue e difíceis de apaziguar. Hoje, continua a ser da mesma maneira.

Ídolos do coração

Durante o boom do ponto.com [dot.com] e do setor imobiliário, e da euforia bolsista dos últimos anos, teria sido difícil tornar este assunto convincente. Contudo, a grande derrocada económica de 2008-2009 pôs a nu aquilo a que hoje chamamos «a cultura da ganância». Há muito tempo, S. Paulo escreveu que a ganância não era apenas uma atitude desaconselhável: «A ganância é idolatria» (Colossenses 3,5). O dinheiro, advertia ele, pode assumir atributos divinos e, nesse caso, a nossa relação com ele assemelha-se a uma prestação de culto e homenagem.

O dinheiro pode transformar-se numa dependência espiritual, e, como todas as dependências, oculta, das suas vítimas, as suas verdadeiras proporções. Nós vamos correndo riscos mais numerosos e maiores para obter uma satisfação, a partir daquilo por que ansiamos, até chegarmos à rutura. Quando começamos a recuperar, perguntamos: «Em que estávamos nós a pensar? Como pudemos ser tão cegos?» Acordamos como pessoas com ressaca, que mal se conseguem lembrar da noite anterior. Mas porquê? Porque é que agimos de forma tão irracional? Por que razão perdemos completamente de vista aquilo que está certo?

A resposta da Bíblia é que o coração humano é uma «fábrica de ídolos».

Quando a maioria das pessoas pensa em «ídolos», tem em mente estátuas... ou, então, a próxima estrela pop ungida por Simon Cowell [o criador dos programas televisivos Ídolos ou Portugal tem talento]. Embora o culto tradicional aos ídolos ainda ocorra em muitos lugares do mundo, o culto interno aos ídolos, no nosso coração, é universal. Em Ezequiel 14,3, Deus diz, referindo-se aos anciãos de Israel: «Estas gentes puseram os seus ídolos no seu coração.» Tal como nós, os anciãos devem ter questionado esta acusação: «Ídolos? Mas que ídolos? Eu não estou a ver ídolos nenhuns.» Deus estava a dizer que o coração humano pega em coisas boas, como uma carreira bem sucedida, o amor, bens materiais, e até a família, e transforma-os em realidades últimas. O nosso coração deifica essas coisas como sendo o centro da nossa vida, porque, em nosso entender, elas poderão dar-lhe sentido e segurança, proteção e autorrealização, quando as alcançamos.

o tema central do enredo d'O Senhor dos Anéis é o Anel do Poder do tenebroso Lorde Sauron, que corrompe quem quer que tente utilizá-lo, por muito boas que sejam as suas intenções. O anel é aquilo a que o professor Tom Shippey chama «um amplificador psíquico», que pega nos desejos mais profundos do coração e os amplia, fazendo-os assumir proporções ídolátricas. Alguns dos personagens bons do livro querem libertar os escravos, preservar o território nacional ou castigar os malfeitores com penas justas. Tudo isso são objetivos bons. O Anel, porém, fá-los desejar seja o que for para alcançá-los, sem olhar a meios. Transforma aquilo que era bom num absoluto, que derruba qualquer outra fidelidade ou valor. Quem usa o anel torna-se, cada vez mais, escravo e dependente do mesmo, pois um ídolo é uma coisa sem a qual nós não conseguimos viver. Temos de tê-lo e, por isso, ele impele-nos a quebrar regras que outrora respeitávamos, a fazer mal a outras pessoas e, até, a nós próprios, só para o obtermos. Os ídolos são dependências espirituais que conduzem a um mal terrível, tanto no romance de Tolkien como na vida real.

Qualquer coisa pode ser um ídolo

Os momentos culturais, como aquele que estamos a viver, dão-nos uma oportunidade. Hoje, há muitas pessoas que acolhem melhor a admoestação bíblica de que o dinheiro se pode tornar muito mais do que dinheiro. Pode transformar-se num poderoso deus que altera a vida e molda a cultura, num ídolo que despedaça os corações dos seus adoradores. A notícia menos boa é que nós estamos tão fixos no problema da cobiça que, habitualmente, vemos «ali, naqueles ricaços», que não nos apercebemos da verdade mais fundamental: que qualquer coisa pode ser um ídolo, e já tudo foi idolatrado.

O código moral mais famoso do mundo é o Decálogo, os Dez Mandamentos. O primeiro de todos é: «Eu sou o Senhor, teu Deus ... não haverá para ti outros deuses na minha presença» (Êxodo 20,3). Isso suscita uma pergunta natural: mas que significa isso de «outros deuses»? A resposta surge de imediato: «Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas. Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás ... » (Êxodo 20,4-5). Isso inclui tudo o que existe no mundo! A maior parte das pessoas sabe que, do dinheiro, se pode fazer um deus. A maioria também sabe que, do sexo, também se pode fazer um deus. Contudo, qualquer coisa na vida pode servir de ídolo, de alternativa a Deus, de falso deus.

Ouvi, em data recente, o relato de um oficial de campo do exército, que usava de uma disciplina física e militar tão exagerada com as suas tropas, que lhes quebrava o estado de espírito. Isso levou a uma rutura de comunicações durante o combate, que resultou em baixas. Conheci uma mulher que tivera vários períodos de pobreza na sua infância e juventude. Em adulta, ansiava tanto por ter segurança financeira, que menosprezou muitas boas relações, com algum potencial, para casar com um homem rico a quem não amava realmente. Isso levou a um rápido divórcio e a todas as dificuldades económicas que ela tanto temia. Ao que parece, alguns dos principais jogadores da liga de baseball, na ânsia não só de jogar bem, mas de chegar ao Passeio da Fama, tomaram esteróides e outras drogas. Como resultado, o seu corpo ficou mais alquebrado e a sua reputação mais manchada do que se tivessem querido ser bons, em vez de fabulosos. As próprias coisas, sobre as quais estas pessoas tentaram construir a sua felicidade, transformaram-se em poeira nas suas mãos, porque eles tinham baseado toda a sua felicidade nelas. Em cada um desses casos, uma coisa boa, dentre muitas outras, foi transformada numa realidade suprema, de tal modo que as suas exigências ultrapassaram todos os valores concorrentes. No entanto, os falsos deuses desapontam sempre, e, muitas vezes, de forma destrutiva.

Será errado querer tropas disciplinadas, segurança financeira ou proezas atléticas? De maneira nenhuma. Mas estas histórias apontam para um erro comum das pessoas, quando ouvem falar do conceito bíblico de idolatria. Pensamos que os ídolos são coisas más, mas isso quase nunca é verdade. Quanto maior for o bem, mais probabilidade temos de esperar que ele satisfaça as nossas necessidades e esperanças mais profundas. Qualquer coisa pode servir de falso deus, sobretudo, as melhores coisas da vida.

Como fazer um Deus

O que é um ídolo? É qualquer coisa mais importante para nós do que Deus, qualquer coisa que absorve o nosso coração e a nossa imaginação mais do que Deus, qualquer coisa da qual tentamos obter aquilo que só Deus nos pode dar.

Um falso deus é uma coisa tão central e essencial, para a nossa vida, que, se a perdermos, a nossa vida perderia praticamente todo o seu sentido. Um ídolo ocupa uma posição de controlo tão forte no nosso coração, que podemos gastar a maior parte da nossa paixão e energia, dás nossos recursos emocionais e financeiros nela, sem hesitar. Pode ser a família e os filhos, ou a carreira e o ganhar dinheiro, ou a realização pessoal e a aclamação por parte da crítica, ou salvar «o rosto» e a posição social. Pode ser uma relação romântica, a aprovação dos pares, a competência e a aptidão, circunstâncias de segurança e conforto, a própria beleza ou inteligência, uma grande causa política ou social, a moralidade e a virtude pessoal ou, até, o êxito no ministério cristão. Quando o sentido da nossa vida é orientar a vida de outra pessoa, podemos chamar-lhe «codependência», mas, na realidade, trata-se de idolatria. Um ídolo é tudo aquilo para o qual olhamos e dizemos, no mais íntimo do nosso coração: «Se eu tiver aquilo, sentirei que a minha vida tem sentido e saberei que eu próprio valho alguma coisa; então, sentir-me-ei importante e seguro.» Há muitas formas de descrever esse tipo de relação com essa coisa, mas a melhor talvez sejaculto.

Os antigos pagãos não estavam a fantasiar, quando representavam praticamente tudo como deuses). Tinham deuses do sexo, deuses do trabalho, deuses da guerra, deuses do dinheiro, deuses da nação ... pelo simples facto de que qualquer coisa pode ser um deus que governa e serve como divindade no coração de uma pessoa ou na vida de um povo. Por exemplo, a beleza física é uma coisa agradável, mas, se nós a «deificarmos», se fizermos dela a coisa mais importante na vida de uma pessoa ou de uma cultura, então, teremos Afrodite, e não apenas a beleza. Teremos pessoas, e uma cultura inteira, atormentando-se por causa do aspeto, gastando quantias exorbitantes de tempo e dinheiro pela beleza e avaliando, disparatadamente, o caráter das pessoas com base nisso. Se qualquer coisa se torna mais fundamental do que Deus para a nossa felicidade, sentido da vida e identidade, essa coisa é um ídolo.

O conceito bíblico de idolatria é uma ideia extremamente sofisticada, que integra categorias intelectuais, psicológicas, sociais, culturais e espirituais. Existem ídolos pessoais, como o amor romântico e a família; ou o dinheiro, o poder e a realização; ou o acesso a determinados círculos sociais; ou a dependência emocional dos outros em relação a nós; ou a saúde, a boa forma física e a beleza exterior.

Muitos procuram nessas coisas a esperança, o sentido e a autorrealização que só Deus lhes pode dar.

Há ídolos culturais, como o poder militar, o progresso tecnológico e a prosperidade económica. Os ídolos das sociedades tradicionais incluem a família, o trabalho árduo, o dever e a virtude moral, ao passo que os das culturas ocidentais são a liberdade individual, a auto descoberta, a riqueza pessoal e a autorrealização. Todas estas coisas, que são boas, podem assumir, e assumem de facto, umas dimensões e um poder desproporcionados no âmbito da sociedade. Prometem-nos segurança, paz e felicidade, desde que nós baseemos a nossa vida nelas.

Também pode haver ídolos intelectuais, muitas vezes chamados ideologias. Por exemplo, os intelectuais europeus de finais do século XIX e princípios do século XX convenceram-se profundamente da visão de Rousseau da bondade inata da natureza humana, de que todos os nossos problemas sociais se deviam a uma fraca educação e socialização. A Segunda Guerra Mundial veio dissipar essa ilusão. Beatrice Webb, a quem muitos consideram a arquiteta do moderno estado-providência da Grã-Bretanha, escreveu:

«Algures no meu diário - terá sido em 1890? - escrevi: "Apostei tudo na bondade essencial da natureza humana..." [Agora, trinta e cinco anos mais tarde, percebo] quão permanentes são os impulsos e os instintos maus do homem, quão pouco se pode esperar conseguir mudar alguns deles - como, por exemplo, [quanto à] atração pela riqueza e pelo poder - mediante qual­quer mudança da máquina [social] ... Não há conhecimentos ou ciência que ajudem a ultrapassá-los, a menos que consigamos vergar os maus impulsos.»

Em 1920, no seu livro Outline of History [História Universal], H. G. Wells elogiou a crença no progresso humano. Em 1933, em The Shape of Things to Come,assombrado com o egoísmo e a violência das nações europeias, Wells acreditava que a única esperança era que os intelectuais assumissem o controlo e conduzissem um programa educacional obrigatório, que defendesse sobretudo a paz, a justiça e a equidade. Em 1945, em A Mind at the End of Its Tether, escreveu: «O homo sapiens, como pretendeu chamar-se, está ... a chegar ao fím.» Que aconteceu a Wells e a Webb? Eles tinham pegado numa verdade parcial e tinham-na transformado numa verdade absoluta, segundo a qual tudo poderia ser explicado e melhorado. «Apostar tudo» na bondade humana significava tê-la colocado no lugar de Deus.

Também existem ídolos, valores absolutos não negociáveis, em cada campo vocacional. No mundo dos negócios, a autoexpressão é suprimida pelo valor e o proveito últimos. No mundo da arte, porém, é ao contrário. Tudo é sacrificado à autoexpressão, e isso faz-se em nome da redenção. Pensa-se, sobretudo, que é disso que a raça humana precisa. Há ídolos por toda a parte.

Ama, confia e obedece

A Bíblia usa três metáforas básicas para descrever como as pessoas se relacionam com os ídolos do seu coração. Elas amam os ídolos, confiam nos ídolos e obedecem aos ídolos.

Por vezes, a Bíblia fala dos ídolos, utilizando a metáfora esponsal. Deus deveria ser o nosso verdadeiro Esposo, mas, quando nós desejamos e nos comprazemos mais noutras coisas do que em Deus, cometemos adultério espiritual. O romance ou o êxito podem tomar-se «falsos amantes» que prometem fazer-nos sentir amados e apreciados. Os ídolos cativam a nossa imaginação e podemos identificá-los olhando para os nossos «devaneios». O que é que gostamos de imaginar? Quais são os nossos sonhos preferidos? Nós olhamos para os nossos ídolos em busca de amor, esperando que eles nos deem valor e um sentimento de beleza, importância e mérito.

A Bíblia refere-se, com frequência, aos ídolos, utilizando a metáfora religiosa. Deus deveria ser o nosso verdadeiro Salvador, mas nós esperamos, ao invés, que a realização pessoal ou a prosperidade financeira nos deem a paz e a segurança de que precisamos. Os ídolos transmitem-nos um sentimento de que conseguimos controlar a nossa vida, e podemos identificá-los, analisando ainda os nossos pesadelos. De que é que temos mais medo? Qual é a coisa que, se a perdêssemos, a nossa vida deixaria de ter sentido? Fazemos «sacrifícios» para aplacar e agradar aos nossos deuses, pois acreditamos que eles nos protegerão. Esperamos que os nossos ídolos nos transmitam um sentimento de confiança e segurança.

A Bíblia também se refere aos ídolos, utilizando uma metáfora política. Deus deveria ser o nosso único Amo e Senhor, mas tudo aquilo que nós amamos, e em que con­fiamos, é a isso que também servimos. Tudo aquilo que se transforma, para nós, em algo mais importante e insubstituível do que Deus, toma-se um ídolo escravizante. Neste paradigma, podemos localizar os ídolos, analisando as nossas emoções mais inflexíveis. O que é que nos provoca ira, ansiedade ou desânimo mais profundo? O que é que nos tiraniza com um sentimento de culpa que não conseguimos dissipar? Os ídolos controlam-nos, pois sentimos que temos de os ter, caso contrário, a vida perderia sentido.

«Tudo o que nos controla é nosso dono e senhor. A pessoa que procura o poder é controlada pelo poder. A pessoa que procura aceitação é controlada pelas pessoas a quem quer agradar. Nós não nos controlamos a nós próprios. Somos controlados pelo dono das nossas vidas.»

Aquilo que muita gente chama «problemas psicológicos» são simples questões de idolatria. O perfecionismo, a dependência do trabalho, a indecisão crónica, a necessidade de controlar a vida dos outros, tudo isso deriva de transformarmos as coisas boas em ídolos, que depois nos arrastam para o descalabro, quando tentamos apaziguá-los. Os ídolos dominam as nossas vidas.

A oportunidade do desencanto

(...)
Embora pensemos que vivemos num mundo secular, os ídolos, esses deuses cintilantes da nossa época, detêm o direito da confiança funcional do nosso coração. Com a economia global num estado deplorável, muitos dos ídolos que adorámos, durante anos, ruíram à nossa volta. É uma grande oportunidade. Numa palavra, estamos a sentir «desencanto». Nas histórias antigas, isso significava que o feitiço lançado pelo feiticeiro malvado fora quebrado e que tínhamos hipóteses de escapar. Tais momentos acontecem-nos como indivíduos, quando algum grande empreendimento, atividade ou pessoa em quem tínhamos posto as nossas esperanças não consegue dar-nos aquilo que (em nosso entender) nos tinha prometido. Só muito raramente isso acontece a uma sociedade inteira.

O caminho a seguir para escapar ao desespero consiste em discernir os ídolos do nosso coração e da nossa cultura. Mas isso não será suficiente. A única maneira de nos libertarmos da influência destrutiva dos falsos deuses é regressar ao único Deus verdadeiro. O Deus vivo, que se revelou tanto no Monte Sinai como na Cruz, é o único Senhor que, se o encontrarmos, poderá saciar-nos de verdade e que, se falharmos, poderá perdoar-nos de verdade.

Esta transcrição omite as notas de rodapé.



Timothy Keller
In Falsos deuses, ed. Paulinas
publicado in SNPC a 14.08.13

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Equipa de rugby posa nua

Um calendário diferente

Uma equipa de rugby da Universidade de Oxford, em Inglaterra, aderiu aos calendários eróticos para angariar fundos para caridade. Sem vergonhas, os jogadores posam nus para as fotos, a preto e branco, em vários locais da instituição: a treinar no próprio campo, na biblioteca e noutros lugares do campus universitário.

A ideia surgiu depois de dois rapazes descobrirem ter cancro na próstata. As imagens foram tiradas por um fotógrafo da universidade, com 14 atletas da equipe: Sean Morris, Will Rowlands, Hee-Won Cho, Henry Hughes, Dugald Macdonald, Oscar Vallance, Charlie Marr, Samson Egerton, Hamish Macdonald, Nick Gardner, Gus Jones, Jonathan Hudson, Henry Lamont e Gavin Turner.

Cada calendário custa 10 euros e pode ser adquirido na Internet pelo site da universidade (http://www.ourfc.org).


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

domingo, 12 de maio de 2013

ser gay no futebol americano

Alan Gendreau é um jovem atleta que joga futebol americano, numa pequena cidade do estado do Tennessee, nos Estados Unidos e que sonha com uma oportunidade na liga dos grandes (a NFL). A sua ambição acabou por ganhar mediatismo devido à orientação sexual de Gendreau – é gay assumido.
O jogador de 23 anos foi dado a conhecer ao grande publico, através de um vídeo biográfico colocado no site OutSports, que se dedica a divulgar desportistas que gostam de pessoas do mesmo sexo. O co-fundador do website sublinha que Gendreau nunca procurou um lugar privilegiado. “O objectivo dele não é ser o primeiro”, aponta Zeigler. “O objectivo dele é ser quem ele é”. Outros meios de comunicação social dos Estados Unidos também estão a dar visibilidade ao seu exemplo.
Gendreau assumiu-se como gay no liceu, que frequentou na pequena cidade de Apopka. Quando se mudou para o estado do Tennessee nunca escondeu a sua sexualidade, sendo o primeiro gay assumido a jogar numa liga universitária, o que suscitou no mínimo, bastante curiosidade e mediatismo, logo à partida.

O desportista refere que não pretende promover-se à custa da sua sexualidade, mas que por outro lado, também não a pretende esconder. “Sou um jogador de futebol-americano que é gay. Só isso”, refere com naturalidade. “É parte daquilo que sou, mas não é aquilo que me distingue. O meu objectivo é ajudar qualquer pessoa que está com dificuldades em assumir-se”.
Esta situação não é nova no panorama desportivo dos Estados Unidos. Jason Collins, atleta da NBA assumiu-se há poucas semanas, sendo o primeiro jogador da liga de basquetebol americano a sair do armário.

Luís Miguel
In Dezanove

Ver no Youtube uma entrevista com Gendreau

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O casamento homossexual liberta a Igreja

Casamento gay e Igreja livre

Um artigo de opinião de um ensaísta católico francês para o Le Monde. Nele o autor aborda a actualidade política do país (direito ao casamento e à adopção por parte dos casais homossexuais) e critica a hierarquia da Igreja por se interessar mais pelas histórias do foro privado do que pela espiritualidade. Sendo a maioria dos franceses a favor do casamento homossexual, os moralistas enveredam pelo ataque à homoparentalidade alegando a falta de referências masculino-feminino. O autor relembra que 2,8 milhões de crianças vivem em famílias monoparentais - sem haver sequer a alteridade de haver 2 referências distintas e que 40.000 crianças vivem já com um casal homossexual, sem nelas se ter notado qualquer perturbação ou trauma derivados especificamente desse factor. Mas o "incómodo" da homoparentalidade vem de medos irracionais, ignorância: hereditariedade ou contágio da homossexualidade. O autor afirma que quando se é crente, se é Igreja, e quando um se diz católico, deve ser testemunha de Cristo e do Evangelho e não se contentar com a repetição cega e obcessiva das opiniões da hierarquia: tem de se saber dialogar com tudo e com todos e passar a mensagem do Evangelho, não alimentar preconceitos sem sentido crítico e construtivo.

Desde o nascimento de Cristo sabemos que a filiação importante não é nem a sexual nem a reprodutiva, mas a adoptiva. José e Maria receberam Jesus sem o conceberem, O mesmo teria acontecido se José fosse uma mulher. O mesmo acontece quando uma criança nasce: ela é declarada ao Estado Civil e os seus pais são os que ficam responsáveis pela sua criação e educação; a criança é adoptada pelos seus pais. Com o Evangelho a família alarga-se a uma família universal. Não interessa se se é órfão, bebé-proveta, filho bastardo, filho de pai gay ou de barriga de aluguer ou se se vem da Assistência Social: todos somos irmãos em Cristo e filhos de Deus. Em termos laicos importa assegurar uma parentalidade colectiva, consensual, integrativa e democrática, ou seja, uma socioparentalidade. Os jovens devem ser associados o mais cedo possível à vida na sua cidade como futuros cidadãos.

Na história a Igreja teve o papel de consolidar o matrimónio que, entre outras coisas, assegurava às crianças que nasceriam um quadro educativo de fundo. As sociedades modernas e democráticas ocupam-se disso actualmente. A abertura do direito ao casamento e à adopção aos casais homossexuais é a última etapa desta lenta evolução. No séc. IX a Igreja ocupava-se com o estado civil e a regulação matrimonial e hoje vê chegar ao fim o seu papel administrativo e civil. O casamento homossexual não põe em causa o matrimónio e a filiação, mas antes liberta a Igreja das suas preocupações de gestão quotidiana da sociedade e dá-lhe espaço para se concentrar na difusão da sua mensagem espiritual. Para isso, os baptizados não devem ser eternamente crianças de colo do nosso Pai que está nos céus, mas tornar-se adultos que, desde a mais tenra juventude, como Jesus, tomam a palavra no Templo e na cidade.

Aqui segue o artigo na íntegra em francês:


Le mariage homosexuel libère l'Eglise


Par Thierry Jaillet, essayiste catholique

Dans quelques semaines ou quelques mois, le gouvernement va mettre en œuvre l'un des engagements du candidat Hollande : l'ouverture du "droit au mariage et à l'adoption aux couples homosexuels". Ce n'est que justice. Mais, je le regrette en tant que catholique pratiquant et engagé, mon Eglise, ou du moins sa partie institutionnelle, va se prononcer contre cette mesure d'équité et de sagesse. En effet, depuis 1968 et l'encyclique Humanae Vitae, fustigeant l'interruption volontaire de grossesse (IVG) et la contraception, nous sommes habitués à ce que notre haut clergé se mêle plus de nos histoires de cul que de spiritualité.


Comme la majorité des Français sont pour le mariage homosexuel, l'angle d'attaque des opposants moralisateurs et plus ou moins homophobes sera l'homoparentalité. Vous rendez-vous compte, ces pauvres enfants, est-ce bien raisonnable qu'ils grandissent sans référent maternel ou paternel ? Réveille-toi, mon frère, ma sœur, 2,8 millions d'enfants vivent dans une famille monoparentale, et leur seul parent, une femme, en général, est, dans la plupart des cas, hétérosexuelle. D'autre part, 40 000 enfants vivent d'ores et déjà avec deux parents homosexuels, et l'on n'a pas détecté chez eux le moindre traumatisme psychologique particulier. Tous les éducateurs sérieux le savent : les difficultés des enfants ne proviennent pas de l'orientation sexuelle de leurs parents, mais de leurs moyens financiers, de leur niveau d'études et de leur intégration dans la société. Mais ce n'est pas avec des arguments de simple raison que l'on peut convaincre sur ce point. L'homoparentalité dérange, on craint faussement qu'elle soit héréditaire, contagieuse, et délétère pour l'espèce humaine. Comment sortir de cette peur irrationnelle qui fait que même des citoyens assez ouverts se disent qu'il faut procéder par paliers, ménager des transitions, distinguer mariage (hétéro) et union civile (homo), de crainte d'encourager l'homophobie, alors qu'il n'y a rien de pire que faire des distinctions pour renforcer les discriminations et l'exclusion ?


Quand on est l'Eglise et que l'on se dit catholique, on doit dialoguer avec tous, se faire le témoin du message du Christ et des Ecritures et ne pas se contenter de répéter les éventuelles âneries des successeurs de Pierre, lequel Pierre, selon l'Evangile et les Actes des Apôtres, sortit quelques énormes sottises que ses frères ne suivirent pas. Alors, plutôt que de l'entretenir, faisons donc reculer la peur de l'homoparentalité.

Depuis la naissance du Christ, nous savons que la seule filiation qui compte n'est ni sexuelle ni reproductrice, mais adoptive. Joseph et Marie deviennent les parents du Christ parce qu'ils l'acceptent comme enfant, alors que leur relation sexuelle ne l'a pas conçu. Joseph eût été une femme que le Christ eût été tout de même incarné. Nous aussi parents, nous déclarons nos enfants à l'état civil, nous les adoptons aux yeux de la loi et de la société, et nous nous engageons dans leur éducation. Mais avec l'Evangile, nous allons plus loin que jouer au papa et à la maman. Nous agrandissons la famille à l'humanité toute entière. Nous reconnaissons Jésus Christ fils du Dieu Vivant (Mt 16, 16), et nous nous disons fils de Dieu et frères en Jésus-Christ, que nous sortions des bourses d'un père homosexuel, de l'utérus d'une mère porteuse, d'une éprouvette, ou de l'Assistance. Et l'important pour nous n'est pas de sacraliser la famille traditionnelle, car la "Sainte Famille" est tout sauf cela, mais de laisser le Christ, dès l'âge de 12 ans, et nos enfants avec lui, "s'occuper des affaires de son Père" (Luc 2, 49). En termes laïques, cela veut dire que ce qui compte, c'est que la société tout entière s'occupe bien des enfants, les éduque, et les considère pour eux-mêmes, pas seulement en tant que fils et filles de leurs parents, hétérosexuels ou pas. Toujours en termes laïques, cela veut dire aussi que les jeunes doivent être associés au plus tôt à la vie de la cité, en tant que futurs citoyens. Dans cette perspective, l'homoparentalité n'est plus un problème, le vrai défi, c'est d'assurer ensemble une parentalité collective, consensuelle, intégrative et démocratique, une socioparentalité.


Au cours des siècles, l'Eglise a construit sa vision du sacrement du mariage, certes pour asseoir son pouvoir sur la société, mais aussi pour assurer le consentement éclairé des époux, empêcher les mariages forcés pour raisons patrimoniales, limiter la traite des femmes, abolir la répudiation et assurer aux enfants un cadre éducatif minimal. Les sociétés modernes et démocratiques se chargent aujourd'hui de ces protections et sauvegardes. L'ouverture du droit au mariage et à l'adoption aux couples homosexuels est la dernière étape de cette lente évolution. L'Eglise qui prit en charge, aux temps barbares du IXe siècle, état civil et régulation matrimoniale, voit aujourd'hui la toute fin de son rôle administratif et civil. Le mariage homosexuel, loin de remettre en cause mariage et filiation, libère définitivement l'Eglise de ses préoccupations de gestion quotidienne de la société et lui donne tout loisir de se concentrer sur la diffusion de son message spirituel. Mais pour cela, les croyants ne doivent pas rester les petits enfants mineurs de Notre Père qui est aux cieux et de notre Très Saint-Père le Pape qui est à Rome (tiens, deux pères dans cette famille ?). Non, les baptisés se doivent d'être des adultes majeurs qui, dès leur plus jeune âge, comme Jésus, prennent la parole dans le Temple et dans la ville.

Thierry Jaillet est l'auteur de L'Evangile de Michel Onfray (Golias Editions).

In Le Monde de 5 de Junho 2012

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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