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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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domingo, 2 de dezembro de 2012

Palavras de uma monja de clausura

Uma atracção irresistível


Muitas pessoas têm dificuldade em compreender a nossa opção pela vida contemplativa – pela vida de clausura, portanto –, que é sem dúvida a mais radical. Mas uma das causas dessa incompreensão é o desconhecimento, que dá origem a ideias erradas.

Pensa-se que levamos uma vida melancólica e apagada, metidas numa casa sombria, entre grades, a rezar o dia todo... Quase que nos imaginam seres anormais.
É claro que dedicamos a nossa vida à oração, mas o dia tem muitos momentos: os da oração, os do trabalho, e até os de convívio e lazer...
(...)
A ideia de que a nossa vida é inútil é das mais comuns. O meu padrinho, por exemplo, precisamente por estar convencido disso, ainda hoje se recusa a visitar-me no mosteiro e só consente em falar comigo por telefone. Diz o mesmo que o meu pai dizia: “Ainda se ajudasses crianças, velhinhos ou doentes, via-se bem o que fazias!”

De facto, humanamente falando, ser consagrado a Deus não faz sentido. Se se tem a Deus como um simples conceito, é um absurdo; se se tem a Deus como inexistente, é uma ingénua ilusão. Mas não é absurdo nem ilusão, é a resposta a um chamamento concreto de Deus. Responde-se com a entrega pessoal, por amor, e aceita-se a investidura de uma missão. Mas mesmo para quem acredita Deus é difícil entender a vida em clausura, o sentido da nossa entrega a Deus. Entende-se uma vida com atividades concretas de assistência prática a pessoas nas mais diferentes situações de necessidade. Mas uma vida dedicada à oração... (...)

A clausura

Só a palavra “clausura” já faz arrepiar muita gente. É uma palavra que assusta, talvez por evocar a ideia de uma prisão.
Mas a clausura monástica nada tem de prisão, de reclusão forçada, de contrário não seríamos tão felizes aqui dentro.

O silêncio dentro de um espaço delimitado, longe de ser acabrunhador, é uma dádiva que nos permite viver a nossa vida de oração e recolhimento. Não sair livremente, como qualquer pessoa sai de sua casa, impressiona muita gente. Mas para mim o contrário é que seria um suplício. E digo o mesmo a respeito do silêncio: se pudesse conversar á vontade durante o dia tirar-me-iam o que tenho de mais precioso, pois é no silêncio que Deus fala. O silêncio é que nos torna próximos de Deus.
Ir. Raquel Silva
In Uma Atracção Irresistível, ed. Tenacitas, 2009
Preço 12,00 €
ISBN 978-972-8758-64-6

publicado em SNPC

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sexualidade e fé católica: a luta de um encontro (9 testemunhos)

John Singer Sargent
"Como assumir ao mesmo tempo a sua orientação sexual e a sua crença em Deus? Como é que a Igreja acolhe e acompanha estas pessoas que, diariamente, ou através da sua caminhada de vida, descobrem uma atracção, um amor por uma pessoa do mesmo sexo? Mesmo que o assunto permaneça tabu, nascem iniciativas, desenham-se aberturas…

Xavier e Benoît, um casal e uma comunidade de Vida Cristã (espiritualidade inaciana)
«Como casal desde há sete anos, permanecemos profundamente ligados à Igreja. Estamos activos no seio da CVX [1], ou na nossa paróquia. De facto, respeitamos infinitamente a posição da Igreja sobre este assunto, até quase que a compreendemos, se considerarmos que ela não pode ter outro discurso. Vivemos simplesmente, acolhemos aquilo que a vida nos «reservou» sem que o tivéssemos escolhido, a não ser a escolha de assumir, como a parábola dos talentos: a nós de fazer frutificar o que nós somos, de dar amor onde estamos e de testemunhar essa fé que nos foi passada. Essa fé, tentamos transmiti-la aos três filhos de Xavier, quando eles estão em casa, de férias, tentamos partilhá-la o mais simplesmente na CVX, o mais profundamente possível, sem provocações e sem chocar… essa fé, exprimimo-la aquando da cerimónia do nosso Compromisso: nesse dia, em 2010, fizemos a escolha de exprimir o nosso amor mútuo, que voltamos resolutamente para todos aqueles que partilham o nosso caminho (crianças, famílias, amigos, etc.). Esta cerimónia, que criámos em torno daqueles que nos são mais próximos, não a quisemos como uma simulação de casamento, isso não faria qualquer sentido e, fiéis à Igreja, não desejamos colocarmo-nos contra Ela. Confiámos, simplesmente, o nosso projecto, o nosso futuro, a Deus, confiando-lhes as orações dos nossos entes queridos» 
Xavier e Benoît

Fiel à minha fé, apesar da minha consternação
«Sim, sou homossexual e católico. E praticante em ambos os casos… porque não teríamos o direito, também nós, de amar e ser amados em plenitude de sentimentos? Não pedimos compaixão mas a assunção de uma realidade biológica. Um dia, em confissão, um padre recusou-me a absolvição devido ao único de lhe ter confessado que era homossexual… Que humilhação para mim! Se acrescentarmos a isso o facto de a minha situação nunca ter sido verdadeiramente aceite pela minha família, o facto de levar uma vida pública bastante intensa e o facto de habitar na província, facilmente se compreenderá que nem sempre é fácil ser homossexual em 2011. Os costumes evoluem, mas não as mentalidades, pelo menos ao mesmo ritmo. Apesar dos períodos de turbulência e de dúvida, permaneci fiel à minha fé e encontro-me igualmente envolvido na minha paróquia. Eu acomodo-me, mas luto pela minha condição, pensando que o amor de Deus é mais forte que a maldade dos homens.» 
Olivier

É preciso intervir junto dos pais e dos alunos
«A 4 de Agosto de 1990, o nosso quarto filho, Jean-Baptiste, morreu aos 26 anos, no nosso apartamento, devido a uma doença, diagnosticada em 1981 nos Estados Unidos e tida então como o «cancro gay»: a SIDA. Três anos antes, em vez do Serviço militar, ele era professor na Universidade de S. José, em Beirute, em plena guerra civil. Não foi uma bala perdida que o atingiu, mas o VIH. Ele dizia que tanto se sentia atraído por raparigas como por rapazes… A doença de Jen-Baptiste deu-me a conhecer que as pessoas homossexuais têm comportamentos tão variados como aqueles que se dizem heterossexuais, ainda que nós, concidadãos, não vejamos frequentemente senão a ponta do iceberg. Por exemplo a entreajuda e a fidelidade ao longo dos anos, podem ser vividas entre dois homens de forma tão intensa, senão mais intensa, que entre casais heterossexuais. Isto não deveria continuar a ser ignorado pela minha Igreja Católica, reservando a palavra «matrimónio» para os casais formados por um homem e uma mulher. Realço um documento notável do ensino católico (Maio de 2010) sobre a «educação afectiva relacional e sexual nos estabelecimentos católicos de ensino». «Um número significativo de homens e mulheres têm tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição homossexual. A educação aborda, pois, aqui, uma questão extremamente sensível. Formas diversas de homofobia podem ferir gravemente as pessoas… O educador deve, portanto, velar particularmente na articulação entre o que pode dizer sobre a diferença sexual no respeito incondicional pelas pessoas». Para fazer isso seria desejável que existissem mais pessoas que se formem, de modo a intervirem junto dos pais e dos alunos. 
Um pai de família

Os Bispos devem ter a questão em consideração
«Escutei o apelo de Deus aos 12 anos, numa idade em que descobri igualmente qual era a minha sexualidade. Nunca a vivi de forma errada, pois fui criado num meio muito ecuménico. Vi que a reflexão antropológica levada a cabo pela outras Igrejas permitia ver o problema de outro modo. À minha volta, no entanto, depressa me apercebi dos danos que o silêncio fazia junto de muitos padres, seminaristas, que se torturam sobre esta questão. Os bispos devem ter a questão em consideração para os membros interessados do clero e propor-lhes um lugar de partilha. Depois, é necessário familiarizar as comunidades com esta questão e permitir aos que o desejem de se encontrarem para melhor viverem a sua presença em comunidade. Membro de uma grande ordem religiosa durante vários anos, decidi abandoná-la quando me apaixonei, tendo explicado a razão da minha partida. Uma verdadeira renuncia, pois era um religioso feliz. Este «sair do armário» institucional deu origem a uma verdadeira tempestade na minha ordem. Há um medo terrível da verdade. Sugeriram-me, antes, que ficasse, mas que me calasse, preocupando-se sobretudo com o que as pessoas iriam pensar. Acontece que os fiéis apoiaram-me e compreenderam-me. Por outro lado, nunca coloquei em causa a minha vocação sacerdotal; a minha orientação sexual não me impede de viver e servir. Actualmente, encontrei um ministério pois fui acolhido numa paróquia. O bispo conhece a minha história. Tenho um amigo que escolhi e perante o qual estou comprometido, mas renunciei a uma vida sexualmente activa no casal. É um caminho que enche e completa a minha vida. Nunca me senti tão equilibrado.» 
François, 42 anos, pároco

Para uma abordagem de aceitação da minha encarnação
«Desde os meus doze anos que penso que sou mau. Aos vinte anos mandei a religião passear. Deus não poderia querer nada comigo, pois eu era homossexual. Alguns anos mais tarde fui agarrado pela sua mensagem de amor. Ele amava-me como eu era. Então, preparei-me para uma vocação religiosa, que era muito forte, sem voltar a colocar-me a questão da minha homossexualidade. Encontrava-me, provavelmente, numa forma de rejeição. Depois tive uma relação com um seminarista e tomei consciência que, de facto, o problema ultrapassava-me largamente. Com todas estas questões, cheguei a um retiro de escolha de vida. Aí, Deus colocou-me, de forma esmagadora, frente às minhas contradições. Foi na experiência espiritual que compreendi que deveria ter plenamente em consideração quem eu era… não tinha avançado nada durante todos estes anos! Hoje, coloquei de parte o meu projecto religioso – que, por um lado me permitia regular o meu problema – para encetar o que considero ser uma abordagem razoável para aceitar a minha encarnação. A Igreja deve retirar a homossexualidade da marginalização. Se continua a caricaturá-la como uma vida de perdição, ela empurra-nos para o silêncio e a uma vida instintiva oculta que não queremos!» 
 Luís, 28 anos
(...)

Finalmente associei o meu espírito ao meu corpo
«Sou cristã, homossexual e feliz: a minha orientação amorosa é diferente, mas não inferior. No entanto, interiorizei desde muito nova que «os homossexuais não fazem parte do plano de Deus». Para fazer parte do plano de Deus, realizei uma clivagem mental: amava Deus, os outros, era uma católica apaixonada pelo Evangelho, era uma enfermeira apaixonada pelos doentes e a tratá-los mas não era uma mulher. Casei-me com um cristão muito meigo. Mas na aliança perfeita homem-mulher-Deus, vivi uma espécie de desolação. Foi um casamento de morte, uma relação contra a minha natureza, que me deixou gravemente doente. Prefiro morrer de amor na eternidade, pois era incapaz de amar, dizia. De facto, era o meu amor que não estava no sítio certo. Encontrei uma mulher. Foi essa a minha verdade. Deste modo, a descoberta e a aceitação da minha homossexualidade foram espectaculares. Associei, enfim, a minha fé, a minha sexualidade, o meu espírito e o meu corpo. É a separação que nos torna doentes. Perante Deus, o meu primeiro amor, pude juntar as peças espartilhadas, tornar-me naquela que sou, desculpabilizada, acalmada e abençoada. Cada baptizado é chamado ao amor e à dádiva.» 
Sophie

O centro Tiberíade, uma família para os doente de SIDA
«Tendo acompanhado toda a minha vida, no quadro das minhas actividades profissionais, pessoas homossexuais maioritariamente marcadas pela infecção pelo VIH, encontrei-me com naturalidade como administrador e acompanhante dum centro de acolhimento de dia para essas mesmas pessoas, quando chegou a minha idade de reforma. O Centro Tiberíade, organizado pela Diocese no coração do 7.º bairro de Paris e criado pelo Monsenhor Jean Marie Lustiger a pedido da Madre Teresa. Uma equipa de voluntários e de elementos permanentes que acolhe, durante cinco dias por semana, pessoas para quem a vida foi madrasta, muitas vezes isoladas e doentes. Perto de 7000 refeições, preparadas por uma equipa discreta de voluntários, são servidas todos os anos. As pessoas acolhidas romperam frequentemente todos os laços com as suas famílias. Encontram no Tiberíade um ambiente caloroso e atencioso onde podem, com naturalidade, partilhar o seu dia-a-dia, expor as suas angústias e encontrar uma escuta e ajuda psicológica e terapêutica. Há à disposição uma biblioteca, jogos, actividades artísticas, visitas, (...) sem esquecer uma iniciação à fé cristã e a presença regular dum capelão com uma possível participação na missa de sexta-feira à tarde. Vive-se em Tiberíade uma fraternidade real, ao ponto de numerosos acolhidos afirmarem diariamente «a minha família está aqui».
Michel

Ser católico e transgénero
«Embora a Igreja comece timidamente a ter em consideração a homossexualidade, parece ignorar completamente ou mesmo rejeitar as pessoas transgéneras ou transexuais. Foi desta forma que não tendo encontrado, até há quatro anos, nenhum lugar na Igreja para me acolher com a minha especificidade, caminhei durante mais de 15 anos com um grupo de homossexuais cristãos: «Devenir Un En Christ (DUEC)», que me ajudou, mas não respondia plenamente à minha «diferença». Descobri a Comunidade Betânia. O único lugar da Igreja, que eu saiba, que se preocupa com o CCI (Cruzamento dos Cristãos Inclusivos) das pessoas transidentitárias que, de momento, me acompanha no plano espiritual e me ajuda a conciliar Fé e Transidentidade.
Isabelle

Pais de homossexuais
«É indispensável e urgente dar liberdade de expressão aos pais de homossexuais que se encontram frequentemente em grande sofrimento e aos jovens que não sabem para quem se voltar quando se apercebem que são homossexuais.
De facto a Igreja (de facto a Igreja é o quê?) trata o tema de forma expedita, como já o fez em relação à contracepção, mesmo quando tem o cuidado de não condenar as pessoas.
O Magistério denuncia frequentemente este estado (pois não é uma escolha, é um estado de facto) como uma desordem (no melhor), uma perversão (no pior) e somente tem como proposta «a vida na castidade».
O grupo «Reflexão e Partilha», no qual participamos, reúne pais preocupados com este problema e jovens, frequentemente em casal, e elaborou um folheto informativo sobre o tema «A Orientação sexual e a vida cristã» e deseja que sejam formados outros grupos e que estes proponham às autoridades eclesiásticas uma palavra apaziguadora e construtiva.
Claude e Jacques

Texto orignal: Elisabeth Marshall e Joséphine Bataille
Órgão: La Vie
Tradução: José Leote
in Rumos Novos

[1] Comunidade de Vida Cristã. A CVX é uma comunidade mundial de leigos, com Estatutos aprovados pela Igreja, e uma Espiritualidade própria: a Espiritualidade Inaciana; isto é, a sua fonte de inspiração característica, para além das Sagradas Escrituras e do Sentido de Igreja, são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. As linhas orientadoras da CVX estão consignadas nos Princípios Gerais, que ajudam a unir a Fé e a Vida numa opção apostólica.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Viver como cristãos a condição homossexual pode ser lido no blogue

Jacob lutando com o anjo, Alexandre Louis Leloir, 1865
A conferência do passado mês de Janeiro, inserida nos Encontros do Lumiar e organizada pelas Monjas Dominicanas, com o tema "Viver como cristãos a condição homossexual" já se encontra entre os Documentos em destaque do moradasdedeus (ler aqui). Note-se que a publicação desta pode ser adquirida por €2 na casa das irmãs e na Capela do Rato.

Monjas Dominicanas http://www.monjasoplisboa.com/

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Testemunho: uma alternativa ao sofá

Estar ao serviço do outro

"Acontece várias vezes: alguém chegar junto a mim e dizer com ar sonhador que, também, gostava de um dia fazer voluntariado.
Pergunto logo, a essa pessoa, o que falta para dar esse passo. Muitas vezes são respostas lacónicas que oiço ou desculpas várias.
 
Pois…. Há tantos motivos que nos levam a ficar no comodismo ou no quentinho do sofá.
Mas, ao contrário, há um argumento maior que nos leva a sair de nós mesmos, ao encontro do outro: o Amor.
 
É o Amor, a Boa Nova que Jesus Cristo nos traz e que nos deixa como proposta de Vida e, ao longo dos últimos 10 anos, é esse Amor, vivido com a nossa Fé em Deus Pai, que tem levado o grupo Diálogos, Leigos Svd para a missão, a promover vários projectos de voluntariado.
 
Começámos com o projecto no Centro João Paulo II, onde talvez o maior desafio que surge que é o de aprender a comunicar com todos os nossos sentidos, com aqueles “meninos” portadores de deficiência profunda. Para isso, vemos como é importante usar todos os dons que Deus nos concede. Só assim conseguimos entender o que aqueles “meninos” nos querem dizer através de um simples olhar. Só assim conseguimos sentir que apesar das nossas diferenças, incluindo físicas, todos somos filhos queridos de Deus.
É este viver, da nossa vocação missionária, que nos tem levado, nos últimos 5 anos, até Vilar Formoso, ao encontro da população maior e nos últimos três até à Quinta do Mocho para trabalhar com crianças e jovens.
 
Projectos que nos fazem redescobrir a urgência de sermos missionários onde quer que estejamos, com quem quer que esteja ao nosso lado.
 
Mas ouvimos, também, a voz de Cristo que continuamente nos tem desafiado a ir até mais longe. Por isso já atravessámos 6 vezes o mar até Angola. Ali junto a uma população pobre de bens materiais, mas rica em fé, sentimos a alegria de quem, com toda a sua simplicidade, partilha os seus dons, alicerçados em valores de paz, justiça e fraternidade.
 
Partir para servir.
Darmo-nos ao outro.
Ser presença amiga que traz a esperança ou que renova o amor.
 
Tudo isto é uma opção de vida. É um responder com sim à missão a que Deus chama.
 
E quem, senão o voluntário, pode descrever tão bem a alegria que sente no coração ao ver o riso da criança a brincar, ou o sorriso do idoso que tem quem o escute, ou do portador de deficiência que tem quem o leva a passear fora das 4 paredes da sua casa, ou ainda a felicidade do homem, cansado dos tempos de guerra, que, apenas, quer contar as suas histórias?
 
Sofá ou comodismo?
Eu prefiro partir e viver a alegria de quem se dá ao serviço dos outros.
Um dar sem medida porque a única medida que conheço é o Amor."
 
Por Fernanda Ramalhoto
in Revista "SVD ao Encontro", nº 62 de Janeiro/Março de 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Passeio com um p(r)o(f)eta

Uma bela entrevista, que me dá razões para continuar a crer e a esperar na Igreja

Entrevista com Tolentino Mendonça

Se caminhar já é rezar, como dizia São Francisco de Assis, esta não foi uma entrevista. Foi uma oração pelo Príncipe Real


A poesia é um sacerdócio que se ensina e que se aprende. Uma outra maneira de somar palavras para descrever o poeta, o sacerdote, o professor. Tolentino Mendonça, em suma, que afinal o nome que cada um carrega na bagagem é sempre mais forte que a bengala de um título. "O Tesouro Escondido", que entrou esta semana na terceira edição, segue caminho para Itália e Brasil. Pequeno pretexto para uma conversa maior com passagem pelo Teatro da Cornucópia, onde assistiu ao ensaio geral da "Morte de Judas". O dia foi de outra estreia: o interlocutor esqueceu-se da carteira em casa. Na da jornalista, não muito mais precavida, apenas um euro. A providencial moeda chegou para o café. Por sorte, ou por graça de Deus, nenhum dos dois ficou a lavar a loiça.

Comecemos por um esquecimento, que me diz ser obra rara. O da carteira.
Se pensarmos que os nossos esquecimentos são sempre significativos, que querem sempre sinalizar alguma coisa, tem graça nos tempos que correm o desejo de andar sem carteira. Lembra-me uma provocação que vi o Manoel de Oliveira fazer numa entrevista na televisão. Ele dizia estar interessado em pensar o que seria uma sociedade sem dinheiro. Se em vez da compra e da venda, vivêssemos unicamente da troca de bens, de serviços. No fundo, eu penso que em mim há uma nostalgia do dom, uma certa utopia de uma sociedade do dom. Mas de facto para tomar uns cafés, dá jeito trazer a carteira.

Que objectos costuma trazer consigo?
Sabe, eu gosto muito de olhar para os caracóis. Se tivesse que escolher um ser vivo na natureza para falar de mim, era o caracol. Por causa de uma frase que está associada: "Tudo o que tenho, trago comigo". Mesmo quando ando de bolsos vazios, como é o caso deste dia inesperado, penso que trago sempre tudo comigo.

Que essencial é esse?
A verdade do que sou, do que penso. Não há nada mais importante para cada pessoa do que ser inteiro a cada instante e poder sê-lo nas várias situações.

Parte dessa verdade passa pelo nome. Trazia uma grande dúvida antes de aqui chegar. Tratá-lo por padre ou apenas por Tolentino, o autor. Como prefere?
Isso é muito interessante. A maioria das pessoas trata-me pelo nome do meio, Tolentino. Talvez por ser o menos comum, foi adoptado desde criança. Algumas pessoas do universo mais familiar tratam-me por José. E penso que é assim que devemos ser tratados. Nós, portugueses, inflacionamos muito os títulos, somos muito cerimoniosos, o que não quer dizer que tenhamos o sentido da cerimónia. Por exemplo, em Dezembro tive oportunidade de ir com o Centro Nacional de Cultura ao Japão e ali sim, há um sentimento profundo da cerimónia, da atenção ao gesto. Não temos isso. É mais por timidez e defesa que nos colocamos tantos nomes. É curioso. Até nas campainhas das portas colocamos doutor e engenheiro, que é uma forma muito estranha de relação.

Cria uma relação de proximidade tal, talvez pela sua obra, que quase nos esquecemos que também é sacerdote.
Gosto muito de um verso do Ruy Belo que diz "Mesmo quando eu me esqueço de Deus, lembro-me de Deus". Penso que hoje, numa sociedade que reconfigura o lugar do religioso, a pessoa do padre não resiste a uma imagem que o coloque como um ser acima das circunstâncias e da realidade do quotidiano, mas aquilo que se vê é que o padre é cada vez mais chamado a ser um companheiro dos percursos da vida, finalizando, é verdade, uma outra dimensão, mas de uma forma muito simples. O estilo evangélico de Jesus impele-nos a uma atitude de grande simplicidade na relação com os outros.

Uma dimensão espiritual que se cruza com a do conhecimento, como costuma mencionar?
A palavra conhecer quer dizer "nascer com" e o acto de nascer é sempre espiritual. Porque nascemos em vários sentidos, sempre. Esta hora para nós pode ser uma hora de nascimento, a hora em que o leitor está a ler estas palavras. Penso que a espiritualidade liga-se de facto a uma procura de conhecimento, que não é unívoco, ou simplesmente empírico. É uma espécie de abertura, de colocar-se perante o aberto do mundo.

Como tem tempo para sorver este mundo todo? Tem uma quantidade relevante de trabalhos publicados.
É engraçado, eu acabo por achar sempre que faço pouco, que podia fazer muito mais, mas depois olho para trás e vejo que há um caminho percorrido. Mas não tenho essa ideia de estar envolvido num activismo, ou muito preocupado com a produtividade. Talvez porque em cada dia reservo um espaço significativo para a contemplação, para a escuta, para o silêncio. Isso gera de facto uma fecundidade na acção, mas que não é activismo.

Vai tirando notas?
A atenção é a atitude espiritual mais importante. E muitas das coisas que aprendemos em si mesmas, não têm um valor por aí e além, mas servem para nos treinar para a atenção. Lembro-me de um texto de Simone Weil, sobre o estudo escolar. Há muita coisa na nossa formação que se revela sem grande utilidade, mas naquele momento ajudou-nos a construir uma atenção. E isso é o grande valor que cada um de nós transporta. Acredito muito naquilo que os padres do deserto diziam, que o grande pecado é a distracção.

Peca muito?
O povo diz que um santo peca sete vezes ao dia. E eu que não sou um santo...

Socorre-se de auxiliares, para fintar a distracção?
[Tira o bloco azul do bolso] Tenho um bloco comigo. E procuro sempre escrever, porque são muitas coisas, e também me esqueço. Há que organizar também as sensações, e anotá-las. Mas penso que caminho no mundo como uma testemunha, e que essa é a função de cada um de nós. Caminhamos não apenas como espectadores, mas como testemunhas, do sofrimento e do esplendor do mundo.

Acontece-lhe sentir que há leitores que se aproximam mais de Deus pela via dos seus livros que pela Bíblia?
É verdade que algumas pessoas que lêem os meus poemas, e têm um distanciamento em relação à tradição cristã, me dizem algumas vezes que gostam de me ouvir e de me ler como poeta, unicamente. Eu respeito. Respeito porque os tempos de compreensão são coisas muito misteriosas e pessoais. Gosto de fazer coisas diferentes. Por exemplo, antes de vir para cá estava a ler a primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses, que vou dar numa aula amanhã [na quinta-feira], e antes mesmo de sair de casa li um poema do Ruy Belo que tem a ver com o ensaio geral desta peça que a Cornucópia vai mostrar sobre a morte de Judas. Acho que os textos sagrados não se esgotam na Bíblia. A Bíblia é um território sagrado, mas há novos textos sagrados. O poema que li do Ruy Belo é um texto sagrado.

Há quase a ideia de uma estética do espiritual. Sagrado porque belo?
Pela experiencia humana. É sagrado tudo aquilo que dá a ver o ser humano no seu estremecimento. Nesta coisa que é quase original de cada um de nós nascer a cada momento. A aflição, o tumulto, a convulsão, que mesmo quando estamos quietos parece que se adivinha, e que um poema tem obrigação de mostrar nitidamente, e os poemas do Ruy Belo mostram-no.

Como um imperativo de sobressalto que serve de modelo de conduta.
Gosto muito dessa palavra sobressalto. Os cristãos estão agora a viver uma espécie de Primavera interior, que é a quaresma, em vista da Páscoa, e tenho pensado no sentido da palavra ressurreição. O verbo grego quer dizer "levantar-se", mas penso que mais do que levantar-se é um levantamento. Há uma espécie de insurreição naquele acontecimento de Jesus, que de certa forma marca o momento histórico e inaugura uma esperança, que é a possibilidade dos nossos pequenos sobressaltos, do sobressalto de cada dia, que Deus nos dá, de se transformar num grande levantamento, numa espécie de transfiguração.

Se eu preferir ficar aqui no jardim a ler um livro, em vez de ir à igreja, conseguirei esse mesmo levantamento?
Não tenho dúvidas disso. Uma das grandes questões que se põem às comunidades cristãs é justamente viverem com fé. Estes dias dei comigo a pensar nisso, o que é ter fé? É ter fé em Deus, mas é também ter fé na palavra. É acreditar que uma palavra nova, uma palavra comum, pode estar inesperadamente investida de uma força maior. Quem diz uma palavra, diz um gesto. Um cumprimento entre duas pessoas...

[Suprema ironia. Somos abordados por um pedinte. "Viemos sem carteira hoje", responde Tolentino. Quem diz a verdade não merece castigo. Continuemos.]

... pode ser muito mais do que uma rotina. Pode ser um encontro flagrante, fulgurante.

Até no silêncio há fulgor.
Até no silêncio. Os padres do deserto tinham por hábito acolherem numa hospitalidade silenciosa, quando acolhiam um amigo que não viam há muitos anos, não lhe diziam nada. Explicavam: se o meu silêncio não te acolher, a minha palavra ainda menos. Isto para dizer que há novas ritualidades. As comunidades cristãs têm que ter fé nos caminhos humanos, até para vencerem a letargia das suas próprias gramáticas. Queiramos ou não as imagens e palavras gastam-se. Os discursos envelhecem.

Falta imaginação ao quotidiano?
A vida simples, a vida pobre, é o grande módulo da invenção do mundo, da invenção verbal, da oração. Há belas orações nos tratados, que já estão codificadas. Mas há novas orações que estão a ser segredadas, construídas, talvez ainda em fragmentos, de modo inconsciente. Há um potencial de procura de Deus em cada uma das nossas buscas.

Pegando nessa ideia da busca, D. Manuel Clemente dizia que o cristianismo não é um caminho fácil, que se faça a dormir. Como é que acorda para o seu caminho, ainda na Madeira?
Inicio de uma forma muito comum, entre os grupos de amigos, na minha infância, normalíssima, tal como a adolescência. A amizade teve um papel muito importante. A experiência da fé acompanhou-me sempre, a procura do conhecimento, a escuta, marcaram sempre os meus passos.

Nasceu no seio de uma família religiosa?
Sim. A prática religiosa vem do testemunho da minha própria família. Uma das lembranças mais fortes que tenho é ver o meu pai a rezar. Isso marcou-me muito. Começamos a rezar por imitação. Os corpos rezam, são os primeiros a rezar. Pomos as mãos, colocamos o corpo numa determinada posição. Aprendi esta gestualidade num ambiente muito livre. Os meus pais são pessoas de fé, mas de uma forma não impositiva. Sobre a Madeira, há dias revi o filme da Catarina Mourão sobre a Lourdes de Castro, o "Pelas Sombras". Ela dizia que sente muita sorte por ter nascido na Madeira. Também sinto isso.
(...)

Continua a ser um bom caminhante na cidade?
São Francisco de Assis dizia que caminhar a pé é já rezar. Se for assim, já tenho rezado muito. Há itinerários de que gosto muito. O jardim das Amoreiras, Campo de Ourique. Lisboa é tão bonita e diversificada. Sempre um espanto que nos é oferecido. Nunca regressamos pelo mesmo caminho por onde partimos.

Pelo meio, tem uma agenda cultural bastante rica.
Sim. Vi duas vezes o filme "Poesia". Agora vou ao teatro. Procuro acompanhar o que me é possível.

E traz essas referências para o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que dirige. No site somos recebidos pela poesia da Adília Lopes.
É verdade. Acho que a Adília é uma das grandes escritoras espirituais do Portugal contemporâneo. Interessa-me muito o que ela escreve e pensa. A sua amizade é muito importante para mim.

Alguma vez recebeu feedback negativo de autores, que não se revêem na associação ao seu trabalho?
Não. Os retornos que tenho tido são sempre muito positivos, até pela surpresa. Há a ideia de que a Igreja não lê poesia, está desligada das artes contemporâneas, que os padres são incultos, não acompanham o mundo. De repente, não é assim. Neste processo de transformação cultural e de modelos religiosos há lugares de rarefacção da prática religiosa e novas vitalidades. O mundo actual é um laboratório fascinante.

Tal como as pessoas hoje se casam menos, mas ao fazê-lo manifestam uma fé superior a qualquer obrigação histórica, o ritual religioso, se por um lado vem decaindo, por outro não será hoje mais genuíno, para quem o segue? Ou seja, teremos menos, mas talvez melhores cristãos?
Hoje não existe a pressão social que existia há décadas. Nascia-se católico. Hoje voltamos a compreender aquilo que Tertuliano dizia. Não nascemos cristãos, tornamo-nos cristãos. A prática religiosa é uma escolha, entre outras. Isso aproxima a religião mais do desejo, do amor, da criatividade, da individualidade.

É isto que é ser hoje bom cristão?
Precisamos de duas coisas. De voltar a escutar Jesus de Nazaré, a sua palavra, a originalidade do seu discurso. Jesus não é só uma mensagem, Ele próprio é a palavra. Depois, é importante sermos crentes originais. Cada cristão sentir que não tem de repetir. A fé não é um puro movimento mimético. Hoje o espaço católico precisa de um católico que seja um bailarino, outro que pela caridade apresente um testemunho interpelador, outro porque vive no silêncio, outro porque pensa a vida.

Mesmo que nunca tenha folheado a Bíblia?
Penso que mesmo antes de folhearmos a Bíblia já a folheámos. A Bíblia ensopa a experiência de todas as nossas histórias e a experiência espiritual que o cristianismo é.

Segue daqui para o ensaio geral da peça "Morte de Judas", no Teatro da Cornucópia. Já está atrasado, aliás.
É um texto extraordinário do Paul Claudel. Um momento importante de pensamento da relação entre razão e fé, entre a profecia e a instituição, entre a liberdade de ser e o medo de ser.

Segue-se-lhe uma conversa, moderada pelo Luís Miguel Cintra. Convidam-no muito para estas discussões em volta da fé, do mundo?
Sim, a Bíblia acaba por ser um texto do mundo, um parceiro na sua construção. Nesse âmbito convidam-me muitas vezes para conversas. É sempre muito estimulante. A Bíblia é um texto muito aberto e às vezes toca-nos de modo surpreendente. Acredito no que dizia a Maria Gabriela Llansol, no encontro inesperado do universo.

Já tem planos para o resto do dia? O que vai fazer quando sair do teatro?
Vou continuar a estudar, a escrever, até à meia-noite.

Tem material para publicar em breve?
Tenho uma peça escrita, uma encomenda de Guimarães Capital Europeia da Cultura, que espero que seja apresentada. Agora estou a preparar um tema de estudo que me vai ocupar o próximo ano, sobre o comentário que o pensador italiano Giorgio Agamben faz à Carta de São Paulo aos Romanos. É um texto identitário. Ele diz que hoje a Carta atingiu um grau máximo de legibilidade, mais que em outra época, pela natureza messiânica e política.

Costuma acompanhar os desenvolvimentos políticos, pela televisão, por exemplo?
Vejo muito pouca televisão. Hoje possivelmente verei [é quarta-feira, dia em que José Sócrates, horas mais tarde, viria a apresentara sua demissão], porque a situação política é tão forte que é impossível não ter uma atenção.

Como tem seguido estes tempos de incerteza?
Sigo como todos os portugueses, com preocupação.

Quando dispensa a televisão, acompanha os seus serões de escrita com o silêncio?
Às vezes, quando estou muito cansado, o truque para continuar é colocar música de fundo, e por vezes retirar essa música e fazer silêncio.
(...)

Passando para o lado académico, e porque já falamos com o Tolentino poeta e o Tolentino sacerdote, os seus alunos na Universidade Católica também têm o dom do sobressalto? Fazem-lhe perguntas curiosas?
Faço muito o exercício de pedir às pessoas que me falem de um texto. Chama-me muito a atenção o que cada um vê. Fiz o doutoramento sobre um texto de São Lucas e pedia a amigos e desconhecidos para me darem opinião sobre o texto. Fui colhendo coisas que não via. Por isso a hermenêutica bíblica tem que ser aberta.

É habitual citar uma série de referências, de autores e das respectivas obras. Nesta entrevista não foi excepção. É uma muleta consciente?
É um sentido de comunidade. Se for uma muleta, não gosto, porque gosto de ser original. Cada um deve ter um pensamento com consciência própria, mas ao mesmo tempo é importante o testemunho do que se vive em companhia. A Adília Lopes diz: "Eu sou uma obra dos outros". Também sinto isso, por isso não me custa nada lembrar o que os outros disseram, porque também eu sou uma obra deles.
por Maria Ramos Silva, Publicado em 26 de Março de 2011
in I

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Em país muçulmano: polémica com saída do armário no Youtube

John Dugdale
Homem assume-se gay no YouTube e gera controvérsia na Malásia

Um homem de 32 anos de idade gerou polémica ao ter a ousadia de se afirmar como homossexual no YouTube.

O vídeo teve mais de 100.000 visualizações e quase 3.000 comentários desde quarta-feira, a votação vai em mais de 500 que "não gostam" e 150 que "gostam".

São pouco mais de dois minutos onde Azwan Ismail, afima "tenho 32 anos de idade. Levei muito tempo para me conhecer, reconhecer em mim um gay e, finalmente, ousar afirmar que sou um gay para outras pessoas", e onde fala dos muitos problemas que encontrou até poder chegar a este ponto, focando-se especificamente sobre as questões religiosas e culturais do país. Mas a mensagem final é de esperança: as coisas podem melhorar e vão melhorar, no espírito da campanha "It Gets Better" lançada em inglês no YouTube há uns meses atrás.

Quem não achou piada foram as autoridades religiosas do país (6 em cada 10 malaios são Islâmicos), como o Mufti (estudioso da lei islâmica) do estado de Perak, Datuk Seri Harussani Zakaria, que afirmou "Dado que ele se identificou como sendo Muçulmano e Malaio, ele não deveria ter feito tal declaração. Na realidade ele envergonhou-se a si próprio e ao Islão em geral".

Veja o vídeo (com legendagem em inglês)
http://www.youtube.com/watch?v=SJLSteQIcms&feature=player_embedded

in PortugalGay.PT

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um esboço: o amor da Amizade

A Amizade

«Mas quem é que caminha a teu lado?». Quando me reencontro com esta pergunta, trazida por um verso de T.S. Eliot, penso quase sempre nos amigos. Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. Tenho amigos dos dois tipos. Com alguns, sei que a nossa amizade se cimenta na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. Com outros, percebo que a amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar.

O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade. Na maior parte das vezes quando reconhecemos alguém como amigo, isso quer dizer que já nos ligava um património de amizade, que nos dias anteriores, nos meses anteriores, como escreveu Maurice Blanchot, «éramos amigos e não sabíamos».

Aquilo de que uma amizade vive também dá que pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas marcas tão profundas com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro dos olhares (mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas), uma qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou de uma conversa, um compromisso comum num projeto, uma qualquer ingénua alegriaA linguagem da amizade é discreta e ténue. E ao mesmo tempo é inesquecível e impressiva.

Há aquele ditado que diz: «viver sem amigos é morrer sem testemunhas». A diferença entre os conhecidos e os amigos é a mesma que distingue um ocasional espetador daquele que está habilitado a testemunhar. Este último disponibiliza-se realmente a ser presença. Se tivesse de resumir a sua natureza, apetecia-me dizer: um amigo é alguém que foi capaz de olhar, mesmo que por um segundo apenas, o fundo da nossa alma e transporta depois consigo esse segredo, da forma mais gratuita e inocente. E nós retribuímos o mesmo. Em dois ou três poemas de Adília Lopes sublinhei, há tempos, isso. No idioma da poesia de Adília, a amizade era descrita assim: «busquei o amor sem ironia». A amizade, mesmo quando nos fartamos de rir e de alegrar com os outros, é esse transparente amor.

Tenho por uma grande verdade aquilo que escreveu o filósofo Paul Ricoeur: «para ser amigo de si próprio é necessário ter já vivido uma relação de amizade com alguém».

José Tolentino Mendonça

In Diário Notícias (Madeira), publicado a 21 de Novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O que fazer quando o Menino quer ser a Cinderela?

Não gosto muito de talk shows... Contudo vi este vídeo. Foi a segunda vez esta semana que li uma história semelhante: um menino quer vestir-se de menina no Halloween e gosta de vestidos, dos objectos das raparigas e das jóias da mãe. E não estamos a falar de adolescentes, mas de crianças!

A Maria-rapaz, aquela menina que gosta de brincadeiras de rapazes, prática e desembaraçada, irrequieta, aventureira e corajosa: nada contra, nada de mais! É comum e é aceite. É, até, normal!

Porque será mais difícil aceitar que há rapazes que gostam de ficar quietos no seu canto, de brincar com bonecas, gostam das roupas e das coisas brilhantes, bonitas, coloridas e apelativas que fazem parte do universo feminino?

E o que se faz quando é o próprio filho que aparece com um vestido e diz que se quer mascarar de princesa no Carnaval?

Este vídeo é o testemunho de uma mãe, de um pai e do irmão, de uma psicóloga e de uma professora que fala da forma como a escola lidou com a situação. Não é fácil ir contra a opinião pública, não é fácil aceitar a diferença no outro.

My Princess Boy

sábado, 13 de novembro de 2010

Último "triângulo rosa" sobrevivente ao campo de concentração

Testemunho do último sobrevivente homossexual conhecido dos campos de concentração nazis


Rudolf Brazda é o último sobrevivente conhecido daqueles que foram feitos prisioneiros nos campos de concentração nazis devido à sua homossexualidade. Brazda só tornou pública a sua condição em 2008, quando participou nas cerimónias de inauguração do monumento em Berlim às vítimas homossexuais do nazismo, mas no passado mês de Outubro voltou a falar com os media sobre a sua história de perseguição, barbaridade e sobrevivência.

Brazda tinha 20 anos quando Hitler chegou ao poder e tinha vivido abertamente a sua orientação sexual, até que os nazis endureceram o infame ‘Parágrafo 175’, a lei que criminalizava a homossexualidade. A 8 de Agosto de 1942, depois de por duas vezes ter estado na prisão, foi enviado para o campo de concentração de Buchenwald, onde foi marcado com o número 7952 e um triângulo cor-de-rosa. Apesar de Buchenwald não ser um campo de extermínio, 56.000 prisioneiros dos 238.000 que foram encerrados encontraram aí a morte, executados, doentes ou de simples esgotamento de forças.

Como se isso não bastasse, os prisioneiros homossexuais tinham de suportar ainda o desprezo dos restantes condenados, ocupando o lugar mais baixo. E ainda mais terrível é o facto de, quando os aliados libertaram os campos, muitos dos prisioneiros homossexuais continuaram presos ou viram-se obrigados a guardar silêncio sobre a sua experiência, já que a homossexualidade continuava a ser penalizada em muitos países.

Depois de ter sido liberto, Brazda estabeleceu-se em França, onde conseguiu encontrar uma certa paz junto do seu parceiro durante 50 anos mas, infelizmente, nem todas as vítimas dos “Triângulos Rosa” tiveram essa sorte. Por isso Rudolf Brazda continua decidido, aos 97 anos, a difundir o testemunho do seu passado, esperando que as próximas gerações não baixem as defesas perante os sinais de intolerância. É um testemunho tanto importante como intemporal.

In Cristianos Gays traduzido por rioazur

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os santos, por onde andaram?

Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão-de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores
(porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação.
Maria de Lourdes Belchior

domingo, 7 de novembro de 2010

A Bíblia sob um olhar contemporâneo (desconhecê-la é uma forma de iliteracia)

As grandes figuras da Bíblia
Ler a Bíblia é um desafio para qualquer pessoa, letrada ou não letrada, crente ou descrente. (...)

É verdade que a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento (AT), contém textos difíceis e, muitas vezes, aparentemente imorais e escandalosos. Por causa disto é que Filão de Alexandria (do tempo de Jesus), judeu de grande cultura, que convivia paredes meias com judeus e gregos na cidade da cultura daquele tempo - Alexandria - apresentou as escrituras hebraicas a judeus e gregos através da alegoria. Com este método, o leitor não deve deixar-se prender à literalidade historicista do texto, mas à performatividade de uma outra leitura dentro do próprio texto. Os pensadores cristãos dos primeiros séculos, também chamados Padres da Igreja (séculos II-VI), bispos, teólogos e leigos, sobressaindo o grande Orígenes, usaram este método, sobretudo para a compreensão do AT, como profecia alegórica do NT (Novo Testamento). Desta forma, desapareciam todos os equívocos, contradições e escândalos do AT. (...)

Nunca é demais repetir que o mundo da Bíblia não é tarefa fácil. Foi escrito em hebraico, aramaico e grego, e em tempos culturais muito diferentes dos nossos. Até ao século XVII ninguém, no Ocidente, duvidava da Bíblia. As dúvidas e as apreciações negativas começaram com o Século das Luzes, quando se começou a ler a Bíblia como código literário ao lado das literaturas clássicas gregas e latinas e das literaturas pré-clássicas da Mesopotâmia e Egipto. Foi então que se descobriu que muito antes dos mitos da criação da Bíblia já se tinham escrito os mesmos mitos — de maneiras diferentes — em óstracos e pergaminhos na Suméria, Assíria e Egipto. Outro tanto se diga do dilúvio e de Noé, da torre de Babel, de profetas, de doutrinas sapienciais e de cânticos com salmos e com poesia, e, especialmente, de narrativas de guerra entre famílias, tribos e nações.
...

Nesta obra, procurámos escrever em escrita corrida, sem descer a muitos pormenores filológicos, culturais e históricos. A intenção é apresentar um livro que todos os leitores possam entender. Deixámos de lado as argúcias exegéticas dos grandes comentadores da Bíblia, que enchem bibliotecas e revistas da especialidade.
É facto que os católicos, ao contrário dos protestantes, lêem pouco a Bíblia, porque, na tradição da Igreja Católica, a Bíblia não é uma entidade «divina» de per se, mas um meio — o maior e absolutamente necessário entre outros — para chegarmos a Deus, à fé cristã e à compreensão da Igreja. Foi a Igreja do AT (comunidades hebraicas dirigidas por responsáveis religiosos) e do NT (comunidades cristãs, a começar por São Paulo) que escreveu a Bíblia. Nesse processo de escrita, os «escribas» judeus e cristãos refletem a tradição oral e catequética do passado (séculos no AT e três ou quatro gerações no NT, exceptuando as sete cartas autênticas de Paulo). A Igreja escreve a Bíblia e a Bíblia escreve-se nela.
(Da introdução, assinada pelo autor.)

Voltar à Bíblia
 Apesar da tradição católica predominante no nosso país, a verdade é que se colocarmos diante dos olhos dos nossos concidadãos um Gn 30,45 ou Jo 23,11 haverá mais gente a pensar que é a matrícula de um automóvel do que aqueles que reconhecerão uma citação bíblica.

Isso não quer dizer que a Bíblia não desempenhe um papel fundamental. Ela foi e é determinante para a construção da modernidade; ela está presente mesmo de forma implícita nas várias expressões da nossa cultura (veja-se, por exemplo, o título do último romance de Lobo Antunes: “Sôbolos rios que vão”) e vai ganhando inclusive novos leitorados para lá das fronteiras tradicionais.
Mas há muito a fazer para dar à Bíblia o espaço e a importância que ela tem, como livro de Fé para os crentes e como código de cultura. Desconhecer a Bíblia é uma forma de iliteracia. É desconhecer-se a si mesmo.
E eis-nos com esta nova obra do Professor Carreira das Neves: “As grandes figuras da Bíblia”. São 14 figuras selecionadas, a começar por Deus (a Bíblia é o teatro de Deus, a cena da Sua revelação, a Sua teodramática) e culmina em Jesus. Deus ocupa 25 páginas, Adão e Eva 9 págs; Moisés 21 págs, David 26, Isaías 34…e Jesus 117 páginas, isto é, mais de um terço do livro.
Há um livro de Paul Beauchamp, Cinquante Portraits Bibliques, Seuil Paris, 2000 que é referido na obra de Carreira das Neves e funciona aqui como paradigma. Mas a arte do retrato (que Beauchamp sabiamente pratica) é colher a personagem num determinado instante e buscar nessa imagem a iluminação da globalidade. Neste volume de Carreira das Neves opta-se por um caminho diferente: uma maior concentração de personagens e um tratamento poliédrico (usando com uma grande mestria as ferramentas metodológicas: desde o método histórico-crítico ao narrativo, desde as religiões comparadas aos métodos contextuais que dão uma atenção enorme à cultura, à história das mentalidade, à geografia). E sempre com uma preocupação de diálogo com o presente.
(José Tolentino Mendonça, da apresentação.)

In As grandes figuras da Bíblia, Pe. Carreira das Neves, ed. Presença

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um monumento ao Amigo

"A GAIO ÁGRIO RUFO FILHO DE SIÃO ADOPTADO COMO CIDADÃO DE ITALIA (...) MARCO CASTRÍCIO LUCANIÃO E GAIO VALÉRIO PALZÃO AO ÓPTIMO AMIGO"

Foi nas ruínas romanas de Santiago do Cacém que descobri uma lápide que me pareceu singular: trata-se de um monumento dirigido a alguém, chamado Gaio Ágrio Rufo, cujo único atributo que parece deter para receber tamanha exaltação é o facto de ser AMIGO, ou melhor, ÓPTIMO AMIGO. Não sei que tipo de amigo seria, pois sabemos que no tempo da Roma Antiga havia umas amizades mais "coloridas" do que outras e a tipologia das relações afectivas socialmente aceites era bem diversificada. Independentemente disso, é extraordinário que a Amizade tenha sido assim talhada na pedra e perpetuada no tempo. Saibamos ir erigindo monumentos de amor ao Amigo, e que este amor perdure e seja sinal vivo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um cardeal que combateu a Escravatura

Parece-me oportuno publicar este texto de Filipe d'Avillez que nos dá conta de uma Igreja que, no seu tempo, esteve lúcida em questões dos Direitos Primordiais do Ser Humano:

"A história da Cristandade está cheia de ordens religiosas curiosas e efémeras, mas poucas terão conjugado estes dois factores da mesma forma que os Frères Armés du Sahara.

Recuperando o (...) legado de ordens militares como os templários ou os hospitaleiros, os frades armados do Sahara tinham, contudo, um objectivo particularmente honroso: combater o negócio da escravatura que assolava aquela zona do continente africano.

A ordem nasce por iniciativa de um feroz anti-esclavagista e grande figura da Igreja no século XIX, o Cardeal Charles Martial Allemand Lavigerie, Arcebispo de Cartago e de Argel e Primaz de África.

Estudioso e amigo dos pobres, Lavigerie (1825-1892) apaixonou-se por África e pelo Oriente, aceitando a sé de Argel para desenvolver a sua missão de trabalhar com os mais pobres.

A necessidade de manter o equilíbrio religioso naquela colónia francesa, onde o Islão era a religião institucional, levou-o a agir de forma cautelosa, mas ainda assim foi capaz de ajudar incontáveis órfãos, que acolhia em aldeias que formava para o efeito. Nenhum seria baptizado a não ser que o pedisse ou que, sendo ainda criança, estivesse em perigo de vida, e os locais aceitaram-no sem contestação.

Os frades armados do Sahara foram criados em 1890 com o objectivo expresso de combater o negócio dos escravos, libertar os escravos que encontrassem, hospedar viajantes e auxiliar de todas as formas possíveis, inclusivamente pelo ensino, as populações locais.

Ao todo, 22 homens aceitaram o repto. Poucos para fazer uma verdadeira diferença, mas ainda assim o suficiente para que as autoridades questionassem o facto de existir no seu território aquilo que parecia ser o exército privado de um bispo. Sob pressão, a ordem foi desmantelada dois anos mais tarde.

Para a história fica mais este registo que abona em favor da Igreja no que diz respeito à luta pelos direitos humanos em África, e fotografias que ficarão para sempre no álbum dos episódios mais estranhos, e até românticos, do Cristianismo."

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Igreja deveria partir do princípio que não tem todas as respostas de antemão

A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (parte 2)
continuação do discurso de Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul)

Há que reconhecer que para um número significativo de jovens católicos, católicos adultos, padres e religiosos em todo o mundo, o modelo “restaurador” de Igreja que tem sido implementado nos últimos 30/40 anos é procurado e valorizado. Vai de encontro a uma necessidade que têm, dá-lhes uma sensação de pertencerem a algo com claros parâmetros e directrizes para a vida. Traz-lhes um sentido de segurança e clareza sobre o que é verdade e o que moralmente é certo ou errado, pois há uma estrutura de autoridade clara e forte (…) em que confiam absolutamente como sendo de origem divina.

O crescimento de grupos e organizações conservadores na Igreja nos últimos 40 anos ou mais, que atraem um grande número de adeptos, levou a um fenómeno que eu considero difícil de lidar. Uma igreja com um olhar “para dentro”, atemorizante, ou até antagónico, em relação a um mundo secular com o “perigo” concomitante do relativismo, especialmente em relação à verdade e à moralidade – frequentemente referido pelo papa Bento XVI. Uma igreja que dá uma impressão de “sair pela retaguarda”, e que confia numa autoridade forte centralizada para garantir a unidade através da uniformidade do credo e da prática perante semelhantes perigos. Há medo de, caso fosse autorizada qualquer liberdade de decisão sem supervisão e controlo, mesmo em questões menos importantes, se poder abrir a porta para a divisão e para o colapso da unidade da Igreja.

Isto acontece por uma “visão” fundamentalmente diferente na Igreja e da Igreja. Onde é que actualmente podemos encontrar os grandes líderes teológicos e pensadores do passado, como o Cardeal Frings de Colónia (Alemanha) e Alfrink de Utrecht (Holanda), e os grandes bispos profetas dos quais as vozes e testemunhos foram uma chamada de trombeta pela justiça, direitos humanos e uma comunidade global de distribuição justa – o testemunho do Arcebispo Romero de El Salvador, as vozes dos cardeais Arns e Lorscheider, e os bispos D. Hélder Câmara e Casadaliga do Brasil? Novamente, quem no mundo de hoje, “por ai”, ainda dá ouvidos, ou pelo menos aprecia ou permite ser desafiado pela liderança da Igreja na actualidade? Penso que a autoridade moral da liderança da Igreja nunca esteve tão fraca. É, portanto, importante, no meu ponto de vista, que a liderança da Igreja, ao invés de dar uma impressão do seu poder, privilégio e prestígio, deveria ser experimentada como ministério humilde, em busca conjunta com as pessoas, para discernir a resposta mais apropriada ou viável que poderia servir para complexificar as questões éticas e morais – uma liderança, portanto, que não presume ter constantemente todas as respostas.
... (continua)
ver parte 1

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

Este blogue também é teu

São benvindos os comentários, as perguntas, a partilha de reflexões e conhecimento, as ideias.

Envia o link do blogue a quem achas que poderá gostar e/ou precisar.

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Os textos e as imagens

Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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