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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

domingo, 20 de junho de 2010

Carta a um jovem católico gay

Uma carta de James Alison publicada na Concilium, uma revista internacional de teologia católica, em Janeiro de 2008. Abaixo o link da versão original (inglês) e da versão brasileira de Gentil Avelino Titton. Devido à extensão do texto limito-me a citar pequenos trechos:

«Quantas vezes dirigiram-se a você com a palavra “você” numa publicação católica? (...) Normalmente, sempre que há uma discussão sobre questões gay em publicações católicas, o estilo torna-se rapidamente duro e aparece um misterioso “eles”.»
...

«E se me oferece a oportunidade de falar a você, não em caráter oficial, mas como irmão, um irmão com um pouco de história de vida que inclui ser um homem abertamente gay. É-me dada a oportunidade de dirigir-me a você partindo do mesmo nível em que você está, como alguém que não sabe melhor que você a respeito de quem você é, e mesmo não sabe muito a respeito de quem eu sou. No entanto aconteceu algo novo. Tornou-se possível, numa publicação católica da tendência dominante, que a palavra “você” seja pronunciada de forma aberta e sem restrições, de uma forma que espero ressoe criativamente no seu íntimo, por um “eu” em cujo timbre de voz são evidentes as inflexões daquela tensão amorosa que é a seqüela de viver como um homem abertamente gay no seio da Igreja católica.»
...

«“... Mas o Deus que nos é revelado em Jesus não poderia de maneira alguma tratar essa pequena porção da humanidade que é gay e lésbica com dois pesos e duas medidas, da maneira como a Igreja chegou a fazê-lo”. Ele não poderia de maneira alguma dizer: “Eu amo você, mas só se você se tornar outra coisa”; ou: “Ame seu próximo, mas, em seu caso, não como a você mesmo e sim como se você fosse um outro”; ou: “O amor de você é por demais perigoso e destrutivo, encontre algo diferente para fazer”.»
...

«Não! Não quero pretender que ser um católico abertamente gay é algo fácil ou óbvio. Não é. Para começar, o simples fato de você querer ler uma carta como esta é um sinal de quantos obstáculos você já deve ter superado. É bem possível que você já tenha enfrentado ódio e discriminação em seu país, por parte de membros da sua família, na escola, nas mãos de legisladores ávidos de votos fáceis, através de manchetes gritantes de jornais que lhe queimam a alma, e diante das quais você fica sem palavras para se defender. E você provavelmente notou que, no melhor dos casos, a Igreja que se diz – e é – sua Santa Mãe manteve-se calada a respeito do ódio e do medo. Enquanto muitíssimas vezes seus porta-vozes ter-se-ão rebaixado ao nível dos políticos de segunda classe, vociferando ódio enquanto afirmam apoiar o amor. O simples fato de você, através e em meio e apesar de todas estas vozes odiosas, ter ouvido a voz do Pastor chamando você a fazer parte de seu rebanho já é um milagre muito maior do que você imagina, que prepara você para uma obra mais sutil e mais delicada do que aquelas vozes poderiam conceber.»
...

«Você compartilhará todo o desprezo que o mundo moderno tem pela Igreja católica pelo fato de você apegar-se firmemente à fé que recebeu – pensarão que você terá pouca coisa de valor a oferecer. E, pelo fato de ser um católico, você estará sempre a ponto de ser considerado uma espécie de traidor de qualquer projeto que seus contemporâneos procuram construir. Nenhuma surpresa nisto: isso faz parte do jogo. Mas você enfrentará alguma coisa a mais, porque será considerado uma espécie de traidor também no seio da Igreja. “Não é bem um dos nossos”. E certamente não alguém que possa representar publicamente a Igreja, ser uma parte visível do sinal que leva à salvação.»
...

«Porque, evidentemente, eu posso ter perdido o chão embaixo dos pés e caído no espaço onde não há nenhum olhar por ter-me tornado hermético em meu próprio orgulho e auto-ilusão. Neste caso, nunca encontrarei um olhar, mas irei dançar ao ritmo dessa auto-decepção, imaginando-me santo e especial enquanto a morte não chega. Ou, se estou sendo levado pelo Espírito de Deus, o lugar onde não existe nenhum olhar pode transformar-se no espaço onde sou encontrado pela atenção de Deus. E isto será experimentado por mim como um “nada” ao meu redor, e só os outros podem perceber que existe um “eu” sendo chamado ao ser por Alguém cujos olhos não posso ver, mas Ele pode ver-me, um sopro que não posso sentir e no qual no entanto estou sendo sustentado. E, evidentemente, os outros não entenderão necessariamente mais do que eu o que eles vêem vindo ao ser.»
...

«"¡Esto va para largo…!" ["Isto vai levar muito tempo!"] – era o sábio conselho que me dava um dos meus formadores, um dos meus treinadores, que além de ser gay é historiador. Ele me dizia, como eu estou dizendo a você, que o processo de ajustamento à verdade nesta esfera vai levar muito, muito tempo. E só acontecerá se pessoas como você e eu estiverem preparadas para amar o projeto (...) Aquele que por primeiro deu vida ao projeto para nós, irá infundir-nos coragem e força e esperança»
...

«Será, meu amigo, que esta oportunidade de comunicação irá se repetir? Será que é apenas um ruído no ar, será que os bloqueadores das ondas de rádio católicas conseguirão impedir ainda mais um intercâmbio aberto entre um “eu” católico e um “você” católico, que por acaso são ambos gays? Ou será que não há algum degelo no permafrost eclesiástico e a conversa se tornará muito, muito mais fácil? Seja como for, permita-me dizer a você o que descobri em meus anos de clandestinidade em território inimigo: você não está sozinho, e as promessas d’Ele são verdadeiras.»
http://www.jamesalison.co.uk/texts/eng52.html
http://www.diversidadecatolica.com.br/bibliografia_detalhes.php?id=44

Homossexualidade habitada pelo Espírito

Christian Albini, professor universitário de Ciências religiosas, católico e heterossexual, publicou o artigo "Homossexualidade: por uma antropologia inclusiva" na revista Mosaico di Pace, de maio de 2009, do qual cito uma parte. A tradução é de Benno Dischinger, em português do Brasil.

"O ponto emergente é mostrar que as homossexualidades entram nesta história da liberdade habitada pelo Espírito como possíveis variantes e não como desvios, porém como modos de exprimir a comunhão trinitária. Trata-se de narrar o vivido homossexual não enquanto uso “de-gênere” do corpo, como um ato separável da pessoa, como elemento estranho e acidental, mas enquanto entrelaçamento de corporeidade, de significados simbólicos, de dinamismos afetivos e espirituais. “Em toda reflexão teológica sobre a identidade humana é necessário manter conectados o biológico, o simbólico e o social como interpretativos do historicamente colocado. Mas, esta primeira tese não pode ser desligada da segunda tese, inevitável para uma reflexão que queira ser teológica: a relação com Deus confirma nossa identidade e vice-versa” (Stella Morra). As homossexualidades podem ser vistas, assim, como manifestações da interioridade autêntica que, numa experiência cristã, se dispõe a ser habitada pelo Espírito."
ler na íntegra em:

James Alison, teólogo católico e padre

Um amigo do blogue partilhou o nome de um teólogo que escreve sobre a homossexualidade. Tenho andado a pesquisar um pouco sobre ele e pareceu-me oportuno partilhá-lo neste blogue. Na net é possível encontrar muitos dos seus livros, estudos, conferências e palestras.

Passo a citar a entrevista de José Frota e Paulo Paixão do semanário Expresso de 29 de Março de 2008

"Ser 'gay' é como ser canhoto"
Padre e autor de diversas obras, como a recentemente publicada "Carta a um Jovem Católico 'Gay'", o britânico James Alison participou no retiro, há uma semana, promovido por católicos homossexuais.

James Alison nasceu em 1959. Tem publicadas várias obras sobre cristianismo, entre as quais estudos sobre a questão "gay" (parte delas estão disponíveis, em várias línguas, no site de James Alison, no final do texto). Alison doutorou-se na Faculdade de Teologia de Belo Horizonte, no Brasil. Pertenceu aos dominicanos entre 1981 e 1995. No sábado participou no encontro promovido pelo Riacho. Na quarta-feira, por telefone, respondeu a questões do Expresso.

Esteve recentemente em Lisboa. Com que impressão ficou das aspirações dos homossexuais católicos portugueses?
Conheci muito poucos. Foi uma visita relâmpago, num fim-de-semana de Páscoa, complicado para a agenda de muitas pessoas. Mas as aspirações parecem-me muito parecidas às de outros "gays" noutras partes do mundo. Em Portugal percebi que existe aquela situação muito típica dos países mediterrânicos: a convivência "gay" é muito tranquila. Não há muitas figuras públicas (da televisão, políticos ou médicos, por exemplo) assumidas, algo que acontece cada vez mais noutros estados. Já quanto à Igreja portuguesa, creio que existe um silêncio total.

No panorama internacional (Europa e Américas, sobretudo), as reivindicações dos movimentos portugueses são um caso isolado ou inserem-se num fenómeno emergente?
Neste momento, trata-se de uma tendência universal. Em Espanha, por exemplo, já há matrimónio civil. A Igreja espanhola gritou alto contra a situação, mas o assunto tornou-se pacífico. Quando a sociedade aceita realidades assim, o protesto eclesiástico encontra ouvidos surdos. O fenómeno dissemina-se rapidamente, sobretudo em países sul-americanos, como Brasil, México ou Colômbia. Hoje em dia, a geração que pessoas com menos de 30 anos não entende o porquê das resistências da Igreja. E sente uma angústia por causa dessa incompreensão. A reivindicação do direito de cada um dizer honestamente quem é (pois é disso que se trata) tem-se espalhado muito rapidamente.

Que mecanismos ou razões permitem aos homossexuais serem mais tolerados dentro da Igreja Católica ou melhor tratados dentro de um determinada sociedade?
A Igreja Católica não pode afastar-se da lei civil. É muito difícil na Inglaterra, por exemplo, um cardeal falar em tons de ódio contra os "gays", porque há uma legislação contra um discurso que incite ao ódio. Assim, existe uma pressão das leis civis: estas condicionam uma maior abertura ou maior repressão da Igreja Católica. O triste desta questão é que, normalmente, a Igreja Católica resiste sempre às mudanças. Em Itália, por exemplo, a situação é ligeiramente diferente...

De que forma?
Há movimentos de homossexuais muito bem estruturados, que mantêm boas relações com a Igreja local. Mesmo com bispos. É o caso do movimento "La Fonte", protegido pela diocese de Milão. De um modo geral, a não ser que um determinado bispo tenha uma grande carga ideológica na sua actuação, o que a generalidade da estrutura eclesiástica deseja é que não se faça muito barulho com o assunto. Em todos os pontos, os grupos começam a reunir-se, sejam em terreno neutro, seja em espaços de uma paróquia, autorizados por um padre mais sensível à questão. As coisas desenvolvem-se a partir daí. A cumplicidade que se gera não é meramente nos vários níveis da estrutura da Igreja; é também na sociedade. Quando as situações já são dados adquiridos, claro que há bispos que podem gritar que é heresia! Mas há outros que dizem o contrário, pois o mais importante é que as pessoas se sintam bem dentro da Igreja

Há igrejas cristãs com maior abertura e tolerância face aos homossexuais?
Nos EUA há igrejas praticamente assentes na população "gay", como a Metropolitana ou Episcopaliana. Esta (a versão norte-americana da Igreja Anglicana) tem recorrentemente grandes problemas com os anglicanos. Os episcopalianos são "gay friendly" e têm mesmo um bispo que assume a sua homossexualidade. Já nas grandes igrejas protestantes há uma dupla realidade, que mostra divergências, entre uma ala "gay friendly" e outra homofóbica. Uma igreja muito mais intolerante do que a Católica é a Ortodoxa (sobretudo nos países eslavos). Nas paradas "gay" em Moscovo, por exemplo, elementos da Igreja Ortodoxa estão ao lado de neonazis e de "skinheads", ameaçando os manifestantes. No mundo ortodoxo é importante acompanhar a evolução da Igreja grega, um país da União Europeia, a caminhar para um sentido mais "gay friendly".

Como vê a posição doutrinária da Igreja Católica nesta questão?
A doutrina, na verdade, depende totalmente da avaliação de um dado objectivo. Ou ser-se "gay" é uma patologia (um desvio da natureza); ou então é uma anomalia natural, não patológica. Até recentemente a homossexualidade era considerada um desvio, um vício, um defeito de saúde (mental ou psíquica). Só que é cada vez mais difícil sustentar esta posição. Neste quadro, os "gays" não são mais nem menos perturbadas do que outras pessoas com determinada especificidade. É como ser canhoto, por exemplo.

Mas a doutrina prevalece?
Em boa verdade, a doutrina já mudou, mesmo sem as autoridades eclesiásticas quererem, ou o reconhecerem. Perante os factos - é hoje perfeitamente claro aquilo que um homossexual é -, há muito pouco para dizer. A Igreja não pode considerar intrinsecamente perversos os actos que procedem da natureza de cada pessoa. Ora, assim os actos não podem ser descritos como objectivamente desordenados. Ao fim ao cabo, prevalece uma doutrina formal. E mesmo os porta-vozes evitam justificar os seus argumentos com as teorias oficiais.

Tem uma produção bibliográfica sobre esta questão. Na apresentação da sessão proferida em Lisboa, o Riacho escreveu: "A ideia é procurar caminhos para a construção de uma vivência católica partilhada sem entrar em rivalidade com, ou ressentimento contra, o "statu quo" eclesiástico". Concorda com esta leitura muito prudente? O pragmatismo é a única via?
Não é uma questão de cautela: é de princípio. O grande problema de muitos "gays" é ficarem com um forte ressentimento, por razões todavia compreensíveis. O ponto-chave é não se deixarem arrastar, pois é fácil encontrar nas instâncias eclesiásticas um inimigo útil. A solução passa, com efeito, pela afirmação de uma sanidade mental e psíquica. Não podemos permitir que um mal que nos é infligido domine a nossa inteligência.

sábado, 19 de junho de 2010

Conceitos à luz da homossexualidade e do desafio de ser cristão

Motivado pela criação do movimento "Mulheres XXI" (cem mulheres católicas que não se revêm no Prof. Cavaco Silva enquanto candidato de direita, face às suas "posições" relativamente a valores que consideram fundamentais - leia-se casamento homossexual), venho partilhar alguns conceitos da psicologia e sociologia que me parecem pertinentes, baseando-me em trabalhos da Prof. Doutora Gabriela Moita:

Homofobia - Embora tenha sido Kenneth Smith (1971) quem, pela primeira vez, usou o termo homofobia, é habitualmente atribuída a George Weinberg (1972) a responsabilidade pela sua popularização. Weinberg definia, então, homofobia, como o pavor em estar em espaços fechados com homossexuais. Mais tarde, em 1976, Gregory Lehne redefine o termo, passando homofobia a significar um medo irracional ou intolerância relativamente à homossexualidade. Recentemente, Colleen Logan propõe, em alternativa, a expressão "preconceito homossexual (homoprejudice)" baseando-se na definição de preconceito de Aronson, segundo o qual se trata de uma "atitude ngativa ou hostil para com um grupo distinto de pessoas, baseado em generalizações resultantes de informação correcta ou incorrecta" (Logan, 1996)

Heterossexismo - termo proposto por Stephen Morin em 1977, significando as crenças e atitudes que não atribuem o mesmo valor aos estilos de vida entre pessoas do mesmo sexo e entre pessoas de sexos diferentes. De uma forma geral, o termo é utilizado para referenciar o sistema ideológico que nega, denigre e estigmatiza qualquer forma de comportamento, identidade, relacionamento ou comunidade não heterossexual. É, ainda, usado para caracterizar os preconceitos heterossexuais contra homossexuais bem como os comportamentos baseados nestes preconceitos - surge o paralelismo entre o sentimento anti-gay e outras formas de preconceito como o racismo, o antisemitismo ou o sexismo. Um dos efeitos pragmáticos de heterossexismo é a necessidade de indivíduos homossexuais poassarem por heterossexuais. (Herek, 1996)

A estes conceitos, gostaria de contrapôr outros dois, face ao cunho católico deste blog, e aos meus desafios pessoais enquanto tal:

Caridade - É a mais nobre de todas as virtudes teologais, é ela que informa todas as outras virtudes e mede o grau de santidade. Consiste no amor sobrenatural a Deus e a todos os que Deus ama, estejam ainda neste mundo ou já tenham dele partido, sejam amigos ou inimigos. Implica o dom de si mesmo, levando a uma certa identificação com o próprio Deus. A bem-aventurança resultante deste exercício é a dos "obreiros da paz, que serão chamados filhos de Deus", e os frutos do Espírito Santo dele resultantes são o estado de caridade, a alegria e a paz.

Compaixão - Compaixão (do latim compassione) pode ser descrito como uma compreensão do estado emocional de outrem; não deve ser confundida com empatia. A compaixão frequentemente combina-se a um desejo de aliviar ou minorar o sofrimento de outro ser senciente, bem como demonstrar especial gentileza com aqueles que sofrem. A compaixão pode levar alguém a sentir empatia pelo outro. A compaixão é frequentemente caracterizada através de acções, na qual uma pessoa, agindo com espírito de compaixão, busca ajudar aqueles pelos quais se compadece. A compaixão diferencia-se de outras formas de comportamento prestativo humano no sentido de que seu foco primário é o alívio da dor e sofrimento alheios. Actos de caridade que busquem principalmente conceder benefícios em vez de aliviar a dor e o sofrimento existentes, são mais correctamente classificados como actos de altruísmo, embora, neste sentido, a compaixão possa ser vista como um subconjunto do altruísmo, sendo definida como o tipo de comportamento que busca beneficiar os outros minorando o sofrimento deles.

Quer o "Mulheres XXI", quer nós, homens e mulheres católicos e homossexuais do século XXI, temos grandes desafios a cumprir...

Morreu o nosso Nobel da literatura

Venerado por uns, mal amado por outros, figura controversa mas ímpar na literatura portuguesa.

Partilho duas palavras dele:

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa."

«As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse.»

Curta metragem de animação, baseada num texto do Saramago e narrada pelo mesmo. Talvez ajude a conhecer outra faceta deste escritor, um lado mais humano e interessado nas coisas simples da vida:
Algumas notas a propósito:
Igreja expressa pesar pela morte de José Saramago
José Saramago: da redução da Bíblia até à última fronteira
Saramago: o mais bíblico e antibíblico dos autores contemporâneos
Obra de José Saramago espelhou "condição humana", diz Igreja Católica

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O novo sagrado da arte contemporânea

Os artistas fazem novas leituras de temas de sempre. Os caminhos divergem. Introduzem-se visões críticas sociais ou políticas. Age-se directamente no conteúdo actualizando-o ou recontextualizando-o. O medium ou a forma são alterados. Escolhem-se detalhes ou aspectos da mesma forma, sublimando uma atitude mais contemplativa, selectiva, subtil ou recolectora.

Uma coisa é certa: há espaço para o Sagrado na arte.

Partilho convosco algumas pietá de artistas contemporâneos (Elisabeth Olson Wallin, Ellen Stagg).

Andy Wharol católico

Quem diria que o excêntrico Andy Wharol era católico?

É sabido que o Sagrado habita desde sempre o mundo da arte, e que não é necessário que um artista tenha fé para lidar com temas da religião. Também é sabido que Andy Wharol, o mais célebre artista da Arte Pop americana, era homossexual. O que eu desconhecia era a sua prática religiosa...

ver mais em
http://www.snpcultura.org/vol_andy_warhol.html

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A libertação sexual não foi tomada a sério pela Igreja

Entrevista Antonio Autiero
Por António Marujo
Público, 16 de Junho de 2010

O celibato deve ser discutido, a Igreja não levou a sério a revolução sexual dos anos 60 e nas questões da homossexualidade "há vivências dramáticas" e "discriminações" às quais a Igreja deve atender. Opiniões de Antonio Autiero, referência da teologia moral católica, que diz ser legítimo que, no caso dos abusos sexuais, se exija mais da Igreja.

Professor de Teologia Moral, o italiano Antonio Autiero, 62 anos, dá aulas na Universidade de Münster (está há 28 anos na Alemanha), a mesma onde o actual Papa Bento XVI ensinou entre 1963 e 66, quando era ainda o padre Joseph Ratzinger. De passagem por Lisboa, Autiero falou com o P2 sobre as questões polémicas que atravessam a Igreja Católica.

Perante os abusos sexuais de membros do clero, que deve fazer a Igreja?

Antes de mais, deve tomar consciência de que é um momento muito delicado. Nas últimas décadas, a pedofilia estendeu-se dos Estados Unidos para a Europa - a Europa germânica foi particularmente atingida. O que é novo é a vastidão do fenómeno.
Podemos ser levados a pensar que o fenómeno está tão difundido que não há sistemas educativos eclesiásticos que não estejam tocados. Isso seria também uma reacção exagerada, não documentada e não justificada. As Igrejas - começa-se a falar também de situações na Igreja Evangélica na Alemanha - têm uma rede muito difundida de instituições educativas. Apesar destes casos, o grosso do sistema ainda é portador de valores e métodos positivos.

Há 20 anos, apareceram os primeiros casos no Canadá e os bispos publicaram um documento para resolver a situação. Nos outros países não se levou a sério o problema e talvez não se tenha feito o suficiente...

Estou de acordo: o compromisso inicial da Igreja norte-americana devia produzir um efeito maior, para romper a conspiração do silêncio. Não devemos fechar os olhos à responsabilidade que a Igreja teve nas décadas passadas, por amor de outros valores e para salvaguarda de outros princípios. Mas, como instituição, a Igreja não acelerou o processo de ruptura. Antes, mesmo por inexperiência, mas sobretudo por medo e falta de capacidade profética, tornou-se cúmplice desta difusão do silêncio.

O que está em causa nesta questão? O celibato, a educação, a revolução sexual?

A revolução sexual dos anos 60 foi uma causa apontada por um bispo da Alemanha. Não tem justificação. Se quisermos ser exactos, direi até o contrário: este é o sinal de que a parte verdadeiramente positiva e sã da libertação sexual não foi tomada a sério pela Igreja.
No aspecto antropológico, a libertação sexual pertencia à cultura emancipadora dos anos 60. Tinha, na sua sã intenção, a finalidade de levar o indivíduo a dar maior importância à responsabilidade pessoal e interpessoal. Não só na própria sexualidade mas também na relação com o outro. Se tivesse sido tomada a sério, a revolução sexual teria o efeito contrário: a pedofilia é uma conduta que não toma a sério a relação, parte de um sujeito e reduz o outro a um objecto.

Há 30 ou 40 anos não havia uma consciência tão forte contra a pedofilia.

Sim, se hoje temos esta evidência, é porque quem foi vítima agora pode falar. E há também uma consciência colectiva que cresceu e que não estigmatiza a vítima. O primeiro sujeito que deve ser responsabilizado é o agressor.

O jornalista italiano Luigi Accattoli disse que, desde 1995, foram detectados mais de cinco mil casos e, desses, pouco mais de 100 são vítimas de padres. A Igreja Católica é a única sob acusação ou isto é uma desculpa para a Igreja?

Na Alemanha, em escolas de elite, também há casos deste género. Isto coloca o fenómeno num contexto mais vasto: como sociedade, devemos, antes de fazer de uma instituição o bode expiatório, compreender a vastidão da problemática. Isto não retira à Igreja a sua responsabilidade, seja numericamente, seja porque a Igreja tem de dar testemunho. É legítimo que se peça mais à Igreja.

Hans Küng escreveu que está em questão o celibato obrigatório, defendendo que há um sistema que se autoprotege. Está de acordo?

Küng distingue que nem todos os celibatários são pedófilos, nem todos os pedófilos são celibatários. Há pedofilia em contextos muito amplos, como na Internet. Aproximo-me dele na valorização dos desafios do sistema do celibato obrigatório, dos quais a Igreja está consciente: como desenvolver processos e itinerários educativos dos futuros sacerdotes, de modo a que a maturidade sexual possa ser verdadeiramente conseguida. O celibato é o contexto, não é a causa.

O cardeal Cristoph Schönborn [arcebispo de Viena] dizia que se pode debater tudo, incluindo o celibato. O arcebispo de Salzburgo repetiu a ideia, mas o Papa disse que o celibato tem características sagradas. O que fazer?

Esta contraposição não é nova, nem de hoje. Não discutir não é uma solução original, nova e actual do problema.

Então, devemos discuti-lo?

Sim.

O Vaticano II falou da consciência como o santuário íntimo de encontro do homem com Deus. Mas o discurso dominante insiste na obrigação de cumprir normas e não tanto no valor da consciência.

Isso é verdade, se tivermos em conta que a autoridade do magistério diz respeito à objectividade e à generalidade do comportamento. Mas a responsabilidade moral assume-a o sujeito perante a própria consciência, Deus e a comunidade, determinando a resposta oportuna e correcta à indicação do magistério.
Se são normas que dizem respeito à esfera individual e levam o indivíduo, de forma responsável, a dar uma resposta diferente do magistério, é uma coisa. Mas se há valores e interesses de terceiros, já não é só uma relação entre magistério e sujeito: há também uma terceira pessoa, em geral débil e desprotegida, em relação à qual o magistério joga um factor advocatório.

Quando sabemos que para redigir a encíclica Humanae Vitae [que desaconselhou os anticoncepcionais] se confrontaram dois grupos, podemos pensar que hoje a doutrina poderia ser outra.

Não o podemos negar. Isso faz perceber também o valor histórico das respostas do magistério, que não está fora da realidade e de um contexto [histórico]. Não se sabe o que aconteceria se o Papa Paulo VI tivesse dado mais espaço à opinião da maioria na Humanae Vitae.
Quer dizer que, se muda o contexto, devo perguntar se a resposta é ainda válida. Há uma continuidade da doutrina que acaba por não ter em consideração [o que as pessoas pensam], que já não está a chegar às pessoas.

A oposição da Igreja ao aborto terá sido um dos factores que levaram outros sectores a defenderem leis mais liberais. Se a Igreja admitisse que as pessoas decidissem em dadas situações, essa posição não seria mais aceite pela sociedade do que estando sempre contra?

O problema é que, retendo o princípio fundamental de que o respeito pela vida é imutável e considerando que a missão da Igreja é "proclamar a verdade dos princípios" seja qual for o efeito, a Igreja não tem em conta as situações concretas e não leva a sério a verdade e autenticidade das pessoas e comunidades que sofrem determinadas situações. Há um afastamento entre os princípios - que não fazem mal a ninguém, mas não fazem bem à comunidade - e as pessoas, que não se reconhecem na palavra da Igreja.

E o resultado?

O efeito último é que, do ponto de vista estratégico, para querer "salvar tudo", acaba-se por não recuperar sequer a parte possível da criação de consenso e de mobilização da responsabilidade.
A Igreja e a sociedade civil (através de expressões de consenso democrático, como o Parlamento) confrontam-se sobre temas como este. Mas as finalidades são diferentes: a Igreja fala para promover uma "mensagem moral". O Estado não deve falar para promover uma mensagem moral. De outro modo, cairíamos numa concepção do Estado como fonte de moralidade.

Então, à luz da teologia moral, é legítima uma lei diferente da posição da Igreja?

Eu diria algo intermédio: nem tudo o que é ético deve passar no condensado de uma formulação jurídica. A finalidade desta, e do Estado que faz leis, está em sintonia, mas não coincide com a finalidade da Igreja. Isto vale para as duas partes: o Estado não pode ser fonte de moralidade, a Igreja não pode ser fonte de legislação civil. Se não, teríamos o Estado ético, que leva às ditaduras, ou a teocracia, que também sabemos a que conduz.
O Estado tem a finalidade da paz social, a Igreja tem a finalidade da salvação. Numa situação de pluralismo de visões religiosas, culturais e éticas, o Estado deve encontrar, de preferência com sabedoria, a visão que, na feitura das leis, tenha em conta essa pluralidade.

Diria o mesmo sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo ou da investigação genética?

No caso das uniões de pessoas do mesmo sexo, há vivências dramáticas. Tem de se ter em conta a história de discriminações. Uma cultura cujo único modelo é o matrimónio heterossexual exclui do gozo de outros direitos pessoas que poderiam ser incluídas, mesmo sem colocar em perigo o instituto do matrimónio.
Isto vale também para a pesquisa genética ou as células estaminais: deve ter-se em consideração as expectativas da comunidade e as situações dolorosas ou as expectativas de terapia que, de outro modo, não seriam tratadas.
Devemos ter o critério geral de uma maior atenção - da ética, da teologia, do magistério, da comunidade - perante as pessoas em estado de debilidade e fragilidade. Isto é típico da mensagem cristã. A história que a caridade cristã escreveu passa hoje por curvar-se [perante as pessoas] de forma não ideológica nem arrogante, mas de escuta real.

Faz falta essa atitude?

Penso que sim, não tanto na Igreja. A cultura em geral sofre desta falta, perante as situações dolorosas. Penso em governos que estão contra a imigração de cidadãos que provêm de outras partes. Há tantos sinais... Gostaria que a Igreja tivesse um grito profético e se colocasse ao lado dos que vivem verdadeiramente o drama e querem que apareça uma palavra clara e pública.

http://jornal.publico.pt/noticia/16-06-2010/a-libertacao-sexual-nao-foi-tomada-a-serio-pela-igreja-19522928.htm

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O rinoceronte e o contratenor

Vasco Araújo e Javier Telles, um português o outro venezuelano, dois nomes da arte contemporânea. Uma exposição que ocupa vários espaços da Fundação Gulbenkian em Lisboa. Chamo a atenção sobre dois trabalhos no edifício sede da Gulbenkian

far de Donna é um vídeo de Vasco Araújo.
"Fazer de Mulher, é baseado na história de um rapaz que descobre a sua voz de contra-tenor no dia em que a sua mãe perdeu a sua própria voz. A peça é então sobre as relaçóes edipianas entre mães e filhos, que em grande parte dos casos ninguém morre mas algo fica efectado no ser interno de cada um."
in Vasco Araujo website
É um trabalho em que é impossível ignorar a força dos contrastes e ambiguidades - voz/mudez, som/gesto, corpo/timbre, recolhimento/exposição, casa/palco - e em que a música e a narrativa se entrelaçam numa cumplicidade bem urdida.

O rinoceronte de Dürer é um filme digital de Javier Telles, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian - CAM. É a viagem de um rinoceronte embalsamado pelo panóptico do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, um espaço arquitectónico ímpar outrora ala de segurança máxima. E são as vivências dos habitantes das celas - note-se o contributo extraordinário do grupo de artistas/pacientes do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos com quem Javier trabalhou. Como ponto de partida temos o desenho técnico de Dürer a partir da descrição de um rinoceronte, sem nunca ter visto um "exemplar". Este rinoceronte terá sido oferecido pelo rei português D. Manuel ao Papa.
"O meu objectivo é fazer com que as pessoas questionem a noção de normalidade. Como artista quero também dar visibilidade àqueles que estão condenados pela sociedade à invisibilidade"

É imperativo assistir ao filme inteiro para poder nele entrar. Aconselho a visita em dias com pouca afluência, para uma experiência mais íntima com este trabalho. A dimensão psicológica e a beleza de cada homem e de cada mulher marcam este filme cadenciado. É um objecto de uma beleza rara.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

No início...a benção original

Apesar de alguns sinais de mudança na sociedade e na nossa Igreja, as vozes dissonantes (na sociedade e na nossa Igreja) muitas vezes conseguem convencer-nos de que a nossa identidade sexual é errada, uma perversão, uma maldição que temos de "carregar" o resto dos nossos dias...a forma como olhamos a nossa identidade sexual (benção ou pecado, perversão ou graça) influenciará a forma como me aceito, me relaciono com os outros, com o mundo que me rodeia e com Deus... gostava de vos trazer esta perspectiva (profundamente também psicológica, pois conduz à aceitação e à abertura) do teólogo Pierre Stutz:



"No início
não foi o pecado original
mas a benção original
pois é decisivo
se é um mais ou um menos
o que deu origem à minha vida.
No início
é-te prometido
que és abençoado
na tua identidade
na tua força de relação
na tua fragilidade
na tua ligação à criação.
No início
Deus deixa as suas cores de vida em ti
para que a vida seja colorida
para que a corrente da vida flua
para que a tua transparência se mantenha
para que as janelas do céu se abram."

"No início" de Pierre Stutz (baseado em Gen, 24b-25)

terça-feira, 8 de junho de 2010

A coragem de aceitar ser aceite

Uma das maiores necessidades do coração humano é a de ser aceite. Podemos dizer que todo o ser humano quer ser amado. Mas isso é ambíguo. Há tantas variedade de amor quantas espécies de flores. Para alguns o amor é apaixonado, para outros, romântico, e ainda para outros, simplesmente sexual. Há, no entanto, um amor mais profundo, o amor de aceitação. Todo o ser humano deseja ardentemente ser aceite, ser aceite tal como é. Nada na vida tem um efeito tão durável e tão devastador como a experiência de não ser completamente aceite.


Só quando sou amado, no sentido profundo da aceitação total, é que eu posso vir a ser eu mesmo. O amor e a aceitação dos outros fazem de mim a pessoa única que eu estou destinada a ser. Aceitar uma pessoa não significa negar os seus defeitos, antes pelo contrário. Somente quando aceito alguém é que passo verdadeiramente a admitir os seus defeitos.

Deus aceita-me tal como sou – e não como deveria ser. Disseram-nos a importância de amar a Deus. É verdade. Mas é bem mais importante o facto de que Deus nos ama. O nosso amor por Deus é secundário. O amor de Deus por nós vem primeiro: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos Deus, foi ele que nos amou.” (1 Jo, 4, 10)

Na noite que precedeu a Sua morte, Jesus reza ao pai pelos seus. “Tu os amaste como me amaste a mim (…) Eu te peço que o amor com me amaste esteja neles (Jo 17, 23-26). Parece inacreditável que Deus nos ame tanto quanto ama o seu filho, Jesus Cristo. É o que diz a Escritura.

Nós estamos divididos no nosso amor. Deus não pode amar senão totalmente (a 100%). Nós experimentamos o amor, mas Deus é amor.

A fé fundamental é o “amor que Deus tem por todos e cada um de nós”. Assim, a aceitação de si próprio é também um acto de fé, é aceitar ser incondicionalmente aceite por Deus.


Piet van Breemen, SJ

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cristiano Ronaldo a favor do casamento gay

Pode ser oportunismo ou querer estar na moda, mas a verdade é que Cristiano Ronaldo declarou estar a favor do casamento entre homossexuais. O que parece de facto importante é a novidade desta afirmação num contexto como o futebol, um mundo normalmente homofóbico e machista. Quaisquer que sejam as motivações de Cristiano Ronaldo, parece-me ter sido um passo importante, mesmo que inconsciente, para a mudança de mentalidades e um passo de gigante, por saber que tudo o que diz respeito ao futebol chega a muita gente.

Abaixo transcrevo a notícia em italiano que um amigo nos fez chegar:

L'attaccante del Real Madrid si schiera a favore dei matrimoni omosessuali: "Tutti i cittadini dovrebbero avere gli stessi diritti e responsabilità".

In risposta alla recente legge varata a favore dei matrimoni gay in Portogallo, il calciatore Cristiano Ronaldo ha rilasciato una dichiarazione al quotidiano portoghese Público, in supporto alla decisione presa dal presidente Anibal Cavaco Silva.

Nell'intervista l'attaccante del Real Madrid ha dichiarato: "Sono un uomo portoghese, e in qualità di cittadino cerco di tenermi informato su quanto accade nel mio Paese. So che la legge è stata approvata e il commento che merita è che dobbiamo rispettare le scelte fatte da chiunque, poiché, dopo tutto, tutti i cittadini dovrebbero avere le stesse identiche responsabilità e diritti".

Con questa affermazione il mondo del calcio può tirare una boccata d'aria fresca proveniente da uno dei migliori giocatori di uno sport, quello del calcio, non particolarmente noto per la tolleranza e il rispetto verso i gay. Basti solo pensare al polverone sollevato qualche settimana fa dai media, sulla vicenda Ibrahimovic e Piquè.

A frescura das descrições

"Eu sou o Amor" é um filme fresco de Verão. A história não é profunda, as interpretações não são brilhantes (com a excepção de Tilda Swinton). Mas é um filme belíssimo que nos introduz nos rituais do mundo abastado da elite milanesa. É um filme de gestos e de detalhes. É um filme que nos enche a retina e que nos apazigua nas descrições como um refresco a meio do calor da tarde.

Eu Sou o Amor
Título original: Io Sono l'Amore
De: Luca Guadagnino
Com: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini
Género: Drama
Classificação: M/12
ITA, 2009, Cores, 120 min.

Argumento (in cinecartaz, público):
Emma (Tilda Swinton), é a matriarca da família Recchi, uma abastada família milanesa, há várias gerações ligada à indústria têxtil. Cada um dos membros do clã tem o seu papel definido e nada parece perturbar a paz e a união familiar. Porém, quando conhece Antonio (Edoardo Gabbriellini), um talentoso "chef" de cozinha, toda a existência de Emma se altera. Entre eles nasce uma paixão sem limites e ela descobre uma oportunidade de descobrir um novo mundo de emancipação emocional e sexual que a irá despertar para uma nova maneira de encarar a vida. Agora, para provarem o seu amor, ambos terão de encontrar, dentro de si, a coragem necessária para enfrentar a sociedade e as velhas tradições.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Identidade sexual...o que é, e o que não é!

Depois de a lei que possibilita o casamento homossexual ter sido promulgada ontem pelo Presidente da República, penso ser importante esclarecer o que é a identidade sexual... para tal sugiro um trecho de um artigo científico acerca desta temática. Muito preconceito emerge da ignorância, outro do medo e fragilidade interior...neste espaço, apenas podemos trabalhar o primeiro factor. Estou disponível para quaisquer dúvidas e/ou comentários.

O desenvolvimento da identidade sexual pode ser encarado em três dimensões: a identidade de género, os papéis sexuais e a orientação sexual. A identidade de género – o primeiro componente da identidade sexual – desenvolve-se entre o nascimento e os três anos de idade, e Green define-a como “a convicção básica do indivíduo acerca do seu sexo biológico” (Green, 1974; cit in Shively & De Cecco, 1993: 81). Nem sempre é congruente com o sexo biológico visível, pois ocasionalmente alguns rapazes têm a convicção de serem raparigas e vice-versa. Sabemos que, enquanto na identidade de género há um processo de auto-identificação, na identidade biológica há uma identificação pelos próprios indivíduos e pelos outros (Shively & De Cecco, 1993).

Na formação da identidade sexual, o segundo componente a desenvolver-se são os papéis sociais e sexuais, ou seja, as características culturalmente associadas com ser homem ou mulher – que através dos estereótipos são percepcionados como as características masculinas ou femininas. Os papéis sociais estão muito associados à aparência, aos comportamentos, a aspectos de personalidade e ao que é esperado que uma pessoa pareça, aja ou se comporte, segundo determinadas normas culturais. Os papéis sexuais associam-se por sua vez, ao que se espera de uma “menina-menino”, evoluindo ao longo da vida, consoante as circunstâncias sociais. O desenvolvimento destes aspectos encontra as suas bases a partir dos três anos, até cerca dos sete anos de idade, no entanto, não são processos estáveis e definitivos, pois a abertura cultural à diversidade possibilita hoje muitas mais flutuações no modo como as pessoas se identificam a si mesmas e as categorias que utilizam e que metamorfizam ao longo do tempo. Assim, a identidade de género é a vivência privada do papel social e o papel social é a expressão pública da identidade de género (Money & Erhardt, 1972; Gomes & Marques, no prelo). Podemos encarar a identidade de género como um contínuo de masculinidade e feminilidade, como duas faces da mesma moeda (DeCecco et al., 1975; cit in Shively & De Cecco, 1993) ou como dois contínuos, um de presença ou ausência de masculinidade e outro paralelo de feminilidade. Fausto-Sterling (1993) considera as categorias de masculino e feminino demasiado rígidas em relação à realidade humana e às possíveis variações da vida biológica humana, como os exemplos de intersexualidade, que apresentam uma variedade impressionante de cromossomas, hormonas e características genitais masculinas e femininas. Esta autora, que tem muito apoio e reconhecimento pelos movimentos activistas, gerou alguma controvérsia no mundo científico, pois rejeita a própria existência do género. O terceiro componente da identidade sexual é a orientação sexual – a preferência por parceiros do sexo oposto, do mesmo sexo ou por ambos os sexos – que pode ser vista como tendo pelo menos dois aspectos essenciais: a preferência física sexual e a preferência afectiva. Há perspectivas bipolares da orientação sexual, de heterossexual a homossexual, ou ainda mais idiossincráticas e focadas na variabilidade da biologia à cultura, como defende Fausto-Sterling (1999). Milton Diamond, um médico que se dedicou a investigar a identidade de género, afirma que a orientação sexual engloba várias dimensões da identidade sexual, identidade de género e papéis sociais, sendo as categorias de homossexual, heterossexual ou bissexual mais adequadas como adjectivos que como nomes, pois referem-se apenas ao sexo do parceiro com que uma pessoa prefere em termos eróticos, amorosos, afectivos e também com quem deseja ter comportamentos sexuais (Diamond, 2002). Uma outra autora que se tem debruçado sobre a orientação sexual, Lisa Diamond, tem contestado o modo de estudar a sexualidade, particularmente a feminina, por se encarar a orientação sexual como a predisposição para experienciar atracção sexual por pessoas do mesmo sexo, do sexo oposto ou por ambos; enquanto a identidade sexual é encarada como um auto-conceito que o sujeito organiza à volta desta disposição – a primeira com um desenvolvimento precoce, e a segunda a desenvolver-se desde a adolescência ou início da idade adulta, variando com o contexto social, histórico e cultural (Diamond, 2000). A fluidez na identidade sexual demonstra-se na quantidade de mudanças longitudinais na identidade sexual, nas atracções e nos comportamentos, nas categorias de orientação sexual, em diferentes circunstâncias, com as atracções sexuais a demonstrarem mudanças frequentes. Ter comportamentos ou atracções homossexuais não significará necessariamente ter uma identidade homossexual, pois os comportamentos e atracções são vividos pelo próprio como relativos às relações sexuais com parceiros do mesmo sexo, enquanto a identidade se relaciona com ver-se a si mesmo como homossexual (Davies & Neal, 1996). A importância de diferenciar os comportamentos da identidade, advém da compreensão geral da população e das vivências pessoais em relação à homossexualidade: a maioria das pessoas não descreve a sua sexualidade de modo congruente com o seu comportamento e fantasias. Albuquerque afirma que para se usar o termo homossexual, a orientação sexual tem de estar presente de um modo estável e duradouro (Albuquerque, 2006).

Flutuações e diferenças de género no desenvolvimento da orientação sexual:
Perspectivas teóricas
Joana Almeida e Ana Alexandra Carvalheira
Análise Psicológica (2007), 3 (XXV): 343-350

sexta-feira, 14 de maio de 2010

É arriscado escrever sobre estas coisas. Não estão na moda!


Em relação aos escândalos da pedofilia na Igreja e à mensagem que publiquei "Atirar a primeira pedra", gostaria de salientar a atitude de grande coragem de Bento XVI ao afirmar (no avião, a caminho de Portugal, dirigindo-se aos jornalistas) que o grande inimigo está dentro da Igreja, e não fora dela: é o pecado no seio da Igreja. É este pecado que mancha a Santidade de Cristo e da sua Igreja. Parece-me extraordinária esta conclusão do Papa.

De facto, a hierarquia da Igreja e alguns fiéis gastam muita energia em tentar encontrar inimigos e diabos à espreita em cada esquina. Bento XVI procurou pôr as coisas no sítio e deixou uma mensagem clara a desincentivar estas atitudes de recusa da realidade, de "mania da perseguição", de auto-comiseração. Enquanto crentes e fiéis, não nos devemos tornar numa espécie de "Calimero".

Enfrentar com coragem e com garra não significa nem atacar nem armarmo-nos até aos dentes, nem sequer usar coletes à prova-de-bala. Devemos ter o peito a descoberto, o coração bem aberto e tratarmos das nossas próprias feridas - o que arde cura! - para que a nossa carne não apodreça nem o coração se torne de pedra. Enfrentar com coragem e com garra é confrontarmo-nos com o que somos e procurarmos ser melhores. Se fossemos santos, se velássemos pela transparência da nossa imagem, nada teríamos a esconder e nada poderia escandalizar.

O título da mensagem é o do artigo do Público, da autoria de José Manuel Fernandes, que se encontra aqui em baixo:

"Não sou crente. Educado na fé católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir os chamados "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica. Até porque não sei se, como escreveu António Marujo neste jornal - no texto mais informado publicado sobre o tema em jornais portugueses -, estamos ou não perante "A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos".

Tendo porém a concordar com um outro agnóstico, Marcello Pera, filósofo e membro do Senado italiano, que escreveu no Corriere della Sera que se, sob o comunismo e o nazismo, "a destruição da religião comportou a destruição da razão", a guerra hoje aberta visa de novo a destruição da religião e isso "não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie". Por isso acho importante contrariar muitas das ideias feitas que têm marcado um debate inquinado por muita informação errada ou manipulada.

Vale por isso a pena começar por tentar saber se o problema da pedofilia e dos abusos sexuais - um problema cuja gravidade ninguém contesta, ocorram num colégio católico, na Casa Pia ou na residência de um embaixador - tem uma incidência especial em instituições da Igreja Católica. Os dados disponíveis não indicam que tenha: de acordo com os dados recolhidos por Thomas Plante, professor nas universidades de Stanford e Santa Clara, a ocorrência de relações sexuais com menores de 18 anos entre o clero do sexo masculino é, em proporção, metade da registada entre os homens adultos. É mesmo assim um crime imenso, pois não deveria existir um só caso, mas permite perceber que o problema não só não é mais frequente nas instituições católicas, como até é menos comum. Tem é muito mais visibilidade ao atingir instituições católicas.

Uma segunda questão muito discutida é a de saber se existe uma relação entre o celibato e a ocorrência de abusos sexuais. Também aqui não só a evidência é a contrária - a esmagadora maioria dos abusos é praticada por familiares próximos das vítimas - como o tema do celibato é, antes do mais, um tema da Igreja e de quem o escolhe. Não existiu sempre como norma na Igreja de Roma e hoje esta aceita excepções (no clero do Oriente e entre os anglicanos convertidos). Pode ser que a norma mude um dia, mas provavelmente ninguém melhor do que o actual Papa para avaliar se esse momento é chegado - até porque talvez ninguém, no seio da Igreja Católica, tenha dedicado tanta atenção ao tema dos abusos sexuais e feito mudar tanta coisa como Bento XVI.

Se algo choca na forma como têm vindo a ser noticiados estes "escândalos" é o modo como, incluindo no New York Times, se tem procurado atingir o Papa. Não tenho espaço, nem é relevante para esta discussão, para explicar as múltiplas deturpações e/ou omissões que têm permitido dirigir as setas das críticas contra Bento XVI, mas não posso deixar de recordar o que ele, primeiro como cardeal Ratzinger e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois como sucessor de João Paulo II, já fez neste domínio.

Até ao final do século XX o Vaticano não tinha qualquer responsabilidade no julgamento e punição dos padres acusados de abusos sexuais (e não apenas de pedofilia). A partir de 2001, por influência de Ratzinger, o Papa João Paulo II assinou um decreto - Motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela - de acordo com o qual todos os casos detectados passaram a ter de ser comunicados à Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger enfrentou então muitas oposições, pois passou a tratar de forma muito mais expedita casos que, de acordo com instruções datadas de 1962, exigiam processos muito morosos. A nova política da Congregação para a Doutrina da Fé passou a ser a de considerar que era mais importante agir rapidamente do que preservar os formalismos legais da Igreja, o que lhe permitiu encerrar administrativamente 60 por cento dos casos e adoptar uma linha de "tolerância zero".

Depois, mal foi eleito Papa, Bento XVI continuou a agir com rapidez e, entre as suas primeiras decisões, há que assinalar a tomada de medidas disciplinares contra dois altos responsáveis que, há décadas, as conseguiam iludir por terem "protectores" nas altas esferas do Vaticano. A seguir escolheu os Estados Unidos - um dos países onde os casos de abusos cometidos por padres haviam atingido maiores proporções - para uma das suas primeiras deslocações ao estrangeiro e, aí (tal como, depois, na Austrália), tornou-se no primeiro chefe da Igreja de Roma a receber pessoalmente vítimas de abusos sexuais. Nessa visita não evitou o tema e referiu-se-lhe cinco vezes nas suas diferentes orações e discursos.

Agora, na carta que escreveu aos cristãos irlandeses, não só não se limitou a pedir perdão, como definiu claramente o comportamento dos abusadores como "um crime" e não apenas como "um pecado", ao contrário do que alguns têm escrito por Portugal. Ao aceitar a resignação do máximo responsável pela Igreja da Irlanda também deu outro importante sinal: a dureza com que o antigo responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé passou a tratar os abusadores tem agora correspondência na dureza com que o Papa trata a hierarquia que não soube tratar do problema e pôr cobro aos crimes.

De facto - e este aspecto é muito importante - a ocorrência destes casos de abusos sexuais obriga à tomada de medidas pelos diferentes episcopados. Quando isso acontece, a situação muda radicalmente. Nos Estados Unidos, país onde primeiro se conheceu a dimensão do problema, a Conferência de Dallas de 2002 adoptou uma "Carta para a Protecção de Menores de Abuso Sexual" que levaria à expulsão de 700 padres. No Reino Unido, na sequência do Relatório Nolan (2001), acabou-se de vez com a prática de tratar estes assuntos apenas no interior da Igreja, passando a ser obrigatório dar deles conta às autoridades judiciais. A partir de então, como notava esta semana, no The Times, William Rees-Mogg, a Igreja de Inglaterra e de Gales "optou pela reforma, pela abertura e pela perseguição dos abusadores em vez de persistir no segredo, na ocultação e na transferência de paróquia dos incriminados".

Bento XVI, que não despertou para este problema nas últimas semanas, não deverá precipitar decisões por causa desta polémica. No passado domingo, durante as cerimónias do Domingo de Ramos, pediu aos crentes para não se deixarem intimidar pelos "murmúrios da opinião dominante", e é natural que o tenha feito: se a Igreja tivesse deixado que a sua vida bimilenar fosse guiada pelo sentido volátil dos ventos há muito que teria desaparecido.

Ao mesmo tempo, como assinalava John L. Allen, jornalista do National Catholic Reporter, em coluna de opinião no New York Times, "para todos os que conhecem a experiência recente do Vaticano nesta matéria, Bento XVI não é parte do problema, antes poderá ser boa parte da solução".

Uma demonstração disso mesmo pode ser encontrada na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 25 de Dezembro de 2005, ano em que foi eleito. Boa parte dela ocupa-se da reconciliação, digamos assim, entre as concepções de "eros", o termo grego para êxtase sexual, e de "ágape", a palavra que o cristianismo adoptou para designar o amor entre homem e mulher. Se, como referia António Marujo na sua análise, o teólogo Hans Küng considera que existe uma "relação crispada" entre catolicismo e sexualidade, essa encíclica, ao recuperar o valor do "eros", mostra que Bento XVI conhece o mundo que pisa.

Por isso eu, que nem sou crente, fui informar-me sobre os casos e sobre a doutrina e escrevi este texto que, nos dias inflamados que correm, se arrisca a atrair muita pedrada. Ela que venha."

Encontro com as Organizações da Pastoral Social: Discurso do Papa Bento XVI

Igreja da SS.ma Trindade - Fátima Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Queridos irmãos e amigos,
Ouvistes Jesus dizer: «Vai e faz o mesmo» (Lc 10, 37). Recomenda-nos que façamos nosso o estilo do bom samaritano, cujo exemplo acaba de ser proclamado, ao aproximar-nos das situações carentes de ajuda fraterna. E qual é esse estilo? «É "um coração que vê". Este coração vê onde há necessidade de amor e actua em consequência» (Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31). Assim fez o bom samaritano. Jesus não se limita a recomendar; como ensinam os Santos Padres, o Bom Samaritano é Ele, que Se faz próximo de todos os homens e «derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança» (Missal Romano, Prefácio Comum VIII) e os conduz à estalagem, que é a Igreja, onde os faz tratar, confiando-os aos seus ministros e pagando pessoalmente de antemão pela cura. «Vai e faz o mesmo»! O amor incondicionado de Jesus que nos curou há-de converter-se em amor entregue gratuita e generosamente, através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom samaritano.

É com grande alegria que me encontro convosco neste lugar bendito que Deus escolheu para recordar à humanidade, através de Nossa Senhora, os seus desígnios de amor misericordioso. Saúdo com grande amizade cada pessoa aqui presente e as entidades a que pertencem, na diversidade de rostos unidos na reflexão das questões sociais e sobretudo na prática da compaixão, voltada para os pobres, os doentes, os presos, os sós e desamparados, as pessoas com deficiência, as crianças e os idosos, os migrantes, os desempregados e os sujeitos a carências que lhes perturbam a dignidade de pessoas livres. Obrigado, Dom Carlos Azevedo, pelo preito de união e fidelidade à Igreja e ao Papa que prestou tanto da parte desta assembleia da caridade como da Comissão Episcopal de Pastoral Social a que preside e que não cessa de estimular esta imensa sementeira de bem-fazer em Portugal inteiro. Cientes, como Igreja, de não poderdes dar soluções práticas a todos os problemas concretos, mas despojados de qualquer tipo de poder, determinados ao serviço do bem comum, estais prontos a ajudar e a oferecer os meios de salvação a todos.

Queridos irmãos e irmãs que operais no vasto mundo da caridade, «Cristo ensina-nos que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8) e simultaneamente ensina-nos que a lei fundamental da perfeição humana e, consequentemente, também da transformação do mundo é o novo mandamento do amor. Portanto aqueles que crêem na caridade divina têm a certeza d’Ele que a estrada da caridade está aberta a todos os homens» (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 38). O cenário actual da história é de crise sócio-económica, cultural e espiritual, pondo em evidência a oportunidade de um discernimento orientado pela proposta criativa da mensagem social da Igreja. O estudo da sua doutrina social, que assume como principal força e princípio a caridade, permitirá marcar um processo de desenvolvimento humano integral que adquira profundidade de coração e alcance maior humanização da sociedade (cf. Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 20). Não se trata de puro conhecimento intelectual, mas de uma sabedoria que dê sabor e tempero, ofereça criatividade às vias cognoscitivas e operativas para enfrentar tão ampla e complexa crise. Que as instituições da Igreja, unidas a todas as organizações não eclesiais, melhorem as suas capacidades de conhecimento e orientações para uma nova e grandiosa dinâmica que conduza para «aquela civilização do amor, cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura» (Ibid., 33).

Na sua dimensão social e política, esta diaconia da caridade é própria dos leigos, chamados a promover organicamente o bem comum, a justiça e a configurar rectamente a vida social (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 29). Consta das vossas conclusões pastorais, resultantes de reflexões recentes, formar uma nova geração de líderes servidores. A atracção de novos agentes leigos para este campo pastoral merecerá certamente especial cuidado dos pastores, atentos ao futuro. Quem aprende de Deus Amor será inevitavelmente pessoa para os outros. Realmente, «o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro» (Bento XVI, Enc. Spe salvi, 28). Unidos a Cristo na sua consagração ao Pai, somos tomados pela sua compaixão pelas multidões que pedem justiça e solidariedade e, como o bom samaritano da parábola, esforçamo-nos por dar respostas concretas e generosas.

Muitas vezes, porém, não é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual com a acção apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar, os nossos projectos e as perspectivas do nosso serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da esperança cristã que os tinha suscitado. Os pedidos numerosos e prementes de ajuda e amparo que nos dirigem os pobres e marginalizados da sociedade impelem-nos a buscar soluções que estejam na lógica da eficácia, do efeito visível e da publicidade. E todavia a referida síntese é absolutamente necessária para poderdes, amados irmãos, servir Cristo na humanidade que vos espera. Neste mundo dividido, impõe-se a todos uma profunda e autêntica unidade de coração, de espírito e de acção.

No meio de tantas instituições sociais que servem o bem comum, próximas de populações carenciadas, contam-se as da Igreja Católica. Importa que seja clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus objectivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de actuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam. Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à actividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31 b), ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins comuns.

As vossas actividades assistenciais, educativas ou caritativas sejam completadas com projectos de liberdade que promovam o ser humano, na busca da fraternidade universal.
Aqui se situa o urgente empenhamento dos cristãos na defesa dos direitos humanos, preocupados com a totalidade da pessoa humana nas suas diversas dimensões. Exprimo profundo apreço a todas aquelas iniciativas sociais e pastorais que procuram lutar contra os mecanismos sócio-económicos e culturais que levam ao aborto e que têm em vista a defesa da vida e a reconciliação e cura das pessoas feridas pelo drama do aborto. As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família, fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum. Tais iniciativas constituem, juntamente com muitas outras formas de compromisso, elementos essenciais para a construção da civilização do amor.

Tudo isto bem se enquadra na mensagem de Nossa Senhora que ressoa neste lugar: a penitência, a oração, o perdão que visa a conversão dos corações. Esta é a estrada para se construir a referida civilização do amor, cujas sementes Deus lançou no coração de todo o homem e que a fé em Cristo Salvador faz germinar.
http://www.bentoxviportugal.pt/ficheiros/file/bentoxvi_pastoral_social_portugues.pdf

Encontro com o mundo da Cultura: Discurso da Papa Bento XVI

Centro Cultural de Belém - Lisboa Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Venerados Irmãos no Episcopado,
Distintas Autoridades,
Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte,
Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.
http://www.bentoxviportugal.pt/ficheiros/file/Bentoxvi_cultura_portugues.pdf

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Bento XVI e o mundo da cultura

Ontem foi o dia escolhido pelo Papa para um encontro com o mundo da cultura. O CCB encheu-se com pessoas ligadas às diferentes áreas da cultura (ciência, literatura e arte), mas também com muitos membros do clero que quiseram aproveitar mais esta oportunidade para estar com Bento XVI. No palco do grande auditório, uma fileira de cadeiras sob o fundo de cores quentes e traços azuis - os desenhos de Pedro Calapez que se encontram gravados nas portas da nova basílica de Fátima - ; parecia tratar-se de um cenário para uma performance contemporânea ou uma gravura do século XIX que ganhara vida. O ambiente era de sobriedade e de alguma expectativa.

O encontro foi aberto pelas palavras de D. Manuel Clemente que se sucederam à entrada do Papa e ao aplauso da plateia. Momentos musicais interpretados por um grupo de câmara do Coro Gulbenkian trouxeram a obra polifónica de compositores portugueses. Manoel de Oliveira proferiu um pequeno e lúcido discurso e recebeu uma calorosa aclamação do público.
Bento XVI falou em português. O seu discurso não foi uma revolução nem uma lição de moral. Foi sóbrio, directo, limpo e foi bem acolhido. Mais do que as palavras - que puseram uma tónica sobre a busca da Verdade na Beleza e no Bem (tanto na cultura como na vida) - foi o gesto que marcou. Muito oportuno um Papa querer trazer a Cultura para a ribalta... Do ponto de vista político e de construção da Europa, a cultura é uma ferramenta a não descurar. Do ponto de vista nacional, a cultura nem sempre tem sido bem tratada: é sempre relegada para um último plano, quase supérfluo, quase um luxo. Os artífices da cultura continuam a trabalhar com uma grande medida de gratuidade, dedicação e sacrifício pessoal, muitas vezes sem qualquer recompensa visível (facto que só uma verdadeira vocação pode explicar). Bento XVI disse o quão importante é essa missão, e encorajou à perseverança e fidelidade nesse campo.
Do ponto de vista prático, todos sabemos que ninguém vive do ar e, quem dedica à arte a sua vida, tem de poder viver dela. Seria uma boa oportunidade para a sociedade, Governo e Igreja portuguesa se inteirarem dessa realidade. Seria bom que a cultura e a arte voltassem a ser uma verdadeira preocupação na consciência global da sociedade, que deixassem de ser vistas como uma extravagância e um esbanjamento e passassem a ser vistas como uma fonte de riqueza inestimável que, a longo prazo, vai responder também às preocupações economicistas dos nossos dirigentes.
Uma palavra à Igreja portuguesa: a religião usa o símbolo e a imagem. Quem melhor do que os artistas para revelarem nestes símbolos o rosto de Deus? Não basta trabalhar sempre com a "prata da casa" e as "boas-vontades", movidos por uma preocupação algo comodista e forreta. Não será uma espécie de heresia e omissão não se usarem os meios que se têm ao dispôr, o savoir faire? Os melhores exemplos da arte sacra que nos chegaram até hoje são as obras de arte (escultura, pintura, arquitectura, música) dos maiores artistas de cada época. Que mau seria se o Miguel Ângelo tivesse sido preterido com base em julgamentos de comportamentos morais.
É também certo que algum caminho se vai fazendo, que já se faz mais do que já se fez. Mas este tem de ser o modus operandi transversal a toda a Igreja e não apenas o de um par de indivíduos, comunidades, grupos ou ordens "bem-pensantes" e "iluminados".

terça-feira, 11 de maio de 2010

Extremo ocidental - por ocasisão da visita de Bento XVI


um texto de José Manuel Fernandes, jornalista

Onde eu me encontro com Bento XVI

O Papa não fala só para os crentes, pois ao defender os valores da civilização europeia está a defender um mundo melhor. Na altura em que Bento XVI foi eleito, em Abril de 2005, previ que "dificilmente" o seu papado seria o de um mero continuador de João Paulo II. Cinco anos depois, e quando se prepara para visitar pela primeira vez Portugal como chefe da Igreja de Roma, é claro para todos que o Papa alemão não procurou ser o que não era – um líder carismático, à imagem do seu antecessor –, antes não descurou a reorganização da Igreja, centrando-a nos combates mais importantes da actual pós-modernidade.

Horas antes de se iniciar o Conclave que o escolheria como sucessor de Pedro, o então cardeal Ratzinger proferiu, como decano do Colégio dos Cardeais, uma homília que se tem vindo a revelar todo um programa. "Possuir uma fé clara, seguir os ensinamentos da Igreja, é classificado com frequência como fundamentalismo", disse então, perante os 115 cardeais eleitores. "Em contrapartida, o relativismo, isto é, o deixar-se levar "para aqui ou para ali por qualquer vento ou doutrina" parece a única atitude aceitável nos tempos que correm. Toma corpo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa tudo ao critério do próprio ego e dos seus desejos".

Ao definir o relativismo moderno como o maior adversário contemporâneo do humanismo cristão, lembrou que "ser-se "adulto" significa ter uma fé que não segue atrás das ondas das modas de hoje ou das últimas novidades". E por isso, apesar das mudanças que tem vindo a introduzir na Igreja – nomeadamente na dolorosa e delicada frente da denúncia e prevenção dos casos de pedofilia, onde tem sido de uma grande pro-actividade -, Bento XVI nunca se deixou levar pelo vento que, a espaços, foi soprando mais forte em diferentes direcções.

Ora o relativismo moderno não é apenas adversário do humanismo cristão – coloca também enormes desafios ao tipo de sociedades em que vivemos, livres e abertas porque baseadas num contrato de confiança entre todos os cidadãos que partilham um corpo de valores civilizacionais. Tal sucede porque o relativismo moderno dissolve esses valores sem deixar qualquer alternativa no seu lugar.

Quando Bento XVI critica, por exemplo, o niilismo ou o multiculturalismo, fá-lo a partir de um terreno que partilha com todos os que se preocupam com o deslaçamento e a inumanidade prevalecentes em muitos aspectos das sociedades contemporâneas.

O multiculturalismo não é uma forma de tornar as nossas sociedades mais plurais, pois não parte da necessária base comum a qualquer convivialidade, antes do esbatimento dos valores preexistentes. Por isso, ao criar um lugar vazio e sem referências, o multiculturalismo nunca poderá ser um ponto de encontro, antes de desencontros e mal-entendidos. E o niilismo anda naturalmente de braço dado com o multiculturalismo, sobretudo se pensarmos que este corresponde, de acordo com a definição de Leo Strauss, a não querer nada, não valorizar nada.

A crítica de Ratzinguer/Bento XVI tanto ao multiculturalismo como ao niilismo, onde as referências teológicas não impedem o recurso a grandes pensadores da liberdade e das sociedades abertas, como Karl Popper ou Isaiah Berlin, centra-se no que designa como a diminuição da "energia moral" nas nossas sociedades. "A segurança, de que necessitamos como pressuposto da nossa liberdade e da nossa dignidade, não pode vir, em última análise, de sistemas técnicos de controlo, mas apenas da força moral do homem: onde esta faltar, ou não for suficiente, o poder que o homem possui cada vez mais se transformará num poder de destruição", pode ler-se num dos seus textos.

Homem que conheceu, na sua Alemanha, o horror de um despotismo ateu – o nazismo – e que enfrentou, na universidade onde ensinou, os excessos do idealismo político dos anos 60 e 70 – que por vezes desembocaram no terrorismo –, Bento XVI defende que o moralismo político contemporâneo é "um moralismo de sentido errado, porque privado de uma serena racionalidade" e porque coloca com frequência "a utopia política acima da dignidade de cada homem".

Depois da derrota das ideologias que proclamavam a existência de um moralismo político absoluto e insusceptível de contestação, a nova fronteira do debate transferiu-se para estes terrenos que, se muitos proclamam vazios e sem referências, são na realidade um terreno propício às ambições políticas mais desenfreadas. Ambições que, como se viu com o nazismo, como se viu com o comunismo, lidam muito mal com uma qualquer autoridade exterior à área da política e do poder. Do "seu" poder.

Uma forma moderna dessa intolerância é o laicismo radical, "adversarial", isto é, aquela forma de olhar para a separação entre o Estado e a Igreja que não é neutra em relação aos diferentes credos, antes procura ocupar o seu espaço e, por isso, os combate. É um laicismo que, tal como sucedeu durante a I República com a Lei da Separação, não visa separar o que é de César do que é de deus, antes submeter o que é de deus aos desígnios de César.

Naturalmente que a originalidade radical do Cristianismo face a outras religiões monoteístas é incorporar essa separação desde a sua origem e, no caso do catolicismo, de manter um autoridade única, central e separada, capaz de ler os sinais dos tempos sem ser escrava das modas, o que é insuportável para os que cultivam o racionalismo sem concessões. No caso concreto de Bento XVI, as suas encíclicas e a notável lição preparada para ser lida na Universidade de Roma La Sapienza incomodam ainda mais por nelas se defender não só a pacífica coabitação entre fé e razão como - e cito Giorgio Israel, professor de História da Matemática - que "a fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da modernidade". Mais: por se defender que "o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade. E isto significa que a razão, no fim do dia, acabará por vergar-se às pressões dos interesses e do utilitarismo, perdendo a capacidade de reconhecer a verdade como critério único".

Por isso, como notou Ernesto Galli della Loggia no Corriere de la Sera, o gesto dos professores que impediram a ida de Bento XVI à La Sapienza, tal como o dos nossos furiosos "laicos", traduz sobretudo "uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega".

O tímido Cardeal Ratzinger, que tímido não deixou de ser depois de ser eleito Papa, não se desviou da linha que, lida à distância, a sua homília pré-conclave traçava. Talvez também por isso, apesar de lidar melhor com as ideias diferentes do que o próprio João Paulo II, não tenha conseguido escapar ao estereótipo que, antes do mais, visa dar dele uma imagem caricatural e preconceituosa. Até porque o que Bento XVI diz incomoda mesmo os teólogos destas "novas" verdades reveladas, pois poucos, num lugar de poder como o dele, diriam humildemente que mesmo um Papa em Roma não existe para "impor a Fé de cima, pois esta é antes do mais um dom da liberdade".

E não há dúvida que é.

Talvez por isso mesmo eu, que não tenho fé, termine lembrando que, pouco tempo antes da morte de João Paulo II, numa conferência na Escola de Cultura Católica de Santa Croce, em Bassano, o ainda cardeal Ratzinger propôs a inversão do axioma dos iluministas de acordo com o qual era possível definir as normas morais essenciais etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse, para passar a propor que "mesmo aqueles que não conseguem encontrar o caminho da aceitação de Deus deveriam procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretus, como se Deus existisse". Lembrou então que esse fora o conselho de Pascal aos seus amigos não-crentes, considerando que, assim, "ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram o apoio e o critério de que têm urgente necessidade".

Como alguém que se reconhece nos valores de uma Europa que, como Bento XVI correctamente defende, não é apenas um lugar geográfico mas o produto de uma civilização, e que a matriz dessa civilização é o Cristianismo (sem o qual não teria sido sequer possível o Iluminismo), aceito este desafio. Mais: nesse desafio marco encontro com Bento XVI e com a sua luta civilizacional, que é também minha.

Museus e palácios com acesso gratuito

Acesso gratuito aos palácios nacionais, monumentos, museus e sítios tutelados pelo Ministério da Cultura, por ocasião da visita do Papa Bento XVI
11 de Maio 2010 (em várias localidades do país)
Instituto dos Museus e da ConservaçãoPalácio Nacional da Ajuda, Ala Sul 4º 1349 - 021 Lisboa Telefone: 21 365 08 00contactos@imc-ip.pt
www.ipmuseus.pt

"No dia 11 de Maio, os museus e palácios dependentes do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) terão acesso gratuito por ocasião da visita do Papa Bento XVI a Portugal. Os palácios, monumentos, museus e sítios, tutelados por este Ministério, mantêm-se abertos ao público nos dias 11, 13 e 14 de Maio.

Lista dos Museus e Palácios com entrada livre dia 11 - http://www.ipmuseus.pt/pt-PT/museus_palacios/ContentList.aspx

quarta-feira, 5 de maio de 2010

debate em Maio

Pela actualidade do tema, pareceu-me interessante propor o seguinte debate, um pouco em cima da hora, é certo.

O CUPAV apresenta
Maionese: o debate em Maio…
PEDOFILIA:
Um escândalo na Igreja?
Um problema na Sociedade?

Com:
Margarida Neto (Psiquiatra)
José Manuel Fernandes (Jornalista)
Hermínio Rico (Padre Jesuíta)

Auditório do Colégio S. João de Brito
Quarta-Feira, 5 de Maio às 21:15

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Livro

Gostava de vos deixar a referência do livro que cito no post anterior:

Born to be gay – história da homossexualidade
William Naphy
Edições 70

É um livro muito bem escrito, que nos ajuda a compreender a homossexualidade ao longo da história, os “porquês” da nossa orientação sexual ter passado de comportamento normativo a doença mental, até há poucos anos atrás...
Penso que estarmos informados, nos ajuda até a ter compaixão por aqueles que nos perseguem, acusam e nos fazem sentir proscritos... e lembro aqui os nossos irmãos budistas que consideram a ignorância o maior dos pecados...

A homossexualidade à luz dos tempos...

Quero começar por pedir desculpa pelo atraso deste meu post, mas as últimas semanas têm sido profundamente trabalhosas a vários níveis... espero conseguir a partir de agora ter uma frequência menos “espaçada” no tempo. Na sequência do meu primeiro texto, gostaria de começar por citar William Naphy no seu livro Born to be Gay – História da homossexualidade:

“O aspecto mais relevante do mundo anterior ao advento da lei mosaica (as leis que Deus outorgou aos Israelitas através de Moisés, começando pelos Dez Mandamentos) é o facto de poucas culturas demonstrarem qualquer preocupação “moral” significativa com as relações entre pessoas do mesmo sexo. Como veremos, a questão, e partindo do princípio de que ela existia, tinha mais a ver com “posições” do que com “parceiros”. Isto é, a maioria das culturas parecia aceitar que os homens podiam ter relações sexuais uns com os outros mas entendia que alguém que assumisse a posição passiva (no sexo anal) tornava-se depois disso, de certa forma, menos homem. Contudo, mesmo a questão da passividade perdia significado se o parceiro passivo fosse adolescente (entre os 14 e os 20 anos). Na verdade, de uma perspectiva religiosa, o elemento mais notável é o número de religiões não monoteístas que tinham deuses e deusas que praticavam actos homossexuais (de várias maneiras) na mitologia dos cultos. Na maioria das religiões anteriores ao aparecimento do monoteísmo no Médio Oriente, os modelos (deuses/deusas) idolatrados, imitados e adorados apresentavam uma imagem de ambivalência sexual – na prática, a bissexualidade era a norma mitológica.”

Naphy, 2006, p. 11

Lendo apenas este pequeno trecho do primeiro capítulo do livro referente ao período histórico até 1300 a.C., percebemos que a homossexualidade era “normal”, isto é, não era considerada um comportamento desviante e por isso “não normal”. Devemos também ter atenção ao facto de que a moralidade está intimamente ligada aos códigos religiosos e/ou mitológicos, e por isso, temos também de compreender o olhar sobre a homossexualidade à luz do tempo histórico, cultural e mitológico. Não quero usar este espaço para “divagações teóricas”, mas não posso de deixar de dizer que a nossa relação com Deus está muitas vezes “contaminada” pelas minhas projecções em relação a Deus, pondo na sua “boca” as palavras que quero ouvir; e como Deus insiste em precisar dos homens e das mulheres para esta relação com a humanidade, a sua vontade é inevitavelmente sujeita à interpretação, aos medos e aos desejos daqueles que O escutam... isto para dizer, que podemos “compreender” a posição da hierarquia da Igreja relativamente à homossexualidade. Felizmente também temos homens e mulheres na Igreja que conseguem fazer uma leitura contextualizada (histórica, sociológica, teológica) da realidade que foi e que já não faz sentido continuar a ser. E não nos podemos esquecer que nós somos Igreja, e como Cristãos adultos e conscientes, temos a obrigação de estar na Igreja desta forma, vivendo com verdade a minha orientação sexual e o facto de ser filho amado de Deus...e acredito, tal como nos diz Santa Teresinha do Menino Jesus “que quando uma alma se eleva, eleva o mundo”...

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

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