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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Anunciação em imagens

Não é uma publicação exaustiva, uma espécie de mosaico que fala da representação da anunciação feita pelo anjo a Maria e uma homenagem por ocasião da festa da Imaculada Conceição.


História de Maria e nossa história

Carl Heinrich Bloch
Comentário a Lucas 1, 26-38

«Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». 

O Evangelho de Lucas desenvolve a narrativa do anúncio a Maria como o zoom de uma câmara de cinema: parte da imensidão dos céus, restringe progressivamente o olhar até uma pequena povoação, depois a uma casa, ao primeiro plano de uma jovem entre muitas, ocupada nas suas atividades e nos seus pensamentos. O anjo Gabriel veio até ela. É belo pensar que Deus te acaricia, te toca na tua vida diária, na tua casa. Fá-lo num dia de festa, no tempo das lágrimas ou quando dizes a quem amas as palavras mais belas que conheces.

A primeira palavra do anjo não é uma simples saudação, dentro vibra aquela coisa boa e rara que todos os dias procuramos: a alegria: regozija-te, rejubila, sê feliz. Não pede: reza, ajoelha-te, faz isto ou aquilo. Mas simplesmente: abre-te à alegria como uma porta se abre ao sol. Deus aproxima-se e aperta-te num abraço, vem e traz uma promessa de felicidade.

A segunda palavra do anjo revela o porquê da alegria: és cheia de graça. Um termo novo, nunca ressoado na Bíblia ou nas sinagogas, literalmente inaudito, de tal maneira que perturba Maria: és repleta de Deus, que se inclinou sobre ti, enamorou-se de ti, deu-se a ti e dele transbordas. O seu nome é: amada para sempre. Ternamente, livremente, sem arrependimento amada. Cheia de graça chama-a o anjo, Imaculada di-la o povo cristão. E é a mesma coisa. Não está cheia de graça porque disse "sim" a Deus, mas porque Deus disse "sim" a ela, antes ainda da sua resposta. E di-lo a cada um de nós: cada qual cheio de graça, todos amados como somos, por aquilo que somos; bons e menos bons, cada qual amado para sempre, pequenos ou grandes cada um repleto de céu.

A primeira palavra de Maria não é um sim, mas uma pergunta: como é possível? Está diante de Deus com toda a sua dignidade humana, com a sua maturidade de mulher, com a sua necessidade de entender. Uma a inteligência e depois pronuncia o seu sim, que então tem o poder de um sim livre e criativo. Seguramente, como disseram profetas e patriarcas, sou a serva do Senhor. Serva é palavra que nada tem de passivo: serva do rei é a primeira depois do rei, aquela que colabora, que cria juntamente com o Criador.

«A resposta de Maria é uma realidade libertadora, não uma submissão remissiva. É ela pessoalmente a escolher, em autonomia, a pronunciar aquele "sim" corajoso que a contrapõe a todo o seu mundo, que a projeta nos desígnios grandiosos de Deus» (M. Marcolini).

A história de Maria é também a minha e a tua história. Uma vez mais o anjo é enviado à tua casa e diz-te: alegra-te, és cheio de graça! Deus está dentro de ti e cumula a vida de vida."

por Ermes Ronchi in "La Chiesa"
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo

Santo Ambrósio, uma biografia

"Tinha escolhido a carreira de magistrado, seguindo os passos do pai, prefeito romano da Gália, e aos 30 anos encontrava-se já como cônsul de Milão, cidade que era então capital do império. No dia 7 de dezembro de 374, em que católicos e arianos disputavam o direito de nomear o novo bispo, cabia a ele garantir a ordem pública na cidade e impedir que se desencadeassem tumultos. O imprevisível acontece quando ele falou à multidão com tanto bom senso e autoridade, que se ergueu um grito: «Ambrósio bispo!». E pensar que ele era apenas um catecúmeno à espera do Batismo. Cede ao clamor quando compreende que aquela era também a vontade de Deus, que o queria ao seu serviço.

Começou distribuindo os seus bens aos pobres e dedicando-se a um estudo sistemático da Sagrada Escritura. Aprendeu a pregar, tornando-se um dos mais célebres oradores do seu tempo, capaz de encantar até um intelectual refinado como Agostinho, que se converte graças a ele.

De Ambrósio a Igreja de Milão que recebe um impulso que se conserva ainda hoje, inclusive no campo litúrgico e musical.

Mantem relações estreitas com o imperador, mas era capaz de lhe resistir quando necessário, recordando a todos que «o imperador está dentro da Igreja, não sobre a Igreja». Quando sabe que Teotónio o Grande tinha ordenado uma violenta e injusta repressão em Tessalónica, não teme exigir ao soberano uma expiação pública.

Dizem que no termo da sua vida, confiou: «Não tenho medo de morrer porque temos um Senhor bom». À sua Igreja deixou um rico tesouro de ensinamentos, sobretudo no campo da vida moral e social. Nasceu em Tréveris, atual Alemanha, cerca do ano 340, e morreu em Milão a 4 de abril de 397, ao amanhecer de Sábado Santo. É Doutor da Igreja e padroeiro dos apicultores.

«Cristo é tudo para nós! Se queres curar uma ferida, Ele é o médico; se estás a arder de febre, Ele é a fonte; se estás oprimido pela iniquidade, Ele é a justiça; se precisas de ajuda, Ele é a força; se temes a morte, Ele é a vida; se desejas o céu, Ele é o caminho; se estás nas trevas, Ele é a luz... Saboreai e vede como o Senhor é bom: bem-aventurado é o homem que nele depõe a sua esperança» (De virginitate 16, 99). (...)

«Esteja em cada um a alma de Maria que engrandece o Senhor, esteja em todos o espírito de Maria que exulta em Deus; se, segundo a carne, uma só é a mãe de Cristo, segundo a fé todas as almas geram Cristo; de facto, cada uma acolhe em si o Verbo de Deus... A alma de Maria engrandece o Senhor, e o seu espírito exulta em Deus, porque, consagrada com a alma e com o espírito ao Pai e ao Filho, ela adora com afeto devoto um só Deus, do qual tudo provém, e um só Senhor, em virtude do qual todas as coisas existem» (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 2, 26-27).

«Levanta-te, vem depressa à Igreja: aqui está o Pai, aqui está o Filho, aqui está o Espírito Santo. Ele vem ao teu encontro, para que te acolha enquanto estás a refletir contigo mesmo no segredo do coração. E quando ainda estás longe, vê-te e põe-se a correr. Ele vê no teu coração, acorre para que ninguém te detenha, e além disso abraça-te... Lança-se ao regaço de quem estava por terra, para o reerguer, e para fazer com que aquele que estava oprimido pelo peso dos pecados e inclinado para as coisas terrenas, dirija de novo o olhar para o céu, onde devia procurar o próprio Criador. Cristo lança-se ao teu regaço, porque quer tirar dos teus ombros o jugo da escravidão e impor sobre eles um jugo suave» (Lucam VII, 229-230). (...)

«Para o cristão, a fé antecede tudo o demais. Por isso mesmo, em Roma, são chamados “homens de fé” os que foram batizados. Também nosso Pai Abraão foi justificado pela fé, e não pelas obras. Concluiremos, pois, assim: recebestes o batismo, tendes fé. Não seria justo que eu julgasse de outro modo, pois não terias sido chamado à graça, se Cristo não te tivesse julgado digno por sua graça… Por conseguinte, tu que deves a fé a Cristo, guarda esta fé, muito mais preciosa que o dinheiro. De facto, a fé equivale a um património eterno; enquanto o dinheiro é um património temporal. Lembra-te, pois, também tu continuamente, daquilo que prometeste» (De sacramentis, I,1; II,8).

«Bem-aventurados aqueles que pensam na miséria e na pobreza de Cristo, o qual, sendo rico, se fez pobre por nós. Rico no seu Reino, pobre na carne, porque assumiu sobre si esta carne de pobres... Portanto, não sofreu na sua riqueza, mas na nossa pobreza. Não foi então a plenitude da divindade que sofreu... mas a carne... Procura, pois, penetrar o sentido da pobreza de Cristo, se queres ser rico! Procura penetrar o sentido da sua debilidade, se desejas obter a saúde! Procura penetrar o sentido da sua cruz, se não te queres envergonhar dela; o sentido da sua ferida, se queres curar as tuas; o sentido da sua morte, se desejas alcançar a vida eterna; o sentido da sua sepultura, se desejas encontrar a ressurreição» (Comentário a doze salmos). (...)

«Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais útil do que fazer-se amar» (De officiis II, 29).

Biografia: Santi i beati
Tradição e edição de Rui Jorge Martins para SNPC a 7 de dezembro de 2015

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O cristianismo e a Alegria

Rafael Cardoso
O cristianismo ou causa alegria, ou não é cristianismo

«Um cristão é um homem e uma mulher de alegria, um homem e uma mulher com alegria no coração. Não existe um cristão sem alegria», frisou hoje o papa, na missa a que presidiu, no Vaticano.

Aqueles a quem a alegria lhes é estranha «não são cristãos», reiterou Francisco, citado pela Rádio Vaticano, acrescentando: «Dizem sê-lo mas não o são. Falta-lhes qualquer coisa».

«O bilhete de identidade do cristão é a alegria, a alegria do Evangelho, a alegria de ter sido eleito por Jesus, salvo por Jesus, regenerado por Jesus; a alegria daquela esperança que Jesus nos antecipa, a alegria que, mesmo nas cruzes e nos sofrimentos desta vida, se exprime de outra maneira, que é a paz na segurança que Jesus nos acompanha, está connosco», afirmou.

«Quando nas nossas paróquias, nas nossas comunidades, nas nossas instituições, encontramos pessoas que se dizem cristãs e querem ser cristãs mas estão tristes, alguma coisa não está bem», acentuou.

Francisco também meditou sobre o trecho do Evangelho proclamado nas missas desta segunda-feira (Marcos 10, 17-27), em que um homem pergunta a Jesus o que é preciso para alcançar a vida eterna, obtendo como resposta a necessidade de dar todo o dinheiro aos pobres, escolha que o entristece e o leva a afastar-se.

Para o papa, o homem rico «não foi capaz de abrir o coração à alegria e escolheu a tristeza»: «Estava amarrado aos bens. Jesus tinha-nos dito que não se podem servir dois senhores: ou serves Deus ou serves as riquezas. As riquezas não são más em si mesmas; o que é mau é servir a riqueza».

«A admiração da alegria, o ser-se salvo de viver amarrado a outras coisas, às mundanidades – as muitas mundanidades que nos afastam de Jesus –, apenas se pode com a força de Deus», assinalou.

A homilia terminou com uma oração: «Peçamos hoje a Deus que nos dê a admiração diante dele, diante das muitas riquezas espirituais que nos deu; e com este espanto nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver em paz no coração as muitas dificuldades».

«Que Deus nos proteja de procurar a felicidade em tantas coisas que ao fim nos entristecem: prometem muito mas não nos darão nada. Recordai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher de admiração», concluiu Francisco. "

Por Rui Jorge Martins para SNPC

Amor sem barreiras

Beyond Love

"A Black Sheep, uma agência de publicidade polaca baseada em Israel decidiu criar um vídeo onde promove a tolerância e a liberdade.

No vídeo em causa não há lugar para discriminações independentemente do sexo, religião, orientação sexual, expressão de género ou tipo de família. Em três dias o vídeo “Beyond Love” (...) foi visto mais de 25 mil vezes."

Por Paulo Monteiro in Dezanove


Madre Teresa, a Mulher

A misericórdia como prática, a defesa da fé, o papel da mulher na Igreja

A santidade de Madre Teresa de Calcutá é a principal razão para ser declarada santa, no próximo domingo, mas esta canonização também tem algo a dizer a outros níveis: a misericórdia tornada prática, a defesa da fé face aos críticos e o papel da mulher na Igreja católica.

Quando Madre Teresa se tornar Santa Teresa de Calcutá, a 4 de setembro, 19 anos menos um dia após a sua morte (5 de setembro de 1997, aos 87 anos), espera-se que a celebração, no Vaticano, presidida pelo papa Francisco, seja o maior evento do Ano da Misericórdia. A sua beatificação, em 2003, atraiu cerca de 300 mil pessoas à praça de S. Pedro e imediações, e os organizadores antecipam que a afluência deste domingo seja maior.

Nos últimos dias é provável que tenhamos ouvido, mais do que uma vez, que Francisco está "a fazer" de Madre Teresa uma santa. Os teólogos dirão, porém, que nada está mais longe da verdade. A crença católica sustenta que se alguém é verdadeiramente santo, então já está no céu. Uma canonização é entendida como um reconhecimento do que já aconteceu.

Por outras palavras, a canonização não é para o santo, é para nós, que erguemos um novo modelo de santidade e uma nova amizade no céu, a quem toda a Igreja pode rezar. Vale também a pena relembrar que a santidade, pelo menos em teoria, é um dos processos mais democráticos na vida católica. É suposto começar com o que é tradicionalmente conhecido como "culto", ou seja, a devoção popular a uma dada figura que teve reputação de santidade. A declaração oficial ocorre só depois da investigação do candidato e, por fim, se todos os critérios estiverem preenchidos, for aplicado o selo de aprovação.

Com toda a honestidade, houve alguns poucos casos ao longo dos anos onde essa vontade popular é algo difícil de encontrar, mas não é definitivamente este o caso. Como João Paulo II, de quem a multidão gritava "Santo subito!" na missa do funeral, Madre Teresa foi uma santa nos corações da maior parte dos católicos muito antes de o seu nome ter entrado no cânone oficial.

Contudo, há três outros aspetos que se combinam para fazer da celebração um dos mais fascinantes e potencialmente influentes acontecimentos na vida católica recente.

Manual de como fazer misericórdia

A misericórdia é, no seu núcleo, uma virtude espiritual, mas o papa Francisco tem insistido ao longo deste Ano que, para ela ser sincera, deve ter uma expressão tangível em ações concretas de serviço. Na tradição cristã, os exemplos tornam-se presentes nas obras corporais de misericórdia, que incluem alimentar os esfomeados, dar abrigo aos sem-teto, visitar os doentes, e assim por diante.

Poucas figuras católicas alguma vez, e provavelmente nenhuma no seu tempo, ilustraram melhor esse impulso para a misericórdia concreta do que Madre Teresa, desde os centros para doentes com SIDA às casas de acolhimento para crianças perdidas e refugiados. Não houve virtualmente qualquer espécie de sofrimento humano a que ela não tivesse dado uma resposta prática.

Nesse sentido, Santa Teresa de Calcutá ficará para sempre como um "manual de como fazer misericórdia" em carne e sangue, uma espécie de guia do utilizador para o que a misericórdia é na prática. Daqui por diante Francisco não tem de oferecer qualquer explicação detalhada do que deseja que as pessoas façam; tudo o que tem de fazer é apontar para Madre Teresa e dizer: «Tenta ser como ela». Por outras palavras, é possível sustentar que o Ano da Misericórdia alcança o seu auge espiritual no próximo domingo.

Como veículo para a aplicação prática da misericórdia, Francisco apelou a todas as dioceses do mundo para lançarem uma nova iniciativa durante este Ano Santo, como uma clínica, escola ou hospital, para assegurar que o seu espírito continua após o encerramento formal do Jubileu, a 20 de novembro. Se os responsáveis diocesanos estão tentados a murmurar sobre a falta de tempo ou recursos, Madre Teresa também oferece outro valioso exemplo. Não é realmente necessário ter grandes bolsos para infraestruturas gigantes que respondam ao apelo, só a inabalável vontade de o tornar real.

Defesa da fé em ação

O bispo auxiliar de Los Angeles, Robert Barron, uma das figuras mais entendidas na paisagem católica americana no que diz respeito à fé na cultura secular, disse-me recentemente que acredita que um dos "evangelistas" mais efetivos das últimas décadas foi Christopher Hitchens, cuja agressiva argumentação a favor do ateísmo inspirou uma geração de novos e determinados discípulos.

Quando Hitchens começou a aparecer em debates públicos com líderes religiosos, referiu Barron, normalmente limpava-os todos: «Era como dá-los aos leões... ficavam completamente destruídos».

Porém Hitchens perdeu claramente pelo menos um dos seus principais argumentos, que foi a sua famosa tentativa, em 1995, de roubar a Madre Teresa a sua auréola com o polémico livro "A posição missionária".

Hitchens acusou Madre Teresa de uma variedade de duvidosas práticas morais, desde levar dinheiro de ditadores a gerir instalações médicas abaixo dos padrões. A sua objeção geral era de que Madre Teresa não estava realmente interessada em servir os pobres, mas em fazer propaganda das suas obscurantistas crenças católicas.

Foi um ataque devastador, talvez o melhor murro que uma crítica secular tenha acertado numa proeminente figura católica além do papa, e certamente voltará a estar em debate nestes dias que antecedem a canonização.

Contudo, no tribunal da opinião popular, Hitchens foi um fiasco. Em dezembro de 1999, no fim do século XX, a empresa de sondagens Gallup perguntou a norte-americanos qual a pessoa que mais admiravam nos últimos 100 anos. Madre Teresa surgiu destacadamente em primeiro lugar, com 49 por cento, seguindo-se Martin Luther King Jr., com 34 por cento.

Ironicamente, Madre Teresa prevaleceu sem que alguma vez tenha pronunciado uma palavra de refutação - o máximo que alguma vez falou sobre Hitchens foi «eu rezarei por ele». Na verdade, claro, ela não precisava de dizer nada, porque as pessoas viram toda a sua vida como uma refutação da crítica de Hitchens.

Mulheres na Igreja

Se alguém quisesse compor uma pequena lista das mais icónicas figuras católicas da segunda metade do século XX, em termos de personalidades mais faladas, celebradas, fotografadas, ímanes de multidões, capas de revistas, prémios, altas taxas de aprovação e assim por diante, há provavelmente três que se destacam: papa João XXIII, papa João Paulo II e Madre Teresa.

Os dois primeiros foram significativamente ajudados pelo facto de se terem tornado papas. Se Angelo Roncalli tivesse permanecido como patriarca de Veneza ou Karol Wojtyla como arcebispo de Cracóvia, é improvável que tivessem subido ao palco mundial como veio a suceder.

Madre Teresa, porém, fez tudo sem mais. O único cargo que alguma vez ocupou foi o de superiora das Missionárias da Caridade, congregação por ela fundada, dado que estava demasiado ocupada a servir os pobres.

O papa Francisco criou recentemente uma comissão para ponderar a ordenação diaconal de mulheres, levantando um tabu de longa data na discussão oficial de tal ideia. Ainda que ele tenha afastado a possibilidade da ordenação sacerdotal de mulheres, isso não afastou o debate sobre o assunto nos círculos católicos.

Os pronunciamentos oficiais podem dizer o que quiserem sobre a «complementaridade» e o sacerdócio como serviço, mas há algumas pessoas, incluindo dentro da Igreja, que nunca acreditarão que as mulheres no catolicismo sejam mais do que cidadãs de segunda classe enquanto estiverem excluídas da ordenação.

O que a Madre Teresa claramente ilustra, todavia, é que não é preciso um cabeção ou uma cruz peitoral para exercer influência na Igreja católica.

Ela foi uma mulher, afinal de contas, que não teve hesitações em dizer a bispos e padres o que fazer, e ao longo dos anos a maior parte deles fê-lo - não por causa da cadeia de comando, mas porque foram inspirados, e frequentemente até impressionados, pelo poder espiritual que ela libertava.

Quaisquer que forem os argumentos a favor das diaconisas que a nova comissão vier a considerar, há pelo menos um que podem afastar da mesa, que é o de que sem se tornarem parte do clero, as mulheres (ou os leigos em geral) não têm acesso à liderança.

Se alguém foi um modelo de líder católico de sucesso foi Madre Teresa. Como mais nova santa da Igreja, ela continuará sem dúvida a liderar num modo completamente novo."

John L. Allen Jr. In "Crux"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins para SNPC a 29 de agosto de 2016

Homenagem a Santa Teresa de Calcutá

Poucas semanas depois de o Papa Francisco ter implantado no Domingo anterior à festa de Cristo-Rei o dia Mundial dos Pobres, transcrevo alguns artigos sobre a Santa dos Pobres, a Madre Teresa de Calcutá:

Madre Teresa

Em apenas 50 anos desde a aprovação pontifícia querida por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade, fundadas por Madre Teresa de Calcutá, cresceram de algumas centenas a mais de 5300 religiosas em 758 casas espalhadas pelo mundo.

Mas seria um erro grosseiro ler a história desta pequena mulher albanesa cheia de rugas, frágil como uma borboleta e corajosa como uma leoa, à luz das estatísticas ou dos "sucessos" numéricos.

Madre Teresa levou com grande força ao centro da sua vida, e por isso do seu testemunho, o amor incondicional pelos pobres, pelos últimos. Por aqueles pobres e aqueles últimos que recolhia pelas ruas de Calcutá, conseguindo apenas, na maior parte dos casos, assegurar-lhes uma morte digna e rodeada de amor. Esse amor que nunca tinham podido experimentar ao longo da sua vida de mendigos ou descartados pela sociedade das castas.

A pequena grande irmã (...) proclamada santa não fundou uma ONG. Na casa-mãe das Missionárias da Caridade, à entrada destacou-se sempre um crucifixo com as palavras «I thirst!» («Tenho sede!). As palavras de Jesus no Calvário.

O amor pelos pobres, a assistência àqueles que ninguém quer assistir, tocar e curar foi originado e recobrou diariamente força na oração: uma hora de oração e ao todo três horas de oração ao dia.

«Não lhe parece demasiado longo este tempo dedicado à oração?», perguntou um dia um visitante. «Não - foi a resposta de Madre Teresa -, não se pode fazer o nosso trabalho se não por amor e por graça de Cristo. A nossa força são as horas de adoração».

Outro aspeto importante do seu testemunho foi a sua capacidade de ser indiana entre os indianos. Não se apresentou como uma missionária ocidental com o olho no proselitismo. Queria apenas fazer brilhar o rosto da misericórdia de Deus entre os miseráveis e os pobres. Deixando a Deus toda a iniciativa no coração daqueles que a contactavam.

A Índia, sempre muito sensível ao sentido religioso, observou o padre Piero Gheddo, não a via «como uma mulher que curava os doentes, mas como o sinal humano de que Deus estava presente naqueles pobres e naquelas irmãs». Viu-se isso nos seus funerais de Estado, em 1997.

Madre Teresa não fez grandes planos, complicados projetos pastorais, estratégias mediáticas ou de marketing religioso. Curou o primeiro leproso que encontro no seu caminho. Depois o segundo, o terceiro e por aí diante. Reconhecendo no rosto do homem e da mulher sofredores e abandonados nos passeios o rosto de Jesus. Simplesmente porque assim Jesus pediu que fosse feito, como se lê no capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus.

E não quis grandes estruturas ou grandes seguranças para as suas irmãs, às quais é pedida uma vida austera e de sacrifícios. Não quis ter conta no banco para garantir o futuro da sua congregação, gastando tudo o que recebia, «porque o nosso perigo maior e tornarmo-nos ricos».

Mostrou que no amor, no acompanhamento, na proximidade não há vida que não valha a pena ser vivida até ao último respiro.

Não foi evangelizar os pobres, deixou-se evangelizar por eles. «Os pobres são a reserva de humanidade de que todos temos necessidade, a reserva de amor, a reserva da capacidade de sofrer e de se alegrar. Dão-nos mais do que nós lhes damos», afirmou.

Foi e é uma santa "contracorrente" porque durante uma longa parte da sua vida experimentou a obscuridade, as dúvidas de fé. Por muitos anos não pôde escutar a voz de Deus. Esta humaníssima e trágica experiência torna-a infinitamente distante da imagem de uma pagela hagiográfica.

Foi e é contracorrente pela sua defesa da família e da vida.
(...)
Foi e é, por fim, contracorrente diante de um certo catolicismo contemporâneo que se reveste com o manto da virtude moral e da fixação doutrinal, que parece experimentar desconforto diante da insistência no amor concreto e incondicional pelos pobres. Se hoje fosse viva, Madre Teresa estaria em Lesbos ou Lampedusa, a tratar as feridas dos migrantes e refugiados.

Andrea Tornielli In "Vatican Insider"
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC a 4 de setembro de 2016

Algumas notas sobre o Advento



"(...) O Advento, [é] o tempo forte do ano litúrgico que prepara o Natal. O primeiro domingo do Advento abre o novo ano litúrgico. No rito romano são quatro os domingos do Advento, que no rito ambrosiano, em Milão, já começou a 12 de novembro.

«Um dos temas mais sugestivos do tempo do Advento» é a «visita do Senhor à humanidade», explicou o ano passado o papa Francisco no seu primeiro Angelus do Advento, na Praça de S. Pedro. E convidou à «sobriedade, a não ser dominado pelas coisas deste mundo, pelas realidades materiais». E numa das homilias durante a missa matutina na casa de Santa Marta, Francisco indicou que «a graça que nós queremos no Advento»: «caminhar e andar ao encontro do Senhor», ou seja, «um tempo para não se estar parado».

A liturgia

A cor dos paramentos litúrgicos do clero é o roxo. No terceiro domingo do Advento, o denominado domingo “Gaudete”, pode usar-se, facultativamente o rosa, representando a alegria pela vinda de Cristo. Nas celebrações eucarísticas não é recitado o Glória, de maneira que este hino antiquíssimo ressoe mais vivamente na missa da noite da solenidade do nascimento de Jesus.

Fogem a estes preceitos as solenidades agendadas para o tempo do Advento. Em Portugal, por exemplo, no dia 8 de dezembro celebra-se a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, padroeira principal do país e das dioceses de Évora, Santarém, Setúbal e Vila Real. Os paramentos são brancos e recita-se o Glória.

Os nomes tradicionais dos domingos do Advento são extraídos das primeiras palavras da antífona de entrada na missa (que, muitas vezes, não são proferidas, especialmente quando as celebrações são cantadas). O primeiro domingo é dito do “Ad te levavi” (“A ti elevo” [a minha alma], Salmo 25; o segundo domingo é chamado de “Populus Sion” (“Povo de Sião”, Isaías 30, 19.30); o terceiro domingo é o do “Gaudete” (“Alegrai-vos”, Filipenses 4, 4.5); o quarto domingo é o do “Rorate” (“Infundi” [a vossa graça em nossas almas], Isaías 45, 8).

A origem do Advento

O termo Advento deriva da palavra “vinda”, em latim “adventus”. O vocábulo pode traduzir-se por “presença”, “chegada”, “vinda”. Na linguagem do mundo antigo era um termo técnico utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador a uma província. Mas podia indicar também a vinda da divindade, que desce do seu escondimento para manifestar-se com poder, ou que é celebrada presente no culto.

Os cristãos adotaram a palavra Advento para exprimir a sua relação com Cristo: Jesus é o Rei, entrado nesta pobre “província” denominada de “Terra” para todos visitar; na festa do seu advento faz participar todos os que crêem nele. Com a palavra “adventus” queria-se substancialmente dizer: Deus está aqui, não se retirou do mundo, não nos deixou sós. Mesmo que não o possamos ver e tocar como acontece com as realidades sensíveis, Ele está aqui e vem visitar-nos de múltiplos modos.

O tempo da espera e as leituras

O Advento é o tempo da espera, celebrando a vinda de Deus nos seus dois momentos: a primeira parte do Advento convida a despertar a espera do regresso glorioso de Cristo; depois, aproximando-se o Natal, a segunda parte remete para o mistério da Incarnação (Jesus que se faz carne) e apela a acolher o Verbo feito homem para a salvação de todos. Isto é explicado no primeiro prefácio do Advento, ou seja, a oração que “abre” a liturgia eucarística dentro da missa, após o Ofertório. Nela sublinha-se que o Senhor «veio a primeira vez, na humildade da natureza humana, realizar o eterno desígnio do vosso amor e abrir-nos o caminho da salvação; de novo há-de vir, no esplendor da sua glória, para nos dar em plenitude os bens prometidos que, entretanto, vigilantes na fé, ousamos esperar».

As leituras bíblicas das missas – em 2017 são seguidas as do ano litúrgico B – testemunham esta divisão do Advento. Até ao terceiro domingo a liturgia focaliza-se na espera do regresso do Senhor. Depois marca de maneira mais específica a espera e o nascimento de Jesus. No primeiro domingo o Evangelho (Marcos 13, 33-37) tem no centro a palavra de Cristo: «Vigiai, não sabeis quando regressará o dono da casa». No segundo domingo o Evangelho (Marcos 1, 1-8) detém-se sobre o Batismo e sobre as palavras de João Batista no rio Jordão: «Depois de mim vem aquele que é mais forte do que eu: eu não sou digno de me inclinar para desatar as suas sandálias». No terceiro domingo o Evangelho (João 1, 6-8. 19-28) tem ainda no centro João Batista, que «vem como testemunha para dar testemunho da luz» e que, interrogado pelos judeus, diz: «No meio de vós está alguém que não conheceis». O Evangelho do último domingo (Lucas 1, 26-38) é o da Anunciação e tem como eixo a figura de Maria.

Maria, ícone do Advento

O tempo do Advento tem como ícone a Virgem. O papa Francisco realçou que «Maria é o “caminho” que o próprio Deus se preparou para vir ao mundo» e é «ela que tornou possível a incarnação do Filho de Deus, “a revelação do mistério, envolvido no silêncio durante séculos eternos” (Romanos 16, 25)» graças «ao seu “sim” humilde e corajoso». A presença da solenidade da Imaculada Conceição faz parte do mistério que o Advento celebra: Maria é protótipo da humanidade redimida, o fruto mais excelso da vinda redentora de Cristo."

por Giacomo Gambassi In "Avvenire"
Publicado em SNPC a 27 de novembro de 2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quando o silêncio ganha voz

Pequeno Tratado da Oração Silenciosa

«O silêncio e a interioridade não são apanágio exclusivo das tradições religiosas do Oriente, como comumente se pensa, pois existe também uma forma cristã muito simples de orar em silêncio. Na longa história da prática orante dos cristãos, desde os seus primórdios, é usada a repetição continuada do Nome de Deus, como forma de se recentrar a atenção na presença divina.»

É desta constatação que parte o novo livro "Pequeno tratado da oração silenciosa", de Jean-Marie Gueullette, OP, que a Paulinas Editora acaba de publicar, realçando aquele método de oração «que, no Ocidente, passou por períodos de difusão e de esquecimento».

«No entanto, a aproximação recente às tradições ortodoxas, onde se manteve sempre viva e particularmente incentivada pelas comunidades monásticas, está a reavivar, agora, de forma progressiva essa edificante prática entre nós», refere o texto de apresentação do volume, de que apresentamos um excerto.

Uma oração simples
In "Pequeno tratado da oração silenciosa"de Jean-Marie Gueullette

O gosto pela complexidade
A maneira de rezar de que falamos é extremamente simples, e muitas vezes, por essa mesma razão, pode parecer difícil. Nós temos uma vida complicada, incessantemente confrontada com dificuldades de todo o tipo. A simplicidade não nos é natural, nem sequer na vida espiritual. Aquele para quem a oração parece uma realidade ausente da própria vida terá tendência para pensar que é por falta de tempo e de competência. «Se eu não rezo, é certamente porque isso toma muito tempo, mas, de qualquer forma, eu não sei como hei de rezar.»

Na Bíblia, há uma história que nos permite refletir sobre essa necessidade que sentimos de olhar para a relação com Deus como uma coisa complicada, sendo preferível renunciar a ela: 2Reis 5. O sírio Naaman era leproso e veio visitar o profeta Eliseu na esperança de obter dele a sua própria cura. Este recomenda-lhe que faça uma coisa muito simples: que se lave sete vezes seguidas no rio. Naaman sente-se despeitado. Esperava que o profeta fizesse gestos muito estranhos, pronunciando palavras misteriosas; ele, pelo contrário, manda-o lavar-se. Começa a matutar dizendo que na sua terra também se poderia lavar e que não havia necessidade de fazer uma viagem daquelas para ouvir uma prescrição terapêutica daquele tipo. O seu servo, cheio de sabedoria, diz-lhe: «Se o profeta te tivesse mandado fazer alguma coisa extraordinária, tu não a terias feito?» Também hoje, constatamos um interesse crescente por métodos terapêuticos estranhos, recorrendo a substâncias exóticas ou a exercícios complicados; muitos apaixonam-se por conceções antropológicas complexas, persuadidos de que têm três ou quatro corpos, dos quais um é luminoso, etc. Frente a semelhante arsenal, pode parecer muito pobre dizer que, para rezar, devemos assumir a posição conveniente e colocar-nos na presença de Deus com todo o nosso ser. Contudo, esse é um ensinamento muitíssimo presente na tradição cristã. Muitíssimo presente e, no entanto, ignorado, talvez por ser demasiado simples.

Quando contrapomos conhecimento e amor, é porque, com frequência, colocamos uma distância excessiva no ato do conhecimento – como no caso do conhecimento científico –, ou porque colocamos demasiado sentimento no amor, bem como na experiência amorosa. No entanto, é possível articular os dois movimentos interiores

Entregar-se, pura e simplesmente, a Deus 
A tradição cristã atribuiu um lugar importante à inteligência humana na vida espiritual: colocando no âmago da sua fé o acolhimento da Palavra de Deus, suscita um movimento em que a palavra e a relação com o texto são essenciais. Escutar uma palavra, ler um texto, requer não só que se procure entender, mas também que se aspire a conhecer aquele que é o seu autor. Assim, estamos habituados a utilizar a nossa inteligência para tentar conhecer Deus, compreender a sua Palavra e conhecermo-nos a nós mesmos. Nós estamos bem cientes de que uma busca assim nunca está terminada, mas, pelo menos, temos a impressão de saber como empreendê-la. Há que ler vários textos, que refletir e, eventualmente, que falar deles com outras pessoas.

Amar a Deus, porém, como poderemos chegar a fazê-lo? Como amar Aquele que não vemos? Fala-se muito de amor no cristianismo, mas será que o amor de Deus tem alguma coisa de comparável com as várias formas do amor humano? Ao colocarmos estas interrogações, retomamos novamente e reflexão, e deste modo, portanto, deixamos de estar no amor.

A proposta que fazemos aqui é a de que se tomem as coisas de outra forma. Com efeito, não é muito fecundo distinguir de forma demasiado radical conhecer e amar, como se o esforço para conhecer Deus fosse um obstáculo à relação com Ele; ou como se o amor que o crente nutre por Ele não tivesse nada a ver com aquela inteligência que é própria do ser humano. Quando contrapomos conhecimento e amor, é porque, com frequência, colocamos uma distância excessiva no ato do conhecimento – como no caso do conhecimento científico –, ou porque colocamos demasiado sentimento no amor, bem como na experiência amorosa. No entanto, é possível articular os dois movimentos interiores, de modo a que aquilo que conhecemos de Deus alimente o amor que temos por Ele, e que esse amor nos aproxime dele de uma forma que ajude a descobri-lo por aquilo que Ele é.

Limitemo-nos, portanto, a fazer atos de amor a Deus, com todo o nosso coração. Voltemo-nos para Ele com todo o nosso ser, incluindo a inteligência, num movimento que implica, ao mesmo tempo, adoração, veneração, confiança, afeto filial, amizade, esperança, todo o tipo de harmonia, diferente, consoante as pessoas e os momentos. O essencial é entregarmo-nos completamente a Ele. Porquê? Porque essa é a única maneira de entrarmos em relação com Ele em modo de igualdade. Ele dá-se completamente àquele que está disposto a acolhê-lo. Ele está presente, de forma incondicional, ao lado daqueles que criou e que considera seus filhos. Tudo o que nós podemos fazer, é fazer como Ele: dar-mo-nos completamente, mantermo-nos presentes. Sabendo apenas que a sua autodoação precederá sempre a nossa.

O ser humano tem a característica de não poder manter-se por muito tempo no mesmo ato interior. Muito depressa, as preocupações devidas ao trabalho e às preocupações quotidianas invadem o espírito e desviam-no do seu movimento para Deus. A meditação contemplativa repousa, pura e simplesmente, sobre a divisão do tempo em pequenas unidades: nós não somos capazes de amar a Deus, de nos entregarmos a Ele durante muito tempo, de maneira uniforme, mas podemos fazê-lo numa sucessão de momentos muito breves. Em cada um desses momentos é possível querer amar a Deus; querermos manter-nos na sua presença com tudo aquilo que somos.

Regressar, mediante uma palavra, à presença de Deus
Esta maneira de rezar é muito simples, consistindo em dizer interiormente uma palavra, enquanto nos mantemos calmamente sentados.

A oração do Nome
Nesta etapa, a oração apoiar-se-á numa única palavra. O ideal é utilizar o nome pelo qual, na oração, nos dirigimos es pontaneamente a Deus: Pai, Abba, Jesus, Senhor, Deus, Kyrie eleison, Adonai... Não é necessário interrogarmo-nos muito sobre a escolha dessa palavra. Como é óbvio, não existe uma palavra melhor nem mais eficaz do que outra. Basta tomar o nome que se atribui, natural e espontaneamente a Deus. Todavia, é importante que seja um nome de Deus, e não uma ideia sobre Deus nem um qualificativo de Deus, como «amor» ou «bondade».

Aquele que reza assim empenha todo o seu ser num movimento de fé e de amor para com Deus, enquanto profere interiormente o Nome. Depois, recomeça. Não é mais complicado do que isso. O sentido da palavra não tem muita importância, visto que não a devemos meditar intelectualmente. Não se deve tentar saborear todos os seus significados, todas as suas harmonias. O essencial é voltarmo-nos para Deus através desse nome, apoiando-nos nesse nome, como diz o Catecismo da Igreja Católica a propósito da oração baseada no nome de Jesus: «Muitas vezes repetida por um coração humildemente atento, a invocação do santo Nome de Jesus é o caminho mais simples da oração contínua » (CIC, n. 2668).

Se não sabemos que palavra devemos escolher, podemos rezar ao Espírito Santo, que reza em nós e que murmura no nosso coração «Abba, Pai», como diz São Paulo (Rm 8,15-26). Não é complicado, basta voltarmos a nossa atenção para Deus e deixar brotar do nosso coração um nome pelo qual o invocamos. Por vezes começa por escolher-se, de forma um pouco intelectual, uma palavra que parece acertada e cheia de sentido, mas depois, rapidamente, passado pouco tempo de oração, outra palavra se impõe, substituindo a primeira. Não se deve fazer isso com demasiada frequência, mas, por vezes, ao princípio, há um pequeno período de adaptação.

Depois de se ter começado a rezar repetindo esse nome, continua-se a repercutir sempre o mesmo, não só durante o tempo da oração, mas durante vários anos. Há aqui uma diferença notável em relação a outra forma de contemplação repetitiva próxima, de que já falava João Cassiano no século V, que consiste em repetir, ao longo do dia, um versículo ou uma expressão extraídos da leitura da Bíblia ou da oração do Saltério. Essa meditação é uma forma de prolongar, de maneira quase física, a leitura, de continuarmos a alimentar-nos de um texto no meio das nossas atividades. Como se trata de uma meditação – o que significa, aqui, que se saboreia o sentido ou os sentidos dessa palavra escolhida –, é normal que esta mude em cada dia, visto que essa prática é uma forma de ressonância da oração à leitura. Aqui, porém, o nome de Deus não está presente para alimentar a reflexão, para fazer descer ao fundo do coração determinado aspeto do mistério contemplado na palavra. A sua função é ser um ponto de apoio para permanecermos tranquilos na presença de Deus, para nos voltarmos para Ele. Quando se tem dificuldade em caminhar, não se muda de bengala em cada caminhada; neste caso, não se muda de nome.

Ao longo da vida, a oração silenciosa apoiar-se-á nesse nome, sempre o mesmo. Isso tem um efeito simplificador: mal pronunciamos o Nome interiormente, entramos em oração, sem termos de nos interrogar sobre a forma como fazê-lo hoje. Mais misteriosamente ainda, esse Nome torna-se no caminho da interioridade, permitindo manter-nos no fundo, eliminar toda a agitação em que estamos superficialmente mergulhados. É difícil de explicar, mas todos aqueles que fazem essa experiência confirmam esta ideia: o Nome permite-nos ter mais rapidamente acesso àquele lugar de silêncio, àquele lugar santo que trazemos em nós, santuário onde Deus reside. Como se, através do Nome, conhecêssemos o caminho desse santuário.

O nome de Deus 
Se cada um tiver sempre a liberdade de usar a palavra que lhe for mais natural, só podemos recomendar a oração apoiada numa palavra que seja um nome de Deus. Dizer o nome de alguém é, ao mesmo tempo, designá-lo a ele, e não a outra pessoa, fazer referência àquilo que ele é, mas sem por isso o definir. Quando falamos de alguém, ou a alguém, utilizando um diminutivo, um título ou uma qualidade psicológica ou profissional, apoderamo-nos muito mais daquele a quem designamos, delimitando o ponto de vista a partir do qual o vemos, e que nos interessa. Se eu vou «ao médico», a vida afetiva deste ou o seu gosto pela pintura não me interessam, só espero dele que seja médico, e um bom médico. Se designamos alguém por um diminutivo, como «o Luisinho», isso torna muito difícil termos sempre presente que o Luís é grande sob outros aspetos da sua pessoa, mesmo que seja baixinho.

Quando falamos de Deus como «o Salvador» ou «o Criador», aquilo que dizemos é verdade, mas limita, de igual modo, a nossa perceção de Deus. Nós escolhemos um aspeto do mistério que nos toca ou que nos interessa, correndo sempre o risco de pensar que esse aspeto revela o Mistério, revela Deus na sua globalidade. Pelo contrário, se dizemos «Deus» ou «Jesus», não os abordamos por aquilo que Eles fazem por nós, mas por aquilo que Eles são, e que nos escapa. Quando dizemos o nome de alguém, colocamo-nos em relação com ele e, ao mesmo tempo, não dizemos nada dele, não temos a ilusão de o definir.

O conhecimento que nós temos de Deus não é da ordem da definição, da descrição. Um monge ortodoxo do fim da Idade Média escrevia: «Com efeito, desde que o pensamento não cesse de proferir o nome do Senhor, e que a inteligência esteja claramente atenta à invocação do nome divino, a luz do conhecimento de Deus cobre com a sua sombra toda a alma como uma nuvem resplandecente. A recordação exata de Deus gera o amor e a alegria».

Encontramos com frequência textos espirituais que designam Jesus Cristo como «meu Esposo», ou «meu Irmão», ou «o Bom Pastor»; tudo isso é possível, tem a sua parte de verdade, mas corre-se o risco de encerrar a relação com Cristo num registo simbólico, esquecendo-se de que Aquele de quem se fala se situa para lá de todas essas fórmulas. Nenhuma delas é adequada para dizer plenamente quem Ele é. Para não o encerrarmos numa maneira de dizer que é verdadeira, mas limitada, tentaremos enunciar todas as palavras possíveis, como se pode fazer nas litanias, ou limitar-nos-emos a uma palavra que contém todas as outras, porque não designa uma qualidade, um ato ou uma função, mas Alguém. Dizer o nome de Deus significa colocarmo-nos na presença daquele que é santo, para lá de toda a medida humana, como São Pedro Crisólogo ensinava, no século V, a propósito do Pai-nosso: «Nós [...] pedimos para merecermos ter nos nossos costumes tanta santidade, quanto é santo o nome de Deus».

Invocar o nome do Senhor: eis uma definição muito antiga da oração, segundo o versículo do profeta Joel, retomado por São Paulo: «Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo» (Jl 3,5; Rm 10,13). Invocar o nome do Senhor é voltarmo-nos para Ele, abandonarmo-nos a Ele, sem lhe apresentarmos qualquer pedido particular. Se a salvação está ligada a essa invocação, não será porque o ser humano se coloca por ela no seu justo estatuto de criatura, incapaz de se salvar por si mesmo?

Num dia 1 de janeiro, Francisco de Sales enviou uma peque na carta a Joana de Chantal, antes de esta ter fundado a Visitação. À laia de desejos de bom ano, animou-a a proferir o nome de Jesus interiormente, com amor, a fim de que a sua presença marcasse toda a sua vida e todo o seu ser:

«Minha filha, a minha pressa é tanta, que só tenho para vos escrever a grande palavra da nossa salvação: Jesus. Sim, minha filha, que nós possamos, pelo menos uma vez, pronunciar esse nome sagrado do fundo do coração. Ó, que bálsamo ele espalharia sobre todas as potências do nosso espírito! Como ficaríamos felizes, minha filha, se tivéssemos apenas Jesus no entendimento, Jesus na memória, Jesus na vontade, Jesus na imaginação! Jesus estaria em toda a parte em nós, e nós em toda a parte nele. Treinemo-nos nisso, minha queridíssima filha, pronunciemo-lo, muitas vezes só o conseguiremos balbuciar, no fim, porém, conseguiremos pronunciá-lo bem. Mas que significa pronunciar bem esse nome sagrado? De facto, pedis-me que eu vos fale claramente. Infelizmente, minha filha, não sei; sei apenas que, para pronunciá-lo bem, há que ter uma língua toda de fogo, ou seja, devemos pronunciá-lo só por amor divino que, sem mais, exprime Jesus na nossa vida, gravando-o no fundo do nosso coração. Coragem, porém, minha filha, sem dúvida amaremos a Deus, porque Ele nos ama. Pensai nisto com alegria e não permitais que a vossa alma se perturbe com coisa alguma».

Deixar aquilo que não é Deus 
Proferindo interiormente esta simples palavra, o espírito volta-se para Deus, da forma mais radical possível. É-nos difícil, ou até impossível, estarmos completamente voltados para Deus sem nos distrairmos durante meia hora ou uma hora, mas será que não nos conseguimos empenhar o mais completamente possível apenas o tempo necessário para dizer uma palavra? Em seguida, só teremos de recomeçar. Esse movimento para Deus requer duas coisas: que deixemos tudo o que nos ocupa e que mobilizemos a nossa atenção, voltando-nos para Deus com fé. Escrevia Dom Chapman, monge inglês que viveu no início do século XX: «O caminho mais simples para fazer um ato de atenção a Deus é fazer um ato de inatenção a tudo o resto».

Esta forma de rezar baseia-se, com efeito, num movimento de desapego em relação a tudo o que não seja Deus. Devemos, portanto, desligar-nos de qualquer preocupação, de qualquer ideia, de qualquer recordação, boa ou má. Desligarmo-nos não é rejeitar ou esquecer, mas largar, pelo menos temporariamente, para nos podermos dar a Deus. Pôr de lado, para nos recentrarmos na presença de Deus. Na verdade, tudo isso nos pode encher a cabeça, mesmo que sejam ideias muito piedosas ou a solicitude cheia de caridade para com o nosso próximo. Mesmo que seja bom, a oração não é o momento para isso.

Se quisermos prestar atenção às confidências de um amigo, tentaremos desligar-nos dos ruídos da rua, que, noutras circunstâncias, nos poderiam fazer olhar pela janela. Deixaremos também as recordações, boas ou más, que temos das suas outras visitas, pois elas impedem-nos de o receber tal como esse amigo se encontra hoje. Todo o tipo de ideias ou de imagens atravessar-nos-ão a mente, mas nós deixá-las-emos passar, para nos mantermos atentos àquilo que ele nos diz hoje. E essa atenção não será apenas a concentração do cientista debruçado sobre a sua experiência, mas a manifestação do amor que nos habita."

In SNPC

Em carne viva

De que carne se fez Deus?

"O que distingue um ser humano de um cadáver é que o ser humano é carne e o cadáver é matéria. Temos plena consciência da dureza da afirmação que acabou de ser proferida. Mas a vida – olhe-se em redor e veja-se o que se passa fora dos ambientes adocicados pelo ar condicionado – é diamantinamente dura e não se compromete com mentiras, antes delas se livra assim que pode. A radical verdade do ato do real acaba sempre por emergir, aniquilando toda a impostura, toda a ilusão.

O que se comemora no Natal não é algo outro que não a humana e terrena consubstanciação do amor de Deus pelo mundo e pelos seres humanos na forma da carne. Repetimos, na forma da carne. O bebé Jesus não é um espírito com carne, um fantasma que se reveste de matéria, o bebé Cristo é carne. E por tal, rigorosamente por tal, é vida, a Vida.

O literal advento de Deus na forma da humana carne é o momento culminante do ser: não há ser mais perfeito do que este. Os anjos nunca tiveram um Deus que fizesse o equivalente a “incarnar” em forma de anjo. E os anjos, segundo o forte mito cristão, bem disso necessitam, pois é da sua estirpe o tentador. Mas não há incarnação do bebé Jesus para as criaturas-anjo em carne-de-anjo, pois esta última não existe.

Melhor, há uma incarnação, mas é no modo da colateralidade da assunção da plena forma humana: este ato, em humana carne, é dado ao todo do criado, mas é dado na forma precisa da carne. Não numa outra qualquer. Significativo. Porque não há uma outra qualquer. Só o ser humano possui carne.

Desta carne não se encontra no talho, salvo no talho da humana perversidade histórica, quando a carne humana sacrifica a carne humana. Como se fez ao menino Cristo em tempo pascal.
Mas a carne humana do menino já homem assim sacrificado, incarnando a morte, revisitou o mundo em que nascera, amara, fora morta.

Só há Páscoa como Segundo Natal. O Natal só termina, isto é, só começa na madrugada do retorno da carne ao mundo que a vira nascer, crescer – em sabedoria e graça – e morrer. Os Natais, Primeiro e Segundo, significam o nascimento, crescimento, morte e ressurreição da carne. Mas significam, sobretudo, que a carne, se morre, não é aniquilada: é Cristo-amor que desce aos infernos, não é um fantasma ou uma ideia de Cristo que o faz. Não há, nesta descida, um «que», há um «quem» e não há «quem» sem carne, não um «quem» humano, e Cristo é sempre plenamente humano ou não é Cristo.

É a carne de Cristo, que é o seu amor em forma humana – a carne de Cristo é a forma humana do seu amor –, que desce aos infernos; é ela que, é ele que, nela, ressuscita, trazendo as marcas da perversidade da morte, morte que a carne assume, transfigura, anula como ato retransfigurado, como marca incarnada da vitória da vida. A vida do ressuscitado assume e transporta consigo a morte, parte fundamental da vida. Só os mortos ressuscitam: é preciso morrer para que se possa ressuscitar.

Natal é a sagração, a eucaristização da carne. O espírito de Deus desprofaniza definitivamente a matéria. Uma vez incarnada por Deus, a matéria torna-se, toda ela, sagrada.
Não é, pois, na matéria que reside o mal do mundo. É na relação carnal do ser humano com ela.

Qual é a minha relação com a matéria?

Sigo o paradigma divino do menino-Deus, assim a santificando ato após ato? Ou sigo o paradigma da besta, assim a pervertendo, ato após ato?

Que mundo é o meu, o da sagrada carne de Jesus ou o do profano cadáver, não do que me transcende, mas de mim mesmo?

Neste Natal, escolha-se, sabendo que, desde há cerca de dois mil anos, não há já desculpa.
Bem-vinda Santa Carne!"

Américo Pereira, Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
SNPC

Ética da Atenção

Advento: atender e estar atento

A “atenção” (attentio) vem de “atender” (attendere) e significa orientar o espírito e a mente para aquilo que vem. Esta orientação corporal de si pressupõe a vigilância e a meditação enquanto experiência espiritual e lugares onde se exercita a atenção. A oração é um ato corpóreo, de quase suspensão do tempo e do espaço, de mobilização sensível que nos envolve totalmente na reciprocidade de uma relação. O tempo de advento é um tempo de exercitação da atenção, de prática de uma “ética da atenção”, como escreve a filósofa francesa Natalie Depraz (in Attention et vigilance. À la croisée de la phénoménologie et des sciences cognitives).

Atender é olhar o tempo de um outro modo, a partir da doação e da dádiva. Dar tempo, é dar-se por inteiro nesse tempo de espacialidades e vida cruzadas, sem o esgotar e sem se esgotar, é um ato de reconhecimento de que a condição temporal nos é dada; é a acreditação da possível vinda de… Dar o seu tempo é ser dom para os que se sentem esquecidos nas brumas temporais da história, sem eternidade. Dar algo do seu tempo, é fazer do presente grávido de futuro promitente; é atender, olhar o outro/a, é dizer que em cada sobressalto invernal pode florir uma amendoeira; é perguntar: O que te perturba?” (Simone Weil). Vigiar é atender, qual ato litúrgico expectante de floração em tempos de “esplendor do caos” (Eduardo Lourenço) e de barbárie.

Muitos são os lugares e espaços expressivos do exercício vigilante da vida, de desabrochamento da criatividade adormecida dos humanos. A arte, em sua manifestação profunda da condição humana de outrem (além do contentamento autobiográfico), é uma das expressões onde se poderá exercitar essa “ética da atenção”, do olhar proexistencial e proafetivo, de cuidado das vítimas da voragem mecânica dos mercados e da solidão inóspita do abandono total.

Simone Weil, filósofa e mística de olhos abertos ao drama do homem moderno, dá corpo à «ética da atenção», quando, no seu livro À espera de Deus, escreve que «não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo senão de homens capazes de lhe prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre; é um milagre».

O ato sábio de saber olhar não é algo inato. A visão sim! O olhar exige aprendizagem em profundidade e amplitude. O olhar, se o é, é sempre um olhar atento, de expectação e pasmo diante do que ou de quem nos chega como absolutamente inesperado. Por que será que deixamos de nos espantar? A filosofia é tida como a arte do questionamento, melhor a arte do espanto diante dos fenómenos que vêm até nós à espera de acolhimento interpretativo. Paul Tillich, filósofo e teólogo crente, tem razão quando escreve que «a espera antecipa o que não é ainda real. Se esperarmos com esperança e paciência, o poder daquilo que esperamos age em nós… Nós somos mais fortes na expectativa do que na posse».

Na base da vigilância está a atenção e a meditação. A atenção porque coloca o sujeito em estado de tensão, de atendimento, de mobilização corpórea da sua sensibilidade para o que vem ou que possa advir de qualquer evento, do interior ou do exterior, de si ou da relação intercorpórea com a “carne do mundo”. A meditação porque ela exercita e coloca em ato a mente corpórea, o estar no mundo como devir, como processo, à espera da irrupção do novo que advém imprevisivelmente. A «atenção é uma espera, e não há consciência sem uma certa atenção à vida. O devir é aí: ele chama-nos, ou melhor ele nos atrai para ele; esta tração ininterrupta, que nos faz avançar sobre a rota do tempo, é a causa de agirmos continuamente. Toda a ação está sedimentada sobre o futuro» (Natalie Depraz) que vem inesperadamente até nós.

De igual modo, o neurofisiologia alemão Wolf Singer assegura que a «meditação é um processo muito ativo, que exige atenção em grande medida, como processos de aprendizagem, que levam a mudanças duradouras das redes neuronais respetivas... Atividades do cérebro deixam vestígios» (referência facultada pelo professor Manuel Moreira Costa Santos). Esta atividade meditativa, mobilização sensível toda de si ou de uma comunidade, gera uma prática intercorpórea da atendibilidade. A meditação profunda, exercitada quotidianamente, é um ato de kenose, de descentramento e despojamento de si, que permite imaginar novas realidades e transfigurar a existência a partir da palavra, do gesto, do silêncio, do encontro, da saudade, da promessa ou da angústia…

A experiência de tudo isso, como uma constante e variante existencial, precede as pias formulações inquestionáveis. A experiência cristã vive da parusia, da atendibilidade, e por isso, o crente dirige a sua atenção, o seu olhar, o seu movimento corpóreo singular e comunitário para à vinda do corpo glorioso. Adventus de advenio, advinda, chegada ou vinda (de algo para vir). A conversão do olhar e de acolhimento afetivo do Outro que nos chega, que surpreendentemente nos aparece e advém até nós. Atender é tornar-se disponível para o quotidiano e para a sua possível transfiguração. A atenção é uma espera, que «não possuímos, e por isso mesmo esperamos» (Paul Tillich), na surpresa e no espanto de um novum existencial.

Este ato de espera é simultaneamente passivo-ativo. Passivo porque nos é dado, está para além das nossas capacidades e méritos, tal como recebemos o nosso nascimento passivamente. Ativo porque envolve a pessoa toda, o seu empenho e compromisso ao longo da sua existência com os outros. E, nesse sentido, é um ato livre, consciente e responsável do humano crente, de reciprocidade aceitante ou não daquilo que vem como dom, como oferta e como totalidade.

Para Natalie Depraz, que tem procurado realizar um profícuo entrelaçamento entre fenomenologia, espiritualidades ortodoxa e neurociências, existe uma ética atencional que «é um movimento de abertura orientado para as coisas, para os outros e para o mundo; ser consciente, é ser consciente de qualquer coisa». Esta consciência corpórea, na medida em que o corpo se movimenta no espaço intersubjetivo de relação a outrem, é uma consciência em vigilância, «qualidade de presença a si que é condição de presença justa aos outros».

Esta dimensão particular do tempo que envolve a espera ativa e vigilante, na atenção e na meditação orante, parece ter desaparecido em geral da experiência cristã contemporânea, excetuando algumas e belas experiências monásticas de alto perfil antropológico. Paradoxalmente, o esquecimento de uma “teologia do advento” enquanto “ética da atenção e da vigilância” é o mais puro esquecimento de Deus feito carne, de uma vida crente centrada mais na formulação doutrinária, na organização estrutural (sedimentação do presente) sem profecia nem poesia.

Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, num artigo recente, di-lo doutro modo: «Eis o verdadeiro Natal cristão: nós recordamos o teu nascimento em Belém, Senhor, atendemos a tua vinda gloriosa, acolhemos o teu nascimento em nós, hoje. Por isso o místico do século XVII Angelo Silesio podia afirmar: "Mesmo que Jesus nascesse mil vezes em Belém, se não nasce em ti… tudo é inútil"».

João Paulo Costa
SNPC

Um Deus que ri

Deus numa criança que brinca

«Quando a Beata Umiliana de'Cerchi jazia no seu leito por causa da doença, eis que uma criança de quatro anos ou pouco menos, de rosto belíssimo, se entregava à brincadeira precisamente na sua cela, diante dela. Quando a viu, experimentou grande alegria, acreditando que fosse um mensageiro do sumo Rei.

Dirigindo-lhe a palavra, disse: "Caríssimo menino, não sabes fazer mais nada a não ser brincar?". E a criança: "Que mais quer que faça?". A Beata Umiliana: "Desejo que tu me digas alguma coisa de belo sobre Deus". E a criança responde: "Acha que é bom e acertado que alguém fale de si próprio?"» (Ir. Vito da Cortona).

Esta deliciosa narrativa está presente na "Vida da Beata Umiliana de'Cerchi" (1219-46), escrita pelo Ir. Vito da Cortona e recolhida no volume "Escritoras místicas italianas" (1988).

A mística florentina acredita que naquele pequenino se esconde um anjinho, todavia é o próprio Deus que escolhe representar-se não só numa criança, mas numa criança que brinca.

Não nos esqueçamos que já no livro bíblico dos Provérbios (8, 30-31) a Sabedoria divina era representada como uma jovem que brincava no horizonte do mundo, deliciando-se e divertindo-se.

É sugestivo este apelo a reencontrar a capacidade de sorrir e o gosto da serenidade como dons divinos. Nas pequenas coisas pode aninhar-se uma centelha de felicidade superior a certos prazeres freneticamente perseguidos.

Até o acre sábio bíblico Qohélet repete sete vezes no seu livro que é necessário saber colher os pequenos frutos de alegria disseminados numa existência amarga e obscura.

Deus espera-nos, por isso, não tanto nas grandiosas epifanias de luz (embora por vezes aconteça também assim) mas no jogo quieto e sereno de uma criança, ou seja, na simplicidade, na pureza, no dia a dia. Um Deus que sorri e se alegra de modo límpido e normal.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC a 22 de dezembro de 2015

O lado feio do Natal

E porque ser cristão é também ter os olhos bem abertos, proponho a leitura deste texto para pensarmos seriamente no que queremos trazer para o sapatinho:

Os brinquedos

"Olhar para os brinquedos oferecidos no Natal debaixo da árvore, desembrulhá-los com excitação e brincar com eles é uma experiência encantadora para muitas crianças em todo o mundo. Mas raramente pensamos de onde é que os brinquedos vieram, quem os fez e sob que condições foram fabricados.

Uma organização norte americana de defesa dos direitos laborais e humanos (Institute for Global Labour and Human Rights, IGLHR) publicou o relatório “Dirty toys made in China” (“Brinquedos sujos feitos na China”) sobre as condições de trabalho existentes na fábrica Dongguan Zhenyang Wanju Limited.

A unidade, que produz brinquedos e bonecas para empresas como a “Disney”, “Hasbro” e “Mattel”, que os distribuem na Europa, EUA e Austrália, emprega mais de mil trabalhadores e 800 pessoas, temporárias e estudantes, muitas das quais não têm mais de 16 anos, em condições quase geladas, que recebem 1,36 dólares norte-americanos por hora.

Os trabalhadores estão proibidos de se afastarem das suas áreas de trabalho e nem sequer podem parar para beber água. E dado que os níveis de ruído são extremamente altos em algumas secções, alguns colaboradores há mais tempo na unidade sofreram perdas de audição.

O relatório refere também que os colaboradores estão em movimento acelerado constante para responder à pressão das quotas de produção. Há trabalhadores a relatarem que «ambas as mãos têm de estar constantemente em movimento».

A quota para uma equipa de 36 trabalhadores na produção de carrinhos de brinquedo é de 11 mil peças por dia, o que significa que cada empregado tem de fazer 306 unidades por turno. Uma operária afirmou que era obrigada a produzir 2 400 pernas para bonecas da “Disney”: «Não se pode afastar os olhos por um segundo».

Na secção de pintura e impressão, que estão cheias de fumos tóxicos, não é oferecida aos trabalhadores a possibilidade de usarem máscaras com filtro, o que em alguns causa náuseas e tonturas.

E depois de trabalhar pelo menos 12 horas nestas condições desumanas, os trabalhadores têm de dormir em estreitos beliches de madeira, dispostos em dormitórios a abarrotar.

De acordo com o organismo de proteção dos direitos laborais, os seus contactos no terreno relataram um aumento do número de ativistas presos, enquanto outros “desapareceram”.

Empresas «como a “Disney”, “Hasbro” e “Mattel” têm certamente o poder para negociar melhorias modestas para os 1800 trabalhadores em Zhenyahng. Já é mais que tempo que a “Disney, “Hasbro” e “Mattel” tomem medidas concretas para melhorar as condições dos seus trabalhadores chineses. Não é pedir muito», afirmou o diretor do IGLHR.

A organização disponibiliza na sua página a lista das sete empresas de brinquedos fornecidas pela fábrica, bem como uma carta, pré-escrita, em que se expressa a preocupação quanto às injustiças sofridas pelos trabalhadores. São precisos menos de cinco minutos para enviar uma mensagem a todas as companhias.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja sublinha que «o trabalho tem uma prioridade intrínseca em relação ao capital», pelo que as pessoas são mais importantes do que o dinheiro.

O documento cita a encíclica “Laborem exercens”, de S. João Paulo II, quando preconiza a «urgência de dar vida a sistemas económicos nos quais a antinomia entre trabalho e capital seja superada». Mas, ao contrário, «os progressos científicos e tecnológicos e a mundialização dos mercados, de per si fonte de desenvolvimento e de progresso, expõem os trabalhadores ao risco de ser explorados pelas engrenagens da economia e pela busca desenfreada de produtividade».

Uma maneira de começar a parar esta exploração laboral é responsabilizar as empresas pelos abusos cometidos, através dos quais obtêm lucros astronómicos à custa dos direitos dos trabalhadores. Para que o encantamento das crianças não aconteça sobre a desumanização de muitos."

por Tony Magliano in "National Catholic Reporter"
Tradução de Rui Martins para SNPC a 22 de dezembro de 2015

Há dois anos

Permito-me publicar este artigo de opinião/crónica publicado no jornal SOL, a 10 de dezembro de 2015, como reacção às afirmações do economista no canal de televisão Porto Canal a propósito da lei da adopção gay. Pedro Arroja, além desta polémica é conhecido pela sua posição conservadora e pela manifestação das suas opiniões pouco consensuais. 

Pedro Arroja no seu melhor
Alguns exemplos das frases proferidas por Pedro Arroja nos meios de comunicação social são: 
"Elevar mulheres à direção de partidos é enfraquecer o espírito partidário"
In Visão

"Duas mulheres ou dois homens a criarem uma criança geram desequilíbrios. Com duas mulheres tenderá a ser uma atada; com dois homens poderá ser violenta."
"A relação homossexual é um desequilíbrio"

“Eu sou um homem. (…) Tenho pénis, testículos… Não fui eu que os fiz. (…) Posso facilmente imaginar-me a perguntar à minha mãe: “Olha, tu sabes fazer pénis?” e estou a ouvir a resposta da minha mãe: “Oh filho, eu sei lá fazer uma coisa destas!” (…) Ela fez quatro! Mas não sabe fazer pénis!”
[Pedro Arroja garante que se fosse uma criança novamente e pudesse escolher se queria como pais um casal hetero ou homossexual, de mulheres ou homens, escolheria o heterossexual:]
“Porque um homem e uma mulher vão-me ensinar na vida um caminho e um caminho que percorrerei com equilíbrio e com moderação (…) E quanto aos outros? Se tivesse de escolher um dos outros? Eu diria – Seria mau. Ser educado ou por duas mulheres ou por dois homens (…) Mas se tivesse de escolher antes quero ser educado por um casal de duas mulheres do que por dois homens. Porque [com as mulheres] corro o risco de ser um atado (…), mas ali [com dois homens] corro o risco de ser um brutamontes.”
In Porto Canal e artigo de Joana Martins na RTP

E agora o artigo de opinião prometido:

"Fora com os pretos, gays e pénis não moldados por Deus. Obrigado pela clarividência, Pedro Arroja

É de manhã cedo. Saio de casa de axilas bem lavadas (à 4f é dia de axila e amanhã dou um esfreganço nas virilhas e restante área escrotal), dou um pontapé num preto que estava no meu alpendre a fazer uma pausa na lavagem do chão e sigo para a missa a assobiar o “My Dick Is a God’s Masterpiece”, o hit que é faixa número 1 do disco “Now 1647”.

Tudo impecável na missa. Gosto do padre. Ficámos há dias a saber que tinha abusado de uma criancinha, por esta ter feito queixa. O que vale é que ficou tudo tratado num instante, o clero matou a criança, enfiou o corpo numa santa lá da Igreja, e abafou o caso rapidamente.

Saído da missa com os meus valores morais alinhados com o bem da Humanidade, vou ter com o meu grande amigo e tutor Pedro Arroja. Queixo-me que os meus pretos estão a trabalhar pouco e já os tive que obrigar a construir uma prisão dentro da sua própria sanzala. E eles “uma prisão na sanzala é um pleonasmo, Senhor dos Senhores Diogo Faro!” – “Pleonasmo? Que merda é essa? Levas é já 200 chibatadas pa’ te calares!”. Ao contar isto ao grande Arroja, ele pergunta-me: “Os teus pretos estão sempre a fornicar?” – “Sim! Gostam imenso daquilo, parecem pessoas!” – “Logo vi. É por isso que trabalham menos! Vai antes buscar chineses ou romenos. São mais fáceis de domesticar.”.

Vamos então para casa dele onde a inútil da mulher dele - como todas as mulheres, diga-se – está a tentar fazer o almoço que nem uma barata tonta. Lá tem que ser ele a espetar-lhe um par de lambadas para ela se orientar e perceber o caminho para o fogão. É impressionante como há mulheres quase tão inúteis como muçulmanos. O que vale é que as coisas nas Cruzadas estão a correr bem. Ouvi dizer pelo estafeta que veio agora do Norte de África que os nossos cristãos têm andado a dizimar milhões de infiéis. Se ao menos alguém inventasse engenhos que explodissem no meio de multidões, matavam-se às dezenas de cada vez, arrumava-se com essas tentativas de religiões e poupava-se muito tempo e dinheiro! Enfim, talvez daqui a uns séculos…

Preciso de me arrebitar neste dia cinzento. Estou indeciso entre dois espectáculos tradicionais para ir ver agora à tarde com o meu amigo Pedro Arroja que é um grande apreciador de ambos. Não sei se vá ver gays a ser apedrejados, enquanto estão pendurados pelos seus pénis moldados pelo Diabo no pelourinho da cidade, até à morte ou até gritarem que adoram mamas; ou se vá antes ver uma rica tourada e levo também os meus putos a ver o touro esvair-se lentamente em sangue perante a supremacia do Homem.

São ambos educativos, mas o primeiro é mais caro porque, às vezes, os apedrejados além de gays são pretos e os gajos aproveitam para cobrar um bilhete duplo. Escandaloso.

Vou-me decidir entretanto e logo vos conto como correu. Por agora, tenho que voltar ao meu bairro para ver o que se passa: ouvi dizer que está uma gritaria descontrolada algures numa das zonas, acho que é no bloco da esquerda.
Pedro Arroja, um abraço e não te esqueças de escrever no testamento que doas o teu cérebro à ciência. Vai ser giro daqui a 5 ou 6 séculos, lá para século XXI, os cientistas verem como eras brilhante."

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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