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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Desporto e espiritualidade

As olimpíadas e o cristianismo

"As festas de Olímpia no Peloponeso eram as mais antigas e celebradas da Grécia clássica, ao ponto de se tornarem, na sua cadência quadrienal a medida de rferência da própria cronologia. As várias competições desportivam tinham como base uma visão geral da pessoa, da sociedade e da própria cultura. A "paideia", isto é, a formação grega da pessoa, associava-se à "euritmia", ou seja, a harmonia física (pense-se nas imagens das pinturas vasculares ou no "Discóbolo" do escultor "Míron). As mesmas Olimpíadas ligavam-se à poesia, como atestam as "Olímpicas", célebres odes de Píndaro (séc. V a.C.) e as dos poetas Simónides e Baquilides.

Por ocasião do acontecimento olímpico do Rio de Janeiro, tentaremos um esboço sobre a relação entre desporto e espiritualidade no cristianismo. O judaísmo, a esse respeito, foi mais reticente, por causa do risco de contaminação idolátrica, como aconteceu em alguns judeus "traidores" durante a grande epopeia dos macabeus. Eles, com efeito, entravam nus nos "ginásios", as sedes educativas e desportivas helenistas, e chegavam ao ponto de se submeter a uma intervenção cirúrgica, dita em grego "epispasmós", para eliminar o sinal da circuncisão.

A reserva anti-idolátrica estava presente também em alguns Padres da Igreja - reserva que se alargava aos espetáculos teatrais -, que se opuseram aos Jogos Olímpicos, como Ambrósio, que impede o imperador romano Teodósio de os repropor em 393. Na raiz, além do risco de contaminação com a idolatria e o paganismo, havia a crítica ao exibicionismo dos atletas que, através do exercício físico, pareciam contradizer ou deformar a obra do Criador em relação ao corpo humano.

Todavia, diferente foi a atitude nas origens cristãs primordiais. O próprio Jesus, efetivamente, tinha partido do jogo das crianças para definir a geração que o estava a ouvir, incapaz de uma opção como aqueles jovens que, «estando sentados na praça gritam aos companheiros: tocámos a flauta e não dançastes, entoámos lamentações e não batestes no peito» (Mateus 11, 16-17). Dito por outras palavras, àquelas crianças tinham sido propostos os jogos mais díspares, como imitar uma festa de casamento ou um funeral, mas elas tinham sempre oposto uma recusa pouco amigável.

É, contudo, sobretudo S. Paulo que, por diversas vezes, recorre a metáforas desportivas para delinear o compromisso apostólico e do cristão. Em particular, ele faz referência à corrida no estádio e ao pugilismo, dois desportos muito praticados na sociedade greco-romana.

Interessante é um parágrafo da Primeira Carta aos Coríntios onde é usado o léxico técnico desportivo: «Não sabeis que nas corridas no estádio todos correm, mas só um conquista o prémio? Correi também vós de modo a conquistá-lo. Mas cada atleta ("agonizómenos", "que compete lutando") submete-se em tudo à disciplina. Fazem-no para onter uma coroa corruptível, nós, ao contrário, incorruptível. Eu, portanto, corro mas não como quem está sem meta. Faço pugilato ("pyktéuô", "faço com murros"), mas não como alguém que bate no ar. Na realidade, atinjo duramente ("hypopiàzô", literalmente "atinjo sob os olhos", isto é, no ponto mais fraco do adversário) o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, depois de ter pregado aos outros, eu próprio seja desqualificado» (9, 24-27).

Também naquela espécie de testamento que ele endereça ao seu fiel colaborador Timóteo, o apóstolo, depois de ter usado imagens rituais (o ser «entregue em libação»), náuticas ou nómadas («desfazer as velas» ou «as tendas») e militares («combati a boa batalha»), recorre à cena desportiva da corrida no estádio para exprimir o seu compromisso total em conservar alta a chama da fé. A frase em grego é até ritmada, "ton drómon tetélexa, ten pístin tetéreka", «levei ao termo a corrida, conservei a fé» (2 Tomóteo 4, 7). E continua, referindo-se sempre à simbologia desportiva: «Resta-me a coroa de justiça que o Senhor, justo juiz, me entregará nesse dia, não só a mim mas a todos aqueles que esperaram com amor a sua epifania» (4, 8).

Chegados aqui não podemos, contudo, ignorar um capítulo que é dramaticamente verdadeiro também para o desporto. Em termos religiosos é o exercício da liberdade no pecado que atinge também este âmbito. Assim, o jogo-desporto torna-se lucro económico, e já não é mais livre exercício; o espetáculo transforma-se em doença violenta (a palavra italiana "tifosi", "adeptos", baseia-se no grego "typhos", "febre"); a beleza e a força física são devastadas pelo "doping", falsificando o exercício desportivo que nas Olimpíadas gregas era dito "àskesis", isto é, "ascese". Ela amplia ao máximo a potencialidade do organismo, tornando o ato físico natural e espontâneo, como acontece à dançarina clássica ou ao atleta autêntico. Além disso, o jogo, de instrumento até de cura ("ludoterapia"), degenera em formas maníacas ("ludopatia"). As sublevações mais ameaçadoras e obscuras do ser humano revelam-se através da brutalidade, a vulgaridade e o racismo nos estádios.

Uma nota particular de partilha e de apoio merecem, ao contrário, os atletas dos Jogos Paralímpicos que não se deixam vencer pela sua deficiência, empenhando-se em superá-lo num desafio contínuo a ir mais longe, em direção a uma meta mais prestigiosa. Assim, além de representarem um verdadeiro e próprio exemplo no desafiar os limites das possibilidades físicas - alma de toda a competição desportiva -, são chamados a superar também a fasquia da sua deficiência. São, por isso, pessoas que podemos legitimamente considerar "duplamente atletas".

As Paralimpíadas nasceram oficialmente nos anos 60 do século passado, contribuindo para contar e representar inúmeras histórias de feitos atléticos, acompanhadas de emoções, sentimentos, lágrimas e sorrisos, alegrias e sofrimentos. Permitiram descrever autênticos feitos heróicos, ajudando-nos a superar preconceitos ancestrais, lugares-comuns destituídos de qualquer fundamento. Comovemo-nos com estas mulheres e estes homens, vendo demolidos os muros da indiferença e do ceticismo, da suficiência coberta de comiseração, admirando-os pela coragem e pela orgulhosa dignidade dos seus gestos atléticos, convictos de que as medalhas por eles conquistadas não valem menos do que as olímpicas.

Concluímos regressando à relação entre jogo e religião, fazendo-o, em espírito ecuménico, com uma bela representação que Lutero delineia da meta paradisíaca precisamente na base da analogia do jogo: «Então o homem com o Céu e com a Terra, jogará com o Sol e com todas as criaturas. E todas as criaturas experimentarão um prazer imenso e uma felicidade lírica e rirão contigo, Senhor». Também o monge Notker, da abadia de S. Galo, falecido em 912, poeta, músico e bibliotecário, descreveu assim a Igreja que joga em paz sob a videira fecunda, símbolo de Cristo, no jardim celeste: «Eis, ó Cristo, a tua Igreja que joga serena e em paz á sombra de uma videira luxuriante»."

Card. Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura In "Italpress"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC em 31 de julho de 2016

Auto-retratos de um fotógrafo homossexual



Um adolescente gay e o desporto

"Enquanto cresci, num subúrbio de Nova Jérsia, os rapazes da minha idade estavam constantemente preocupados com o desporto", disse o fotógrafo Ryan James Caruthers ao "Huffington Post". A brutalidade, o "bullying", a ansiedade e o erotismo são os principais ingredientes do projecto "Tryouts", que explora, através de auto-retratos, a relação do fotógrafo com o desporto enquanto adolescente homossexual. 

"Eu senti-me sempre desligado das demonstrações tradicionais de masculinidade, os meus interesses estavam noutras áreas." A destreza e a força inerentes à prática de exercício físico não eram uma aptidão natural de Ryan. Ser atlético era tido como sinónimo de masculinidade e Ryan interpretou o seu desinteresse pelo Desporto como uma rejeição do seu próprio género. "O meu corpo nunca me pareceu convencional, sempre fui magro e frágil."

Ryan sentia-se diferente de todos os rapazes da sua escola e de todos os homens, em geral, e acreditava que o desporto e a pressão para a prática e demonstração de força teve influência na pessoa em que se tornou. "Estou seguro de que a minha história é semelhante a muitas outras. As interacções sociais que experimentamos enquanto adolescentes têm grande influência sobre quem nos tornamos", acrescentou. "Acredito que é nessa altura que a nossa identidade está no ponto mais frágil."

Ver em P3
Conhecer o trabalho de Ryan James Caruthers

Clericalismo e fariseísmo

Papa fala sobre o clero

"Ser anunciador de uma verdade não chega, é preciso ser humilde, próximo e coerente, pois só assim se conquista autoridade e confiança junto dos crentes, frisou hoje o papa na missa a que presidiu, no Vaticano.

A homilia, centrada na leitura do Evangelho proclamada nas missas desta terça-feira (Marcos 1, 21-28), criticou os comportamentos dos pregadores e responsáveis religiosos que se afastam do povo e não mostram coerência entre palavras e atos.

«[Jesus] tinha uma atitude de servidor, e isso dava autoridade. Ao contrário, estes doutores da lei que as pessoas, é verdade, escutavam, respeitavam, mas não sentiam que tivessem autoridade sobre elas, tinham uma psicologia dos princípios: “Nós somos os mestres, os príncipes, e nós ensinamos-vos. Não serviço: nós comandamos, vós obedeceis”», apontou o papa, citado pela Rádio Vaticano.

Por ser próximo, «Jesus não tinha alergia às pessoas: tocar os leprosos, os doentes, não lhe causava repugnância», enquanto os fariseus e doutores da lei se mantinham distantes dos crentes, prosseguiu.

Os religiosos do tempo de Jesus «tinham uma psicologia clericalista: ensinavam com uma autoridade clericalista, isto é, o clericalismo», declarou Francisco.

«Primeiro, servidor, de serviço, de humildade: o chefe é aquele que serve, vira tudo de pernas para o ar, como um icebergue. Do icebergue vê-se o topo; ao contrário, Jesus vira ao contrário e o povo está em cima e Ele que comanda está em baixo, e de baixo comanda», afirmou.

Outro aspeto que diferencia a autoridade dos religiosos e de Jesus é a coerência: «Havia como uma unidade, uma harmonia entre o que pensava, sentia, fazia», ao passo que quem se sente mais importante tem «uma atitude clericalista».

«Essa gente não era coerente e a sua personalidade estava dividida, ao ponto de Jesus aconselhar aos seus discípulos: “Fazei o que vos dizem, mas não o que fazem”: diziam uma coisa e faziam outra. Incoerente. Eram incoerentes. E o adjetivo que muitas vezes Jesus lhes atira é hipócrita», continuou o papa.

É compreensível, sublinhou Francisco, «que alguém que se sente príncipe, que tem uma atitude clericalista, que é um hipócrita, não tenha autoridade. Dirá a verdade, mas sem autoridade. Ao contrário, Jesus, que é humilde, que está ao serviço, que está próximo, que não despreza as pessoas e que é coerente, tem autoridade. E esta é a autoridade que o povo de Deus sente». "

por Rui Jorge Martins em SNPC

domingo, 3 de dezembro de 2017

O Fracasso

Um tabu nas sociedades ocidentais

No ar dos nossos dias aparece às vezes, mas é logo removido, o medo do fracasso. As grandes palavras como esperança e confiança, sobretudo no espaço cristão, parecem proibir a possibilidade de ler um acontecimento ou a própria vida como um fracasso. Esta parece-me ser uma doença espiritual do nosso tempo: habituados a procurar o sucesso, a aprovação dos outros, comprometidos em tarefas "boas" e conformes ao Evangelho, deixámos de ser capazes de entrever a possibilidade de debilidade e do consequente fracasso.

Parece que nós, cristãos, temos já "as palavras prontas" para impedir a constatação do fracasso, e portanto de o dizer, e para o poder viver não como uma dor real, um acontecimento que nos pode colher na nossa longa vida. E todavia declaramo-nos discípulos de um mestre, um profeta, que conheceu como resultado da sua vida o fracasso: a recusa do povo, o abandono e a traição dos seus discípulos, uma morte na vergonha de quem é julgado como homem nocivo ao bem da humanidade, inclusive um endemoninhado, um louco, um homem falso. É surpreendente, portanto, que nós, cristãos, falemos facilmente e até a sorrir do «escândalo da cruz», mas sem nos sentirmos intrigados por ele, sem absolutamente pensar que esse poderia ser o destino que nos espera.

Contudo o sentido do fracasso não pode ser eliminado, e quando se conhecem não superficialmente alguns grandes testemunhos cristãos deve-se constatar que o fracasso foi vivido dramaticamente nas suas vidas. Porquê? Porque em cada pessoa está presente, até à sua profundidade, antes ainda do pecado, aquela que na tradição cristã é dita "infirmitas" ou, com sinónimos, "fragilitas" e "miseria". A "fragilitas", a debilidade, é a condição da nossa carne, se somos capazes de a ler, e quanto mais «o espírito está pronto», mais «a carne está fraca». A debilidade é em nós radical: somos frágeis e débeis até nos encontramos na miséria, somos inadequados a secundar o Espírito que em nós geme e suspira, e por esta debilidade somos forçados a cair, a fracassar.

Pode-se por isso fracassar na vida, inclusive na vida que se quer cristã, pode-se chegar ao pensamento de uma vida perdida, de uma vida que não se foi capaz de salvar. A vida passada aparece como farrapos de carne lacerada que deixou de ser integrável, deixou de poder estar disponível para ser a imagem de uma vida. A única certeza é que o silêncio que envolve o fracasso e a queda os preserva de se dispersarem no nada, de terem o destino de uma estrela num buraco negro do universo. Nasce-se e renasce-se, cai-se e levanta-se, recomeça-se sempre: o protagonista não sou eu.

A nada favorece a mentalidade mundana que pretende que se tenha sempre e só sucesso, reconhecimento, quase uma imparável ascensão! Na vida há também o fracasso, a queda, e quem chega a dizer que errou tudo deve ser escutado em silêncio e não ser consolado com palavras baratas. S. Bernardo chegará a exclamar: «Ó feliz, desejável fragilidade, repleta do poder de Cristo, que me permite não só ser frágil, mas também fracassar inteiramente por mim próprio, para ser tornado firme pelo poder do Senhor dos poderes. "O seu poder, com efeito, manifesta-se plenamente na minha debilidade"».

Verdadeiramente, a força de Deus encontra a sua medida na medida da nossa fragilidade. Mas aqui estamos já para além do fracasso, como Paulo, que chega a dizer: «Quando sou fraco, é então que sou forte». “Naufragium feci, bene navigavi”: não se o diz na tempestade, mas quando a tempestade termina e se aporta ao porto desejado ou, como quer que seja, ao cais que nos salvará."

Enzo Bianchi In "Monastero di Bose"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 12 de janeiro de 2017

A nudez do pai

Robert Sherer
A Bíblia, uma história de família

"Noé, cultivador da terra, começou a plantar uma vinha. Tendo bebido o vinho, embriagou-se e despiu-se dentro da tenda. Evocamos esta passagem do capítulo 9 do Génesis não tanto pelo tema, difundido em todas as culturas mediterrânicas, do vinho, elemento que por natureza é ambíguo, capaz de «alegrar o coração do homem» (Salmo 104, 15), mas também causa de degeneração (leia-se o irónico excerto de Provérbios 23, 29-35).

Em vez disso, fixaremos a atenção na continuidade da narração. Observa-se que «Cam [um dos três filhos de Noé: Sem, Cam, Iafet], o pai de Canaã, ao ver a nudez do pai, saiu a contar o sucedido aos seus dois irmãos», que estavam fora da tenda onde o pai embriagado jazia nu (9, 22). Provavelmente quer-se condenar a falta de respeito de Cam ao chefe da família. O Génesis já mostrou, até este ponto, a rutura, devida ao pecado, das relações entre homem e mulher no casal, entre irmão e irmão (Caim e Abel) entre o homem e Deus.

Agora é atingida outra relação, entre filho e pai, que é fundamental no interior da estrutura social, tanto mais que é protegida inclusivamente por um mandamento do Decálogo, acompanhado de uma bênção: «Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias sobre a terra que o Senhor, teu Deus, te dá» (Êxodo 20, 12).

A relação intergeracional é um tema vivo nas culturas de todos os tempos. Pensemos nos muitos conselhos do livro dos Provérbios, onde entra em cena o pai-mestre na relação com o filho-discípulo. É um argumento que está também na origem de êxitos literários modernos, como, por exemplo, o romance "Pais e filhos" (1862), do escritor russo Ivan S. Turgenev, em que se representa toda a complexidade e dramatismo de uma relação que não é meramente genética, mas também social, psicológica, espiritual.

É também esta relação que esteve em foco na psicanálise, com os vários "complexos" freudianos; e na memória de muitos está presente o livro parcialmente autobiográfico de Gavino Ledda, "Padre padrone" (1975), transformado em incisivo filme pelos irmãos Taviani em 1977. Nele se delineia uma questão delicada e complexa, que se agudizou nos nossos dias na denominada «geração sem pais» e na geração de filhos rebeldes. A tudo isto se une a situação do idoso, da sua crise física, do seu isolamento social, da sua devastação espiritual, à semelhança do que acontece na cena de Noé e dos seus filhos.

A este propósito, concluamos com um dado: Sem e Iafet comportam-se de maneira diferente, recobrindo o pai sem olhar para a sua nudez, respeitando assim a sua pessoa, não obstante a degradação a que tinha chegado. Cam é o único a ser condenado, sobretudo através de Canaã, seu filho: aos olhos dos judeus, Canaã era a população autóctone da Terra Santa a eles hostil. Por isso não estamos apenas perante um juízo moral, mas também diante de um elemento de autodefesa e de polémica religiosa contra a idolatria praticada por aquele povo."

Card. Gianfranco Ravasi, Biblista, presidente do Pontifício Conselho da Cultura In "Famiglia cristiana"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 14 de janeiro de 2015

Alegria e Natal

George Platt Lynes, 1934
A alegria do Natal

«O anjo disse-lhes: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 10-11)
É preciso falar alegremente da alegria, cantá-la como os anjos, na noite do nascimento de Jesus. Dado que não tenho a voz de um anjo, recolhamos ao menos a sua mensagem no nosso coração, à imagem de Maria silenciosa. É uma boa nova que cantam os anjos, uma grande alegria para todo o povo, para todas as pessoas. Acabou o tempo do medo, vivemos sem temor. Chegaram os tempos messiânicos. Aquele que devia vir está no meio de nós. Ele vem para nos salvar do pecado, do mal e da morte. Ele traz a redenção e o perdão. Ele oferece-nos o amor gratuito de Deus e a vida eterna. Ele dá-nos a sua alegria, alegria alicerçada na fonte inesgotável do dom infinito do Pai. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» (Lucas 2, 14).

Sinal de uma vida que se expande, a alegria era considerada no Antigo Testamento como manifestação do tempo da salvação e da paz dos últimos tempos.

No Novo Testamento, João Batista terá sido dos primeiros a senti-la: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, já grávida de Jesus, «o menino saltou-lhe de alegria no seio» (Lucas 1, 41).

Já depois do nascimento de Jesus, os magos, «ao ver a estrela, sentiram imensa alegria», conta o evangelho segundo Mateus a propósito do astro que lhes indicou o lugar onde Maria tinha dado à luz.

«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa», disse Jesus aos discípulos (João 15,11). Alegria de comunhão, de amizade, alegria por partilhar a sua vida de ressuscitado, mesmo se essa vida é acompanhada pela aflição: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! … O vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (João 16, 20-22).

E os nossos corações? Estão plenamente felizes? Não haverá um fundo de tristeza? Porquê? O Natal traz-nos alegrias, é certo, mas a alegria, será que a conhecemos? Ó homens de pouca fé!

Ficamos demasiado presos aos nossos medos, à nossa autossuficiência, à nossa independência, ao nosso orgulho, às nossas riquezas de pacotilha, em suma a nós mesmos, para ter a audácia da alegria espiritual e nos deixarmos dilatar à medida do dom de Deus. A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento.

É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total. Aos poucos o adulto coloca a sua alegria no ter, por vezes muito material. Mas possuir é mais da ordem do prazer; no receber e no dar é que está a alegria. E a alegria é sempre um dom, ela traz sempre a marca da gratuidade, da festa. O adulto não sabe muitas veses receber gratuitamente, com toda a simplicidade, na pobreza cheia do não-ter que, só ela, dá acesso aos verdadeiros bens. Na nossa sociedade de consumo ambiciona-se poder comprar tudo, ter tudo. Mas não se compram senão coisas. Perseguem-se e acumulam-se. Possui-se muito mas não é nelas que se acha a alegria. Nelas só se encontra o prazer insaciável e, no limite, o aborrecimento. A alegria, ao contrário, é filha da pobreza, da gratuidade, da ousadia da vida que vive e ri em nós.

O contemplativo deve ter algo desta sabedoria da criança, da sua aptidão ao dom, ao abandono. Muitos parecem crer que só as pessoas “sérias” são sérias: a sabedoria deve obrigatoriamente manifestar uma atitude solene e um rosto franzido. O homem de negócios do “Princípezinho” está demasiado ocupado a contar e a “possuir” as estrelas para ver a sua beleza e abrir-se ao seu canto. Sejamos simples, não tenhamos medo de ser alegres.

Tendo perdido a espontaneidade da simplicidade, iremos procurá-la com o peso da razão?

A alegria de Maria

Entremos na escola de Maria para aprender a alegria. Temos muito poucas palavras dela e as que temos são de uma grande densidade por serem portadoras de um imenso peso de silêncio. Há o “fiat”, o sim pelo qual Maria consente livremente no dom de Deus, no dom que Deus lhe faz de si mesmo, à ação misteriosa do Espírito Santo pelo qual Jesus é nela concebido. E Jesus é concebido na alegria. O coração de Maria está repleto de alegria, da alegria de um pobre que soube acolher a vida:

«A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lucas 1, 46-47).

Alegria cuja partilha desperta a alegria no coração de Isabel. O bebé no seio da sua mãe alimenta-se da sua substância, constrói-se a partir do que ela é. Tudo acontece no silêncio de uma simbiose intensa entre duas pessoas. Maria está só com o seu bebé oculto; para o bebé, o seu universo é o seio de Maria.

Depois é chegado o tempo em que o Menino sai para entrar no mundo dos homens. É quando acontece a primeira separação que lhe vai permitir ser Ele que está entre nós, para nós. A alegria de Maria é dar Jesus ao mundo. O seu coração está cheio de uma alegria que em nada diminui a pobreza do seu nascimento, num estábulo, recebida entre os animais, nenhum lugar entre os homens havia para eles.

Mas o bebé é rei, rei pobre, duas vezes rei. Os anjos cantam o seu deslumbramento, anunciam a alegria da sua vinda àqueles que estão mais preparados para o receber: os pobres, os pastores e os que o procuram pelos caminhos da sabedoria humana, os magos.

Não sabemos de nenhuma palavra de Maria. Ela permanece silenciosa, ocupada a proteger este pequeno corpo tão vulnerável, a embrulhá-lo em panos e a deitá-lo na manjedoura. Ela é mãe, deve ater-se às obrigações da maternidade, ao mesmo tempo que permanece unida ao seu filho no seu coração. Mas agora há um face a face, duas pessoas entreolham-se, o amor torna-se mais pessoal, amor de amizade; em breve o sorriso do bebé responderá ao seu.

Mas Maria nunca diz nada. Ela deixa os pastores e os magos prestarem a sua homenagem diante do seu filho. São os anjos que cantam a sua glória. Ela, ela conserva todas estas coisas, guarda-as no seu coração.

Quem era este ser dela nascido? O seu coração sabe mais do que a inteligência pode dizer. Ela não é a Palavra mas a sua serva. O seu silêncio fala por ela, diz do seu amor.

Será assim toda a sua vida. Durante os longos anos tranquilos de Nazaré, a sua alegria é a intimidade constante com Jesus, a vida partilhada com este rapaz que cresce diante dos seus olhos. É o seu filho, e no entanto, um dia, mal tinha feito doze anos, ele diz: «Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lucas 2, 49). Jesus regressou a Nazaré, a vida continuou mas nunca mais foi a mesma. A marca do Pai estava sobre ele; à alegria da sua intimidade acrescenta-se uma nota grave, de respeito, perante o mistério do seu ser.

Numa dialética de intimidade e separação, pouco a pouco Jesus revela-se à sua mãe – como aos seus discípulos, como a nós. De cada vez há um aprofundamento. Até que um dia ele irá radicalmente relegar para segundo plano os laços de sangue que os uniam: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3,35).

É sobre a rocha da vontade de Deus que a relação entre ambos deve fundar-se e fortalecer-se a partir daí, ao ponto que seja aceite a separação final de uma morte brutal. Onde está agora a tua alegria, Maria? Ela está sempre lá, onde se renova o sim do teu amor e da tua fé, no silêncio, numa solidão terrível. Nunca foste tão mulher como agora. E assim tu te tornas mãe do Corpo de Cristo, de todos nós. Alegria grave de um amor que dá mais do que si mesmo.

O amor é mais forte do que a morte, a alegria mais forte do que a tristeza. A luz da ressurreição vai inundar o espaço da sua fé e enchê-la de uma alegria que não terá fim. A assunção ao céu é a manifestação da plenitude desta alegria que impregna todo o seu ser, incluindo o seu corpo.

Maria não deixou uma palavra sobre Jesus, uma teologia, um discurso. A sua vida é a sua palavra, o seu amor, o seu conhecimento, o seu dom total à vontade de Deus e à ação oculta do Espírito nela, a sua pobreza, a transparência da sua pureza.

Essa alegria é o Cristo nela, é o Cristo em nós. Desejo-a a todos de todo o meu coração.

Nós somos responsáveis pela nossa alegria.

Monge Cartuxo In "Vivre dans l'intimité du Christ"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 24 de dezembro de 2014

O Natal para os primeiros cristãos

O Natal dos primeiros cristãos, segundo os Padres da Igreja

Chamamos “Padres da Igreja” ou “Pais da Igreja” aqueles homens que, entre os séculos II e VII, contribuíram, com a sua ação, pregação e obras escritas, para a transmissão, aprofundamento e consolidação da fé e da Igreja de Cristo que vem dos Apóstolos até aos nossos dias. Alguns destes mestres da palavra e da doutrina eram cristãos leigos, mas a maioria foram pastores das comunidades cristãs com as quais partilhavam e nutriam a fé através da palavra pregada ou escrita. Nem tudo ficou escrito, e muito do que escreveram perdeu-se no percurso dos séculos. Mesmo assim, chegou até nós uma significativa amostra do que foi a vida e a reflexão destes primeiros séculos cristãos. Nomeadamente, no que concerne ao Natal de Jesus, dispomos de um vasto conjunto de textos que nos introduzem no verdadeiro espírito da Natividade. Vale, pois, a pena, hoje que nos queixamos de um progressivo esvaziamento do verdadeiro “espírito do Natal”, escutar a voz daqueles que continuam a ser nossos “Pais” na fé e na cultura cristã.

Embora a máxima atenção dos primeiros cristãos se tenha concentrado na celebração do mistério da Páscoa de Cristo, eles sabem que esta solenidade é indissociável do Natal e de todo o acontecimento da Encarnação de Jesus. Para os cristãos de ontem e de hoje, o Natal assinala o apogeu da história de Deus com os homens. S. Leão Magno, papa entre 440 e 460 que, num dos seus numerosos sermões sobre o Natal, recorda-nos que «a bondade divina sempre olhou de vários modos e de muitas maneiras pelo bem do género humano, e são muitos os dons da sua providência, que na sua clemência concedeu nos séculos passados. Porém, nos últimos tempos superou os limites da sua habitual generosidade, quando, em Cristo, a própria Misericórdia desceu aos pecadores, a própria Verdade veio aos extraviados, e aos mortos veio a Vida. O Verbo, coeterno e igual ao Pai, assumiu a humildade da nossa natureza humana para nos unir à sua divindade, e Deus nascido de Deus, também nasceu de homem fazendo-se homem».

«A Palavra fez-se Carne»

O Deus dos cristãos não é um mito nem um livro, mas Palavra encarnada, uma presença interpelante na história dos homens. «Quando um profundo silêncio tudo envolvia e a noite ia a meio do seu curso, a vossa Palavra Omnipotente desceu dos céus, do seu trono real», lemos no Livro da Sabedoria (18, 14-15). E foi assim, em Belém, quando o vagir de um recém-nascido quebrou o silêncio do universo. Deus que, ao longo dos séculos tinha falado de muitos modos e a muitos povos, em Belém fez-se Pessoa. S. Inácio, bispo e mártir de Antioquia, pelos ano 100, fala desses “mistérios clamorosos que se realizaram no silêncio de Deus: a virgindade de Maria, o seu parto e a morte do Senhor». E logo explica como se revelaram tais mistérios ao mundo:

«No firmamento brilhou uma estrela maior do que todas as outras! A sua luz era indescritível. A sua novidade causou estranheza. Mas todos os demais astros, incluindo o Sol e a Lua, fizeram coro à Estrela. Esta, porém, ia arremessando a sua luz por sobre todos os demais. Houve, por isso, agitação. Donde lhes viria tão estranha novidade? Desde então, desfez-se toda a magia; suprimiram-se todas as algemas do mal. Dissipou-se toda a ignorância; o primitivo reino corrompeu-se, quando Deus se manifestou humanamente para a novidade de uma vida eterna».

O Natal assinala o triunfo de Cristo e a libertação de todas as formas de opressão, engano, alienação ou superstição. S. Efrém, teólogo e poeta sírio do século IV que nos deixou um vasto conjunto de poemas e textos sobre o Natal, retoma esta convicção de S. Inácio quando vê no «menino que se encontra na manjedoura … aquele que rompeu o jugo que a todos oprimia». Como operou tal libertação? «fazendo-se Ele mesmo – continua S. Efrém - servo para nos chamar à liberdade». Santo Agostinho refere-se frequentemente em seus sermões natalícios ao silêncio eloquente do bebé de Belém, patente na voz das criaturas que exteriorizam a alegria da sua libertação.

Belém é, pois, para nós, uma lição eloquente. Com o seu nascimento na silente noite de Belém, o Menino divino, diz S. Agostinho, «mesmo sem dizer nada, deu-nos uma lição, como se irrompesse num forte grito: que aprendamos a tornar-nos ricos nele que se fez pobre por nós; que busquemos nele a liberdade, tendo Ele mesmo assumido por nós a condição de servo; que entremos na posse do céu, tendo Ele por nós surgido da terra».

Nasceu o Sol de Justiça

O nascimento de Jesus em Belém marca erupção de uma nova era para toda a humanidade, mas também para todo o cosmo criado. Não admira, pois, que os cristãos tenham intencionalmente associado o Natal de Jesus ao destino da humanidade e do mundo que os antigos consideravam “estar escrito nos astros”. Se é verdade que estão por provar as razões e circunstâncias pelas quais os cristãos escolheram a data de 25 de dezembro para celebrar o Natal do Salvador, facto é que tirarão bom partido da coincidência desta data com as celebrações pagãs e as ocorrências cósmicas. É frequente encontrar nos escritos patrísticos exortações como esta de S. Agostinho: «Alegremo-nos, irmãos, rejubilem e alegrem-se os povos. Este dia tornou-se para nós santo não devido ao astro solar que vemos, mas devido ao seu Criador invisível, quando se tornou visível para nós, quando o deu à luz a Virgem Mãe». Prudêncio, poeta hispânico do século IV, exprime essa alegria universal num extenso hino composto para o dia 25 de dezembro. Neste dia, Cristo é apresentado como o verdadeiro “Sol invictus”: «Com crescente alegria brilhe o céu/ e dê-se parabéns a si a gozosa terra:/ de novo, passo a passo, sobre o astro/ do dia aos seus caminhos anteriores…/ Oh! Santo berço do teu presépio,/ eterno Rei, para sempre sagrado/ para todos os povos e pelos próprios/ animais sem voz reconhecida».

Cientes de que a vinda de Cristo não veio negar mas responder às ânsias ancestrais da humanidade, os pregadores identificam Cristo, que «por nosso amor nasceu no tempo», com a luz libertadora das trevas do erro e da tirania dos astros:

«Reconheçamos o verdadeiro dia e tornemo-nos dia! Éramos, na verdade, noite quando vivíamos sem a fé em Cristo. E uma vez que a falta de fé envolvia, como uma noite, o mundo inteiro, aumentando a fé a noite veio a diminuir. Por isso, com o dia de Natal de Jesus nosso Senhor a noite começa a diminuir e o dia cresce. Por isso, irmãos, festejemos solenemente este dia; mas não como os pagãos que o festejam por causa do astro solar; mas festejemo-lo por causa daquele que criou este sol. Aquele que é o Verbo feito carne, para poder viver, em nosso benefício, sob este sol: sob este sol com o corpo, porque o seu poder continua a dominar o universo inteiro do qual criou também o sol. Por outro lado, Cristo com o seu corpo está acima deste sol que é adorado, pelos cegos de inteligência, no lugar de Deus que não conseguem ver o verdadeiro sol de justiça» (S. Agostinho).

Segundo S. Máximo, bispo de Turim no século IV, «Jesus é o novo sol que atravessa as paredes, invade os infernos, perscruta os corações. Ele é o novo sol que com os seus espíritos faz reviver o que está morto, restaura o que está velho, levanta o que está decadente e purifica ainda, com o seu calor, aquilo que é impuro, aquece o que está frio e consome o que o que não presta».

Como vemos, na pregação dos primeiros cristãos, o presépio está profundamente associado à natureza que, como livro de catequese escrito pelo Criador, nos ensina a celebrar e a viver o Natal do Salvador. Neste sentido, vale a pena continuarmos a ouvir as palavras sempre atuais de S. Máximo turinense:

«Preparemo-nos pois, irmãos, para acolher o Natal do Senhor, adornemo-nos com vestes puras e elegantes! Falo, claro está, das vestes da alma, não do corpo… Adornemo-nos não com seda, mas com obras boas! Pois as vestes elegantes ornam o corpo, mas não podem adornar a consciência; pois seria muito vergonhoso trazer sob elegantes vestes elegantes, uma consciência contaminada. Procuremos acima de tudo embelezar os nossos afetos íntimos, e poderemos então vestir belas roupas; lavemos as manchas da alma para usarmos dignamente roupas elegantes! Não adianta dar nas vistas pelas vestes se estamos sujos em pecados, porque quanto a consciência está escura, todo o corpo fica nas trevas. Temos, porém, com que lavar as manchas da nossa consciência. Pois está escrito: Dai esmola e tudo será puro em vós (Lc 11,41). É importante este mandamento da esmola: graças a ele, ao operarmos com as mãos ficamos lavados no coração».

Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens

Cristo nasceu homem para restituir à humanidade e a toda a criação a sua beleza e dignidade. É neste sentido que os Padres interpretam a mensagem dos anjos na noite santa. Essa voz é a expressão da alegria pelo facto de céu e terra, Deus e humanidade se abraçaram para sempre. A partir de agora, anjos e homens podem cantar juntamente a beleza do cosmo que se exprime num único hino de louvor: glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. A alegria foi, segundo S. Efrém, muito maior no nascimento do que na conceção, pois «só um anjo anunciou a sua conceção, enquanto que para o seu nascimento uma multidão de anjos O anunciaram». Ao lembrar esse grande acontecimento, o poeta siríaco do século VI, Romano Melode, exorta: «Terra e céu rejubilem juntamente, diante do Emanuel que os profetas anunciaram, tornado criança visível, que dorme num presépio». E, num outro poema, continua: «A alegria acaba de nascer numa gruta. Hoje o coro os coros dos anjos unem-se a todas as nações para celebrar a virgem imaculada que neste dia deu à luz o Salvador. Hoje toda a humanidade, desde Adão, dança. Bendito seja Deus, recém-nascido».

O Natal é a grande festa de toda a humanidade, em que ninguém se deve sentir à margem ou indiferente, como no-lo recordam os sermões natalícios da S. Leão Magno:

«Nasceu hoje, irmãos, o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza quando nasce a vida; a qual, destruindo o temor da morte, nos enche com a alegria da eternidade prometida. Ninguém está excluído da participação nesta alegria; a causa desta alegria é comum a todos, porque nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado ninguém isento de pecado, a todos veio libertar. Exulte o santo porque está próxima a vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida… Por isso é que, quando o Senhor nasceu, os anjos cantaram em alegria ‘glória a Deus nas alturas’ e anunciaram ‘paz na terra aos homens de boa vontade’. Porque veem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo, obra inexprimível do amor divino, que, se dá tanto gozo aos anjos nas alturas do céu, que alegria não deverá dar aos homens cá na terra?».

Deus fez-se homem para que o homem venha a ser divino

Nesta sentença recorrente nos escritores cristãos antigos está sintetizado o significado profundo do Natal. Voltemos a dar a voz a S. Agostinho: «Hoje nasceu para nós o Salvador. Nasceu, portanto, para todo o mundo o verdadeiro sol. Deus Fez-se homem para que o homem se fizesse Deus. Para que o escravo se tornasse senhor, Deus assumiu a condição de servo. Habitou na terra o morador do céu para que o homem, habitante da terra, pudesse encontrar morada nos céus». E, num outro sermão de Natal, o bispo de Hipona volta a recordar que Deus, em Belém, se fez pobre para nos enriquecer com os seus dons:

«Ele está deitado numa manjedoura, mas contém o universo inteiro; mama num seio materno, mas é o pão dos anjos; veio em pobres panos, mas reveste-nos de imortalidade; é amamentado, mas é também adorado; não encontrou lugar na estalagem, mas constrói para si um templo no coração dos seus fiéis. Tudo isto para que a fraqueza se tornasse forte e a prepotência se tornasse fraqueza. Por isso, não só não menosprezamos, mas mais admiramos o seu nascimento corporal e reconhecemos neste acontecimento quanto a sua imensa dignidade se humilhou por nós».

A Verdade brotou da terra

A Palavra vinda do Céu fecundou a terra e desta brotou a verdade e a justiça. Uma das preocupações constantes dos Padres da Igreja vai ser a de afirmar que o Filho de Deus é também filho de Maria, isto é, o Menino de Belém é todo Deus e todo homem: «Aquele que estava deitado na manjedoura fez-se frágil, mas não renunciou à sua condição divina; assumiu aquilo que não era, mas permaneceu aquilo que era. Eis que temos diante de nós Cristo menino: cresçamos juntamente com Ele», diz S. Agostinho. O bispo hiponense, num outro sermão, dirige-se ao seu povo nestes termos:

«Chama-se dia do Natal do Senhor a data em que a Sabedoria de Deus se manifestou como criança e a Palavra de Deus, sem palavras, imitou a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indicada aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se realizou a profecia: A verdade brotou da terra e a justiça desceu do céu (Sl 84,12)».

Esta afirmação retomada do salmo 84 servirá de mote a vários dos sermões natalícios de Agostinho. Num outro sermão, o bispo de Hipona explica o significado profundo de tal expressão:

«Neste dia, o Verbo de Deus revestiu-se de carne e nasceu de Maria virgem. Nasceu de modo admirável... Donde veio Maria? De Adão. Donde veio Adão? Da terra. Se Adão veio da terra e Maria de Adão, também Maria é terra. E se Maria é terra, entendemos quando cantamos: a verdade brotou da terra».

Contra os negadores da dignidade da carne e das criaturas (docetas, Gnósticos, marcionitas, maniqueus…) não se cansam de salientar a realidade humana de Jesus, sublinhando os detalhes do seu nascimento. S. Efrém compôs vários poemas natalícios em que coloca na boca de Maria belíssimos solilóquios que se inspiram nas cantigas de embalar à moda antiga. Eis algumas das suas expressões: «Santa Maria, tua mãe, tua irmã, tua esposa e tua serva, logo te acaricia, te abraça e beija, canta, reza e agradece. Depois dá-te o peito, te aconchega e embala e sorri para ti e tu ris e mamas no seu peito». Maria, fez tudo o que faria qualquer mãe encantada com seu filho para o fazer feliz. Assim, contemplando a criança divina entre seus braços, exclama: «Como abrirei a fonte do leite, para ti que és a origem e termo de todas as coisas? E como te darei alimento, a ti que nutres tudo? Ou como tocarei os panos que te envolvem, Tu que te revestiste de esplendor? Filho do homem não és, para que eu te cante louvores à moda habitual». Entretanto o menino desperta e, com o seu choro infantil, interrompe estas meditações de Maria que continua a «acariciá-lo, a embalá-lo, beijando-o e afagando-o contra si. Ele olha para ela e baloiça como menino já nascido no presépio envolto em panos. E quando começa a chorar, ela dá-lhe o peito, acaricia-o, embala-o, baloiça-o sobre os joelhos e Ele acalma-se».

Os melhores preparativos para o Natal

Ontem, como hoje, os homens facilmente caíram na tentação do valorizar as aparências, os enfeites exteriores e até a tirar vantagens materiais das festas natalícias. Contra esta desvirtuação tão evidente nos nossos dias já advertiam os antigos pregadores.

«Esta é a nossa festa», proclama S. Gregório de Nazianzo, «isto celebramos hoje: a vinda de Deus ao meio dos homens, para que, também nós cheguemos a Deus… celebremos, pois, a festa: não uma festa popular, mas uma festa de Deus, não como o mundo quer, mas como Deus quer; não celebremos as nossas coisas mas as coisas daquele que é nosso Senhor…».

Como fazê-lo? Pergunta este bispo de Constantinopla do século IV. E responde sem hesitar:

«Não embelezemos as portas das casas, não organizemos festas, nem adornemos as estradas, não dêmos banquetes em nosso proveito nem concertos para mero agrado dos ouvidos, não exageremos nos adornos nem nas comidas… e tudo isto enquanto outros padecem fome e necessidades, esses que nasceram do mesmo barro que nós».

Fr. Isidro Lamelas, OFM , Professor de Patrística na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Publicado pelo SNPC a 24 de dezembro de 2013

Preparar o Natal

Lisa Lapointe
Como será este Natal?

Estamos empenhados em preparar a vinda do Senhor, em preparar-lhe simbolicamente um espaço, e isso torna-se uma parábola do grande acolhimento, da grande hospitalidade à qual estamos dispostos. E dizemos: «Vem, Senhor Jesus».

Abrimos as casas, encontramos um lugar no seu interior, preparamos formas diferentes para o tráfico dos nossos dons, das palavras, dos sentimentos, dos votos e desejos. Encontramos na nossa vida um modo de Deus chegar. As portas estão abertas. A contagem decrescente começou.

E então dá-se o volte-face: ao rei David, que tem um papel emblemático na expetativa messiânica, Deus diz: «Não és tu que me preparas uma casa, sou Eu que preparo uma casa para ti».

Não mergulhamos profundamente no mistério do Natal se não acolhermos esta reviravolta no nosso coração: não somos nós que preparamos um presépio para Deus nascer; é Deus que prepara o lugar, é Deus que prepara a possibilidade, as condições do renascimento de cada um de nós.

Jesus é o Deus que se torna homem para que o homem e mulher que somos se possa divinizar. Ele nasceu para potenciar os nossos nascimentos.

Como Maria, podemos perguntar: «Como será isso, se eu não vejo essa possibilidade? Que o Menino possa nascer simbolicamente em minha casa, eu acredito, mas que a minha casa toda e o que ela significa possa renascer, não vejo como. Que eu me possa preparar e abrir as portas para o Deus connosco vir, isso entendo; mas que eu, na minha rigidez, nos meus entraves, nos meus dilemas, no caminho que estou a fazer, possa verdadeiramente recomeçar e renascer, não vejo como».

A dupla palavra do anjo é uma das grandes palavras de Natal: «Não temas». Não desanimes, não penses que não é para ti. O Espírito Santo virá em teu socorro, a sombra do Altíssimo te cobrirá. E o mistério que acontece na nossa vida, humaníssima e fragilíssima, é ação do próprio Deus: é Ele que pode renovar, é Ele que pode transformar as nossas vidas; é Ele que pode fazer acontecer, dentro de cada um de nós, o Natal, essa irrupção de vida nova e cintilante, a possibilidade de uma esperança maior do que aquela de que somos capazes.

O que é este novo nascimento? S. Paulo, com uma palavra só, com uma das palavras mais importantes desse texto maior da memória cristã que é a carta aos Romanos, diz: o grande mistério, esperado desde sempre e agora revelado, é este: Deus Pai confirma-nos. Uma palavra só: «Confirma-nos».

O que é o Natal de [2017] que estamos prestes a celebrar? É sentir dentro de si que se é confirmado por Deus, confirmado como filho e filha amado, querido, em quem Deus coloca todo o seu amor. E a nossa vida passa a valer mais: porque não é só o que somos, o que conseguimos, o que trazemos - não é só isso; é o olhar de Deus pousado na fragilidade que eu sou.

É o olhar de Deus que me confirma, muitas vezes para lá das evidências e contrariando-as, contra toda a esperança. Deus confirma-nos e diz: «Tu és a minha filha, tu és o meu filho». É isso que nos faz nascer: a certeza do amor de Deus depositado, mostrado por Jesus face a face na nossa história, a certeza indefetível desse amor que não falha, desse amor em que podemos confiar. O Deus connosco é um Deus credível, em quem um homem e uma mulher podem acreditar. Nós acreditamos nesse amor, e acreditamos que ele nos é dado como fundamento, como pedra angular, como razão, como possibilidade, como manjedoura onde nascemos.

Temos de olhar para os nossos dias e sentir que não somos nós que estamos a construir uma manjedoura; é Deus que faz do tempo da nossa vida, deste tempo onde estamos, deste aqui e agora, o lugar da nossa confirmação, o lugar do nosso nascimento. Abramos, por isso, o nosso coração em alegria."

P. José Tolentino Mendonça
Capela do Rato, Lisboa, 21 de dezembro de 2014

A diversidade não é uma ameaça

Da escuta saem as aspirações comuns

«Quando as pessoas se ouvem humilde e francamente umas às outras, pouco a pouco vão aparecendo mais visivelmente os valores e aspirações comuns. A diversidade será vista, não já como uma ameaça, mas como uma fonte de enriquecimento. Divisa-se mais claramente a estrada para a justiça, a reconciliação e a harmonia social»

Papa Francisco na sua viagem ao Sri Lanka
Janeiro de 2015
publicado por SNPC

Sete perguntas sobre Jesus

1. Jesus existiu?
Sim. A sua historicidade é comummente admitida. Se o Novo Testamento e os escritos dos primeiros Padres da Igreja constituem o material mais abundante para os historiadores, estes apoiam-se também nos testemunhos de autores profanos. Nas "Antiguidades judaicas", o historiador judeu Flávio Josefo (que morreu cerca do ano 100) alude a Jesus no âmbito do processo de Tiago, «irmão de Jesus, chamado o Cristo».

Arquivista na corte do imperador Adriano, Suetónio evoca em "As vidas dos doze césares" «judeus que não cessavam de perturbar a cidade (Roma) por causa de um certo "Christus"». Tácito, outro historiador romano, descreve o incêndio que destruiu Roma em 64, causado, segundo o imperador Nero, pelos cristãos: «Este nome de cristão vem-lhes do nome de Cristo, que foi condenado no reino de Tibério, pelo procurador Pôncio Pilatos (...)».

Encontram-se outras alusões a Cristo e aos seus seguidores no governador Plínio, o Jovem (61-114), no filósofo romano Celso (séc. II) e também no Talmude de Babilónia, que reteve por escrito, no séc. IV, toda a tradição judaica oral: «Na véspera da Páscoa, suspendeu-se Yeshu (...)».

Esta acumulação de testemunhos judaicos e romanos, insuspeitos de simpatias, e até mesmo hostis ao cristianismo, sustenta a convicção dos cientistas quanto à existência histórica de Jesus.

2. Os Evangelhos são "fiáveis"?
Sim. «Mas na condição de os analisar com critérios históricos», sublinha Jean-Christian Petitfils, autor de "Jesus", obra que procura esboçar o seu retrato histórico a partir dos recursos da ciência. Com efeito, os Evangelhos apresentam entre si importantes diferenças.

O fio cronológico de Lucas, Marcos e Mateus, por exemplo, não segue o de João. Os primeiros obedecem a um plano linear: a pregação de João Batista, o batismo de Jesus, a pregação na Galileia durante um ano, a subida a Jerusalém, a crucificação e ressurreição; João, por seu lado, refere várias idas e regressos de Jerusalém e a pregação de Jesus dura três anos.

«Os textos de Lucas, Marcos e Mateus foram, na verdade, redigidos por vários autores e relatam a vida de Jesus com um fim didático», sustenta Petitfils. «João, testemunha ocular direta dos acontecimentos, surge como o mais fiável aos olhos dos historiadores.»

Recentemente, descobertas arqueológicas vieram corroborar a existência de personagens e práticas citadas nos Evangelhos. A base de uma estátua com os nomes de Tibério e Pôncio Pilatos foi exumada em Cesareia, atual Israel, em 1961.

«É o primeiro documento epigráfico que diz respeito ao que os cristãos consideram uma referência história maior porque o seu nome é o único mencionado no Credo - "crucificado sob Pôncio Pilatos"», destaca o teólogo Michel Quesnel. Foram também descobertos numerosos túmulos semelhantes ao de Jesus, segundo a descrição dos Evangelhos, escavados em encostas e fechados com uma pedra rolada até à entrada; o corpo envolvido em pano e deposto num leito de pedra.

Jean-Christian Petitfils sublinha também que «numa sociedade em que os textos sagrados se transmitiam oralmente, as técnicas de memorização rabínicas eram suficientemente eficazes para que se possa creditar os Evangelhos com um alto grau de fidelidade».

3. Jesus nasceu no ano zero?
Não. Em primeiro lugar porque a contagem dos anos a partir do nascimento de Cristo não comporta um ano zero. Depois porque o monge Denys le Petit (que morreu em 545), a quem se deve o calendário, errou nos cálculos.

Ao definir o nascimento de Jesus no ano 753 da fundação de Roma, entra em contradição com o que é referido por Lucas e Mateus, que situam a natividade durante o reino de Herodes, o Grande, morto em 750 - ou seja, três anos mais cedo.

«Se se considerar que os seus pais só poderiam fugir para o Egito, para escapar à repressão de Herodes, quando Jesus tivesse alguns meses, senão mesmo alguns anos, o seu nascimento remonta ao ano 5 ou 6 da nossa era», explica Michel Quesnel.

Historiadores há que colocam a hipótese do ano 7 a.C., apoiando-se em cálculos astrológicos para explicar a aparição de uma grande estrela na noite do nascimento.

4. Jesus tinha irmãos e irmãs?
Quatro homens são designados como os «irmãos de Jesus» no Novo Testamento: Tiago, o mais conhecido, que se tornará chefe da Igreja de Jerusalém nos anos 50, José, Simão e Judas.

Os seus nomes são citados duas vezes nos Evangelhos: Marcos 6, 3 e Mateus 13, 55. Quanto às «irmãs» de Jesus, os textos nada dizem.

Há três explicações, sintetiza Michel Quesnel. Primeira hipótese: tratar-se-iam de filhos que José e Maria teriam tido após Jesus. Defendida por Helvidius, no séc. IV, é contrariada por uma passagem de Marcos que narra a presença, aos pés da cruz, de «Maria, mãe de Tiago Menor e de José» (15, 40).

Marcos apresenta estes personagens como os «irmãos» de Jesus. Mas para os exegetas, se Tiago e José tivessem nascido da mesma mãe de Jesus, o evangelista teria simplesmente escrito: «Maria, a mãe de Jesus». Tratar-se-ia de outra Maria que não a mãe do Crucificado.

Segunda teoria: os irmãos e irmãs de Jesus designariam parentes próximos. Fortemente defendida no seu tempo por S. Jerónimo, foi sempre a privilegiada pela Igreja católica. O termo "anepsios" remete para o substrato aramaico "hâ", que significa sobrinho, primo, membro de uma mesma família ou de um mesmo clã.

«Na Palestina, naquele tempo, todos eram "irmãos", um pouco como numa aldeia africana», explica Jean-Christian Petitfils.

Por outro lado, antes de morrer na cruz, Jesus confia a sua mãe a João - um dos seus discípulos; se houvesse irmãos ou irmãs de sangue, seria a eles que o cuidado de Maria seria entregue.

Terceira hipótese: os «irmãos» e «irmãs» de Jesus designariam os filhos que José teria de um primeiro casamento. «Várias tradições apócrifas apresentam José como idoso quando toma Maria por esposa», lembra Michel Quesnel. O que a iconografia confirma ao representar José como homem maduro, até envelhecido, ajoelhado diante do presépio.

Esta interpretação goza do favor das Igrejas cristãs orientais.

5. Jesus era um rabi como os outros?
Não. Se Jesus era espiritualmente próximo dos fariseus, uma das três correntes dominantes do pensamento judaico do primeiro século, a sua atitude transgride todas as convenções estabelecidas.

A começar pela maneira de utilizar as «parábolas» - narrativas imagéticas extraídas da vida quotidiana - para apresentar o seu ensinamento moral e religioso. «À exceção de alguns casos no Antigo Testamento, esta forma de expressão não se tinha espalhado. A sua utilização fazia de Jesus um rabi (mestre) inovador aos olhos dos seus contemporâneos», assinala Michel Quesnel.

Os fariseus falavam já da ressurreição e do amor ao próximo. Mas Jesus retoma a mensagem e vai muito mais longe. «Eis alguém que pede, pela primeira vez, para amar os inimigos», realça Jean-Christian Petitfils.

Diferentemente dos profetas que o precederam, Jesus apresenta-se como o Reino que anuncia: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (João 14, 6).

A sua autoridade extraordinária assombra as multidões e escandaliza os meios sacerdotais. «Moisés disse-vos... Mas Eu digo-vos...», insiste publicamente o carpinteiro de Nazaré. Outra transgressão inconcebível aos olhos de um judeu foi a maneira como Jesus chamou a Deus: «Abba» («Pai», em hebraico).

«O que torna o seu ensinamento credível é a sua atitude misericordiosa para com todos aqueles - inimigos, párias - que Ele encontra: uma prostituta, um coletor de impostos, um legionário romano...», aponta Michel Quesnel. Numa palavra, Jesus perdoa. E é isto que faz a diferença aos olhos dos seus contemporâneos.

«Crente ou não, o historiador acaba por ser confrontado com o mistério da sua pessoa», conclui Jean-Christian Petitfils.

6. Jesus foi crucificado?
Sim. Neste ponto, os Evangelhos são corroborados tanto por autores profanos como pelo Talmude.

No primeiro século havia duas formas de condenação à morte no Império Romano: a decapitação, reservada aos notáveis, e a crucificação, para as pessoas do povo, suplício particularmente terrífico.

Em 1968 foram encontrados os restos de um crucificado num bairro de Jerusalém cujo calcanhar tinha sido atravessado por um prego em ferro com 17 cm.

«Pernas fletidas, tíbias partidas... O estado do esqueleto permitiu reconstituir uma forma precisa de execução aproximadamente correspondente ao suplício descrito nos Evangelhos», afirma Michel Quesnel. Em matéria de crucificação, prática que os romanos teriam tomado dos Partos, existiam muitas variantes. A morte ocorria, geralmente, por asfixia.

7. O sudário de Turim é uma "fotografia" de Jesus?
A incerteza permanece. Muito foi escrito sobre este pano de linho branco de 4,36 x 1,10 m conservado em Turim, atual Itália, que apresenta o desenho de um crucificado que, de acordo com a tradição, teria envolvido o corpo de Jesus no túmulo.

Sobre o "Santo Sudário", que será novamente exposto em 2015 e venerado pelo papa Francisco a 21 de junho, os especialistas confrontam-se com duas questões essenciais: a datação - Idade Média ou primeiro século da nossa era? - e o processo como foi feito, em particular a impressão em "negativo", que nunca se conseguiu reproduzir.

Em 1988, a técnica do Carbono 14, bíblia dos arqueólogos, apresentou o seu veredito: o lençol teria sido fabricado entre 1260 e 1390, período que corresponde à sua primeira aparição comprovada (1357) numa igreja de Lirey, no atual departamento de Aube, em França.

Mas a controvérsia não se ficou por aqui. Para os opositores à tese da origem medieval, o sudário remontaria ao século I devido às técnicas de costura, ao fio utilizado e aos detalhes históricos que o sudário revela quanto ao modo como a crucificação foi executada.

Os defensores da autenticidade salientam, ainda, que o material sujeito ao teste do Carbono 14 foi extraído de pontas do sudário, provenientes de um restauro tardio.

E ainda que se trate da "fotografia" de um crucificado, como é verosímil, falta provar, com dados científicos, a quem pertenceu. A devoção, que tem atraído sempre mais pessoas a Turim aquando das ostensões, é outra história."

In "Pèlerin"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins para SNPC a 27 de dezembro de 2014

Fez-se história para os últimos

Os últimos

"No Natal não celebramos uma recordação, mas uma profecia. O Natal não é uma festa sentimental, mas o juízo sobre o mundo e o novo ordenamento de todas as coisas. Naquela noite, o sentido da história tomou outra direção: Deus para o homem, o grande para o pequeno, do alto para baixo, de uma cidade para uma gruta, do templo para um campo de pastores. A história recomeça dos últimos.

Enquanto que em Roma se decidem as sortes do mundo, enquanto as legiões mantêm a paz com a espada, neste mecanismo perfeitamente oleado cai um grão de areia: nasce uma criança, suficiente para mudar a direção da história. A nova capital do mundo é Belém.

Ali Maria dá à luz o seu filho primogénito, envolve-o em faixas e depõe-no numa manjedoura... no comedouro dos animais, que Maria, na sua necessidade, lê como um berço. O estábulo e a manjedoura são um "não" aos modelos mundanos, um "não" à fome de poder, um "não" ao que está estabelecido. Deus entra no mundo do ponto mais baixo, para que nenhuma criatura nunca mais esteja por baixo, para que ninguém fique de fora do seu abraço que salva.

O Natal é o maior ato de fé de Deus na humanidade: confia o filho nas mãos de uma jovem inexperiente e generosa, tem fé nela. Maria cuida do recém-nascido, alimenta-o de leite, de carícias e de sonhos. Fá-lo viver com o seu abraço.

Do mesmo modo, na incarnação nunca concluída do Verbo, Deus só viverá na nossa Terra se cuidarmos dele, como uma mãe, a cada dia.

Havia naquela região alguns pastores... uma nuvem de asas e de canto os envolve. É muito belo que Lucas anote esta visita única, um grupo de pastores a cheirar a lã e a leite. É belo para todos os pobres, os últimos, os anónimos, os esquecidos. Deus recomeça deles.

Vão e encontram uma criança. Contemplam-no: os seus olhos são os olhos de Deus, a sua fome é a fome de Deus, aquelas mãozinhas que se estendem para a mãe são as mãos de Deus estendidas para eles.

Por quê o Natal? Deus fez-se homem para que o homem se faça Deus. Cristo nasce para que eu nasça. O nascimento de Jesus requer o meu nascimento: que eu nasça diferente e novo, que nasça com o Espírito de Deus em mim.

O Natal é a "reconsagração" do corpo. A certeza de que a nossa carne que Deus assumiu, amou, fez sua, é sagrada em qualquer dos seus membros, que a nossa história é sagrada qualquer que seja a sua página.

O Criador que tinha plasmado Adão com a argila do solo faz-se Ele mesmo argila deste nosso solo. O oleiro faz-se argila de um vaso frágil e belíssimo. E ninguém pode dizer: aqui acaba o homem, aqui começa Deus, porque Criador e criatura abraçam-se a partir de agora. Para sempre."

P. Ermes Ronchi In "La Chiesa"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada por SNPC a 23 de dezembro de 2014

Em Carne e Osso

John Le Grand
Deus de nossa carne: Meditação sobre o Natal de Jesus

Na fórmula da Profissão de Fé do cristão, encontramos, aquando da proclamação da adesão do crente à verdade segundo a qual o «Logos» de Deus «desceu dos céus e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria», a indicação de que se deve fazer uma inclinação.

Para quê e porquê? E porquê neste preciso momento e não aquando de um qualquer outro momento? O que há de tão especial neste ato de Deus que mereça uma tal também especial atitude de reverência, de discreta adoração?

Na economia geral da relação de Deus com a criação e especialmente com a criação do ser humano, este é o segundo momento mais importante, a segunda marca absoluta, definitiva.

A primeira deu-se quando Deus criou o mundo a partir de si como infinito ato de superabundante amor. Neste ato de posição absoluta da possibilidade e realidade dos seres, deu ser à humanidade, em momento de especial ápice caritativo, momento no qual dotou algo com a possibilidade de escolher irredutivelmente o seu porvir. Com tal possibilidade passou a haver mundanamente a capacidade de escolher o bem, o que implica, em cada possível ato, poder não escolher o bem, absoluto da possibilidade da origem da realidade do mal. O ser humano traz consigo a possibilidade de bem e de mal e é tal dom que faz dele propriamente humano, não bestial.

A incarnação do Verbo é o momento em que deixa de haver separação entre o criador e a criatura, em que Deus, fazendo-se carne, assume a plenitude da criação, assumindo a plenitude de seu ápice. Não sendo possível ao ser humano assumir Deus, é a este que compete assumir a humanidade. A incarnação cumpre a criação em sua possível plenitude, esta em que é o próprio Deus que experimenta ser como o melhor possível do criado. Pela incarnação, Deus pode saber como é ser-se humano incarnadamente e a criação experimenta a presença à sua medida do próprio criador. A incarnação é o ato de sacralização absoluta do mundo, através da marca sacramental realíssima da carne de Jesus em seu seio. É este o grande batismo de que João fala em Marcos. Cristo é o sacramento batismal do mundo.

Mas não há sacramentos mágicos ou impostos. Se a criação incoativa é uma posição ontológica absoluta sem auscultação do criável, pela razão evidente, o sacramento, como oferta caritativa absoluta do amor de Deus, é passível de ser aceite ou não aceite. Nunca há violência sacramental, mesmo que de tal haja ilusão. Ninguém é obrigado ou obrigável a ser amado. Esta aceitabilidade tem um preço que é a maior ou menor proximidade a Deus por via da maior ou menor proximidade ao seu ato de amor ofertado. A medida exata desta distância é aquilo a que se chama, na sua perfeição, céu, na sua imperfeição pró-total, inferno.

O que o Menino cuja vinda à carne se celebra no Natal, permitida pela escolha de Maria ao dar o seu sim a tal possibilidade, veio trazer ao mundo foi a possibilidade da proximidade sem distância a Deus. O Antigo Testamento é a narrativa da relação distante com Deus, mediada pela natureza bruta e por seres humanos que agem como incarnados anjos de Deus, mantendo este a sua distância dada pela sua pura espiritualidade. Episódios como os da sarça ardente manifestam bem a intransponibilidade da distância entre o ser humano carnal e o Deus puro, puro espírito, puro fogo e pura luz.

O Menino, sendo tão espírito quanto o que a sarça representava, é de carne. O Menino cresceu no seio de Maria, alimentando-se da matéria da Mãe por meio de um cordão umbilical semelhante ao meu, ao teu. O Menino, já parido, já respirando ar, bebeu leite do seio de Maria. O Menino é, precisamente, como diz Mateus, "Emmanuel", «Deus connosco». Mas não apenas «connosco», mas da nossa mesma carne, fazendo, assim que incarnou, que passássemos a ser da sua carne.

Até à incarnação do Verbo, o ser humano era de carne humana, mas, após a incarnação do Verbo, o ser humano passa a ser da carne de Deus, pois Deus acabou de assumir a carne humana. Sendo esta assunção perfeita, a carne deixa de ser humana, para passar a ser divina. Algo que se esquece, mas que é fundamental, decisivo. Desde que Cristo é carne que a carne é divina, participando nós, seres humanos, da divina carne.

Não é já Cristo que partilha da carne dos seres humanos, são os seres humanos que participam da carne de Cristo. A carne é, assim, desde que Cristo a assumiu e tornou perfeita, em si mesma, imaculada. É a nossa relação com a nossa carnalidade que serve ou não a sua pureza, que a cumpre constantemente em sua radical divindade ou a perverte. Mas a besta não é a carne, sou eu quando lhe não sou fiel.

Que lhe não sou fiel como Maria e Jesus foram.

A divina relação carnal entre Maria e Jesus purifica para sempre o sentido da carnalidade: por meio da liturgia soteriológica da carne de Maria, foi ao Verbo possível ganhar carne. Ao ganhar carne, o Verbo imediatamente divinizou toda a carne que, como Maria, é carne ao serviço da salvação do mundo. Compreende-se melhor qual a razão pela qual Maria, em sua carne, mereceu acompanhar imediatamente a carne de sua carne no Céu, isto é e logicamente, junto do Filho cuja carne permitiu.

Como o santo Evangelho, a santa caridade da boa-nova, está longe da peçonha maniqueia e pagã da demonização da carne, impossível em termos cristãos, pois não há perfeito Cristo sem perfeita carne, na perfeição de sua carne.

Amaldiçoar a carne, é amaldiçoar o Verbo em sua carne. Tal é simplesmente blasfemo.

«Bendito é o fruto de teu ventre», diz a Isabel de Lucas a Maria. Neste ventre, por este ventre, não apenas passou, mas continua sempre a passar a salvação do mundo. Esta salvação tem precisamente no sim de Maria o seu paradigma. Salvar-se é acolher o Verbo de Deus em seu seio. O único necessário.

Se o Espírito sopra de infinitas formas, como e onde quer, a incarnação é a forma de o Espírito soprar Deus na carne. Literalmente informar-se na, para si absolutamente nova, forma da carne. Forma velha para nós. Forma para sempre rejuvenescida pela frescura da mocinha Maria, que permitiu ao Espírito dar-se em puro carnal amor ao mundo, reconsagrando-o, batizando-o.

O joanino «Logos» do princípio, eterno companheiro do Pai, na união do Espírito, paradigma de toda a relação possível, carne lógica da caridade oblativa que eternamente os une, enlevo do Pai, manifesta-se no mundo criatural não como fantasma, não como terrífico poder, mas como indefeso e frágil pedacinho de terna carne humana, de que nada há a temer – "me phobou Mariam" (não temas Maria), diz Gabriel –, todo-poderoso como dom de possibilidade de amor e de amor em ato. Promessa eterna de salvação que se cumpre até à morte e ressurreição.

«Nada temas, Maria». Nada a temer, se fores Maria. Deus põe-te como ato de amor. Se fores fiel a este ato, nada tens de temer. Mesmo a morte de teu Filho será vivida por ti como um ato de oblação. Nada temas. Mesmo no mais profundo sofrimento, nunca abandonarás o teu Filho. E ele nunca te abandonará. Que temer, então, Maria?

Ao contemplarmos o Menino, absolutamente frágil, mas todo-poderoso como dom absoluto de caridade divina, pensemos em como fazer da nossa carne a sua carne, em como transformar cada um de nossos atos na carne do bem da caridade, sempre frágil, mas todo-poderosa de cada vez que põe bem na continuidade da criação.

Lembremos que, sendo assim, não há como pecar. A caridade é a impossibilidade do pecado. Não a sua morte, a sua impossibilidade. Onde está a caridade, não só habita Deus, como nunca poderá habitar o pecado.

Diz o poeta, num momento de terrível angústia: «Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...» [Fernando Pessoa, "Poesias de Álvaro de Campos", Lisboa, Ática, 1980, "Ali não havia eletricidade"], reconhecendo a absoluta vacuidade de tudo o mais. A caridade feita frágil carne é tudo. O mais é nada.

Natal é a caridade e a caridade é o Natal, não apenas o Natal de Jesus, mas o nosso Natal de cada ato em cada ato de caridade, abençoada carne do amor.

Américo Pereira, Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
publicado pelo SNPC a 22 de dezembro de 2014

sábado, 2 de dezembro de 2017

Tempo de Cura

Natal, tempo para curar feridas

«Permiti-me que vos exorte a transformar este Santo Natal numa verdadeira ocasião para curar cada ferida e para curar-se de cada falta. »

«Por isso exorto-vos a curar a vossa vida espiritual, a vossa relação com Deus, porque ela é a coluna vertebral de tudo o que fazermos e de tudo o que somos. Um cristão que não se alimenta com a oração, os sacramentos e a Palavra de Deus, inevitavelmente vai desfalecendo e seca.»

«Curar a vossa vida familiar, dando aos vossos filhos e aos vossos queridos não apenas dinheiro, mas sobretudo tempo, atenção e amor.»

«Curar as vossas relações com os outros, transformando a fé em vida e as palavras em boas obras, especialmente para os mais necessitados.»

«Curar o vosso falar, purificando a língua das palavras ofensivas, da vulgaridade e do léxico da decadência mundana.»

«Curar as feridas do coração com o óleo do perdão, perdoando as pessoas que nos feriram e tratando as feridas que infligimos aos outros.»

«Curar o vosso trabalho, fazendo-o com entusiasmo, com humildade, com competência, com paixão, com alma que sabe agradecer a Deus.»

«Curar-se da inveja, da concupiscência, do ódio e dos sentimentos negativos que devoram a nossa paz interior e nos transformam em pessoas destruídas e destrutivas.»

«Curar-se do rancor que nos conduz à vingança e da indolência que nos conduz à eutanásia essencial, do apontar o dedo que nos conduz à soberba, e do lamentar-se continuamente que nos conduz ao desespero.»

«Eu sei que algumas vezes, para conservar o trabalho, fala-se mal de alguém para defesa própria; entendo estas situações, mas o caminho não acaba bem – no fim seremos todos destruídos entre nós e isso não serve.»

«Pedir a Deus a sabedoria de morder a língua a tempo para não dizer palavras injuriosas que mais tarde te deixam a boca amarga.»

«Curar os irmãos frágeis (...), os idosos, os doentes, os esfomeados, os sem-abrigo e os estrangeiros, porque por isto seremos julgados.»

«Curar o santo Natal, para que ele não seja nunca uma festa do consumismo comercial, da aparência ou dos presentes inúteis, ou dos gastos supérfluos, mas da alegria de acolher o Senhor no presépio do coração».

Imaginemos como o nosso mundo mudaria se cada um de nós começasse agora, e aqui, a curar-se seriamente e a curar generosamente a sua relação com Deus e com o próximo. Cada um de nós pode pensar: qual é a coisa que precisa mais de cura? E curá-la.»

«Mas sobretudo a família, a família é um tesouro, os filhos são um tesouro. Uma pergunta que os jovens pais podem fazer-se: tenho tempo para brincar com os meus filhos, ou estou sempre comprometido, comprometida, e não tenho tempo para eles? Deixo a perguntar. Brincar com os filhos é semear o futuro.»

Papa Francisco no Encontro natalício com os colaboradores da Santa Sé
Vaticano, 22 de dezembro de 2014
Tradução e adaptação de Rui Jorge Martins , publicado em SNPC

Quem é o meu anjo?

Se Deus nos enviar um anjo, dar-nos-emos conta?

"Maria é aquela que tornou possível a incarnação do Filho de Deus, «a revelação do mistério, envolvido no silêncio por tempos eternos» (Romanos 16, 25). Tornou possível a incarnação do Verbo precisamente graças ao seu "sim" humilde e corajoso.

Maria ensina-nos a colher o momento favorável em que Jesus passa na nossa vida e pede uma resposta pronta e generosa. E Jesus passa. Com efeito, o mistério do nascimento de Jesus em Belém, acontecido historicamente há mais de dois mil anos, atua, como evento espiritual, no «hoje da liturgia».

O Verbo, que encontrou morada no ventre virginal de Maria, na celebração do Natal vem novamente bater ao coração de cada cristão: passa e bate. Cada um de nós é chamado a responder, como Maria, com um "sim" pessoal e sincero, colocando-se plenamente à disposição de Deus e da sua misericórdia, do seu amor.

Quantas vezes Jesus passa na nossa vida, e quantas vezes nos envia um anjo, e quantas vezes não nos damos conta porque estamos muito ocupados, imersos nos nossos pensamentos, nos nossos afazeres e até, nestes dias, nos nossos preparativos de Natal, quantas vezes não nos damos conta dele que passa e bata è porta do nosso coração, pedindo acolhimento, pedindo um "sim", como o de Maria.

Um santo dizia: «Tenho medo de que o Senhor passe». Sabeis porque tinha medo? Medo de não o acolher e deixá-lo passar. Quando nós ouvimos no nosso coração: «Quero ser melhor... Estou arrependido do que fiz...» - é precisamente o Senhor que bate à porta.

Deus faz-te sentir isto: a vontade de seres melhor, a vontade de permaneceres mais próximo dos outros, de Deus. Se tu sentes isto, então para: o Senhor está aí. Vai rezar, e talvez à confissão, fazer uma limpeza: faz bem. Recordai-vos bem: se sentis esta vontade de melhorar, é ele que bate - não o deixeis ir embora.

No silêncio do Natal, junto a Maria está a silenciosa presença de S. José, como está representada em cada presépio - e também naquele que podeis admirar aqui, na Praça de S. Pedro.

O exemplo de Maria e de José é para todos nós um convite a acolher Jesus com total abertura de alma, Ele que por amor se fez nosso irmão. Ele vem trazer ao mundo o dom da paz: «Paz na Terra aos homens por Ele amados» (Lucas 2, 14), como anunciaram em coro os anjos aos pastores.

O dom precioso do Natal é a paz, e Cristo é a nossa verdadeira paz. E Cristo bate aos nossos corações para nos dar a paz, a paz da alma. Abramos as portas a Cristo.

Confiamo-nos à intercessão da nossa Mãe e de S. José para viver um Natal verdadeiramente cristão, livre de toda a mundanidade, pronto a acolher o Salvador, o Deus connosco."

Papa Francisco  no Angelus de 21 de dezembro de 2014
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC

Confiar, Acolher, Esperar o nada, Adorar e Entregar

José Tolentino Mendonça numa meditação para o Advento

"O riacho incansável/ através do matagal/ o monge segue-o assobiando

Muitas vezes encontramos na nossa vida coisas, pessoas, situações, acontecimentos que são um riacho que desconhecemos onde termina. Passam por nós e continuam a sua viagem.

Com que sabedoria olharemos para esse riacho? É fazendo o seu caminho assobiando, isto é, sem pressas, sem pretensões, sem querer explicar, mas saborear o momento.

Como um pequeno pastor com um fio de erva nos lábios que vai vivendo o tempo, nós precisamos dessa distensão interior.

A confiança é uma forma de distensão, de calar em nós o medo, a voracidade, as interrogações que nos ensurdecem. Calar, calar, calar dentro de nós a confusão das vozes para reaprender o fio da confiança.

Há quanto tempo nós não caminhamos pela rua assobiando? Ou há quanto tempo não seguimos os riachos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem porquê, acreditando no valor das etapas da vida que não conduzem a lado nenhum?

Há caminhos na floresta que não conduzem a nenhuma parte. Que valor é que têm? Dão-nos a possibilidade de passear, de estar ali naquele momento com o peso do nosso corpo, com a nossa situação. A vida espiritual é precisamente a redescoberta disso, a cada momento.

Ruído estranho sobre o telhado?/ que entre/ quem chegar
A nossa vida é muitas vezes um telhado cheio de ruídos que não conseguimos logo identificar. E a nossa atitude é de medo, de reserva, de defesa. Vivemos blindados, com as nossas armaduras e armadilhas.

«Ruído estranho sobre o telhado?/ que entre/ quem chegar»: é a atitude do acolhimento, da hospitalidade da vida; é a atitude de quem não escolhe aquilo que vai viver.

Há coisas que podemos escolher viver. Mas há também aquilo que não escolhemos e que temos de viver como uma oportunidade para fazer a viagem, temos de viver como uma pequena arte, um pequeno elogio da confiança.

Quem espera o nada/ sabe que a passagem/ se dá
Qual é, verdadeiramente, a arte da confiança? É esperar o nada. Aquilo que em Taizé, por exemplo, nos ensinam a rezar quando por lá passamos: "Senhor, estou aqui à espera de nada".

Quem se coloca à espera do nada, sabe que a passagem se dá, que alguma coisa se dá. Porque os nossos limites, muitas vezes, têm a ver com a imposição e o atropelo em nós do desejo - daquele desejo -, que frequentemente nem é o melhor, mas apenas aquilo que conseguimos ver naquele momento.

Olhemos, por exemplo, para as crianças: acontece ouvirmos numa loja uma criança a chorar porque quer alguma coisa; mas, naquela ocasião, essa vontade não é a melhor para ela. O papel dos pais é abri-la a outros desejos, dar-lhe outra compreensão da vida.

A verdade é que nós somos assim, crianças, pela vida fora, a fazer birras por isto ou por aquilo. «Quem espera o nada/ sabe que a passagem/ se dá.»

Queres saber o que rezo nas orações?/ troncos secos, gravetos/ cercas e barro vermelho
A autobiografia espiritual da Madre Teresa de Calcutá foi um grande choque: toda a gente pensava que a oração dela era quase à maneira de um sermão do Padre António Vieira, polifónica, barroca.

Ao contrário, a sua foi uma oração que é um nada. A oração do vazio, a oração do silêncio, a oração da noite escura, a oração dos troncos secos, dos gravetos, da cerca e do barro - isto é, a oração da vida.

O grande equívoco da oração é compor-se de um conjunto de palavras que nos dão a ilusão de que ela é sempre uma morfologia da beleza, do ideal, da perfeição, do acabamento. E não é o inacabado que rezamos, não é o imperfeito que rezamos, não é a vida quotidiana que rezamos, não é a perplexidade que transportamos que rezamos.

«Queres saber o que rezo nas orações?/ troncos secos, gravetos/ cercas e barro vermelho.»

Adorar/ é surpreender Deus/ na menor migalha
A oração não se faz de festins; a oração faz-se de migalhas. Faz-se do mínimo, e não do máximo. A verdadeira oração faz-se do ínfimo que é a vida, daquilo que não tem espessura nem forma, mas é o que somos e vivemos. E perceber, como dizem os monges budistas, que Deus está num grão de arroz.

Se não formos capazes de ver Deus num grão de arroz, não somos capazes de o ver em parte alguma. Se não somos capazes de ver Deus no ínfimo, não somos capazes de o ver no grande e no imenso.

Iniciada a meditação/ chamam por mim/ e não respondo
É importante vivermos a oração como um tempo de entrega - ao contrário da distração. Diziam os Padres do Deserto: se quando estás a rezar fores mordido por uma abelha, a tua mordedura não fará mal.

No tempo da oração, muitas vezes a imaginação é a louca da casa: vem e arrebata-nos para aqui e para ali, e sentimos a pressão de tudo o que não fizemos e que é preciso fazer precisamente naquele momento.

Como é importante este desligar, num tempo em que todos estamos ligados, e isso confunde-se tantas vezes com a própria existência - e não é assim: também precisamos da nossa solidão, precisamos desse espaço íntimo, de um tempo só nosso em cada dia, precisamos de olhar pela janela, precisamos desses momentos para refazer com outro alento a nossa vida."

José Tolentino Mendonça
Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, Lumiar, Lisboa a 9 de Novembro de 2013

Ideias para viver o Natal

Como viver o Natal de outra maneira?

"Quando um nascimento acontece numa família, envia-se um sms a todos os amigos com uma fotografia do recém-nascido. Quer-se anunciar a novidade a toda a gente. No Evangelho é a mesma coisa. Os anjos querem anunciar o nascimento de Jesus ao mundo inteiro. O Natal é uma festa da alegria. O anjo é muito preciso: «Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo». Com efeito, a alegria não pode ser verdadeira enquanto houver quem não a possa viver.

Talvez seja por isso que os primeiros a quem a boa-nova é anunciada sejam os pastores. Estes homens pobres viviam à margem das cidades, eram muitas vezes mal vistos, suspeitos de serem ladrões de galinhas. É a eles que a novidade é revelada em primeiro lugar. Se assim não fosse, arriscar-se-iam a serem esquecidos, marginalizados. Como podemos então viver o Natal evitando que haja pessoas que fiquem sós, isoladas, esquecidas? Se assim acontecer, não haverá verdadeiramente Natal. A autêntica partilha do Natal situa-se, antes de tudo, na relação, e não na dimensão comercial e consumista. É o calor da relação com os outros que todos nós procuramos neste tempo. Os presentes não serão verdadeiros se não forem sinal dessa relação.

Há muitas possibilidades de entrar em relação no Natal: visitar detidos nas prisões, participar em refeições onde a mesa está aberta às pessoas sós, aproximar-se e participar na distribuição de alimentos a pessoas sem-abrigo. Pode organizar-se uma animação musical em locais de grande afluência, como estações de transportes, ou organizar boleias para levar à missa de Natal as pessoas afastadas que não se conseguem deslocar pelos próprios meios, quer por motivos de saúde, quer por não terem dinheiro, quer por não terem quem se lembre delas.

Há outras iniciativas simples. Em vez de enviar os mesmos votos de Natal a todo o meu livro de endereços, posso reservar tempo para escrever uma carta personalizada a algumas pessoas que eu sei que vão passar o Natal sozinhas, ou telefonar mais demoradamente a alguém. Trata-se de apurar o meu olhar e a minha escuta. Nos transportes públicos, em vez de ouvir a minha música ou ler o meu jornal, posso olhar para as pessoas, dar um sorriso com alguém que cruze o meu olhar, arriscar-me a cumprimentar alguém que não conheço.

É preciso também saber, e talvez isto seja o essencial, que no Natal todos desejam poder dar - «Há mais alegria no dar do que no receber», dizia Jesus (Atos dos Apóstolos 20,35). Muitas vezes as pessoas, mesmo as muito pobres, desejariam também elas dar um presente, como sinal do seu desejo de relação. Estarei eu aberto à reciprocidade na relação? Esta é a condição da verdadeira alegria. A alegria no Natal anunciada aos pastores."

P. Dominique Fontaine, Capelão do “Secours Catholique” In "Fêter Nöel"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 16 de dezembro de 2014

O sentido dos presentes de Natal

Porquê dar no Natal?
"O Natal é a festa do dom supremo: o nascimento de Jesus. Por amor a nós, Deus envia o seu Filho para nos salvar. Mas porquê oferecer presentes? Porque eles exprimem de maneira concreta este amor que temos uns pelos outros. Todos temos necessidade de atenção e ternura. Os presentes, escolhidos com amor, são o sinal do reconhecimento que se tem por cada pessoa e que também existe por nós. Mesmo se nem todas as pessoas lhes dão a mesma importância e a mesma atenção – nomeadamente por causa das diferentes culturas familiares ou devido às diferenças de idade –, os presentes são mais do que um simples ritual: têm sentido. Desde a mais tenra idade vale a pena encorajar as crianças a dar presentes, para lhes dar o gosto de agradar e ensinar-lhes a prestar atenção aos outros. Um presente pode ser um meio de dizer «amo-te», «gosto muito de ti» ou «obrigado».

Como escolher um presente?
Não é fácil escolher o presente certo, que agradará, ao mesmo tempo que faz sentido para nós. Para os familiares, como satisfazer uma criança e, simultaneamente, escolher alguma coisa de educativo que lhe convenha? O bom presente é sem dúvida aquele que permite a quem oferece responder à expetativa do outro, dando-lhe alguma coisa de si próprio – não para o estragar ou suscitar gratidão, mas para verdadeiramente o agradar e dar resposta às suas necessidades ou desejos.

Saber receber
Saber oferecer, mas também saber receber. Num presente, tudo conta, cada um tem a sua linguagem. Algumas pessoas não gostam de os aceitar. E há toda uma arte de os receber: não esperar demasiado deles, deixá-los falar, deixá-los dizer o amor de que são portadores. Isto supõe acolhê-los verdadeiramente, encontrar-lhes um lugar de onde, de tempos a tempos, nos possam piscar o olho. E então, através de um misterioso retorno, somos levados a pensar naqueles que os ofereceram.

Abrir o coração aos outros
A visita dos magos ou dos pastores ao presépio realça um cenário de dons. A mirra, o ouro e o incenso, bem como os cordeiros oferecidos pelos reis e pastores vindos de todos os horizontes, de etnias diferentes, de distintas camadas sociais, entronizam o poder divino. É um ato que une. Além daqueles que amamos porque nos são próximos, há também aqueles que conhecemos por necessidade. A esses com quem nos cruzamos diariamente, podemos também dar um pequeno presente ou ter um gesto que diz mais do que aquilo que é esperado. Há muita alegria ao dar um presente a desconhecidos, a irmãos e irmãs do outro lado do mundo ou que estão mais perto, a quem podemos chegar através de associações de solidariedade. Nestes casos, o presente não tem troca, mas não deixa de ter efeito, quer para quem recebe como para quem oferece.

Sermos presentes uns para os outros
Somos todos chamados a ser presentes uns para os outros. Para além dos dons materiais, aproveitemos o período do Natal para regressar ao essencial, aos sentimentos que nos ligam, ao que nós podemos ser ou fazer por alguém."

Véronique Fruchard In "Fêter Nöel"
Tradução de Rui Jorge Martins, publicado por SNPC a 15 de dezembro de 2014

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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