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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

sábado, 17 de março de 2018

Padre Tolentino Mendonça orientou a reflexão quaresmal do Papa

Marc Chagall
Tolentino Mendonça. A vida do padre-poeta que orientou o retiro do Papa

por João Francisco Gomes, a 24 de fevereiro de 2018, in Observador

Padre, poeta, cronista. Tolentino Mendonça foi chamado pelo Papa para orientar o seu retiro espiritual. Quem é o português que o Vaticano considera "das vozes mais autorizadas da cultura do seu país"?

No início da década de 90, pouco depois de ter sido ordenado padre e de ter concluído um mestrado em Roma, José Tolentino Mendonça regressou a Lisboa. Foi nomeado capelão da Universidade Católica, onde começou a dar aulas. Foi lá que Pedro Mexia, na altura estudante de Direito, conheceu o jovem sacerdote. Ele e os colegas descobriram um padre diferente do habitual. “Lembro-me de as pessoas ficarem muito cativadas com o estilo dele. Houve até pessoas que passaram a ir à missa para o ouvir”, recorda o poeta português, 25 anos depois. “Nós dizíamos uns aos outros que achávamos que aquele tipo ia longe. Agora, o Papa também acha.”

Foi longe. No final do mês passado, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, anunciava que o padre e poeta português tinha sido escolhido para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e dos restantes membros da Cúria Romana (os órgãos de governo da Igreja Católica). “Teólogo e poeta, é uma das vozes mais autorizadas da cultura do seu país“, lê-se no artigo, que anunciava que Tolentino Mendonça iria passar uma semana na Casa do Divino Mestre, nos arredores de Roma, a orientar o Papa nas dez meditações do retiro, dedicadas ao “elogio da sede”.

Tolentino Mendonça aceitou de imediato, “com muita humildade”, o desafio de se tornar no primeiro português a orientar a reflexão do Papa. “Sou um simples padre, e acolho [o pedido] com um sentido de serviço à Igreja e ao Santo Padre”, disse ao portal Vatican News. Porém, as crónicas que assina semanalmente na revista do Expresso e a sua vasta obra literária levam a uma conclusão diferente. Tolentino Mendonça não é só um simples padre. É um professor, poeta e ensaísta dono de perspetivas muito próprias sobre a fé, que podem surpreender os mais distraídos.

“Quando ele escreve um texto no Expresso sobre o Bruce Springsteencomo se estivesse a falar de São Francisco de Assis, a primeira reação é de perplexidade. De facto, não há razão nenhuma para essa perplexidade. Ele consegue encontrar pontos de contacto com a dimensão religiosa, mesmo naquilo que, numa cultura, podia parecer hostil ou alheado dessas questões. São fórmulas inesperadas“, resume Pedro Mexia ao Observador.

As fórmulas que usa na sua obra literária são as mesmas a que recorre nas salas da Universidade Católica, onde hoje é vice-reitor. O padre Miguel Vasconcelos, jovem sacerdote que não esconde a alegria de hoje ser sucessor de Tolentino Mendonça no cargo de capelão daquela universidade, lembra as aulas com o poeta. “Uma das coisas que marcam a ação dele é a capacidade de olhar para os Evangelhos com a sensibilidade dos artistas. É uma teologia contemplativa, com a lupa da estética. E isso é próprio dele, por ele ser poeta, não é uma fabricação”, conta o sacerdote.

De facto, esta análise da fé pelos olhos da arte marcou a semana de retiro do Papa, que terminou na sexta-feira. Logo no domingo, na primeira meditação, que dedicou ao tema “Aprendizes do espanto”, Tolentino Mendonça colocou a literatura ao lado da Bíblia, para sugerir ao Papa Francisco e aos participantes dos exercícios espirituais uma leitura do episódio da Samaritana, do Evangelho de João, a partir de citações de Fernando Pessoa e de Lev Tolstoi.

“Não há uma distinção clara entre o padre e o poeta“, explica o crítico literário João Pedro Vala, admirador convicto da obra de Tolentino Mendonça. “Quando se ouve um sermão do padre Tolentino, ou se lê um poema ou uma crónica, não existe uma distinção. Os sermões são poéticos, e os poemas, não sendo pregações, vêm da mesma pessoa, têm a mesma doçura. Trata o leitor como um membro da sua paróquia.” Por isso foi escolhido como pregador para o Papa, assume sem dúvidas quem o conhece.

Em todas as dimensões da sua vida — poeta, escritor, professor e padre especialista em estudos bíblicos — as palavras ocupam um lugar de destaque. “A palavra é o grande lugar para o conhecimento que faço de mim próprio“, disse Tolentino Mendonça numa entrevista à RTP. A paixão pelas palavras nasceu durante a infância passada entre a ilha da Madeira, onde nasceu e para onde regressou aos nove anos, e Angola, para onde se mudou com a família ainda bebé e onde viveu os primeiros anos da sua vida.

Madeira, Angola, a avó e o amor a Herberto Hélder

José Tolentino Mendonça nasceu em Machico, na ilha da Madeira, a 15 de dezembro de 1965. Com apenas um ano de idade, deixou a terra natal para se mudar para o Lobito, em Angola, onde o seu pai e os seus tios, uma família de pescadores, já viviam. Numa longa entrevista que deu ao Público em 2012, Tolentino Mendonça recordava esses momentos. “Lembro-me de uma viagem que fiz com o meu pai. Na minha cabeça ia também pescar. Dei comigo, para lá dos enjoos típicos de um iniciante pelo mar fora, na borda do barco, a olhar as paisagens. Praias que ainda não tinham sido exploradas, rochedos, o azul do mar, o fundo do mar”, contou.

“Essa contemplação despertava em mim uma emoção enorme, enorme. Ficava boquiaberto. Como se aquela vida intacta, da paisagem do mundo, tivesse em mim um impacto que não sabia expressa”, continuava o padre, lembrando que foi na infância que as portas da literatura se abriram para si. Particularmente no difícil regresso à Madeira, depois do 25 de Abril, que viveu com nove anos. A melhor palavra talvez nem seja regresso, uma vez que Tolentino Mendonça tinha vivido toda a sua infância, até ali, em Angola.

A mudança de vida, lembrava o sacerdote na mesma entrevista, “teve um dramatismo mais literário do que literal”. “Senti que me estava a despedir daqueles lugares. Fui com o meu cão, sozinho. Digo que foi literário porque quis chorar, abraçado ao cão, sentindo que era a última vez que estava ali“, contou, detalhando como encarou aquele momento como “uma aventura no porão de um barco, numa cidade desconhecida”.

Com apenas nove anos, viveu o regresso à Madeira de forma diferente dos seus pais, que sofreram uma “ansiedade enorme” com a mudança de vida. “A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades — no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem — protegeu-me. Quando penso na infância nem por uma vez me lembro de medo, de ansiedade”, disse na entrevista ao Público.

Da vida na Madeira, Tolentino Mendonça recorda sobretudo a relação com a natureza e com o mar. “Vivia no Machico, num mundo ainda rural, muito próximo do mar, com grandes espaços em que dava para me deitar na terra e olhar as estrelas. Tinha um caderno em que apontava os barcos que passavam, observava as árvores. O meu pai, que era pescador, quando ia às Ilhas Selvagens trazia-me de presente uma cagarra. É um mundo próximo da natureza, tutelado pelas profissões artesanais, atravessado pela poesia, pelos elementos”, lembrava, numa entrevista ao Sol, em 2013.

Com 11 anos, entrou no seminário. “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”, recordou na mesma entrevista, destacando o papel da família crente na descoberta da fé. Personagem fundamental na definição do seu percurso foi João Henrique Silva, até 2015 diretor regional dos Assuntos Culturais na Madeira, que na altura era professor no seminário. “Era um homem que gostava muito de cinema. Mostrou-me que era possível viver a fé e escolher uma vocação religiosa em relação com o mundo da cultura.”

Entrar no seminário foi também a oportunidade de entrar numa biblioteca pela primeira vez. Antes, o seu contacto com a literatura era exclusivamente através da sua avó materna. “A minha avó foi a minha primeira biblioteca“, dizia na entrevista ao Público, lembrando que a senhora, que não sabia ler nem escrever, conhecia vários romances e histórias orais de cor. “Numa recolha recente que se fez do romanceiro oral da Madeira uma das pessoas que está lá é a minha avó”, contou Tolentino Mendonça, dizendo-se comovido com essa recordação da avó.

Um outro episódio marcou a sua entrada no mundo literário: uma senhora, também ela analfabeta, zeladora da igreja que frequentava, citava muitas vezes de cor o Cântico dos Cânticos. “Uma vez disse-me aquele poema e fiquei aturdido, extasiado, aquelas palavras apoderaram-se de mim”, contou o padre, garantindo que “há um antes e um depois daquele momento“. Viria a estudá-lo e a traduzi-lo para português durante os seus estudos teológicos.

Finalmente, aos 16 anos, escreveu o primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, admitia ao Público, lembrando que aquele poema era sobre a sua própria infância, “uma infância que podia ter sido a de Herberto Hélder“, também “no contexto insular”. Logo no primeiro verso do primeiro poema, Tolentino Mendonça definiu com clareza aquilo que viria a ser o seu percurso literário: “No princípio era a ilha“. Um verso que dizia estar “embebido da palavra divina” ao mesmo tempo que representa o seu “princípio biográfico”, antevendo uma obra em que fé e poesia se confundem.

Em 1982 começou a estudar teologia e em 1990 foi ordenado padre — no mesmo ano em que lançou o primeiro livro de poemas, Os Dias Contados. Depois da ordenação, mudou-se para Roma para fazer um mestrado em Ciências Bíblicas, formação que viria a completar com um doutoramento em Teologia Bíblica, em Portugal, na Universidade Católica de Lisboa. Tornou-se capelão da universidade, professor na Faculdade de Teologia e continuou a publicar com frequência livros de poesia — até hoje publicou mais de três dezenas.

Padre ou poeta?

Pintado numa grande fachada de um prédio em Machico, o poema “Caminho do Forte, Machico“, publicado em 2006 na colectânea A noite abre meus olhos, é a homenagem daquele município madeirense ao poeta da terra. O poema não é propriamente um texto religioso — mas também não é esse o ponto fundamental da obra de Tolentino Mendonça. O crítico literário João Pedro Vala destaca que, mesmo havendo cada vez mais padres católicos com preocupações literárias, poéticas, “a grande novidade do padre Tolentino é que ele não parece obcecado ou centrado na necessidade de usar a literatura para passar uma mensagem religiosa“. “Não me parece que ele procure fazer da literatura um palco para os seus sermões, e isso é diferente de muitos outros padres que também são poetas, que usam a literatura para passar a mensagem do Cristianismo”, diz o crítico ao Observador.

Também Francisco José Viegas, o diretor da editora Quetzal, que publicou o mais recente livro do poeta, sublinha que o âmbito da obra de Tolentino Mendonça extravasa os limites da mensagem religiosa. “Ele é um omnívoro, como eu costumo dizer. Um homem que lê tudo, que cita vários autores, de origem muito diversa. Isso é uma coisa nova no discurso de alguém da hierarquia da Igreja. Deixa contaminar o discurso religioso com uma marca poética“, afirma o editor.

Para o poeta Pedro Mexia, a dimensão literária e a dimensão religiosa de Tolentino Mendonça não devem ser encaradas “como se fossem facetas diferentes ou opostas”. Mexia destaca a “capacidade de chegar às pessoas” do padre Tolentino Mendonça, que “sempre se interessou pelas coisas mais diversas, até ao ponto de as pessoas poderem ficar um bocadinho perplexas”.

“As pessoas estão à espera de que um padre tenha um certo tipo de referências e ele às vezes tem referências muito diferentes”, continua Pedro Mexia, sublinhando como Tolentino Mendonça, padre e poeta, mas também cronista, tem “vontade de procurar a linguagem do nosso tempo, porque a linguagem religiosa tem uma dimensão que não é do nosso tempo“.

Francisco José Viegas considera que esta “contaminação” positiva entre a linguagem artística e a linguagem religiosa “era algo que fazia falta à Igreja Católica”. “Uma das coisas que mais me fascinam no Tolentino Mendonça é a forma como ele pode trazer alguma beleza ao discurso da Igreja”, explica o editor.

“A Igreja procura um novo discurso, um discurso que diga mais às pessoas do nosso tempo, que possa absorver um pouco mais das sensibilidades contemporâneas, mas, mais do que isso, que fale para as pessoas do nosso tempo. As pessoas estão muito recetivas a um discurso que venha contaminado pela beleza, em vez de ser um discurso mais seco, mais tradicional“, destaca Francisco José Viegas, acrescentando que é essa a novidade que Tolentino Mendonça representa.

“Acho que hoje nós não temos a noção do que é um intelectual católico, porque os católicos perderam muitos dos seus intelectuais. Houve um tempo em que a Igreja produzia intelectuais, como George Bernanos, de que assinalamos agora os 120 anos do nascimento, mas também nomes como Alçada Baptista ou Moreira das Neves. Durante muito tempo faltou à Igreja a capacidade de falar para o mundo dos intelectuais. No caso do Tolentino Mendonça, há esta mistura de perspetivas”, defende Francisco José Viegas.

Exemplo deste discurso “contaminado pela beleza” é a forma como vê a Bíblia Sagrada. Biblista de formação, Tolentino Mendonça olha para os escritos fundamentais da Igreja como uma obra de arte. “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo”, defendia Tolentino Mendonça na entrevista ao Público. “Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.

A esta reconhecida capacidade artística, junta-se um “enorme conhecimento dos estudos bíblicos que faz dele um ótimo professor”, diz o padre Miguel Vasconcelos, que não só foi aluno de Tolentino Mendonça em três cadeiras do seu curso de teologia — Evangelhos Sinópticos, Escritos de São Paulo, e Estética e Teologia — como foi seu colaborador na edição portuguesa de uma coletânea de poemas da poetisa brasileira Adélia Prado.

“Ele tem uma capacidade de traduzir a Tradição da Igreja para a linguagem atual, para que a possamos entender hoje, que poucos têm. Ou seja, o conteúdo da Tradição é a verdade que a Igreja acredita ter sido revelada por Deus. Mas a formulação não pode ser sempre igual, muda consoante o destinatário, e o padre Tolentino é um fator de tradução importante, diz as coisas de sempre numa linguagem que é a nossa. E para isso é preciso ter uma vontade de se dedicar ao diálogo, de conhecer os seus destinatários e de estar diante do resto do mundo“, diz o capelão da Universidade Católica de Lisboa.

Esta abertura ao resto do mundo é outra das característica fundamentais de Tolentino Mendonça, que tem um discurso fundamentalmente dedicado aos não crentes. “Interessa-me a religião expressa de forma não-religiosa. Aprendo muito com os não-religiosos, ateus e indiferentes, pois os que não creem fazem perguntas aos que creem e é importante que estes as escutem e aprendam”, dizia o padre, numa entrevista ao Diário de Notícias em 2017.

“Acredito que a crença é um laboratório de descrença e que dentro de um crente há sempre um não crente. Mesmo quem vê Deus por todo o lado faz a experiência de que Ele não está em sítio algum e o contrário também é verdade”, afirmava na mesma entrevista. Antes, na entrevista ao Público, tinha mesmo assumido: “Não tenho um discurso para crentes“.

O poeta Pedro Mexia destaca esta dimensão do sacerdote, notando que “sempre foi claro que Tolentino Mendonça era uma pessoa particularmente cativante, que congregava pessoas que não eram muito obviamente interessadas em questões religiosas lato sensu, e que com ele as ouviam de outra maneira”. “Já tive oportunidade de apresentar dois livros dele e nas apresentações vi gente de todas as estirpes, do ponto de vista social e político“, recorda Mexia.

Na dicotomia padre-poeta, nenhuma das dimensões tem o protagonismo, apesar de uma não viver sem a outra. Segundo conta quem o conhece, nem o sacerdócio de Tolentino Mendonça pode ser entendido sem a poesia, nem os seus escritos podem ser lidos sem ser à luz da sua vocação de padre. João Pedro Vala destaca a dimensão pessoal da sua poesia e das suas crónicas. “Uma pessoa, quando lê as crónicas do padre Tolentino, sente-se sempre em contacto com ele. Sente que está a conhecer uma pessoa boa, é isso que me fascina”, explica o crítico. A posição é partilhada por Pedro Mexia, que sublinha que o padre “está muito atento à vida das pessoas e nos seus poemas aparece muito a relação com a intimidade, com as pessoas e com o segredo”.

A literatura no retiro do Papa

Precisamente por ser um teólogo diferente, um biblista experiente e um poeta contemporâneo, o Papa Francisco acabou por convidá-lo para orientar as meditações do retiro anual que faz com os membros da Cúria Romana, no início da Quaresma. “Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe que eu sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado ‘Elogio da Sede'”, contou Tolentino Mendonça num artigo publicado no jornal italiano Avvenire, aqui numa tradução para português do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Não tenho dúvidas de que as suas qualidades artísticas, além das teológicas, contribuíram para a escolha do Papa”, diz Francisco José Viegas, garantindo que “ele é uma pessoa em ascensão na hierarquia da Igreja, a quem a hierarquia presta cada vez mais atenção”. “Ele arrasta multidões. Durante o processo de lançamento do livro anterior, que já saiu na Quetzal, percebi o interesse com que as pessoas o ouvem. O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”, conta o editor.

A hierarquia da Igreja já tem, na verdade, o padre Tolentino Mendonça debaixo de olho há vários anos. O sacerdote, que hoje é o capelão da Capela do Rato, em Lisboa, foi o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um organismo da Conferência Episcopal Portuguesa criado em 2004, destinado a promover o diálogo entre a Igreja e a esfera cultural. Pelo meio, em 2011, foi nomeado consultor do Conselho Pontifício da Cultura, um órgão da Cúria Romana destinado a fazer a ponte entre o Papa e o mundo da cultura — nomeação que viria a ser renovada em 2016.

“Não posso imaginar os critérios que levaram à escolha do padre Tolentino, mas sei que ele é conselheiro do Conselho Pontifício para a Cultura, portanto é levado muito a sério por quem organiza estas coisas. Certamente, o percurso biográfico e teológico, em termos de estudos bíblicos, faz dele capaz do que lhe foi pedido”, diz o padre Miguel Vasconcelos.

Durante esta semana, Tolentino Mendonça presidiu a meditações diárias — uma de manhã e uma à tarde — perante o Papa e os seus colaboradores mais próximos. Nessas meditações, a literatura e a poesia estiveram sempre em cima da mesa. Logo na primeira, citou Fernando Pessoa e Lev Tolstoi para pedir aos participantes que “aprendam a desaprender”. Na segunda meditação, citou Clarice Lispector e Simone Weil para sublinhar a importância de não descurar os escritores e poetas no estudo da teologia.

Na sexta-feira, último dia do retiro, o Papa Francisco agradeceu a Tolentino Mendonça pelas meditações diferentes das tradicionais. “Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático”, disse o Papa. “Obrigado por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela”, acrescentou, terminando: “Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

Hino às mulheres

Frida Kahlo
Palavras da Índia

"Quem é a mulher? – Uma criação divina.
Como é a sua natureza? – Saturada de graça.
Com que é que se parece a mulher? – Com a bondade e a inteireza.
Que destino é o seu? – Seguir Jesus e continuar a obra divina pela palavra e pela vida.

O espírito da mulher é sublime: um dom de Deus.
A sua alma é divina: chega às estrelas.
O corpo feminino é sagrado: merece o nosso respeito.
O seu trabalho é santo: que o possa realizar em paz.
O seu gesto de afeto alimenta: aceitemo-lo com alegria.
As palavras da mulher são belas: há que ouvi-las atentamente.
O cuidado feminino conforta e acalma.

O seu contributo é sacerdotal: abençoado do Alto.
O alimento é vital para a mulher: há que alimentá-la bem.
Os milagres femininos são magníficos: acreditai e rejubilai.
São como diamantes as lágrimas das mulheres: guardai-as com carinho.
A zanga das mulheres é criativa: procurai a sua razão.

O suor das mulheres é para a sobrevivência: entendei e cooperai.
Os abraços das mulheres dão bem-estar: alegrai-vos ao acolhê-los.
A compaixão das mulheres é eficaz: cheia de misericórdia.
A solidão das mulheres é real: cuidai da sua inclusão.
As mulheres são exímias na cozinha: apreciai a sua comida.
A sua dança é esplêndida: segui os seus passos.

O tempo livre das mulheres é precioso:
contribuí para que se divirtam mais.
O seu dinheiro é cheio de bondade: fazei que se multiplique.
As necessidades femininas são essenciais: ajudai-a a satisfazê-las.
Os seus problemas são graves: colaborai na sua resolução.
O amor das mulheres brilha qual arco-íris:
deixai-vos aquecer e partilhar desse brilho.
O pensamento feminino é flexível: reconhecei a força da sua mente.
A gentileza das mulheres é enorme: observai-a para com ela aprenderdes.
A sua beleza é única: admirai o seu carácter.
As suas falas são fecundas: dai a conhecer o seu bom-senso.
A alegria feminina é contagiosa: sorri e ecoai essa alegria.
A carga das mulheres é pesada: ajudai-as a carregá-la.
Os seus sonhos são dinâmicos: que eles se tornem realidade.

O conselho das mulheres é admirável: fundado na experiência.
As mulheres têm falhas e negligências: perdoai-as e esquecei.
As suas feridas podem ser dolorosas: rezai para que sarem.
A sua escrita é valiosa: dai-lhe atenção.
As mulheres dão ordens importantes: obedecei-lhes com gosto.
As suas esperanças dão sustento: dai-lhes apoio.

A maternidade é salvífica: um privilégio para todos.
Das mulheres, a privacidade é limitada: há que dar-lhe mais espaço.
A sua esperança de vida é longa: expandi-a mais ainda.
Os gritos das mulheres ainda se fazem ouvir: correi a defendê-las.
A casa das mulheres irradia segurança: ajudai-as a manter tal segurança.
Os seus direitos dão-lhe dignidade: ajudai-as a mantê-los.
A sua coragem é contagiosa: aprendei com a sua coragem.
A legislação feita por mulheres é poderosa: elegei mais mulheres.
Quando cantam, as mulheres são expressivas: assimilai os seus temas.
O seu serviço é genuíno: possamos todas fazer florir esse impulso.
O seu sucesso é imenso: recompensemo-lo em abundância.
A firmeza das mulheres transborda ternura: aprendamos a sua força.

A sua paciência é transbordante: que em nós ressoe em profundidade.
A sua política é corajosa: assumamos a mesma bandeira.
O calor feminino dá energia: confiemos no seu olhar.
A construção feminina da paz é fonte de vida: apoiemos o seu esforço.
As mulheres sabem como rezar: Deus escuta-as sem demora.
A sua caridade é singular: dirige-se ao coração.

Que Deus abençoe todas as mulheres da Terra,
e nos abençoe a nós também!"

Pearl Drego, Membro do Movimento Graal, Índia
In “Deus é o existirmos e isto não ser tudo”, ed. Paulinas

O Papa e a Mulher

Papa denuncia machismo

"Sonha uma Igreja pobre, mas também uma Igreja «esposa e mãe», porque «a mulher é o grande dom de Deus, é a harmonia do mundo». Há muitas vezes intensidade lírica quando o papa Francisco fala das mulheres. Mas há também profundidade teológica – como emergiu há alguns dias na decisão de inscrever no calendário litúrgico a memória da Virgem Maria Mãe da Igreja – e paixão civil, como quando, na semana passada, denunciou «a persistência de uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais se consumam atos de violência contra as mulheres, vítimas de maus-tratos, de tráfico e lucro, bem como reduzidas a objetos em alguma publicidade ou na indústria do entretenimento».

Mas se, no dia dedicado à mulher, tivéssemos de ir à procura da “marca feminina” mais original de Francisco, só poderíamos salientar a sua atenção ao papel materno. E não só pelos muitos acenos dirigidos nestes anos à mãe Virgem Maria e à avó Rosa, mas sobretudo pelo que escreveu nos seus textos mais significativos. Na “Amoris laetitia”, refletindo sobre a queda da natalidade, anota: «O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra». Um compromisso materno que, a par das suas qualidades tipicamente femininas, «conferem-lhe também deveres, já que o seu ser mulher implica também uma missão peculiar nesta terra, que a sociedade deve proteger e preservar para bem de todos» (n. 173).

Também é forte no papa o tema da paridade e da reciprocidade homem-mulher, na convicção de que uma mãe, para destacar as suas características de maneira equilibrada, precisa de interagir com um homem-pai num plano de igual dignidade. Recordou-o, entre muitas outras ocasiões, na audiência geral de 22 de abril de 2015: «Quando finalmente Deus apresenta a mulher, o homem reconhece, exultante, que essa criatura, e só ela, é parte dele. (…) Finalmente há um espelhamento, uma reciprocidade. A mulher não é uma “réplica” do homem; vem diretamente do gesto criador de Deus». Homem e mulher – sublinhou – são da mesma substância e são complementares.

É a mesma convicção profunda que anima o papa nas suas frequentes referências à teoria do género. Não são referências casuais a uma lógica criticada a partir de uma perspetiva ideológica, mas desejo de não fragilizar a «beleza e a verdade» da reciprocidade homem-mulher. A 4 de outubro de 2017, dirigindo-se à Academia Pontifícia para a Vida, vincou que a denominada “utopia do neutro”, «em vez de contrastar as interpretações negativas da diferença sexual, que mortificam o seu valor irredutível para a dignidade humana», pretende eliminar, de facto, essa diferença, propondo técnicas e práticas que a tornam irrelevante para o desenvolvimento da pessoa e para as relações humanas. E, em última instância, traduz-se mais uma vez em discriminação contra a mulher.

Trata-se de temas que já tinha relevado a 7 de fevereiro de 2015, no discurso à assembleia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, quando encorajou as mulheres as não se sentirem «hóspedes», mas «plenamente participantes dos vários âmbitos da vida social e eclesial», desejando também um maior envolvimento das mulheres nas «responsabilidades pastorais». Quais, em particular? Uma frente, esta, que espera uma especificação mais atenta, para além da poeira levantada pela questão das “diaconisas”, que por agora permanece ao nível – ainda assim importante – de uma comissão encarregada de estudar historicamente o tema.

Mas que o papa deseja um aprofundamento teológico da presença da mulher na Igreja está fora de dúvida. Logo nos primeiros meses do pontificado, a 12 de outubro de 2013, falando ao então Conselho para os Leigos, questionava-se sobre «que presença tem a mulher na Igreja». Se a perspetiva é a da reciprocidade e da igual dignidade – como várias vezes por ele sublinhado –, é fácil imaginar com que atitude Francisco acolheu denúncias como a publicada há alguns dias na revista “Donne Chiesa Mondo”, ligada ao “Osservatore Romano”, sobre religiosas muitas vezes tratadas como escravas pelos seus superiores, sem horário de trabalho e retribuição salarial. Ele próprio, de resto, no prólogo do livro “Dez coisas que o papa Francisco propõe às mulheres”, declarou-se preocupado que «na própria Igreja o papel de serviço a que cada cristão é chamado desliza, no caso das mulheres, por vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço»."

Luciano Moia, In Avvenire
Tradução de SNPC, Publicado em 8 de março de 2018

Hildegarda de Bingen

Uma mulher de palavra

Bastaria citar Hildegarda de Bingen (1098-1179) para compreender quão pouco conhecemos do papel da mulher na Igreja e o quanto alguns santos serviram de alimento a gente distante da fé. Vive num tempo de papas e antipapas e consegue, surpreendentemente, subtrair-se ao influente clero de Mainz, oferecendo uma leitura totalmente pessoal do seu tempo.

Hildegarda deixa a abastada Disibodenberg, transferindo-se para uma região rupestre, Rupertsberg, fundando um novo mosteiro. Deste “púlpito” fala a papas e imperadores, entra em diálogo com figuras do calibre de S. Bernardo, permanecendo submissa às legítimas autoridades, eclesiásticas e não.

Apresentando a relação entre homem e mulher com surpreendente liberdade, Hildegarda ensina às suas religiosas a serem antes de tudo mulheres, depois cristãs, depois monjas. Com uma antecipação de oito séculos relativamente a Bonhoeffer (que, aprisionado pelos nazis, afirmava a necessidade de se ser crente, e não religioso), exalta a experiência do crente contra categorias religiosas que sufocam o real conhecimento do divino.

Uma mulher assim não deslizou para análises estéreis da realidade, que nunca levam à salvação, mas propôs uma experiência de vida. Lançou uma proposta nova, num tempo difícil dominado por homens. (...) Foi um desafio para a estrutura política e religiosa do seu tempo. E também não vestiu roupas “modernas” para agradar ao seu mundo em mudança. Permaneceu monja, educando as suas irmãs através do teatro e do canto, a exprimir-se em beleza, santidade e fé. Não lhe faltaram críticas e transtornos, e no entanto hoje é fonte inesgotável de inspiração para leigos e consagrados.

Fazem falta pessoas assim: figuras políticas, masculinas e femininas, figuras religiosas capazes de produzir frutos constituídos por factos, não por palavras. Pessoas de escolhas corajosas e contracorrente que voltem aos princípios fundadores de uma existência humana digna desse nome e de uma política que ofereça ao cidadão a garantia da vida, sã no corpo e na mente.


Gloria Riva, In Avvenire
Tradução e edição: SNPC

segunda-feira, 12 de março de 2018

Regressar a Deus

Quaresma: Regressar de todo o coração ao coração de Deus

"A Palavra de Deus, no início do caminho quaresmal, dirige à Igreja e a cada um de nós dois convites.

O primeiro é o de S. Paulo: «Deixai-vos reconciliar com Deus». Não é simplesmente um bom conselho paterno, nem sequer uma sugestão; é uma autêntica e própria súplica em nome de Cristo: «Suplicamo-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus».

Porquê um apelo tão solene e fervoroso? Porque Cristo sabe o quanto somos frágeis e pecadores, conhece a fragilidade do nosso coração; vê-lo ferido pelo mal que cometemos e sofremos; sabe quanta necessidade temos de perdão, sabe que nos é necessário sentirmo-nos amados para fazer o bem. Sozinhos não somos capazes: por isso o apóstolo não nos diz para fazermos alguma coisa, mas para nos deixarmos reconciliar por Deus, permitir-lhe perdoar-nos, com confiança, porque «Deus é maior que o nosso coração». Ele vence o pecado e ergue-nos das misérias, se lhas confiarmos. Cabe a nós reconhecermo-nos necessitados de misericórdia: é o primeiro passo do caminho cristão; trata-se de entrar através da porta aberta que é Cristo, onde nos aguarda Ele próprio, o Salvador, e nos oferece uma vida nova e feliz.

Pode haver alguns obstáculos, que fecham a porta do coração. Há a tentação de blindar as portas, ou seja, de conviver com o próprio pecado, minimizando-o, justificando-se sempre, pensando que não se é pior do que os outros; desta maneira, porém, trancam-se as fechaduras da alma e permanece-se encerrado por dentro, prisioneiro do mal.

Um outro obstáculo é a vergonha de abrir a porta secreta do coração. A vergonha, na realidade, é um bom sintoma, porque indica que queremos distanciar-nos do mal; todavia nunca deve transformar-se em temor ou medo.

E há uma terceira insídia, a de nos distanciarmos da porta: acontece quando nos fechamos nas nossas misérias, quando nelas ruminamos continuamente, ligando entre elas as coisas negativas, até nos afundarmos nas profundezas mais negras da alma. Chegamos então até a sermos familiares da tristeza que não desejamos, desencorajamo-nos e ficamos mais frágeis diante das tentações. Isto acontece porque permanecemos sós com nós próprios, fechando-nos e fugindo da luz, enquanto apenas a graça do Senhor nos liberta. Deixemo-nos então reconciliar, escutemos Jesus que diz a quem está cansado e oprimido: «Vem até mim». Não permanecer em si próprio, mas ir até Ele. Nele há alívio e paz.

(...)
Há um segundo convite de Deus, que diz, por meio do profeta Joel: «Regressai a mim de todo o coração». Se é preciso regressar é porque nos afastámos. É o mistério do pecado: afastámo-nos de Deus, dos outros, de nós próprios. Não é difícil darmo-nos conta: todos vemos como nos custa ter verdadeiramente confiança em Deus, confiarmo-nos a Ele como Pai, sem medo; como é árduo amar os outros, em vez de pensar mal deles; como nos custa fazer o nosso verdadeiro bem, enquanto somos atraídos e seduzidos por tantas realidades materiais, que se desvanecem e no fim nos deixam pobres. Junto a esta história de pecado, Jesus inaugurou uma história de salvação. O Evangelho que abre a Quaresma [Mateus 6, 1-6. 16-18] convida-nos a sermos seus protagonistas, abraçando três remédios, três tratamentos que curam o pecado.

Em primeiro lugar, a oração, expressão de abertura e de confiança no Senhor: é o encontro pessoal com Ele, que encurta as distâncias criadas pelo pecado. Orar significa dizer: «Não sou autossuficiente, preciso de ti, Tu és a minha vida e a minha salvação».

Em segundo lugar, a caridade, para ultrapassar a estranheza em relação aos outros. Com efeito, o amor verdadeiro não é um ato exterior, não é dar alguma coisa de forma paternalista para sossegar a consciência, mas aceitar quem precisa do nosso tempo, da nossa amizade, da nossa ajuda. É viver o serviço, vencendo a tentação de se satisfazer.

Em terceiro lugar, o jejum, a penitência, para nos libertarmos das dependências em relação àquilo que passa e exercitarmo-nos para sermos mais sensíveis e misericordiosos. É um convite à simplicidade e à partilha: tirar alguma coisa da nossa mesa e dos nossos bens para reencontrar o bem verdadeiro da liberdade.

«Regressai a mim – diz o Senhor -, regressai de todo o coração»: não só com algum ato externo, mas da profundidade de nós próprios. De facto, Jesus chama-nos a viver a oração, a caridade e a penitência com coerência e autenticidade, vencendo a hipocrisia. A Quaresma seja um tempo de benéfica “poda” da falsidade, da mundanidade, da indiferença: para não se pensar que tudo vai bem se eu estou bem; para compreender que o que conta não é a aprovação, a procura do sucesso ou do consenso, mas a limpeza do coração e da vida; para reencontrar identidade cristã, isto é, o amor que serve, não o egoísmo que se serve.

Coloquemo-nos juntos a caminho, como Igreja (...) e tendo fixo o olhar no Crucificado. Ele, amando-nos, convida-nos a deixarmo-nos reconciliar com Deus e a regressar a Ele, para nos encontrarmos a nós próprios."

Papa Francisco, Missa de Quarta-feira de Cinzas de 2016
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

Uma presença feminina mais capilar e incisiva

Mulheres não são «hóspedes» mas «plenamente participantes» na vida da Igreja

O papa recebeu (...) no Vaticano membros e consultores do Pontifício Conselho da Cultura, a quem frisou que a plena participação das mulheres na vida das comunidades católicas é uma tarefa inadiável.

As palavras de Francisco foram proferidas na audiência aos participantes na assembleia plenária daquele organismo que se encontra[ra]m em Roma para debater o tema “Culturas femininas – Igualdade e diferença”.

«O tema por vós escolhido está no meu coração, e já em várias ocasiões tive oportunidade de o tocar e de convidar a aprofundá-lo. Trata-se de estudar critérios e modalidades novas, a fim de que as mulheres se sintam não hóspedes mas plenamente participantes dos vários âmbitos da vida social e eclesial. Este é um desafio que não se pode continuar a adiar», frisou.

«Digo-o aos pastores das comunidades cristãs, aqui em representação da Igreja universal, mas também às leigas e leigos de vários modos comprometidos na cultura, na educação, na economia, na política, no mundo do trabalho, nas famílias, nas instituições religiosas», afirmou Francisco.

Francisco manifestou-se convencido da «urgência de oferecer espaços às mulheres na vida da Igreja e de as acolher, tendo em conta as específicas e mutáveis sensibilidades culturais e sociais», pelo que «é desejável» uma presença feminina «mais capilar e incisiva nas comunidades», para que se «possam ver muitas mulheres envolvidas nas responsabilidades pastorais, no acompanhamento de pessoas, famílias e grupos, assim como na reflexão teológica».

Na intervenção, Francisco baseou-se no programa da assembleia (...) para apresentar linhas orientadoras que concretizem a integração da mulher na sociedade e na Igreja, «no coração de todas as culturas, em diálogo com várias pertenças religiosas».

«A primeira temática é: entre igualdade e diferença, à procura de um equilíbrio. Este aspeto não deve ser enfrentado ideologicamente, porque a “lente” da ideologia impede que se veja bem a realidade. A igualdade e a diferença das mulheres – como, de resto, dos homens – percecionam-se melhor na perspetiva do “com”, da relação, do que na [perspetiva] do “contra”, apontou.

Para Francisco, «ficou para trás, pelo menos nas sociedades ocidentais, o modelo da subordinação social das mulheres ao homem, um modelo secular que, todavia, nunca esgotou os seus efeitos negativos», ao mesmo tempo que foi igualmente superado «um segundo modelo, o da pura e simples paridade, aplicada mecanicamente, e da igualdade absoluta».

«Configurou-se assim um novo paradigma, o da reciprocidade na equivalência e na diferença. A relação homem-mulher, portanto, deverá reconhecer que ambos são necessários enquanto possuem, sim, uma idêntica natureza, mas com modalidades próprias. Uma é necessária ao outro, e vice-versa, para que se cumpra verdadeiramente a plenitude da pessoa», declarou.

Centrando-se na “generatividade” como código simbólico, outro dos temas do encontro, o papa disse que ela «dirige um olhar intenso a todas as mães, e alarga o horizonte à transmissão e à tutela da vida, não limitada à esfera biológica».

«Neste âmbito, tenho presente e encorajo o contributo de muitas mulheres que trabalham na família, no campo da educação da fé, na atividade pastoral, na formação escolar, mas também nas estruturas sociais, culturais e económicas. Vós, mulheres, sabeis incarnar o rosto terno de Deus, a sua misericórdia, que se traduz em disponibilidade a dar tempo mais do que a ocupar espaços, a acolher em vez de excluir. Neste sentido, agrada-me descrever a dimensão feminina da Igreja como ventre acolhedor que regenera a vida», observou.

Rui Jorge Martins, publicado no SNPC a 7 de fevereiro de 2015

Uma Igreja demasiado masculina

O que afasta as mulheres da Igreja

"A teóloga francesa Anne-Marie Pelletier considera que o afastamento das mulheres em relação à Igreja se deve ao facto de ela continuar a orientar-se segundo conceções marcadamente masculinas, dilatando a diferença face à identidade que o feminino tem adquirido na sociedade.

A exegeta foi uma das intervenientes na assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura, que debateu em Roma o tema “As culturas femininas: igualdade e diferença”.

Anne-Marie Pelletier, que em 2014 foi a primeira mulher a receber o Prémio Ratzinger, conhecido como o “Nobel da Teologia”, animou o debate denominado “Mulheres e religião: fuga ou procura de novos modelos participativos?”(...).

Em entrevista à Rádio Vaticano, a biblista mostrou-se convicta de que as instâncias eclesiais devem interrogar-se sobre o que «afasta as mulheres» da «participação na vida da Igreja, e por vezes, mesmo, da prática cristã».

«Há uma forte tendência, uma tendência pesada, provavelmente desde sempre e talvez um pouco menos hoje do que no passado, de ignorar este género de problemas. E o interesse destes encontros é precisamente dar visibilidade à questão», salientou.

A causa de «desafetação» do feminino em relação à Igreja reside na existência de «uma distância muito notória entre as grandes evoluções que ocorrem hoje na sociedade, onde as mulheres adquirem cada vez mais autonomia e capacidade de intervenção na esfera social, política e económica», e uma «Igreja católica que continua, quer se queira ou não, fundamentalmente masculina».

O título da assembleia plenária remete para a pluralidade do feminino, acentuação que para a teóloga é crucial: «É absolutamente capital lembrar que a mulher só existe através de mulheres. E, portanto, através da especificidade de perfis pessoais, bem como da especificidade das culturas do mundo».

Evidenciar a multiplicidade de culturas femininas torna-se ainda mais premente quando, «especialmente na Igreja», se fala “da” mulher no singular, e ainda mais, acrescentando por vezes uma maiúscula – a “Mulher”».

Referindo-se ao Prémio Ratzinger, Anne-Marie Pelletier afirmou que pode dar «um pouco mais de peso» às suas atividades de ensino, destacando também que a distinção vale sobretudo em termos coletivos: «Através de mim, foi efetivamente um reconhecimento do trabalho colossal que as mulheres realizam ao serviço do Evangelho nas nossas sociedades».

Para Anne-Marie Pelletier, as intervenções de Francisco sobre a mulher na Igreja inscrevem-se na linha traçada pelos antecessores, ao mesmo tempo que relançam a questão ao transmitirem a ideia de que o que se fez no passado «não é suficiente e que «ainda há muito a fazer», perspetiva partilhada por «muitas mulheres» católicas.

Rui Jorge Martins, publicado no SNPC a 7 de fevereiro de 2015

O contágio do impulso criativo

Rothko e a arte comunicável

"Em “Écrits sur l’art, 1934-1969” (2007), Mark Rothko escreve que a satisfação do impulso criador é uma necessidade biológica de base, essencial para o homem. O homem absorve e naturalmente exprime. Os sentidos do homem colecionam e acumulam emoções, o pensamento transforma e ordena, e por intermediário da arte essas emoções são emitidas de modo a fazer parte de um novo fluxo da vida – e, por sua vez, irão estimular a ação de outros homens. E a arte não é somente expressiva, ela é igualmente comunicável, e esta comunicabilidade determina a sua função social.

Rothko defende uma visão inata e natural no ato de pintar: uma linguagem tão natural como a da palavra ou do canto. Ao aplicar a palavra para contar histórias, narrar eventos,o homem não o faz depender do conhecimento da gramática, da sintaxe ou das regras da retórica – fá-lo naturalmente, simplesmente fala. Da mesma maneira, o homem canta melodias e improvisa refrães muitas vezes sem conhecer nem a colocação correta da voz nem a harmonia. Por isso afirma que a pintura também deve ser uma linguagem tão natural como o canto e a palavra. É um processo que existe para registar uma experiência, visual ou imaginária, enriquecida com sentimentos e reações humanas.

Rothko relembra que já as crianças assim o fazem: «Vede estas crianças trabalhar e vereis como elas juntam formas, figuras e vistas em disposições pictóricas, empregando por necessidade a maior parte das leis da perspetiva ótica e da geometria, mas sem o saber. Eles agem assim da mesma maneira como falam, sem ter consciência de utilizar as regras gramaticais».Para Rothko, as crianças, por necessidade interior de um enunciado que deve imediatamente ser realizado, produzem as representações mais instintivas por meio de símbolos muito expressivos e primitivos.

Rothko explica por isso, que no decorrer do seu trabalho desenvolve-se uma necessidade de evocar mitos da Antiguidade, que por serem, a seu ver, símbolos intemporais, podem assim exprimir ideias psicológicas básicas: «São os símbolos dos medos e das motivações primitivas do homem, pouco importando o país ou a época».

Carl Gustav Jung inclui o conceito de mito no conceito de arquétipo. Segundo Jung, o arquétipo é uma imagem-padrão primordial, original, património comum a toda a humanidade e, portanto, universal. É uma forma onde todas as qualidades humanas podem tomar lugar. É um conjunto de ideias elementares, presentes no inconsciente. O arquétipo não depende de influências exteriores. Em toda a psique existem formas que inconscientemente são ativas – pré-formam e continuamente influenciam pensamentos, sentimentos e ações. O arquétipo é determinado segundo a forma e não o conteúdo - conteúdo é aqui entendido como experiência consciente. A forma corresponde ao instinto. O arquétipo é uma representação não herdada, é dada “a priori”. Carl Jung propôs o termo, arquétipo, para ser um sistema de prontidão para a acção e, ao mesmo tempo, para imagens e emoções. (...)."

Ana Ruepp, publicado em SNPC a 30 de dezembro de 2014

Padre Jesuíta fala a católicos LGBT

domingo, 11 de março de 2018

Oportunidade e prática: a Quaresma

O tempo da Quaresma é um tempo prático

"Começamos hoje o tempo da Quaresma. São 40 dias que representam uma oportunidade especial, de preparação para a grande celebração, para o grande acontecimento da Páscoa de Jesus, nas nossas vidas. São 40 dias que recordam os 40 anos que o povo de Deus fez na travessia do deserto até entrar na Terra Prometida, e representam também esses 40 dias em que o próprio Jesus se preparou no deserto para a Sua vida pública. Isso quer dizer: os grandes encontros de Deus na nossa vida são encontros preparados. É claro: tantas vezes encontramos Deus de surpresa, e isso é muito bom. Mas encontramos Deus, também, por um ato de preparação, por uma abertura sincera de coração, por uma conversão interior, que nos aproxima de Deus, que nos abre à Sua presença e nos faz viver de uma forma mais sincera, mais objetiva, o “sim” que, como discípulos do Senhor, nós dizemos a Jesus.

Há uma frase de Kafka, que nos impressiona muito e descreve, em grande medida, o que é a nossa cultura contemporânea, o que é a nossa experiência, de mulheres e de homens, que atravessam este tempo: “Existe a meta, mas não há um caminho.” Existe a meta. Nós somos cristãos, batizados há sete ou há setenta anos, sabemos que há uma meta, olhamos para Jesus, ouvimos a Sua Palavra dominicalmente ou diariamente, alimentamo-nos dela e sabemos que sim, há uma meta, um ideal, sabemos aquilo a que somos chamados. E, contudo, como Kafka, também dizemos: “Mas não vemos um caminho. Não há um caminho.” E o que acontece quando há uma meta mas não há um caminho? Acontece um divórcio muito grande, entre o ideal e o real, entre a teoria e a prática, entre o que sabemos ser a vontade de Deus e, depois, a forma quotidiana, concreta, como vivemos ou deixamos de viver segundo essa vontade de Deus.

O tempo da Quaresma é um tempo prático, não é um tempo teórico. A Igreja, nestes 40 dias, entra para retiro, entra para exercícios, entra para manobras, para reconstrução, entra para conversão. E é assim que nos devemos sentir nestes 40 dias. Há uma expressão, um entendimento da vida que hoje está um bocado fora de moda, mas que ouvíamos em parte atravessando as leituras da Palavra de Deus, que hoje lemos, e que é o combate espiritual. Isto é: não há cristão sem combate espiritual. A fé é um dom, claro, mas também é um trabalho, uma fadiga, um compromisso, também é uma conquista, também é uma luta. E a divisão entre o bem e o mal, entre Deus e a sombra, não acontece apenas no mundo, acontece antes de tudo dentro de nós. Por isso mesmo, um cristão vive em luta, vive num desassossego, vive numa inquietação, porque sabe que é dentro de si que a verdade do reino começa por se construir. Não é fora de nós, é dentro de nós. Nesse sentido, toda a Palavra de Jesus é muito clara. Ele dizia tantas vezes: “Não é o que entra de fora do homem que o atinge, mas é do interior do homem que sai todo o mal.” Há no nosso interior tantas contradições, tantos paradoxos, tanta indecisão, tanta sombra que nós temos de olhar. Nós cristãos não temos nenhuma superioridade moral em relação aos outros homens e mulheres, nós somos pecadores. Nós estamos aqui porque somos pecadores chamados à santidade, tocados, feridos pela santidade de Deus, iluminados pela santidade de Deus, mas na vulnerabilidade, na fragilidade das nossas histórias.

Aquilo que diz S. Paulo, na Carta aos Romanos, é tantas vezes o que sentimos: “Quem me livrará deste corpo de morte? Que não faço o bem que quero, mas faço o mal que odeio.” Tantas vezes a nossa vida é assim, não fazemos o bem, que sabemos que é bem, mas fazemos o mal, as coisas mesquinhas, vivemos uma vida banal, recebemos tesouros que não pomos a render, adiamos, continuamente, a nossa vida para depois, achamos que é para o outro, que não é para nós. E este tempo da Quaresma é um tempo que pede de nós um cristianismo sério, uma adesão profunda de coração. Exige de nós este combate, esta luta, porque a conversão não é apenas uma palavra bonita, a conversão é um osso duro de roer. A conversão é uma fadiga, é um trabalho que precisamos de abraçar, sabendo que não há outra maneira de expormos a nossa vida no caminho pascal.

A Igreja, neste tempo santo da Quaresma, pede-nos três caminhos ascéticos, três caminhos de subida.
O primeiro deles é a oração. Um cristão, uma cristã, são mulheres e homens de oração, e nós precisamos de redescobrir a oração na nossa vida. A coisa mais urgente que cada um de nós tem para descobrir é o lugar da oração, o sentido da oração, a experiência de oração nas nossas vidas. Na mensagem do Santo Padre para esta Quaresma, o Papa Francisco diz: “Cristãos, deixem-se servir por Cristo, deixem-se tocar por Cristo.” A oração é isso: expor a minha vida a Cristo, dar tempo a Cristo, dar lugar a Cristo. Oração é estabelecer uma relação, não é apenas tratar Deus como uma ideia, como alguém distante, como um princípio filosófico, que nós até aceitamos. Não, na oração nós tratamos a Deus por “tu” ou por “vós”, mas tratamos a Deus numa segunda pessoa. Porquê? Porque Ele é um interlocutor da nossa vida, mantemos com Ele um diálogo vivo e esse diálogo anima-nos. Nós expomos a nossa vida, rezamo-nos, não apenas rezamos, nós rezamo-nos e Deus acolhe-nos, Deus ouve-nos. Há quanto tempo não falamos com Deus? – é a pergunta. Há quanto tempo não O ouvimos? Há quanto tempo não lhe damos um espaço real, um espaço concreto nas nossas vidas? Este tempo da Quaresma é um desafio muito grande à nossa oração pessoal, à nossa oração familiar, à nossa oração comunitária. Precisamos redescobrir a oração nas nossas vidas, porque às vezes a nossa vida é seca, seca. Cheia de tantas coisas, mas, no fundo, vazia, deste fio condutor que a oração representa nas nossas vidas. Por isso, que a Quaresma seja para nós, um grande laboratório de oração, e que no dia a dia nós privilegiemos também um tempo de oração.

“- Ah, mas eu gostava de rezar melhor.”
“- Começa por rezar, começa por rezar.”
“- O que é a bela oração?”
“- Não. Reza muito, reza muito. Porque no meio das coisas que a gente diz ou não diz, Deus é que escolhe, Deus é que escolhe a parte.”

Lembro-me sempre de um diálogo com um jovem – penso que já o contei aqui. Ele tinha descoberto, tinha-se convertido, tinha exposto o seu coração a Deus. E dizia: “Padre Tolentino, tenho rezado como um porco.” E, para mim, é das mais belas definições de oração, nunca ninguém me disse uma coisa tão bela sobre a oração. Porque o porco não escolhe, reza tudo, come tudo, devora tudo. Se a gente escolhe “vou rezar isto, ou vou rezar aquilo”, verdadeiramente não reza. Nós temos de rezar tudo, o importante e o banal, o próximo e o distante, o que é meu e o que é dos outros, o que está perto e o que está longe, temos de rezar tudo. Isto é: A capacidade de fazer de tudo oração, isso é que nos torna uns verdadeiros orantes. Há um poeta contemporâneo, Armando de Silva de Carvalho, que tem um livro chamado: O Cão de Deus. A oração dele é um ganir. Pode acontecer que a nossa oração não seja bem oração. A gente não tem palavras, só tem dores, só tem coisas que queria dizer e não consegue. Então, é a oração do cão, é a oração do ganir. Mas seja, é essa. Que o tempo de Quaresma seja, de facto, um tempo de exposição da nossa vida a Deus.

A outra via é o jejum. E o jejum é um meio muito importante no meio espiritual, que também é usado por outras tradições religiosas. Mas, no fundo, o jejum é a renúncia de uma coisa a que eu tenho direito e que eu posso. Mas renuncio a isso para relativizar o meu próprio eu. Nós temos um sentido crítico apurado em relação a tudo e a todos, exceto a nós próprios. Sem darmos conta, podemos até ser muito adultos, mas vivemos como miúdos caprichosos e mimados e, pior, conseguimos ter tudo o que queremos ou desejamos ou nos dá na gana. E, de repente, somos pequenos tiranos. O nosso eu é tirânico, tirânico em relação aos outros, tirânico em relação aos que vivem mais perto de nós, aos que vivem longe. Só nós existimos, só nós contamos, só nós sabemos, só nós podemos, só nós temos o direito. O jejum é o exercício de morrer para si próprio, dizer: “É meu” mas abdicar, isto de uma forma concreta na alimentação, sermos capazes de transformar a nossa dieta alimentar tornando-a muito mais sóbria do que é. Viver estes 40 dias com sobriedade, sobriedade. Claro que temos direito a isto e aquilo, mas dizemos que não. E, nas sextas-feiras desta Quaresma, nós não apenas vamos intensificar a sobriedade, porque é o dia desta prática ascética. É toda a Quaresma, mas as sextas-feiras são um dia especial. Nesse dia não vamos comer carne, não vamos derramar sangue. É um sinal, é um símbolo, mas a verdade é que nós alimentamo-nos dos outros e matar mais isto ou matar mais aquilo, para nós é completamente indiferente. Ora, vamos não derramar sangue, não dizer “a minha vida é mais importante que a tua”. Não. Vamos calar, calar a vida, morrer um pouco para nós próprios. E isso, claro que é um gesto simbólico mas é um gesto com muito significado. Não vamos dizer “eu quero comer carne, não posso pagar uma taxa?” “- Não, não vais pagar taxa nenhuma. Não vais comer carne.”

Fazer esse esforço para nos unir a uma tradição cristã, que tem séculos e séculos é, no fundo, perceber também o que é a carne, o que é o sangue, perceber o que é a vida, perceber que todas as vidas têm valor – mesmo a vida da vaca ou do frango que compramos no supermercado. Essa vida que alimenta a minha vida tem um valor e isso para nós é uma espécie de pedagogia: se eu dou atenção a esta pequena coisa ou vou dar maior valor às vidas daqueles que me rodeiam e não vou ser tão intolerante, não vou ser tão cheio de mim, ocupando o espaço que devo dar aos outros. Mas o jejum não é apenas esta contenção, esta moderação alimentar. O jejum é tudo aquilo que serve para relativizar o meu eu.

Muitas vezes, o jejum que nós precisamos é da língua. A facilidade com que falamos, com que julgamos, com que dizemos, com que matamos os outros com a nossa língua – no fundo, ser um tempo de silêncio, um tempo de contenção, um tempo para não falar, um tempo para não dizer. E como isso pode ser purificador da nossa vida, e como nós precisamos disso! Mas o jejum pode ser também de um pensamento, de um hábito, de um vício, de um costume que tenho, de uma coisa que me dá muito prazer fazer e que não tem mal nenhum, mas, precisamente neste tempo, vou abdicar disso para ser mais livre. O jejum custa, não há jejum que não custe, mas o jejum é uma máquina de criar liberdade. Porque, sem darmos conta, andamos cheios de chocalhos e de amarras, de algemas, disto e daquilo, prisioneiros, dependentes, ancorados, a achar que precisamos de uma lista enorme de coisas para ser feliz ou para estar em nós próprios. E, de repente, o jejum é cortar um bocadinho esses pesos e isso dá-nos uma liberdade muito grande, liberdade para ser, liberdade para viver, liberdade para acreditar.

Tudo isto culmina na terceira via, que a Igreja nos aponta nesta Quaresma, que é a via da esmola. Nós somos chamados, à imagem de Jesus na Eucaristia, a fazer da nossa vida um dom. A nossa vida só se realiza quando se torna dom, quando se torna Eucaristia. Isto é: quando se torna serviço, quando se dá aos outros. Então a esmola, antes de tudo, é um dar-se. Dar-se mais aos outros, dar mais tempo, ir falar a um amigo que não vejo há muito tempo, ir visitar uma pessoa a um lar, um parente a um lar, ir visitar um doente. Gastar do tempo da minha vida para os outros, dar-me, dar-me, repartir-me aos outros. E, depois, também dar das coisas que possuo, repartir o que ganho, ter isso em atenção, dar uma esmola, pensar numa instituição, juntar-me à renúncia diocesana, que a Igreja toda neste tempo faz em vista de uma obra comum. É muito importante que nos privemos de pequenas coisas para podermos ajudar, para podermos perceber o que significa a caridade. A caridade – que Deus tem tanta para connosco e, por vezes, nós temos tão pouca para com o nosso próximo. No fundo, é no dom, é na esmola, que pode ser uma coisa um bocadinho difícil de entender culturalmente, mas a esmola tem um sentido espiritual muito forte. Quer dizer: Não é dar uma coisa do alto do meu porta-moedas ou da minha conta bancária, mas é partilhar daquilo que eu vivo, partilhar do meu trabalho, partilhar do que eu tenho, e ter esse sentido muito profundo da comunhão. Porque os bens escravizam-nos e, se a gente fecha a nossa mão sobre o que julga possuir, somos possuídos por isso. O dinheiro é um brinquedo muito complicado num caminho espiritual, porque é uma barreira dificílima de vencer. E nós, cristãos, temos de ganhar uma liberdade muito grande face aos bens, porque a verdade é que os bens têm de ser simplesmente instrumentais, têm de servir – e isso de uma forma clara.

Queridos irmãs e irmãos, este tempo da Quaresma é, assim, um tempo que nos coloca perante o Deus que vê no segredo. Não podemos viver uma vida só de aparente virtude, de quem olha para nós e diz “sim, senhor, fulana de tal, muito boa pessoa; sim senhor, fulano de tal uma pessoa muito respeitável” – mas, depois, dentro de nós é uma confusão, é um embaraço, um desnorte.

A Quaresma é uma bússola para afinar a nossa vida pela vida de Jesus, por aquilo que recebemos Dele. Vamos pedir ao Senhor que nos dê este espírito de conversão. É importante que cada um de nós faça o seu programa de Quaresma, que defina: “Nesta Quaresma decidi fazer isto, isto e aquilo.” Não tem de ser muitas coisas. Pode ser uma, duas, três, mais não, senão depois ficamos irreconhecíveis e isso também Deus não quer. Mas fazer aquilo que é pequeno, coisas pequenas, porque as coisas grandes depois não as conseguimos fazer. Fazer coisas pequenas e fazer coisas pessoais. Isto é: A Quaresma não é para os outros. Eu não posso decretar: “A partir de agora só se come batatas lá em casa.” E os outros, que não gostam de batatas? Não, é para mim, não é para o outro. É para mim, vou dizer o que é para mim e deixar a liberdade para o outro ser. E serem coisas possíveis, porque às vezes entusiasmamo-nos e queremos coisas impossíveis. Não, há uma arte dos pequenos passos, das pequenas coisas, a arte dos possíveis – e isso é também fundamental numa vida espiritual. Vamos por isso, com este espírito, pedir ao Senhor que desça sobre nós, que seja o Seu Espírito a transformar-nos, a abrir o nosso coração, e a tornar-nos discípulos autênticos do Senhor."

Pe. José Tolentino Mendonça, Quarta-feira de Cinzas de 2015, homilia na Capela do Rato

Devemos lutar contra a indiferença

Mensagem para a Quaresma de 2015 do Papa Francisco

"«Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar», alerta.

A Quaresma, «tempo de renovação para a Igreja» e «para cada um dos fiéis», é sobretudo uma ocasião propícia para a «graça» de Deus, assinala Francisco, na mensagem que tem por tema “Fortalecei os vossos corações”, apelo extraído da carta bíblica de Tiago.

«Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando o deixamos. Interessa-se por cada um de nós; o seu amor impede-lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece», lembra o papa.

O mesmo não acontece por parte do ser humano: «Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem».

Esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal, que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar», vinca Francisco.

O documento faz referência à recusa de Deus patente na sociedade e às consequências que essa atitude pode ter nas comunidades católicas.

Com o nascimento, morte e ressurreição de Jesus, «abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra», sendo a Igreja «como a mão que mantém aberta» essa via.

«O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo nele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida. Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo», declara a mensagem.

O texto retoma a imagem da Igreja como corpo, onde «não encontra lugar a tal indiferença», porque «quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, nele, um não olha com indiferença o outro».

Para Francisco, esta perspetiva, aplicada à Igreja universal, deve ser concretizada nas paróquias e comunidades, a cujos fiéis propõe um exame de consciência.

«Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada?», questiona.

Os católicos, prossegue o documento, devem «ultrapassar as fonteiras da Igreja visível em duas direções»: «Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração»; e, depois, «cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos».

«A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da Terra. Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira», frisa o papa.

Depois de se centrar na Igreja universal e a nível local, a mensagem dirige-se a cada pessoa que é atingida pela «tentação da indiferença»: «Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?»

«Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! (...)

O papa pede, a seguir, a ajuda às pessoas mais pobres através das organizações caritativas da Igreja, porque a Quaresma «é um tempo propício» para mostrar «interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto» da participação pessoal na humanidade comum.

Num terceiro momento, Francisco destaca que o «sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão»: «A necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos».

«Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos, sublinha.

A terminar, o papa acentua que «ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil»: «Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro».

«Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: “Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso”. Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença», assinala Francisco."

por Rui Jorge Martins para SNPC 2015

Reinventar a presença da Mulher na Igreja

Albert Lynch "Jeanne d'Arc"
As culturas femininas

Há dois anos a Assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura foi dedicada ao tema "As culturas femininas: igualdade e diferença. Transcrevo um artigo publicado antes da mesma, com o texto que lhe servia de base, na esperança que estas reflexões passem do papel e se vão tornando carne.

"«Porque há tão poucas respostas e tão inadequadas à valorização do corpo, do amor físico, aos problemas da maternidade responsável? Porque é que uma presença tão grande de mulheres na Igreja não incidiu nas suas estruturas? Porquê atribuir à mulher na prática pastoral só aquelas tarefas que lhes atribui um esquema algo rígido de resíduos ideológicos e ancestrais?» «O que é que não funciona hoje, quando a imagem de mulher que têm os homens da Igreja já não corresponde, em geral, à realidade?»

(...) Referindo-se à participação da mulher na vida da Igreja, refere-se que «o terreno está minado pelo preconceito e enraizado em posições ancestrais alimentadas com o combustível da tradição e de uma excessiva presença masculina, muitas vezes refratária a qualquer confrontação. Já passou a hora de qualificar automaticamente toda a petição feminina com a etiqueta de feminismo, na qual há frequentemente reivindicações mais ou menos aceitáveis».

O texto, que apresentamos na íntegra, divide-se em quatro secções: "Entre igualdade e diferença: a procura de um equilíbrio", "A 'generatividade' como código simbólico", "O corpo feminino: entre cultura e biologia" e "As mulheres e a religião: fuga ou novas formas de participação na vida da Igreja?".

O encontro conta com a participação de dois portugueses: o bispo D. Carlos Azevedo, delegado daquele organismo da Cúria da Santa Sé, e o padre José Tolentino Mendonça, consultor do mesmo departamento.

A assembleia é presidida pelo presidente do Pontifício Conselho da Cultura, o cardeal italiano Gianfranco Ravasi (...).

Documento de trabalho da assembleia plenária do Pontifício Conselho da Cultura
Premissa

«Estou convencida de que a espécie "humana" se desenvolve como espécie dupla "varão" e "mulher", que a essência do ser humano, à qual não deve faltar nenhuma característica, tanto num como na outra, se manifesta de maneira dupla, e que toda a estrutura da essência coloca em evidência esta marca específica» (Edith Stein).

O trabalho da assembleia plenária, graças ao inestimável contributo dos membros e consultores, através de quatro etapas temáticas, tratará de captar alguns aspetos das culturas femininas para identificar possíveis itinerários pastorais, de modo que as comunidades cristãs sejam capazes de escutar e dialogar com o mundo contemporâneo também neste âmbito.

Usar a expressão "culturas femininas" não significa separá-las das masculinas, mas manifesta a consciência de que existe um "olhar" sobre o mundo e sobre tudo o que nos rodeia, sobre a vida e sobre a experiência, que é próprio das mulheres.

Esta perspetiva singular faz-se presente tendencialmente no tecido de todas as culturas e sociedades, e pode ser captada na família, no trabalho, na política e na economia, no estudo e nas decisões, na literatura, na arte e no desporto, na moda e na cozinha, etc.

Este texto, elaborado por um grupo de mulheres à luz das considerações pastorais enviadas pelos membros e consultores, servirá como guia para as nossas reflexões.

Nos alvores da história humana, as sociedades distribuíam rigidamente papéis e funções entre homem e mulher. Aos homens correspondia a responsabilidade, a autoridade e a presença na esfera pública: a lei, a política, a guerra, o poder. Às mulheres correspondia a reprodução, a educação e o cuidado da espécie humana no âmbito doméstico.

No mundo europeu antigo, nas comunidades do continente africano, nas antiquíssimas civilizações que se desenvolveram no universo asiático, as mulheres exercitavam os seus próprios talentos no âmbito da família e das relações pessoais, não frequentavam a esfera pública ou, inclusive, eram excluídas dela. As imperatrizes e rainhas que os livros de História recordam são notáveis exceções à regra.

Desde meados do século XIX, sobretudo no Ocidente, a divisão entre espaços masculinos e femininos e o seu carácter de normalidade foi colocada em questão. As mulheres reivindicam igualdade; não aceitam o papel de "segundo sexo", mas exigem os mesmos direitos, como o direito ao voto, o acesso à instrução superior e às profissões. O caminho fica aberto à paridade entre sexos.

Este processo não está isento de dificuldades. Com efeito, no passado (só no passado?), as mulheres tiveram de lutar para poder exercer profissões ou assumir papéis de decisão que estavam destinados exclusivamente aos homens. Os âmbitos de reflexão estendem-se de maneira planetária às diferentes culturas, transformam-se e apresentam-se com matizes diversos, às vezes entrelaçando-se com movimentos políticos fortemente ideológicos.

Neste horizonte globalizado e fortemente dialético, a exigência de encontrar respostas torna-se cada vez mais urgente. A nossa assembleia plenária esforça-se por tratar de captar e compreender a especificidade feminina, ao considerar temas como função, papel, dignidade, igualdade, identidade, liberdade, violência, economia, política, poder, autonomia, etc.

Tema 1 - Entre igualdade e diferença: a procura de um equilíbrio
As diferenças existem
Falando em geral, as mulheres procuram hoje formas de conciliar a vida profissional e os compromissos familiares. Podem renunciar à maternidade, mas se têm filhos não evitam o compromisso de os alimentar, educar e proteger. Se não estão casadas e não têm filhos, as mulheres, em todo o caso, acolhem, incluem, procuram a mediação, são capazes de ternura e de perdão muito mais do que os homens.

Além do modo diferente de serem pais, há uma diferença entre o feminino e o masculino nas técnicas de resolução de problemas, na perceção do ambiente, nos modelos de representação e ciclos de repouso, só para citar algumas categorias. Abolir as diferenças significa empobrecer a experiência pessoal. Neste sentido, é justo não aceitar uma neutralidade imposta, mas valorizar a diferença.

A onda igualitária, todavia, é contínua, toca todos os âmbitos da vida social e quase todas as instituições humanas e as culturas. É tão forte que, nos últimos anos, no Ocidente, chegou-se a afirmar que não há nenhuma diferença: o sujeito é neutro, e escolhe e constrói a sua própria identidade, é proprietário de si mesmo e responde em primeiro lugar a si mesmo.

Contudo, ao reivindicar a paridade, raramente as mulheres renunciam à própria diferença. Um exemplo extraído da realidade pode ilustrar esta afirmação. O coordenador de uma conferência internacional apresenta o primeiro orador: é Michelle, 65 anos, nascida num país europeu; no seu país foi uma das primeiras mulheres doutoradas em física e a primeira reitora de uma universidade; desde há alguns anos é presidente de uma das mais importantes associações académicas europeias; o coordenador pergunta-lhe que título prefere de todos os que obteve; a resposta de Michelle é: «O título que prefiro é o de "avó", e gostaria de agir mais como tal».

Ainda que Michelle não possa ser avó tanto como deseja, este "título" é parte integrante da sua identidade e permite-lhe autodefinir-se. A pergunta, subtilmente incisiva, que subjaz a este exemplo é: a mesma situação, com um protagonista masculino, teria obtido a mesma resposta?

Iguais e diferentes, as duas coisas ao mesmo tempo?
Numa modernidade onde o trabalho é a via mestra e mais sólida para evitar a pobreza e a exclusão, as mulheres pedem trabalho, às vezes também uma carreira, e o reconhecimento do seu esforço em termos de estatuto e dinheiro iguais aos dos homens. Reclamam na esfera pública um espaço igual ao concedido aos homens. Pedem para serem consideradas pessoas na sua própria plenitude, não apenas subalternas. Muitos países do mundo, inclusive, modificaram o próprio ordenamento jurídico para reconhecer o equilíbrio e a igual distribuição de responsabilidades entre marido e mulher, pai e mãe.

No começo do terceiro milénio, a subjetividade feminina tendencialmente expressa-se entre estes dois pontos. No mundo há muitas culturas femininas; cada uma com modos, formas e tempos próprios, esforça-se por encontrar um equilíbrio que evite os dois extremos perigosos deste processo: a uniformidade, por um lado, e a marginalização, por outro. A diferença e a igualdade das mulheres não é "contra" mas "com". A experiência histórica da condição feminina ensinou às mulheres que a neutralidade é, na realidade, uma forma de despotismo, e faz-nos sair do humano.

- A diferença (entre homem e mulher) gerou uma desigualdade radical. Onde se devem procurar as suas raízes? Na antropologia cultural? Na detenção do poder, firmemente nas mãos de quem (homens) é tradicionalmente reconhecido como mais hábil para mandar?

- A questão do "género" ("gender") pode ligar-se, de alguma maneira, a esta visão desigual entre homem e mulher, de onde deriva a pretensão de criar-se uma identidade cultural? Pode haver alguma relação, especialmente ao nível das tensões sociais?

- As categorias de "reciprocidade" e "complementaridade" podem ser uma chave de leitura e um itinerário possível de vida, ou é necessário identificar outras categorias?

- A igualdade como pessoa humana necessita da diferença para dar plenitude à Palavra de Deus criadora: «Deus disse: façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança... E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou: homem e mulher os criou» (Génesis 1, 26-27). Que linguagem poderíamos usar hoje para tornar compreensível esta palavra? A narração bíblica continua a conservar força argumentativa?

Tema 2 - A "generatividade" como código simbólico
Numerosos estudos de carácter ético, antes ainda que jurídico, demonstram claramente que a "generatividade" é um dos temas mais debatidos e controversos no atual panorama cultural, social e político do Ocidente, e não só: basta pensar em questões como gestação sub-rogada, barrigas de aluguer, fecundação medicamente assistida, homóloga e heteróloga, etc. Desta convicção surgiu a decisão de ler a categoria da "generatividade" em chave simbólica, evitando leituras mais complexas de tipo sociológico, jurídico e bioético que teriam requerido análise mais detalhada e tempos mais alargados de investigação e debate.

Recorrendo a alguns exemplos, podemos afirmar que um percurso generativo divide-se em quatro momentos: desejar, iluminar, cuidar e, por último, deixar andar. A "generatividade", enquanto ato antropológico originário e como código simbólico, manifesta-se também nos espaços pedagógicos (educação para a fé, atividade pastoral, formação escolástica), dando vida a estruturas sociais, culturais e económicas inspiradoras de valores, ideias, princípios e práticas orientadas para o bem comum, ao desenvolvimento integral do ser humano e ao compromisso solidário.

Ponto de partida de todo o ser humano
A "generatividade" gira, inevitavelmente, em torno do corpo da mulher. O universo feminino, por uma predisposição natural, espontânea, biofisiológica, desde sempre protege, conserva, cuida apoia, cria atenção, consenso e cura em torno a quem é concebido, se desenvolve, nasce e cresce.

A fisicalidade das mulheres, que torna o mundo vivo, longevo e capaz de se estender, encontra a sua máxima expressão no seio materno. O corpo da mulher é o ponto de partida de cada ser humano, a fonte primária da resposta à angústia da morte. No corpo da mulher tem lugar a vida pré-natal, que tem um valor e uma importância fundamental porque deixa uma marca inicial no corpo e no cérebro da criança.

Trazer ao mundo um ser humano é muito mais do que concebê-lo ou dá-lo à luz. Implica ajudá-lo a desenvolver o próprio potencial para realizar-se e viver uma vida plena, em que as crises e as dificuldades podem enfrentar-se com recursos "intra" e "inter" pessoais.

Neste horizonte generativo, a "mens", como ensinam as neurociências, emerge das atividades do cérebro cujas estruturas e funções estão diretamente influenciadas pelas experiências interpessoais, a partir da vida pré-natal. É um processo biológico de integração, estimulado por relações fundadas sobre a segurança, a sintonização emotiva, a cooperação e a compreensão.

Outros contextos da "liberdade generativa"
Visto que toda a relação tem um impacto sobre o cérebro e a mente, a "generatividade" pode expressar-se em qualquer relação, em todo o momento da vida, declinando-se de múltiplas maneiras. Promovendo uma vida boa, cada pessoa faz-se generativa quando imprime a própria marca na existência daqueles que lhes são confiados.

Isto pode acontecer nos mais variados contextos: da família aos lugares da educação, da atenção médica, da informação e da empresa. Mulheres empresárias e diretoras, por exemplo, que se ocupam da gestão com critérios fundados sobre o respeito, o acolhimento, a valorização das diferenças e das competências, geram e protegem a vida expressando fecundidade.

Estes processos estão na base de um futuro plenamente humano, baluarte contra a involução da espécie humana, um risco possível onde se cultiva sem harmonia a lógica da competição e do poder.

- O primeiro contacto com o mundo e o primeiro olhar sobre a vida de todo o ser humano têm um destinatário feminino. Reconhece-se suficientemente o valor das mulheres neste segmento imprescindível da vida humana?

- Reconhece-se o papel central das mulheres que acompanham até à plenitude do humano na sociedade e na Igreja, em todas as latitudes?

- O trabalho do cuidar continua a ser "coisa de mulheres" (anjos do lar)? Tem reconhecimento económico? Como traduzir esta expressão a nível social? E na Igreja?

- O nascimento de novas modalidades e espaços generativos (relações, amizades, apoio, solidariedade, etc.) pode ser facilitado pela rede virtual. Que espaço encontram as mulheres no mundo das comunicações sociais para se expressar?

Tema 3 - O corpo feminino: entre cultura e biologia
O corpo feminino
Para a mulher - como sucede também na experiência masculina - o corpo representa, em sentido cultural e biológico, simbólico e natural, o lugar da própria identidade. É sujeito, meio, espaço de desenvolvimento e da expressão do eu, lugar de convergência de racionalidade, psicologia, imaginação, funcionalidade natural e tensão ideal.

O corpo feminino coloca-se como filtro de comunicação com o outro, num intercâmbio, contínuo e inevitável, entre indivíduo e contexto. Assim, a identidade feminina encontra-se no ponto de convergência da fragilidade quotidiana, da vulnerabilidade, da mutabilidade, do múltiplo, entre vida emotiva interior e fisicidade exterior.

A cirurgia estética pode enquadrar-se como uma das muitas possíveis manipulações do corpo que exploram os seus limites quanto ao conceito de identidade. Uma especificidade que no mundo contemporâneo se encontra submetida a pressões, ao ponto de provocar patologias (dismorfofobia, transtornos da alimentação, depressão...) ou "amputar" as possibilidades expressivas do rosto humano ligadas à capacidade empática.

A cirurgia estética, quando não é médico-terapêutica, pode expressar agressão à identidade feminina, mostrando a rejeição do próprio corpo enquanto rejeição da vida que se está a atravessar.

Assim, se o corpo feminino é o "lugar da verdade" do eu feminino, no imprescindível entretecimento de cultura e biologia, é também o lugar da traição a esta verdade. O uso indiscriminado e indiferenciado que a comunicação, em todas as suas declinações, desde a publicidade (alusão sexual e denegrição do papel feminino) aos médias, operou no corpo feminino, é um exemplo incontestável. Nenhuma batalha política ou social conseguiu desfazer um mecanismo tão arraigado como o da exploração do corpo feminino com fins comerciais.

A agressão ao corpo da mulher
Segundo estimativas da ONU, mais de 70 por cento das pessoas que no mundo vivem na indigência são mulheres: mulheres pobres, mulheres incultas, em condições de exploração, perigo, sujeição, dificuldade, ou seja, situações que limitam profundamente as suas possibilidades de conhecimento, informação, emancipação e libertação.

Mulheres mutiladas pela depressão, desarmadas, sem coragem e sem valor, sujeitas aos homens; mulheres que aceitam uma presumida inferioridade e que se veem condicionadas pelos costumes culturais das sociedades onde vivem. A pobreza é, portanto, causa e consequência da violência sobre as mulheres.

Em semelhante cenário, o corpo da mulher pode converter-se no lugar simbólico do "nada", do "ser-objeto", através da ocultação, mutilação e constrição do corpo, até à eliminação de toda a subjetividade, de qualquer expressão de vida e de pensamento. Neste sentido, a prostituição pode ser considerada a forma mais difundida de escravidão, inclusive nas sociedades civis e democráticas.

Quando se fala da violência perpetrada contra as mulheres, começando pelas meninas, fala-se também da violação dos princípios e valores sancionados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e das seguintes leis nacionais e internacionais em defesa e proteção dos direitos humanos que evocamimediatamente o mandamento bíblico de não oprimir o órfão e a viúva (Êxodo 22, 21).

Se é certo que todos os indivíduos gozam de direitos iguais enquanto seres humanos, não há desculpas, sejam do tipo cultural ou social, para legitimar, minimizar o inclusive tolerar a violência de género. Mas isto continua a acontecer hoje, considerando que a violência sobre as mulheres mergulha as suas raízes mais profundas precisamente na discriminação e nos estereótipos ligados aos papéis.

O femicídio é o homicídio da mulher "enquanto mulher", para apoderar-se de algo que se considera um direito exclusivo, recorrendo à humilhação e à violência, seja física ou psicológica.

O aborto seletivo, o infanticídio, as mutilações genitais, os delitos de honra, os matrimónios forçados, o tráfico de mulheres, abusos sexuais, violações - que em algumas regiões do mundo se convertem em violações em massa ou étnicas - são algumas das feridas mais profundas infligidas quotidianamente à alma do mundo passando pelo corpo das mulheres e das meninas, vítimas silenciosas e invisíveis.

É necessário potenciar a formação de quantos vivem em contacto com a violência, mas há que promover também uma cultura da convivência entre homens e mulheres, conscientes de que o mundo está confiado a uns e a outras em igual medida.

- A "violência doméstica" - exercida pelos homens, pais, maridos ou irmãos - é a primeira causa de morte no mundo para as mulheres entre 16 e 44 anos. A fria estatística coloca duas perguntas: por que é que uma mulher é assassinada por um marido, companheiro ou ex-companheiro de anos de vida, pais de filhos que criaram juntos? Por que é que uma mulher, ao primeiro empurrão ou às primeiras palavras brutais, não afasta de si para sempre o homem que a ameaça, e que queima, destrói e profana o amor conjugal até ao extremo?

- «A cirurgia estética é como uma burca de carne.» Uma definição tão acertada como fustigante, dada por uma mulher. Salvaguardando a liberdade de escolha de cada um, não estaremos sob o jugo cultural de um modelo feminino único? Pensamos nas mulheres usadas na publicidade e na comunicação de massa?

- De geradores de vida a produtores. O horizonte científico interpela-nos: um cenário onde se concebe sem ter em conta o corpo, sobretudo feminino, onde o chamamento à existência de um ser humano acontece sem relação, primeiro com os pais e depois entre mãe e filho, não significa uma deriva rumo ao corpo como produtor e não como gerador? Podemos ignorar a sofisticada interação entre cultura, biologia e tecnologia?

- O corpo expressa o ser de uma pessoa, mais do que uma dimensão estética autorreferencial. Como evitar uma aproximação puramente funcional (sedução, comercialização, utilização com fins de mercado) ao corpo da mulher?

Tema 4 - As mulheres e a religião: fuga ou novas formas de participação na vida da Igreja?
Das mulheres vêm perguntas dolorosas e sinceras. Tratemos de escutar o seu desconforto espiritual ante uma iconografia feminina obsoleta em que não conseguem reconhecer-se e ver-se refletidas.

Poderemos abrir esta última sessão de trabalho com uma série de perguntas: que anúncio querigmático [primeiro anúncio das verdades de fé fundamentais para a Igreja], que não se reduza a uma visão moralista, pode haver para as mulheres? Que indicações para uma prática pastoral renovada, para um caminho vocacional rumo ao matrimónio e à família, rumo à consagração religiosa, considerando a nova consciência de si que adquiriram as mulheres? Porque há tão poucas respostas e tão inadequadas à valorização do corpo, do amor físico, aos problemas da maternidade responsável? Porque é que uma presença tão grande de mulheres na Igreja não incidiu nas suas estruturas? Porquê atribuir à mulher na prática pastoral só aquelas tarefas que lhes atribui um esquema algo rígido de resíduos ideológicos e ancestrais?

Ontem

«Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude, a hora em que a mulher adquire na cidade uma influência, um alcance, um poder jamais conseguidos até aqui. É por isso que, neste momento em que a humanidade sofre uma tão profunda transformação, as mulheres impregnadas do espírito do Evangelho podem tanto para ajudar a humanidade a não decair» (Mensagem do Concílio Vaticano II às mulheres).

E também: «[Homens e mulheres] contribuam com a riqueza do próprio dinamismo para a construção do mundo», porque «hoje é urgente, tanto na sociedade civil como na Igreja, um trabalho para despertar e promover a mulher. Trata-se de proteger a dignidade da mulher respeitando sempre o que é genuinamente feminino (esta é a verdadeira igualdade), e evitando que a mulher, no seu legítimo esforço para se inserir responsavelmente numa sociedade marcadamente machista, perca a sua feminilidade. No respeito desta originalidade da mulher baseia-se o verdadeiro desenvolvimento da posição da mulher» (Comissão de Estudo sobre a Mulher na Sociedade e na Igreja).

Através desta concisa evocação do Concílio Vaticano II e do trabalho da mencionada comissão encerramos o nosso olhar ao passado recente que todos recordamos.

Hoje

O olhar para o presente faz-nos correr o risco da retórica ou dos lugares comuns. São as mulheres as primeiras que acreditam, são elas as primeiras testemunhas. E é precisamente a elas, às mães e às avós em primeiro lugar, a quem o papa Francisco pediu que continuem a levar o anúncio de esperança e ressurreição.

As mulheres, com efeito, representaram sempre para a Igreja a fortaleza silenciosa da fé, a elas pediu-se sempre que se ocupem da educação das crianças na vida da fé. Constituem um exército de mestras, catequistas, mães e avós que, todavia, olhando de perto a realidade atual, são figuras que parecem pertencer a um mundo antigo em vias de extinção.

A crise vai afirmando-se a partir das jovens. No Ocidente, as mulheres entre 20 e 50 anos vão menos à missa, optam cada vez menos pelo matrimónio religioso, poucas seguem uma vocação religiosa e, em geral, mostram uma certa desconfiança pela capacidade formativa dos homens religiosos.

O que é que não funciona hoje, quando a imagem de mulher que têm os homens da Igreja já não corresponde, em geral, à realidade? Hoje as mulheres já não passam a tarde a rezar o terço ou em devoções piedosas. Muitas vezes são trabalhadoras, diretoras ocupadas como os homens, e às vezes mais, porque muitas vezes recai sobre elas o cuidado da família. São mulheres que alcançaram, por vezes com esforço, postos de prestígio na sociedade e no mundo do trabalho, às quais não corresponde nenhum papel de decisão ou de responsabilidade na comunidade eclesial.

Não está em discussão o sacerdócio feminino, coisa que, por outro lado, segundo as estatísticas, interessa muito pouco às mulheres. Se como diz o papa Francisco, as mulheres têm um papel central no cristianismo, este papel tem de ter correspondência na vida normal da Igreja.

Olhar o futuro
O terreno está minado pelo preconceito e enraizado em posições ancestrais alimentadas com o combustível da tradição e de uma excessiva presença masculina, muitas vezes refratária a qualquer confrontação. Já passou a hora de qualificar automaticamente toda a petição feminina com a etiqueta de feminismo, na qual há frequentemente reivindicações mais ou menos aceitáveis.

Toda a época histórica está marcada por conflitos e esperanças, que hoje revelam de forma inderrogável a complementaridade entre homem e mulher. Um terreno difícil de lavrar, mas que daria frutos abundantes, também na própria Igreja.

Não se trata de pôr em marcha uma revolução contra a tradição. As vozes femininas com bom senso não pretendem nem pensam arrancar vestes ou lugares aos homens, subvertendo a relação de poder entre sexos, nem, muito menos, colocar-se um barrete púrpura, em detrimento do reconhecimento das mulheres com todas as suas peculiaridades femininas.

O objetivo realista poderia ser abrir às mulheres as portas da Igreja para que ofereçam a sua competência, sensibilidade, intuição, paixão e dedicação, em plena colaboração e integração com a componente masculina.

- Que espaços se propõem às mulheres na vida da Igreja? São acolhidas tendo em conta a nova e diferente sensibilidade cultural, social, identitária? Continuam a propor-se modalidades de participação a partir de esquemas masculinos que não lhes interessam?

- Perguntámo-nos sobre que tipo de mulher necessita hoje a Igreja? A sua participação pensa-se e elabora-se juntamente com elas? Ou entregam-se-lhes modelos já elaborados que não respondem às suas expectativas ou respondem a perguntas hoje superadas?

- Estão as mulheres a fugir da Igreja? Talvez em algumas áreas culturais isto seja correto. Outras, pelo contrário, poderiam sugerir elementos preciosos para propor e novos horizontes para onde dirigir o olhar. O debate pastoral entre experiências diversas, em que as mulheres têm a possibilidade de fazer ouvir a sua voz e oferecer a sua disponibilidade ao serviço, não poderia converter-se numa modalidade sinodal de viver a fé e habitar na Igreja?

- Quais são as características da presença das mulheres nas diversas sociedades e culturas a partir das quais poderíamos extrair inspiração para uma renovação da pastoral e permitir uma participação ativa na vida da Igreja?"

Tradução e edição de Rui Jorge Martins para SNPC
em 27 de janeiro de 2015

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Manuel Cargaleiro, uma vida pela arte

Não tenho medo da morte

Aos 90 anos, o mestre do azulejo, pintura e escultura, afirma que não tem medo da morte: "Vivo o dia de hoje". Manuel Cargaleiro, vulto da arte portuguesa e adoptado por França, foi recentemente homenageado em Itália onde tem um museu dedicado à sua obra.

Veja o VIDEO de Joana Bourgard e Maria João Costa

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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