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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A nudez na arte: do pudor ao que interessa

Nota: neste artigo de opinião "pornográfica" deveria ser substituída bastantes vezes por "erótica" pois, a meu ver, pornográfico é tudo o que é produzido pela "indústria do sexo" e para consumo de um determinado mercado; "erótico" não é tão restrito, é algo que estimula os sentidos e o desejo, mas que não está vocacionado para o mercado da "indústria pornográfica". Contudo, por lealdade para com a autora do texto, não fiz a substituição de um termo pelo outro, cabendo ao leitor a tarefa de discernimento. 

Caminhos cruzados: a arte, a nudez e a pornografia

Male nude known as Hector, David jacques Louis
O corpo humano causa fascínio e é exaltado como algo naturalmente belo. Instintivamente, a nudez sempre foi e será o meio pelo qual o homem busca uma ligação com o seu próprio ser e com a criação.

O poeta e pintor inglês William Blake afirmou que “a arte jamais poderia existir sem expor a beleza da nudez.” Desde os primórdios dos tempos a nudez pertence à arte, estando presente nos ateliês de artistas clássicos e contemporâneos, assim como está presente em todas as outras vertentes artísticas. O corpo humano é visto como uma obra de arte. E como tal é contemplado. Afinal, é uma notável composição de músculos, uma máquina que reage e funciona à base de emoções. Que sangra, que expressa. Que causa prazer para quem sente e vê, de uma desconcertante (im)perfeição.

Mas antes da admiração, há uma eterna e cansativa discussão acerca do que é arte e do que é pornografia. Discussão errada. Com isto, infelizmente, a retratação da nudez ganhou rótulos, que se tornaram mais importantes do que a própria arte.

O rapto das Sabinas, Rubens
Todos sabemos o que é algo pornográfico, não é necessário dizer. A arte pode ser pornográfica, sem dúvida. Mas nem toda a pornografia pode ser arte. É, no entanto, delicado determinar o que é ou não arte. Cada um vê a beleza de modo muito particular. Por isso, coloca-se uma questão mais importante: é boa arte? Por vezes uma mente imatura, ou puritana, execra toda e qualquer manifestação da nudez, sem levar em consideração que não se trata apenas da estética, mas sim do conceito que encarna naquela obra. É preciso ver para além do que se vê. Isso deixa claro que, em determinadas ocasiões, é uma questão puramente de moralismo: ofender-se com uma imagem pornográfica é mais conveniente, desqualificando-a como arte.

É estranho que algumas pessoas se escandalizem com a exposição dos órgãos genitais, alegando que é algo grotesco e que alude puramente a luxúria, mas não se importam em admirar uma imagem sensual. Ora, a simples sensualidade é tão obscena quanto a pornografia, pois revela o que não está, desperta a imaginação, usa a nudez como pano de fundo para uma ideia mais subtil, mas que seduz e convence. Pablo Picasso disse ser “a arte algo perigoso, pois é reveladora”. E não é somente uma arte pornográfica que revela.


Prometheus, Christian Griepenkerl
Então esqueça os rótulos de pornográfico, erótico ou o que o valha. Não é isso o que importa. Independente da maior ou menor exposição do corpo é preciso entender que mais importante é identificar a qualidade artística de um trabalho. Alguns deles não pretendem mesmo ser mais do que apenas o sexo, numa exposição direta. É a libido na sua forma mais crua e explícita, mas nem por isso deixa de ser arte.

A famosa escultura de David – de Michelangelo – é a mais óbvia e explícita exposição do corpo humano. É pornografia ou é arte? A pergunta soa estúpida, não? A questão é que David é uma das mais belas obras a exaltar o corpo humano. É tecnicamente bem feito, é hiper-realista, é inebriante. Uma obra espectacular incontestável do Renascimento que fala connosco por meio da nudez e muito além da nudez. Se for boa arte, o que chamará a atenção não será apenas o corpo exposto mas sim uma série de impressões e conceitos inerentes a ela. É o que acontece com o bom observador.


L'apparition, Daniel Barkley
O escritor britânico Joseph Conrad disse sabiamente que “o autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor”. Creio que tal ideia pode ser aplicada à arte. O observador é uma extensão daquilo que observa, pois é dele a interpretação, independente da intenção do artista. São os conhecimentos e as inferências feitas pelo observador que vão responder à pergunta que realmente deve ser feita: é boa arte?

Adaptação para português (de Portugal) de um texto de Rejane Borges, in Obvious

Ler um texto de opinião sobre o trabalho de Egon Schiele

4 comentários:

  1. Boa tarde,

    Também sou um leitor assíduo da "Obvious".
    Ao ler este artigo também achei que algumas vezes ficaria melhor "erotismo", "erótico" em vez de "pornografia" ou "pornográfico".

    A boa arte leva a uma revelação da essência do objecto/sujeito artístico. Digo objecto/sujeito, pois nas artes performativas o "objecto" é um sujeito, que ao revelar algo criado por outro acaba por se revelar também a si mesmo. Pode haver uma óptima peça escrita ou coreografada, no entanto uma boa apresentação... já se sabe, dá-lhe um outro esplendor.

    Sobre a nudez... Há que pô-la, como tudo, no lugar certo. O grotesco pode estar completamente vestido ou completamente despido. A intenção, a essência, do nu podem ser carregadas de uma beleza tremenda, revelando a transparência, a verdade, o encontro com a pureza do que somos.

    Isto tem que ser feito com pudor, que não significa esconder a nudez, mas saber transmiti-la. Hoje em dia pode-se estar a perder vertiginosamente o pudor, o decoro. Estes, em boa medida, também podem revelar uma imensa carga erótica.

    Isto dar-nos-ia para uma longa e boa conversa. É um tema que gosto muito, o do Corpo, da Corporeidade.

    Um Abraço!

    Enfim, dar-nos-ia para uma longa conversa...

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  2. Olá Paulo, muito obrigado pelo teu comentário, com o qual concordo plenamente. Enquanto artista plástico, em trabalhos mais performativos, eu próprio já usei o meu corpo nu e não vejo que a nudez tenha de ser obrigatoriamente associada à falta de pudor. Terei sido porventura precipitado no título, pois em vez de pudor deveria aparecer algo como "escrúpulos" ou "falso pudor" - refiro-me a atitudes mais falsas do que sensatas, mais moralizantes e moralistas do que éticas ou morais, mais de aparências e preconceitos do que fundadas e esclarecidas. Mais uma vez obrigado pelo teu contributo.

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  3. rio azur,

    Quando não uma boa formação, a tendência é entrar num campo de moralismos (que nada têm que ver com uma boa moral, como bem dizes), levando a opiniões que vão para além do que pode ser aceite na vida humana em geral. Quando entramos no campo artístico mais ainda, por ser dado a uma amplitude de realidades muito maior.

    Isto não justifica que tudo em arte seja de qualidade. Nem tudo o que tenha nu... A verdadeira medida das coisas, como digo... Nem excesso, nem defeito! A beleza muitas vezes surge da simplicidade... E quando há simplicidade, também na nudez, alcança-se uma outra verdade.

    Sei que não tem muito que ver, mas há uns tempos, depois de ver o "Scope" do Rui Horta, que aborda as questões do Corpo e da nudez, de uma forma brilhante, acabei por escrever um post intitulado "Religião e Sexo, alguns apontamentos..." Deixo o link:
    http://oinsecto.blogspot.com/2008/02/religio-e-sexo-alguns-apontamentos.html

    Também agradeço...

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  4. Coloquei o teu link numa mensagem do blogue, espero que não te importes com isso. Se não o quiseres, avisa-me e eu retiro-o.

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