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sexta-feira, 29 de março de 2013

Servindo as mulheres

Com este novo Papa, muitas pedras têm sido mandadas para o meio do pântano de águas estagnadas dos costumes. Já tinha estado em celebrações da Ceia do Senhor onde eram lavados pés a mulheres, mas estas sempre foram longe da "ribalta" das liturgias mais solenes e "oficiais". Agora chega-nos um Papa que lava os pés de duas raparigas numa prisão, sendo uma delas muçulmana...
Será que o clero e os "ritualistas" da Igreja católica portuguesa vão saber andar ao mesmo passo deste Papa? Saberão descartar-se das "rendas", folhos e bajulações e aproximarem-se da imagem deste Jesus que se dobra e se põe ao serviço?
Cito agora uma reportagem sobre a quinta feira Santa e os gestos do Papa Francisco:

Rembrandt
O Papa Francisco lavou os pés a duas raparigas e uma delas é muçulmana


Por Ana Gomes Ferreira a 28 de Março de 2013
O Papa Francisco celebrou nesta quinta-feira a cerimónia pascal do lava-pés de uma forma inédita: numa casa prisão de Roma (Itália), o Casal del Marmo, que alberga jovens delinquentes. Não foi inédita pelo acto, mas pelos escolhidos: lavou e beijou os pés de dez rapazes e, pela primeira vez, de duas raparigas, uma muçulmana de origem sérvia, relatou a Rádio Vaticano que disse que se tratou de um momento “muito emocionante”

A cerimónia da lavagem dos pés relembra o momento em que Jesus, num gesto de humildade, lavou os pés dos seus 12 discípulos depois da última ceia, antes de ser preso e, mais tarde, crucificado.
Na capela da prisão, Francisco, o Papa argentino eleito a 13 de Março — depois da renuncia de Bento XVI —, celebrou uma missa, que improvisou, e na qual usou uma linguagem acessível, simples e calorosa, diz a agência noticiosa francesa AFP.

Lavar os pés, explicou Francisco, é “um gesto que simboliza um carinho de Jesus”, é um “gesto que vem do coração” e que disse fazer “como padre e como bispo” — não se identificou como Papa, este Francisco que já renunciara aos adornos vermelhos, que manteve a cruz de ferro que usava como arcebispo de Buenos Aires, que não quis a viatura oficial e que não dorme nos aposentos oficiais.

“Jesus veio para nos servir, para nos ajudar. Pensemos bem: estamos mesmo dispostos a servir os outros?”, perguntou o Papa aos jovens deste Instituto Penal para Menores. “O Senhor deu o exemplo. Não se trata aqui de lavar os pés dos outros todos os dias, mas de sabermos que temos de nos ajudar. Se estivermos em cólera uns contra os outros, perdemo-nos”, disse, usando uma expressão popular junto dos jovens italianos, “lascia perdere”. Houve cantos e música de guitarra a acompanhar toda a cerimónia.

O Papa foi à Casal del Marmo, não foram os jovens que viajaram até à sua presença — a cerimónia costuma acontecer na imensa e fria (descrição da AFP) basílica de São João Latrão, a catedral do bispo de Roma (o Papa é bispo de Roma, por isso as primeiras palavras de Francisco foram para os romanos, pedindo-lhes a bênção).


"A fé, dentro de uma prisão, é muito importante. É um sinal de esperança. Eles são activos durante o dia, mas chega sempre o momento em que a porta se fecha e ficam sozinhos”, disse aos jornais italianos uma voluntária do Casal del Marmo, Annalisa Marra. Falou na surpresa que foi o anúncio da visita do Papa e na importância que tem para os 50 jovens em reabilitação que lá vivem saberem que “alguém acredita neles”, que “alguém pensa neles e lhes dá o perdão”.
O lavar e o beijar dos pés e a missa que o acompanha são uma tradição da Igreja Católica na Quinta-Feira Santa, que antecede a Páscoa — quando terá acontecido a última ceia de Cristo e dos 12 apóstolos. Francisco quis que esta celebração fosse uma continuidade de discurso desde que foi eleito: uma chamada de atenção sobre os mais desprotegidos, os mais necessitados e vulneráveis; antes falou dos mais pobres, agora dos jovens em sofrimento.

“Não deixem que vos roubem a esperança — ouviram?”, disse-lhes, à despedida.

Na Argentina, o então cardeal Jorge Bergoglio visitava com frequência instituições de jovens em recuperação. No Casal del Marmo informaram-se sobre o novo Papa e propuseram que, entre os menores, houvesse rapazes de fés diferentes, representando toda a comunidade de 50 (católicos, ortodoxos, muçulmanos), e também raparigas, e que uma delas não fosse católica. “Do Vaticano não houve resistência, aceitaram”, explicou ao jornal italiano La Repubblica o padre Gaetano Greco, capelão em Marmo.
O diálogo entre religiões também está entre as prioridades deste Papa, o primeiro que se chama Francisco, em referência a São Francisco de Assis e do seu trabalho evangélico e social entre os mais pobres e desprotegidos. A missa foi à porta fechada, mas a popularidade do Papa levou centenas de pessoas às portas da Marmo, nos arredores de Roma.

In Público

O carisma do Papa Francisco

Ainda não tinha tido oportunidade de escrever nada sobre o novo Papa. Conhecemos Francisco há poucos dias, mas os seus gestos e acções inspiram confiança e alimentam uma esperança numa Igreja mais aberta e mais próxima. Benvindo Francisco!
Vou agora transcrever uma repostagem do Público:

As palavras que tornaram Jorge Bergoglio no Papa Francisco


"Quando a Igreja não sai de si própria, torna-se auto-referencial e fica doente", disse o cardeal argentino aos seus pares na fase pré-conclave. No dia em que aceitou ser Papa respondeu começando por dizer: "Sou um grande pecador".
A defesa de uma Igreja Católica que saia de “si própria” para ir até às periferias, não apenas geográficas mas também existenciais, foi uma ideia central da intervenção do cardeal argentino Jorge Maria Bergoglio nas congregações gerais, as reuniões preparatórias do conclave, que terá sido determinante para a escolha como Papa.
As intervenções são normalmente secretas, mas a de Bergoglio foi esta semana revelada pelo cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, que assim pretendeu revelar aos fiéis cubanos o pensamento do Papa Francisco. Lido por Ortega, o texto foi entregue pelo ainda cardeal ao colega, após ter sido proferido em Roma. Foi divulgado com autorização do líder católico e está publicado no site da Igreja cubana (iglesiacubana.org).
Também são já conhecidas as palavras usadas pelo cardeal argentino, no dia em que foi escolhido, 13 de Março, quando lhe foi perguntado, na Capela Sistina, se aceitava a escolha. "Eu sou um grande pecador, confiando na misericórdia e paciência de Deus, no sofrimento, aceito", disse, segundo a agência especializada em assuntos do Vaticano I-Media (http://www.imedia-info.org/depeches/).
A revelação foi feita pelo arcipreste da basílica de São Pedro, cardeal Angelo Comastri, que participou no conclave, num documentário sobre a transição papal realizado pelo Centro Televisivo do Vaticano, que é lançado na terça-feira em Itália, em formato DVD.

Transcrição do manuscrito lido pelo Jorge Bergoglio aos outros cardeais:
1.Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe para a Igreja a audácia de sair de si própria. A Igreja é chamada a sair de si própria para ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também das periferias existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da abstenção religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria.

2.Quando a Igreja não sai de si própria para evangelizar, torna-se auto-referencial e fica doente (cfr. A mulher curvada sobre si própria do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, se dão nas instituições eclesiásticas têm raiz de auto-referencialidade, uma espécie de narcisismo teológico.
No Apocalipse, Jesus diz que está à porta e chama. Evidentemente, o texto refere-se ao que chama desde fora para entrar. Mas penso nas vezes em que Jesus bate desde o interior para que o deixemos sair. A Igreja auto-referencial pretende Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.

3. A Igreja, quando é auto-referencial, sem se dar conta, crê que tem luz própria. Ela deixa de ser o mysterium lunae, e da lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (segundo Lubac [Henri de Lubac, cardeal jesuíta francês], o pior mal que pode acontecer à Igreja). É viver para glorificar uns aos outros.
Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si própria, a Dei verbum religiose audiens et fidenter proclamans; ou a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para si própria.
Isto deve dar luz aos possíveis caminhos e reformas que já que fazer para a salvação das almas.

4. Pensado no próximo Papa: um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo ajude a Igreja a sair de si própria para as periferias existenciais, que a ajude a ser a mão fecunda que vive “da doce e reconfortante alegria da evangelização”.

In Público 28 de Março 2013