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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Igreja anglicana, mecenas de um dos grandes artistas contemporâneos

Bill Viola ocupa catedral de S. Paulo em Londres

Se a Igreja não tem sido mecenas exemplar nos últimos dois séculos, e se muita da arte sacra tem sofrido de mediocridade por essa razão, há sempre excepções à regra. O Igreja anglicana dá uma lição com mais uma instalação de vídeo na catedral de S. Paulo em Londres. Chama-se Maria:

"O projeto permanente, localizado na parte norte da igreja-mãe da diocese anglicana da capital inglesa, foi idealizado para fazer companhia a outra instalação vídeo do autor norte-americano, "Mártires (Terra, Ar, Fogo, Água)", inaugurada em 2014 na secção sul da catedral (cf. Artigos relacionados).
Os dois temas de Maria e dos Mártires, ambos concebidos com a mulher de Bill Viola, Kira Perov, «simbolizam alguns dos mistérios profundos da existência humana», declarou o autor, lê-se na página eletrónica da catedral de S. Paulo.

«Um diz respeito ao nascimento e outro à morte; um com conforto e criação, o outro com sofrimento e sacrifício. Se eu tiver sucesso, as peças finais funcionarão como objetos estéticos de arte contemporânea e como objetos práticos de contemplação e devoção tradicionais», acrescentou.

O cónego chanceler da catedral considera que a arte de Bill Viola (n. 1951) «desacelera» as «perceções, de modo a aprofundá-las. Ele usa o mesmo meio que controla atualmente a cultura de massas, o filme, e subverte esse controle para abrir novas possibilidades e perfis de compreensão».

«Através da vida de Maria e da sua relação com o seu filho, Viola convida-nos a mergulhar na força do mistério do amor no nascimento, relacionamento, perda e fidelidade. Não tenho dúvidas de que esta nova instalação vai guiar os nossos muitos peregrinos para uma reflexão significativa e uma oração esperançosa», realçou Mark Oakley.

A iconografia religiosa é um tema recorrente nas obras de Bill Viola, como aconteceu na exposição "The passions", exibida em Londres em 2003, e na obra "The messenger", para a catedral de Durham, em 1996. O seu trabalho "Ocean without a shore", na Bienal de Veneza de 2007, foi apresentado na igreja de San Gallo.

Bill Viola está a preparar uma retrospetiva da sua obra, que de março a julho de 2017 ocupará a totalidade do palácio Strozzi, em Florença, cidade italiana onde trabalhou quando era mais novo.
A mostra incluirá pinturas renascentistas, cujo empréstimo está a ser negociado com igrejas e museus, a par de trabalhos em vídeo, incluindo "Eclipse", umas das suas primeiras obras (1974) realizadas em Florença.

«Hoje considera-se que está na moda justapor os grandes mestres à arte contemporânea, mas as ligações são muitas vezes pouco nítidas e os resultados desapontantes. Não é o caso do trabalho de Bill (...). [A sua] cultura e conhecimento são profundamente influenciadas pela tradição artística», afirmou o diretor do palácio Strozzi.

«Por esta razão, mesmo que a exposição seja, antes de tudo, uma retrospetiva de Bill Viola, estamos a tentar ter algumas poucas, mas significativas, obras de grandes mestres», explicou Arturo Galansino, citado pela página "The Art Newspaper".

Paolo Uccello e os seus frescos sobre a narrativa do dilúvio no livro bíblico do Génesis, a "Pietà" de Masolino da Panicale, as pinturas de Giotto na "Galleria degli Uffizi" e a "Anunciação" de Fra Angelico são algumas das pinturas que influenciaram Bill Viola, que, também em Florença, gravou sons no interior das igrejas, como passos e vozes, recolhendo-os num vasto arquivo a que recorre em algumas nas suas instalações."

Texto de Rui Jorge Martins in SNPC















Um testemunho no mês de oração pelos missionários

Isa Solá

Dois disparos. Queriam roubar-lhe a bolsa e atingiram-na à queima-roupa enquanto se dirigia para o automóvel, em Port-au-Prince. Homicídio acidental, mas que fala da luta, no Haiti, pela sobrevivência a todo o custo, relativizando o valor da vida por um punhado de dólares. Um assalto interrompeu a obra de Isa Solá. Religiosa de Jesus e Maria, nascida em Barcelona há 51 anos.

Poderia ter sido tudo aquilo a que se tinha proposto. Poderia ter sido a primeira. Mas preferiu estar junto dos últimos. Por isso deixou a sua casa aos 19 anos para dizer um sim incondicional. Estudou enfermagem e magistério e depois dedicou-se à missão, primeiro como professora, em Valência, depois na Guiné Equatorial e, por fim, num instituto para menores em Barcelona. Em setembro de 2008 aterrou em Port-au-Prince, poucos meses antes do terrível terramoto.

Viu a escola em que trabalhava ruir em apenas 20 segundos. Viu o país mais pobre da América desaparecer entre os escombros. Enérgica, imparável, participou na reconstrução. Antes tinha trabalhado no ambulatório de ortopedia para dar uma segunda vida aos mutilados e às vítimas graves do sismo. Depois numa clínica móvel par assistir os mais pobres entre os pobres. E, finalmente, numa escola, um projeto emergente que sem ela ficou órfão.

Não procurava protagonismos. Tomava a iniciativa mas depois colocava-se de parte. Com efeito, deu início quer ao ambulatório quer à clínica móvel com médicos locais, para que fossem eles a tomar as rédeas, para que os próprios haitianos tomassem as rédeas do seu presente e do seu futuro. Para lhes voltar a dar um pouco de dignidade em tempos de escravidão.

Enamorou-se do povo haitiano, da sua enorme força diante dos sofrimentos. Talvez se visse refletida nele como num espelho. Irrequieta, decidida, apaixonada. De Deus. O seu olhar sempre sorridente demonstrava-o, esse mesmo olhar que o papa Francisco, este domingo, pediu a todos os cristãos, parafraseando a nova santa de Calcutá. Isa era uma outra Teresa e Port-au-Prince a sua cidade da alegria.

Isa Solá sabia que pisava terreno pouco seguro. Jogava a vida a cada dia, como qualquer outro missionário, como qualquer outro haitiano. Mas nunca pensou abandonar. «Deus nunca deita a toalha ao chão, nem eu quero fazê-lo», disse-me há pouco mais de um ano, na última entrevista que me concedeu. Voz de anúncio, com a guitarra na mão, e de denúncia, diante das injustiças. «O Haiti precisa de menos corrupção, de um governo mais organizado e de prioridades claras. Há tantas ONG que se enriquecem com a miséria, é evidente.»

Tinha regressado há apenas duas semanas de Espanha, onde tinha visitado a sua família e a sua comunidade de origem. Tinha-se despedido delas. Para voltar ao Haiti, para continuar a sua profissão de fé. «Deus impassível? Nunca na minha vida vi Deus mais presente e ativo. Gritei de raiva e de dor quando me vi rodeada de mortos após o terramoto, e eu estava viva. Depois tive o privilégio de ser testemunha de muitos milagres. Os haitianos tornam-me mais crente e pedem-me todos os dias para ser coerente com a minha fé. Missionária, eu? Não. Não sei quem evangeliza quem.» É este o credo de Isa Solá.

José Beltrán Aragoneses in "L'Osservatore Romano", 5 de Setembro de 2016
Tradução de Rui Jorge Martins publicada em 6 de Setembro de 2016 no SNPC

Poesia: uma ordem mendicante

A Poesia dá espaço para o silêncio

"O que formou a minha alma foi a leitura dos poemas, que é feita mais de intensidade e de fulgores. A poesia dá-nos mais espaço para o silêncio, é como um relâmpago a que se segue muita outra coisa, que é da construção do leitor. A oração diária do livro dos salmos foi música no meu ouvido. A leitura da poesia foi uma espécie de iniciação ao ato de ler. Penso que a poesia é uma ordem mendicante, os poetas são mendigos do real. Por vezes temos uma atitude de dominação sobre as coisas e os outros, mas se cairmos em nós percebemos que somos e sabemos pouco. A aceitação dessa escassez é fundamental para nos abeirarmos do mundo de outra forma."

Excerto do texto redigido a partir das intervenções de José Tolentino Mendonça no debate "A sabedoria dos livros", com Frederico Lourenço Festa do Livro em Belém, Lisboa (Setembro 2016)
Redação: Rui Jorge Martins 
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Razões para se ler um livro

Perigo!

"Os livros são perigosos porque são aceleradores e intensificadores da nossa experiencia humana, abrem portas e janelas que nem sequer sabíamos que existiam, são surpreendentes encontros de vida. Ao mesmo tempo são cúmplices inesperados da nossa aventura humana. Cada um de nós é também os livros que leu, os autores que encontrou. Os livros são esse alargar de horizontes que permitiram aquele encontro mais secreto e profundo com a nossa voz. O ato da leitura é um ato de exposição, mesmo quando parece muito inocente acaba por ser uma aventura da qual nenhum de nós sai verdadeiramente igual à forma como entrou."

excerto do texto redigido a partir das intervenções de José Tolentino Mendonça no debate "A sabedoria dos livros", com Frederico Lourenço Festa do Livro em Belém, Lisboa (Setembro 2016)
Redação: Rui Jorge Martins
Ler em SNPC

Redes Socias, uma montra para quem passa

Uma paragem para pensar

(...) Parar para pensar. "Thinking what we are doing", como convidava a fazer Hannah Arendt, em tempos sombrios, para não sucumbir ao mal envolvente. (...)

(...) [A] televisão (...) deu início a uma reconfiguração da geografia da vida social, rescrevendo os modos de proximidade e distanciamento, tornando público o privado.

Com as redes sociais este processo radicaliza-se: desejamos contar-nos (a atitude de "extimidade" e extroversão, que é o contrário da intimidade) e pensamos estar num quarto a falar com os nossos amigos, quando, na verdade, estamos num palco sem fronteiras.

Vivemos como num palácio de vidro, onde todos veem todos. E isto cria um problema. Nós negociamos a nossa identidade nas relações com os outros, em contextos diversos que requerem uma capacidade de se sintonizar e assumir comportamentos apropriados; e isto implica a possibilidade de se revelar seletivamente aos diferentes "públicos". Não é, note-se bem, uma forma de hipocrisia, mas de consciência das diferenças. Não se está na família como no trabalho, não se se comporta numa festa como num funeral.

Hoje a gestão consciente do ocultar/mostrar tornou-se muito mais difícil. E não é por acaso que o universo social está a privilegiar as aplicações que permitem uma interação mais "privada", mais íntima, mais semelhante aos tradicionais contextos face a face: a tentativa é subdividir de novo em quartos separados os espaços abertos criados pelas redes sociais, restabelecer a pluralidade dos contextos.

Mas ainda estamos longe, e não faltam riscos. Com as redes sociais, em todo o caso, a difusão de si alcança uma escala muito ampla, deixando rastos permanentes e recuperáveis no tempo, e cuja acessibilidade está fora do nosso controlo. Estar consciente disto é fundamental.

Um segundo ponto a que se deve prestar atenção é de que a comunicação social é uma mistura entre conteúdos produzidos pelo utilizador e outros conteúdos (imagens a que se podem impor "tags" (etiquetas), comentários, etc.).

As audiências para os conteúdos criados e partilhados são múltiplas, interligadas e invisíveis, potencialmente ilimitadas. E incontroláveis. O que nós produzimos deixa de nos pertencer e pode ser usado contra nós. A ilusão de se ser "proprietário" do que publicámos, dos nossos traços na internet, é verdadeiramente perigosa, como se demonstra.

E por fim, mesmo que as questões sejam ainda muitas, o risco da perda da realidade, que nos torna desumanos. A mediação do dispositivo que "documenta para partilhar" arrisca-se a anestesiar-nos, se nos conformamos simplesmente à lógica da factibilidade. Onde tudo é possível, nada existe verdadeiramente, escrevia Benasayag. Onde tudo é transformável em "post" e capitalizável em "gostos", nada existe verdadeiramente fora desta lógica.

O "capitalismo das emoções" leva-nos a produzir, mesmo cinicamente, conteúdos que podem tornar-se rapidamente virais, sem outra ordem de considerações a não ser a quantitativa, em perspetiva autorreferencial. Sim, porque tudo isto, mesmo que não nos agrade ouvir dizer, é filho de um individualismo radical onde já nada conta verdadeiramente, para além de mim. Portanto não há solidariedade, compaixão, respeito. Nenhuma razão para colocar um limite às nossas ações.

Perda da realidade, anestesia, ser-se "quantificado": não são efeitos necessários mas riscos em que se cai sem se dar conta, se não se pensa no que se está a fazer. Se não se sai da lógica daquilo de que o dispositivo torna possível, tornando-se puros executores de instruções escritas por outros, reféns da necessidade excessiva de se ser visto.

(...) A tecnologia não liberta nada se não lhe compreendemos o sentido, podendo ser transformada em formas manipuladoras e cada vez mais perversas de humilhação e violência. Pensemos no que estamos a fazer, para onde estamos a caminhar, onde está o sentido. (...)

Chiara Giaccardi
In "Avvenire"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada em 16 de setembro de 2016 no snpc