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terça-feira, 18 de abril de 2017

A homossexualidade e a Rússia

Noutro artigo do Público é-nos apresentada uma análise sobre a forma como a homossexualidade é encarada na Rússia. Por Clara Barata:

Na Rússia, a homossexualidade é só um acto e as pessoas podem ser castigadas ou curadas

Os Jogos Olímpicos de Sochi fizeram explodir os protestos por causa da discriminação dos gays russos. Mas esta é uma história com raízes profundas

Na Rússia, a rejeição da homossexualidade é uma coisa séria. A lei que torna crime a “propaganda da homossexualidade” junto de menores não é apenas uma ideia do Presidente Vladimir Putin — é realmente apoiada pela população.

Segundo uma sondagem do Instituto Pew de Junho do ano passado, quando foi publicada esta lei, apenas 16% dos russos considera que a homossexualidade deve ser aceite pela sociedade. Em 2007 eram 20%, pelo que a Rússia está a tornar-se ainda mais intolerante.

Estes dados não surpreendem Laurie Lessig, professora de Sociologia e Género, Sexualidade e Estudos Feministas na Universidade de Middlebury, no estado de Vermont (Estados Unidos da América), que entre as décadas 1980 e 1990 viveu na Rússia e fez trabalho de campo a investigar a comunidade gay na União Soviética — que então se estava a desagregar. “Será preciso muito mais do que boicotes e estrelas da pop para tornar este país mais tolerante. A Rússia tem uma história da sexualidade muito diferente da do Ocidente, e o que se passa hoje é o resultado dessa história”, afirmou.

A Rússia está a ser alvo de uma intensa campanha motivada pela lei que pune com uma multa que pode ir até 10.600 euros e com penas de prisão quem faça “propaganda homossexual” — embora sem definir o que seja essa propaganda. A investigadora norte-americana, que escreveu um livro publicado em 1999 sobre o seu trabalho na Rússia — Queer in Russia: A Story of Sex, Self, and the Other — falou com o PÚBLICO sobre a forma como a Rússia encara a homossexualidade: como meros actos, que podem ser criminalizados ou tratados.

É surpreendente que as sondagens mostrem que a lei que criminaliza a “propaganda gay” junto de menores seja apoiada por mais de 80% da população russa. Por que é que a Rússia não se aproximou mais do Ocidente nas suas atitudes em relação à sexualidade?É importante compreender que a Rússia tem uma história da sexualidade diferente da do Ocidente. Como escreveu [o filósofo] Michel Foucault, no Ocidente nasce-se homossexual. Na Rússia, os actos homossexuais sempre foram considerados apenas verbos — nunca se transformaram em substantivos, em espécies sexuais, o homossexual e o heterossexual. Isto é potencialmente negativo: se os actos sexuais são apenas acções, então as pessoas podem ser castigadas ou curadas. De 1934 a 1993, os homens podiam ser enviados para campos de trabalho por fazerem sexo com outros homens e as mulheres eram muitas vezes internadas em hospitais psiquiátricos por desejarem outras mulheres.

Nos tempos soviéticos, a homossexualidade era tratada como a tuberculose — atravessava as fronteiras, vinda do Ocidente burguês, e podia infectar qualquer um. Qualquer pessoa mesmo. Esta visão da sexualidade reduzida a meros actos sexuais criava uma atmosfera em que qualquer um podia sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo. Não te tornarias homossexual ou heterossexual por causa das relações sexuais que tivesses — isso humanizava as pessoas, dava-lhes uma certa dose de liberdade, em especial após a queda da União Soviética, quando as grandes cidades russas fervilhavam de possibilidades queer [gays, lésbicas, bissexuais, transgénero], de activismo e artísticas.

Os cientistas e os profissionais de medicina russos não tentam contrariar esta visão discriminatória da homossexualidade como doença ou crime?Mas esta pode não ser a melhor maneira de combater este preconceito.

Há muitos psicólogos, sociólogos e antropólogos que estão a trabalhar para combater esta ideia de “contágio gay”. Mas será esta a melhor maneira de combater este preconceito? Na América, uma coisa tão complexa como o desejo foi reduzida ao conceito “nasci assim”. Isto parece uma simplificação absoluta para muitos cientistas russos (e americanos), que fazem uma análise mais profunda, olham para os registos antropológicos e históricos e defendem que o sexo é algo bastante mais complicado.

Os cientistas russos devem investir na noção de os gays simplesmente nasceram assim? Talvez, mas não tenho a certeza de que isso poderá proteger os gays na Rússia. Afinal de contas, outros grupos que também “nasceram assim” – como as minorias raciais e os judeus – também são alvo de discriminação. Mas talvez insistir na ideia de que os gaysnascem assim possa diminuir o pânico em relação aos homossexuais, reduzir o pânico de que a homossexualidade seja infecciosa. Acredito que há muitas pessoas a trabalhar no duro para contrariar este pânico – académicos, activistas, jornalistas. O que eu não acredito é que devam ser os académicos americanos a dizer-lhes o que devem fazer.

Os direitos das minorias sexuais existe como tema da agenda política? A oposição pega nele?Sim, mas não no Parlamento, que votou unanimemente a lei sobre a propaganda
gay. Mas há inúmeros grupos de defesa dos direitos humanos e dos direitos dos homossexuais que lutam contra esta forma de discriminação. Infelizmente, os media são quase completamente controlados pelo Governo e dizer alguma coisa sobre a homossexualidade pode resultar em ser multado por quebrar a lei. Portanto, se não houver uma imprensa livre na Rússia, estes grupos nunca conseguirão mobilizar muita gente.

A comunidade gay na Rússia já começou de facto a organizar-se, apesar de todas estas dificuldades?Há organizações gay, mas têm uma eficácia limitada, porque não há uma imprensa livre, e não existe o direito à livre manifestação. Além disso, alguns líderes da comunidade gay tentaram mostrar-se como “russos autênticos”, manifestando um perturbante anti-semitismo. Outros, no entanto, estão a fazer alianças com organizações que defendem judeus e povos da Ásia Central – se se unirem, os que são considerados “poluição estrangeira” podem conseguir muito mais do que se trabalharem sozinhos.

O fenómeno dos ataques violentos contra homossexuais colocados online por um grupo que se identifica como Occupy Pedophilia, que parecem ser neonazis, é algo de novo, ou é apenas um novo rosto de uma violência que já existia em tempos soviéticos?
Nos tempos da União Soviética havia os
remontniki, os “reparadores”, que andavam de carro à procura de pessoas que pareciam homossexuais ou punks, ou de alguma forma uma ameaça à pureza russa, nos quais pudessem bater. Estes Occupy Pedophilia são apenas a versão destes remontniki da Idade da Internet. Tal como no tempo dos sovietes, as autoridades ignoram esta forma de vigilantismo, desde que isso sirva os seus interesses – que é manter a população receosa e sob controlo.

Tortura e morte na Chechénia: os gays na mira

O Público dá-nos conta das atrocidades que perduram na Chechénia. Uma reportagem de Mário Lopes a 14 de Abril de 2017

Presos, torturados, mortos: a perseguição em massa dos gays tchetchenos

Uma reportagem num jornal russo denunciou aquilo que testemunhos e informações recolhidas por organizações de defesa dos direitos já indicavam: as autoridades tchetchenas estão a deter ilegalmente centenas de homens em toda a república. De que são culpados? Da sua orientação sexual.

A Chechénia continua a contar com uma forte presença militar russa desde as duas guerras que opuseram Moscovo aos separatistas do Cáucaso. 

***

Atraídos para emboscadas, presos ilegalmente pela polícia, torturados durante dias, quando não assassinados. Obrigados a denunciar amigos e conhecidos, chantageados pelas autoridades, ameaçados pelas próprias famílias. Há vários anos que associações de defesa dos direitos humanos, como a Human Rights Watch, ou a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (ILGA), vêm alertando para a violenta discriminação de que são alvo os gays tchetchenos. Aquilo que denuncia uma reportagem publicada recentemente no diário russo Nóvaya Gazeta mostra que discriminação é expressão insuficiente para descrever o que se passa na pequena república do Cáucaso, integrante da Federação Russa.

Segundo o artigo, está neste momento a ser levada a cabo uma verdadeira purga da comunidade gay da república, com a polícia a deter centenas de homens em centros prisionais onde são mantidos em condições desumanas e torturados para denunciar aqueles, entre os seus conhecidos, que tenham a mesma orientação sexual. Apesar de não haver confirmação do denunciado pelo Nóvaya Gazeta por parte de fontes independentes, a Human Rights Watch russa já confirmou que o relatado coincide com informações e testemunhos que a associação recolheu no terreno. Segundo o diário, há três mortes confirmadas, mas suspeita-se que o número possa ser muito superior, tendo em conta a impossibilidade de recolher dados, quer junto às autoridades, quer junto das vítimas de perseguição que evitam contactar entre si devido ao controlo apertado que o estado tchetcheno faz a todo o tipo de comunicações.

A União Europeia e o Departamento de Estado dos Estados Unidos exortaram a Rússia a investigar o caso. “É indispensável levar a cabo investigações eficazes e exaustivas sobre as informações de sequestros e assassinatos de homossexuais na república da Tchetchénia no Cáucaso”, defendeu em comunicado Federica Mogherini, alta representante para a política externa da União Europeia. A Rússia, cujo Governo se tem mostrado particularmente activo internamente na supressão dos direitos dos homossexuais, negou ter conhecimento de quaisquer perseguições.

A reportagem do Nóvaya Gazeta foi elaborada com recurso a fontes internas das autoridades tchetchenas e ao depoimento de homens presos em várias cidades que, após a detenção pelas autoridades, conseguiram escapar da república. Na Tchetchénia, região de maioria muçulmana, extremamente conservadora e onde a homofobia é a norma, os gays vivem numa quase total invisibilidade. Além de lidar com a hostilidade das autoridades, têm muitas vezes contra si a própria família.

Na Tchetchénia, ter um familiar homossexual é considerado pela maioria da população como uma desonra para toda a família e o chamado crime de honra surge como a forma de limpar o seu bom nome. Daí a maioria dos gays tchetchenos serem obrigados a viver vidas duplas, casados de forma tradicional e escondendo de toda a família a sua orientação sexual. Daí que as autoridades tchetchenas, república liderada por Ramzan Kadyrov, tenham negado qualquer tipo de perseguição. Para o regime, tal é, muito simplesmente, uma impossibilidade. “Não se pode deter e perseguir pessoas que, muito simplesmente, não existem na república”, declarou o porta-voz de Kadyrov à agência noticiosa Interfax, acrescentando que, “se houvesse pessoas assim na Tchetchénia, os órgãos responsáveis pelo cumprimento da lei não precisariam de fazer nada, porque os seus familiares iriam enviá-las para um sítio de onde não é possível regressar”.

Uma reportagem do Guardian publicada esta quinta-feira recolhe depoimentos de duas vítimas da perseguição em curso na Tchetchénia. Um dos homens que acederam falar sob anonimato com o jornal britânico conta como foi atraído para uma cilada por um amigo chantageado pela polícia. Quando chegou ao local onde combinara o encontro, esperavam-no seis pessoas, algumas em uniforme. Levado para um centro de detenção, passou dez dias a ser espancado e torturado pela polícia com choques eléctricos. Por vezes, eram levados à sua presença outros prisioneiros, que os guardas, anunciando-lhes que estavam na presença de um gay, incitavam a agredi-lo.

Outro detido entrevistado pelo Guardian conta como foi obrigado a fazer pagamentos regulares à polícia, que o chantageava com a ameaça de divulgar na Internet e junto da sua família a sua orientação sexual. Quando aquilo que está a ser descrito como uma perseguição em massa teve início, encontrava-se fora da Tchetchénia. Recebeu um telefonema da família, que estava acompanhada pela polícia tchetchena. Esta exigia-lhe que regressasse, caso contrário, manteriam refém um membro da sua família. Entre insultos, um dos familiares exigiu-lhe que regressasse imediatamente. Prometeu que o faria, mas não o fez. No dia seguinte, estava a caminho de Moscovo. “Não tenho a mínima dúvida que os meus próprios familiares planeavam matar-me. Era o convite para uma execução”, diz.

Apesar de todo o historial de homofobia e da perspectiva de atravessar a vida reprimido, confessa aos repórteres que nunca imaginou ver-se nesta situação: “Só queria fazer a minha mãe feliz e orgulhosa. Estava preparado para me casar. Teria levado todos estes problemas comigo para a sepultura. Nunca imaginei nos meus piores pesadelos que estaria aqui em frente a um jornalista a dizer: ‘Sou tchetcheno e sou gay’”.

Identidade de Género versus Igualdade de Género: uma questão de educação?

Um artigo muito interessante no Diário de Notícias aborda a questão de Identidade de Género e a Infância. Recomendo a sua leitura:

"O cor-de-rosa pode ser uma cor igual às outras"

Reportagem de Fernanda Câncio a 15 de Abril de 2017

"Como se constrói, nas crianças de hoje, a identidade de género? Que está a educação a fazer pela igualdade e pela desconstrução dos papéis "tradicionais" de mulheres e homens? O que é que mudou e o que é que permanece na mesma? Há esperança? Perguntámos a quem sabe: cinco crianças de 9 anos e uma de 10 falam sobre o que é ser menina e o que é ser menino, brincadeiras e profissões, roupas e cores, direitos e deveres. Do que é e do que devia ser

"O melhor de ser rapaz é o futebol." É a primeira resposta que ocorre a Bernardo, 9 anos, cabelo alourado e rosto sorridente. Mas emenda logo de seguida: "Não é bem o futebol porque também há futebol feminino." Afinal, pensando bem, o melhor de ser rapaz é "não termos bebés na barriga e a saírem pelo pipi. E não termos de fazer chichi como uma bisnaga de água. Porque as raparigas fazem chichi como se tivessem uma bisnaga". Faz uma careta. "Fazer chichi em pé é muito melhor."

Concluindo: para o Bernardo o melhor de ser rapaz é não ser rapariga. E o melhor de ser rapariga será o quê? Reflete. "É ser vaidosa. E ser bonita." Um amigo de Bernardo, por sinal também chamado Bernardo, que veio ter com ele ao Jardim da Estrela nesta tarde quente de Primavera, ajuda: "É namorar e não chatear." Porque, explicam os dois, as raparigas da escola "às vezes correm atrás de nós e prendem-nos". E para quê? Risota: "Para nos beijarem." E eles, os rapazes, nunca perseguem as raparigas? "Sei lá. Sim. Gozamos que elas são feias."

"Não há nada bom em ser rapariga"

E como seria ter nascido rapariga, já imaginaram? Fazem cara de quem ficou perplexo: "Sei lá." Mas, se calhar por pensar assim pela primeira vez, o Bernardo louro (o outro é moreno) quer corrigir o que disse antes: "Não há nada de bom em ser rapariga." Até porque "o comportamento típico de rapariga é ser queixinhas, medricas. Ter medo de tudo". Esta visão tão negativa das raparigas convive, no entanto, com a ideia de que elas e eles "devem ter os mesmos direitos" e "não é justo os homens ganharem mais do que as mulheres pelo mesmo trabalho". E se não ganham o mesmo, decide o Bernardo louro, "a culpa é de quem manda, dos diretores, que são parvos". Nunca ouviram falar de um tempo em que as mulheres estavam impedidas de fazer os mesmos trabalhos que os homens, mas "só se foi", acham, "na ditadura." O Bernardo louro conclui: "Foi uma fase chata mas depois veio o 25 de Abril e foi bom." Questionados sobre o porquê de jamais terem visto em Portugal uma presidente da república ou uma primeira-ministra, refletem: "Não querem ser, com certeza. Deve ser por isso que não aparecem; já não é a ditadura."

Mas a igualdade afinal não é para tudo, e a injustiça de os homens ganharem mais pode ser naturalizada: "Quem toma mais conta dos filhos são as mulheres porque são os homens que trabalham mais e ganham mais dinheiro." Quanto a haver ainda países onde as mulheres são impedidas de fazer uma série de coisas, como por exemplo conduzir [caso da Arábia Saudita], "é normal porque são nabas", acha o Bernardo louro. "A minha mãe não presta a conduzir. Não sei porquê, as mulheres têm menos jeito." O Bernardo moreno, porém, discorda veementemente: "A minha mãe é boa condutora."

A dissensão desvanece-se na resposta à pergunta sacramental sobre o que projetam fazer quando crescidos: futebolistas. E quando deixarem de poder jogar futebol por já não serem jovens? O Bernardo louro matuta um minuto, contrariado com a ideia de que pode haver necessidade de encontrar outra ocupação: "Quando já não puder ser futebolista, cantor." Duas profissões que não antecipa para as meninas que conhece, que "gostam muito de tratar de animais". O que, aventa o Bernardo moreno, poderá indiciar um futuro como "tratadoras de golfinhos." Distinções entre os dois grupos que se reiteram nas brincadeiras habituais: "Elas gostam de barbies e assim, nós é a PlayStation."

"Algumas gostam de ser rapazes"

Mas há exceções, adverte o Bernardo moreno: "Algumas raparigas gostam de ser rapazes. Como a Matilde [uma colega da escola que, informa a mãe do Bernardo louro, é a melhor amiga do filho], por exemplo." E isso vê-se como? "Gosta muito de futebol. E está sempre connosco e sempre a portar-se mal como um rapaz." O que é portar-se mal "como um rapaz"? "Responde à professora, é mal-educada, bate em tudo e todos."

Se a rapariga que "gosta de ser rapaz" é descrita com admiração, de rapazes que "gostam de ser raparigas" não parece haver notícia. E os dois torcem o nariz à possibilidade de, por exemplo, usarem a cor conotada com elas: "Cor--de-rosa? Não gosto, não é de rapaz." A não ser que, acrescenta o Bernardo louro, se trate de chuteiras. Quer muito umas rosa, como as que viu "no Ronaldo, no Rui Patrício e no Di María". Mas "se a minha mãe aparecesse com uma T-shirt cor-de-rosa eu não usava, claro que não. Porque é de rapariga." Como é que o cor-de-rosa passa de desejado a odiado consoante nos pés ou no tronco, não explica. Mas se calhar é questão de Cristiano Ronaldo aparecer com uma camisola dessa cor e passará a ser um must. Afinal, assevera Lara, a mãe do Bernardo Louro, ele já lhe pediu brincos de mola para levar para a escola, para imitar os seus futebolistas e cantores favoritos, e até já apareceu em casa várias vezes de unhas pintadas. "São as miúdas na escola que lhe pintam as unhas, e ele anda todo contente. Também já me apareceu com eyeliner, rímel..." Ri-se. "Tínhamos medo do que poderia suceder quando levou os brincos, mas disse-nos que os outros miúdos tinham dito que estava muito fixe." Houve algumas reações menos simpáticas - de adultos. "O professor de ginástica perguntou: "Mas agora és paneleiro?"", conta Rodrigo, o padrasto de Bernardo. "E no clube onde ele anda no futebol", acrescenta Lara, "disseram qualquer coisa das unhas também."

O remoque do professor não passou em claro: Rodrigo foi à escola falar com a diretora. "Mas ela disse que não acreditava que o professor tivesse dito aquilo, ou então que se o disse foi na brincadeira." Encolhe os ombros. "Na brincadeira?! Como se aquilo fosse uma brincadeira aceitável. Claro que o professor nunca iria admitir que disse uma tal enormidade." Rodrigo e Lara, ele radialista, 34 anos, e ela empresária, de 32, suspiram. A atitude descontraída em relação aos estereótipos de género é identificável no filho de ambos, um bebé de 2 anos cujo cabelo, preso no alto da cabeça num totó, leva a repórter a provar a renitência dos ditos estereótipos: "É uma menina, não é?" Lara sorri, como quem já se deparou muitas vezes com a confusão: "Não, é o Tristão."

Rodrigo esteve, com Lara, presente durante a conversa com os Bernardos, sempre calado e sem qualquer reação, enquanto dava o lanche a Tristão. Agora que o enteado foi brincar no parque com o amigo, comenta o que ouviu. "Estava com curiosidade de saber o que ele ia dizer. Porque sei que aquilo que nós tentamos passar-lhe em casa é uma coisa, aquilo que ele apanha de outras influências é outra. E o pai dele tem uma visão muito rígida, já aconteceram algumas coisas chatas." Lara dá um exemplo: "Uma vez cortámos-lhe o cabelo um pouco mais curto dos lados e maior em cima, como usa o Ronaldo. Ele estava muito contente, mas quando foi para o pai voltou com o cabelo todo rapado." E, acrescenta Rodrigo, "o Bernardo tem Instagram. É muito fechado e controlado mas, claro, o pai tem acesso e um dia destes o miúdo pôs lá uma foto com as unhas pintadas e comentou: "Só espero que o pai não repare nas unhas." Faz-me lembrar um dia, quando eu era miúdo, em que me disseram: "Larga a Barbie que o teu pai está a chegar." Estava a brincar com a Barbie de outra criança e havia o medo em relação à forma como o meu pai reagiria se me apanhasse com a boneca. É ridículo que passado este tempo todo ainda haja tanta gente a pensar assim."

Fátima não é um dogma, a Igreja em Portugal, o Papa, sexualidade dos padres, ordenação de mulheres e de homens casados e muito mais


Padre Anselmo Borges: “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”

Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, falou ao Expresso a propósito do lançamento do seu novo livro, “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo”

por Cristiana Martins, no Expresso

"Decidiu ser padre aos 19 anos porque a morte o inquietava. Ainda pensa na finitude, mas diz que “a única porta de salvação para uma vida eterna” foi Jesus quem lha abriu. Entrou há 50 anos, ao ser ordenado pelo cardeal Cerejeira. Nunca deixou a Igreja mas arrepiou caminho e escolheu a via da crítica ativa. Professor universitário em Coimbra, lança um novo livro — “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo” —, prefaciado por Artur Santos Silva e, a partir da próxima semana, vai andar pelo país a apresentá-lo, na presença de pessoas tão diferentes como Ramalho Eanes, Frederico Lourenço, Pedro Mexia, Pedro Rangel, Maria de Belém, Carlos Fiolhais ou Isabel Allegro de Magalhães.

No seu livro levanta questões mais comuns ao discurso de não católicos. Ainda se revê na Igreja?
Pertenço por convicção à Igreja Católica e procurei ser leal, mas há duas questões fundamentais. A primeira é que Deus é amor. A outra tentativa de definir Deus surge no Evangelho segundo São João: no princípio era o logos, a razão, e Deus é razão. Para mim, se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica. E se a fé não deriva da razão, à maneira das ciências matemáticas, para ser humana, não a pode contradizer.

O livro é um alerta para situações com as quais não concorda?
Exatamente. Há uma crítica para dentro da Igreja, seguindo alertas que vêm do Papa Francisco. Porque este Papa é cristão no sentido mais radical, não é apenas batizado, ele segue Jesus. E quando olhamos para a Igreja, nem sempre vemos um verdadeiro discipulado de Jesus. Assistimos a uma hierarquia que frequentemente vive na ostentação, que não se bate pelos direitos humanos, que têm de ser praticados dentro da Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, a primavera da Igreja, veio o inverno, que teve uma expressão dramática na condenação de teólogos.

Francisco trouxe uma nova primavera?
As pessoas gostam dele, ele faz o que Jesus fazia, é amor.

Mas basta? Jesus provocou ruturas. E o Papa Francisco?
Jesus opôs-se à religião estabelecida, foi crucificado por ter sido condenado, em primeiro lugar, pela religião oficial. Foi condenado como blasfemo e subversivo. E o Papa Francisco, se não tivesse operado ruturas, não tinha tanta oposição de alguns cardeais.

A oposição existe em Portugal?
O que mais noto aqui é que o Papa Francisco não está vivo e operante, em primeiro lugar, na hierarquia católica. Diria até que há mais simpatia para com ele fora da Igreja.

No livro diz que a Igreja portuguesa parece paralisada. O que Francisco pode provocar em Fátima?
Fátima é um caso muito especial de religiosidade. A Igreja oficial tenta enquadrar Fátima, mas as pessoas vão lá com uma devoção particular.

A mãe de Jesus surgiu em Fátima?
Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?

Que boa notícia seria essa?
Já não se veem pessoas a arrastarem-se e a sangrarem.

Não foram os portugueses que se modernizaram?
Sim, felizmente.

Porque é que o Papa vem a Fátima?
Em primeiro lugar, porque é profundamente devoto de Maria. Sabe porque há tanta devoção a Maria na Igreja? Porque a presença feminina é muito reduzida. As mulheres têm de gostar de Jesus — mesmo que se deem mal com a Igreja oficial e têm razões para isso — porque ele teve mulheres como discípulas e foi uma figura central da emancipação feminina, embora a Igreja seja completamente masculina — Pai, Filho e Espírito Santo — e uma menina faça a socialização religiosa sempre no masculino.

O que dirá o Papa em Fátima?
Estou convicto de que fará um discurso de dimensão mundial, um grande apelo à paz. Deverá apelar ao diálogo inter-religioso e a que católicos pratiquem o Evangelho.

Ficará triste com o comércio?
Qualquer pessoa fica. São, outra vez, os vendilhões do templo, o pior da religião.

Voltando às mulheres e às ruturas: até onde o Papa poderá ir?
O Papa criou um grupo para estudar a possibilidade de as mulheres serem diaconisas, o que causou um grande abalo. Ele herdou uma Igreja profundamente hierarquizada e tem de pisar o terreno com cuidado, o que tem feito com coragem. É jesuíta e sabe o que significa o poder e a eficácia. Não pode causar um cisma.

O que será mais fácil: ordenar mulheres ou homens casados?
Homens casados porque a Igreja é misógina! É a última instituição, verdadeiramente global, que é machista. É também a última monarquia absoluta. Acredito que ainda veremos o Papa Francisco ordenar homens casados, mas também terá de resolver o problema da participação dos leigos e o problema das mulheres. O celibato é uma questão de bom senso, temos de ser pragmáticos. Não há padres suficientes e há leigos, casados, que, ordenados, exerceriam um excelente papel como coordenadores das comunidades cristãs. No primeiro milénio da Igreja não havia celibato. Aquilo que hoje constitui escândalo não o é, se olharmos a origem.

Qual é a sexualidade dos padres? Podem ser homossexuais?
A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade e, por isso, sou partidário do fim ao celibato obrigatório. À frente das comunidades é possível ter leigos, que podem ficar durante um período limitado. Não se percebe porque um bispo, mesmo que incompetente, fique para sempre. Alguns vão sempre optar pelo celibato, serão os coordenadores dos coordenadores. Mas serão muito poucos. É preciso acabar com as vidas duplas.

E a sexualidade dos padres?
Está estudado, se há na população cerca de 8% de homossexuais, na Igreja deverá ser um pouco mais porque muitos entraram no contexto de repressão da sexualidade, para tentarem resolver um problema, mas não vejo razão para serem excluídos. E se assumiram o compromisso da castidade, devem segui-lo como os outros.

O Papa Francisco trouxe mais transparência?
Já não é possível esconder a realidade e o Papa chama as coisas pelos nomes. O Evangelho diz que a verdade libertar-nos-á.

Já foi chamado à atenção pela hierarquia por defender estas posições?
Já tive problemas, hoje não.

Desistiram de si?
Não gostavam do que eu dizia, mas eu também não gosto do que dizem.

Poderia ter tido uma carreira diferente? Não foi bispo.
Nunca quis, aliás, se quisesse, não podia ser livre, e esse é o problema a que o Papa tanto se opõe, o carreirismo. O único pecado que tenho é o de não ser suficientemente cristão, talvez não dê suficiente atenção às pessoas. O resto, pensar de maneira diferente? Ainda bem. Na Igreja tem de haver liberdade de pensar e interpretar.

O que sentiria se uma mulher lhe desse a eucaristia?
Comunguei das mãos de uma pastora anglicana em Londres. Não me causou inquietação.

Já deu a eucaristia a divorciados?
Mais do que isso. Um homem, uma figura pública que eu não conhecia, convidou-me para jantar e disse que iria casar-se no dia seguinte e queria que eu lhe abençoasse as alianças, porque não podia casar pela Igreja. Fui ao casamento, estive lá com eles.

Qual foi a primeira vez em que foi ao Vaticano?Em 1967, havia ainda a ebulição do Vaticano II. Sou filho desta primavera.

O que sentiu?Era muito jovem e senti um grande esplendor, mas também achei excessivo. Mas o que na Igreja sempre me preocupou mais foi a falta de liberdade para pensar."