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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A Beleza fala de Deus

Sam Taylor-Wood
Assim fala a Arte

Publico este texto com uma secreta esperança que a Igreja volte a ter confiança na Arte como uma forma possível e livre de falar de Deus

"Ao longo dos tempos, a Igreja teve uma preocupação especial pela beleza, arte, arquitetura e liturgia, por serem formas muito poderosas de acompanhar pessoas no seu caminho de fé. O próprio conceito de fé é de que vai para além da realidade visível e concreta do dia a dia. O ser humano foi criado com vontade, intelecto e alma, ensina S. Tomás. Todas precisam de ser tratadas se queremos ajudar as pessoas a avançar na sua compreensão de Deus. Neste contexto, a palavra "compreensão" vai para além do puramente intelectual, envolvendo também o nosso lado mais emotivo. Só as palavras, ou só a lógica intelectual, ou só experiências emocionantes não são suficientes para colher algo do próprio ser de Deus. Por um lado, Deus não pode ser plenamente explicado e descrito através do nosso intelecto ou raciocínio intelectual. Ele permanece sempre um mistério inefável para nós, porque Deus é sempre maior, como Santo Anselmo nos recordou. Por outro lado, há modalidades através das quais nos podemos aproximar do coração desse mistério. Ao fazê-lo, avançamos no nosso caminho de fé em direção a Deus.

A beleza, arte, arquitetura e liturgia não são apenas poesia para os iletrados. São meios poderosos em que a presença e essência de Deus se exprimem e experienciam, ainda que Ele seja basicamente o ser inefável que é. Neste sentido, também há "ferramentas" poderosas para os responsáveis pelo acompanhamento de pessoas. Isto inclui os jovens de hoje, porque apesar de o número de visitas a museus e teatros poder estar em declínio, a beleza, arte, arquitetura e até a liturgia falam uma linguagem poderosa que pode ser compreendida sem muita explicação anterior. Estas "ferramentas" existem para serem experienciadas, e assim ajudam a pessoa a avançar no seu caminho para Deus. Isto corresponde-se com um importante elemento do acompanhamento, em que a pessoa que acompanha deve retirar-se de tempos a tempos e «deixar que o Criador lide diretamente com a criatura», como dizia Santo Inácio de Loyola. Obviamente isto não significa que quem acompanha só deve ir atrás e responder ao que é experienciado. Há ocasiões onde é precisa uma liderança clara. Acompanhamento quer igualmente dizer orientação espiritual no sentido de ajudar a ver mais além, caminhar à frente onde necessário. Quando aos jovens são dados apenas alguns elementos fundamentais para melhor lerem e compreenderem a beleza, a arte, a arquitetura e a liturgia, podem apreciar melhor a sua mensagem mais profunda, deixando essas "ferramentas" ajudarem-nos a aproximarem-se do mistério de Deus.

A liturgia tem uma função de ponte entre o ser humano e Deus. Ainda que a forma da liturgia seja feita pelo homem, a sua essência vem diretamente de Deus. Por exemplo, a maneira como celebramos a Eucaristia é o produto de um desenvolvimento ao longo dos tempos, mas a essência do que Jesus disse aos discípulos para fazerem em sua memória nunca mudou. A liturgia é um momento precioso onde Céu e Terra estão muito perto, como poderosamente se expressa no canto do Santo. A liturgia fala a todos os sentidos humanos: por exemplo, a escuta de palavras e música, o cheiro do incenso e do óleo perfumado, a visão da beleza e dos símbolos, o tocar e o beijar da cruz ou das relíquias, o gosto do pão e do vinho. A liturgia dirige-se a todo o ser humano, tal como fomos criados por Deus. Ele sabe melhor que nós o que precisamos e o que é importante nas nossas vidas. Na liturgia, arte e arquitetura desempenham o seu papel mais elevado: as ideias que transpiram são canalizadas para uma só mensagem, o amor de Deus por cada ser humano e o seu desejo de que todos respondam positivamente ao seu convite.

No desenho para a basílica da Sagrada Família [Barcelona], o arquiteto espanhol Antoni Gaudí pretendeu criar uma construção que honrasse Deus em cada detalhe, e ao mesmo tempo expressasse a grandeza do seu plano amoroso de salvação para todos os que a visitassem. Ao fazê-lo, Gaudí criou uma monumental estrutura de evangelização. Sendo ele próprio um devoto cristão, desejou que outros encontrassem o amor de Deus e quis que o seu trabalho contribuísse para tal. Por isso, ainda hoje, o turista que olhe para uma das torres da basílica inadvertidamente louva Deus quando lê "Sanctus, Sanctus". O visitante que leve tempo a contemplar uma das fachadas reconhecerá que a história que narra vai para além do seu ou da sua experiência na Terra. E quem entrar na nave será atingido pela luz, pelas formas orgânicas, a grandeza e a naturalidade com que o olhar é dirigido para o espaço central da igreja, o altar onde a liturgia é celebrada.

A modalidade mais forte em que beleza, arte e arquitetura se juntam nesta obra-prima de Gaudí é aquando da participação numa das grandes liturgias celebradas na basílica. Nesse momento tudo se reúne: enquanto cada um dos sentidos está a ser abordado e ajuda a reconhecer a presença de Deus, a arquitetura como um todo aponta apenas para uma direção, a do amor do próprio Deus. Neste sentido, a basílica da Sagrada Família é um grande exemplo de como beleza, arte, arquitetura e liturgia podem ser hoje poderosos aliados no acompanhamento de jovens no seu caminho com Deus."

Fr. Michel Remery In "Simpósio sobre acompanhamento de jovens (Conselho das Conferências Episcopais da Europa)"
Traduzido por SNPC e publicado em 31 de março de 2017

Os números do Amor na Bíblia

Pavel Popov, "Judas betrays Christ with a kiss"
Equações de Amor

"É sabido o quanto é relevante para as Escrituras a simbologia numérica; pense-se que só o Apocalipse encastoa nas suas páginas 283 números cardinais, ordinais e fracionais. Também nós, de forma livre, na onda da tradição judaica e cristã, desejamos identificar alguns números significativos do amor. Trata-se, na verdade, de curiosas equações que se remetem mutuamente. Apontaremos quatro que se combinam idealmente em par.

Primeira equação: de 7 a 77. Encontramo-nos no polo antitético do espetro ideal do amor: trata-se, com efeito, dos números do ódio, exaltados com veemência por Lamec no seu terrível canto da violência em espiral, da espada sempre ensanguentada: «Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado 7 vezes, Lamec sê-lo-á 70x7» (Génesis 4, 23-24).

Estamos perante a vingança sem limites e sem a paridade ofensa-pena que, como veremos, introduzirá a lei de Talião. É a fratura de todo o equilíbrio social. Ao juízo pleno e severo sobre o delito de Caim (sete vezes) opõe-se - novamente através do recurso ao número da plenitude, mas de forma exasperada - o excesso vindicativo (77 vezes).

Segunda equação: de 7 a 70x7. Movemo-nos agora para o extremo oposto do espetro, o positivo do amor total, incarnado no perdão cristão. Diante de Pedro que propõe para o perdão o 7 da plenitude («Quantas vezes devo perdoar o meu irmão se pecar contra mim? Até 7 vezes?»), Jesus replica introduzindo um número que tente para o infinito, sempre na linha do setenário: «Não te digo até 7, mas até 70x7» (Mateus 18, 21-22). É evidente a referência, ainda que por contraste, à equação de Lamec: no amor, às 7 vezes de Pedro opõe-se as 70x7 vezes de Cristo, ilustradas depois pela parábola dos dois devedores, onde outra equação numérica ilustra a formulada no princípio geral: aos 100 denários confrontam-se os 10.000 talentos (Mateus 18, 23-35).

Terceira equação: de 1 a 1. Esta não é explícita mas subjacente à chamada lei de Talião, vocábulo modelado pelo latim "talis": tal a culpa, tal a pena. Lê-se, com efeito, no livro do Êxodo: «Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão» (21, 23-25). A dureza da formulação exemplificativa pode encobrir o evidente progresso que se regista relativamente à equação de Lamec. Na realidade agora temos a codificação da justiça distributiva e é um passo relevante para uma melhor normativa jurídica.

Positivamente poder-se-ia transcrever esta lei pensado precisamente no preceito de amar o próximo como a si mesmo (de 1 a 1 também neste caso). Ou na chamada "regra de ouro" presente no livro de Tobite: «Aquilo que não queres para ti, não o faças aos outros» (4, 15). No Talmude, este preceito aparece nesta frase apaixonada: «Não fazer ao próximo teu aquilo que te é odioso: esta é toda a Lei, o resto é só explicação». Jesus transformá-la-á em chave explicitamente positiva: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas» (Mateus 7, 12).

Quarta equação: de 3/4 a 1000. É o superamento da equação de Talião, cujo valor de justiça permanece mas é excedida pela lógica superior do amor. É o que é aplicado ao agir de Deus seja no Decálogo (Êxodo 20, 5-6), seja na autorrevelação do Sinai, «o bilhete de identidade bíblico de Deus», como definiu Albert Gelin (Êxodo 34, 6-7). Citamos integralmente apenas a fórmula decalógica mais esquemática: «Eu, o Senhor, sou o teu Deus, um Deus cioso que pune a culpa dos pais nos filhos até à 3.ª e 4.ª geração para aqueles que me odeiam, mas que demonstra o seu amor fiel até às 1000 gerações para aqueles que me amam e observam os meus mandamentos». Noutro passo o amor misericordioso divino é ainda mais marcado: «O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e gracioso, lento para a ira e rico de amor e fidelidade, que conserva o seu amor por 1000 gerações e perdoa a culpa, a rebelião e o pecado».

Através da linguagem "geracional" (destinada a sublinhar o aspeto social e não exclusivamente pessoal do pecado) exalta-se, por um lado, a justiça, que deve ter o seu rigor e a sua plenitude, expressa através do 3 e do 4, números que no cálculo simbólico devem ser somados para atingir o 7. Mas, por outro lado, a impor-se em toda a sua grandeza está, em hebraico, o "hesed", ou seja, o amor generoso e fiel que não conhece fronteiras e é infinito, porque tal é o valor do número 1000.

Do número frio e implacável do ódio chegámos, assim, ao cume caloroso e jubiloso do amor que não conhece números mas tende para o infinito como o Deus que é amor (cf. 1 João 4, 8.16). A quem seguir esta equação repleta de amor poderá ser reservada a bem-aventurança de Ben Sira: «Felizes aqueles que adormeceram no amor» (48, 11)."

Card. Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura In "Avvenire"
Traduzido por SNPC

domingo, 26 de novembro de 2017

Em 1994 era assim

A primeira campanha publicitária a incluir um casal gay

Marketing pela Igualdade


Anúncios Inclusivos

Há campanhas publicitárias que marcam uma geração, outras que são revolucionárias, provocadoras e/ou progressistas. O grupo IKEA surgiu em 1943, e não veio apenas revolucionar o mundo da decoração e do mobiliário mas também o da publicidade.

Em 1994 foi esta multinacional que, pela primeira vez, utilizou um casal gay como protagonista numa publicidade. (o vídeo pode ser visto AQUI). O anúncio fazia parte de uma campanha onde  se procurou espelhar a diversidade da sociedade (um casal homossexual que pretende adoptar, uma mãe divorciada, um casal junto há pouco tempo e também pessoas solteiras).

Em 2011, com a abertura de uma nova loja em Itália, um cartaz surge com dois homens de mãos dadas segurando um saco de compras IKEA e com a frase "Estamos abertos a todas as famílias". O anúncio foi mal recebido, tanto por alguma opinião pública (a loja situa-se na conservadora Sicília), como por alguns meios de comunicação social menos isentos. (ler mais AQUI)

Em 2016, o catálogo do IKEA, voltou a integrar a fotografia de um casal homossexual inter-racial, na intimidade da sua casa. Uma vez mais os responsáveis pelo marketing do grupo apostam na inclusão e na diversidade como imagem de marca.


Ler mais:
Artigo em espanhol que fala sobre as sete campanhas do IKEA que fizeram história.

Homossexualidade e parentalidade


E esta, hem?

A 13 de novembro deste ano, no programa "E se fosse consigo" da SIC notícias, o tema abordado foi a homossexualidade e parentalidade. Aconselho a visualização do mesmo, pela actualidade e pela relevância do assunto. O programa aborda temas como preconceito, discriminação e aceitação e explora também a reacção das pessoas perante essa mesma discriminação que, por vezes, chega a impressionar.

Ver este programa deixou-me esperançoso e orgulhoso com o país onde vivo.

Ver AQUI

Cachecóis para sem-abrigo


Gestos que inspiram

"Um cachecol não cobre o corpo todo, mas decerto aquece o pescoço e talvez também o coração. E assim as crianças de uma escola de Turim decidiram prender os seus cachecóis às árvores de uma das praças centrais da cidade, deixando-os à disposição dos numerosos sem-abrigo, obrigados a enfrentar nas ruas as geladas noites de Inverno.

Num mundo que anda à pressa, havia o risco de que o seu genuíno gesto de solidariedade não fosse compreendido e até visto como uma nova forma de decoração natalícia ou uma original instalação artística. Por isso, junto aos ramos de que pendem cachecóis de todos os aspetos, cores e fantasias, colocaram cartões em forma de coração que se dirigem diretamente a quem passa necessidade: «Tens frio? Leva-me. Eu aqueço-te». Uma mensagem simples mas profunda, educativa para as crianças e edificante para os adultos.

A ideia de prender os cachecóis para os colocar à disposição dos sem-abrigo chegou dos EUA, onde, em alguns locais, se tornou quase um hábito, ao início do inverno. Em Itália foi há algumas semanas experimentada em Bolonha, por parte de uma associação da cidade. Em Turim foram as crianças a pô-la em prática: os cachecóis dados pelas classes tornaram-se em poucos dias mais de 150. E já se acrescentaram alguns gorros."

Danilo Poggio In "Avvenire"
publicado em 25 de novembro de 2017 e traduzido por SNPC


Em Portugal esta ideia já foi posta em prática no ano passado pelos estudantes do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Esta e outras iniciativas estão divulgadas no site do Instituto (ver aqui)