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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sábado, 23 de junho de 2018

Petição ao Papa Francisco para mudar a linguagem LGBTQI da Igreja

Partilho uma petição enviada pela GNRC (Rede Global de Católicos Arco-Íris) e criada pela "Nós somos Igreja" da Irlanda. Passo a divulgar o comunicado de imprensa:

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PRESS RELEASE 7 June 2018
PETITION TO POPE FRANCIS:
CHANGE CHURCH LGBTQI LANGUAGE

Today, Thursday 7th June We Are Church Ireland is launching a petition calling on Pope Francis to change Vatican theological language that is gravely insulting to LGBTQI people.

Words like 'objectively disordered ' and ' intrinsically evil' to describe any human being is wrong but for an institution like the Catholic Church to teach that these words are an expression of the mind of God to describe her image in LGBTQI persons is not alone scandalous but blasphemous.

The petition is being launched by Ursula Halligan of WAC Ireland, Senator David Norris and Pádraig Ó Tuama of the Corrymeela Community.

Find the petition on Change.org at:

https://www.change.org/p/info-dublindiocese-ie-pope-francis-change-church-lgbtqi-language?recruiter=16658031&utm_source=share_petition&utm_medium=copylink&utm_campaign=share_petition

'We Are Church Ireland encourages every Catholic who continues to be enraged by this Vatican Un-Christian language to sign the petition demanding the withdrawal of this offensive language to describe our LGBTQI sisters and brothers' stated Brendan Butler.

Brendan Butler, We are Church spokesperson.

Ir directamente para a PETIÇÃO

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Entrevista ao provincial dos jesuítas em Portugal

José Frazão Correia fala da Igreja, do Papa, dos Jesuítas...

Em entrevista, o líder dos jesuítas em Portugal, José Frazão Correia, lembra os tempos de seminário e fala da Igreja atual. Diz que a novidade do Papa Francisco não é apenas a cor dos sapatos.

Desde os tempos de infância que passou numa pequena aldeia rural a dez quilómetros do Santuário de Fátima, José Frazão Correia sabia que um dia ainda haveria de ser padre. Só não sabia bem como e onde. Por isso, acabou por seguir a tradição dos rapazes da sua aldeia e aos 12 anos mudou-se para Fátima, para o seminário da congregação dos Missionários da Consolata. Estudou naquela congregação até aos 24 anos, mas a falta de certezas levou-o a deixar a Consolata e a procurar outro lugar dentro da Igreja — a única coisa que sabia era que queria ser padre.

Acabou por descobrir os Jesuítas nuns exercícios espirituais em Coimbra para superar a inquietação e fez-se luz. Entrou na Companhia de Jesus, completou duas licenciaturas, um mestrado e um doutoramento e tornou-se professor de Teologia. Em 2014, com 43 anos, apenas dois anos depois de ter iniciado a sua carreira docente na Universidade Católica em Braga e no Porto, recebeu de Roma a notícia de que havia sido nomeado para padre provincial da Província Portuguesa da Companhia de Jesus.

A meio da Semana Santa, o líder dos jesuítas portugueses — voz influente, mas discreta, da Igreja Católica em Portugal — recebeu o Observador na Cúria Provincial, em Lisboa, para falar sobre o seu percurso de vida e de fé, os quatro anos à frente da província, o Papa Francisco e o momento atual da Igreja Católica. José Frazão Correia admite que ter ido para o seminário aos 12 anos o privou de muitas das vivências da infância e adolescência, conta como testemunhou em Roma a luta anti-máfia dos procuradores Falcone e Borsellino e comenta a polémica em torno dos divorciados, sublinhando que não se pode tentar simplificar o que é complexo.

O líder jesuíta garante que vai buscar inspiração ao Papa Francisco, outro jesuíta, e gaba-lhe a energia. Mas não lhe atraem só os pormenores. “Se a novidade do Papa fosse simplesmente ter sapatos pretos em vez de sapatos vermelhos, penso que seria uma coisa quase ridícula. Até viver numa casa em vez de outra casa é uma coisa significativa, mas confesso que acho pouco relevante”, afirma mesmo o padre português, que prefere destacar a “coerência de um estilo de vida” que o Papa mantém, numa altura em que o Cristianismo já não é a norma para a sociedade europeia.

Nasceu em Alqueidão da Serra, ao lado do Santuário de Fátima. A proximidade com Fátima foi decisiva para a sua relação com a fé?Não atribuo nenhuma relação direta. É verdade que desde criança, até pela grande proximidade física, íamos muito a Fátima. Conhecia muitas pessoas, alguns idosos, que tinham uma relação muito próxima, porque foram quase protagonistas, ou pelo menos pessoas que acompanharam o período das aparições, e que depois regularmente iam a Fátima a pé. Lembro-me de um senhor de uma aldeia da minha freguesia… Associava à proximidade, até do modo de vida, mas não posso dizer que haja uma relação assim direta pelo facto de estar tão próximo.

Esse senhor contava-lhe histórias de como foi esse tempo?
Esse senhor era muito curioso, porque tinha um barrete exatamente como o do Francisco. Ele viveu muitos anos, era de uma localidade próxima à minha aldeia e vinha sempre à missa ao domingo, e causava curiosidade pelo barrete que tinha. Sobretudo, conversava com a filha dele, uma senhora que também morreu há relativamente pouco tempo, e era mais ela que, já mais tarde, me contava as histórias desse senhor.

E que histórias eram?
Ele teria estado no famoso milagre do Sol e portanto a partir daí ele ia todos os meses a pé a Fátima. Atravessava a serra e portanto criou uma relação de grande proximidade a Nossa Senhora. Era alguém muito marcado por toda a envolvência das aparições de Fátima.

A sua família era católica?
Sim. Nós somos sete, a minha mãe já faleceu. É uma família tradicionalmente católica, que leva uma vida cristã séria. De facto, não era simplesmente uma formalidade ou uma pertença sociológica. Havia nos meus pais uma grande implicação com a fé, uma apropriação pessoal da fé, e um envolvimento com a vida da Igreja, através da Ação Católica sobretudo, que teve um peso muito significativo na formação dos meus pais e de pessoas da idade deles, e também das Conferências de São Vicente de Paulo. Por isso, nascemos com a prática de ir à missa aos domingos, às vezes à semana, de rezar o terço à noite, ao domingo ir à adoração do Santíssimo Sacramento à tarde. Além disso, penso que foi também uma formação espontânea, de coerência evangélica. Esse é o meu contexto de infância e de adolescência, marcado por uma identidade cristã muito forte, vivida dentro da família, mas depois com todas as práticas associadas a uma aldeia tradicional católica.

O que é que fazia durante a infância na aldeia?
A minha infância era muito marcada pela escola e pela ajuda aos meus pais nos trabalhos agrícolas. O meu pai era funcionário da Câmara de Porto de Mós e a minha mãe era doméstica, e eram muitos filhos. Lembro-me do ritmo da escola, a partir dos seis anos, e da ajuda nos trabalhos agrícolas, sobretudo ao sábado e às vezes à tarde durante o verão.

Onde estudou?
A primária e o ciclo preparatório fiz na minha aldeia. Depois, para o sétimo ano, fui para Fátima, para o seminário dos Missionários da Consolata, onde fiz um período de formação muito longo, até aos 24 anos. Estive 12 anos na minha aldeia e depois mais 12 anos num período de formação nos Missionários da Consolata. Deixei a minha aldeia aos 12 anos.

Quando foi para o seminário dos Missionários da Consolata já ia com a vocação para ser padre?
Dito assim, não posso dizer que seja. Mas é verdade que, desde muito pequenino, com cinco ou seis anos, já sentia um apelo muito forte a alguma coisa do género. É verdade que isso não foi suficiente para a opção adulta, para um estilo de vida, mas é verdade que esses sentimentos, essas intuições, essa memória da oração na minha infância, tiveram sempre um peso muito grande no meu percurso vocacional. Desde muito cedo havia algo muito sério que, de alguma maneira, me orientava para este caminho.

Via-se a ser padre, quando ia à missa ao domingo?
Havia um desejo de ser padre, sim. Às vezes punha-me a pensar: todos os padres têm óculos e eu também tenho óculos, todos os padres são carecas e eu agora também sou, na altura não o era (risos). Acho que, desde muito cedo, sentia algum desejo de ir por este caminho. Sentia a consciência da presença de Deus na minha vida. Enfim, como uma criança pode ter, obviamente. Mas era muito forte, e por isso lembro-me de um sentimento de intimidade com Deus do qual hoje até tenho um bocadinho de saudades, porque parece que nessa altura era mais forte e mais intensa do que hoje, afetivamente mais intensa. É evidente que isso são experiências de criança, mas sempre foram muito fortes para mim, sobretudo depois em tempos mais difíceis, menos claros, a nível espiritual.

Teve crises de fé?
Não posso dizer que tive assim crises de fé, de abandono, de duvidar ou não duvidar. Mas o percurso da fé, como o percurso da vida, tem altos e baixos. Há momentos onde tudo faz muito mais sentido e há momentos onde parece que as coisas parece que fazem muito menos sentido. Diria mais momentos de vazio espiritual, não propriamente de crises de fé.

Dizia que foi para o seminário com 12 anos ainda sem a vocação completamente definida. Quando se decidiu então a ser padre?
Foi um caminho em crescendo, com um misto de experiências afetivas, espirituais, relacionais. Por um lado, objetivamente, é um menino, um rapazinho de 12 anos, que sai porque quer, não foram os pais que impuseram. Foi por um conjunto de circunstâncias, mas de facto foi vontade. De alguma maneira, percebi que era um caminho natural, era por ali que tinha de ir. Por outro lado, a experiência foi marcada também por tudo o que está associado a estar fora de casa muito tempo, num seminário grande, e na altura os grupos eram muito grandes. Portanto, o que sentia era que estava a fazer o caminho que tinha de fazer, e nesse sentido estava contente, mas por outro lado tinha a perceção da distância de casa, dos amigos de infância, dos colegas da escola, e também de que aquele caminho vocacional que estava a fazer me deixava, de alguma maneira, desconfortável. Era por ali que eu queria ir, mas sentia que não era exatamente por ali, o que fez com que, já depois de um grande percurso, aos 24 anos, decidisse deixar os Missionários da Consolata. O que não significou abandonar a questão vocacional por este lado — ser religioso e ser padre –, mas havia um desconforto de fundo que me fazia não me identificar plenamente com o lugar onde estava.

Que sinais de desconforto eram esses?
Se há imagem que me vem à cabeça é a de estar a colocar uma camisa. Sabemos que temos de vestir a camisa, mas é uma camisa apertada. Isto não significa nenhuma avaliação negativa do sítio onde estava, neste caso os Missionários da Consolata. Pelo contrário, sinto muita gratidão por todo esse percurso. Mas sentia que a camisa estava apertada.

Se tivesse ficado nos Missionários da Consolata, qual teria sido o percurso natural a partir dali?
Seria ser ordenado, fazer os votos perpétuos, e seguir a vida como religioso nesse instituto.

Portanto, logo de início preferiu a vida religiosa, não quis ser um padre diocesano, ter uma paróquia.
Não sei se foi uma opção consciente, foi por um conjunto de circunstâncias. Havia um grupo de rapazes da minha terra que costumavam ir para os Missionários da Consolata em Fátima e, concretamente, quando eu estava no sexto ano, vieram uns missionários fazer promoção vocacional à escola. Isso entusiasmou-nos, e as coisas aconteceram assim. Mas é verdade que a questão do seminário, propriamente, nunca me despertou uma curiosidade tão forte.

Não ficava com pena de não poder ter uma namorada, por exemplo?
Acho que a verbalização, ou a consciência, de todas estas questões veio mais tarde. Na altura vivia as coisas com normalidade, talvez até com um certo sentido de dever, que se calhar que tenho desde muito cedo — talvez por educação familiar do lado da mãe. Portanto, sentia que tinha de estar onde devia estar. Mas a elaboração do que foi, do que não foi, das coisas boas e das coisas menos boas, já foi mais tarde e não propriamente enquanto vivia as coisas. Diria que hoje não aconselharia… Não creio que foi inibidor de coisas essenciais, mas hoje compreendo que uma criança sair do ambiente familiar, do seu contexto social de amizades, para ir para um sítio já tão marcado, tem aspetos positivos e tem aspetos negativos. Do ponto de vista afetivo, da maturação a todos os níveis, ter estado no seminário foi uma coisa muito boa, mas também teve limites. Essa elaboração veio mais tarde. Isso não significa que foi bom ou foi mau. Como todas as coisas, tem luz e tem sombras. Hoje, consigo mais claramente identificar as luzes e também as sombras.

E quais eram as sombras?
Penso que tem a ver com o facto de sair muito cedo do ambiente familiar, do ambiente de relações entre rapazes e raparigas para ir para um seminário só com rapazes, com um estilo de vida bastante austero. A sombra diria que foi essa maturação menos normal, porque fui retirado de um ambiente normal da vida de qualquer criança ou de adolescente.

Essas relações de que fala fazem parte da educação e ficou sem elas, é isso?
Sim, fazem parte. É evidente que depois, no seminário, estabelece-se um tipo de relações de grande proximidade e de grande companheirismo, que são elas mesmas muito fecundas e muito boas. Agora, se tivesse de optar — com os critérios de hoje, que são diferentes dos dos anos 80 –, diria que, até uma idade mais tardia, favorece mais um tipo de relações normais num ambiente familiar do que num ambiente separado como o de um seminário. Hoje avalio as coisas assim.

O que o levou depois aos Jesuítas?
Bem, eu estive nos Missionários da Consolata, o que fez com que eu fizesse o noviciado e ainda o primeiro ciclo de Teologia fora de Portugal. Portanto, eu deixei a Consolata já no final do primeiro ciclo de Teologia.

Ainda fez parte do percurso lá, então.
Sim. Primeiro o seminário menor, depois o início da Teologia, em Lisboa. Depois fui para Itália, onde fiz o noviciado e mais três anos. O que me fez sair foi sentir que era por aqui o caminho, mas não era, digamos assim, naquele caminho. Mas eu não sabia qual seria. Foi um tempo de grande provação interior, porque eu sentia que era por ali, mas não exatamente daquela maneira.

O que é que nos Missionários da Consolata lhe dizia que não era por ali? Falou da imagem da camisa apertada, mas em que se traduzia isso?
Não sei traduzir em concreto. Mas o que havia era uma coerência com as dúvidas interiores, que já estavam a ser forçadas para além do razoável. Quase uma espécie de inautenticidade. Pensava: “Se vou por aqui, não estou a ir bem.”

Era artificial?
Não artificial, mas talvez não suficientemente autêntico para comprometer toda a vida. Tive a necessidade de fazer um tempo de pausa. Decidi voltar a Portugal, sem saber muito bem para fazer o quê, e sem saber muito bem como é que iria, para usar a expressão, descalçar esta bota. Não havia a perceção de ter de mudar radicalmente de vida, de dizer: “Não é por aqui que eu quero ir.” Mas também não sabia muito bem o quê. Então, a Companhia de Jesus nasce aqui num tempo de grande obscuridade interior e de inquietação por não saber por onde deveria ir. De repente, umas irmãs em Leiria falaram-me que em Coimbra havia exercícios espirituais dados por Jesuítas e que me faria bem fazer uns exercícios espirituais. Foi aí. Fiz três dias em Coimbra e isso para mim foi como uma iluminação interior. Como se as perguntas que eu já andava a fazer há tanto tempo, para as quais não tinha respostas, se tivessem iluminado. Aí nasceu um percurso de aprofundamento da vocação e da possibilidade de entrar na Companhia. Curiosamente, todas as dúvidas e inquietações que eu tinha anteriormente foi como se tivessem dissipado. Nunca mais voltaram.

O que viu nos Jesuítas em concreto que o fizesse querer seguir esse caminho?
Não sei se foi nos Jesuítas em concreto. Foi na experiência dos exercícios espirituais, que foi uma experiência muito intensa, autêntica, de encontro com o Senhor. Ao mesmo tempo, tive a perceção de que a Companhia — e eu conhecia muito pouco da Companhia de Jesus — vinha ao encontro das expectativas que eu tinha, mas que ainda não tinha encontrado, porque ainda não tinha encontrado aquele caminho. Vinha ao encontro do desejo que eu tinha, mas ainda não tinha encontrado o seu objeto.

Mantinha a vontade de ser padre?
Sim, acho que essa foi a constante que se manteve sempre, mesmo nessa fase de crise vocacional.

Fez duas licenciaturas, um mestrado e um doutoramento, e depois continuou ligado à universidade como professor de Teologia em Braga. Gostava da vida académica?
Sou um rapaz… agora já sou um velho (risos), sou um homem esforçado, digamos assim. As respostas de sim ou não, gosta ou não gosta, se calhar temos de as matizar. No fundo, todo este percurso académico acabou por ser fruto de muitas circunstâncias, desde logo essa formação na Consolata que fez com que eu fizesse a licenciatura em Teologia, que na altura tinha ainda uma fase de Filosofia. Depois, a entrada na Companhia fez com que eu completasse a licenciatura em Filosofia, depois a de Teologia, e depois fizesse o mestrado e o doutoramento em Teologia. Há aqui algo de normal num percurso, mas há também um envolvimento pessoal, que por um lado veio de mim, e por outro lado foi-me pedido. Por exemplo, o doutoramento, já na Companhia. Eventualmente, eu por mim não o teria feito, porque já estava um bocadinho cansado do percurso académico e com vontade de fazer outras coisas.

Porque é que lhe pediram para estudar mais, então?
Pois, foi o provincial… Penso que a avaliação que ele fez daquilo que eu estava a fazer na Companhia, eventualmente de aptidões, de interesses, de perceções ou de feedbacks de outras pessoas, levaram-no a decidir. Depois da minha ordenação e de ter regressado de Paris, estive dois anos no centro académico de Braga, na pastoral universitária, e estava muito bem, e ele disse-me: “Bom, se calhar é melhor interromper aqui e ir para o doutoramento em Roma”. Aceitei com serenidade, mas ainda assim creio que por mim não teria dado esse passo. A minha relação à vida académica, à vida dos estudos, é algo de natural, mas esforçado. Por outro lado, nasceu mais de pedidos e de perceções externas do que de convicção própria. Se calhar, alguns outros achavam que eu tinha mais capacidades e possibilidades de ir por esse caminho, do que uma convicção própria, o que continua a ter algo de verdade. Parece que os outros acreditam mais no que eu posso dar neste campo do que eu próprio estou convencido (risos). Há sempre aqui um misto de naturalidade e também um bocadinho de drama, de custo.

Como foi esse tempo que estudou fora do país?
Foi muito bom. A minha primeira estadia em Itália, ainda no tempo da Consolata, teve um certo deslumbramento. Tudo em Itália me fascinava, ficava fascinado pela língua e pela cultura italiana, pela política, que eu seguia muito. Foram anos muito difíceis, da Cosa Nostra e da luta anti-máfia dos procuradores Falcone e Borsellino. Lembro-me perfeitamente de Roma quase em estado de sítio. Nessa altura, foi um tempo de grande adesão. O meu regresso a Roma já depois da Consolata já foi um tempo mais difícil, durante o tempo do doutoramento, até porque, pessoalmente, foi um tempo mais exigente do ponto de vista pessoal. Também era um ambiente mais intra-eclesial, menos de contacto com a cultura italiana, que era mais espontânea e mais extra-eclesial. Nesse sentido, a dimensão extra-eclesial era muito mais viva e muito mais entusiasmante do que aquela típica dos contextos eclesiais de Roma, que sentia mais pesada.

Quando voltou dos seus estudos, passou pela pastoral universitária, deu aulas na Faculdade de Teologia de Braga e coordenou um centro de formação para Jesuítas. Preferia a educação dos outros à sua vida académica?
A vida académica no sentido estrito — carreira académica universitária, ensino, investigação e escrita –, só por si, tem muito pouco interesse para mim. Posso dizer assim com toda a honestidade. Mas interessa-me a Teologia, e nesse sentido, onde me sinto de uma maneira mais espontânea é algures entre a academia — uma reflexão centrada no método académico e dentro das quatro paredes da universidade — e a vida eclesial comum — que também sinto que muitas vezes acaba por ser pobre e um bocadinho órfã de uma capacidade de se pensar. Portanto, o meu interesse pela Teologia é entre estes dois mundos, o da academia e o da vida eclesial quotidiana. Creio que as duas se podem ajudar mutuamente. A universidade precisa de se deixar tocar — e o Papa Francisco tem falado muito disto — pela vida eclesial quotidiana, mas também pela vida social e cultural, e ao mesmo tempo a vida eclesial quotidiana tem necessidade da inteligência das coisas que a universidade lhe pode dar. É um espaço que não é fácil de habitar, porque a universidade tem regras e muitas vezes a vida eclesial não quer muito saber de reflexões um bocadinho mais aprofundadas.

Em 2014 foi nomeado para padre provincial. Porque acha que foi escolhido?
Bem, isso tem de perguntar a quem fez o processo (risos).

Como foi esse processo? Foi consultado primeiro?
Há um conjunto de consultas internas, que seguem um conjunto de procedimentos. Ouvem-se os consultores, que são os conselheiros mais próximos do provincial. Depois há uma consulta mais alargada, e chega-se à identificação de três nomes. Esses três nomes são apresentados ao padre geral e ele nomeia um. Neste caso fui eu. O que esteve por trás, não conheço. Foi-me dito: “O padre geral escolheu-te”.

Quando era professor e estava na comunidade de Braga, imaginava vir a ser provincial?
Não pensava nisso, com toda a honestidade. Se formos ver a idade dos provinciais em Portugal, houve alguns na casa dos 40, mas habitualmente associamos a um tempo um bocadinho mais tardio. É verdade que eu estava a começar a vida na Universidade Católica em Braga e no Porto. Estive quatro semestres e interromper não seria, eventualmente, a coisa mais normal. Com toda a honestidade, não pensava que isso pudesse acontecer, concretamente naquele tempo.

E o que pensou quando soube que tinha sido nomeado?
Pensei que ia ter de terminar os exames, porque estava em fevereiro, ir para Lisboa e começar uma coisa radicalmente nova. Confesso que o facto de, na altura, ser consultor do provincial fazia com que conhecesse muitos temas, muitas decisões em curso, necessidades, de uma maneira mais interna. Se viesse sem nada seria muito difícil pegar num conjunto de dossiês dos quais nada sabia. O facto de ter tido essa experiência deu-me um conhecimento das coisas que me habilitou um bocadinho mais ao início deste trabalho. Mas tive a perceção de que acabava um percurso de dois anos sem saber muito bem quando é que podia pegar nele, e ia para uma coisa completamente diferente. Portanto, foi essa perceção de que deixava Braga e ia para Lisboa, deixava a universidade e a comunidade de formação e ia para um trabalho completamente diferente. Mudei de página.

Veio já com ideias?
O facto de ser consultor ajudava-me a ter uma compreensão de temas, problemas e necessidades. Mas não tinha propriamente um programa político, até porque não tive muito tempo para pensar nele. Foi-me comunicado em janeiro e em março já estava aqui a começar, e tive de acabar a correção de exames no Porto e em Braga. Não tive muito tempo para pensar. Depois fui pensando, obviamente, mas até janeiro não pensava no que é que podia ser.

Na altura tinha acabado de ser eleito o Papa Francisco, um jesuíta. Foi uma inspiração para a sua nova missão, até pelo facto de também ele ser jesuíta?
Senti a confirmação de muitas coisas. Pode parecer presunçoso, parece que eu já antecipei o Papa Francisco e é evidente que não. Mas é verdade que senti identificação com muitos elementos que faziam parte da minha reflexão teológica e mesmo do que tinha tentado escrever numa coisa ou outra. Mais do que uma inspiração direta para ser provincial, uma inspiração direta para ser jesuíta, porque ele é de facto um bom jesuíta, para ser um bom cristão e, sim, também para ser um líder, porque de alguma maneira há aqui uma liderança apostólica e espiritual. Sem dúvida que diariamente me sinto surpreendido pela força, pela autenticidade e pela fecundidade do Papa Francisco e nesse sentido sinto-me a milhas da sua energia, tendo quase metade da idade dele.

Os jesuítas fazem um voto de não aceitar dignidades eclesiásticas nem civis. Um Papa jesuíta não é uma contradição?
Creio que não é contradição, mas não é normal. Os professos na Companhia de Jesus fazem esses votos especiais de não receber dignidades eclesiásticas. Mas o Papa pode impor… Bom, um sacramento nunca se pode impor, ninguém pode ser ordenado bispo se não o quiser. Mas o Papa pode pedir a um jesuíta que, para um serviço maior, possa exercer essa missão na Igreja. Foi o que aconteceu com o Papa quando ele era arcebispo de Buenos Aires e como há outros no mundo inteiro. Agora, a primeira resposta diante de um possível apelo desse género é dizer: “Eu fiz um voto e não posso aceitar.”

Deve tê-lo dito aos cardeais, então.
Sim, mas de qualquer maneira ele já era bispo, e nesse sentido, sendo jesuíta, já não estava sob obediência do padre geral. Uma vez nomeado bispo, continua a ser o que era, um jesuíta, mas deixa de estar a atuar apostolicamente no corpo da Companhia de Jesus, por isso já não estava sob a jurisdição do padre geral.

Que novidade é que o Papa Francisco trouxe à Igreja?
Acho que há uma coerência. Se a novidade do Papa fosse simplesmente ter sapatos pretos em vez de sapatos vermelhos, penso que seria uma coisa quase ridícula. Até viver numa casa em vez de outra casa é uma coisa significativa, mas confesso que acho pouco relevante. Acho que a novidade do Papa Francisco é um estilo diferente de compreender a própria missão, desde logo como Papa, como bispo de Roma — é interessante que ele ponha a ordem das coisas: ele é Papa porque é bispo de Roma –, e um outro modo, uma outra prática de compreender o lugar do Cristianismo, compreender um estilo cristão de ser num tempo que não se revê imediatamente, nem no modo de pensar, nem de viver, nem de sentir do Cristianismo. A grande novidade do Papa Francisco é procurar um Cristianismo que faça sentido e que seja fecundo num tempo onde a proposta cristã não decorre de si. Em tudo o resto, desde os aspetos mais anedóticos da sua indumentária até opções de fundo no campo pastoral, como a Amoris Laetitia, acho que há aqui uma grande coerência de um estilo de vida que vai para além de uma compreensão simplesmente nocional, como diria o cardeal Newman, ou teórica das coisas.

Desde a eleição do Papa Francisco parece haver na Igreja Católica uma divisão entre os mais progressistas e os conservadores que criticam o Papa, se é que podemos usar estes rótulos. A dimensão progressista do Papa tem alguma coisa a ver com ser jesuíta?
Muito da sua maneira de ser é porque é quem é. De facto, vê-se que é uma pessoa clara na palavra e no gesto, frontal, mas ao mesmo tempo próximo, com bom humor, etc. As características pessoais da sua personalidade e do seu contexto. Agora, pegando nessa questão, a própria categoria conservador e progressista creio que faz sentido — ou melhor, compreende-se. Mas não sei se é muito adequada, porque acaba por pôr as coisas em clichés quase de pólos opostos. Creio que a questão é mais complexa do que isso. Como eu entendo, o Papa Francisco vai ao coração, ao que é mais elementar no Evangelho, e a como é que essa dimensão mais elementar do Evangelho pode hoje levar a Igreja a redesenhar o modo de estar, de sentir, de pensar, de atuar, que seja fecundo num contexto global, plural, secularizado em muitos contextos. Creio que isso faz com que haja aqui uma deslocação da própria compreensão da autoridade da Igreja, até da própria tradição da Igreja, e de símbolos eclesiais, que em muitos casos são identificados quase como o coração da Igreja e da vida eclesial. Penso que é mais um conflito de perceções e de insistências, mais do que conservador e progressista. Porque acho que o Papa, nalgumas coisas, para usar essa categoria, tem muito de progressista e tem coisas em que tem muito de conservador.

Onde é que tem muito de conservador?
Numa certa linguagem espiritual, por exemplo quando fala do Diabo ou quando fala da piedade popular, que eventualmente pode ser associada a práticas espirituais mais conservadoras. Portanto, acho que são categorias que servem tanto quanto.

Disse uma vez que o Papa Francisco “não tem uma compreensão teórica, intelectualizada, do fenómeno cristão”. Era esta a compreensão que Bento XVI tinha?
O próprio Papa Bento XVI disse agora recentemente, soubemos numa carta, que dizer que ele é o teólogo e o Papa Francisco é o pastoralista — agora já são expressões minhas — é um bocadinho tonto, e acho que ele tem razão. Agora, é evidente que há aqui acentos muito diferentes. O Papa Bento XVI tinha uma compreensão muito teológica, até no melhor sentido da palavra, do Cristianismo e do modo como a Igreja hoje deve estar no mundo contemporâneo. O Papa Francisco tem uma abordagem muito mais a partir da realidade como ela se apresenta. Por isso, as abordagens não estão em contradição, pelo contrário, são complementares. Mas acho que sim, o ponto de partida e o ponto de acentuação é diferente.

Era preciso um Papa como Francisco perante o mundo atual de que falava, em que o Cristianismo já não é a norma?
Sei que a Igreja vê-se com o Papa Francisco. De alguma maneira, confrontou-se com uma renúncia inesperada do Papa Bento XVI e encontrou-se com a eleição de uma pessoa como o Papa Francisco. Hoje cabe-nos, creio eu, entrar generosamente em contacto com o modo como o Papa Francisco entende a Igreja e o modo como a Igreja deve estar no mundo contemporâneo. Essa é a força, tal como anteriormente a Igreja e cada um de nós foi chamado a confrontar-se com os acentos que o Papa Bento XVI fazia, hoje creio que nos cabe entrar numa relação fecunda com aquilo que o Papa Francisco apresenta para a Igreja. Estando ele, creio que é claramente uma bênção para o momento da Igreja.

Há pouco falava da exortação apostólica Amoris Laetitia e classificava-a como uma opção de fundo a nível pastoral. Relativamente à questão que mais tem dado que falar naquele documento, que são as referências às situações irregulares no casamento e ao acolhimento dos divorciados que voltaram a casar, disse numa entrevista que não há “ambiguidade no texto”. Então o que é que explica que tenha havido tanta polémica com este documento que o patriarca de Lisboa escreveu sobre o assunto?
O que é complexo é complexo, e acho que a tentativa de simplificar excessivamente as coisas corre o risco de as aplanar quando elas não são aplanáveis. São questões rugosas, digamos assim. É uma situação complexa e até complicada, e fazer de conta que não o é, penso que é tirar força à própria realidade. A vida dos casais é complexa, complicada, é exigente. A vida das pessoas, a vida afetiva, a educação dos filhos, tudo isso. Desde logo, nesta questão dos recasados, é isso que vem ao de cima. As relações entre um homem e uma mulher são muito complexas, a educação e a geração dos filhos, a fidelidade, é tudo isso. Essa é a matéria prima que está nesta questão dos recasados. Creio que aqui o mais importante, independentemente de todas as outras questões, é: o que é que a Igreja faz diante das situações concretas? O Papa Francisco parte daqui, e ele não parte sozinho. A Amoris Laetitia é o resultado de dois sínodos, de muita reflexão na Igreja Universal e depois concretamente entre os bispos e os outros peritos presentes nos sínodos. Portanto, o que se passa aqui é não deixar sem uma resposta minimamente aceitável aqueles que vivem situações não regulares pela ordem das coisas e que não querem ser considerados à margem de todo o percurso cristão. A força da Amoris Laetitia é de entender, de assumir que hoje em dia não é possível um padrão absoluto e fechado sobre si mesmo que se aplique de igual modo a todas as pessoas e em todas as circunstâncias.

É preciso ir a cada caso concreto?
Tem de se ir a cada caso. Creio que hoje a pastoral da Igreja — e o Papa Francisco tem isso muito claro — não é possível ser efetiva e fecunda se não for capaz de acompanhar ritmos diferentes de vida e de fé, e de não ter simplesmente sim ou não para as situações de vida, de pessoas, de grupos, de casais, que por algum motivo não correu como seria expectável e desejável. Se a Igreja diz que há lugares onde a Graça não pode fazer nada, a não ser que a pessoa mude radicalmente — mas nós sabemos que há situações não podem ser mudadas –, estamos a fazer uma afirmação teológica muito grave. Não há situação nenhuma onde a Graça não possa agir de alguma maneira, não possa recomeçar um caminho. Esta é a força da Amoris Laetitia, olhar para a realidade como é, tentar dar resposta concreta a “n” situações deste género que geram tanto sofrimento, e tentar fazer um percurso adulto, sério, de discernimento, de acompanhamento e de integração. Como é algo muito complexo, que toca questões muito centrais na Igreja como a questão do sacramento, a questão da fidelidade, é natural que haja debate, é natural que haja desencontro, mas isso faz parte do percurso do discernimento.

É isso que o Papa quer? Provocar debate e discussão?
Não sei se é o que ele quer, mas creio que o Papa Francisco leva a sério a questão do discernimento, que é sempre um pesar de moções diferentes, que podem ser moções mais interiores ou moções mais intelectuais. Por isso é que o Papa não quis, em nome de uma unidade da Igreja, preservar as próprias atas onde a discussão do sínodo era exposta. A discussão faz parte do discernimento, e portanto não temos de sentir que a unidade da Igreja está posta em causa quando sobre situações tão complexas há entendimentos diferentes, que não têm de se excluir, mas também não tem de se chegar a uma linha meridiana que integre tudo e não sirva para nada. Não tenho medo dessa tensão, mas o que o discernimento espiritual nos diz também, a partir dos exercícios, é que existem movimentos ordenados segundo o espírito, e há movimentos desordenados. Na linguagem de Santo Inácio, que são do mau espírito. Muitas vezes, nem são morais. São resistências, são medos, são dificuldades de ver, são fechamentos à abertura. Portanto, o discernimento pede-nos abertura à discussão e à partilha franca, mas pede-nos também uma análise pessoal e eclesial dos possíveis bloqueios que estamos a pôr à ação do Espírito Santo. Daí a exigência do discernimento.

Num futuro próximo é possível implementar ações como o fim do celibato ou a ordenação de mulheres?
São coisas diferentes, são questões mais uma vez exigentes, difíceis. Não creio que se chegue lá facilmente e de ânimo leve.

Mas há que chegar lá?
Confesso que não tenho isso como uma prioridade. Apesar de tudo, são coisas diferentes. Não sinto que seja uma prioridade, não creio que a Igreja esteja aí. Mas também quem sou eu para dizer que a Igreja não vai fazer um caminho nesse sentido, como fez um caminho em tantos outros sentidos no passado? Serão necessariamente caminhos de maturação muito lenta.

Relativamente à questão das mulheres, lembro uma notícia recente que saiu na revista do Osservatore Romano sobre situações de exploração de freiras por parte de membros do clero. Por um lado, há ali uma questão de exploração que se prende com direitos humanos e questões laborais, mas por outro lado expôs novamente a ideia de que as mulheres têm um papel inferior na Igreja — e a não ordenação de mulheres é outro exemplo. A Igreja Católica discrimina as mulheres?
Pode haver ainda casos que indiciam uma cultura machista na Igreja, como uma cultura machista fora da Igreja. Não excluo que haja situações que são expressões desse machismo, ou de uma presença de desigualdade entre o homem e a mulher. Na cultura ocidental, na cultura portuguesa, e também na Igreja ocidental — e se calhar noutros contextos ainda mais. Se existem, acho que nos cabe corrigi-las. Acho que ajuda a pôr as coisas não apenas bem ou mal, mas num contexto da sua evolução. Se existem situações deste género, onde claramente sentimos que a mulher, por ser mulher ou por ser religiosa, está ao serviço do padre ou do bispo só porque ele é homem e porque está numa posição de superioridade, como se fosse uma espécie de serviço pouco digno, há que corrigir isso, claramente.

Já está há quatro anos à frente da província dos Jesuítas em Portugal. Como avalia o que tem sido feito neste tempo?
Desde logo, até por pedido do padre geral a toda a Companhia, houve aqui um esforço de avaliação do estado em que estávamos, de cada uma das obras. No fundo, para provocar um certo distanciamento de cada um dos nossos trabalhos para perceber como é que estamos a fazer. Um diagnóstico que nos ajudasse a relançar o nosso caminho a partir do que existe. Daí nasceu o Plano Apostólico da Província, que de alguma maneira estabeleceu um conjunto de prioridades. Mas não só prioridades de coisas a fazer. Para mim foi muito importante também estabelecer um modo de fazer. São coisas que podem parecer um bocadinho abstratas, mas que para mim são muito importantes. Esse modo de fazer consistia em assumir com serenidade a consciência de que nos cabe evangelizar, anunciar o Evangelho, num contexto plural e secularizado. Esse é o ponto de partida. Olhar para a nossa realidade com o mínimo de serenidade e de tranquilidade. Nós vivemos numa sociedade plural e secularizada onde o Cristianismo, à partida, já não é a forma de pensar e de sentir comum das pessoas. A partir daqui, cabe-nos olhar para ela com uma grande empatia, isto uma capacidade de entrar em contacto com a realidade cultural, pessoal, política, social. Um verdadeiro exercício de encarnação. Temos de amar este mundo, que é o nosso. Não temos outro e não somos pessoas sem mundo, este é o nosso mundo. Ao mesmo tempo, temos de olhar para a sociedade com uma grande liberdade profética. Como cristãos, temos alguma coisa a acrescentar ou não? Podemos alargar o horizonte? Podemos ajudar a que as pessoas tenham uma vida mais fecunda? A que as relações sejam mais justas, mais verdadeiras? Esse é o lado do contributo. E depois, desejar construir pontes fecundas com outros protagonistas, com outras pessoas que não estão imediatamente no nosso contexto.

Privilegiam o diálogo com quem está fora da Igreja Católica?
Importa muito, porque o Cristianismo, se se fechar sobre si mesmo, não é nada. O Cristianismo existe para anunciar o Evangelho ao outro. Mas o outro, as outras pessoas, não são apenas destinatários da nossa mensagem. Os outros são aqueles sem os quais nós ainda não nos compreendemos plenamente como cristãos. Nós, cristãos, não nos podemos compreender sem aqueles a quem o Evangelho ainda não foi anunciado. Hoje, o modo de anunciar o Evangelho passa por querer estar em contacto com a realidade, mesmo com aquela que é exterior à Igreja — diria sobretudo com essa. Porque a Igreja não tem de aceitar acriticamente as críticas que lhe são feitas, ou não tem de aceitar a pluralidade dos contextos exteriores à própria Igreja, mas a Igreja ganha muito se aceitar ser observada, se se deixar observar e receber o feedback daqueles que estão de fora. De facto, de fora também se veem coisas que não se veem de dentro, e essas coisas penso que ajudarão muito a Igreja a compreender-se.

Que coisas são essas que se veem de fora?
Posso dar um exemplo que me é muito caro. Sigo muito um filósofo italiano, Massimo Cacciari, que foi presidente da Câmara de Veneza. Ele não se apresenta como cristão, pelo menos será agnóstico, mas é das pessoas que conheço que mais conhecem o Cristianismo. A mim ajuda-me muito ouvi-lo. Como é que ele, a partir de fora, lê o Cristianismo, as grandes dinâmicas cristãs e até personagens cristãs, como por exemplo São Francisco. Outro exemplo, este caso que citou relativo às mulheres. Acho que esse é um olhar de fora que ajuda a Igreja a tomar consciência de coisas que à partida não notaria, pela força do hábito, e que a ajuda a ser mais o que deve ser. Portanto, não significa simplesmente estar dependente da observação exterior, mas creio que esta capacidade de entrar em diálogo franco, poder dar uma palavra franca sobre as coisas e ter uma disponibilidade para ouvir uma palavra franca sobre as coisas de quem à partida não pensaria como nós pode construir algo muito fecundo.

Em Portugal, o que é que os jesuítas fazem neste sentido?
Há duas coisas muito concretas além de todas as outras que fazemos no dia a dia, nos centros universitários, nas paróquias, seja onde for. O portal Ponto SJ nasceu como a concretização de um desejo de ter vários olhares que nos interessam a todos e estabelecer pontes entre o Cristianismo, ou uma identidade cristã vivida na primeira pessoa, e olhares que estão mais na periferia ou até em zonas nada identificadas com o modo cristão de ver. Por isso, também procurámos que a abertura, no Teatro da Comuna, pondo uma irmã e a Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, a dialogar, a encontrar-se, servisse para dizer que há lugares de grande fecundidade que podem acontecer quase de modo improvável, entre pessoas que à partida não se encontrariam. Esse é um modo muito fecundo de construir a Igreja, mas também de construir uma sociedade mais justa. O que estamos a planear em redor da Brotéria, da revista e da biblioteca, mas também um centro cultural de reflexão, de pensamento, mais amplo, que possa ser uma interface, um ponto de encontro e de diálogo entre uma perspetiva cristã e as culturas urbanas contemporâneas. É um espaço na cidade de Lisboa, numa cultura mais urbana, que possa gerar encontros, talvez esses também improváveis, de maneira a que daí também possa surgir alguma fecundidade também no espaço público. São dois exemplos concretos de viver o anúncio do Evangelho, de ser presença de Igreja e de realizar este diálogo.

Por João Francisco Gomes in Observador, 1 de Abril de 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

Mudança de sexo aos 16 anos

Nova lei da identidade de género vai permitir mudança nome e sexo aos 16 anos

A proposta de lei do Governo prevê que os jovens de 16 anos possam mudar de nome e de género. Documento vai ser votado a 6 de abril e PSD deverá dar liberdade de voto aos deputados.
A proposta de lei do Governo para a identidade de género prevê que os jovens possam mudar o nome e o género no cartão de cidadão aos 16 anos (ao contrário dos atuais 18), com autorização dos pais, avança a edição desta sexta-feira do Expresso. Além da descida do limiar da idade, o documento prevê o fim da necessidade de um relatório clínico para esta mudança, que sejam proibidas as cirurgias a bebés intersexo ( não ser que estejam em causa motivos de saúde) e que as escolas passem a tratar as crianças e jovens pelo género com que se identificam.

O documento vai ser votado no Parlamento a 6 de abril e conta com os votos favoráveis do PS, Bloco de Esquerda, PEV, PAN e com a abstenção do PCP. Neste cenário, a aprovação da lei fica dependente de apenas um voto, avança o Expresso. Ao contrário do que era esperado, é provável que o PSD não imponha disciplina de voto contra a proposta e que dê liberdade de voto aos deputados. Neste caso, replicando o que aconteceu com a lei da procriação medicamente assistida, é possível que 20 sociais-democratas votem a favor.

A socialista Isabel Moreira disse ao Expresso que esta lei “é uma lei limpa e clara, que nada tem que ver com tratamentos e processos cirúrgicos”. Já Vânia Dias Silva, do CDS defende que “ao 16 anos, os jovens não têm capacidade de decisão definitiva”.

Nuno Monteiro Pereira, presidente da competência de Sexologia da Ordem dos Médicos, disse ao mesmo jornal que “o problema dos transexuais é viverem numa sociedade que os rejeita” e deu um parecer positivo à proposta do Governo. Explica que em 2017 cerca de 50 pessoas pediram para fazer a cirurgia de redesignação sexual — a maioria eram pessoas que tinham nascido com o género feminino e que queriam passar para o género masculino. Entre 2012 e 2016, foram feitas 38 cirurgias destas em hospitais públicos. Mas entre 2011 e 2017, houve 375 pessoas que mudaram de género no cartão de cidadão.

Por Ana Pimentel in Observador

segunda-feira, 26 de março de 2018

Balanço de 5 anos de pontificado do papa Francisco

“A grande revolução foi a resignação de Bento XVI; foi como um choque elétrico”

O académico do Vaticano Sergio Tapia-Velasco afirma que a Igreja precisava de um Papa como Francisco "para reagir" à verdadeira revolução que foi a resignação de Bento XVI. Foi há 5 anos.

Um mês foi quanto durou uma das maiores reviravoltas da história recente da Igreja Católica. A 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciava a inédita decisão de abdicar do pontificado (o último Papa a resignar havia sido Gregório XII, em 1415); a 13 de março, o mundo via assomar à varanda na praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco, um aparente oposto do seu antecessor. Completam-se esta terça-feira cinco anos desde que foi eleito o primeiro Papa jesuíta, que surpreendeu o mundo desde o primeiro dia com gestos de simplicidade: o seu primeiro ato foi deslocar-se pessoalmente à residência onde tinha dormido durante o Conclave que o elegeu, para pagar a conta.

Para o padre e professor mexicano Sergio Tapia-Velasco, professor de comunicação da Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma, aquele mês foi o início de uma revolução na Igreja Católica. Numa entrevista ao Observador em Lisboa, em que fez um balanço dos cinco anos do papa Francisco, o académico do Vaticano e comentador de assuntos relacionados com a Igreja em meios de comunicação social internacionais como a CNN ou a RAI explica que a resignação de Bento XVI foi “a grande revolução”, comparando o momento a um “choque elétrico” que transformou radicalmente uma Igreja a precisar de ser agitada e de mudar. Francisco, explica o sacerdote, foi o “fisioterapeuta” que veio colocar a Igreja em movimento novamente depois desse choque.

O que mudou na Igreja nestes cinco anos?A primeira revolução nos últimos cinco anos foi a resignação do Papa Bento XVI. De facto, ninguém esperava que um Papa resignasse. Não houve uma resignação de um Papa durante mais de 400 anos, e quando o Papa Bento XVI resignou foi um choque para todos nós, especialmente para nós, que vivíamos em Roma. Não estávamos mesmo à espera.

A Igreja não estava preparada para a resignação de um Papa?Penso que a Igreja estava preparada. Agora, passados cinco anos, quando olhamos para trás e analisamos o último ano do Papa Bento XVI, podemos encontrar diferentes gestos, ou diferentes sinais, que nos fazem pensar que, de facto, o Papa estava a preparar tudo. Mesmo que não estivéssemos a reparar.

Por exemplo?Tanto quanto sabemos, o Papa Bento XVI tomou a decisão de resignar no dia em que caiu, na viagem ao México, em 2012, e percebeu que no ano seguinte teria de enfrentar uma nova viagem à América, para as Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro. Ele pensou: “Se caí aqui e magoei a cabeça, o que irá acontecer no próximo ano?” Ele já sentia as pernas muito fracas, e hoje vemos que é verdade, ele está muito fraco.

Outro sinal foi que na viagem de regresso a Roma, depois da visita ao México, ele decidiu dar imediatamente início ao restauro do mosteiro onde vive hoje. Ainda demorou seis meses a fazer os preparativos da casa, mas já estava a pensar em mudar-se para lá. Depois, quando começamos a ler os últimos discursos, a partir de julho de 2012, começamos a ver que ele fazia várias referências que indicavam que estava de saída, que a Igreja está nas mãos de Deus. Como que a preparar as pessoas para a decisão que ele estava a tomar.
E é por isso que no dia em que se marcam os cinco anos do papado de Francisco, a primeira parte desta entrevista é exactamente sobre o homem que o antecedeu.

Mas posso dizer que, de facto, ninguém estava à espera. Até podemos lembrar quando ele visitou Áquila, quando houve lá um grande terramoto. Um dos edifícios que ruiu foi a catedral da cidade, onde estava sepultado São Celestino. O papa Bento XVI, nesse dia, deixou a sua estola no túmulo de São Celestino. Hoje, associamos o gesto, porque Celestino foi um dos papas que resignaram. Ou seja, há pequenos sinais, para os quais não temos uma leitura formal, mas que nos podem indicar isso.

Há quem diga que ele já estava a pensar nisso desde a eleição. Se lermos a entrevista que ele deu a Peter Seewald, The Light of the World, o Papa Bento XVI responde explicitamente que ele tinha estado a pensar em resignar.

Como avalia o papado de Bento XVI, a uma distância de cinco anos?Bom, obviamente eu sou um crente. Sou um padre, sou verdadeiramente convicto de que a Igreja é guiada pelo Espírito Santo. Acredito que Deus inspirou o Papa Bento XVI a resignar e inspirou os cardeais a eleger o Papa Francisco. Nunca duvidei disso. A resignação foi um ato providencial. Deus previu-o e usou-o para agitar a Igreja e para nos fazer mudar, para nos fazer refletir na necessidade de mudarmos.

A verdade é que o Papa Bento XVI foi muito criticado pelos seus pontos de vista mais tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, muitos teólogos consideram o seu trabalho um dos contributos mais importantes para a evolução da teologia nas últimas décadas.Penso que, na maioria das vezes, as críticas são preconceitos com origem na má informação sobre alguém. Quando entramos em contacto com a pessoa, a maioria dos nossos preconceitos desfazem-se. O que aconteceu com o Papa Bento XVI? Ele é provavelmente o melhor teólogo do século XX. A Igreja teve grandes teólogos no último século, certamente, mas quando pensamos, por exemplo, no diálogo entre Joseph Ratzinger e Jürgen Habermas e vemos duas grandes mentes a debaterem sobre todos os assuntos, é como assistir a dois grandes fogos de artifício. É surpreendente. O que aconteceu foi que, devido ao trabalho que tinha enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi rotulado com o cliché de “grande inquisidor”.

Estereótipos, na maioria das vezes?Sim, penso que foram sobretudo estereótipos. Na verdade, qualquer pessoa — e posso garantir isto — que tenha conhecido diretamente o papa Bento XVI derretia imediatamente. Ele é uma pessoa muito gentil. Não apenas gentil, mas também com uma forma de falar que é verdadeiramente convincente. Eu sou professor de retórica e fazemos muita investigação sobre a retórica do papa Bento XVI. Certamente, também o faremos no caso do papa Francisco, mas no caso do papa Bento XVI conseguimos ver uma forma de pensar muito profunda.

Nós hoje temos acesso à Internet com facilidade, por isso, sugiro a qualquer pessoa que ainda tenha preconceitos sobre o papa Bento XVI que vá ouvir a gravação original da última audiência geral, na última quarta-feira antes do dia 28 de fevereiro de 2013, quando ele deixou o governo da Igreja. É um discurso adorável e mostra bem como ele se sentia e como ele pensava.

Nas ‘Conversas Finais’, quando o jornalista Peter Seewald pergunta ao Papa Bento XVI como é que ele olhava para as críticas que lhe dirigiam sobre a abertura da Igreja a outras religiões e culturas, dá alguns exemplos interessantes: tinha sido o próprio Bento XVI a nomear um protestante para o Conselho Pontifício para a Ciência, a colocar um professor muçulmano na Pontifícia Universidade Gregoriana, a abrir a tradição católica aos anglicanos, e por aí fora. Na sua opinião, as críticas eram injustas?Hoje, ao fim de cinco anos, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Vivo em Roma há 24 anos. Estive lá com João Paulo II, com Bento XVI e com Francisco, e acredito genuinamente que os três foram dons do Espírito Santo. Mas quando penso em Bento XVI, sinto uma simpatia particular por causa disso. Ele foi maltratado por muita gente, sem perceberem o peso que tinha aos ombros e a luz que ele espalhou pela Igreja, naquela dia e no futuro.

Muitas pessoas criticaram-no, por exemplo, apenas por ser simpático, por não gritar. Diziam que ele não governava a Igreja. Mas se olharmos para os números e tentarmos perceber, por exemplo, quantos bispos ele obrigou a resignar durante os oito anos do seu pontificado, foram cerca de 80 bispos. Isso significa pedir a um bispo que resigne, por razões graves, quase todos os meses. Se isso não é governar, então o que é governar?

Um dos principais problemas que emergiram durante o pontificado de Bento XVI foi o escândalo dos abusos sexuais. Ele lidou bem com esse escândalo?Novamente, acho que ele foi providencial. Se hoje temos este programa de tolerância zero para com os abusos sexuais, é devido ao Papa Bento XVI.

Porquê?É um processo longo. Ainda no tempo do papa João Paulo II, quando o cardeal Ratzinger estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, era ele quem estava encarregado dos julgamentos deste tipo de crimes. Só para dar um exemplo, foi Bento XVI quem exigiu que se fosse até ao fim no caso do padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, [que em 2006 foi obrigado por Bento XVI a renunciar ao ministério por ter cometido abusos sexuais contra jovens seminaristas durante as décadas de 50 e 60].

Mas não foi apenas esse caso. Como estava a dizer há pouco, durante a sua governação, o papa Bento XVI não apenas seguiu os casos de abusos como também expulsou da liderança da Igreja 80 bispos, que ele pensou que não estavam a governar de forma justa ou que estavam a obstruir.

Muitas críticas vieram precisamente de bispos e cardeais. Recordo, por exemplo, quando ele escreveu a carta aos católicos da Irlanda, no início do escândalo da pedofilia, a defender que estes casos deviam ser entregues às autoridades civis. Na altura houve bispos a defender que os casos não deviam ser expostos dessa forma.Houve muitas críticas dentro da Igreja. Enquanto crente, defendo sempre que a Igreja é uma instituição sobrenatural, na medida em que é de Deus e existe para nos guiar para a salvação, mas ao mesmo tempo a Igreja é uma sociedade humana, e sempre houve conflito entre as duas dimensões. Lembro-me de um antigo professor de Filosofia que eu adorava, o Leonardo Polo. Na sua introdução à filosofia, ele começava por referir que o livro se chama “Quem é Homem?” para responder: “O Homem é o animal que problematiza”. Essa é a sua categoria de entender o Homem. Quando um leão tem um problema com outro leão, mata-o. Não está pronto para argumentar. Pelo contrário, nós argumentamos, e num certo sentido é bom que muita dessa discussão venha do interior da Igreja, porque isso faz a Igreja crescer.

Como estava a dizer antes, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Mesmo alguns bispos foram injustos. Por exemplo, quando o papa Bento XVI levantou a excomunhão de quatro bispos que foram ordenados à revelia da Santa Sé pela Fraternidade São Pio X, do arcebispo Marcel Lefebvre, houve um enorme escândalo, porque um dos bispos, Richard Williamson, era negacionista do Holocausto. [Os bispos ordenados naquela fraternidade tradicionalista entram automaticamente em excomunhão com a Igreja Católica, porque a fraternidade não é reconhecida canonicamente pelo Vaticano. A fraternidade defende que a Igreja devia tornar a ser como era antes do Concílio Vaticano II, sendo a favor, por exemplo, das missas em latim de costas para o povo.]

Houve vários grandes escândalos que se criaram à volta dele. Como é que é possível que ninguém o tenha avisado de aquilo podia acontecer? Vemos que, em alguns casos, as pessoas não estavam a remar na mesma direção, e isso causou sofrimento na Igreja.

As críticas contra o Papa Bento XVI contribuíram para a decisão de resignar?Certamente, tiveram um peso, porque todos somos humanos e quando sentimos o peso das tarefas difíceis que nos pedem, podemos pensar que não somos a pessoa indicada ou que aquilo é demasiado difícil. Estou certo de que estes pensamentos passaram pela cabeça dele. Mas, ao mesmo tempo, acredito que ele disse a verdade quando disse que tomou a decisão porque sentiu que não tinha a força física para continuar e que provavelmente um homem mais novo podia fazê-lo melhor. É um grande exemplo de humildade e um grande exemplo de fé dizer: “Eu não sou indispensável”. De facto, depois da resignação, pelo menos na Itália, muita gente disse que aquele era um bom exemplo para alguns políticos (risos).

Há um conjunto de decisões do papa Bento XVI que deram origem a polémicas. Já nos últimos dias do pontificado, em resposta ao escândalo do primeiro Vatileaks, sobre os problemas na gestão financeira da Santa Sé, Bento XVI nomeou o alemão Ernst von Freyberg para presidente do banco do Vaticano. Mais tarde veio a descobrir-se que era alguém ligado à indústria militar. Terá sido mau timing?Penso que muitos dos problemas que apareceram no Vaticano, nomeadamente nesta área, estão muito relacionados com a maneira italiana de fazer as coisas. Eu adoro a Itália, mas ao mesmo tempo vejo que em alguns casos as coisas não são completamente claras. Talvez não tenha sido o melhor timing, nessa e noutras decisões. Mas aquilo de que tenho completamente a certeza é que o primeiro Vatileaks — tal como o segundo, que já afetou o papa Francisco –, quando aconteceu, mesmo tendo produzido dor, também produziu uma reação. Fez-nos pensar sobre como podemos fazer as coisas melhor. Sempre que somos feridos, sempre que um cão nos morde, todos aprendemos, crescemos em experiência, e pensamos no que podemos fazer para não tornar a falhar.

Penso que o processo de reforma económica que foi iniciado pelo papa Bento XVI — foi ele que começou tudo, depois o papa Francisco continuou, com a secretaria para a Economia — é um dom para a Igreja. Não é perfeito, porque somos humanos e temos falhas, mas penso que é um bom processo. Hoje, vemos que o Banco do Vaticano já não está na lista negra, mas já passou para a lista branca dos bancos europeus, e está a seguir todas as normas para evitar o branqueamento de capitais e a lavagem de dinheiro. Aliás, é esse o nome oficial: Instituto para as Obras Religiosas. Quando se diz que é um banco, atenção, não é um banco. É um instituto para ajuda económica. Imagine a Igreja na China. Não se pode mandar dinheiro para lá de forma normal através de um banco, porque provavelmente não o iriam receber. Precisamos de encontrar canais para ajudar os cristãos que precisam. Seguindo a lei, claro, mas encontrar uma forma de ajudar as pessoas.
Para o papa Francisco, “a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada”

Isto leva-nos a março de 2013, à eleição do papa Francisco. Nos primeiros tempos, falava-se muito dos pequenos gestos: a recusa do apartamento papal, os telefonemas de surpresa… O Papa estava a mandar uma mensagem sobre o que viria a ser o seu pontificado?Sim e não. Muito do encantamento das pessoas pelo papa Francisco foi por ele ser transparente, autêntico. Todos nos lembramos das primeiras fotografias que vimos dele, quando ele era bispo na Argentina e viajava de metro. Depois vimo-lo, já após ser eleito Papa, a ir pagar a residência onde tinha ficado quando foi a Roma para o conclave, ou quando disse que não podia mudar de sapatos porque tem uma perna maior do que a outra e precisa dos seus sapatos ortopédicos…

Quebrava o protocolo…Acho que ele não mudou a sua forma de ser, a sua humanidade. Isso é fascinante. Ele é um homem que é completamente coerente com a sua forma de ser e de estar. Talvez não estivesse intencionalmente a querer mandar uma mensagem, mas certamente que o Espírito Santo ajudou a elegê-lo para nos mandar essa mensagem. Precisamos de pastores que não sejam príncipes, que estejam ao lado das pessoas, que preguem com palavras simples e normais que todos possamos entender, mas que ao mesmo tempo sejam profundos, que nos façam pensar e rezar, e até que nos façam sofrer. Porque muitas vezes o papa Francisco dá uns murros. Atinge-nos para nos provocar reações, para nos fazer crescer na nossa vida espiritual. Precisávamos de um Papa assim, para reagirmos.

Esta forma simples do papa Francisco criou uma onda de apoio generalizada, até vinda de fora da Igreja, que Bento XVI não tinha. Fala-se de uma abertura da Igreja, até em temas historicamente sensíveis como o divórcio ou a homossexualidade. Mas alguma coisa mudou concretamente na doutrina católica?Penso que para tentarmos entender o papa Francisco temos de entender Jorge Bergoglio. São o mesmo homem. Temos de perceber o que ele defendia antes de se tornar Papa. Da mesma forma que vemos que ele é coerente na vida quotidiana — antes andava de metro, hoje recusa um Mercedes –, vemos a mesma forma de pensar nas diferentes doutrinas que ele tem pregado.

Para mim, no início, há duas fontes principais que me ajudaram a entender o papa Francisco. Em primeiro lugar, há o documento de Aparecida, de 2007. Ele foi o redator principal, escolhido pela conferência dos bispos da América Latina, para escrever as conclusões da conferência, e vemos que o documento é como uma espécie de rascunho do que viria a ser a Evangelii Gaudium [primeira exortação apostólica do papa Francisco]. Se analisarmos os dois documentos, encontramos muitas coisas na Evangelii Gaudium que já apareciam no documento de Aparecida. Depois, há um outro livro muito interessante, que são os diálogos que ele teve, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, com o rabino Abraham Skorka. Chama-se “Sobre o Céu e a Terra” e era baseado num programa regular que ele tinha na rádio a conversar com este rabino. Aí, vemos que ele já dizia muita das coisas que diz hoje.

O que é que o papa Francisco propõe? De novo temos de entender o homem. Ele é um jesuíta, e os jesuítas têm sido, ao longo dos anos, diretores espirituais preocupados com a salvação pessoal de cada um, e não com toda a gente no geral. O dom do papa Francisco é que ele diz: “Não façam programas pastorais em massa. Vão alma a alma, e cada alma é importante”. E nesse sentido, o que ele nos diz é que, quando falamos com alguém que se divorciou ou alguém que é homossexual, não devemos ter nenhum preconceito. Cristo morreu por toda a gente.

Ou seja, ele está a tentar acabar com a ideia de que a Igreja exclui algumas pessoas?Sim, esse é um dos objetivos dele. Ele repete constantemente que a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada. Para ele, a Igreja é um barco que traz a salvação a quem se está a afogar no mar. É essa a imagem da Igreja, um barco salvador que atira bóias para salvar as pessoas. Eu pelo menos, na minha experiência pastoral enquanto padre e não apenas como professor em Roma, recebi muito dele e agradeço a Deus porque ele mudou a minha forma de pensar. Ele diz: “Não podem estar só preocupados com doutrinas gerais ou grandes filosofias. Não. Tomem conta da pessoa que têm em frente a vocês”.

Mas ele não mudou a doutrina base da Igreja sobre esses assuntos.Não, não a mudou.

E não o vai fazer?Não. Penso que devemos analisar e interpretar o que o papa Francisco diz pelas suas palavras originais. Quando lemos a Evangelii Gaudium, quando lemos a Amoris Laetitia, ou quando lemos qualquer discurso do papa Francisco, o que descobrimos é um pastor muito exigente, que diz que não quer mudar a doutrina. Ele diz isso de forma explícita na Amoris Laetitia, por exemplo. O que ele quer é uma conversão pastoral da Igreja. O que ele quer é que nós, sacerdotes, não façamos juízos de valor, porque somos ministros de Cristo e temos de ajudar as pessoas a entrarem em contacto com as feridas de Cristo e a encontrarem a salvação. Penso que esse é um grande dom e toda a gente se devia sentir tocada por ele.

Começou por dizer, no início da entrevista que a mudança do papa Bento XVI para o papa Francisco foi uma grande revolução. Em que sentido, então?Penso que a grande revolução foi a resignação do papa Bento XVI. Isso foi como um choque elétrico.

Mas esse foi um sinal de que a Igreja precisava de uma mudança?Penso que o Concílio Vaticano II já tinha notado que precisávamos de entrar mais em diálogo com o mundo moderno. Eu sempre sugeri às pessoas que lessem a convocatória do Concílio, escrita por João XXIII, a dizer porque é que ele queria um concílio, e depois que lessem a Lumen Gentium ou a Gaudium et spes, e vissem que de facto a Igreja mudou. Aquele foi um grande momento.

Agora, cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e vejo que os quatro papas — tivemos cinco, se contarmos com João Paulo I –, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco, são diferentes encarnações do espírito do Concílio Vaticano II. Cada um deles, com a sua própria humanidade, ajudou-nos a crescer. Paulo VI era um ótimo sociólogo, muito preocupado com a dimensão económica e social da sociedade, e escreveu tantos documentos sobre o caminho do pensamento da Igreja moderna. Depois, João Paulo II era um grande filósofo, e todos crescemos no sentido antropológico durante o seu pontificado. Já Bento XVI foi um grande teólogo, e todos nós crescemos na dimensão da liturgia e da teologia dogmática por causa do seu dom. Hoje, temos o papa Francisco e vejo novamente que ele é um dom do Concílio Vaticano II. Pensamos: “É muito bom ser um sociólogo, é muito bom ser um filósofo, é muito bom ser um teólogo. Mas temos de voltar os nossos olhos para aqueles que temos junto a nós”.

Para mim, a revolução começou com a resignação. O que o papa Francisco está a fazer é, depois de a resignação ter agitado a Igreja como um choque elétrico, é preciso ajudar toda a gente a recomeçar a mexer novamente. O papa Francisco é como um fisioterapeuta que está a ajudar alguém que tem estado muito quieto a mexer-se novamente.

Devido àquilo a que se está a referir, a essa diferença entre Francisco e os seus antecessores, o Vaticano enfrenta uma onda de críticas internas, que se opõe ao apoio que vem de fora. Uma divisão que talvez possamos simplificar em tradicionalistas contra o Papa versus progressistas a favor do Papa. Que impacto é que esta divisão tem na Igreja de hoje?Faz-me sofrer. Todos os dias, quando celebramos a missa, há diferentes momentos em que rezamos pela unidade da Igreja. Quando pensamos no último discurso de Jesus na última ceia, uma das principais ideias foi a oração de Jesus, virado para Deus, pedindo-lhe: “Pai, faz com que eles sejam um”. Provavelmente, Jesus já estava a prever este perigo de desagregação constante. Volto ao que estava a dizer: nós problematizamos tudo, somos humanos, discutimos, temos pontos de vista diferentes. É o típico caso do copo de água que pode estar meio cheio ou meio vazio. Há formas diferentes de entender um problema, mas a ideia central é que estas divisões me fazem sofrer.

Por outro lado, não classificaria todos os que criticam Francisco como tradicionalistas, porque quando pensamos em pessoas como os Lefebvrianos, a maioria deles têm a esperança de finalmente encontrar a união com a Igreja novamente. Lembro-me sempre de que tem sido o papa Francisco a fazer pressão para concretizar esse sonho do papa Bento XVI, de chegar à comunhão com eles. Ele está a destruir barreiras e dizer que se quer aproximar deles.

Há casos extremos de bispos a acusar o Papa de ser herege.Bom, não penso que haja um bispo que diga “o Papa é um herege”. Mas, de facto, há bispos, muitos bispos, que estão preocupados sobretudo com a confusão. Não porque estejam preocupados com a possibilidade de a doutrina mudar ou algo do género. Estão preocupados com ideias como quando o papa Francisco diz, na Amoris Laetitia, que precisamos de um caminho de discernimento. Há quem diga que isso abre as portas do Inferno (risos), que abre uma grande confusão. Afinal, o que é o discernimento? Qual é o protocolo? O que temos de fazer? A minha posição é que o que devemos fazer, se não queremos essa confusão, é investir na boa formação dos padres. Precisamos de diretores espirituais que ajudem as pessoas.

E a resposta do papa Francisco a estas críticas internas tem sido adequada?Para dar um exemplo: há uns meses, o papa Francisco visitou o novo dicastério para a família, os leigos e a vida e esteve com os trabalhadores desse novo departamento do Vaticano. Tenho vários amigos que trabalham lá e pelo menos dois deles disseram-me o mesmo. O Papa estava cansado de ouvir estas críticas e a única coisa que lhes disse foi: “Por favor, onde quer que vão, digam às pessoas que o capítulo importante é o capítulo IV, e não o capítulo VIII”.

Ele estava a referir-se à Amoris Laetitia, a dizer que o propósito daquele documento é ajudar as pessoas a viver melhor o seu matrimónio. O capítulo IV é, de facto, extremamente belo, é um comentário muito profundo sobre o casamento e é uma joia que ninguém teve em consideração. Temos estado constantemente a discutir em torno das situações irregulares ou o que quer que lhes queiramos chamar, em torno dos problemas, e provavelmente estamos a falhar a parte principal do documento, que é a alegria do amor.

Eu, pelo menos, tento apoiar o papa Francisco nessa ideia. Por favor, estou cansado de discutir sobre esse assunto. Aquilo de que preciso é ajudar os meus irmãos padres a terem uma boa formação que lhes permita serem bons diretores espirituais e ajudar as pessoas a discernir, a tomar as decisões corretas. O que quero é ajudar tantos jovens que não estão a casar a pensar novamente que o casamento é uma boa opção. É uma grande vocação. Infelizmente, em alguns círculos de discussão só estão a argumentar sobre situações hipotéticas que na verdade não acontecem.

Ou seja, o problema é a discussão estar a ser colocada num nível geral, abstrato, de proibição ou autorização.Exatamente. Para mim, o grande dom do papa Francisco é dizer para cuidarmos de cada pessoa que temos à nossa frente. Se me encontro com alguém que esteve casado e cujo casamento falhou, como é que eu posso ajudar essa pessoa a descobrir novamente a alegria de estar perto de Deus.

Uma das frases mais famosas dele é mesmo a tal “quem sou eu para julgar?”, referindo-se aos homossexuais.Sim, na primeira viagem, no regresso do Rio de Janeiro para Roma.

Porque é que a frase não foi muito bem recebida dentro da Igreja?Bom, em alguns círculos da Igreja não foi bem recebida. Novamente, eu digo às pessoas que leiam a resposta completa, que não se fiquem pela frase. Algumas pessoas, infelizmente até alguns lóbis, estão a criar esse estereótipo em torno do papa Francisco, como se ele não estivesse a governar porque aceita tudo sem discutir, e usam essa frase: “Então mas ele diz ‘quem sou eu para julgar’!”. Não é verdade. Novamente, se há alguém que está a governar a Igreja é o Papa. Ele tomou muitas decisões fortes. Ele julga! Dizer que é um relativista, que não julga, não é verdade.

Leiam a resposta completa. Ele nessa entrevista diz algo como: “Eu nunca recebi no Vaticano alguém com um cartão a dizer ‘eu pertenço ao lóbi gay’, mas se eu receber alguém que me diz que é homossexual, quem sou eu para julgar? Devo lembrar-me apenas do que o Catecismo da Igreja Católica diz e ajudá-lo a viver de acordo com essa proposta”. Ele não está a mudar a doutrina. Isso acontece com muitos padres. Se eu receber alguém em confissão que me diz algo, eu devo ouvir e tentar fazer o melhor para ajudar a pessoa.

Falou aí do lóbi gay. Existe no Vaticano?Bom (risos), tal como o papa Francisco disse, eu nunca estive com ninguém com um cartão a dizer que pertence ao lóbi gay. Acredito verdadeiramente que existe um lóbi gay internacional, mas isso seria uma outra grande entrevista só a discutir todas as dimensões em que se manifesta. O papa Francisco, em várias ocasiões, tem falado sobre a colonização ideológica que alguns grupos praticam no mundo moderno. Explicitamente, em alguns casos, ele faz denúncias fortes à ideologia do género, dizendo que não a pode aceitar. O problema, em muitos casos, é que as pessoas não estão a ler o que ele diz efetivamente. Temos acesso à Internet e é uma pena não lermos em primeira mão o que ele diz.

Para levar a cabo esta revolução, o papa Francisco tem chamado para cargos importantes várias pessoas, com o objetivo de, de alguma forma, purificar a instituição. Mas para o C9, o seu conselho consultivo mais próximo, chamou pelo menos três cardeais (George Pell, Óscar Maradiaga e Francisco Errázuris) que estão ligados à ocultação de casos de pedofilia, como notava o jornalista italiano Emiliano Fittipaldi. O cardeal Pell até teve de voltar à Austrália para ser julgado. Não acha que o Papa se pode estar a rodear das pessoas erradas?Antes de me tornar padre, trabalhei como advogado durante vários anos e trabalhei em casos relacionados com acusações a piratas mexicanos — lá, infelizmente, muitos negócios dependem da pirataria (risos). Mesmo assim, dentro dessa atmosfera complicada, sempre acreditei que toda a gente é inocente até ser provado o contrário. Acredito que esse princípio da lei é válido para toda a sociedade, incluindo para a Igreja. Há muitos casos. Por exemplo, mencionou o cardeal Pell. Admito que não conheço as outras duas acusações diretamente, mas quando olhamos para a vida do cardeal Pell e para a forma como ele tem enfrentado estes julgamentos, podemos ver que em muitos casos têm sido muito injustos. Não há provas, e infelizmente mesmo que os tribunais ainda não tenham chegado a uma decisão final, a imprensa já fez o julgamento. Assim que um padre ou um bispo tem alguma acusação, toda a gente lhe salta em cima. Talvez estejamos a esquecer-nos que, em teoria, toda a gente é inocente até ser provado o contrário.

Se me pergunta se esses são os melhores conselheiros para o papa Francisco, eu acho que o C9 é um excelente grupo. Cada um deles vem de diferentes perspetivas. Tento sempre lembrar quem se lembrou de criar aquele conselho de cardeais. Não foi o papa Francisco, foi o papa Bento XVI. É parte do seu legado, foi uma das coisas que ele sugeriu, e um dos assuntos que foram tratados nas congregações gerais antes da eleição foi que o Papa não deve governar sozinho, deve ter um conselho de cardeais que não trabalhem na Cúria e que o ajudem a ter uma visão mais alargada. Cada um deles vem de um país diferente, todos têm as suas experiências humanas próprias. Penso que são bons conselheiros. Se podíamos encontrar alguém melhor? Podemos sempre encontrar alguém melhor, claro. Não somos super-heróis, mas todos somos chamamos à perfeição. Por outro lado, quando uma pessoa chama alguém para seu conselheiro, chama os seus amigos, os que estão mais próximos, como é o caso do cardeal Maradiaga, ou então pessoas que foram sugeridos por outros, como o cardeal Pell. Até o cardeal Pell, nos anos que ele passou em Roma a tentar pôr em ordem a secretaria para a Economia, fez muito bem à economia da Igreja.

Já vimos que a doutrina não mudou, mudou a abordagem. O senhor é especialista em comunicação na Igreja. Podemos dizer que a mudança de Papa mudou a forma como a Igreja comunica com o mundo exterior?Há uma coisa interessante que eu digo muitas vezes às pessoas: vão ao site do Vaticano e façam download das homilias diárias do Papa na capela de Santa Marta. Podem ajudar muito na oração pessoal de cada um e podem ajudar os padres a preparar as suas próprias reflexões junto das comunidades. O papa Francisco trouxe esta proximidade com as pessoas. Diz-nos que não devemos fazer homilias abstratas e distantes, mas sim concretas e fáceis de perceber. Homilias para toda a gente. Fáceis de entender não significa não serem profundas, sublinho sempre isso. Significa apenas fáceis de entender. De novo, alguns preconceitos dizem que se comunicamos de forma simples somos maus comunicadores, mas é o oposto. Os melhores comunicadores são os que usam a linguagem mais simples e transmitem as melhores ideias.

Os padres e bispos estão a seguir esse exemplo?Devíamos seguir o exemplo (risos). Teria muito a dizer sobre isso. Esse é o meu trabalho, eu tento treinar pessoas para melhorarem a sua forma de falar em público, de pregar. Há muito espaço ainda para melhorar. Há contextos diferentes, mas se entendermos a comunicação enquanto oração, há muito espaço para melhorar. Já no que toca à comunicação da Igreja enquanto instituição, acho que o que temos hoje é um grande esforço para simplificar a comunicação. O novo portal, o Vatican News, por exemplo, que apenas numa página mostra toda a comunicação do Vaticano. Eles estão a fazer um ótimo trabalho. É um projeto muito ambicioso, há muitos bons amigos meus que trabalham lá, e estão a dar o seu melhor.

O Papa Francisco mudou definitivamente a ideia que a sociedade tem de um Papa?Cada Papa é um dom para a sua era. Mas se pesquisarmos no Youtube os primeiros filmes de Leão XIII, a primeira vez que chegaram ao Vaticano com câmaras de filmar, para fazer umas imagens do Papa. Foi em 1890 ou por volta dessa altura. É engraçado porque já nessa altura, no final do século XIX, víamos o Papa a tentar usar os novos media para comunicar. Tem havido um esforço, há mais de um século, de estar próximo das pessoas. Há vários exemplos. Até Pio IX, ainda no século XIX, a cumprimentar os jardineiros do Vaticano. São realidades que talvez desconheçamos, por sermos muito novos, por não estudarmos a fundo a biografia de cada Papa, mas a proximidade é algo da modernidade. E hoje o Papa Francisco pede-nos precisamente isso: que não estejamos longe das pessoas, tal como Jesus não esteve longe das pessoas.

João Francisco Gomes, 13 de Março de 2018 in Observador

domingo, 10 de dezembro de 2017

Pastor homofóbico espalha o ódio e afirma que a solução para acabar com a SIDA é matar os gays

Se o diabo existisse em pessoa, poderia ser este pastor...

Transcrevo em inglês uma triste notícia que nos dá conta dos discursos de um pastor que já foi preso no Botswana e expulso da África do Sul, mas que em terras presididas pelo Trump encontra espaço e liberdade para atentar contra os direitos humanos mais básicos.


By Bil Browning, Wednesday, December 6, 2017

America’s most homophobic preacher exhortation to Americans to kill all LGBTQ people is making the rounds again. Steven Anderson’s hatred may have gotten him arrested in Botswana and banned from South Africa, but his freedom of speech allows him to spew his vitriol in America. In the sermon, Anderson tells his flock that God demands all LGBT people be put to death and encourages them to do “as the Lord commands” by Christmas. The church uploaded the sermon online.

“Turn to Leviticus 20:13,” he says in the video, “because I actually discovered the cure for AIDS.”

“If a man also lie with mankind, as he lieth with a woman, both of them have committed an abomination: they shall surely be put to death. Their blood shall be upon them,” Anderson reads.

“And that, my friend, is the cure for AIDS. It was right there in the Bible all along — and they’re out spending billions of dollars in research and testing,” he said. “It’s curable — right there. Because if you executed the homos like God recommends, you wouldn’t have all this AIDS running rampant.”

Anderson goes on to say that LGBTQ people cannot be Christians and that he would not allow gay people to attend his services.

“No homos will ever be allowed in this church as long as I am pastor here,” he shouts. “Never! Say ‘You’re crazy.’ No, you’re crazy if you think that there’s something wrong with my ‘no homo’ policy.”
Watch the videos from 2014 below if you have the stomach for it.

Para ver os vídeos:

Saber mais:
Ouvir a entrevista relacionada com este artigo: The anti-gay interview that got American hate pastor arrested in Africa
Sobre as vítimas do ataque terrorista em Paris: Antigay pastor: Victims of Paris terror attacks deserved to die

domingo, 26 de novembro de 2017

Homossexualidade e parentalidade


E esta, hem?

A 13 de novembro deste ano, no programa "E se fosse consigo" da SIC notícias, o tema abordado foi a homossexualidade e parentalidade. Aconselho a visualização do mesmo, pela actualidade e pela relevância do assunto. O programa aborda temas como preconceito, discriminação e aceitação e explora também a reacção das pessoas perante essa mesma discriminação que, por vezes, chega a impressionar.

Ver este programa deixou-me esperançoso e orgulhoso com o país onde vivo.

Ver AQUI

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Crise de bispos em Portugal

Bispos e padres acusam núncio em Lisboa de ser pouco humano e nada “franciscano”

Por António Marujo a 14 de Outubro de 2017

“Muitas vezes, é pouco humano.” O desabafo, em declarações ao Expresso, de um dos bispos portugueses, acerca do núncio (embaixador) da Santa Sé em Portugal é revelador do mal-estar que, numa parte significativa do clero, existe em relação a Rino Passigato.

Outro bispo, que tal como o anterior, prefere não ser identificado – como quase todos os vinte membros do clero com quem o Expresso falou – recorda que são conhecidos “os problemas que ele criara” na Bolívia e no Peru, onde esteve antes de vir para Portugal, no final de 2008. “Os bispos que ele nomeava eram de uma linha tradicionalista” ou apenas interessados na carreira e no poder, acrescenta. Em Portugal, diz ainda, também o tem tentado fazer, apesar de, em alguns casos, ter tido a oposição de bispos ou padres.

Um terceiro bispo acrescenta, sem rodeios, que o núncio “só faz disparates” e ouve poucas pessoas. E lembra que eram conhecidas as relações difíceis entre ele e o anterior patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.

O desagrado começou cedo: pouco depois de chegar a Portugal, o conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) perguntou a Passigato que critérios tinha para a nomeação de bispos, pois o núncio deixara de pedir sugestões de nomes. Os responsáveis da CEP queriam saber como passara a ser.

Também no Vaticano a imagem do núncio em Lisboa “é muito fraca”, diz outro prelado. E pelo menos dois cardeais com funções muito importantes junto do Papa falam de um comportamento e uma forma de decidir “deplorável” e “incompetente”.

Todo este mal-estar se reavivou com a morte inesperada do bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, que criou mais uma vaga no episcopado português, a acrescentar a uma lista de substituições nada fácil: Évora (desde Abril do ano passado), Funchal (Abril deste ano) e Viseu, cujo bispo pediu também no mês passado – e viu ser aceite – a sua renúncia ao cargo, por razões de saúde.

Vila Real entra no rol já no próximo mês de Abril, quando Amândio Tomás completar 75 anos – por essa razão, terá de apresentar o pedido de renúncia. Santarém esteve sem bispo durante um ano, tendo o sucessor de Manuel Pelino sido nomeado sábado passado. Esta conjugação de vagas significa que o actual núncio moldará de forma decisiva o episcopado português dos próximos anos.

Receios e más memórias

Os receios de membros do clero em relação ao papel de Passigato prendem-se, também, com casos anteriores. Um deles tem a ver com a mudança de António Francisco, de Aveiro para o Porto, em Março de 2014. O processo demorou nove meses, depois da saída de Manuel Clemente para Lisboa, e a lentidão mereceu muitas críticas públicas à nunciatura.

Na altura, o bispo que agora morreu também resistiu à nomeação – e sofreu com ela: Aveiro era um barco à medida dos seus remos, costumava ele dizer, acabando nomeado contra a sua vontade e sem ter em conta a boa relação da diocese com o bispo. Os católicos de cada diocese também deveriam ser chamados a dar a sua opinião, dizia, em 2015, em entrevista à revista espanhola “Vida Nueva”, o próprio D. António Francisco.

No último momento antes da nomeação para o Porto, um grupo de padres aveirenses tentou demover o núncio. Passigato foi alertado para os problemas cardíacos do bispo – pouco tempo antes, tinha mesmo feito um cateterismo e os pais morreram ambos com um AVC.

O núncio “não esteve bem”, diz ao EXPRESSO o padre João Alves, ex-reitor do Seminário de Aveiro e, desde Setembro, pároco numa das paróquias da cidade. “A nomeação para o Porto não teve em conta os problemas de saúde”, sublinha. E diz: “Quando ele saiu de Aveiro, muitos previmos um futuro não muito longo, porque conhecíamos bem o seu jeito próximo de ser bispo.” Desde o início, vários perceberam que uma morte assim “era previsível.”

Por tudo isso, o padre aveirense – que, em 2014, esteve com o núncio – escreveu, logo depois da morte de D. António, ao diplomata, lamentando a “frieza” com que foram acolhidos há três anos e o desfecho do processo, mesmo se “não se deve falar em culpados”. Até ao fecho desta edição, não recebera qualquer resposta.

Outros padres recordam ainda o caso do actual bispo de Angra, João Lavrador. Conta-se que ele pediu ao núncio para não ir para os Açores, por ter ambos os pais acamados e a precisar de apoio. Acabou mesmo nomeado, em Setembro de 2015. O pai morreu em Abril de 2016 e a mãe em Janeiro deste ano. “Fala-se muito sobre a família, mas depois tomam-se decisões destas”, lamenta um padre. O próprio bispo não comentou.

Há uma outra voz que recorda: no livro “Cartas ao Papa”, o antigo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, obrigado ao exílio por Salazar na década de 1960, dizia que seria “bem mais competente e eficaz” que o papel dos núncios fosse desempenhado pelos bispos locais e pelas conferências episcopais.

Dia 27 de Setembro, o Expresso dirigiu várias perguntas ao núncio apostólico. Apesar da insistência, não foram recebidas quaisquer respostas."

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Um encontro de bloggers LGBTI

Nem só de palavras vive o gay

O autor do blogue adolescente gay tomou a iniciativa de organizar um jantar / encontro da blogosfera. É uma óptima iniciativa à qual o moradas de deus se vai associar. O intuito será apenas o convívio entre autores de blogues que abordam a temática LGBTI em Portugal. Os leitores dos blogues também estão convidados.

Para saberes mais, lê AQUI

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Holofotes em Fátima

Fátima, 100 anos depois

Não querendo deixar passar a data em branco, e por não ser um especialista de Fátima, moradasdedeus partilha com os seus leitores o Macroscópio de ontem, publicado no Observador, de José Manuel Fernandes

"Amanhã chegará a Portugal o Papa Francisco que presidirá à peregrinação que marca o centenário da primeira das aparições, a 13 de Maio de 1917. Uma boa ocasião para regressar a uma reflexão sobre o sentido de Fátima e sobre o seu significado para os portugueses. (...) Vamos apenas procurar guiá-lo através de alguns textos que podem ajudar a compreender melhor Fátima e as controvérsias quase tão antigas como a primeira das aparições.
A abrir gostaria de chamar a atenção para um dos textos que ajudaram a divulgar as aparições e mais terão contribuído para a credibilização do milagre de Fátima: a reportagem do enviado do jornal “O Século”, Avelino de Almeida, que a 13 de Outubro de 1917, foi uma das testemunhas do chamado “milagre do Sol”. A reportagem – Coisas espantosas! Como o sol bailou ao meio dia em Fátima – está reproduzida em vários sites (como este) e seria depois complementada com um testemunho porventura mais pessoal publicado duas semanas depois na Ilustração Portuguesa em conjunto com a reportagem fotográfica de Judah Ruah (de quem são a maioria das fotografias conhecidas desse da multidão que nesse dia se reuniu na Cova de Iria, nomeadamente a que abre esta newsletter). É desse segundo texto aquela que é, porventura, a passagem mais conhecida do seu testemunho: “E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite, aparecer e começar dançando n’um bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar… / Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi… o resto é com a Ciência e com a Igreja…

(Quanto aos testemunhos do que se passou nesse dia de Outubro o Observador recolheu alguns deles, assim como reuniu as imagens mais significativas, numa fotogaleria especial, em grande formato: 13 testemunhos sobre o "milagre do Sol".)

Feita esta rápida incursão ao passado, vejamos o que dizem hoje os historiadores, sendo que estes discutem sobretudo como Fátima se transformou no fenómeno que hoje é, mais do que debatem a autenticidade do que se passou. Ora uma dessas interpretações clássicas é a de Vasco Pulido Valente, que no seu livro A República Velha, dedica um subcapítulo a Fátima. No Observador reproduzimo-lo com o título Fátima, a política e a República. Pequena passagem, relativa à atitude que a Igreja portuguesa foi tendo ao longo dos anos: “Ao começo, a hierarquia manteve uma distância prudente, como se costuma dizer. O que significa que, ajudando e permitindo, só se comprometeu quando a reputação de Fátima estava estabelecida e o seu valor como símbolo político confirmado.

Mas neste ano de 2017 tem sido abundante a publicação de livros, tendo a Rita Cipriano selecionado alguns em O que ler durante a visita do Papa Francisco. Estão lá onze referências sobre Fátima mais três relativas ao Papa Francisco, todas apresentadas de forma muito breve.

Uma análise mais longa da bibliografia recente, comparando-a com as obras clássicas e com a monumental Documentação crítica de Fátima (cinco volumes organizados pela Igreja Católica, mais um volume com uma selecção dos principais documentos relativos ao período 1917-1930 e que está disponível em PDF) é a do longo ensaio de António Araújo no Público, Fátima, cem anos depois, publicado no passado mês de Fevereiro. Na sua síntese, depois de grandes controvérsias, hoje “prevalece uma abordagem mais serena e desapaixonada, da História à Teologia”.

Prova de que há sempre descobertas a fazer foi a revelação, ainda em Março, de que um anúncio no Diário de Notícias previa Fátima dois meses antes. É uma história curiosa, contada por João Céu e Silva, sobre uma pequena inserção publicitária, a 10 de Março de 1917, onde se escrevia: “135917. Não esqueças o dia feliz em que findará o nosso martírio. A guerra que nos fazem terminará." Estranho, mas interessante e sem aparente explicação.

Mas passemos agora à conversa – julgo ser este o termo mais adequado – que se tem desenvolvido entre vários padres e teólogos sobre o sentido e o significado de Fátima e a interpretação a dar ao que foi relatado pelos pastorinhos. Duas entrevistas de D. Carlos Azevedo – uma ao Expresso, outra ao Público – chamaram a atenção pelos seus títulos. “Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia”, no Expresso. “Maria não vem do céu por aí abaixo”, no Público. Eis uma passagem com o essencial da sua posição, retirada desta última referência: “Chegou o momento para falarmos com linguagem exacta. Joseph Ratzinger no ano 2000, quando fez o comentário teológico à última parte do segredo de Fátima, usou sempre a palavra visões e esse é o rigor teológico. O grande teólogo Karl Rahner também escreveu um livro sobre visões e profecias, usando a palavra visões. Esse é o termo exacto.”

Esta leitura remate precisamente para um texto de Joseph Ratzinger escrito antes de ser eleito papa e tomar o nome Bento XVI, um texto teológico de grande densidade que foi escrito pelo então responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé a propósito da revelação, por João Paulo II, do famoso “terceiro segredo”. Esse texto, intitulado simplesmente A Mensagem de Fátima, está disponível em português no site do Vaticano.

(Sobre as circunstâncias da revelação desse “terceiro segredo” vale a pena ler a entrevista que Aura Miguel, da Rádio Renascença, fez ao Cardeal Angelo Sodano, o homem que, no ano 2000, por decisão do Papa, levantou o véu do “terceiro segredo” de no final da missa de 13 de Maio, em Fátima, quando se soube que a visão era sobre as lutas contra os cristãos e contra o “homem vestido de branco”. A sua interpretação é que dar a decisão de João Paulo II o fazer foi por querer "relançar uma mensagem de esperança”).

A interpretação desse texto e a discussão sobre se estamos perante “visões” ou “aparições” já suscitou dois textos com interpretações diferentes no Observador: o padre Gonçalo Portocarrero de Almada interrogou-se sobre o tema em Fátima (1): Aparições ou visões?, tendo defendido que “Na Cova da Iria os pastorinhos tiveram visões e não aparições, mas o valor não é menor porque, como notou Bento XVI, visões têm uma força de presença tal que equivalem à manifestação externa sensível”; já o cónego José Manuel dos Santos Ferreira, num texto com um título quase igual, Fátima: visões ou aparições?, seguiu uma linha porventura mais tradicionalista: “Também os fenómenos físicos que acompanharam os acontecimentos de Fátima e foram observados por numerosas testemunhas, não podem ser frutos de uma visão imaginativa. O seu número é impressionante. Esses fenómenos exteriores manifestam sem qualquer dúvida possível a presença efetiva de uma pessoa celeste.

Ao mesmo tempo também há os que, dentro da Igreja Católica, contestem Fátima e o seu significado, nalguns casos de forma muito desabrida, noutras de forma mais moderada. Tânia Pereirinha do Observador falou com alguns deles em “Aquilo para mim não é Nossa Senhora, é um pedaço de barro!”. Dois padres – Anselmo Borges e Mário de Oliveira –, um frade – Frei Bento Domingues – e um bispo – D. Januário Torgal Ferreira – expuseram os seus argumentos. E se a contestação de Mário de Oliveira tem muitas décadas, a reflexão de Anselmo Borges, bem mais moderada, ficou também exposta em dois artigos no Diário de Notícias: O que eu penso sobre Fátima (1) e O que eu penso sobre Fátima (2). Nesses textos, para além de regressar ao tema das visões ou aparições, este padre considera que o núcleo da mensagem de Fátima é, “Em primeiro lugar, a oração. É uma grande mensagem? É. Para crentes e não crentes. Quem não precisa de rezar?” Já à outra mensagem, "Fazei sacrifício e penitência", considera que deve ser dado um enquadramento mais cuidadoso: “O sacrifício pelo sacrifício não vale nada, mas, por outro lado, sem sacrifício, nada de grande, de verdadeiramente valioso, se realiza”.

Ainda no domínio da teologia, uma referência para o texto de Paulo Mendes Pinto, especialista em Ciência das Religiões, na Visão: De “aparição” a “visão”: Ratzinger e a redefinição de Fátima como objecto de teologia. Eis o seu ponto de vista: “Ao definir Fátima como uma “visão”, subalterniza teologicamente o que possa ter acontecido, tornando-o “particular”, mas abre ao infinito todas as possibilidades de interpretação, dando guarida às formas mais pessoais de viver a fé. Isto é, ao libertar Fátima do peso excessivo de toda e qualquer narrativa, colocando sempre acima a Revelação bíblica, o futuro Papa dava a Fátima a possibilidade de fugir ao tempo, ao contexto e de continuadamente se poder recriar na maleabilidade e na subjectividade de cada crente no seu momento e no seu contexto específico.

Mas de todos os textos que tenho vindo a referir, talvez o mais notável, na minha perspectiva, seja o que resultou da conversa muito franca e aberta de João Francisco Gomes, do Observador, com o bispo de Leiria/Fátima, D. António Marto: “Representava melhor o diabo do que o anjo, ironia do destino”. Nela o teólogo que confessa ter sido céptico de Fátima explica como foi evoluindo na sua posição. Primeiro: “Quando acabei o curso, era um racionalista, éramos muito racionalistas. Tudo tinha de passar pelo filtro da razão, portanto tudo o que fosse de um ponto de vista mais do aspeto emocional, sentimental, era desvalorizado. Às vezes olhávamos até com desdém, com desprezo, para as expressões de piedade popular.” E depois: “Punha em causa algumas expressões da fé (risos). Sobretudo a piedade popular, mas isso era típico de uma espécie de cultura de elites, que olha com desprezo para o que é do povo, para o que é popular. A partir daí, mudou a minha maneira de ver e de avaliar esse aspeto da piedade popular. Claro que a piedade popular também precisa de ser purificada com os critérios do Evangelho, mas tem valores profundos, que não podemos desprezar sem mais.

Ao mesmo tempo, a estreia do mais recente do mais recente filme de João Canijo, Fátima –, um filme que acompanha um grupo de mulheres que peregrina desde Vinhais, que Eurico de Barros, no Observador, considerou que irá “ocupar um lugar especial, pelo método de elaboração e pelo ponto de vista, pela ponta inédita em que pega e pela qualidade dramática, pelo peso de verismo e pela isenção de “parti pris” e de julgamento, na filmografia nacional dedicada ao fenómeno fatimista” – suscitou também algum debate – este entre não crentes. O tiro de partida foi dado por Daniel Oliveira, no Expresso, numa coluna a que chamou Fátima, reflectiu sobre como “é difícil compreender este nosso povo sem compreender o culto mariano, a função libertadora do sacrifício e a experiência coletiva da fé.” Viu mais, pois em Fátima sinais de um “espírito comunitário” que aprecia. Fernanda Câncio veio contrariá-lo no Diário de Notícias, em Do ut des, ou Fátima, altar do egoísmo, onde defende a tese completamente oposta, a de ali só existe um “individualismo egomaníaco”.

Partindo deste filme, da entrevista de D. António Marto e também do que se diz nestes textos, eu próprio escrevi no Observador um texto assumidamente pessoal: Fátima, ou a confissão de humildade de um não-crente. Eis a forma como termino: “Não posso, nem devo, deixar de me emocionar quando olho para os peregrinos que se dirigem a Fátima animados por algo que é muito mais do que pedir uma graça, cumprir uma promessa ou simplesmente ajoelhar-se, acender uma vela e rezar. Tal como não posso deixar de pensar naquilo que não alcançamos, recordando de novo Bento XVI nessa mesma aula: “o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade”. Humanamente e simplesmente.

A fechar, até porque este Macroscópio já vai longo, mais uma inevitável referência ao último Conversas à Quinta, Fátima, da I República à tradição do culto mariano. Como saberão eu seu o primeiro fã deste programa, não por ser o moderador, mas pela imensa qualidade dos dois "conversadores", Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto. Desta vez arrisco dizer que a conversa foi ainda foi melhor do que o habitual. Superlativa, quer pela forma como Jaime Gama enquadrou Fátima na religiosidade popular e na tradição portuguesa, quer pelo que Jaime Nogueira Pinto recordou do Portugal (e do Mundo) de 1917. Não percam (também em podcast)."

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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