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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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segunda-feira, 25 de março de 2019

Lançamento de livro de Jean Vanier em Portugal

Novo livro de Jean Vanier

É depois de amanhã, dia 27 de Março às 21h na Capela do Rato, o lançamento do livro de Jean Vanier "Verdadeiramente Humanos". Jean Vanier é um teólogo canadiano, autor de numerosos livros, e fundador da L'Arche, uma organização internacional dedicada à criação de desenvolvimento de lares, programas e redes de apoio a pessoas com deficiência mental. Haverá uma conversa por esta ocasião. Para mais informações clicar no link acima.

domingo, 11 de março de 2018

Oportunidade e prática: a Quaresma

O tempo da Quaresma é um tempo prático

"Começamos hoje o tempo da Quaresma. São 40 dias que representam uma oportunidade especial, de preparação para a grande celebração, para o grande acontecimento da Páscoa de Jesus, nas nossas vidas. São 40 dias que recordam os 40 anos que o povo de Deus fez na travessia do deserto até entrar na Terra Prometida, e representam também esses 40 dias em que o próprio Jesus se preparou no deserto para a Sua vida pública. Isso quer dizer: os grandes encontros de Deus na nossa vida são encontros preparados. É claro: tantas vezes encontramos Deus de surpresa, e isso é muito bom. Mas encontramos Deus, também, por um ato de preparação, por uma abertura sincera de coração, por uma conversão interior, que nos aproxima de Deus, que nos abre à Sua presença e nos faz viver de uma forma mais sincera, mais objetiva, o “sim” que, como discípulos do Senhor, nós dizemos a Jesus.

Há uma frase de Kafka, que nos impressiona muito e descreve, em grande medida, o que é a nossa cultura contemporânea, o que é a nossa experiência, de mulheres e de homens, que atravessam este tempo: “Existe a meta, mas não há um caminho.” Existe a meta. Nós somos cristãos, batizados há sete ou há setenta anos, sabemos que há uma meta, olhamos para Jesus, ouvimos a Sua Palavra dominicalmente ou diariamente, alimentamo-nos dela e sabemos que sim, há uma meta, um ideal, sabemos aquilo a que somos chamados. E, contudo, como Kafka, também dizemos: “Mas não vemos um caminho. Não há um caminho.” E o que acontece quando há uma meta mas não há um caminho? Acontece um divórcio muito grande, entre o ideal e o real, entre a teoria e a prática, entre o que sabemos ser a vontade de Deus e, depois, a forma quotidiana, concreta, como vivemos ou deixamos de viver segundo essa vontade de Deus.

O tempo da Quaresma é um tempo prático, não é um tempo teórico. A Igreja, nestes 40 dias, entra para retiro, entra para exercícios, entra para manobras, para reconstrução, entra para conversão. E é assim que nos devemos sentir nestes 40 dias. Há uma expressão, um entendimento da vida que hoje está um bocado fora de moda, mas que ouvíamos em parte atravessando as leituras da Palavra de Deus, que hoje lemos, e que é o combate espiritual. Isto é: não há cristão sem combate espiritual. A fé é um dom, claro, mas também é um trabalho, uma fadiga, um compromisso, também é uma conquista, também é uma luta. E a divisão entre o bem e o mal, entre Deus e a sombra, não acontece apenas no mundo, acontece antes de tudo dentro de nós. Por isso mesmo, um cristão vive em luta, vive num desassossego, vive numa inquietação, porque sabe que é dentro de si que a verdade do reino começa por se construir. Não é fora de nós, é dentro de nós. Nesse sentido, toda a Palavra de Jesus é muito clara. Ele dizia tantas vezes: “Não é o que entra de fora do homem que o atinge, mas é do interior do homem que sai todo o mal.” Há no nosso interior tantas contradições, tantos paradoxos, tanta indecisão, tanta sombra que nós temos de olhar. Nós cristãos não temos nenhuma superioridade moral em relação aos outros homens e mulheres, nós somos pecadores. Nós estamos aqui porque somos pecadores chamados à santidade, tocados, feridos pela santidade de Deus, iluminados pela santidade de Deus, mas na vulnerabilidade, na fragilidade das nossas histórias.

Aquilo que diz S. Paulo, na Carta aos Romanos, é tantas vezes o que sentimos: “Quem me livrará deste corpo de morte? Que não faço o bem que quero, mas faço o mal que odeio.” Tantas vezes a nossa vida é assim, não fazemos o bem, que sabemos que é bem, mas fazemos o mal, as coisas mesquinhas, vivemos uma vida banal, recebemos tesouros que não pomos a render, adiamos, continuamente, a nossa vida para depois, achamos que é para o outro, que não é para nós. E este tempo da Quaresma é um tempo que pede de nós um cristianismo sério, uma adesão profunda de coração. Exige de nós este combate, esta luta, porque a conversão não é apenas uma palavra bonita, a conversão é um osso duro de roer. A conversão é uma fadiga, é um trabalho que precisamos de abraçar, sabendo que não há outra maneira de expormos a nossa vida no caminho pascal.

A Igreja, neste tempo santo da Quaresma, pede-nos três caminhos ascéticos, três caminhos de subida.
O primeiro deles é a oração. Um cristão, uma cristã, são mulheres e homens de oração, e nós precisamos de redescobrir a oração na nossa vida. A coisa mais urgente que cada um de nós tem para descobrir é o lugar da oração, o sentido da oração, a experiência de oração nas nossas vidas. Na mensagem do Santo Padre para esta Quaresma, o Papa Francisco diz: “Cristãos, deixem-se servir por Cristo, deixem-se tocar por Cristo.” A oração é isso: expor a minha vida a Cristo, dar tempo a Cristo, dar lugar a Cristo. Oração é estabelecer uma relação, não é apenas tratar Deus como uma ideia, como alguém distante, como um princípio filosófico, que nós até aceitamos. Não, na oração nós tratamos a Deus por “tu” ou por “vós”, mas tratamos a Deus numa segunda pessoa. Porquê? Porque Ele é um interlocutor da nossa vida, mantemos com Ele um diálogo vivo e esse diálogo anima-nos. Nós expomos a nossa vida, rezamo-nos, não apenas rezamos, nós rezamo-nos e Deus acolhe-nos, Deus ouve-nos. Há quanto tempo não falamos com Deus? – é a pergunta. Há quanto tempo não O ouvimos? Há quanto tempo não lhe damos um espaço real, um espaço concreto nas nossas vidas? Este tempo da Quaresma é um desafio muito grande à nossa oração pessoal, à nossa oração familiar, à nossa oração comunitária. Precisamos redescobrir a oração nas nossas vidas, porque às vezes a nossa vida é seca, seca. Cheia de tantas coisas, mas, no fundo, vazia, deste fio condutor que a oração representa nas nossas vidas. Por isso, que a Quaresma seja para nós, um grande laboratório de oração, e que no dia a dia nós privilegiemos também um tempo de oração.

“- Ah, mas eu gostava de rezar melhor.”
“- Começa por rezar, começa por rezar.”
“- O que é a bela oração?”
“- Não. Reza muito, reza muito. Porque no meio das coisas que a gente diz ou não diz, Deus é que escolhe, Deus é que escolhe a parte.”

Lembro-me sempre de um diálogo com um jovem – penso que já o contei aqui. Ele tinha descoberto, tinha-se convertido, tinha exposto o seu coração a Deus. E dizia: “Padre Tolentino, tenho rezado como um porco.” E, para mim, é das mais belas definições de oração, nunca ninguém me disse uma coisa tão bela sobre a oração. Porque o porco não escolhe, reza tudo, come tudo, devora tudo. Se a gente escolhe “vou rezar isto, ou vou rezar aquilo”, verdadeiramente não reza. Nós temos de rezar tudo, o importante e o banal, o próximo e o distante, o que é meu e o que é dos outros, o que está perto e o que está longe, temos de rezar tudo. Isto é: A capacidade de fazer de tudo oração, isso é que nos torna uns verdadeiros orantes. Há um poeta contemporâneo, Armando de Silva de Carvalho, que tem um livro chamado: O Cão de Deus. A oração dele é um ganir. Pode acontecer que a nossa oração não seja bem oração. A gente não tem palavras, só tem dores, só tem coisas que queria dizer e não consegue. Então, é a oração do cão, é a oração do ganir. Mas seja, é essa. Que o tempo de Quaresma seja, de facto, um tempo de exposição da nossa vida a Deus.

A outra via é o jejum. E o jejum é um meio muito importante no meio espiritual, que também é usado por outras tradições religiosas. Mas, no fundo, o jejum é a renúncia de uma coisa a que eu tenho direito e que eu posso. Mas renuncio a isso para relativizar o meu próprio eu. Nós temos um sentido crítico apurado em relação a tudo e a todos, exceto a nós próprios. Sem darmos conta, podemos até ser muito adultos, mas vivemos como miúdos caprichosos e mimados e, pior, conseguimos ter tudo o que queremos ou desejamos ou nos dá na gana. E, de repente, somos pequenos tiranos. O nosso eu é tirânico, tirânico em relação aos outros, tirânico em relação aos que vivem mais perto de nós, aos que vivem longe. Só nós existimos, só nós contamos, só nós sabemos, só nós podemos, só nós temos o direito. O jejum é o exercício de morrer para si próprio, dizer: “É meu” mas abdicar, isto de uma forma concreta na alimentação, sermos capazes de transformar a nossa dieta alimentar tornando-a muito mais sóbria do que é. Viver estes 40 dias com sobriedade, sobriedade. Claro que temos direito a isto e aquilo, mas dizemos que não. E, nas sextas-feiras desta Quaresma, nós não apenas vamos intensificar a sobriedade, porque é o dia desta prática ascética. É toda a Quaresma, mas as sextas-feiras são um dia especial. Nesse dia não vamos comer carne, não vamos derramar sangue. É um sinal, é um símbolo, mas a verdade é que nós alimentamo-nos dos outros e matar mais isto ou matar mais aquilo, para nós é completamente indiferente. Ora, vamos não derramar sangue, não dizer “a minha vida é mais importante que a tua”. Não. Vamos calar, calar a vida, morrer um pouco para nós próprios. E isso, claro que é um gesto simbólico mas é um gesto com muito significado. Não vamos dizer “eu quero comer carne, não posso pagar uma taxa?” “- Não, não vais pagar taxa nenhuma. Não vais comer carne.”

Fazer esse esforço para nos unir a uma tradição cristã, que tem séculos e séculos é, no fundo, perceber também o que é a carne, o que é o sangue, perceber o que é a vida, perceber que todas as vidas têm valor – mesmo a vida da vaca ou do frango que compramos no supermercado. Essa vida que alimenta a minha vida tem um valor e isso para nós é uma espécie de pedagogia: se eu dou atenção a esta pequena coisa ou vou dar maior valor às vidas daqueles que me rodeiam e não vou ser tão intolerante, não vou ser tão cheio de mim, ocupando o espaço que devo dar aos outros. Mas o jejum não é apenas esta contenção, esta moderação alimentar. O jejum é tudo aquilo que serve para relativizar o meu eu.

Muitas vezes, o jejum que nós precisamos é da língua. A facilidade com que falamos, com que julgamos, com que dizemos, com que matamos os outros com a nossa língua – no fundo, ser um tempo de silêncio, um tempo de contenção, um tempo para não falar, um tempo para não dizer. E como isso pode ser purificador da nossa vida, e como nós precisamos disso! Mas o jejum pode ser também de um pensamento, de um hábito, de um vício, de um costume que tenho, de uma coisa que me dá muito prazer fazer e que não tem mal nenhum, mas, precisamente neste tempo, vou abdicar disso para ser mais livre. O jejum custa, não há jejum que não custe, mas o jejum é uma máquina de criar liberdade. Porque, sem darmos conta, andamos cheios de chocalhos e de amarras, de algemas, disto e daquilo, prisioneiros, dependentes, ancorados, a achar que precisamos de uma lista enorme de coisas para ser feliz ou para estar em nós próprios. E, de repente, o jejum é cortar um bocadinho esses pesos e isso dá-nos uma liberdade muito grande, liberdade para ser, liberdade para viver, liberdade para acreditar.

Tudo isto culmina na terceira via, que a Igreja nos aponta nesta Quaresma, que é a via da esmola. Nós somos chamados, à imagem de Jesus na Eucaristia, a fazer da nossa vida um dom. A nossa vida só se realiza quando se torna dom, quando se torna Eucaristia. Isto é: quando se torna serviço, quando se dá aos outros. Então a esmola, antes de tudo, é um dar-se. Dar-se mais aos outros, dar mais tempo, ir falar a um amigo que não vejo há muito tempo, ir visitar uma pessoa a um lar, um parente a um lar, ir visitar um doente. Gastar do tempo da minha vida para os outros, dar-me, dar-me, repartir-me aos outros. E, depois, também dar das coisas que possuo, repartir o que ganho, ter isso em atenção, dar uma esmola, pensar numa instituição, juntar-me à renúncia diocesana, que a Igreja toda neste tempo faz em vista de uma obra comum. É muito importante que nos privemos de pequenas coisas para podermos ajudar, para podermos perceber o que significa a caridade. A caridade – que Deus tem tanta para connosco e, por vezes, nós temos tão pouca para com o nosso próximo. No fundo, é no dom, é na esmola, que pode ser uma coisa um bocadinho difícil de entender culturalmente, mas a esmola tem um sentido espiritual muito forte. Quer dizer: Não é dar uma coisa do alto do meu porta-moedas ou da minha conta bancária, mas é partilhar daquilo que eu vivo, partilhar do meu trabalho, partilhar do que eu tenho, e ter esse sentido muito profundo da comunhão. Porque os bens escravizam-nos e, se a gente fecha a nossa mão sobre o que julga possuir, somos possuídos por isso. O dinheiro é um brinquedo muito complicado num caminho espiritual, porque é uma barreira dificílima de vencer. E nós, cristãos, temos de ganhar uma liberdade muito grande face aos bens, porque a verdade é que os bens têm de ser simplesmente instrumentais, têm de servir – e isso de uma forma clara.

Queridos irmãs e irmãos, este tempo da Quaresma é, assim, um tempo que nos coloca perante o Deus que vê no segredo. Não podemos viver uma vida só de aparente virtude, de quem olha para nós e diz “sim, senhor, fulana de tal, muito boa pessoa; sim senhor, fulano de tal uma pessoa muito respeitável” – mas, depois, dentro de nós é uma confusão, é um embaraço, um desnorte.

A Quaresma é uma bússola para afinar a nossa vida pela vida de Jesus, por aquilo que recebemos Dele. Vamos pedir ao Senhor que nos dê este espírito de conversão. É importante que cada um de nós faça o seu programa de Quaresma, que defina: “Nesta Quaresma decidi fazer isto, isto e aquilo.” Não tem de ser muitas coisas. Pode ser uma, duas, três, mais não, senão depois ficamos irreconhecíveis e isso também Deus não quer. Mas fazer aquilo que é pequeno, coisas pequenas, porque as coisas grandes depois não as conseguimos fazer. Fazer coisas pequenas e fazer coisas pessoais. Isto é: A Quaresma não é para os outros. Eu não posso decretar: “A partir de agora só se come batatas lá em casa.” E os outros, que não gostam de batatas? Não, é para mim, não é para o outro. É para mim, vou dizer o que é para mim e deixar a liberdade para o outro ser. E serem coisas possíveis, porque às vezes entusiasmamo-nos e queremos coisas impossíveis. Não, há uma arte dos pequenos passos, das pequenas coisas, a arte dos possíveis – e isso é também fundamental numa vida espiritual. Vamos por isso, com este espírito, pedir ao Senhor que desça sobre nós, que seja o Seu Espírito a transformar-nos, a abrir o nosso coração, e a tornar-nos discípulos autênticos do Senhor."

Pe. José Tolentino Mendonça, Quarta-feira de Cinzas de 2015, homilia na Capela do Rato

quarta-feira, 23 de março de 2011

Em conversa com uma realizadora

Catarina Mourão: O cinema é uma janela para a transcendência
«A Lourdes e eu andamos vários anos até encontrarmos essa dança comum, ou seja vários anos até percebermos como nos relacionarmos perante a câmara e o filme. Porque uma coisa é a relação por detrás da câmara, outra a relação que a câmara depois traduz.»
Em entrevista ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e Agência Ecclesia, Catarina Mourão, realizadora de “Pelas sombras”, sobre a vida e obra da artista plástica Lourdes Castro, descreve a relação com a protagonista do seu documentário, fala da exibição recente na Capela do Rato, em Lisboa, partilha a sua visão acerca da relação entre cinema e transcendência e critica o panorama da sétima arte em Portugal.

O cinema domina, hoje, a sua vida profissional. Tornar-se realizadora foi uma escolha evidente desde cedo?
Desde cedo que o cinema me fascinou. Tornar-me realizadora foi uma escolha tardia. Licenciei-me em direito, embora nunca tenha gostado do curso. Ao longo do curso estudei música e comecei a trabalhar em cinema, sobretudo como tradutora de guiões e sinopses e, mais tarde, como assistente de produção e realização. Só depois da licenciatura em direito é que fui estudar cinema.

Como surgiu Lourdes Castro e a ideia de a filmar?
A ideia de filmar o trabalho e vida da Lourdes Castro surgiu em 1997. A Valentim de Carvalho Televisão estava na altura a pensar desenvolver um catálogo de documentários sobre artistas plásticos e desafiou-me a escolher uma artista. Eu escolhi a Lourdes Castro. Conhecia o trabalho da Lourdes, de que sempre gostei e, sobretudo, tinha visto uma performance/peça de teatro de sombras em 1985 no CAM que me marcou completamente. E, se calhar, inconscientemente, influenciou o meu cinema hoje. O cinema feito de pequenos gestos, de situações aparentemente invísiveis e anónimas.

À medida que “Pelas Sombras” se desenrola, há uma tal harmonia e fluidez narrativas, nos gestos de Lourdes Castro, na sua intimidade, o que partilha, que dá a sensação de que a vossa afinidade foi automática, de que as coisas surgiram tão claras e evidentes como a própria Lourdes. Foi assim?
Eu acho que houve logo de início uma grande empatia entre as duas, mas isso não quer dizer sintonia. É como uma dança, é preciso perceber os ritmos de cada um. A Lourdes e eu andamos vários anos até encontrarmos essa dança comum, ou seja vários anos até percebermos como nos relacionarmos perante a câmara e o filme. Porque uma coisa é a relação por detrás da câmara, outra a relação que a câmara depois traduz. É evidente que andam as duas muito próximas mas houve obviamente um trabalho de “mise en scène” e ajuste para permitir que os vários encontros entre a Lourdes e eu, o quotidiano e o trabalho, o som e a imagem provocassem qualquer coisa nova. É isso que faz o cinema: não é um mero registo mas a invenção de uma nova realidade a partir da realidade filmada e anteriormente observada.

Quanto tempo durou a rodagem do filme?
As primeiras filmagens datam de 2003, mas de uma forma mais sistemática e com a certeza que estávamos a fazer um filme, a partir de 2007. De 2007 a 2010 filmámos uma semana por estação do ano.

De que forma participou Lourdes na conceção do filme?
A Lourdes participou no filme não só como personagem que se expõe ao longo de todo o filme mas também na medida em que o seu trabalho presente, o quotidiano no jardim e na casa, tomam forma através do filme. Ou seja, é de certa forma no filme que a Lourdes verbaliza de forma mais assumida como a sua obra está em total fusão com a sua vida. Nesse sentido o filme e a sua obra confundem-se um bocado. Ao tornar visível através do filme, uma obra que é aparentemente invisível “por ser grande demais ou pequena demais” (palavras da Lourdes) o filme acaba por participar da obra da Lourdes assim como a obra da Lourdes participa do filme, embora essa construção, representação do trabalho da Lourdes seja feita por mim, através do meu olhar. Mas há como que uma fusão muito grande entre o meu olhar e a construção do filme e a construção da obra da Lourdes através do filme.

Teve a preocupação de se preparar muito bem para filmar Lourdes ou optou por descobri-la à medida da rodagem (pelo menos numa fase inicial)? 
Preparei-me conhecendo a obra da Lourdes, lendo textos sobre o trabalho dela, textos do Manuel Zimbro, textos do João Fernandes. Mas tudo isto é apenas uma contextualização. Uma relação faz-se no terreno, no dia a dia. Uma pessoa tem sempre muito mais dimensões que transcendem a sua obra. Foi na preparação e na rodagem que fui descobrindo a Lourdes e ela a mim. Essa relação e descoberta continua hoje.

Que impacto teve o filme em Lourdes? Teve a perceção se a transformou, de algum modo?...
Acho que qualquer experiência onde nos envolvemos com maior profundidade nos transforma. Neste caso, acho que o tempo da Lourdes e a sua opção de não ter pressa e de valorizar o momento presente foi muito importante para mim, influenciou o filme e influenciou o meu olhar. Permitiu-me relativizar muita coisa e perceber o que é importante. Às vezes esquecemo-nos de que a vida se conjuga no presente e estamos sempre a projetar para a frente. Isso não quer dizer que não se planeie e antecipe algumas coisas mas tudo no sentido de melhor desfrutar a vida presente, o lado sensorial da vida também. Hoje em dia tendemos a ser cada vez mais cérebro e pouco corpo.

O que lhe suscitou este convite para apresentar o seu filme numa capela? 
Gostei muito da experiência. Acho que os filmes só ganham em ser mostrados em contextos diferentes, com públicos diferentes. De certa forma a atenção e concentração que se tem numa igreja pode ter pontes de contacto com a atenção que se tem no cinema.

Em que medida considera a importância do cinema como via de transcendência?
O cinema e as artes em geral podem ser uma via de transcendência. Para mim, transcendência é aquilo que nos transporta para uma dimensão diferente, mais espiritual e emocional. É de certa forma aquilo que nos permite aceder a zonas do nosso inconsciente que não exploramos normalmente, mas também a qualquer coisa que nem sempre conseguimos explicar racionalmente. E a arte tem um papel fundamental nisto. É através dela que podemos organizar emocionalmente aquilo que nos rodeia. O cinema pela sua dimensão onírica é facilmente uma janela para essa transcendência, nele jogam a subjetividade, a poesia, a metáfora, e o sublime também.

E o seu papel na sociedade atual - como motor de reflexão e debate?...
O cinema tem também uma dimensão política, pedagógica. Sobretudo, o cinema documental que convoca a realidade e a transforma, é, sem dúvida, um motor para reflexão e debate. O documentário que me interessa é aquele que não procura dar respostas mas sim levantar questões, acordar o espectador para novas problemáticas e, sobretudo, novos pontos de vista sobre a sociedade em que vivemos. Nesse aspeto acho que o filme “Pelas Sombras” é também um filme político, na medida em que nos chama a atenção para a necessidade de mudarmos um pouco de paradigma na forma como muitos de nós vivemos, numa sociedade demasiado capitalista e orientada para o consumo.

Que balanço faz da sua carreira cinematográfica?
É difícil responder a essa pergunta. A minha carreira tem quase 14 anos. Acho que é um momento de balanço. Em cada filme que faço sinto que estou a sempre a experimentar novas abordagens e acho que o meu percurso será sempre o da experiência. Embora consiga identificar uma continuidade no meu trabalho, há rimas claras de uns filmes para os outros. No entanto, em Portugal aposta-se muito pouco numa continuidade dos artistas, e fazer um filme de quatro em quatro anos é muito pouco.

E projetos?
Neste momento estou a desenvolver um novo projeto na Índia, mas ainda não tenho financiamento, por isso tenho de ir devagar. Estou a escrever e a trabalhar para um projeto de doutoramento sobre a representação do sonho no cinema. Mas dou aulas de cinema, é isso que me permite continuar.

Que comentário faz ao momento atual do cinema em Portugal? 
É um momento muito difícil, mas não tenhamos ilusões: nunca foi fácil fazer cinema em Portugal. Talvez essa dificuldade se reflita na identidade do cinema português para o bem e para o mal. De qualquer forma existe uma certa esquizofrenia no sentido em que o cinema português é muito bem recebido fora de Portugal e depois em Portugal há pouco apoio para a sua divulgação. Este filme “Pelas Sombras” deveria ter tido o percurso natural de um filme e passar com regularidade numa sala de cinema. No entanto, não houve nenhuma distribuidora que quisesse arriscar. Há um preconceito muito grande ainda em relação a este tipo de cinema que não trabalha com atores profissionais e que opta por um modelo de produção diferente do da ficção. Até mesmo nos júris do Instituto de Cinema, onde deveria haver maior informação e abertura, um realizador como eu é sempre classificado de forma inferior ao de um realizador de ficção. Nesse aspeto, o cinema em Portugal ainda é recebido com uma arte muito formatada, sempre sujeita a tipologias e classificações e isso prende-se com a tentativa de aproximar o cinema da indústria; torná-lo rentável economicamente. Só que, às vezes, há muita falta de visão e, filmes aparentemente menos convencionais, podem encontrar o seu público. Acho que os públicos se estão a transformar, não há um público mas sim vários públicos. Por alguma razão este filme, quando consegue ultrapassar o crivo de uma primeira seleção (em festivais por exemplo...), acaba por ser premiado e ter uma grande adesão do público.

Se dispusesse de todos os meios para tal, o que escolheria fazer nos próximos tempos?
Escolheria fazer exatamente o que faço, mas gostaria de ter financiamento para realizar o meu próximo filme na India.

“Pelas sombras” ganhou o prémio Signis Portugal-Árvore da Vida, da Igreja Católica, na edição de 2010 do IndieLisboa, festival internacional de cinema independente.

Por Margarida Ataíde, in SNPC 

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ouvir o Cântico dos Cânticos

Henry Scott Tuke

Luís Miguel Cintra lê Cântico dos Cânticos na Capela do Rato 
                                      
Luís Miguel Cintra, actor e encenador do Teatro da Cornucópia, lê o livro bíblico do “Cântico dos Cânticos”, na Capela do Rato, no dia 20 de Março (próximo Domingo), às 21h30.

O Cântico dos Cânticos é um dos poemas mais antigos da humanidade, considerado um dos tesouros dessa biblioteca que é a Bíblia judaico-cristã. A natureza erótica do Cântico dos Cânticos não impediu que ele seja o texto bíblico mais lido e comentado pela mística ocidental.

A oportunidade de ouvir esta obra, lida pelo actor e encenador Luís Miguel Cintra desperta justamente a maior expectativa.

O “Cântico dos Cânticos” começa desta maneira:

«Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores são as tuas carícias que o vinho,
ao olfacto são agradáveis os teus perfumes;
a tua fama é odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas»

A Entrada é Livre.

Capela do Rato (Calçada Bento Rocha Cabral, 1B, Lisboa)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um elogio à sombra ou documentário sobre Lourdes de Castro

nota: esta fotografia não corresponde ao documentário
Na próxima quarta-feira, dia 16 de Março, na Capela do Rato em Lisboa. Recordo ainda que uma obra desta artista está exposta no altar da mesma capela.




"Pelas sombras" abre ciclo de cinema e espiritualidade
A Capela do Rato, em Lisboa, vai projetar o documentário "Pelas sombras", de Catarina Mourão, na próxima quarta-feira, 16 de março, pelas 21h00.

O filme é o primeiro do Ciclo de Cinema e Espiritualidade, a decorrer mensalmente naquele espaço, numa iniciativa do Departamento de Cinema da Universidade Lusófona e da Secção de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

O filme da jovem realizadora Catarina Mourão, que estará presente na sessão, documenta a inspiradora vida e obra de Lourdes Castro, numa tocante homenagem à luz e transparência da artista madeirense.

Escolha do júri "Signis" (Igreja católica) para atribuição do Prémio Árvore da Vida na edição de 2010 do Indielisboa, o filme e a sua passagem pela Capela do Rato cumprem o que, nas palavras do diretor do SNPC, padre Tolentino Mendonça, é “o cinema como lugar teológico, também lugar sacramental, pois está a ver o mais profundo do coração humano”.

A sessão constitui também um convite à reflexão e aprofundamento das relações entre cinema e Igreja, através de um debate que conta com a presença de Inês Gil, professora de Cinema e Fotografia da Universidade Lusófona, Paulo Pires do Vale, professor de Filosofia da Universidade Católica e padre Tolentino Mendonça.

Margarida Ataíde / in SNPC

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um desenho para ler

Antes de me despedir - estarei ausente durante alguns dias - envio o cartão de Natal que a Capela do Rato distribuiu este ano. O  texto é do evangelho segundo S. João, o desenho é de Rui Aleixo (os cartões impressos têm na retaguarda uma oração de José Tolentino Mendonça).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um anjo à janela

Lourdes Castro
Manuel Zimbro
Atelier Berlin XII 1978
Fotografia Monika Hasse
A Capela do Rato, em Lisboa, continua a suscitar o diálogo entre Arte Contemporânea e Sagrado.

Desde o dia 10 de Dezembro que se pode ver instalada na capela uma obra ímpar da artista Lourdes de Castro. Lourdes de Castro é um dos principais nomes da arte portuguesa do século XX e XXI, mais conhecida e amada pelos artistas do que pelo público em geral.

Este ano Serralves dedicou uma exposição ao seu trabalho (ler neste blogue http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/03/sombra-versus-forma-lourdes-castro-e.html).

O Anjo de Berlim é da autoria de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro. À semelhança da anterior peça exposta na capela (de Gabriela Albergaria), o "Anjo" foi montado no altar-mor da capela.

Aconselho mesmo uma visita: vale a pena. (Sem sombra de dúvida.) É uma obra sensível e belíssima, como não poderia deixar de ser um trabalho desta grande mulher. A imagem na mensagem não se compara à experiência da obra-de-arte. Ver para crer!

Ler sobre a Capela do Rato no moradasdedeus
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/03/arte-na-capela.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/09/uma-arvore-numa-capela.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/um-sopro-de-musica.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/dialogos-de-cultura.html

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um sopro de música

O que antes era frequente, tornou-se mais raro no século XX: as encomendas que a Igreja fazia de arte sacra, fosse ela talha, pintura ou música. Podemos estar a virar uma nova página com o novo século nes te começo de milénio. De facto, tem havido um movimento nesse sentido, muito dinamizado (ou simplesmente divulgado) pela Pastoral da Cultura. Um dos bons exemplos tem sido a Capela do Rato. 

"Vento": Missa de Pentecostes de João Madureira vai ser apresentada este mês
 O CD “Vento”, interpretado pelos “Sete Lágrimas”, que corresponde a uma Missa de Pentecostes encomendada pela Capela do Rato, em Lisboa, vai ser apresentado a 25 de novembro.

As 10 músicas do disco, executadas pela primeira vez a 23 de maio de 2010 na Capela do Rato – que vai receber a sessão de lançamento – foram compostas por João Madureira (n. 1971), a partir de textos litúrgicos e poemas de Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, Maria Gabriela Llansol e José Augusto Mourão.

O livro que acompanha o CD inclui textos de José Tolentino Mendonça, Alberto Vaz da Silva, Cristiana Vasconcelos Rodrigues, Joana Carneiro e João Madureira.

Sete Lágrimas
Os “Sete Lágrimas” têm direção artística dos tenores Filipe Faria e Sérgio Peixoto. Sofia Diniz (viola da gamba) e Hugo Sanches (tiorba) completam o agrupamento.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Diálogos de Cultura

Na próxima segunda dia 11 de Outubro, às 21h30, o bispo do Porto (encarregue pela Pastoral da Cultura) D.Manuel Clemente vai estar na Capela do Rato em diálogo com o José Manuel Fernandes, anterior director do Público e colunista do mesmo diário. Parece-me um programa imperdível.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma árvore numa capela

A capela do Rato continua a surpreender. O projecto Diálogo Arte Contemporânea e Sagrado já trouxe um desenho, uma obra musical e a leitura do livro do Apocalipse. Artistas plásticos, músicos, compositores e actores: todos são acolhidos nesta pequena casa de Deus e do Mundo. A instalação que agora se apresenta no altar é a Natureza transportada e transformada. Aqui fica uma nota sobre o trabalho de Gabriela Albergaria:

Sem árvores não se pode falar de árvores
O atelier de Gabriela Albergara são os jardins, os bosques, os matagais silenciosos, a paisagem vegetal. A artista vai adoptando modalidades diferentes de abordagem ao seu objecto (Seja através do desenho, da escultura, da instalação ou da fotografia), e sempre com um fito que permanece inalterado: o desejo de habitar e descrever esses territórios, sem interferir demasiado neles.
Na obra de Gabriela Albergaria não nos sentimos necessariamente a caminhar para um bosque, mas sentimos o contrário: que o bosque caminha ao nosso encontro, que o jardim se desloca para o interior da casa, que as árvores chegam de longe para ver-nos.

Neste sentido, a sua proposta vem abalar algumas fronteiras culturalmente estáveis e relança o espaço para uma ampla indagação. A começar pela definição de arte. Aristóteles garantia aquilo que de tornou canónico na tradição ocidental: “a arte imita a natureza”, isto é, representa-a.

O projecto de Gabriela Albergaria estabelece-se claramente em ruptura com esta concepção. Por exemplo, na obra que vai mostrar na Capela do Rato, ela não escolheu representar uma árvore fabricando uma imagem, uma escultura... Ela foi ao bosque buscar uma árvore.
É claro que, depois, a transforma pelo efeito da recontextualização. Mas há uma coisa que ficou afirmada de modo contundente: sem árvores não se pode falar de árvores. E nesta afirmação cabe toda uma ética.

Que disse Luís Barragán? “A tarefa da nossa época é combinar a vitalidade e a calma”.
Do mesmo modo, o processo de construção do conhecimento em Gabriela Albergaria é indissociável da experiência, impensável fora da contemplação, irreconhecível longe do contacto com a presença. Ora, estas são anotações que se podem transpor, sem mudar uma vírgula, para o território espiritual. Vemos assim que o diálogo da arte contemporânea com os espaços da crença não se resume ao impulso visual, mas implica-nos a todos num exercício de mútua iluminação.

para ver a obra, terão mesmo de ir ao local: a missa de Domingo é às 12h30

segunda-feira, 29 de março de 2010

Arte na Capela

A Capela do Rato foi invadida pelo projecto Arte Contemporânea e Sagrado. (...) Há um artista plástico inspirado pela poesia, o deserto e a música, um compositor a criar uma missa para uma função cívica. E ainda uma artista que trará um Anjo de Berlim e uma outra que talvez crie uma árvore da vida. Há ainda um padre que desafiou todas estas pessoas e uma galerista que os pôs a todos à conversa. Na Capela do Rato, em Lisboa, o espaço religioso converte-se em lugar de instalação artística.
O projecto Arte Contemporânea e Sagrado foi inaugurado no dia 26 de Fevereiro à noite com a instalação da obra Quando o Segundo Sol Chegar, de Rui Moreira. O desenho ficará exposto até princípio de Maio, quando será substituído por uma obra de Gabriela Albergaria. No final do ano, coincidindo com o tempo litúrgico do Advento, será exposto Anjo de Berlim, de Lourdes Castro. E a 23 de Maio, uma missa de Pentecostes, composta por João Madureira, terá a sua estreia na capela, cantada pelos Sete Lágrimas. A iniciativa ficará registada num livro a ser editado no final do ano pela Assírio & Alvim.

in Arte e cristianismo http://www.snpcultura.org/

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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