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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sábado, 23 de junho de 2018

Petição ao Papa Francisco para mudar a linguagem LGBTQI da Igreja

Partilho uma petição enviada pela GNRC (Rede Global de Católicos Arco-Íris) e criada pela "Nós somos Igreja" da Irlanda. Passo a divulgar o comunicado de imprensa:

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PRESS RELEASE 7 June 2018
PETITION TO POPE FRANCIS:
CHANGE CHURCH LGBTQI LANGUAGE

Today, Thursday 7th June We Are Church Ireland is launching a petition calling on Pope Francis to change Vatican theological language that is gravely insulting to LGBTQI people.

Words like 'objectively disordered ' and ' intrinsically evil' to describe any human being is wrong but for an institution like the Catholic Church to teach that these words are an expression of the mind of God to describe her image in LGBTQI persons is not alone scandalous but blasphemous.

The petition is being launched by Ursula Halligan of WAC Ireland, Senator David Norris and Pádraig Ó Tuama of the Corrymeela Community.

Find the petition on Change.org at:

https://www.change.org/p/info-dublindiocese-ie-pope-francis-change-church-lgbtqi-language?recruiter=16658031&utm_source=share_petition&utm_medium=copylink&utm_campaign=share_petition

'We Are Church Ireland encourages every Catholic who continues to be enraged by this Vatican Un-Christian language to sign the petition demanding the withdrawal of this offensive language to describe our LGBTQI sisters and brothers' stated Brendan Butler.

Brendan Butler, We are Church spokesperson.

Ir directamente para a PETIÇÃO

segunda-feira, 26 de março de 2018

Balanço de 5 anos de pontificado do papa Francisco

“A grande revolução foi a resignação de Bento XVI; foi como um choque elétrico”

O académico do Vaticano Sergio Tapia-Velasco afirma que a Igreja precisava de um Papa como Francisco "para reagir" à verdadeira revolução que foi a resignação de Bento XVI. Foi há 5 anos.

Um mês foi quanto durou uma das maiores reviravoltas da história recente da Igreja Católica. A 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciava a inédita decisão de abdicar do pontificado (o último Papa a resignar havia sido Gregório XII, em 1415); a 13 de março, o mundo via assomar à varanda na praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco, um aparente oposto do seu antecessor. Completam-se esta terça-feira cinco anos desde que foi eleito o primeiro Papa jesuíta, que surpreendeu o mundo desde o primeiro dia com gestos de simplicidade: o seu primeiro ato foi deslocar-se pessoalmente à residência onde tinha dormido durante o Conclave que o elegeu, para pagar a conta.

Para o padre e professor mexicano Sergio Tapia-Velasco, professor de comunicação da Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Roma, aquele mês foi o início de uma revolução na Igreja Católica. Numa entrevista ao Observador em Lisboa, em que fez um balanço dos cinco anos do papa Francisco, o académico do Vaticano e comentador de assuntos relacionados com a Igreja em meios de comunicação social internacionais como a CNN ou a RAI explica que a resignação de Bento XVI foi “a grande revolução”, comparando o momento a um “choque elétrico” que transformou radicalmente uma Igreja a precisar de ser agitada e de mudar. Francisco, explica o sacerdote, foi o “fisioterapeuta” que veio colocar a Igreja em movimento novamente depois desse choque.

O que mudou na Igreja nestes cinco anos?A primeira revolução nos últimos cinco anos foi a resignação do Papa Bento XVI. De facto, ninguém esperava que um Papa resignasse. Não houve uma resignação de um Papa durante mais de 400 anos, e quando o Papa Bento XVI resignou foi um choque para todos nós, especialmente para nós, que vivíamos em Roma. Não estávamos mesmo à espera.

A Igreja não estava preparada para a resignação de um Papa?Penso que a Igreja estava preparada. Agora, passados cinco anos, quando olhamos para trás e analisamos o último ano do Papa Bento XVI, podemos encontrar diferentes gestos, ou diferentes sinais, que nos fazem pensar que, de facto, o Papa estava a preparar tudo. Mesmo que não estivéssemos a reparar.

Por exemplo?Tanto quanto sabemos, o Papa Bento XVI tomou a decisão de resignar no dia em que caiu, na viagem ao México, em 2012, e percebeu que no ano seguinte teria de enfrentar uma nova viagem à América, para as Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro. Ele pensou: “Se caí aqui e magoei a cabeça, o que irá acontecer no próximo ano?” Ele já sentia as pernas muito fracas, e hoje vemos que é verdade, ele está muito fraco.

Outro sinal foi que na viagem de regresso a Roma, depois da visita ao México, ele decidiu dar imediatamente início ao restauro do mosteiro onde vive hoje. Ainda demorou seis meses a fazer os preparativos da casa, mas já estava a pensar em mudar-se para lá. Depois, quando começamos a ler os últimos discursos, a partir de julho de 2012, começamos a ver que ele fazia várias referências que indicavam que estava de saída, que a Igreja está nas mãos de Deus. Como que a preparar as pessoas para a decisão que ele estava a tomar.
E é por isso que no dia em que se marcam os cinco anos do papado de Francisco, a primeira parte desta entrevista é exactamente sobre o homem que o antecedeu.

Mas posso dizer que, de facto, ninguém estava à espera. Até podemos lembrar quando ele visitou Áquila, quando houve lá um grande terramoto. Um dos edifícios que ruiu foi a catedral da cidade, onde estava sepultado São Celestino. O papa Bento XVI, nesse dia, deixou a sua estola no túmulo de São Celestino. Hoje, associamos o gesto, porque Celestino foi um dos papas que resignaram. Ou seja, há pequenos sinais, para os quais não temos uma leitura formal, mas que nos podem indicar isso.

Há quem diga que ele já estava a pensar nisso desde a eleição. Se lermos a entrevista que ele deu a Peter Seewald, The Light of the World, o Papa Bento XVI responde explicitamente que ele tinha estado a pensar em resignar.

Como avalia o papado de Bento XVI, a uma distância de cinco anos?Bom, obviamente eu sou um crente. Sou um padre, sou verdadeiramente convicto de que a Igreja é guiada pelo Espírito Santo. Acredito que Deus inspirou o Papa Bento XVI a resignar e inspirou os cardeais a eleger o Papa Francisco. Nunca duvidei disso. A resignação foi um ato providencial. Deus previu-o e usou-o para agitar a Igreja e para nos fazer mudar, para nos fazer refletir na necessidade de mudarmos.

A verdade é que o Papa Bento XVI foi muito criticado pelos seus pontos de vista mais tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, muitos teólogos consideram o seu trabalho um dos contributos mais importantes para a evolução da teologia nas últimas décadas.Penso que, na maioria das vezes, as críticas são preconceitos com origem na má informação sobre alguém. Quando entramos em contacto com a pessoa, a maioria dos nossos preconceitos desfazem-se. O que aconteceu com o Papa Bento XVI? Ele é provavelmente o melhor teólogo do século XX. A Igreja teve grandes teólogos no último século, certamente, mas quando pensamos, por exemplo, no diálogo entre Joseph Ratzinger e Jürgen Habermas e vemos duas grandes mentes a debaterem sobre todos os assuntos, é como assistir a dois grandes fogos de artifício. É surpreendente. O que aconteceu foi que, devido ao trabalho que tinha enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi rotulado com o cliché de “grande inquisidor”.

Estereótipos, na maioria das vezes?Sim, penso que foram sobretudo estereótipos. Na verdade, qualquer pessoa — e posso garantir isto — que tenha conhecido diretamente o papa Bento XVI derretia imediatamente. Ele é uma pessoa muito gentil. Não apenas gentil, mas também com uma forma de falar que é verdadeiramente convincente. Eu sou professor de retórica e fazemos muita investigação sobre a retórica do papa Bento XVI. Certamente, também o faremos no caso do papa Francisco, mas no caso do papa Bento XVI conseguimos ver uma forma de pensar muito profunda.

Nós hoje temos acesso à Internet com facilidade, por isso, sugiro a qualquer pessoa que ainda tenha preconceitos sobre o papa Bento XVI que vá ouvir a gravação original da última audiência geral, na última quarta-feira antes do dia 28 de fevereiro de 2013, quando ele deixou o governo da Igreja. É um discurso adorável e mostra bem como ele se sentia e como ele pensava.

Nas ‘Conversas Finais’, quando o jornalista Peter Seewald pergunta ao Papa Bento XVI como é que ele olhava para as críticas que lhe dirigiam sobre a abertura da Igreja a outras religiões e culturas, dá alguns exemplos interessantes: tinha sido o próprio Bento XVI a nomear um protestante para o Conselho Pontifício para a Ciência, a colocar um professor muçulmano na Pontifícia Universidade Gregoriana, a abrir a tradição católica aos anglicanos, e por aí fora. Na sua opinião, as críticas eram injustas?Hoje, ao fim de cinco anos, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Vivo em Roma há 24 anos. Estive lá com João Paulo II, com Bento XVI e com Francisco, e acredito genuinamente que os três foram dons do Espírito Santo. Mas quando penso em Bento XVI, sinto uma simpatia particular por causa disso. Ele foi maltratado por muita gente, sem perceberem o peso que tinha aos ombros e a luz que ele espalhou pela Igreja, naquela dia e no futuro.

Muitas pessoas criticaram-no, por exemplo, apenas por ser simpático, por não gritar. Diziam que ele não governava a Igreja. Mas se olharmos para os números e tentarmos perceber, por exemplo, quantos bispos ele obrigou a resignar durante os oito anos do seu pontificado, foram cerca de 80 bispos. Isso significa pedir a um bispo que resigne, por razões graves, quase todos os meses. Se isso não é governar, então o que é governar?

Um dos principais problemas que emergiram durante o pontificado de Bento XVI foi o escândalo dos abusos sexuais. Ele lidou bem com esse escândalo?Novamente, acho que ele foi providencial. Se hoje temos este programa de tolerância zero para com os abusos sexuais, é devido ao Papa Bento XVI.

Porquê?É um processo longo. Ainda no tempo do papa João Paulo II, quando o cardeal Ratzinger estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, era ele quem estava encarregado dos julgamentos deste tipo de crimes. Só para dar um exemplo, foi Bento XVI quem exigiu que se fosse até ao fim no caso do padre Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, [que em 2006 foi obrigado por Bento XVI a renunciar ao ministério por ter cometido abusos sexuais contra jovens seminaristas durante as décadas de 50 e 60].

Mas não foi apenas esse caso. Como estava a dizer há pouco, durante a sua governação, o papa Bento XVI não apenas seguiu os casos de abusos como também expulsou da liderança da Igreja 80 bispos, que ele pensou que não estavam a governar de forma justa ou que estavam a obstruir.

Muitas críticas vieram precisamente de bispos e cardeais. Recordo, por exemplo, quando ele escreveu a carta aos católicos da Irlanda, no início do escândalo da pedofilia, a defender que estes casos deviam ser entregues às autoridades civis. Na altura houve bispos a defender que os casos não deviam ser expostos dessa forma.Houve muitas críticas dentro da Igreja. Enquanto crente, defendo sempre que a Igreja é uma instituição sobrenatural, na medida em que é de Deus e existe para nos guiar para a salvação, mas ao mesmo tempo a Igreja é uma sociedade humana, e sempre houve conflito entre as duas dimensões. Lembro-me de um antigo professor de Filosofia que eu adorava, o Leonardo Polo. Na sua introdução à filosofia, ele começava por referir que o livro se chama “Quem é Homem?” para responder: “O Homem é o animal que problematiza”. Essa é a sua categoria de entender o Homem. Quando um leão tem um problema com outro leão, mata-o. Não está pronto para argumentar. Pelo contrário, nós argumentamos, e num certo sentido é bom que muita dessa discussão venha do interior da Igreja, porque isso faz a Igreja crescer.

Como estava a dizer antes, acho que muita gente foi injusta para Bento XVI. Mesmo alguns bispos foram injustos. Por exemplo, quando o papa Bento XVI levantou a excomunhão de quatro bispos que foram ordenados à revelia da Santa Sé pela Fraternidade São Pio X, do arcebispo Marcel Lefebvre, houve um enorme escândalo, porque um dos bispos, Richard Williamson, era negacionista do Holocausto. [Os bispos ordenados naquela fraternidade tradicionalista entram automaticamente em excomunhão com a Igreja Católica, porque a fraternidade não é reconhecida canonicamente pelo Vaticano. A fraternidade defende que a Igreja devia tornar a ser como era antes do Concílio Vaticano II, sendo a favor, por exemplo, das missas em latim de costas para o povo.]

Houve vários grandes escândalos que se criaram à volta dele. Como é que é possível que ninguém o tenha avisado de aquilo podia acontecer? Vemos que, em alguns casos, as pessoas não estavam a remar na mesma direção, e isso causou sofrimento na Igreja.

As críticas contra o Papa Bento XVI contribuíram para a decisão de resignar?Certamente, tiveram um peso, porque todos somos humanos e quando sentimos o peso das tarefas difíceis que nos pedem, podemos pensar que não somos a pessoa indicada ou que aquilo é demasiado difícil. Estou certo de que estes pensamentos passaram pela cabeça dele. Mas, ao mesmo tempo, acredito que ele disse a verdade quando disse que tomou a decisão porque sentiu que não tinha a força física para continuar e que provavelmente um homem mais novo podia fazê-lo melhor. É um grande exemplo de humildade e um grande exemplo de fé dizer: “Eu não sou indispensável”. De facto, depois da resignação, pelo menos na Itália, muita gente disse que aquele era um bom exemplo para alguns políticos (risos).

Há um conjunto de decisões do papa Bento XVI que deram origem a polémicas. Já nos últimos dias do pontificado, em resposta ao escândalo do primeiro Vatileaks, sobre os problemas na gestão financeira da Santa Sé, Bento XVI nomeou o alemão Ernst von Freyberg para presidente do banco do Vaticano. Mais tarde veio a descobrir-se que era alguém ligado à indústria militar. Terá sido mau timing?Penso que muitos dos problemas que apareceram no Vaticano, nomeadamente nesta área, estão muito relacionados com a maneira italiana de fazer as coisas. Eu adoro a Itália, mas ao mesmo tempo vejo que em alguns casos as coisas não são completamente claras. Talvez não tenha sido o melhor timing, nessa e noutras decisões. Mas aquilo de que tenho completamente a certeza é que o primeiro Vatileaks — tal como o segundo, que já afetou o papa Francisco –, quando aconteceu, mesmo tendo produzido dor, também produziu uma reação. Fez-nos pensar sobre como podemos fazer as coisas melhor. Sempre que somos feridos, sempre que um cão nos morde, todos aprendemos, crescemos em experiência, e pensamos no que podemos fazer para não tornar a falhar.

Penso que o processo de reforma económica que foi iniciado pelo papa Bento XVI — foi ele que começou tudo, depois o papa Francisco continuou, com a secretaria para a Economia — é um dom para a Igreja. Não é perfeito, porque somos humanos e temos falhas, mas penso que é um bom processo. Hoje, vemos que o Banco do Vaticano já não está na lista negra, mas já passou para a lista branca dos bancos europeus, e está a seguir todas as normas para evitar o branqueamento de capitais e a lavagem de dinheiro. Aliás, é esse o nome oficial: Instituto para as Obras Religiosas. Quando se diz que é um banco, atenção, não é um banco. É um instituto para ajuda económica. Imagine a Igreja na China. Não se pode mandar dinheiro para lá de forma normal através de um banco, porque provavelmente não o iriam receber. Precisamos de encontrar canais para ajudar os cristãos que precisam. Seguindo a lei, claro, mas encontrar uma forma de ajudar as pessoas.
Para o papa Francisco, “a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada”

Isto leva-nos a março de 2013, à eleição do papa Francisco. Nos primeiros tempos, falava-se muito dos pequenos gestos: a recusa do apartamento papal, os telefonemas de surpresa… O Papa estava a mandar uma mensagem sobre o que viria a ser o seu pontificado?Sim e não. Muito do encantamento das pessoas pelo papa Francisco foi por ele ser transparente, autêntico. Todos nos lembramos das primeiras fotografias que vimos dele, quando ele era bispo na Argentina e viajava de metro. Depois vimo-lo, já após ser eleito Papa, a ir pagar a residência onde tinha ficado quando foi a Roma para o conclave, ou quando disse que não podia mudar de sapatos porque tem uma perna maior do que a outra e precisa dos seus sapatos ortopédicos…

Quebrava o protocolo…Acho que ele não mudou a sua forma de ser, a sua humanidade. Isso é fascinante. Ele é um homem que é completamente coerente com a sua forma de ser e de estar. Talvez não estivesse intencionalmente a querer mandar uma mensagem, mas certamente que o Espírito Santo ajudou a elegê-lo para nos mandar essa mensagem. Precisamos de pastores que não sejam príncipes, que estejam ao lado das pessoas, que preguem com palavras simples e normais que todos possamos entender, mas que ao mesmo tempo sejam profundos, que nos façam pensar e rezar, e até que nos façam sofrer. Porque muitas vezes o papa Francisco dá uns murros. Atinge-nos para nos provocar reações, para nos fazer crescer na nossa vida espiritual. Precisávamos de um Papa assim, para reagirmos.

Esta forma simples do papa Francisco criou uma onda de apoio generalizada, até vinda de fora da Igreja, que Bento XVI não tinha. Fala-se de uma abertura da Igreja, até em temas historicamente sensíveis como o divórcio ou a homossexualidade. Mas alguma coisa mudou concretamente na doutrina católica?Penso que para tentarmos entender o papa Francisco temos de entender Jorge Bergoglio. São o mesmo homem. Temos de perceber o que ele defendia antes de se tornar Papa. Da mesma forma que vemos que ele é coerente na vida quotidiana — antes andava de metro, hoje recusa um Mercedes –, vemos a mesma forma de pensar nas diferentes doutrinas que ele tem pregado.

Para mim, no início, há duas fontes principais que me ajudaram a entender o papa Francisco. Em primeiro lugar, há o documento de Aparecida, de 2007. Ele foi o redator principal, escolhido pela conferência dos bispos da América Latina, para escrever as conclusões da conferência, e vemos que o documento é como uma espécie de rascunho do que viria a ser a Evangelii Gaudium [primeira exortação apostólica do papa Francisco]. Se analisarmos os dois documentos, encontramos muitas coisas na Evangelii Gaudium que já apareciam no documento de Aparecida. Depois, há um outro livro muito interessante, que são os diálogos que ele teve, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, com o rabino Abraham Skorka. Chama-se “Sobre o Céu e a Terra” e era baseado num programa regular que ele tinha na rádio a conversar com este rabino. Aí, vemos que ele já dizia muita das coisas que diz hoje.

O que é que o papa Francisco propõe? De novo temos de entender o homem. Ele é um jesuíta, e os jesuítas têm sido, ao longo dos anos, diretores espirituais preocupados com a salvação pessoal de cada um, e não com toda a gente no geral. O dom do papa Francisco é que ele diz: “Não façam programas pastorais em massa. Vão alma a alma, e cada alma é importante”. E nesse sentido, o que ele nos diz é que, quando falamos com alguém que se divorciou ou alguém que é homossexual, não devemos ter nenhum preconceito. Cristo morreu por toda a gente.

Ou seja, ele está a tentar acabar com a ideia de que a Igreja exclui algumas pessoas?Sim, esse é um dos objetivos dele. Ele repete constantemente que a Igreja não é uma alfândega, não coloca barreiras à entrada. Para ele, a Igreja é um barco que traz a salvação a quem se está a afogar no mar. É essa a imagem da Igreja, um barco salvador que atira bóias para salvar as pessoas. Eu pelo menos, na minha experiência pastoral enquanto padre e não apenas como professor em Roma, recebi muito dele e agradeço a Deus porque ele mudou a minha forma de pensar. Ele diz: “Não podem estar só preocupados com doutrinas gerais ou grandes filosofias. Não. Tomem conta da pessoa que têm em frente a vocês”.

Mas ele não mudou a doutrina base da Igreja sobre esses assuntos.Não, não a mudou.

E não o vai fazer?Não. Penso que devemos analisar e interpretar o que o papa Francisco diz pelas suas palavras originais. Quando lemos a Evangelii Gaudium, quando lemos a Amoris Laetitia, ou quando lemos qualquer discurso do papa Francisco, o que descobrimos é um pastor muito exigente, que diz que não quer mudar a doutrina. Ele diz isso de forma explícita na Amoris Laetitia, por exemplo. O que ele quer é uma conversão pastoral da Igreja. O que ele quer é que nós, sacerdotes, não façamos juízos de valor, porque somos ministros de Cristo e temos de ajudar as pessoas a entrarem em contacto com as feridas de Cristo e a encontrarem a salvação. Penso que esse é um grande dom e toda a gente se devia sentir tocada por ele.

Começou por dizer, no início da entrevista que a mudança do papa Bento XVI para o papa Francisco foi uma grande revolução. Em que sentido, então?Penso que a grande revolução foi a resignação do papa Bento XVI. Isso foi como um choque elétrico.

Mas esse foi um sinal de que a Igreja precisava de uma mudança?Penso que o Concílio Vaticano II já tinha notado que precisávamos de entrar mais em diálogo com o mundo moderno. Eu sempre sugeri às pessoas que lessem a convocatória do Concílio, escrita por João XXIII, a dizer porque é que ele queria um concílio, e depois que lessem a Lumen Gentium ou a Gaudium et spes, e vissem que de facto a Igreja mudou. Aquele foi um grande momento.

Agora, cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II e vejo que os quatro papas — tivemos cinco, se contarmos com João Paulo I –, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco, são diferentes encarnações do espírito do Concílio Vaticano II. Cada um deles, com a sua própria humanidade, ajudou-nos a crescer. Paulo VI era um ótimo sociólogo, muito preocupado com a dimensão económica e social da sociedade, e escreveu tantos documentos sobre o caminho do pensamento da Igreja moderna. Depois, João Paulo II era um grande filósofo, e todos crescemos no sentido antropológico durante o seu pontificado. Já Bento XVI foi um grande teólogo, e todos nós crescemos na dimensão da liturgia e da teologia dogmática por causa do seu dom. Hoje, temos o papa Francisco e vejo novamente que ele é um dom do Concílio Vaticano II. Pensamos: “É muito bom ser um sociólogo, é muito bom ser um filósofo, é muito bom ser um teólogo. Mas temos de voltar os nossos olhos para aqueles que temos junto a nós”.

Para mim, a revolução começou com a resignação. O que o papa Francisco está a fazer é, depois de a resignação ter agitado a Igreja como um choque elétrico, é preciso ajudar toda a gente a recomeçar a mexer novamente. O papa Francisco é como um fisioterapeuta que está a ajudar alguém que tem estado muito quieto a mexer-se novamente.

Devido àquilo a que se está a referir, a essa diferença entre Francisco e os seus antecessores, o Vaticano enfrenta uma onda de críticas internas, que se opõe ao apoio que vem de fora. Uma divisão que talvez possamos simplificar em tradicionalistas contra o Papa versus progressistas a favor do Papa. Que impacto é que esta divisão tem na Igreja de hoje?Faz-me sofrer. Todos os dias, quando celebramos a missa, há diferentes momentos em que rezamos pela unidade da Igreja. Quando pensamos no último discurso de Jesus na última ceia, uma das principais ideias foi a oração de Jesus, virado para Deus, pedindo-lhe: “Pai, faz com que eles sejam um”. Provavelmente, Jesus já estava a prever este perigo de desagregação constante. Volto ao que estava a dizer: nós problematizamos tudo, somos humanos, discutimos, temos pontos de vista diferentes. É o típico caso do copo de água que pode estar meio cheio ou meio vazio. Há formas diferentes de entender um problema, mas a ideia central é que estas divisões me fazem sofrer.

Por outro lado, não classificaria todos os que criticam Francisco como tradicionalistas, porque quando pensamos em pessoas como os Lefebvrianos, a maioria deles têm a esperança de finalmente encontrar a união com a Igreja novamente. Lembro-me sempre de que tem sido o papa Francisco a fazer pressão para concretizar esse sonho do papa Bento XVI, de chegar à comunhão com eles. Ele está a destruir barreiras e dizer que se quer aproximar deles.

Há casos extremos de bispos a acusar o Papa de ser herege.Bom, não penso que haja um bispo que diga “o Papa é um herege”. Mas, de facto, há bispos, muitos bispos, que estão preocupados sobretudo com a confusão. Não porque estejam preocupados com a possibilidade de a doutrina mudar ou algo do género. Estão preocupados com ideias como quando o papa Francisco diz, na Amoris Laetitia, que precisamos de um caminho de discernimento. Há quem diga que isso abre as portas do Inferno (risos), que abre uma grande confusão. Afinal, o que é o discernimento? Qual é o protocolo? O que temos de fazer? A minha posição é que o que devemos fazer, se não queremos essa confusão, é investir na boa formação dos padres. Precisamos de diretores espirituais que ajudem as pessoas.

E a resposta do papa Francisco a estas críticas internas tem sido adequada?Para dar um exemplo: há uns meses, o papa Francisco visitou o novo dicastério para a família, os leigos e a vida e esteve com os trabalhadores desse novo departamento do Vaticano. Tenho vários amigos que trabalham lá e pelo menos dois deles disseram-me o mesmo. O Papa estava cansado de ouvir estas críticas e a única coisa que lhes disse foi: “Por favor, onde quer que vão, digam às pessoas que o capítulo importante é o capítulo IV, e não o capítulo VIII”.

Ele estava a referir-se à Amoris Laetitia, a dizer que o propósito daquele documento é ajudar as pessoas a viver melhor o seu matrimónio. O capítulo IV é, de facto, extremamente belo, é um comentário muito profundo sobre o casamento e é uma joia que ninguém teve em consideração. Temos estado constantemente a discutir em torno das situações irregulares ou o que quer que lhes queiramos chamar, em torno dos problemas, e provavelmente estamos a falhar a parte principal do documento, que é a alegria do amor.

Eu, pelo menos, tento apoiar o papa Francisco nessa ideia. Por favor, estou cansado de discutir sobre esse assunto. Aquilo de que preciso é ajudar os meus irmãos padres a terem uma boa formação que lhes permita serem bons diretores espirituais e ajudar as pessoas a discernir, a tomar as decisões corretas. O que quero é ajudar tantos jovens que não estão a casar a pensar novamente que o casamento é uma boa opção. É uma grande vocação. Infelizmente, em alguns círculos de discussão só estão a argumentar sobre situações hipotéticas que na verdade não acontecem.

Ou seja, o problema é a discussão estar a ser colocada num nível geral, abstrato, de proibição ou autorização.Exatamente. Para mim, o grande dom do papa Francisco é dizer para cuidarmos de cada pessoa que temos à nossa frente. Se me encontro com alguém que esteve casado e cujo casamento falhou, como é que eu posso ajudar essa pessoa a descobrir novamente a alegria de estar perto de Deus.

Uma das frases mais famosas dele é mesmo a tal “quem sou eu para julgar?”, referindo-se aos homossexuais.Sim, na primeira viagem, no regresso do Rio de Janeiro para Roma.

Porque é que a frase não foi muito bem recebida dentro da Igreja?Bom, em alguns círculos da Igreja não foi bem recebida. Novamente, eu digo às pessoas que leiam a resposta completa, que não se fiquem pela frase. Algumas pessoas, infelizmente até alguns lóbis, estão a criar esse estereótipo em torno do papa Francisco, como se ele não estivesse a governar porque aceita tudo sem discutir, e usam essa frase: “Então mas ele diz ‘quem sou eu para julgar’!”. Não é verdade. Novamente, se há alguém que está a governar a Igreja é o Papa. Ele tomou muitas decisões fortes. Ele julga! Dizer que é um relativista, que não julga, não é verdade.

Leiam a resposta completa. Ele nessa entrevista diz algo como: “Eu nunca recebi no Vaticano alguém com um cartão a dizer ‘eu pertenço ao lóbi gay’, mas se eu receber alguém que me diz que é homossexual, quem sou eu para julgar? Devo lembrar-me apenas do que o Catecismo da Igreja Católica diz e ajudá-lo a viver de acordo com essa proposta”. Ele não está a mudar a doutrina. Isso acontece com muitos padres. Se eu receber alguém em confissão que me diz algo, eu devo ouvir e tentar fazer o melhor para ajudar a pessoa.

Falou aí do lóbi gay. Existe no Vaticano?Bom (risos), tal como o papa Francisco disse, eu nunca estive com ninguém com um cartão a dizer que pertence ao lóbi gay. Acredito verdadeiramente que existe um lóbi gay internacional, mas isso seria uma outra grande entrevista só a discutir todas as dimensões em que se manifesta. O papa Francisco, em várias ocasiões, tem falado sobre a colonização ideológica que alguns grupos praticam no mundo moderno. Explicitamente, em alguns casos, ele faz denúncias fortes à ideologia do género, dizendo que não a pode aceitar. O problema, em muitos casos, é que as pessoas não estão a ler o que ele diz efetivamente. Temos acesso à Internet e é uma pena não lermos em primeira mão o que ele diz.

Para levar a cabo esta revolução, o papa Francisco tem chamado para cargos importantes várias pessoas, com o objetivo de, de alguma forma, purificar a instituição. Mas para o C9, o seu conselho consultivo mais próximo, chamou pelo menos três cardeais (George Pell, Óscar Maradiaga e Francisco Errázuris) que estão ligados à ocultação de casos de pedofilia, como notava o jornalista italiano Emiliano Fittipaldi. O cardeal Pell até teve de voltar à Austrália para ser julgado. Não acha que o Papa se pode estar a rodear das pessoas erradas?Antes de me tornar padre, trabalhei como advogado durante vários anos e trabalhei em casos relacionados com acusações a piratas mexicanos — lá, infelizmente, muitos negócios dependem da pirataria (risos). Mesmo assim, dentro dessa atmosfera complicada, sempre acreditei que toda a gente é inocente até ser provado o contrário. Acredito que esse princípio da lei é válido para toda a sociedade, incluindo para a Igreja. Há muitos casos. Por exemplo, mencionou o cardeal Pell. Admito que não conheço as outras duas acusações diretamente, mas quando olhamos para a vida do cardeal Pell e para a forma como ele tem enfrentado estes julgamentos, podemos ver que em muitos casos têm sido muito injustos. Não há provas, e infelizmente mesmo que os tribunais ainda não tenham chegado a uma decisão final, a imprensa já fez o julgamento. Assim que um padre ou um bispo tem alguma acusação, toda a gente lhe salta em cima. Talvez estejamos a esquecer-nos que, em teoria, toda a gente é inocente até ser provado o contrário.

Se me pergunta se esses são os melhores conselheiros para o papa Francisco, eu acho que o C9 é um excelente grupo. Cada um deles vem de diferentes perspetivas. Tento sempre lembrar quem se lembrou de criar aquele conselho de cardeais. Não foi o papa Francisco, foi o papa Bento XVI. É parte do seu legado, foi uma das coisas que ele sugeriu, e um dos assuntos que foram tratados nas congregações gerais antes da eleição foi que o Papa não deve governar sozinho, deve ter um conselho de cardeais que não trabalhem na Cúria e que o ajudem a ter uma visão mais alargada. Cada um deles vem de um país diferente, todos têm as suas experiências humanas próprias. Penso que são bons conselheiros. Se podíamos encontrar alguém melhor? Podemos sempre encontrar alguém melhor, claro. Não somos super-heróis, mas todos somos chamamos à perfeição. Por outro lado, quando uma pessoa chama alguém para seu conselheiro, chama os seus amigos, os que estão mais próximos, como é o caso do cardeal Maradiaga, ou então pessoas que foram sugeridos por outros, como o cardeal Pell. Até o cardeal Pell, nos anos que ele passou em Roma a tentar pôr em ordem a secretaria para a Economia, fez muito bem à economia da Igreja.

Já vimos que a doutrina não mudou, mudou a abordagem. O senhor é especialista em comunicação na Igreja. Podemos dizer que a mudança de Papa mudou a forma como a Igreja comunica com o mundo exterior?Há uma coisa interessante que eu digo muitas vezes às pessoas: vão ao site do Vaticano e façam download das homilias diárias do Papa na capela de Santa Marta. Podem ajudar muito na oração pessoal de cada um e podem ajudar os padres a preparar as suas próprias reflexões junto das comunidades. O papa Francisco trouxe esta proximidade com as pessoas. Diz-nos que não devemos fazer homilias abstratas e distantes, mas sim concretas e fáceis de perceber. Homilias para toda a gente. Fáceis de entender não significa não serem profundas, sublinho sempre isso. Significa apenas fáceis de entender. De novo, alguns preconceitos dizem que se comunicamos de forma simples somos maus comunicadores, mas é o oposto. Os melhores comunicadores são os que usam a linguagem mais simples e transmitem as melhores ideias.

Os padres e bispos estão a seguir esse exemplo?Devíamos seguir o exemplo (risos). Teria muito a dizer sobre isso. Esse é o meu trabalho, eu tento treinar pessoas para melhorarem a sua forma de falar em público, de pregar. Há muito espaço ainda para melhorar. Há contextos diferentes, mas se entendermos a comunicação enquanto oração, há muito espaço para melhorar. Já no que toca à comunicação da Igreja enquanto instituição, acho que o que temos hoje é um grande esforço para simplificar a comunicação. O novo portal, o Vatican News, por exemplo, que apenas numa página mostra toda a comunicação do Vaticano. Eles estão a fazer um ótimo trabalho. É um projeto muito ambicioso, há muitos bons amigos meus que trabalham lá, e estão a dar o seu melhor.

O Papa Francisco mudou definitivamente a ideia que a sociedade tem de um Papa?Cada Papa é um dom para a sua era. Mas se pesquisarmos no Youtube os primeiros filmes de Leão XIII, a primeira vez que chegaram ao Vaticano com câmaras de filmar, para fazer umas imagens do Papa. Foi em 1890 ou por volta dessa altura. É engraçado porque já nessa altura, no final do século XIX, víamos o Papa a tentar usar os novos media para comunicar. Tem havido um esforço, há mais de um século, de estar próximo das pessoas. Há vários exemplos. Até Pio IX, ainda no século XIX, a cumprimentar os jardineiros do Vaticano. São realidades que talvez desconheçamos, por sermos muito novos, por não estudarmos a fundo a biografia de cada Papa, mas a proximidade é algo da modernidade. E hoje o Papa Francisco pede-nos precisamente isso: que não estejamos longe das pessoas, tal como Jesus não esteve longe das pessoas.

João Francisco Gomes, 13 de Março de 2018 in Observador

domingo, 25 de março de 2018

Mensagem do Papa Francisco para a quaresma, 2018

 Penitência sim, tristeza não

[No] primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho recorda os temas da tentação, da conversão e da Boa Notícia. Escreve o evangelista Marcos: «O Espírito impeliu Jesus para o deserto e no deserto permaneceu 40 dias, tentado por Satanás» (1, 12-13).

Jesus vai para o deserto para se preparar para a sua missão no mundo. Ele não precisa de conversão mas, enquanto homem, tem de passar através desta provação, seja por si próprio, para obedecer à vontade do Pai, seja por nós, para nos dar a graça de vencer as tentações. Esta preparação consiste no combate contra o espírito do mal, isto é, contra o diabo.

Também para nós a Quaresma é um tempo de “competição” espiritual, de luta espiritual: somos chamados a enfrentar o maligno com a oração para sermos capazes, com a ajuda de Deus, de o vencer na nossa vida diária. Sabemo-lo, o mal atua, infelizmente, na nossa existência e à nossa volta, onde se manifestam violências, recusa do outro, fechamentos, guerras, injustiças. Todas estas são obras do maligno, do mal.

Logo depois das tentações no deserto, Jesus começa a pregar o Evangelho, isto é, a Boa Notícia, a segunda palavra. A primeira era «tentação»; a segunda, «Boa Notícia». E esta Boa Notícia exige do homem conversão – terceira palavra – e fé.

Anuncia Ele: «O tempo cumpriu-se e o reino de Deus está próximo»; depois exorta: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15), ou seja, acreditai nesta Boa Notícia de que o reino de Deus está próximo.

Na nossa vida temos sempre necessidade de conversão – todos os dias! –, e a Igreja faz-nos rezar por isso. Com efeito, nunca estamos suficientemente orientados para Deus e temos de dirigir continuamente a nossa mente e o nosso coração para Ele.

Para fazer isto, é preciso ter a coragem de rejeitar tudo o que nos põe fora do caminho, os falsos valores que nos enganam atraindo de forma subtil o nosso egoísmo. Em vez disso, devemos confiar no Senhor, na sua bondade e no seu projeto de amor por cada um de nós.

A Quaresma é um tempo de penitência, sim, mas não é um tempo triste! É um tempo de penitência, mas não é um tempo triste, de luto. É um compromisso alegre e sério para nos despojarmos do nosso egoísmo, do nosso homem velho, e renovarmo-nos segundo a graça do nosso Batismo.

Só Deus nos pode dar a verdadeira felicidade: é inútil perdermos o nosso tempo a procurá-la noutros lugares, nas riquezas, nos prazeres, no poder, na carreira… O reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus.

Neste primeiro domingo da Quaresma somos convidados a escutar com atenção e recolher este apelo de Jesus a convertermo-nos e a acreditar no Evangelho. Somos exortados a iniciar com empenho o caminho para a Páscoa, para acolher sempre mais a graça de Deus, que quer transformar o mundo num reino de justiça, de paz, de fraternidade.

Maria Santíssima nos ajude a viver esta Quaresma com fidelidade à Palavra de Deus e com uma oração incessante, com fez Jesus no deserto. Não é impossível! Trata-se de viver os dias com o desejo de acolher o amor que vem de Deus e que quer transformar a nossa vida e o mundo inteiro.

Papa Francisco
Vaticano, Angelus, 18 de fevereiro 2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Tradução: SNPC

A pobreza no âmago do Evangelho

Dia mundial dos pobres

Diz o Papa Francisco, no penúltimo parágrafo da sua Carta Apostólica, Misericordia et misera. Na conclusão do Jubileu extraordinário da misericórdia, a propósito do «Dia mundial dos pobres», que:

«Será um dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21).».

Trata-se do Lázaro, pedinte, coberto de úlceras e faminto ao ponto de se contentar com comer das migalhas que caíssem da mesa do dono da casa junto da qual estava.

O migrante é sempre uma qualquer forma de Lázaro, não por ser necessariamente pobre em sentido material do termo, mas porque, como Lázaro, está realmente distante dos bens de que necessita, pois a eles não tem acesso, mesmo que esteja fisicamente próximo deles, como é, também, o caso deste Lázaro.

Ora, a sua condição primeira de excluído não é económica, ética ou política, mas antropológica, pois o seu estado – esse sim, económico e político, de origem ética – deve-se a uma desclassificação da sua realidade como propriamente humana, isto é, o seu ser não é julgado como um ser propriamente humano – por isto, está do lado de fora da casa: quem está dentro da casa são os que se consideram a si próprios como verdadeiramente humanos e, por tal, dignos do banquete.

O primeiro dado, que coincide com o primeiro momento do drama e eventual tragédia do migrante deve-se à redução que sobre ele é imposta em termos onto-antropológicos, isto é, relativos ao seu ser.

No fundo, esse que tem de migrar fá-lo porque a sua humanidade não é própria e devidamente reconhecida.

É considerado menos-humano ou mesmo não-humano. Como tal, não é considerado como merecedor de partilhar o bem disponível para os verdadeiros seres humanos – assim, autoproclamados –, sendo, como Lázaro, mantido afastado desses mesmos bens, ainda que estando na sua proximidade física.

Nada do que existe no problema das migrações de origem não-natural, quer dizer, de origem cultural, necessariamente humana, é devido a questões estritamente físicas, mas, é sempre devido a motivações éticas e políticas, com efeitos mais ou menos diretos, mais ou menos imediatos, sobre a dimensão onto-antropológica, sobre o que cada pessoa e todas as pessoas são como ser e em seu ser próprio e irredutível, humanamente impassível de qualquer forma de redução ou avaliação, enquanto propriamente humanos.

No exemplo do Lázaro citado, não é qualquer razão natural ou económica que justifica o afastamento deste ser humano relativamente ao bem disponível – este bem existe realmente –, mas o facto de já anteriormente ter migrado do comum da sociedade, por alguma razão que não propriamente natural ou económica. Não se diz qual, mas tal não interessa, interessa apenas que há alguém, que é um ser humano, que foi posto distante do comum.

Mesmo que tal migração se devesse a algo que Lázaro tivesse feito, mais propriamente «agido», a recompensa que passasse pela sua erradicação do seio do comum ontológico dos seres humanos seria sempre excessiva, pois a nenhum ser humano compete negar a comum humanidade a qualquer outro. É no seio da mesma comum humanidade que os problemas humanos individuais ou trans-individuais devem ser resolvidos.

No limite, a migração de um qualquer ser humano acaba sempre por ser uma forma de negação da sua comum humanidade com esses que o forçam a migrar.

Lembre-se que, no limite, a morte de alguém por razões políticas é uma forma extrema e irremível de migração: como diz o povo, «vai para o outro mundo», migração com a qual todas as outras migrações têm de ser comparadas, pois, de facto, estas últimas são formas de morte em vidade esses que são levados a migrar. E tal é válido mesmo quando, após algum tempo, isto é, algum movimento de ação integrativa no «novo mundo», se consegue ganhar uma forma própria de integração no bem aí presente. No entanto, a violência que originou a migração sempre matou algo do que era o mundo anterior próprio da pessoa forçada a migrar; e tal não tem remédio possível.

Não há, aqui, reescritas cor-de-rosa do passado, porque a migração não é confundível com algo como a «volta ao mundo em oitenta dias», de Verne, ou com qualquer outra forma de turismo ou de aventura: é sempre uma resposta necessária a um ato de violência ética e política que tem como alvo a antropologia do diferente.

Aquele que é antropologicamente o nosso próximo, relativamente a nós, não migra, viaja.

Com o próximo, partilha-se o pão, quando há e na quantidade que há.

Se não há pão, de todo, então, nós e o próximo migramos ambos e, assim, somos ambos pacientes e agentes de um mesmo movimento, que pode ser originado pela violência de quem tem pão e não o quer partilhar connosco, porque nos reduz a não-humanos, precisamente ao recusar dar-nos o pão que existe e é partilhável. Se tal movimento for originado por algo de natural, não cabe nesta reflexão.

Este mencionado Lázaro é uma pessoa, um indivíduo humano, não é um «povo», um conjunto, mais ou menos coerente de seres humanos em interação. Poderá representar as grandes migrações, as dos «povos» ou certos tipos de «populações»?

Pode, sim. E pode, porque «povos» e «populações» existem apenas como formas abstratas de nos referirmos ao que, na realidade, existe mesmo, e que são as pessoas e estas, na sua forma realíssima, única, de ser humano individual, pessoal.

Quando surgem nas notícias relatos da morte – ou do resgate – de um determinado número de pessoas, por vezes, tal surge não-quantificado: algo como «numerosas pessoas morreram aquando do naufrágio de uma lancha sobrelotada».

Ora, na realidade, um grupo de pessoas nunca morre, porque os grupos, que são entidades de tipo lógico, nunca morrem: o que morre é a pessoa A, a pessoa B, em que A e B são nomes de humana carne, não números ou expressões lógicas que escamoteiam a ontologia própria do que acabou de ser mundanamente aniquilado e para o que, para quem, já não há humano, mundano, remédio possível; e os demais possíveis remédios, aqui, não nos interessam, pois remetem para realidades atualmente inacessíveis para problemas atuais que, esses, têm de ser atualmente resolvidos aqui e agora.

Se a mundanidade da vida humana é mesmo sem qualquer humano interesse, então que se cesse qualquer ação que promova o bem e seja substituída por uma ação, que até pode ser imediata, de aniquilação da humanidade (basta que, aos pares, os sete mil milões de seres humanos se matem num mesmo gigantesco e absurdo ato de “migração” deste mundo para “o outro”). Não é para isto que a humanidade é, não para ser assassina de si mesma, mas para ser instrumento colaborador de sua mesma salvação, mundana apenas que seja; ainda assim, digna de pessoas, não de bestas.

A ação do possuidor de pão em abundância que tem Lázaro à porta esperando pelas migalhas casuais é própria não de um ser humano, de uma pessoa, mas de um ser humano que age como se besta fora. Ao não reconhecer a humanidade do outro, de esse que está migrado para fora do sítio em que há pão, des-reconhece a sua própria humanidade, pois, de facto, são ambas a mesma, a dele e a do outro, na diferença pessoal que os constitui. Mas que os constitui diferentemente como membros de um mesma humanidade.

Ora, não reconhecer o que é humano no outro, propriamente humano no outro, é não reconhecer isso que tem em comum comigo; mas tal significa que não reconheço isso em mim próprio, pois o que me faz humano é o mesmo que faz o outro humano, e se não o reconheço no outro, não o reconheço simplesmente, pelo que não o posso reconhecer em mim próprio.

Tal significa que o que reconheço em mim como propriamente humano, ao ser diferente do que reconheço no outro, esse que é, apesar de tudo, realmente humano, não é, em mim, verdadeiramente humano, antes fruto de uma qualquer ilusão, que confundo com a realidade humana.

É a partir desta ilusão que vivo o que defino como «humanidade». É a partir desta redução antropológica, onto-antropológica, que construo o que considero ser o mundo humano, o meu mundo humano, em que incluo esses que considero como propriamente humanos e do qual excluo os que considero como impropriamente humanos ou, mesmo, como de todo não-humanos.

Todas as formas etnocêntricas radicam nesta ilusão onto-antropológica e todas as migrações cuja origem não é natural ou puramente económica por anulação de bens disponíveis, radicam nesta mesma ilusão.

A recusa do pão – nas suas várias formas, que este simboliza, isto é, a riqueza necessária e apropriada para toda e cada pessoa que queira fazer parte do bem-comum – implica sempre uma redução onto-antropológica de esse a quem o pão é recusado. Não se recusa o pão ao amigo.

A recusa do pão é o ato de formação da relação de inimizade. É esta inimizade que implica a necessidade de migração, a fim de preservar a vida ou a sua dignidade, indiscerníveis em termos humanos.

Ora, aquilo que designámos como «ilusão», de facto, não é uma realidade de tipo gnosiológico, um «erro» de visão, de inteligência, de quem olhe para o outro e não consiga ver o que lá está porque tem um problema qualquer de disfunção gnosiológica.

Trata-se de um ato propriamente ético, de uma escolha.

Escolho considerar esse que reduzo em sua humanidade por um ato meu, irredutivelmente meu: estou a ser mau, não estou a errar.

Na raiz de toda a migração cujo motor é um ato humano, há uma dimensão ética: negar o pão a alguém é um ato ético, depende do arbítrio de uma pessoa, não de um cão, não de uma máquina, por exemplo. Sou eu que te nego o acesso ao pão; ao fazê-lo estou a negar a tua humanidade porque te nego o acesso ao pão. O mais são desculpas, algumas das quais bem estudadas por quem é bem pago para as estudar.

Mas, ao passar a ato a escolha que fiz relativamente a ti de te excluir do acesso ao pão – muito ou pouco que seja, os que têm acesso são os humanos, os que não têm acesso são os não humanos e é o acesso que é o critério de humanidade, aqui – crio um ato político.

Deste modo, toda a migração, que depende de atos humanos que a provoca, tem uma finalidade onto-antropológica, tem origem ética e tem operação política.

Não haverá cessação de migrações – não confundir com atos de deslocação puramente voluntários – enquanto os seres humanos, isto é, eu, não deixarem de ver alguns dos seus reais e objetivos semelhantes como algo de dissemelhante, não deixarem de os julgar como tal e não deixarem de agir sobre eles com a finalidade de os afastar de si, da sua riqueza, do seu mundo.

O remédio é conhecido há muito tempo, chama-se ação no sentido do bem-comum, esse que não exclui pessoa alguma (que não queira voluntariamente excluir-se), tendo recebido, por parte de Cristo, a formulação prático-pragmática operacionalizante na forma do ignorado mandamento da universal caridade.

Não há desculpa. Há perdão, sim, mas passamos pela antropológica vergonha de não termos desculpa para a inanidade da nossa ação pessoal e coletiva. No entanto, nisto nos comprazemos.

Migrantes do bem que somos, dele insistimos teimosamente em fugir, quando para ele nos deveríamos encaminhar sem desfalecimento.

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado por SNPC em 12 de dezembro de 2017

sábado, 24 de março de 2018

A porta da Igreja

Papa Francisco fala sobre a imagem da porta
(...)
A porta abre-se frequentemente para ver se do lado de fora há alguém que espera, e talvez não tenha a coragem ou até a força de bater. Quanta gente perdeu a confiança, não tem a coragem de bater às portas do nosso coração cristão, das nossas igrejas, e estão aí, tirámos-lhes a confiança; por favor, isto não pode tornar a acontecer.

A porta diz muito da casa, e também da Igreja. A gestão da porta requer discernimento atento e, ao mesmo tempo, deve inspirar grande confiança. (...) Muitas vezes a cortesia e a gentileza da portaria são capazes de oferecer uma imagem de humanidade e de acolhimento a toda a casa, logo desde a entrada. (…)

Na verdade, sabemos bem que nós próprios somos os guardiães e os servos da Porta de Deus, que é Jesus. Ele ilumina-nos em todas as portas da vida, incluindo a do nosso nascimento e da nossa morte. Ele próprio o afirmou: «Eu sou a porta: se alguém entra através de mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem» (João 10,9).

Jesus é a porta que nos faz entrar e sair. Porque o redil de Deus é um refúgio, não uma prisão! A casa de Deus é um refúgio, não uma prisão! São os ladrões que procuram evitar a porta, porque têm más intenções, e se introduzem no redil para enganar as ovelhas e aproveitar-se delas. Nós devemos passar pela porta e ouvir a voz de Jesus: se ouvimos o seu tom de voz, estamos seguros, estamos salvos. Podemos entrar sem medo e sair sem perigo.

Neste belíssimo discurso de Jesus, fala-se também do guardião que tem a tarefa de abrir ao Bom Pastor (cf. João 10,2). Se o guardião escuta a voz do Pastor, então abre e faz entrar todas as ovelhas que o Pastor leva, todas, incluindo as perdidas nos bosques, que o Bom Pastor foi à procura. As ovelhas não as escolhe o guardião, não o secretário paroquial, mas o Bom Pastor. O guardião, também ele, obedece à voz do Pastor. Por isso podemos muito bem dizer que nós devemos ser como esse guardião. A Igreja é a guardiã da casa do Senhor, não a proprietária.

A Santa Família de Nazaré [Jesus, Maria, José] sabe bem o que significa uma porta aberta ou fechada, para quem espera um filho, para quem não tem refúgio, para quem deve escapar ao perigo. As famílias cristãs façam dos seus umbrais de cada um pequeno grande sinal da Porta da misericórdia e do acolhimento de Deus. É precisamente assim que a Igreja deverá ser reconhecida, em cada canto da terra: como a guardiã de um Deus que bate, como acolhimento de um Deus que não te fecha a porta com a desculpa que não é de casa.

(...)

Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 18 de novembro de 2015
Tradução e edição Rui Jorge Martins
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sexta-feira, 23 de março de 2018

Papa fala aos artistas

Discurso aos membros do movimento “Diaconia da Beleza”
Papa Francisco
Vaticano, 24 de fevereiro de 2018

Caros amigos,

acolho-vos por ocasião do simpósio que organizastes em Roma por ocasião da festa do Beato Fra Angélico [padroeiro dos artistas, 18 de fevereiro]. Agradeço ao arcebispo Roberto Le Gall pelas palavras que me dirigiu em vosso nome. Através de vós desejo exprimir a minha cordial saudação a todos os artistas que procuram fazer resplandecer a beleza, com os seus talentos e a sua paixão, como também às pessoas em condição de fragilidade que se restabelecem graças à experiência da beleza na arte.»

O papa João Paulo II escreve na “Carta aos artistas”: “ O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do ‘talento artístico’. E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (cf. Mt 25,14-30), se deve pôr a render”.

Esta convicção de S. João Paulo II ilumina a visão e a dinâmica próprias da “Diaconia da Beleza”, que firmou raízes precisamente aqui, em Roma, ao tempo do sínodo sobre a nova evangelização, em outubro de 2012. Juntamente convosco dou graças ao Senhor pelo caminho realizado e pela variedade dos vossos talentos, que Ele vos chama a desenvolver ao serviço do próximo e de toda a humanidade.

Os dons que recebestes são para cada um de vós uma responsabilidade e uma missão. Com efeito, é-vos pedido que trabalheis sem vos deixardes dominar pela procura de uma vã glória ou de uma fácil popularidade, e ainda menos pelo cálculo tantas vezes mesquinho do único lucro pessoal.

Num mundo em que a técnica é frequentemente entendida como o recurso principal para interpretar a existência, vós sois chamados, mediante os vossos talentos e chegando às fontes da espiritualidade cristã, a propor “uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo” (“Laudato si’”, 222), e a servir a criação e a tutela de “oásis de beleza” nas nossas cidades, demasiado cheias de cimento e sem alma. Vós sois chamados a fazer conhecer a gratuidade da beleza.

Convido-vos portanto a desenvolver os vossos talentos para contribuir para uma conversão ecológica que reconheça a eminente dignidade de cada pessoa, o seu valor peculiar, a sua criatividade e a sua capacidade de promover o bem comum. A vossa busca da beleza naquilo que criardes seja animada pelo desejo de servir a beleza da qualidade da vida das pessoas, da sua harmonia com o ambiente, do encontro e da ajuda recíproca.

Encorajo-vos por isso, nesta “Diaconia da Beleza”, a promover uma cultura do encontro, a construir pontes entre as pessoas, entre os povos, num mundo em que se erguem ainda tantos muros por medo dos outros. Tende no coração a missão de testemunhar, na expressão da vossa arte, que acreditar em Jesus Cristo e segui-lo “não é apenas uma coisa verdadeira e justa, mas também bela, capaz de preencher a vida de um novo esplendor e de uma alegria profunda, mesmo no meio das provações” (“Evangelli gaudium”, 167).

A Igreja conta convosco para tornar percetível a Beleza inefável do amor de Deus e para permitir a cada pessoa descobrir a beleza de ser amada por Deus, de ser cheia do seu amor, para viver dele e dar-lhe testemunho na atenção aos outros, em particular àqueles que estão excluídos, feridos, refutados nas nossas sociedades.

Ao mesmo tempo que vos confio ao Senhor, por intercessão do Beato Fra Angélico, concedo a bênção apostólica a vós e a todos os membros da Diaconia da Beleza. Obrigado!

In SNPC
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé

10ª e última meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa


A minha sede é a minha bem-aventurança

As bem-aventuranças e o estilo de vida dos crentes e da Igreja estiveram no centro da meditação com que na manhã desta sexta-feira o P. José Tolentino Mendonça concluiu os exercícios espirituais para o papa e a Cúria Romana. (...)

As bem-aventuranças, chamamento existencial
Nesta décima meditação, o biblista vincou que as bem-aventuranças são mais do que uma lei, representando uma «configuração da vida», um «verdadeiro chamamento existencial».

Elas traçam «a arte de ser aqui e agora», ao mesmo tempo que apontam para o «horizonte da plenitude escatológica», ou seja, o tempo eterno após a morte, para o qual convergimos.

Por outro lado, as bem-aventuranças são igualmente o «auto-retrato de Jesus mais exato e fascinante», a chave da sua vida, «pobre em espírito, manso e misericordioso, sedento e homem de paz, com fome de justiça e com a capacidade de acolher todos».

As bem-aventuranças são «a imagem de si próprio que Ele incessantemente nos revela e imprime nos nossos corações. Mas são também o seu retrato que nos deve servir de modelo no processo de transformação do nosso próprio rosto, no qual devemos aprofundar a “imagem e semelhança” espirituais que liga cada dia o nosso destino ao destino de Jesus», sublinhou o poeta e ensaísta.

Não a um cristianismo de sobrevivência
A sede de Deus é fazer com que «a vida das suas criaturas seja uma vida de bem-aventurança». Como? Resgatando as nossas vidas com um «amor» e uma «confiança» incondicionais. É este o seu «método», é esta a «bem-aventurança» que nos salva. É este «espanto do amor que nos faz começar de novo», esta «sede» que nos consegue arrancar do «exílio a que fizemos aportar a nossa vida».

«Por isso não nos basta um cristianismo de sobrevivência, nem um catolicismo de manutenção. Um verdadeiro crente, uma comunidade crente, não pode viver só de manutenção: precisa de uma alma jovem e enamorada, que se alimenta da alegria da procura e da descoberta, que arrisca a hospitalidade da Palavra de Deus na vida concreta, que parte ao encontro dos irmãos no presente e no futuro, que vive no diálogo confiante e oculto da oração», apontou o P. Tolentino Mendonça.

É urgente «redescobrir a bem-aventurança da sede»: a pior coisa para um crente é «estar saciado de Deus». Pelo contrário, felizes aqueles que «têm fome e sede de Deus»: a experiência da fé, com efeito, «não serve para resolver a sede», mas para «dilatar o nosso desejo de Deus, para intensificar a nossa procura. Precisamos, talvez, de nos reconciliar mais vezes com a nossa sede, repetindo a nós próprios: “A minha sede é a minha bem-aventurança”».

A Igreja como Maria: escuta, honestidade, serviço

Foi ainda à Igreja que o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura se dirigiu na última parte da meditação, dedicada à «bem-aventurança» de Maria, mestra e modelo dos católicos a caminho

É importante não olhar para a bem-aventurança de Maria em «chave abstrata», mas «real e concreta». O seu diálogo com Deus, no momento em que o anjo lhe anuncia que Deus lhe propõe ser mãe do seu Filho, «é franco», não deixa de fora emoções, surpresas e dúvidas, até à confiança incondicional e ao seu sim. Deus salva-nos não «apesar de nós, mas com tudo aquilo que nós somos», e isso faz-nos «enfrentar a vida com renovada confiança».

O estilo mariano deve ser o modelo inspirador do viver: Maria acolhedora, que escuta e está «aberta à vida»; Maria «honesta» na sua relação com Deus; Maria «ao serviço» de um projeto maior. Sem Maria, concluiu o P. Tolentino Mendonça, a Igreja arrisca «desumanizar-se», tornar-se «funcionalista», uma «fábrica febril incapaz de parar».

Gabriella Ceraso/Vatican News, Barbara Castelli/Vatican News
Tradução e edição em SNPC
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9.ª meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa



A periferia está no ADN cristão

A periferia está na identidade cristã mais profunda e é um horizonte no qual a Igreja deve redescobrir-se, sublinhou na tarde desta quinta-feira o P. José Tolentino Mendonça.

(...) «Onde está o nosso irmão?» A pergunta de Deus no livro do Génesis inspirou a reflexão do biblista, dedicada a «escutar a sede das periferias». O convite do poeta e ensaísta é de «olhar de olhos bem abertos a realidade do mundo» e procurar o nosso irmão entre os pobres e últimos do mundo, não separando a «sede espiritual» da «sede literal».

Um dos critérios para perceber o que é o centro e o que é a periferia do mundo é precisamente o acesso à água, direito inalienável. Como é realçado na encíclica “Laudato si’” e acentuado por dados de organizações internacionais, mais de mil milhões de seres humanos não têm a possibilidade de fruir de água potável.

Trata-se de uma multidão literalmente sedenta, perante a qual é «urgente adotar uma autêntica conversão dos estilos de vida e de coração», que «vá em direção contrária à cultura do descarte e da desigualdade social». Enquanto que os países ricos depauperam os seus recursos, «os outros vivem no suplício», afirmou o vice-reitor da Universidade Católica.

Jesus, homem periférico
Neste contexto, «a Igreja não deve ter medo de ser profética e de meter o dedo na chaga», pelo que só pode confrontar-se com as periferias do mundo. «Um discípulo de Jesus deve sabê-lo convictamente», antes de mais porque «o próprio Jesus é um homem periférico».

Com efeito, prosseguiu o P. Tolentino Mendonça, Ele não era cidadão romano nem fazia parte da elite judaica, nasceu na periferia da Judeia, por sua vez periferia de Israel e do império romano. E é às periferias que Ele se dirige, dando dignidade aos doentes, pobres, estrangeiros e pecadores.

«A periferia está no ADN cristão, aproxima-o do seu contexto originário, mas também do seu programa. É uma chave indispensável para a sua interpretação espiritual e existencial. Em todas as épocas permanecerá para a experiência cristã o lugar privilegiado onde encontrar e reencontrar Jesus», assinalou.

Nas periferias está a vitalidade do projeto cristão


O próprio cristianismo é, pela sua natureza, uma «realidade periférica», como se pode constatar pelo facto de os centros das cidades se terem tornados polos «de atividade burocrática e comercial», bem como «uma montra do passado» para os turistas.

Ao mesmo tempo, «a vitalidade do projeto cristão joga-se nas periferias», onde «muitas vezes não há sequer a presença de uma igreja dentro de paredes e onde tudo é mais precário, rarefeito ou apenas esboçado», observou. Por isso, para a Igreja a periferia é um horizonte, e não um problema, e é onde pode sair de si mesma e redescobrir-se.

«A escolha do encontro com as periferias não é unicamente um imperativo da caridade, é uma mobilização histórica e geográfica que permite o encontro com aquilo que o cristianismo foi e com aquilo que é. Mesmo as periferias da Igreja têm sede: de serem escutadas», vincou o P. Tolentino Mendonça.

Como advertia S. João Crisóstomo, a Igreja deve evitar o «terrível cisma» entre «aquilo que separa o sacramento do altar do sacramento do irmão, aquilo que perigosamente distancia o sacramento da Eucaristia do sacramento do pobre».

Periferias como lugares da alma

As periferias existenciais não são apenas económicas, e «sabemos todos como entre nós e quem está ao nosso lado há muitas vezes distâncias infinitas a abraçar e combater». Por isso a humanidade é para ser abraçada, e mesmo que não consigamos impedir as lágrima no rosto do próximo, podemos dar-lhe um lenço e dizer-lhe «estou aqui», «não estás só».

As periferias, com efeito, «não são apenas lugares físicos, são também pontos internos da nossa existência, são lugares da alma que precisam de ser pastoreados», salientou.

Michele Raviart In Vatican News

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8.ª meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa

Inveja e misericórdia na sempre atual parábola do filho pródigo

Um dos grandes perigos do caminho interior é o olhar autocentrado, «no qual o eu é o princípio e o fim de todas as coisas», afirmou na manhã desta quinta-feira o P. Tolentino Mendonça, durante os exercícios espirituais do papa Francisco e de membros da Cúria Romana.

A oitava meditação do retiro (...) centrou-se na parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32).

A narrativa traz à luz «uma família humana como aquela de onde vem cada um de nós», e por isso é um espelho, revelando «uma história que nos agarra por dentro», na qual se vê «problematizada a relação entre irmãos» que manifesta o «delicado significado do vínculo filial» da trama «subtil e frágil de afetos que tecemos uns com os outros».

«Dentro de nós, na verdade, não há apenas coisas belas, harmoniosas, resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muitas coisas a aclarar, patologias, inúmeros fios a ligar. Há regiões de sofrimento, questões a reconciliar, memórias e cesuras para deixar a Deus para que as cure», afirmou.

O tempo atual, prosseguiu o poeta e biblista português, é dominado por «um desejo à deriva» favorável ao surgimento de «filhos pródigos», através de atitudes como o arbítrio fácil, o capricho, o hedonismo.

Estes modos de estar desenvolvem-se num «vórtice enganador» ditado pela «sociedade dos consumos», que promete satisfazer tudo e todos ao identificar «a felicidade com a saciedade». Estamos assim cheios, plenos, satisfeitos, domesticados». Mas esta saciedade que se obtém com os consumos é «a prisão do desejo».

À necessidade de liberdade do filho mais novo, impelido por «fantasias de omnipotência», acrescentam-se «as expetativas doentias» do filho maior, «as mesmas que com grande facilidade se infiltram em nós».

Trata-se, apontou o P. Tolentino Mendonça, da «dificuldade de viver a fraternidade, a pretensão de condicionar as decisões do pai, a recusa de se alegrar com o bem do outro. Tudo isto cria nele um ressentimento latente e a incapacidade de colher a lógica da misericórdia».

Aos passos falsos do filho menor, animado por um desejo à deriva, sobrepõe-se um perigo que consome o filho maior: a inveja, que é uma patologia do desejo, caracterizada pela falta de amor, uma «reivindicação estéril e infeliz».

O filho maior, que não conseguiu resolver a relação com o irmão, está ferido pela «agressividade, barreiras e violência». O contrário da inveja é a gratidão que «constrói e reconstrói o mundo», sublinhou o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Ao lado das figuras dos jovens, emerge a do pai, «ícone da misericórdia»: «Tem dois filhos e compreende que relacionar-se com eles de maneiras diferentes, reservar a cada qual um olhar único».

A misericórdia «não é dar ao outro o que ele merece». A misericórdia é compaixão, bondade, perdão. É «dar a mais, dar mais além, ir mais longe». É um «excesso de amor» que cura as feridas. A misericórdia é um dos atributos de Deus. Por isso crer em Deus é crer na misericórdia. A misericórdia é um Evangelho a descobrir, concluiu o sacerdote.

Amedeo Lomonaco In Vatican News

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7ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Maior obstáculo à vida de Deus em nós não é a rigidez

O que mais se opõe à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade, mas o orgulho, sublinhou na tarde desta quarta-feira o P. José Tolentino Mendonça, na sétima meditação que propôs ao papa Francisco e a membros da Cúria Romana que desde domingo participam nos exercícios espirituais da Quaresma que decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano.

O poeta e biblista português associou a sede à Paixão de Jesus e recordou que a pobreza de cada ser humano é o lugar onde Jesus intervém e que o maior obstáculo à vida de Deus é a inflexibilidade e a presunção. Por isso é preciso aprender a beber da própria sede.

A Igreja, prosseguiu, não pode isolar-se numa torre de marfim e deve ser discípula, abraçando uma experiência de nomadismo, afirmou o vice-reitor da Universidade Católica, que mencionou o risco de impor a outros caminhos exigentes, enquanto que fiéis permanecem sentados. É preciso que as comunidades cristãs estejam atentas para que o sedentarismo não se torne também espiritual, como uma atrofia interior.

Depois de realçar que os não crentes podem olhar com frescura surpreendente para a vida de fé, o P. Tolentino Mendonça referiu-se ao pensamento do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, assinalando que o poço de onde se bebe a água que sacia a sede é a vida espiritual concreta, mesmo que ferida de contingências e limitações.

«A humanidade que temos dificuldade em abraçar, a nossa própria e a dos outros, é a humanidade que Jesus abraça verdadeiramente, dado que Ele se inclina com amor sobre a nossa realidade, e não sobre a idealização de nós mesmos que construímos. O mistério da incarnação do Filho de Deus, em suma, comporta para nós uma visão não ideológica da vida», destacou.

A sede, em certo sentido, humaniza o ser humano e constitui uma via de «amadurecimento espiritual». É preciso muito tempo para perder a mania das coisas perfeitas, para vencer o vício de sobrepor as falsas imagens à realidade. Como escreve Thomas Merton, Cristo quis identificar-se com o que não gostamos de nós próprios, dado que tomou sobre si a nossa miséria e o nosso sofrimento. S. Paulo testemunha a fé com uma hipótese paradoxal: «Quando sou fraco é então que sou forte».

«O grande obstáculo à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade ou a fraqueza, mas a dureza e a rigidez. Não é a vulnerabilidade e a humilhação, mas o seu contrário: o orgulho, a auto-suficiência, a autojustificação, o isolamento, a violência, o delírio do poder. A força de que temos verdadeira necessidade, a graça que precisamos, não é nossa, mas de Cristo», frisou.

«Se nos dispusermos à escuta, a sede pode ser um mestre precioso da vida interior», assinalou o P. Tolentino Mendonça, que seguidamente se centrou nas três tentações de Jesus no deserto, antes do início da vida pública, narrativa proclamada no Evangelho das missas celebradas no passado domingo, o primeiro da Quaresma.

Sobre a tentação do pão, o biblista assinalou que Jesus conhece as necessidades materiais humanas, mas recorda que não só de pão vive o homem; a sua resposta não é para nos fazer evadir desta realidade, para a fazer considerar como um lugar que deve ser marcado pelo Espírito.

Acerca da segunda tentação, o sacerdote evocou a passagem do povo de Israel no deserto, a caminho da Terra Prometida, quando exigiu a Moisés que lhe desse de beber; para acreditar, queremos ver a nossa sede satisfeita, mas Jesus «ensina-nos a entregar o silêncio, o abandono e a sede como oração».

Na última tentação, em que Jesus responde a Satanás «o Senhor teu Deus adorarás; só a Ele prestarás culto», o P. Tolentino recordou que a Cristo ressuscitado foi dado todo o poder no Céu e na Terra.

O diabo quer ser adorado, mas o seu poder é aparência, enquanto que o do Ressuscitado faz parte do mistério da cruz, da oferta extrema de si. É um risco enorme quando a tentação do poder, em escala mais ou menos maior, nos afasta do mistério da cruz, quando nos afasta do serviço aos irmãos.

Jesus, ao contrário, ensina a não nos deixarmos escravizar por ninguém e a não fazer de ninguém escravo, mas a prestar culto só a Deus e a servir: «Nós não somos proprietários, somos pastores».

Debora Donnini In Vatican News

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6ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Jesus recolhe todas as lágrimas do mundo

Na manhã desta quarta-feira, quarto dia dos exercícios espirituais da Quaresma do papa Francisco e da Cúria Romana que desde domingo decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano, a sexta meditação do P. Tolentino Mendonça centrou-se nas lágrimas das mulheres dos Evangelhos, que evocam a sede de Jesus.

Recorrendo a citações extraídas da Bíblia e de vários autores, o pregador português sublinhou que as lágrimas manifestam sede de vida e de relação.

Muitas são as mulheres presentes nos Evangelhos, diferentes nas suas condições existenciais, etárias, económicas. Aquilo que as une é seu estilo, em benefício da evangelização, caracterizado pelo serviço, mas sobretudo são as lágrimas, expressão de emoções, conflitos, alegrias e feridas.

«As lágrimas dizem que Deus incarna-se nas nossas vidas, nos nossos fracassos, nos nossos encontros. Nos Evangelhos inclusive Cristo chora. Jesus encarrega-se da nossa condição, faz-se um de nós, e por isso as nossas lágrimas são englobadas nas suas. Ele leva-as verdadeiramente consigo. Quando chora, recolhe e assume solidariamente todas as lágrimas do mundo» (...).

O desejo de vida

São precisamente as mulheres dos Evangelhos que concedem cidadania às lágrimas, mostrando a importância deste sinal, afirmou o sacerdote português, fazendo referência à psicanalista Julis Kristeva.

Esta não crente dizia que quando um paciente deprimido chegava ao ponto de chorar no divã, acontecia uma coisa muito importante: estava a começar a afastar-se da tentação do suicídio, porque as lágrimas não narram o desejo de morrer mas «a nossa sede de vida».

Deus conhece a dor do pranto
Desde crianças o pranto indica sede de relação. Muitos santos, como Inácio de Loyola, choravam copiosamente. E o filósofo Emil Cioran (1911-1995) afirmava que no juízo final serão pesadas apenas as lágrimas, que dão um sentido de eternidade ao nosso devir, e que o dom da religião é precisamente o de nos ensinar a chorar: as lágrimas são o que nos pode tornar santos depois de se ser humanos.

«A nossa biografia pode ser contada também através das lágrimas: de alegria, de festa, de comoção luminosa; e de noite escura, de laceração, de abandono, de arrependimento e de contrição.

Pensemos nas nossas lágrimas derramadas e naquelas que permaneceram um nó na garganta e cuja falta nos é pesada ou ainda nos pesa. A dor daquelas lágrimas que não foram choradas. Deus conhece-as todas e acolhe-as como uma oração. Portanto tenhamos confiança. Não as ocultemos dele.

Procura de relação

Para Gregório de Nazianzo as lágrimas são, em certo sentido, um quinto batismo. E Nelson Mandela, na prisão, teve os olhos tão atacados que perdeu a capacidade de derramar lágrimas, mas ainda assim não se extinguiu a sua sede de justiça.

Quando se chora, ainda que haja um esforço para não mostrar ao outro que se choram a verdade é que choramos sempre para que o outro veja. «É a sede do outro que nos faz chorar».

A concluir, o P. Tolentino Mendonça mencionou a mulher que chora e lava os pés de Jesus com as suas lágrimas. Muitas vezes toma-se uma distância crítica face à religiosidade popular, que se exprime com abundância de lágrimas. E por vezes é difícil, para os pastores, perceber a religião dos simples baseada não em ideias mas em gestos.

É precisamente a impressionante qualidade do que a mulher dá a Jesus que permite constatar que Simão, o chefe da casa, não disse nada. «É esta inédita hospitalidade que Jesus pretende exaltar», «esta sede, de que as lágrimas são sinal e que nos toca aprender».

Debora Donnini In Vatican News

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5ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

A sede de Jesus

«A sede de Jesus”, sinal da sede existencial do ser humano, esteve no centro da quinta meditação dos exercícios espirituais do papa Francisco e da Cúria Romana (...).

O poeta e teólogo português referiu-se à sede de Jesus na hora em que foi crucificado, «prova da sua incarnação» e «sinal do realismo da sua morte», e à sede simbólica e espiritual, constituem a «chave vital de acesso» para colher o sentido profundo da sua vida e morte.

O evangelista João menciona três vezes a expressão «ter sede», além daquela assinalada no Calvário. Quando Jesus encontra a samaritana, diz-lhe: «Quem bebe desta água terá de novo sede; mas quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede».

Depois, no discurso do pão da vida, Jesus declara: «Quem vem a mim não terá fome e quem crê em mim não terá sede, nunca!». Por fim, durante a festa das Tendas, Jesus anuncia: «Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim».

A sede da samaritana


«No encontro com a samaritana há uma troca de papéis que não pode passar desapercebido», apontou o pregador: Jesus pede de beber mas é Ele quem dará a beber. A samaritana não entende logo as palavras de Jesus, interpretando-as como referidas a uma sede física. Mas desde o início Jesus jogava com um sentido espiritual.

O desejo de Jesus aponta sempre para uma outra sede, como explicou à mulher: «Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz “dá-me de beber”, tu ter-lhe-ias pedido a Ele e Ele te teria dado água viva”».

A sede no Calvário
No Calvário Jesus manifesta o seu desejo de beber, mas não é compreendido e em vez de água recebe vinagre; depois de o ter recebido, diz «está cumprido» e, inclinada a cabeça, restitui o espírito.

«A sede é assim o selo do cumprimento da sua obra e, ao mesmo tempo, do desejo ardente de fazer dom do Espírito, verdadeira água viva capaz de dessedentar radicalmente a sede do coração humano», observou o vice-reitor da Universidade Católica.

Ter sede é crer em Cristo
Ainda na festa das Tendas, explicita-se que ter sede «é crer em Jesus» e que beber é ir a Cristo.

«Na verdade, a sede de que Jesus fala é uma sede existencial, que se aplaca fazendo convergir a nossa vida com a sua. Ter sede é ter sede dele. Somos assim chamados a viver de uma centralidade em Cristo: sair de nós próprios e procurar nele essa água que extingue a nossa sede, vencendo a tentação de auto-referencialidade que tanto nos adoece e tiraniza».

A carência de sentido e o desejo de salvação

A sede de Jesus permite, portanto, «compreender a sede que habita o coração humano e dispor-nos a servi-la», respondendo «à sede de Deus, à carência de sentido e de verdade, ao desejo que subiste em cada ser humano de ser salvo, ainda que seja um desejo oculto ou esteja sepultado sob os detritos existenciais».

Romper as cadeias e libertar as energias para dar esperança
Como ensina Madre Teresa de Calcutá, as palavras de Jesus «tenho sede», presentes em todas as capelas das Missionárias da Caridade, por ela fundada, «não dizem respeito apenas ao passado, mas estão vivas hoje».

A sede de Jesus «é romper as cadeias que se fecham na culpabilidade e no egoísmo, impedindo-nos de avançar e de crescer na liberdade interior».

«A sua sede é libertar as energias mais profundas ocultas em nós, para que possamos tornar-nos homens e mulheres de compaixão, artesãos da paz como Ele, sem fugir ao sofrimento e aos conflitos do nosso mundo fragmentado, mas tomando o nosso lugar e criando comunidades e espaços de amor, de modo a levar uma esperança a esta terra», declarou.

Roberta Gisotti In Vatican News

Tradução e edição em SNPC
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quinta-feira, 22 de março de 2018

4ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Quando renunciamos à sede começamos a morrer

A acédia, estado de apatia, desânimo, fraqueza, tristeza e melancolia, é o contrário da sede e do desejo de vida: foi este o tema que esteve no centro da meditação proposta na manhã desta quarta-feira pelo P. José Tolentino Mendonça durante os exercícios espirituais da Quaresma que o papa Francisco e membros da Cúria Romana estão a realizar em Ariccia (...).

«Quando renunciamos à sede, então começamos a morrer. Quando desistimos de desejar, de encontrar gosto nos encontros, nas conversa, nos intercâmbios, na saída de nós mesmos, nos projetos, nos trabalhos, na própria oração», apontou o poeta e biblista português na sua quarta reflexão.

Este desânimo que atinge a relação com Deus tem outros sintomas: «Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito, e tudo nos soa como um requentado “déjà vu” que consideramos como um peso inútil, incongruente e absurdo, que nos esmaga».

Parece que a vida que «eu vivo» é a de outra pessoa, recordava Kierkegaard (séc. XIX), enquanto que Evágrio Pôntico (séc. IV) falava do «demónio da acédia» e S. João Cassiano (sécs. IV-V) recordava as consequências na vida dos monges: uma insatisfação profunda que leva à perda do entusiasmo.

A própria exortação apostólica “Evangelii gaudium”, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, do papa Francisco, adverte para os efeitos nefastos da «psicologia do túmulo», «que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu» e pode conduzir «a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como o mais precioso elixir do demónio».

Os estados depressivos não se curam só com comprimidos

A contemporaneidade «medicalizou a acédia, enfrentando-a como uma patologia que deve ser tratada do ponto de vista psiquiátrico». «Mesmo dentro de um quadro clínico, é evidente que a acédia ou os estados depressivos» não se podem curar só com «pastilhas», mas «devem envolver na cura a pessoa inteira».

«Há muitos sofrimentos ocultos cuja origem devemos descobrir que se radica no mistério da solidão humana», e nesse contexto pertencem também ao domínio do itinerário espiritual (...).

O “burnout”: Um esgotamento emocional


Há também outro problema que «se amplia cada vez mais», o “burnout”, que literalmente significa “queimar-se”, um esgotamento emocional que pode atingir inclusivamente os sacerdotes.

Em geral, quando uma pessoa se sente abandonada, permanece apenas um vazio, que se enche com angústia ou com falsos paliativos, como a mundanidade, o álcool, as redes sociais, o consumismo ou a hiperatividade. Há quem traga as feridas de lutas ou fracassos, do abandono ou abusos quando eram crianças, da pobreza económica, da guerra.

Jonas, Jacob e o jovem rico

São três as figuras que podem fazer compreender esta dinâmica. Na história de Jonas vê-se como o diálogo entre surdos é muitas vezes o que caracteriza a nossa relação com Deus, na qual não se ouve porque se está «relutante ao conteúdo da vontade de Deus», à lógica da sua misericórdia.

Jacob, ao contrário, lutou com Deus até ao amanhecer: há nele um desejo de vida, enquanto que Jonas é «caprichoso», colide com o desejo de vida de Deus, que quer introduzir todos os seres humanos numa relação existencial nova.

A tristeza ligada à acédia recorda também a do jovem rico, que obedecia a todos os mandamentos mas na hora decisiva prefere os seus bens, em vez da aventura aberta de viver na confiança. «Não é raro que a nossa tristeza provenha desta incapacidade», afirmou o P. Tolentino Mendonça.

Urge fazer um exame sobre a desvitalização do desejo: nem sempre o problema é o excesso de atividade, mas o não ter as motivações adequadas.

Amar como Jesus
A resposta à acédia está em Jesus. O laço com Ele passa necessariamente pela configuração na Paixão. Na palavra da esposa do Apocalipse, «vem», revela-se a necessidade profunda que a Igreja experimenta em relação à vinda do Espírito, como destacava também Simone Weil.

«Nesta palavra está a marca de tudo aquilo de que temos necessidade, a razão do nosso grito, a razão da nossa esperança e, muitas vezes, a razão da nossa desesperança, do nosso fracasso, do nosso cansaço, e a necessidade de superar tudo isto em Deus.

Aquele a quem dizemos “vem!” é o mesmo que nos diz: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei alívio. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim”», assinalou o P. Tolentino Mendonça.

Debora Donnini In Vatican News

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Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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