Nota: neste artigo de opinião "pornográfica" deveria ser substituída bastantes vezes por "erótica" pois, a meu ver, pornográfico é tudo o que é produzido pela "indústria do sexo" e para consumo de um determinado mercado; "erótico" não é tão restrito, é algo que estimula os sentidos e o desejo, mas que não está vocacionado para o mercado da "indústria pornográfica". Contudo, por lealdade para com a autora do texto, não fiz a substituição de um termo pelo outro, cabendo ao leitor a tarefa de discernimento.
Caminhos cruzados: a arte, a nudez e a pornografia
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| Male nude known as Hector, David jacques Louis |
O corpo humano causa fascínio e é exaltado como algo naturalmente belo. Instintivamente, a nudez sempre foi e será o meio pelo qual o homem busca uma ligação com o seu próprio ser e com a criação.
O poeta e pintor inglês William Blake afirmou que “
a arte jamais poderia existir sem expor a beleza da nudez.” Desde os primórdios dos tempos a nudez pertence à arte, estando presente nos ateliês de artistas clássicos e contemporâneos, assim como está presente em todas as outras vertentes artísticas.
O corpo humano é visto como uma obra de arte. E como tal é contemplado. Afinal, é uma notável composição de músculos, uma máquina que reage e funciona à base de emoções. Que sangra, que expressa. Que causa prazer para quem sente e vê, de uma desconcertante (im)perfeição.
Mas antes da admiração,
há uma eterna e cansativa discussão acerca do que é arte e do que é pornografia. Discussão errada. Com isto, infelizmente, a retratação da nudez ganhou rótulos, que se tornaram mais importantes do que a própria arte.
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| O rapto das Sabinas, Rubens |
Todos sabemos o que é algo pornográfico, não é necessário dizer.
A arte pode ser pornográfica, sem dúvida. Mas nem toda a pornografia pode ser arte. É, no entanto, delicado determinar o que é ou não arte. Cada um vê a beleza de modo muito particular. Por isso, coloca-se uma questão mais importante:
é boa arte? Por vezes uma mente imatura, ou puritana, execra toda e qualquer manifestação da nudez, sem levar em consideração que não se trata apenas da estética, mas sim do conceito que encarna naquela obra. É preciso ver para além do que se vê. Isso deixa claro que, em determinadas ocasiões, é uma questão puramente de moralismo: ofender-se com uma imagem pornográfica é mais conveniente, desqualificando-a como arte.
É estranho que algumas pessoas se escandalizem com a exposição dos órgãos genitais, alegando que é algo grotesco e que alude puramente a luxúria, mas não se importam em admirar uma imagem sensual. Ora,
a simples sensualidade é tão obscena quanto a pornografia, pois revela o que não está, desperta a imaginação, usa a nudez como pano de fundo para uma ideia mais subtil, mas que seduz e convence. Pablo Picasso disse ser “a arte algo perigoso, pois é reveladora”. E não é somente uma arte pornográfica que revela.
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| Prometheus, Christian Griepenkerl |
Então esqueça os rótulos de pornográfico, erótico ou o que o valha. Não é isso o que importa.
Independente da maior ou menor exposição do corpo é preciso entender que mais importante é identificar a qualidade artística de um trabalho. Alguns deles não pretendem mesmo ser mais do que apenas o sexo, numa exposição direta. É a libido na sua forma mais crua e explícita, mas nem por isso deixa de ser arte.
A famosa escultura de David – de Michelangelo – é a mais óbvia e explícita exposição do corpo humano. É pornografia ou é arte? A pergunta soa estúpida, não? A questão é que David é uma das mais belas obras a exaltar o corpo humano. É tecnicamente bem feito, é hiper-realista, é inebriante.
Uma obra espectacular incontestável do Renascimento que fala connosco por meio da nudez e muito além da nudez. Se for boa arte, o que chamará a atenção não será apenas o corpo exposto mas sim uma série de impressões e conceitos inerentes a ela. É o que acontece com o bom observador.
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| L'apparition, Daniel Barkley |
O escritor britânico Joseph Conrad disse sabiamente que “o autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor”. Creio que tal ideia pode ser aplicada à arte.
O observador é uma extensão daquilo que observa, pois é dele a interpretação, independente da intenção do artista. São os conhecimentos e as inferências feitas pelo observador que vão responder à pergunta que realmente deve ser feita: é boa arte?
Adaptação para português (de Portugal) de um texto de Rejane Borges,
in Obvious
Ler um
texto de opinião sobre o trabalho de Egon Schiele