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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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segunda-feira, 25 de março de 2019

Moçambique e decisões de quaresma

Perdoa-nos, pois não sabemos o que fazemos

Estas semanas as imagens do rasto de morte e devastação do ciclone Idai em África deixam-nos completamente sem palavras e com dificuldade de voltar à rotina do quotidiano. Para as Nações Unidas, trata-se “possivelmente do pior desastre natural de sempre a atingir o hemisfério sul”.

Não podemos permanecer na apatia e passividade de nos sentirmos impotentes. Como arregaçar as mangas? Algo se poderá fazer. Fiz um levantamento de algumas acções que à distância poderão fazer diferença. No site do Observador encontrei um resumo de algumas instituições que estão a trabalhar no terreno. Divulgo aqui.

E haverá algo a fazer para evitar catástrofes semelhantes? Penso que é inegável que as alterações climáticas existem. Será difícil remediar o que se estragou... Mas parece-me essencial que cada um tome medidas concretas na sua vida para evitar que a humanidade continue a calcar uma herança como se não estivesse a fazer nada de mal. O tempo desta quaresma poderia também ser usado para cada um tomar medidas concretas e decisões que diminuam a sua pegada ecológica neste mundo que é de todos.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Sepultar Jesus, a visão de um agnóstico

Sepultar Jesus

O problema da celebração da Páscoa para o agnóstico é a terceira das suas três etapas (sendo elas: crucificação; deposição no túmulo; ressurreição).

Para quem prefere manter uma posição distanciada relativamente ao modo como o Novo Testamento narra a biografia de Jesus, custa aceitar a ideia de que o homem a quem injustamente torturaram e mataram supera milagrosamente o horror do que lhe aconteceu ressuscitando ao terceiro dia.

O horror da última sexta-feira da sua vida é crível: é 100% consentâneo com o horror da realidade humana. O sentimento (de perda, de exaustão emocional e de infinita tristeza) vivido pela mãe do defunto e pelos seus amigos é compreensível, necessário e intensamente humano. O que acontece de sábado para domingo – o inexplicável regresso à vida depois da morte – obriga a um salto de raciocínio que a Razão trava à partida. Só podemos aceitar a ideia de que à morte se segue a vida (ainda para mais eterna) se aceitarmos que isso só pode fazer sentido num plano irracional.

Mas permaneçamos no terreno do racional. O Evangelho de Mateus (27: 57) conta como um homem de Arimateia chamado José se dirigiu a Pilatos e obteve dele a permissão para enterrar o corpo de Jesus. “E levando o corpo” (escreve o evangelista) “José envolveu-o num pano de linho lavado e depô-lo num túmulo recente, que mandou cavar na rocha”. O laconismo discreto das palavras de Mateus não deixa espaço para a consideração do estado emocional de José; das duas mulheres (ambas de nome Maria) que o evangelista inclui neste episódio diz-se apenas que ficaram sentadas em frente do sepulcro. Mas facilmente conseguimos imaginar o estado de espírito com que permaneceram ali sentadas: esse estado de choque, decorrente do luto profundo, foi descrito por um poeta em Roma mais ou menos na altura em que Jesus teria 8 anos de idade. A mulher enlutada descrita por esse poeta queda-se, imóvel, com o rosto pálido e sem pinga de sangue, com os olhos parados e a língua congelada dentro da boca (Ovídio, Metamorfoses 6, 303-6). O horror daquilo a que as duas Marias tinham assistido no lugar chamado Gólgota outra coisa decerto não permitiria.

Quanto às emoções de José de Arimateia, essas só 1700 anos depois é que encontrariam quem as soubesse intuir e descrever. Não apenas por palavras, mas acima de tudo por música. “Quero ser eu a enterrar Jesus” canta o solista da última das quatro árias para Baixo da “Paixão Segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach. “Faz-te puro, meu coração”.

Que sentido tem esse “quero ser eu a enterrar Jesus?” De que serviu declarar isto numa igreja em Leipzig mais de 1700 anos após o acontecimento? E de que servirá hoje, quase 2000 anos depois, a um ex-católico como eu a ideia de que continua válido o sentimento de responsabilidade individual experimentado por José de Arimateia no enterro de Jesus? Quero ser eu a enterrar Jesus porquê? Que significado tem para mim esse gesto?

Para o agnóstico, a acção de José de Arimateia – o Enterro de Jesus – é justamente o momento da história pascal que mais apela à sua participação. Se eu tenho dúvidas de que Jesus tenha sido filho de Deus, se eu não sei se existe Deus (embora intua irracionalmente que Ele existe), não me fará sentido a “forte união ao sacrifício de Cristo na cruz” (que, já agora, um padre católico me recomendou em tempos como “cura” para a homossexualidade). Muito menos me fará sentido a ressurreição.

Sepultar Jesus é outra coisa. É um gesto de desvelo, de homenagem a este homem que poderá (ou não) ter caminhado sobre a água, que terá conseguido (ou não) restituir a visão aos cegos e que terá feito (ou não) a multiplicação de pães. Foi um homem que morreu traído por um amigo e renegado por outro; foi um homem que teve a coragem de criticar fariseus, de escorraçar vendilhões e que afirmou “amém vos digo que dificilmente um rico entrará no reino dos céus” (Mateus 19: 23). Pregou o amor ao próximo, chamou “filhos de Deus” aos que promovem a paz e prometeu o “reino dos céus” aos que sofrem perseguição por causa da justiça.

Dar, como José de Arimateia, enterro condigno a este homem é – independentemente da religião que se formou em seu nome – homenagear o melhor que existe na natureza humana. Ao mesmo tempo, é voltar ao minuto zero, ao pré-Cristianismo, antes de Jesus ter (ou não) ressuscitado dos mortos: é voltarmos atrás na História, ao último momento em que nos podemos concentrar apenas nele – na sua vida e na sua morte. Antes da sua ressurreição. Antes de outros se terem interposto entre ele e nós e antes da fixação da igreja na figura mediadora de Maria. Pois este momento da deposição no túmulo permite-nos esquecer tanto São Paulo como todos os protagonistas vindouros das lutas assassinas entre seitas cristãs; permite-nos esquecer Constantino, Justiniano, os Reis Católicos, Luís XIV, D. João V, Pinochet e todos os outros ditadores e bilionários a quem a acomodatícia igreja de Cristo sancionou o devaneio de que professavam uma religião inspirada na vida de Jesus; permite-nos esquecer papas e inquisidores, católicos e luteranos, ortodoxos e calvinistas. Permite-nos esquecer dogmas e concílios, teólogos e missionários, conversões forçadas e autos-de-fé, Fátima e outras árvores-das-patacas similares.

Estarmos, uma vez por ano, ao lado de José de Arimateia a enterrar Jesus (e a sentir o luto intenso pela sua morte tão injusta) é homenagearmos a vida dele. E homenagearmos a vida de Jesus é o primeiro passo na percepção de que, em última análise, somos nós que podemos (por meio da forma como vivemos a nossa própria vida) assegurar que a vida admirável deste admirável defunto não tenha sido vivida em vão.

Frederico Lourenço, in Facebook

quinta-feira, 29 de março de 2018

Sexta-feira Santa

A dor como mestra

«O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre:/ ninguém se conhece a si próprio até que sofra.» Dia de dor, a Sexta-feira Santa parece reassumir em si todo o sofrimento do mundo.

O Cristo crucificado é o emblema de um tormento universal que faz olhar para Ele crentes e ateus, como dizia o escritor italiano Alfredo Oriani (1852-1909): «Crentes ou incrédulos, ninguém sabe subtrair-se ao encanto dessa figura, nenhuma dor renunciou sinceramente ao fascínio da sua promessa».

Voltemo-nos, também nós, para essa realidade que tememos e da qual procuramos evadir-nos. Na verdade, a dor não é só maldição, e é isso que nos recorda o poeta romântico francês Alfred de Musset (1810-1857) na sua poesia "A noite d'outubro", composta precisamente quanto estava doente e provado pelos excessos de uma vida atormentada.

A dor é uma espécie de mestre que nos purifica da banalidade, da estupidez, da superficialidade, reenviando-nos para a interioridade, para as realidades que verdadeiramente contam, para a consciência, para o sentido da vida.

Esopo, o célebre contador de fábulas grego, cunhou um jogo de palavras, "pathèmata-mathèmata", «os sofrimentos são ensinamentos». Reencontremos, então, a capacidade de atravessar o território tenebroso da provação não com o desespero no coração, mas com a expetativa de uma aurora.

Também Cristo, apesar de gritar a sua extrema desolação («meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?»), no fim aplaca-se na confiança: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». Será ainda o mesmo Musset a escrever: «Nada nos torna tão grandes como uma grande dor».

P. (Card.) Gianfranco Ravasi In Avvenire
Tradução SNPC

quarta-feira, 28 de março de 2018

Prece de Vitorino Nemésio, com ecos da Paixão

PRECE

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu Filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser,
Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é beberei. Não faças caso.

Vitorino Nemésio 

domingo, 25 de março de 2018

Mensagem do Papa Francisco para a quaresma, 2018

 Penitência sim, tristeza não

[No] primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho recorda os temas da tentação, da conversão e da Boa Notícia. Escreve o evangelista Marcos: «O Espírito impeliu Jesus para o deserto e no deserto permaneceu 40 dias, tentado por Satanás» (1, 12-13).

Jesus vai para o deserto para se preparar para a sua missão no mundo. Ele não precisa de conversão mas, enquanto homem, tem de passar através desta provação, seja por si próprio, para obedecer à vontade do Pai, seja por nós, para nos dar a graça de vencer as tentações. Esta preparação consiste no combate contra o espírito do mal, isto é, contra o diabo.

Também para nós a Quaresma é um tempo de “competição” espiritual, de luta espiritual: somos chamados a enfrentar o maligno com a oração para sermos capazes, com a ajuda de Deus, de o vencer na nossa vida diária. Sabemo-lo, o mal atua, infelizmente, na nossa existência e à nossa volta, onde se manifestam violências, recusa do outro, fechamentos, guerras, injustiças. Todas estas são obras do maligno, do mal.

Logo depois das tentações no deserto, Jesus começa a pregar o Evangelho, isto é, a Boa Notícia, a segunda palavra. A primeira era «tentação»; a segunda, «Boa Notícia». E esta Boa Notícia exige do homem conversão – terceira palavra – e fé.

Anuncia Ele: «O tempo cumpriu-se e o reino de Deus está próximo»; depois exorta: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15), ou seja, acreditai nesta Boa Notícia de que o reino de Deus está próximo.

Na nossa vida temos sempre necessidade de conversão – todos os dias! –, e a Igreja faz-nos rezar por isso. Com efeito, nunca estamos suficientemente orientados para Deus e temos de dirigir continuamente a nossa mente e o nosso coração para Ele.

Para fazer isto, é preciso ter a coragem de rejeitar tudo o que nos põe fora do caminho, os falsos valores que nos enganam atraindo de forma subtil o nosso egoísmo. Em vez disso, devemos confiar no Senhor, na sua bondade e no seu projeto de amor por cada um de nós.

A Quaresma é um tempo de penitência, sim, mas não é um tempo triste! É um tempo de penitência, mas não é um tempo triste, de luto. É um compromisso alegre e sério para nos despojarmos do nosso egoísmo, do nosso homem velho, e renovarmo-nos segundo a graça do nosso Batismo.

Só Deus nos pode dar a verdadeira felicidade: é inútil perdermos o nosso tempo a procurá-la noutros lugares, nas riquezas, nos prazeres, no poder, na carreira… O reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus.

Neste primeiro domingo da Quaresma somos convidados a escutar com atenção e recolher este apelo de Jesus a convertermo-nos e a acreditar no Evangelho. Somos exortados a iniciar com empenho o caminho para a Páscoa, para acolher sempre mais a graça de Deus, que quer transformar o mundo num reino de justiça, de paz, de fraternidade.

Maria Santíssima nos ajude a viver esta Quaresma com fidelidade à Palavra de Deus e com uma oração incessante, com fez Jesus no deserto. Não é impossível! Trata-se de viver os dias com o desejo de acolher o amor que vem de Deus e que quer transformar a nossa vida e o mundo inteiro.

Papa Francisco
Vaticano, Angelus, 18 de fevereiro 2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Tradução: SNPC

sábado, 24 de março de 2018

A fé traz-nos vida nova

Vivemos num exílio

(...)
A História do Povo de Deus é, muitas vezes, uma história em que ele é escravo, em que ele está no exílio, em que perdeu a sua independência, em que a sua unidade, o seu território eclipsou-se, passou para as mãos de outro. E isso é uma imagem daquilo que acontece realmente na nossa vida. Porque, tantas vezes a chave da nossa casa, a chave do nosso coração, o elmo da nossa liberdade nós entregamos na mão de outro. E não temos essa capacidade. E olhamos para nós: custa-nos reconhecer mas somos fracos, não somos donos de nós mesmos, não fazemos aquilo que sentimos que devemos fazer. Acabamos por viver na espuma daquilo que é mais fácil.

Hoje, esta leitura do livro de Crónicas conta a ida do Povo de Israel para Babilónia. É um retrato chapado daquilo que nos acontece. Nós vivemos em Babilónia, grande parte da nossa vida estamos na Babilónia, não estamos na Terra Prometida, estamos submetidos a poderes que nós não tivemos a força de enfrentar, que nós não tivemos a coragem de dizer “não”. Dizemos um “nim”, tornamo-nos pragmáticos, achamos que conseguimos mas depois não conseguimos.

Por isso, é importante que cada um de nós entre dentro de si e faça um efetivo diagnóstico da sua situação. Porque, não são só os outros que estão no exílio, possivelmente eu também estou no exílio.

Aquilo que Sophia de Mello Breyner diz num poema: “Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos, mas as coisas têm máscaras e véus com que me prendem e se eu um momento detida me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho.” E é verdade, nós andamos assim. Somos prisioneiros de laços que não vemos, não vivemos na nossa terra, vivemos num exílio, numa pátria dividida. Como voltar? A questão da Quaresma, a questão da Páscoa é esta: como voltar a experimentar a liberdade? É possível sendo velho nascer de novo? É possível com todas estas escravidões, esta miséria, sentir um elan de um renascimento, de um rejuvenescimento interior? É possível que a primavera não seja só das tílias da minha rua mas seja também do meu coração, do meu interior? É possível isso?

Hoje a Carta aos Efésios e o próprio Evangelho de João centram-nos na fé, e dizem-nos isto: “Povo de Deus, acredita. Povo de Deus, tem fé.” Que é como dizer: “Maria, José, Manuel, João, Tolentino, Madalena, Duarte tem fé, acredita. Porque a fé é que te dá a capacidade de renascer, de recomeçar.” E este é o tempo para isso, o tempo para descobrir a força que é a fé na minha vida. Porque, não são as obras que nos salvam ou não é a nossa vontade que é tão débil, mas é a fé. Isto é, o acontecimento de Jesus Cristo na vida de cada um de nós determina um ser novo, qualquer que seja o estádio em que a nossa vida esteja. É possível. É possível porque a fé traz-nos ressurreição, a fé traz-nos vida nova. Por isso, temos de fixar os nossos olhos em Jesus. O tempo da Quaresma é um tempo cristológico, que nos enfoca na pessoa de Jesus e neste olhar de amor, de misericórdia que Ele dedica a cada um de nós. Deus está pronto a ir-nos arrancar ao exílio. Deus está pronto a ir-nos buscar ao exílio, Deus está pronto a ir buscar-nos, a arrancar-nos ao sepulcro, Deus está pronto a ir buscar-nos ao silêncio dos infernos, onde tantas vezes nós esgotamos a nossa vida. Deus está pronto a ir arrancar-nos.

E a Páscoa é isto. Um povo pascal o que é? É um povo acordado, é um povo desperto, é um povo que não se conforma a viver no exílio, é um povo que não se conforma à escravidão mas que tem ânsia de liberdade. E é assim: todos nós sabemos o que é isto. Em cada um de nós isto se traduz de uma determinada maneira. Mas agarremos esta oportunidade. A Quaresma é uma oportunidade, é a grande oportunidade para fixar os nossos olhos em Cristo e sentir que a cruz é a alavanca de uma mudança, de uma conversão, de um renascimento, de uma transformação espiritual que pode verdadeiramente acontecer em nós.

Rezemos uns pelos outros, para não ficarmos parados, para não acharmos que já não é para nós, para não acharmos que burro velho já não se converte. Mas pelo contrário, acreditarmos que é possível, para lá dos imbróglios, da frieza, dos muros que nos separam e atravancam a nossa vida e verdadeiramente não nos deixam ser, não nos deixam viver com autenticidade. Para lá disso há uma possibilidade que Deus inaugura para nós – é possível, é possível, é possível! Um homem velho pode nascer de novo? Pode. Digamos isto no fundo do nosso coração e esta certeza nos ajude a dar os pequenos passos da confiança, da procura, da misericórdia, de um caminho de libertação interior. Porque, só assim, naquele domingo em que nós vamos a correr ao sepulcro, nós encontramos um sepulcro vazio. E o sepulcro que é preciso esvaziar é o nosso, é o da nossa própria vida.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo IV da Quaresma
Ver na íntegra em Capela do Rato

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sobre oração e discernimento

Rezar é superar o isolamento

O que significa hoje rezar e como exercitar a arte do «discernimento», questão escolhida pelo papa Francisco para o próximo Sínodo dos Bispos, que em outubro vai debater a relação da Igreja com os jovens? Entrevista ao padre, teólogo e artista esloveno Marko Ivan Rupnik, que entre outras obras de arte concebeu o painel de mosaicos situado atrás do altar da basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

A oração é a primeira das três práticas que o cristão é chamado a redescobrir na Quaresma [a par do jejum e da esmola]. O homem de hoje ainda tem espaço para rezar, ou a oração arrisca-se tornar-se uma prática fora de uso?
Se a oração é entendida como um exercício requerido por uma religião, é normal que se torne difícil e árdua, e que muitas vezes não se consiga ver nela o sentido. Sobretudo se a religião se baseia na educação, fazendo da oração uma obrigação, um dever. Rezando deste modo o homem contemporâneo, tirando alguns efeitos muito superficiais e psíquicos de uma certa pacificação ou algo de semelhante, não pode entrever. Mas para nós, cristãos, a oração não é absolutamente isso. A oração dos cristãos é expressão de uma vida que se recebe em dom no Batismo.

A oração é perceber-se a si próprio unido a Cristo, ou melhor, como parte dele. Rezar quer dizer viver a própria vida em relação com o Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo, que continuamente plasma a nossa mentalidade de filhos.

É um estado dialógico, uma superação do isolamento. No Batismo somos enxertados no Corpo de Cristo e no Espírito Santo é nos dada a vida filial. Segundo a nossa fé, toda a nossa humanidade, do Batismo em diante, é fundada na humanidade de Cristo, e isto não acontece através de um exercício individual e subjetivo mediante um esforço de concentração ou de auto-sugestão, mas através de uma realidade verdadeiramente objetiva como são os sacramentos. Daqui se conclui que também a oração pessoal, como a eclesial, cresce desta realidade sacramental da nossa humanidade em Cristo. É uma expressão da nossa vida em Cristo. Antes de se encontrar em Cristo, a oração é sobretudo a súplica e o pedido pela misericórdia.

Na última oração do Angelus, o papa definiu a oração como uma ocasião para exercitar um combate contra o diabo. Como operar, não só na Quaresma, o discernimento?
Uma vez que Deus se fez homem em Cristo, comunica com o homem numa linguagem humana. Tal como a Palavra de Deus é comunicada por meio da palavra humana e em Cristo todo o universo de Deus, tudo o que é a comunhão das Pessoas divinas comunica-se na humanidade do Filho. Isto quer dizer que o discernimento é a arte de como entender-se com Deus, e como Deus fala através dos nossos pensamentos e sentimentos, é uma questão de descobrir quais são.

Os pensamentos podem chegar-me de muitas fontes, mas é preciso ver, como dizem os grandes mestres espirituais, que espírito sopra através deles. Tudo depende da orientação fundamental do coração. Se o coração é filial e está orientado para o Pai, o inimigo da salvação do ser humano procurará corrompê-lo com um ataque pelas costas, sugerindo dúvidas, aumentando as dificuldades no caminho, esvaziando de sentido as ações, os pensamentos, os passos, as relações, concentrando assim aos poucos o ser humano em si próprio.

Os sentimentos e os pensamentos ligam-se na ótica da direção na qual nos impelem e levam: se nos movem para uma comunhão cada vez mais real ou se nos fecham em nós. O combate espiritual significa saber ler-se a si próprio no que respeita à comunhão ou ao isolamento, o individualismo ou a abertura. O medo por si ou o dom de si. Isto é, ver o sentido da própria Páscoa.

Quando fala de oração, o papa Francisco exorta muitas vezes a chamar Deus com o nome de «Pai». Que necessidade há de paternidade, naquela que o pontífice define frequentemente como uma «sociedade de órfãos»?
Os últimos séculos tornaram a vida espiritual muito problemática, porque Deus foi maioritariamente abordado em chave filosófica e Cristo em chave de homem perfeito, modelo da humanidade. Mas o próprio Cristo, no Evangelho segundo João (8, 19), diz: «Vós não conheceis nem a mim nem o meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai». Isto quer dizer que o lugar do conhecimento é a relação e a inteligência é a do ágape, do amor. Se Deus não é experimentado como o Pai, que tem um amor louco pelo Filho, é difícil também a oração do Pai-nosso.

Uma pessoa sente-se filho quando está à mesa a falar com o pai. Sente-se filho quando sabe a origem e a meta. Quando o amor não é a meta a atingir mas o ponto de partida, as coordenadas da existência e a festa do cumprimento. O Pai é o garante do amor livre, é o porto que espera, é a segurança ontológica e, portanto, existencial. São tudo realidades de que hoje se ouve o grito da necessidade.

O discernimento é também o tema do próximo sínodo dos bispos. Para os jovens é uma arte talvez ainda mais difícil do que para os adultos; encontram eles mestres capazes de os ensinar a exercitá-lo?
Parece-me que os jovens procuram a vida e nós ainda nos deixamos ofuscar pelos métodos, pelas aproximações pastorais que tentam captar o seu interesse, para nos fazer próximos deles, mas creio que eles percebem imediatamente que essa é uma metodologia; ao contrário, o amor não é metodologia mas é o nosso modo de existência que revela também o conteúdo da fé.

Os jovens são particularmente sensíveis ao discernimento, mas como isso significa entender-se com Deus, é necessário fazer com que eles se encontrem com Deus, com Cristo, descubram que existe o Espírito Santo, que é dom de uma vida particular, que move como o vento faz à vela, isto é, toda a humanidade.

Não acredito que seja possível conhecer Cristo se não na misericórdia, no sacramento da amnistia, num abraço forte que, aquecendo o coração, abre novos horizontes.

M. Michela Nicolais In SIR
Traduzido e publicado por SNPC

10ª e última meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa


A minha sede é a minha bem-aventurança

As bem-aventuranças e o estilo de vida dos crentes e da Igreja estiveram no centro da meditação com que na manhã desta sexta-feira o P. José Tolentino Mendonça concluiu os exercícios espirituais para o papa e a Cúria Romana. (...)

As bem-aventuranças, chamamento existencial
Nesta décima meditação, o biblista vincou que as bem-aventuranças são mais do que uma lei, representando uma «configuração da vida», um «verdadeiro chamamento existencial».

Elas traçam «a arte de ser aqui e agora», ao mesmo tempo que apontam para o «horizonte da plenitude escatológica», ou seja, o tempo eterno após a morte, para o qual convergimos.

Por outro lado, as bem-aventuranças são igualmente o «auto-retrato de Jesus mais exato e fascinante», a chave da sua vida, «pobre em espírito, manso e misericordioso, sedento e homem de paz, com fome de justiça e com a capacidade de acolher todos».

As bem-aventuranças são «a imagem de si próprio que Ele incessantemente nos revela e imprime nos nossos corações. Mas são também o seu retrato que nos deve servir de modelo no processo de transformação do nosso próprio rosto, no qual devemos aprofundar a “imagem e semelhança” espirituais que liga cada dia o nosso destino ao destino de Jesus», sublinhou o poeta e ensaísta.

Não a um cristianismo de sobrevivência
A sede de Deus é fazer com que «a vida das suas criaturas seja uma vida de bem-aventurança». Como? Resgatando as nossas vidas com um «amor» e uma «confiança» incondicionais. É este o seu «método», é esta a «bem-aventurança» que nos salva. É este «espanto do amor que nos faz começar de novo», esta «sede» que nos consegue arrancar do «exílio a que fizemos aportar a nossa vida».

«Por isso não nos basta um cristianismo de sobrevivência, nem um catolicismo de manutenção. Um verdadeiro crente, uma comunidade crente, não pode viver só de manutenção: precisa de uma alma jovem e enamorada, que se alimenta da alegria da procura e da descoberta, que arrisca a hospitalidade da Palavra de Deus na vida concreta, que parte ao encontro dos irmãos no presente e no futuro, que vive no diálogo confiante e oculto da oração», apontou o P. Tolentino Mendonça.

É urgente «redescobrir a bem-aventurança da sede»: a pior coisa para um crente é «estar saciado de Deus». Pelo contrário, felizes aqueles que «têm fome e sede de Deus»: a experiência da fé, com efeito, «não serve para resolver a sede», mas para «dilatar o nosso desejo de Deus, para intensificar a nossa procura. Precisamos, talvez, de nos reconciliar mais vezes com a nossa sede, repetindo a nós próprios: “A minha sede é a minha bem-aventurança”».

A Igreja como Maria: escuta, honestidade, serviço

Foi ainda à Igreja que o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura se dirigiu na última parte da meditação, dedicada à «bem-aventurança» de Maria, mestra e modelo dos católicos a caminho

É importante não olhar para a bem-aventurança de Maria em «chave abstrata», mas «real e concreta». O seu diálogo com Deus, no momento em que o anjo lhe anuncia que Deus lhe propõe ser mãe do seu Filho, «é franco», não deixa de fora emoções, surpresas e dúvidas, até à confiança incondicional e ao seu sim. Deus salva-nos não «apesar de nós, mas com tudo aquilo que nós somos», e isso faz-nos «enfrentar a vida com renovada confiança».

O estilo mariano deve ser o modelo inspirador do viver: Maria acolhedora, que escuta e está «aberta à vida»; Maria «honesta» na sua relação com Deus; Maria «ao serviço» de um projeto maior. Sem Maria, concluiu o P. Tolentino Mendonça, a Igreja arrisca «desumanizar-se», tornar-se «funcionalista», uma «fábrica febril incapaz de parar».

Gabriella Ceraso/Vatican News, Barbara Castelli/Vatican News
Tradução e edição em SNPC
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9.ª meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa



A periferia está no ADN cristão

A periferia está na identidade cristã mais profunda e é um horizonte no qual a Igreja deve redescobrir-se, sublinhou na tarde desta quinta-feira o P. José Tolentino Mendonça.

(...) «Onde está o nosso irmão?» A pergunta de Deus no livro do Génesis inspirou a reflexão do biblista, dedicada a «escutar a sede das periferias». O convite do poeta e ensaísta é de «olhar de olhos bem abertos a realidade do mundo» e procurar o nosso irmão entre os pobres e últimos do mundo, não separando a «sede espiritual» da «sede literal».

Um dos critérios para perceber o que é o centro e o que é a periferia do mundo é precisamente o acesso à água, direito inalienável. Como é realçado na encíclica “Laudato si’” e acentuado por dados de organizações internacionais, mais de mil milhões de seres humanos não têm a possibilidade de fruir de água potável.

Trata-se de uma multidão literalmente sedenta, perante a qual é «urgente adotar uma autêntica conversão dos estilos de vida e de coração», que «vá em direção contrária à cultura do descarte e da desigualdade social». Enquanto que os países ricos depauperam os seus recursos, «os outros vivem no suplício», afirmou o vice-reitor da Universidade Católica.

Jesus, homem periférico
Neste contexto, «a Igreja não deve ter medo de ser profética e de meter o dedo na chaga», pelo que só pode confrontar-se com as periferias do mundo. «Um discípulo de Jesus deve sabê-lo convictamente», antes de mais porque «o próprio Jesus é um homem periférico».

Com efeito, prosseguiu o P. Tolentino Mendonça, Ele não era cidadão romano nem fazia parte da elite judaica, nasceu na periferia da Judeia, por sua vez periferia de Israel e do império romano. E é às periferias que Ele se dirige, dando dignidade aos doentes, pobres, estrangeiros e pecadores.

«A periferia está no ADN cristão, aproxima-o do seu contexto originário, mas também do seu programa. É uma chave indispensável para a sua interpretação espiritual e existencial. Em todas as épocas permanecerá para a experiência cristã o lugar privilegiado onde encontrar e reencontrar Jesus», assinalou.

Nas periferias está a vitalidade do projeto cristão


O próprio cristianismo é, pela sua natureza, uma «realidade periférica», como se pode constatar pelo facto de os centros das cidades se terem tornados polos «de atividade burocrática e comercial», bem como «uma montra do passado» para os turistas.

Ao mesmo tempo, «a vitalidade do projeto cristão joga-se nas periferias», onde «muitas vezes não há sequer a presença de uma igreja dentro de paredes e onde tudo é mais precário, rarefeito ou apenas esboçado», observou. Por isso, para a Igreja a periferia é um horizonte, e não um problema, e é onde pode sair de si mesma e redescobrir-se.

«A escolha do encontro com as periferias não é unicamente um imperativo da caridade, é uma mobilização histórica e geográfica que permite o encontro com aquilo que o cristianismo foi e com aquilo que é. Mesmo as periferias da Igreja têm sede: de serem escutadas», vincou o P. Tolentino Mendonça.

Como advertia S. João Crisóstomo, a Igreja deve evitar o «terrível cisma» entre «aquilo que separa o sacramento do altar do sacramento do irmão, aquilo que perigosamente distancia o sacramento da Eucaristia do sacramento do pobre».

Periferias como lugares da alma

As periferias existenciais não são apenas económicas, e «sabemos todos como entre nós e quem está ao nosso lado há muitas vezes distâncias infinitas a abraçar e combater». Por isso a humanidade é para ser abraçada, e mesmo que não consigamos impedir as lágrima no rosto do próximo, podemos dar-lhe um lenço e dizer-lhe «estou aqui», «não estás só».

As periferias, com efeito, «não são apenas lugares físicos, são também pontos internos da nossa existência, são lugares da alma que precisam de ser pastoreados», salientou.

Michele Raviart In Vatican News

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8.ª meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa

Inveja e misericórdia na sempre atual parábola do filho pródigo

Um dos grandes perigos do caminho interior é o olhar autocentrado, «no qual o eu é o princípio e o fim de todas as coisas», afirmou na manhã desta quinta-feira o P. Tolentino Mendonça, durante os exercícios espirituais do papa Francisco e de membros da Cúria Romana.

A oitava meditação do retiro (...) centrou-se na parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32).

A narrativa traz à luz «uma família humana como aquela de onde vem cada um de nós», e por isso é um espelho, revelando «uma história que nos agarra por dentro», na qual se vê «problematizada a relação entre irmãos» que manifesta o «delicado significado do vínculo filial» da trama «subtil e frágil de afetos que tecemos uns com os outros».

«Dentro de nós, na verdade, não há apenas coisas belas, harmoniosas, resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muitas coisas a aclarar, patologias, inúmeros fios a ligar. Há regiões de sofrimento, questões a reconciliar, memórias e cesuras para deixar a Deus para que as cure», afirmou.

O tempo atual, prosseguiu o poeta e biblista português, é dominado por «um desejo à deriva» favorável ao surgimento de «filhos pródigos», através de atitudes como o arbítrio fácil, o capricho, o hedonismo.

Estes modos de estar desenvolvem-se num «vórtice enganador» ditado pela «sociedade dos consumos», que promete satisfazer tudo e todos ao identificar «a felicidade com a saciedade». Estamos assim cheios, plenos, satisfeitos, domesticados». Mas esta saciedade que se obtém com os consumos é «a prisão do desejo».

À necessidade de liberdade do filho mais novo, impelido por «fantasias de omnipotência», acrescentam-se «as expetativas doentias» do filho maior, «as mesmas que com grande facilidade se infiltram em nós».

Trata-se, apontou o P. Tolentino Mendonça, da «dificuldade de viver a fraternidade, a pretensão de condicionar as decisões do pai, a recusa de se alegrar com o bem do outro. Tudo isto cria nele um ressentimento latente e a incapacidade de colher a lógica da misericórdia».

Aos passos falsos do filho menor, animado por um desejo à deriva, sobrepõe-se um perigo que consome o filho maior: a inveja, que é uma patologia do desejo, caracterizada pela falta de amor, uma «reivindicação estéril e infeliz».

O filho maior, que não conseguiu resolver a relação com o irmão, está ferido pela «agressividade, barreiras e violência». O contrário da inveja é a gratidão que «constrói e reconstrói o mundo», sublinhou o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Ao lado das figuras dos jovens, emerge a do pai, «ícone da misericórdia»: «Tem dois filhos e compreende que relacionar-se com eles de maneiras diferentes, reservar a cada qual um olhar único».

A misericórdia «não é dar ao outro o que ele merece». A misericórdia é compaixão, bondade, perdão. É «dar a mais, dar mais além, ir mais longe». É um «excesso de amor» que cura as feridas. A misericórdia é um dos atributos de Deus. Por isso crer em Deus é crer na misericórdia. A misericórdia é um Evangelho a descobrir, concluiu o sacerdote.

Amedeo Lomonaco In Vatican News

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7ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Maior obstáculo à vida de Deus em nós não é a rigidez

O que mais se opõe à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade, mas o orgulho, sublinhou na tarde desta quarta-feira o P. José Tolentino Mendonça, na sétima meditação que propôs ao papa Francisco e a membros da Cúria Romana que desde domingo participam nos exercícios espirituais da Quaresma que decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano.

O poeta e biblista português associou a sede à Paixão de Jesus e recordou que a pobreza de cada ser humano é o lugar onde Jesus intervém e que o maior obstáculo à vida de Deus é a inflexibilidade e a presunção. Por isso é preciso aprender a beber da própria sede.

A Igreja, prosseguiu, não pode isolar-se numa torre de marfim e deve ser discípula, abraçando uma experiência de nomadismo, afirmou o vice-reitor da Universidade Católica, que mencionou o risco de impor a outros caminhos exigentes, enquanto que fiéis permanecem sentados. É preciso que as comunidades cristãs estejam atentas para que o sedentarismo não se torne também espiritual, como uma atrofia interior.

Depois de realçar que os não crentes podem olhar com frescura surpreendente para a vida de fé, o P. Tolentino Mendonça referiu-se ao pensamento do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, assinalando que o poço de onde se bebe a água que sacia a sede é a vida espiritual concreta, mesmo que ferida de contingências e limitações.

«A humanidade que temos dificuldade em abraçar, a nossa própria e a dos outros, é a humanidade que Jesus abraça verdadeiramente, dado que Ele se inclina com amor sobre a nossa realidade, e não sobre a idealização de nós mesmos que construímos. O mistério da incarnação do Filho de Deus, em suma, comporta para nós uma visão não ideológica da vida», destacou.

A sede, em certo sentido, humaniza o ser humano e constitui uma via de «amadurecimento espiritual». É preciso muito tempo para perder a mania das coisas perfeitas, para vencer o vício de sobrepor as falsas imagens à realidade. Como escreve Thomas Merton, Cristo quis identificar-se com o que não gostamos de nós próprios, dado que tomou sobre si a nossa miséria e o nosso sofrimento. S. Paulo testemunha a fé com uma hipótese paradoxal: «Quando sou fraco é então que sou forte».

«O grande obstáculo à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade ou a fraqueza, mas a dureza e a rigidez. Não é a vulnerabilidade e a humilhação, mas o seu contrário: o orgulho, a auto-suficiência, a autojustificação, o isolamento, a violência, o delírio do poder. A força de que temos verdadeira necessidade, a graça que precisamos, não é nossa, mas de Cristo», frisou.

«Se nos dispusermos à escuta, a sede pode ser um mestre precioso da vida interior», assinalou o P. Tolentino Mendonça, que seguidamente se centrou nas três tentações de Jesus no deserto, antes do início da vida pública, narrativa proclamada no Evangelho das missas celebradas no passado domingo, o primeiro da Quaresma.

Sobre a tentação do pão, o biblista assinalou que Jesus conhece as necessidades materiais humanas, mas recorda que não só de pão vive o homem; a sua resposta não é para nos fazer evadir desta realidade, para a fazer considerar como um lugar que deve ser marcado pelo Espírito.

Acerca da segunda tentação, o sacerdote evocou a passagem do povo de Israel no deserto, a caminho da Terra Prometida, quando exigiu a Moisés que lhe desse de beber; para acreditar, queremos ver a nossa sede satisfeita, mas Jesus «ensina-nos a entregar o silêncio, o abandono e a sede como oração».

Na última tentação, em que Jesus responde a Satanás «o Senhor teu Deus adorarás; só a Ele prestarás culto», o P. Tolentino recordou que a Cristo ressuscitado foi dado todo o poder no Céu e na Terra.

O diabo quer ser adorado, mas o seu poder é aparência, enquanto que o do Ressuscitado faz parte do mistério da cruz, da oferta extrema de si. É um risco enorme quando a tentação do poder, em escala mais ou menos maior, nos afasta do mistério da cruz, quando nos afasta do serviço aos irmãos.

Jesus, ao contrário, ensina a não nos deixarmos escravizar por ninguém e a não fazer de ninguém escravo, mas a prestar culto só a Deus e a servir: «Nós não somos proprietários, somos pastores».

Debora Donnini In Vatican News

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6ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Jesus recolhe todas as lágrimas do mundo

Na manhã desta quarta-feira, quarto dia dos exercícios espirituais da Quaresma do papa Francisco e da Cúria Romana que desde domingo decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano, a sexta meditação do P. Tolentino Mendonça centrou-se nas lágrimas das mulheres dos Evangelhos, que evocam a sede de Jesus.

Recorrendo a citações extraídas da Bíblia e de vários autores, o pregador português sublinhou que as lágrimas manifestam sede de vida e de relação.

Muitas são as mulheres presentes nos Evangelhos, diferentes nas suas condições existenciais, etárias, económicas. Aquilo que as une é seu estilo, em benefício da evangelização, caracterizado pelo serviço, mas sobretudo são as lágrimas, expressão de emoções, conflitos, alegrias e feridas.

«As lágrimas dizem que Deus incarna-se nas nossas vidas, nos nossos fracassos, nos nossos encontros. Nos Evangelhos inclusive Cristo chora. Jesus encarrega-se da nossa condição, faz-se um de nós, e por isso as nossas lágrimas são englobadas nas suas. Ele leva-as verdadeiramente consigo. Quando chora, recolhe e assume solidariamente todas as lágrimas do mundo» (...).

O desejo de vida

São precisamente as mulheres dos Evangelhos que concedem cidadania às lágrimas, mostrando a importância deste sinal, afirmou o sacerdote português, fazendo referência à psicanalista Julis Kristeva.

Esta não crente dizia que quando um paciente deprimido chegava ao ponto de chorar no divã, acontecia uma coisa muito importante: estava a começar a afastar-se da tentação do suicídio, porque as lágrimas não narram o desejo de morrer mas «a nossa sede de vida».

Deus conhece a dor do pranto
Desde crianças o pranto indica sede de relação. Muitos santos, como Inácio de Loyola, choravam copiosamente. E o filósofo Emil Cioran (1911-1995) afirmava que no juízo final serão pesadas apenas as lágrimas, que dão um sentido de eternidade ao nosso devir, e que o dom da religião é precisamente o de nos ensinar a chorar: as lágrimas são o que nos pode tornar santos depois de se ser humanos.

«A nossa biografia pode ser contada também através das lágrimas: de alegria, de festa, de comoção luminosa; e de noite escura, de laceração, de abandono, de arrependimento e de contrição.

Pensemos nas nossas lágrimas derramadas e naquelas que permaneceram um nó na garganta e cuja falta nos é pesada ou ainda nos pesa. A dor daquelas lágrimas que não foram choradas. Deus conhece-as todas e acolhe-as como uma oração. Portanto tenhamos confiança. Não as ocultemos dele.

Procura de relação

Para Gregório de Nazianzo as lágrimas são, em certo sentido, um quinto batismo. E Nelson Mandela, na prisão, teve os olhos tão atacados que perdeu a capacidade de derramar lágrimas, mas ainda assim não se extinguiu a sua sede de justiça.

Quando se chora, ainda que haja um esforço para não mostrar ao outro que se choram a verdade é que choramos sempre para que o outro veja. «É a sede do outro que nos faz chorar».

A concluir, o P. Tolentino Mendonça mencionou a mulher que chora e lava os pés de Jesus com as suas lágrimas. Muitas vezes toma-se uma distância crítica face à religiosidade popular, que se exprime com abundância de lágrimas. E por vezes é difícil, para os pastores, perceber a religião dos simples baseada não em ideias mas em gestos.

É precisamente a impressionante qualidade do que a mulher dá a Jesus que permite constatar que Simão, o chefe da casa, não disse nada. «É esta inédita hospitalidade que Jesus pretende exaltar», «esta sede, de que as lágrimas são sinal e que nos toca aprender».

Debora Donnini In Vatican News

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5ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

A sede de Jesus

«A sede de Jesus”, sinal da sede existencial do ser humano, esteve no centro da quinta meditação dos exercícios espirituais do papa Francisco e da Cúria Romana (...).

O poeta e teólogo português referiu-se à sede de Jesus na hora em que foi crucificado, «prova da sua incarnação» e «sinal do realismo da sua morte», e à sede simbólica e espiritual, constituem a «chave vital de acesso» para colher o sentido profundo da sua vida e morte.

O evangelista João menciona três vezes a expressão «ter sede», além daquela assinalada no Calvário. Quando Jesus encontra a samaritana, diz-lhe: «Quem bebe desta água terá de novo sede; mas quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede».

Depois, no discurso do pão da vida, Jesus declara: «Quem vem a mim não terá fome e quem crê em mim não terá sede, nunca!». Por fim, durante a festa das Tendas, Jesus anuncia: «Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim».

A sede da samaritana


«No encontro com a samaritana há uma troca de papéis que não pode passar desapercebido», apontou o pregador: Jesus pede de beber mas é Ele quem dará a beber. A samaritana não entende logo as palavras de Jesus, interpretando-as como referidas a uma sede física. Mas desde o início Jesus jogava com um sentido espiritual.

O desejo de Jesus aponta sempre para uma outra sede, como explicou à mulher: «Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz “dá-me de beber”, tu ter-lhe-ias pedido a Ele e Ele te teria dado água viva”».

A sede no Calvário
No Calvário Jesus manifesta o seu desejo de beber, mas não é compreendido e em vez de água recebe vinagre; depois de o ter recebido, diz «está cumprido» e, inclinada a cabeça, restitui o espírito.

«A sede é assim o selo do cumprimento da sua obra e, ao mesmo tempo, do desejo ardente de fazer dom do Espírito, verdadeira água viva capaz de dessedentar radicalmente a sede do coração humano», observou o vice-reitor da Universidade Católica.

Ter sede é crer em Cristo
Ainda na festa das Tendas, explicita-se que ter sede «é crer em Jesus» e que beber é ir a Cristo.

«Na verdade, a sede de que Jesus fala é uma sede existencial, que se aplaca fazendo convergir a nossa vida com a sua. Ter sede é ter sede dele. Somos assim chamados a viver de uma centralidade em Cristo: sair de nós próprios e procurar nele essa água que extingue a nossa sede, vencendo a tentação de auto-referencialidade que tanto nos adoece e tiraniza».

A carência de sentido e o desejo de salvação

A sede de Jesus permite, portanto, «compreender a sede que habita o coração humano e dispor-nos a servi-la», respondendo «à sede de Deus, à carência de sentido e de verdade, ao desejo que subiste em cada ser humano de ser salvo, ainda que seja um desejo oculto ou esteja sepultado sob os detritos existenciais».

Romper as cadeias e libertar as energias para dar esperança
Como ensina Madre Teresa de Calcutá, as palavras de Jesus «tenho sede», presentes em todas as capelas das Missionárias da Caridade, por ela fundada, «não dizem respeito apenas ao passado, mas estão vivas hoje».

A sede de Jesus «é romper as cadeias que se fecham na culpabilidade e no egoísmo, impedindo-nos de avançar e de crescer na liberdade interior».

«A sua sede é libertar as energias mais profundas ocultas em nós, para que possamos tornar-nos homens e mulheres de compaixão, artesãos da paz como Ele, sem fugir ao sofrimento e aos conflitos do nosso mundo fragmentado, mas tomando o nosso lugar e criando comunidades e espaços de amor, de modo a levar uma esperança a esta terra», declarou.

Roberta Gisotti In Vatican News

Tradução e edição em SNPC
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quinta-feira, 22 de março de 2018

4ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Quando renunciamos à sede começamos a morrer

A acédia, estado de apatia, desânimo, fraqueza, tristeza e melancolia, é o contrário da sede e do desejo de vida: foi este o tema que esteve no centro da meditação proposta na manhã desta quarta-feira pelo P. José Tolentino Mendonça durante os exercícios espirituais da Quaresma que o papa Francisco e membros da Cúria Romana estão a realizar em Ariccia (...).

«Quando renunciamos à sede, então começamos a morrer. Quando desistimos de desejar, de encontrar gosto nos encontros, nas conversa, nos intercâmbios, na saída de nós mesmos, nos projetos, nos trabalhos, na própria oração», apontou o poeta e biblista português na sua quarta reflexão.

Este desânimo que atinge a relação com Deus tem outros sintomas: «Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito, e tudo nos soa como um requentado “déjà vu” que consideramos como um peso inútil, incongruente e absurdo, que nos esmaga».

Parece que a vida que «eu vivo» é a de outra pessoa, recordava Kierkegaard (séc. XIX), enquanto que Evágrio Pôntico (séc. IV) falava do «demónio da acédia» e S. João Cassiano (sécs. IV-V) recordava as consequências na vida dos monges: uma insatisfação profunda que leva à perda do entusiasmo.

A própria exortação apostólica “Evangelii gaudium”, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, do papa Francisco, adverte para os efeitos nefastos da «psicologia do túmulo», «que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu» e pode conduzir «a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como o mais precioso elixir do demónio».

Os estados depressivos não se curam só com comprimidos

A contemporaneidade «medicalizou a acédia, enfrentando-a como uma patologia que deve ser tratada do ponto de vista psiquiátrico». «Mesmo dentro de um quadro clínico, é evidente que a acédia ou os estados depressivos» não se podem curar só com «pastilhas», mas «devem envolver na cura a pessoa inteira».

«Há muitos sofrimentos ocultos cuja origem devemos descobrir que se radica no mistério da solidão humana», e nesse contexto pertencem também ao domínio do itinerário espiritual (...).

O “burnout”: Um esgotamento emocional


Há também outro problema que «se amplia cada vez mais», o “burnout”, que literalmente significa “queimar-se”, um esgotamento emocional que pode atingir inclusivamente os sacerdotes.

Em geral, quando uma pessoa se sente abandonada, permanece apenas um vazio, que se enche com angústia ou com falsos paliativos, como a mundanidade, o álcool, as redes sociais, o consumismo ou a hiperatividade. Há quem traga as feridas de lutas ou fracassos, do abandono ou abusos quando eram crianças, da pobreza económica, da guerra.

Jonas, Jacob e o jovem rico

São três as figuras que podem fazer compreender esta dinâmica. Na história de Jonas vê-se como o diálogo entre surdos é muitas vezes o que caracteriza a nossa relação com Deus, na qual não se ouve porque se está «relutante ao conteúdo da vontade de Deus», à lógica da sua misericórdia.

Jacob, ao contrário, lutou com Deus até ao amanhecer: há nele um desejo de vida, enquanto que Jonas é «caprichoso», colide com o desejo de vida de Deus, que quer introduzir todos os seres humanos numa relação existencial nova.

A tristeza ligada à acédia recorda também a do jovem rico, que obedecia a todos os mandamentos mas na hora decisiva prefere os seus bens, em vez da aventura aberta de viver na confiança. «Não é raro que a nossa tristeza provenha desta incapacidade», afirmou o P. Tolentino Mendonça.

Urge fazer um exame sobre a desvitalização do desejo: nem sempre o problema é o excesso de atividade, mas o não ter as motivações adequadas.

Amar como Jesus
A resposta à acédia está em Jesus. O laço com Ele passa necessariamente pela configuração na Paixão. Na palavra da esposa do Apocalipse, «vem», revela-se a necessidade profunda que a Igreja experimenta em relação à vinda do Espírito, como destacava também Simone Weil.

«Nesta palavra está a marca de tudo aquilo de que temos necessidade, a razão do nosso grito, a razão da nossa esperança e, muitas vezes, a razão da nossa desesperança, do nosso fracasso, do nosso cansaço, e a necessidade de superar tudo isto em Deus.

Aquele a quem dizemos “vem!” é o mesmo que nos diz: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei alívio. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim”», assinalou o P. Tolentino Mendonça.

Debora Donnini In Vatican News

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3ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Egon Schiele, 1910
Dei-me conta de estar com sede

A sede de Deus e a capacidade de a reconhecer estiveram no centro da segunda meditação de hoje do P. José Tolentino Mendonça, pregador dos Exercícios Espirituais para o papa e a Cúria Romana que decorre até sexta-feira em Ariccia, próximo do Vaticano.

O poeta e teólogo português apontou, sob o título «dei-me conta de estar com sede», a predisposição de alma e os instrumentos necessários para interpretar o desejo de Deus que está em nós, a contemplá-lo e a educá-lo para valorizar a espiritualidade da sede. Neste contexto, o biblista sublinhou que «entrar em contacto com a própria sede não é uma operação fácil, mas se não o fazemos a vida espiritual perde adesão à nossa realidade».

Tomar consciência da nossa sede

Temos por isso de perder o medo de reconhecer a nossa sede e a nossa secura. Como primeira ação, o P. Tolentino exortou a não se intelectualizar demasiadamente a fé:

«Construímos um fenomenal castelo de abstrações. Não é por acaso que a teologia dos últimos séculos se deteve tanto tempo a debater as questões levantadas pelo Iluminismo e se tenha afastado das colocadas, por exemplo, pelo Romantismo, como as da identidade, coletiva e pessoal, do emergir do sujeito ou do mal de viver.

Estamos mais preocupados com a credibilidade racional da experiência da fé do que com a sua credibilidade existencial, antropológica e afetiva. Ocupamo-nos mais da razão do que do sentimento. Deixamos para trás das costas a riqueza do nosso mundo emocional».

O ser humano é uma «mistura de muitas componentes emocionais, psicológicas e espirituais, e de todas devemos ganhar consciência». Assim como a vida espiritual não é prefabricada mas está «envolvida na radical singularidade de cada sujeito».

Falar da sede é falar da existência real, e não da ficção de nós mesmos à que tantas vezes nos adaptamos, é iluminar uma experiência, mais do que um conceito. Por isso é preciso sacudir o torpor quotidiano porque «pode acontecer que tenhamos a maior dificuldade até mesmo de admitir que estamos com sede». Um dos requisitos para receber a água da vida é reconhecermo-nos com sede.

Interpretar a sede

Depois de tomar consciência da própria sede, é preciso interpretar esta necessidade que existe em nós. O P. Tolentino evidenciou que nesta fase deve distinguir-se o desejo de uma mera necessidade, que se aplaca e se satisfaz com a posse de um objeto:
«Não confundamos o desejo com as necessidades. O desejo é uma falta nunca completamente satisfeita, é uma tensão, uma ferida sempre aberta, uma interminável exposição à alteridade. O desejo é uma aspiração que nos transcende e que não determina, como a necessidade, um termo e um fim. A necessidade é uma carência contingente do sujeito. O infinito do desejo é desejo de infinito».

«O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais», e ser humano significa «sentir que a existência depende deste reconhecimento mais do que qualquer outra coisa». Este anseio é mortificado nas sociedades capitalistas, que exploram avidamente as conpulsões de satisfação de necessidade induzida, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos.

Na prática, o discurso capitalista promete libertar o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada. E quando isto se verifica, «o prazer, a paixão, a alegria a esgotarem-se num consumismo desenfreado, tanto de objetos como de pessoas», chega-se à extinção da sede, à agonia do desejo. A vida perde o seu horizonte.

A sede de Deus
«Como o veado anseia pela água.» O P. Tolentino referiu-se ao Salmo 42 para realçar a busca para saciar a sede de Deus. Se se contempla o mundo com amor, descobre-se que «é todo o Criado a ser atravessado por este desejo visceral».

O primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura apelou à valorização da espiritualidade da sede, mais que as estruturas: «Talvez precisemos de redescobrir o desejo, a sua itinerância e abertura, em vez das codificações em que tudo está previsto, estabelecido, garantido. A experiência do desejo não é um título de propriedade ou forma de possessão; é antes uma condição de mendicidade. O crente é um mendigo de misericórdia».

A concluir, o P. Tolentino dirigiu-se em particular aos pastores, chamando-os à reconciliação com a sua vulnerabilidade, e recordou a advertência do papa Francisco: «Uma das piores tentações é a auto-suficiência e a auto-referencialidade». Ao contrário, abraçar a própria vulnerabilidade e aceder ao desejo de ser reconhecido e tocado como o leproso que foi ter com Jesus (cf. Mateus 8, 3), como a sogra de Pedro na cama com a febre (cf. Mateus 8, 15), como a mulher que há 12 anos sofria de hemorragias (cf. Mateus 9, 20), como aqueles que gritavam «Filho de David, tem piedade de nós!» (Mateus 8, 27).

Marco Guerra In Vatican News

Tradução e edição de SNPC
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2ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

A ciência da sede

A promessa de Deus diante da escassez humana
A última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse é um convite: «Quem tem sede, venha». Foi desta passagem que o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa desenvolveu a sua reflexão para guiar os participantes a compreender os contornos da «abundância» e «gratuidade» de vida que o filho de Deus oferece ao ser humano e a valorizar hoje a sua resposta.

Jesus promete-nos saciar a sede quando reconhecemos que somos «incompletos e em construção». Ele sabe quantos são os obstáculos que nos travam e quantas são as «derivas que nos retardam». Estamos «tão próximos da fonte e andamos tão longe». No desejo e na sede estão dois sentimentos em contraste: a atracão e a distância, o ardor e a vigilância. Por isso a pergunta a colocar é: desejamos Deus? Sabemos reconhecer a nossa sede? Damo-nos tempo para a decifrar?

Não é fácil reconhecer a sede de Deus

A partir destes questionamentos o poeta e biblista percorreu um trajeto que foi da Bíblia aos textos do dramaturgo romeno Ionesco, passando pelas páginas do “O principezinho”, de Saint-Exupéry, para evidenciar os contornos efetivos da sede como necessidade física, como reconhecimento dos nossos limites, da nossa vulnerabilidade extrema.

«A sede priva-nos de respirar, esgota-nos, desgasta-nos. Deixa-nos sitiados e sem forças para reagir», afirmou, «leva-nos ao limite extremo.» «Percebe-se como não é fácil expor-se à sede.» Se tivéssemos de contar a parábola da nossa sede, prosseguiu, talvez emergissem os traços de Jean, o protagonista masculino de “A sede e a fome”, de Ionesco. É uma figura devorada por um «infinito vazio», por uma inquietação que nada parece poder aplacar e que o torna num «homem sem raízes, nem casa, incapaz de criar laços, perdido no vazio do labirinto em que escuta apenas o rumor solitário dos próprios passos».

A sede insatisfeita do homem de hoje
Eis a sede do homem de hoje. Uma sede que, explicou o P. Tolentino, «se transmuta numa enorme insatisfação, na desafeção em relação àquilo que é essencial, numa incapacidade de discernimento». O consumismo, hoje, não é apenas material, é também espiritual, e o que se diz de um ajuda a compreender o outro. O facto é que as nossas sociedades, que «impõem o consumo como critério de felicidade, transformam o desejo numa armadilha»: de cada vez que pensamos apagar a nossa sede numa «montra», numa «aquisição», num «objeto», a posse comporta a sua desvalorização, e isso faz crescer em nós o vazio. O objeto do nosso desejo é um «ente ausente», é um «objeto sempre em falta». Por isso, «o Senhor não cessa de nos dizer: “Quem tem sede, venha; quem deseja, beba gratuitamente a água da vida”».

Recoloquemos em Deus a nossa sede
Há muitas «maneiras de enganar as necessidades e adotar uma atitude de evasão espiritual sem nunca tomar consciência de que estamos em fuga», apontou o P. Tolentino, que aludiu às «sofisticadas razões de rentabilidade e de eficácia» que substituem a «auscultação profunda do nosso espaço interior e o discernimento da nossa sede». E continuam a não existir «comprimidos capazes de resolver mecanicamente os nossos problemas».

Daqui partiu o convite conclusivo da primeira meditação do segundo dia do retiro quaresmal do papa Francisco e dos seus colaboradores: abrandemos o «nosso passo», «tomemos consciência das nossas necessidades», sentemo-nos à mesa da fé, não por motivos materiais ou económicos, mas «por razões de vida». A sede «de relações, de aceitação e de amor» está presente em cada ser humano, é um património «biográfico» que somos chamados a reconhecer e do qual dar graças. Não é uma coisa banal, e por isso «recoloquemos em Deus a nossa sede».

Gabriella Ceraso In Vatican News
Tradução e edição de SNPC
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1ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Abre o teu coração. Dá-me o que és

"O papa e os colaboradores da Cúria Romana, chegados na tarde deste domingo à Casa Divino Mestre em Ariccia, próximo do Vaticano, escutaram o pregador português P. José Tolentino Mendonça comentar a primeira parte do excerto do Evangelho segundo João dedicado ao encontro entre Jesus e a samaritana no poço de Jacob (4, 5-24).

Jesus que, sentado no poço, pede à samaritana «dá-me de beber», maravilha-nos, deixa-nos desarmados pelo espanto. Um judeu que fala com uma mulher da Samaria, habitada por dissidentes com os quais os judeus não estavam de acordo, surpreende-nos como Jesus que se dirige a nós para nos pedir: “Dá-me aquilo que tens. Abre o teu coração. Dá-me o que és”.

Na primeira meditação do retiro, dedicado ao tema “Elogio da sede”, o poeta e biblista sublinhou que o pedido de Jesus provoca em nós perplexidade e desconcerto, porque «somos nós aqueles que vão beber» do poço, e sabe-se que a sede é fadiga e necessidade. Jesus está cansado da viagem e está sentado junto ao poço. E no Evangelho aqueles que estão sentados para pedir são os mendigos. Também Jesus mendiga, o seu corpo «experimenta o cansaço dos dias: desgastado pelo cuidado amoroso pelos outros». Não é só o ser humano que é mendigo de Deus. «Também Deus é mendigo do ser humano

O P. Tolentino prosseguiu a introdução, intitulada «Aprendizes do espanto», assinalando que, com a sua debilidade, Jesus «veio procurar-nos». «No mais abissal e noturno da nossa fragilidade, sentimo-nos incluídos e procurados pela sede de Jesus». Que não é uma sede de água, é maior: «É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas». Ele pede-nos: «“Dá-me de beber”. Dar-lhe-emos? Daremos o bem uns aos outros?», questionou.

Reconheçamo-nos chamados porque é Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. «Por muito grande que seja o nosso desejo, ainda maior é o desejo de Deus.» E quando Jesus diz à mulher a verdade da sua vida, «isso não a humilha nem a paralisa. Pelo contrário, sente-se encontrada, visitada pela graça, libertada pela verdade do Senhor».

Sintamo-nos abraçados, concluiu o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, porque «Deus sabe que nós estamos aqui». E nestes dias, «desaprendamos, para aprender essa graça que tornará possível a vida dentro de nós». No nosso íntimo digamos: «Senhor, estou aqui à espera de nada». Que é como quem diz: estou somente à tua espera, «à espera daquilo que Tu me dás».

Retiro quaresmal ao papa Francisco e à Cúria Romana | Ariccia, Itália | 18.2.2018

Alessandro Di Bussolo, In Vatican News
Tradução SNPC
Publicado em 23.02.2018

sábado, 17 de março de 2018

Padre Tolentino Mendonça orientou a reflexão quaresmal do Papa

Marc Chagall
Tolentino Mendonça. A vida do padre-poeta que orientou o retiro do Papa

por João Francisco Gomes, a 24 de fevereiro de 2018, in Observador

Padre, poeta, cronista. Tolentino Mendonça foi chamado pelo Papa para orientar o seu retiro espiritual. Quem é o português que o Vaticano considera "das vozes mais autorizadas da cultura do seu país"?

No início da década de 90, pouco depois de ter sido ordenado padre e de ter concluído um mestrado em Roma, José Tolentino Mendonça regressou a Lisboa. Foi nomeado capelão da Universidade Católica, onde começou a dar aulas. Foi lá que Pedro Mexia, na altura estudante de Direito, conheceu o jovem sacerdote. Ele e os colegas descobriram um padre diferente do habitual. “Lembro-me de as pessoas ficarem muito cativadas com o estilo dele. Houve até pessoas que passaram a ir à missa para o ouvir”, recorda o poeta português, 25 anos depois. “Nós dizíamos uns aos outros que achávamos que aquele tipo ia longe. Agora, o Papa também acha.”

Foi longe. No final do mês passado, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, anunciava que o padre e poeta português tinha sido escolhido para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e dos restantes membros da Cúria Romana (os órgãos de governo da Igreja Católica). “Teólogo e poeta, é uma das vozes mais autorizadas da cultura do seu país“, lê-se no artigo, que anunciava que Tolentino Mendonça iria passar uma semana na Casa do Divino Mestre, nos arredores de Roma, a orientar o Papa nas dez meditações do retiro, dedicadas ao “elogio da sede”.

Tolentino Mendonça aceitou de imediato, “com muita humildade”, o desafio de se tornar no primeiro português a orientar a reflexão do Papa. “Sou um simples padre, e acolho [o pedido] com um sentido de serviço à Igreja e ao Santo Padre”, disse ao portal Vatican News. Porém, as crónicas que assina semanalmente na revista do Expresso e a sua vasta obra literária levam a uma conclusão diferente. Tolentino Mendonça não é só um simples padre. É um professor, poeta e ensaísta dono de perspetivas muito próprias sobre a fé, que podem surpreender os mais distraídos.

“Quando ele escreve um texto no Expresso sobre o Bruce Springsteencomo se estivesse a falar de São Francisco de Assis, a primeira reação é de perplexidade. De facto, não há razão nenhuma para essa perplexidade. Ele consegue encontrar pontos de contacto com a dimensão religiosa, mesmo naquilo que, numa cultura, podia parecer hostil ou alheado dessas questões. São fórmulas inesperadas“, resume Pedro Mexia ao Observador.

As fórmulas que usa na sua obra literária são as mesmas a que recorre nas salas da Universidade Católica, onde hoje é vice-reitor. O padre Miguel Vasconcelos, jovem sacerdote que não esconde a alegria de hoje ser sucessor de Tolentino Mendonça no cargo de capelão daquela universidade, lembra as aulas com o poeta. “Uma das coisas que marcam a ação dele é a capacidade de olhar para os Evangelhos com a sensibilidade dos artistas. É uma teologia contemplativa, com a lupa da estética. E isso é próprio dele, por ele ser poeta, não é uma fabricação”, conta o sacerdote.

De facto, esta análise da fé pelos olhos da arte marcou a semana de retiro do Papa, que terminou na sexta-feira. Logo no domingo, na primeira meditação, que dedicou ao tema “Aprendizes do espanto”, Tolentino Mendonça colocou a literatura ao lado da Bíblia, para sugerir ao Papa Francisco e aos participantes dos exercícios espirituais uma leitura do episódio da Samaritana, do Evangelho de João, a partir de citações de Fernando Pessoa e de Lev Tolstoi.

“Não há uma distinção clara entre o padre e o poeta“, explica o crítico literário João Pedro Vala, admirador convicto da obra de Tolentino Mendonça. “Quando se ouve um sermão do padre Tolentino, ou se lê um poema ou uma crónica, não existe uma distinção. Os sermões são poéticos, e os poemas, não sendo pregações, vêm da mesma pessoa, têm a mesma doçura. Trata o leitor como um membro da sua paróquia.” Por isso foi escolhido como pregador para o Papa, assume sem dúvidas quem o conhece.

Em todas as dimensões da sua vida — poeta, escritor, professor e padre especialista em estudos bíblicos — as palavras ocupam um lugar de destaque. “A palavra é o grande lugar para o conhecimento que faço de mim próprio“, disse Tolentino Mendonça numa entrevista à RTP. A paixão pelas palavras nasceu durante a infância passada entre a ilha da Madeira, onde nasceu e para onde regressou aos nove anos, e Angola, para onde se mudou com a família ainda bebé e onde viveu os primeiros anos da sua vida.

Madeira, Angola, a avó e o amor a Herberto Hélder

José Tolentino Mendonça nasceu em Machico, na ilha da Madeira, a 15 de dezembro de 1965. Com apenas um ano de idade, deixou a terra natal para se mudar para o Lobito, em Angola, onde o seu pai e os seus tios, uma família de pescadores, já viviam. Numa longa entrevista que deu ao Público em 2012, Tolentino Mendonça recordava esses momentos. “Lembro-me de uma viagem que fiz com o meu pai. Na minha cabeça ia também pescar. Dei comigo, para lá dos enjoos típicos de um iniciante pelo mar fora, na borda do barco, a olhar as paisagens. Praias que ainda não tinham sido exploradas, rochedos, o azul do mar, o fundo do mar”, contou.

“Essa contemplação despertava em mim uma emoção enorme, enorme. Ficava boquiaberto. Como se aquela vida intacta, da paisagem do mundo, tivesse em mim um impacto que não sabia expressa”, continuava o padre, lembrando que foi na infância que as portas da literatura se abriram para si. Particularmente no difícil regresso à Madeira, depois do 25 de Abril, que viveu com nove anos. A melhor palavra talvez nem seja regresso, uma vez que Tolentino Mendonça tinha vivido toda a sua infância, até ali, em Angola.

A mudança de vida, lembrava o sacerdote na mesma entrevista, “teve um dramatismo mais literário do que literal”. “Senti que me estava a despedir daqueles lugares. Fui com o meu cão, sozinho. Digo que foi literário porque quis chorar, abraçado ao cão, sentindo que era a última vez que estava ali“, contou, detalhando como encarou aquele momento como “uma aventura no porão de um barco, numa cidade desconhecida”.

Com apenas nove anos, viveu o regresso à Madeira de forma diferente dos seus pais, que sofreram uma “ansiedade enorme” com a mudança de vida. “A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades — no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem — protegeu-me. Quando penso na infância nem por uma vez me lembro de medo, de ansiedade”, disse na entrevista ao Público.

Da vida na Madeira, Tolentino Mendonça recorda sobretudo a relação com a natureza e com o mar. “Vivia no Machico, num mundo ainda rural, muito próximo do mar, com grandes espaços em que dava para me deitar na terra e olhar as estrelas. Tinha um caderno em que apontava os barcos que passavam, observava as árvores. O meu pai, que era pescador, quando ia às Ilhas Selvagens trazia-me de presente uma cagarra. É um mundo próximo da natureza, tutelado pelas profissões artesanais, atravessado pela poesia, pelos elementos”, lembrava, numa entrevista ao Sol, em 2013.

Com 11 anos, entrou no seminário. “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”, recordou na mesma entrevista, destacando o papel da família crente na descoberta da fé. Personagem fundamental na definição do seu percurso foi João Henrique Silva, até 2015 diretor regional dos Assuntos Culturais na Madeira, que na altura era professor no seminário. “Era um homem que gostava muito de cinema. Mostrou-me que era possível viver a fé e escolher uma vocação religiosa em relação com o mundo da cultura.”

Entrar no seminário foi também a oportunidade de entrar numa biblioteca pela primeira vez. Antes, o seu contacto com a literatura era exclusivamente através da sua avó materna. “A minha avó foi a minha primeira biblioteca“, dizia na entrevista ao Público, lembrando que a senhora, que não sabia ler nem escrever, conhecia vários romances e histórias orais de cor. “Numa recolha recente que se fez do romanceiro oral da Madeira uma das pessoas que está lá é a minha avó”, contou Tolentino Mendonça, dizendo-se comovido com essa recordação da avó.

Um outro episódio marcou a sua entrada no mundo literário: uma senhora, também ela analfabeta, zeladora da igreja que frequentava, citava muitas vezes de cor o Cântico dos Cânticos. “Uma vez disse-me aquele poema e fiquei aturdido, extasiado, aquelas palavras apoderaram-se de mim”, contou o padre, garantindo que “há um antes e um depois daquele momento“. Viria a estudá-lo e a traduzi-lo para português durante os seus estudos teológicos.

Finalmente, aos 16 anos, escreveu o primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, admitia ao Público, lembrando que aquele poema era sobre a sua própria infância, “uma infância que podia ter sido a de Herberto Hélder“, também “no contexto insular”. Logo no primeiro verso do primeiro poema, Tolentino Mendonça definiu com clareza aquilo que viria a ser o seu percurso literário: “No princípio era a ilha“. Um verso que dizia estar “embebido da palavra divina” ao mesmo tempo que representa o seu “princípio biográfico”, antevendo uma obra em que fé e poesia se confundem.

Em 1982 começou a estudar teologia e em 1990 foi ordenado padre — no mesmo ano em que lançou o primeiro livro de poemas, Os Dias Contados. Depois da ordenação, mudou-se para Roma para fazer um mestrado em Ciências Bíblicas, formação que viria a completar com um doutoramento em Teologia Bíblica, em Portugal, na Universidade Católica de Lisboa. Tornou-se capelão da universidade, professor na Faculdade de Teologia e continuou a publicar com frequência livros de poesia — até hoje publicou mais de três dezenas.

Padre ou poeta?

Pintado numa grande fachada de um prédio em Machico, o poema “Caminho do Forte, Machico“, publicado em 2006 na colectânea A noite abre meus olhos, é a homenagem daquele município madeirense ao poeta da terra. O poema não é propriamente um texto religioso — mas também não é esse o ponto fundamental da obra de Tolentino Mendonça. O crítico literário João Pedro Vala destaca que, mesmo havendo cada vez mais padres católicos com preocupações literárias, poéticas, “a grande novidade do padre Tolentino é que ele não parece obcecado ou centrado na necessidade de usar a literatura para passar uma mensagem religiosa“. “Não me parece que ele procure fazer da literatura um palco para os seus sermões, e isso é diferente de muitos outros padres que também são poetas, que usam a literatura para passar a mensagem do Cristianismo”, diz o crítico ao Observador.

Também Francisco José Viegas, o diretor da editora Quetzal, que publicou o mais recente livro do poeta, sublinha que o âmbito da obra de Tolentino Mendonça extravasa os limites da mensagem religiosa. “Ele é um omnívoro, como eu costumo dizer. Um homem que lê tudo, que cita vários autores, de origem muito diversa. Isso é uma coisa nova no discurso de alguém da hierarquia da Igreja. Deixa contaminar o discurso religioso com uma marca poética“, afirma o editor.

Para o poeta Pedro Mexia, a dimensão literária e a dimensão religiosa de Tolentino Mendonça não devem ser encaradas “como se fossem facetas diferentes ou opostas”. Mexia destaca a “capacidade de chegar às pessoas” do padre Tolentino Mendonça, que “sempre se interessou pelas coisas mais diversas, até ao ponto de as pessoas poderem ficar um bocadinho perplexas”.

“As pessoas estão à espera de que um padre tenha um certo tipo de referências e ele às vezes tem referências muito diferentes”, continua Pedro Mexia, sublinhando como Tolentino Mendonça, padre e poeta, mas também cronista, tem “vontade de procurar a linguagem do nosso tempo, porque a linguagem religiosa tem uma dimensão que não é do nosso tempo“.

Francisco José Viegas considera que esta “contaminação” positiva entre a linguagem artística e a linguagem religiosa “era algo que fazia falta à Igreja Católica”. “Uma das coisas que mais me fascinam no Tolentino Mendonça é a forma como ele pode trazer alguma beleza ao discurso da Igreja”, explica o editor.

“A Igreja procura um novo discurso, um discurso que diga mais às pessoas do nosso tempo, que possa absorver um pouco mais das sensibilidades contemporâneas, mas, mais do que isso, que fale para as pessoas do nosso tempo. As pessoas estão muito recetivas a um discurso que venha contaminado pela beleza, em vez de ser um discurso mais seco, mais tradicional“, destaca Francisco José Viegas, acrescentando que é essa a novidade que Tolentino Mendonça representa.

“Acho que hoje nós não temos a noção do que é um intelectual católico, porque os católicos perderam muitos dos seus intelectuais. Houve um tempo em que a Igreja produzia intelectuais, como George Bernanos, de que assinalamos agora os 120 anos do nascimento, mas também nomes como Alçada Baptista ou Moreira das Neves. Durante muito tempo faltou à Igreja a capacidade de falar para o mundo dos intelectuais. No caso do Tolentino Mendonça, há esta mistura de perspetivas”, defende Francisco José Viegas.

Exemplo deste discurso “contaminado pela beleza” é a forma como vê a Bíblia Sagrada. Biblista de formação, Tolentino Mendonça olha para os escritos fundamentais da Igreja como uma obra de arte. “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo”, defendia Tolentino Mendonça na entrevista ao Público. “Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.

A esta reconhecida capacidade artística, junta-se um “enorme conhecimento dos estudos bíblicos que faz dele um ótimo professor”, diz o padre Miguel Vasconcelos, que não só foi aluno de Tolentino Mendonça em três cadeiras do seu curso de teologia — Evangelhos Sinópticos, Escritos de São Paulo, e Estética e Teologia — como foi seu colaborador na edição portuguesa de uma coletânea de poemas da poetisa brasileira Adélia Prado.

“Ele tem uma capacidade de traduzir a Tradição da Igreja para a linguagem atual, para que a possamos entender hoje, que poucos têm. Ou seja, o conteúdo da Tradição é a verdade que a Igreja acredita ter sido revelada por Deus. Mas a formulação não pode ser sempre igual, muda consoante o destinatário, e o padre Tolentino é um fator de tradução importante, diz as coisas de sempre numa linguagem que é a nossa. E para isso é preciso ter uma vontade de se dedicar ao diálogo, de conhecer os seus destinatários e de estar diante do resto do mundo“, diz o capelão da Universidade Católica de Lisboa.

Esta abertura ao resto do mundo é outra das característica fundamentais de Tolentino Mendonça, que tem um discurso fundamentalmente dedicado aos não crentes. “Interessa-me a religião expressa de forma não-religiosa. Aprendo muito com os não-religiosos, ateus e indiferentes, pois os que não creem fazem perguntas aos que creem e é importante que estes as escutem e aprendam”, dizia o padre, numa entrevista ao Diário de Notícias em 2017.

“Acredito que a crença é um laboratório de descrença e que dentro de um crente há sempre um não crente. Mesmo quem vê Deus por todo o lado faz a experiência de que Ele não está em sítio algum e o contrário também é verdade”, afirmava na mesma entrevista. Antes, na entrevista ao Público, tinha mesmo assumido: “Não tenho um discurso para crentes“.

O poeta Pedro Mexia destaca esta dimensão do sacerdote, notando que “sempre foi claro que Tolentino Mendonça era uma pessoa particularmente cativante, que congregava pessoas que não eram muito obviamente interessadas em questões religiosas lato sensu, e que com ele as ouviam de outra maneira”. “Já tive oportunidade de apresentar dois livros dele e nas apresentações vi gente de todas as estirpes, do ponto de vista social e político“, recorda Mexia.

Na dicotomia padre-poeta, nenhuma das dimensões tem o protagonismo, apesar de uma não viver sem a outra. Segundo conta quem o conhece, nem o sacerdócio de Tolentino Mendonça pode ser entendido sem a poesia, nem os seus escritos podem ser lidos sem ser à luz da sua vocação de padre. João Pedro Vala destaca a dimensão pessoal da sua poesia e das suas crónicas. “Uma pessoa, quando lê as crónicas do padre Tolentino, sente-se sempre em contacto com ele. Sente que está a conhecer uma pessoa boa, é isso que me fascina”, explica o crítico. A posição é partilhada por Pedro Mexia, que sublinha que o padre “está muito atento à vida das pessoas e nos seus poemas aparece muito a relação com a intimidade, com as pessoas e com o segredo”.

A literatura no retiro do Papa

Precisamente por ser um teólogo diferente, um biblista experiente e um poeta contemporâneo, o Papa Francisco acabou por convidá-lo para orientar as meditações do retiro anual que faz com os membros da Cúria Romana, no início da Quaresma. “Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe que eu sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado ‘Elogio da Sede'”, contou Tolentino Mendonça num artigo publicado no jornal italiano Avvenire, aqui numa tradução para português do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Não tenho dúvidas de que as suas qualidades artísticas, além das teológicas, contribuíram para a escolha do Papa”, diz Francisco José Viegas, garantindo que “ele é uma pessoa em ascensão na hierarquia da Igreja, a quem a hierarquia presta cada vez mais atenção”. “Ele arrasta multidões. Durante o processo de lançamento do livro anterior, que já saiu na Quetzal, percebi o interesse com que as pessoas o ouvem. O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”, conta o editor.

A hierarquia da Igreja já tem, na verdade, o padre Tolentino Mendonça debaixo de olho há vários anos. O sacerdote, que hoje é o capelão da Capela do Rato, em Lisboa, foi o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um organismo da Conferência Episcopal Portuguesa criado em 2004, destinado a promover o diálogo entre a Igreja e a esfera cultural. Pelo meio, em 2011, foi nomeado consultor do Conselho Pontifício da Cultura, um órgão da Cúria Romana destinado a fazer a ponte entre o Papa e o mundo da cultura — nomeação que viria a ser renovada em 2016.

“Não posso imaginar os critérios que levaram à escolha do padre Tolentino, mas sei que ele é conselheiro do Conselho Pontifício para a Cultura, portanto é levado muito a sério por quem organiza estas coisas. Certamente, o percurso biográfico e teológico, em termos de estudos bíblicos, faz dele capaz do que lhe foi pedido”, diz o padre Miguel Vasconcelos.

Durante esta semana, Tolentino Mendonça presidiu a meditações diárias — uma de manhã e uma à tarde — perante o Papa e os seus colaboradores mais próximos. Nessas meditações, a literatura e a poesia estiveram sempre em cima da mesa. Logo na primeira, citou Fernando Pessoa e Lev Tolstoi para pedir aos participantes que “aprendam a desaprender”. Na segunda meditação, citou Clarice Lispector e Simone Weil para sublinhar a importância de não descurar os escritores e poetas no estudo da teologia.

Na sexta-feira, último dia do retiro, o Papa Francisco agradeceu a Tolentino Mendonça pelas meditações diferentes das tradicionais. “Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático”, disse o Papa. “Obrigado por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela”, acrescentou, terminando: “Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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