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terça-feira, 2 de novembro de 2010

O evangelista do Amor

Na pequena comunidade de oração e reflexão com que me reuno semanalmente (que até há uns meses era apenas formada por mim e por um casal, e que desde então conta com mais um elemento) estamos a ler o evangelho de S. Lucas. Inicialmente achei-o duro, seco e demasiado teatral e pedagógico nalguns dos seus episódios, com uma linguagem que se adequava pouco às nossas (pre)ocupações do 3º milénio. Parecia povoada por exorcismos e com cenas desconexas tiradas de uma peça de teatro escolar.
Contudo não posso deixar passar em branco os hinos dos primeiros capítulos, a infância de Jesus e as parábolas que, à medida que vamos avançando, começam a ser mais fecundas, frequentes e ricas. E é por essa razão que partilho um texto publicado no site da Pastoral da Cultura sobre este Evangelho.

Lucas, o evangelista do amor, pobreza, oração, renúncia e alegria


Lucas é o Evangelho do amor. O livrinho de parábolas do capítulo 15, a célebre parábola do samaritano, o “discurso da planície” (6, 17-49), a atenção de Jesus pelos excluídos, a eleição dos pobres e dos oprimidos, a dádiva aos pecadores, a fidelidade à História são elementos que repropõem ao crente de hoje um empenho renovado de solidariedade, de amor e de justiça segundo as novas e actuais coordenadas históricas. O Evangelho de Lucas apresenta-se como um apelo a redescobrir a dimensão social da fé, sem que ela se esgote numa simples proposta política. A história humana é um espaço onde o cristão deve sujar as mãos para contribuir para a plena realização do homem amado por Deus.

Lucas é o Evangelho da pobreza. Os pobres são evangelizados (cf. 4, 18): os pastores, a viúva que dá tudo, os discípulos que devem deixar tudo, os miseráveis que Jesus encontra no seu caminho cão os cidadãos do Reino de Deus, enquanto que os ricos insensatos (12, 13-21), os fariseus «amantes do dinheiro» (cf. 16, 9.14), aqueles que estão saciados e levam uma vida despreocupada são expulsos e refutados por Cristo. O jovem rico, apesar dos seus dons humanos e religiosos, não serve a Jesus se não distribui aos pobres «tudo quanto possui» (18, 22); «como é difícil para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!» (18, 24-25). Contra a idolatria do consumismo e do bem-estar, Lucas celebra o afastamento e a doação, exaltando a escolha preferencial de Cristo e dos cristãos pelos pobres.

Lucas é o Evangelho da oração. Cristo é retratado como o perfeito orante que nos momentos decisivos da sua vida se confia ao diálogo íntimo com o Pai. Lucas é um verdadeiro “catecismo da oração”. Uma atenção particular merecem os hinos do Evangelho da infância, que entraram na liturgia cristã (“Magnificat”, “Benedictus”, “Gloria in excelsis”, Nunc dimittis”): o seu aprofundamento permitirá celebrá-los com mais intensidade e revelar-nos-á a sua riqueza, ao mesmo tempo que nos faz entrar em sintonia com a oração da comunidade cristã das origens.

Lucas é o Evangelho da renúncia. «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (9, 62). Para seguir Jesus é preciso decidir por uma escolha radical, é preciso libertar-se de todo o compromisso, sobretudo com o dinheiro. É um imperativo diário de distanciamento que exige «deixar tudo» (5, 11) e «tomar a sua cruz, dia após dia» (9, 23). Lucas lança-nos um convite permanente a libertarmo-nos da idolatria das coisas e do egoísmo para ser, como Jesus e com Jesus, em marcha para a cidade do nosso verdadeiro destino.

Lucas é o Evangelho da alegria. O evangelista utiliza cinco verbos para a exprimir a alegria em 27 passos do seu escrito. Cristo, com a sua vinda à trama quotidiana dos nossos dias e nas nossas obras, lança a semente da felicidade e da esperança messiânica, sobretudo no coração dos homens «perdidos reencontrados», como se comprova na parábola do capítulo 15 (cf. versículos 5.6.7.9.10.23.25.32). Com Lucas há, portanto, a recuperação da dimensão jubilosa do Reino e da experiência da fé. Alegria que se manifesta sobretudo quando um «irmão que era morto regressa à vida», quando um «irmão que estava perdido é reencontrado» (15,32).
D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura

In Il Vangelo di Luca
Trad.: rm
© SNPC (trad.)
18.10.10
http://www.snpcultura.org/pedras_angulares_sao_lucas.html

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