Primeiro em Picoas, depois no Saldanha... também o vi no Restelo. A figura deste homem - o Sr. João - ajudava-me a lembrar que a cidade não é só constução de betão e vidro: ela faz sentido na medida em que congrega pessoas. E as pessoas relacionam-se. O senhor João era uma réstia de humanidade entre o alcatrão e os passeios.
Passava os seus serões de pé, numa zona em que os carros passam velozes. Os condutores que já o conheciam apitavam e ele acenava. Os lisboetas sabiam onde estava, muitos não sabiam como se chamava. De cabelo branco e com uns óculos escuros estava ali, fielmente, à noite:
Morreu ontem. Era uma figura mítica da cidade de Lisboa. E com ele morreu ontem mais um bocadinho da história deste cidade.
"Essa senhora [solidão] é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente"
João Manuel Serra assumiu por várias vezes nunca ter tido de trabalhar. Vinha de uma família abastada que o deixou com rendimentos fartos e lhe permitiu escolher uma «profissão» diferente. Acenava a quem passava pela zona do Saldanha apenas porque acreditava que, dessa forma, fazia os lisboetas mais felizes.
Presto homenagem ao João Serra, conhecido por "Senhor do Adeus" (1930 -2010). Gostava que ele ficasse na memória não como alguém que dizia adeus, porque não era isso que ele fazia: ele não se estava a despedir de ninguém! Ele acenava para cumprimentar, para saudar: era o "Senhor do Olá". Independentemente de qualquer juízo mais condescendente em relação ao seu estado de saúde mental, aqui fica um obrigado a ele e a tantos que poderiam ficar fechados no conforto das suas vidas, mas que escolhem que ela faz sentido na medida em que a comunicam ao próximo... mesmo que o próximo passe veloz.

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