O conhecimento da vida interior é uma viagem, um caminho de vida interior. Essa é a viagem mais longa. E isso exige coragem, para ter contacto com as partes mais profundas e escondidas de nós, requer perseverança, humildade do “buscador” e a sede do viajante. Mas a descoberta e a alegria pode ser grande. É interessante que a vida espiritual cristã seja ou um subir as escadas ou um descer. O que nós procuramos já está em nós.
A escada que sobe e que desce é sempre a mesma (Heraclito). S. Bento, na sua regra monástica, quando escreve sobre a humildade, diz que quando os monges subirem todos os graus desta escala, atingem a humildade, o grau mais baixo, que é grau do pecador publicano que não ousa olhar para o céu, mas que volta à terra e diz: «Senhor, tem piedade de mim, que sou pecador». Mas, dentro dessa treva, descobrimos a pérola preciosa, e o que procuramos já o temos em nós e espera por nós.
O caminho espiritual cristão não é linear, não é uma ascese contínua, mas um caminho humano, com regressão, quedas. É um caminho em que é essencial a pergunta, o interrogar-se e deixar-se interrogar: «Quem sou eu?». As perguntas são essenciais na procura espiritual cristã. É mais importante a boa pergunta do que muitas respostas. E esta pergunta tende a guiar-nos ao conhecimento de nós mesmos. E conhecermo-nos em perspetiva cristã significa reconhecer e nomear os enigmas que nos habitam. É um momento dramático do caminho espiritual aquele da consciência do incompreensível que está em nós, mas isso é essencial. E como somos chamados a amar, como cristãos, os inimigos, somos igualmente chamados a amar as partes inimigas que vêm de dentro de nós. Neste caminho é essencial o silêncio e a solidão que se põem diante do essencial. É o momento da nossa unificação do coração.
Luciano Manicardi
Lisboa, 22 de Outubro de 2010
Texto recolhido por David Mieiro e publicado por © SNPC a 6 de Dezembro de 2010
http://www.snpcultura.org/paisagens_o_que_pode_ser_hoje_uma_espiritualidade_crista_2.html

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