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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um comentário ao artigo homófobo publicado na ROM

Artigo homófobo na Revista da Ordem dos Médicos

Então a história conta-se assim:

O senhor William H. Clode começa por elaborar a propósito do sentido do sexo – supostamente “um sentido primordial para a perpetuação das espécies; uma súmula dos cinco sentidos ainda não devidamente esclarecido”. Compara-o, nesta medida, ao “chamado ponto G (...) conhecido há poucas décadas e não estando definido como órgão, uma localização a partir da qual se desencadeiam os orgasmos (...).

Se continuarmos a ler as reflexões do senhor William H. Clode recebemos uma aula de Introdução à Genética, onde nos é explicada a forma como as características são transmitidas à descendência, dando como exemplo o caso do daltonismo, uma doença associada ao cromossoma X. Para resumir, e porque a lição do já referido senhor até nem está mal explicada, basta dizer que se um homem tiver no seu cromossoma X o gene para a percepção da cor alterado então esse homem será daltónico; para uma mulher ser daltónica terá de ter alterados os genes para a percepção da cor em ambos os seus cromossomas X. Utilizando, então, este exemplo, o senhor Clode vai mais longe, sugerindo a “existência semelhante numa situação relativa aos outros sentidos: olfacto, audição, paladar e tacto”, não se esquecendo, no entanto, de nos voltar a recordar a existência do tal “sentido do sexo”. “Na natureza o daltonismo do sentido do sexo pode existir como o daltonismo de outros sentidos”. Diga-se, em abono da verdade, que o próprio senhor Clode reconhece que “o daltonismo dos sentidos está ainda por ser identificado e estudado”. Ora já se está a ver onde é que o senhor Clode começa, lentamente, a querer chegar. Tem uma mente um bocadinho tortuosa, começa a querer-me parecer...

O senhor Clode, teve entretanto, um ano para continuar a relectir sobre este assunto. Embora reconheça a influência dos ecossistemas (será que ele sabe o que é isto?) e do “meio cívico e cultural na organização da educação tão importante na transmissão de conhecimentos e de hábitos”, o senhor Clode conclui que “os Genes (com maiúsculas dele) definem o SER” e que “nós somos o que os genes nos destinaram”. Começa agora a falar dos desvios à norma, referindo que “a alteração dos genes individuais podem não significar doença, mas resultam num desvio do normal”. Vem aí matreirice, ou é impressão minha? Fala-nos então da forma como os desvios podem, ou não, ser facilmente corrigidos ou como podem, ou não, pôr em causa a actividade do ser de acordo com as disfunções resultantes desse desvio do normal. Mas, sejamos honestos, também nos informa que “os estudos genéticos são relativamente recentes, minuciosos e morosos pelo que, por agora, só podemos admitir hipóteses e não dissertar sobre certezas”. O que para o senhor Clode significa, parece-me óbvio, que se pode então dizer e escrever qualquer disparate sobre estes assuntos, uma vez que a Ciência não pode, nem provar, nem contrariar. Ai, ai senhor Clode! Mais uma matreirice! Ou começa a ser pior que isso?

E pronto! A partir daqui, é uma diarreia mental! Afinal, para o senhor Clode, o daltonismo do sexo é mesmo uma evidência, sendo o que recebe mais estímulos de todos os restantes, primordial e complexo e, é claro, dependendo da constituição genética de cada ser. Assim sendo, e porque os genes definem o masculino e o feminino, para este senhor é óbvio que os machos e fêmeas distinguem-se não só pela morfologia que aparentam, mas também pelos seus comportamentos. Mas, não nos esqueçamos que já tínhamos sido alertados para a questão dos desvios ao normal e, portanto, não nos espantemos com o que nos é dito de seguida e que, no fundo, era a tão desejada meta a alcançar pelo senhor William H. Clode: “Os desvios da genética levam a alterações com vários graus de diferenciação (...) desde as mais discretas às mais descaradamente evidentes. A Sociedade em geral é testemunha das alterações genéticas definidoras do sexo e classifica os seres com essas aberrações como homossexuais (...). A sociedade homossexual diferencia-se da heterossexual pelos gestos, pela fala, pela indumentária, pelos gostos e por manifestações subtis que identificam um comportamento”. Afinal, quer-me parecer que o senhor Clode não se fica pela matreirice... Há mais: “os homossexuais estimulam-se individualmente e, entre si se associam, organizando-se como se os genes não estivessem alterados”, “no daltonismo sexual há uma segunda pessoa, igualmente daltónica”, “as condutas sexuais aberrantes embora respeitadas são repugnantes quando desvirtuadas e sujeitas a uma higiene degradante”.

Mas congratulemo-nos! O senhor Clode não é daqueles que se limita a identificar o problema! Não! Ele apresenta-nos soluções: tendo em conta que a genética, por enquanto, não consegue corrigir-se a si própria, o senhor Clode aborda a questão através de “correcções [que] feitas pela educação fazem parte de ambicioso programa atribuído à epigenética”.

E está contada a história que, na realidade, não é mais do que a tentativa completamente distorcida, sem qualquer tipo de base científica de, mais uma vez, atribuir à homossexualidade uma causa genética. E não é a questão da base genética que me faz comichão... Nenhum. O problema é a homofobia mais que latente num artigo de opinião escrito pelo Dr. William H. Clode, Chefe de serviço Hospitalar no Instituto Português de Oncologia, e publicado pela Revista da Ordem dos Médicos em Janeiro de 2011.

Carlos Pereira
 
Nota do moradasdedeus:
nos "Documentos em destaque no blogue" pode ler-se a totalidade do artigo de opinião do Dr. Clode (que, esperamos, seja mais assertivo enquanto médico do que enquanto "opinador"). Pode ser lido também aqui.

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