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segunda-feira, 14 de março de 2011

Um rosto da Nova Teologia

Henri de Lubac
O padre Henri de Lubac foi um dos grandes teólogos do século XX e incorporou a chamada Nova Teologia. Em 1942 dirá numa lição que «toda a natureza é infinitamente vasta e um diverso símbolo através do qual a Face de Deus é misteriosamente refletida. Um homem é religioso ao ponto de reconhecer em toda a parte o reflexo desta divina Face, isto é, de que vive numa atmosfera religiosa». 
                
Nasceu de uma antiga família nobre de Ardéche, em Cambrai, França, no dia 20 de fevereiro de 1896. Aos 17 anos, em 1913, entra na Companhia de Jesus, partindo para Inglaterra. Mas no ano de 1916 volta a França onde é alistado no exército e enviado para a batalha de Verdun, que foi o primeiro e mais longo conflito da I Guerra Mundial. Após o conflito volta a Londres para iniciar os seus estudos teológicos, recebendo a ordenação sacerdotal no ano de 1927.


Henri de Lubac passa a lecionar teologia fundamental, dogmática e história das religiões na Universidade Católica de Lyon, voltando assim a casa. Em 1940, face ao avanço das tropas alemãs, Lubac abandona a cidade de Lyon levando consigo um conjunto de manuscritos, entre os quais se encontrava o dossier sobre a sua obra maior “Surnaturel”. As primeiras anotações remontam a 1924, durante o seu noviciado na Companhia de Jesus. Os textos haviam servido, à época, como material para as conversas que mantinha com os seus companheiros aos Domingos. Seis anos depois, “Surnaturel” é melhorado com estudos posteriores. que constituiriam o volume final da obra.

O tempo que compreende a vida e obra do padre de Lubac situa-se durante um dos períodos mais violentos e confusos da história da Europa. É um tempo devedor do positivismo do século XIX, que teve nas figuras de Comte, Feuerbach, Marx, Nietzsche os seus expoentes máximos. A teoria acreditava na força do homem para forjar o seu próprio destino sem a influência da autoridade da religião e da superstição, concretizando cada vez mais o processo de secularização que a modernidade do século XVI havia aberto, mas agora sob o signo do ateísmo com o qual de Lubac se confrontará ao seu tempo.

Em “Drama do Humanismo ateu” (1944), de Lubac defende que muitos dos pensadores do século XIX, entre eles Marx e Nietzsche, têm em comum a rejeição de Deus, ou seja, que esta rejeição está na origem dos seus próprios sistemas, mas de Lubac considera que “onde não há Deus, também não há o homem

No ano de 1949 escreve o artigo “Le mystère du Surnaturel”, que constitui um complemento a “Surnaturel,para dissipar as dúvidas e ataques dos seus críticos, mas ninguém parece ter ficado convencido. No ano seguinte é aconselhado ao silêncio e a retirar-se do ensino. Mas mesmo durante este silêncio o padre de Lubac escreve, em 1956, uma das suas obras maiores: “O esplendor da Igreja”.

Lubac é aconselhado ao silêncio não só pelo livro de 1946 e o artigo de 1949, mas também devido ao seu relacionamento com a chamada “Nova Teologia”, que outra coisa não visava se não o regresso às fontes (Escritura, Patrística, Liturgia), prestar atenção às influências filosóficas, a recuperação do universalismo, apenas para referir alguns aspetos. Contra esta ‘Nova Teologia’ estavam grandes nomes do pensamento católico teológico e filosófico do tempo, entre os quais se destacam os dominicanos Garrigou-Lagrange e Labourdette.

O padre de Lubac viverá este silêncio numa clara e respeitada obediência que durará cerca de uma década. Com a eleição de João XXIII, é chamado a participar, primeiro na preparação e depois como perito, no 2.º Concílio Ecuménico do Vaticano (1962-1965), dando o seu contributo para as constituições sobre a revelação divina (“Dei Verbum”) e sobre a Igreja no mundo atual (“Guadium et Spes”).

Após o Concílio, de Lubac continua a dedicar-se ao tema do “sobrenatural”, que resultará em 1965 no livro “O mistério do sobrenatural”, que recorda o artigo de 1949.

Em 1972 funda com von Balthasar e Joseph Ratzinger a revista “Communio”, e em 1983 o Papa João Paulo II nomeia-o cardeal, o primeiro não bispo depois do concílio. Morre a 4 de setembro de 1991, com 95 anos.

por L. Oliveira Marques
in SNPC

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