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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Natal dos primeiros cristãos

Na página do SNPC há uma entrada do Fr. Isidro Lamelas sobre o Natal dos primeiros cristãos que quero partilhar com os leitores deste blogue. A forma como os padres da Igreja o viviam e como reflectiram sobre o sentido do nascimento do Menino Deus é uma fonte de inspiração para os cristãos do século XXI viverem em profundidado este Mistério Natalício. (Ler mais em http://www.snpcultura.org/natal_primeiros_cristaos.html)

Cito alguns excertos:
«No firmamento brilhou uma estrela maior do que todas as outras! A sua luz era indescritível. A sua novidade causou estranheza. Mas todos os demais astros, incluindo o Sol e a Lua, fizeram coro à Estrela. Esta, porém, ia arremessando a sua luz por sobre todos os demais. Houve, por isso, agitação. Donde lhes viria tão estranha novidade? Desde então, desfez-se toda a magia; suprimiram-se todas as algemas do mal. Dissipou-se toda a ignorância; o primitivo reino corrompeu-se, quando Deus se manifestou humanamente para a novidade de uma vida eterna».

« (...)que aprendamos a tornar-nos ricos nele que se fez pobre por nós; que busquemos nele a liberdade, tendo Ele mesmo assumido por nós a condição de servo; que entremos na posse do céu, tendo Ele por nós surgido da terra».

«Jesus é o novo sol que atravessa as paredes, invade os infernos, perscruta os corações. Ele é o novo sol que com os seus espíritos faz reviver o que está morto, restaura o que está velho, levanta o que está decadente e purifica ainda, com o seu calor, aquilo que é impuro, aquece o que está frio e consome o que o que não presta».

«Preparemo-nos pois, irmãos, para acolher o natal do Senhor, adornemo-nos com vestes puras e elegantes! Falo, claro está, das vestes da alma, não do corpo… Adornemo-nos não com seda, mas com obras boas! Pois as vestes elegantes ornam o corpo, mas não podem adornar a consciência; pois seria muito vergonhoso trazer sob elegantes vestes elegantes, uma consciência contaminada. Procuremos acima de tudo embelezar os nossos afetos íntimos, e poderemos então vestir belas roupas; lavemos as manchas da alma para usarmos dignamente roupas elegantes! »

«Ele está deitado numa manjedoura, mas contém o universo inteiro; mama num seio materno, mas é o pão dos anjos; veio em pobres panos, mas reveste-nos de imortalidade; é amamentado, mas é também adorado; não encontrou lugar na estalagem, mas constrói para si um templo no coração dos seus fiéis. Tudo isto para que a fraqueza se tornasse forte e a prepotência se tornasse fraqueza. Por isso, não só não menosprezamos, mas mais admiramos o seu nascimento corporal e reconhecemos neste acontecimento quanto a sua imensa dignidade se humilhou por nós».

ALELUIA

postal de Natal do SNPC 2011
poema inédito de Jorge Sousa Braga, fotografia de Rui Aleixo

O Advento dos Cristãos

Se o Advento não for, concretamente, tempo de preparação da vinda de Cristo, mentimo-nos como cristãos, traímos o anúncio da Boa-Nova. E preparar a vinda de Cristo implica tentar todos os dias, cada dia, pôr o Evangelho na vida. Nós cristãos contentámo-nos, com um sacramentalismo que não andou de par com a leitura da Escritura. Explico-me: a falta de leitura da Palavra não nos abre às exigências concretas contidas nos Evangelhos ou nas epístolas. Somos cristãos de prática religiosa, rotineira ou cristãos vagamente vocacionados para um anúncio teórico e utópico da BoaNova. Somos sociologicamente bons burgueses, como os outros, esquecidos da nossa condição de batizados ou seja de portadores de uma mensagem de salvação, que é a de Cristo. (...) Como vamos nós anunciar, hoje, em Portugal,

Maria de Lourdes Belchior

imagem de Rui Aleixo para a Capela do Rato (dezembro 2011)

in SNPC 

A expectativa do mistério de Deus


Sentinelas que esperamos a aurora

Quando descobrimos nas nossas vidas a importância do mistério de Deus, entrámos em expectativa. A resposta que é dada a esta espera não consiste em satisfazê-la, mas em aprofundá-la mais. Aí alcançamos o que há de mais espantoso na relação do homem com o mistério de Deus: se este mistério se anuncia em nós, ele não suprime a carência que nos permitiu estarmos atentos a esta revelação. Se o mistério de Deus se revela a partir da expectativa, não é suprimindo a expectativa, é tornando-a mais quotidiana, mais permanente, mais necessária. Por exemplo, o amor não satisfaz a expectativa do amor, a aproximação da verdade não diminui a paixão da verdade. Bastar-nos-ia então estar apaixonados pela verdade para que a nossa vida fosse verdadeira, ser desejosos de amor para amar e ser amado, estar na expectativa do mistério de Deus para que Deus seja presente em nós?

A atitude espiritual que então seria a nossa consistiria em esperar a revelação de Deus mais do que pretender possuir as certezas dela. De qualquer modo, àqueles que estão pouco certos de estarem certos, é proposto serem, na noite, sentinelas que esperam a aurora. Não nos é pedido que tenhamos fé como se possuíssemos o mistério de Deus, mas que sejamos sentinelas que sabem que a noite é a noite e que esperam que a aurora será a aurora. Na paciência que precede o dia, estamos atentos a essa experiência espiritual do mistério de Deus em nós, e estamos dispensados de pronunciar o seu nome.

Mas nós lembramo-nos do seu nome, quando perdemos o rasto. Como é espantoso poder evocar a memória do seu nome, precisamente quando somos os seres do começo, há pouco anunciados. Talvez esteja aí o futuro da fé: Deus é sempre vindouro. Se não houvesse a noite e o dia, as idades e as estações, a alegria e o cansaço, teríamos a «fé dos anjos». A nossa fé é a do tempo do homem, da evidência da juventude à idade madura em que se descobre que a impaciência do tempo se tornou paixão da interioridade.

Sentinelas dessa madrugada que nasce entre nós… Atentos a essas palavras que não podemos pronunciar, que quereriam dizer tudo aquilo que somos e que se entregam num olhar, num silêncio, numa emoção contida. Sentinela do nosso ser que desperta, sentinela do outro, da sua felicidade, e sentinela junto da infelicidade do outro.

Tudo nos vem por reflexo, por eco, por transparência. Entre aquilo que ignoramos do infinito de Deus e aquilo que descobrimos de nós mesmos, nós penetramos no universo maravilhoso das correspondências. Captá-las quando elas passam é a contemplação de que somos capazes.

Bernard Feillet – Les arbres dans la mer. Paris, DDB, 2002, p.70-72.