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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A expectativa do mistério de Deus


Sentinelas que esperamos a aurora

Quando descobrimos nas nossas vidas a importância do mistério de Deus, entrámos em expectativa. A resposta que é dada a esta espera não consiste em satisfazê-la, mas em aprofundá-la mais. Aí alcançamos o que há de mais espantoso na relação do homem com o mistério de Deus: se este mistério se anuncia em nós, ele não suprime a carência que nos permitiu estarmos atentos a esta revelação. Se o mistério de Deus se revela a partir da expectativa, não é suprimindo a expectativa, é tornando-a mais quotidiana, mais permanente, mais necessária. Por exemplo, o amor não satisfaz a expectativa do amor, a aproximação da verdade não diminui a paixão da verdade. Bastar-nos-ia então estar apaixonados pela verdade para que a nossa vida fosse verdadeira, ser desejosos de amor para amar e ser amado, estar na expectativa do mistério de Deus para que Deus seja presente em nós?

A atitude espiritual que então seria a nossa consistiria em esperar a revelação de Deus mais do que pretender possuir as certezas dela. De qualquer modo, àqueles que estão pouco certos de estarem certos, é proposto serem, na noite, sentinelas que esperam a aurora. Não nos é pedido que tenhamos fé como se possuíssemos o mistério de Deus, mas que sejamos sentinelas que sabem que a noite é a noite e que esperam que a aurora será a aurora. Na paciência que precede o dia, estamos atentos a essa experiência espiritual do mistério de Deus em nós, e estamos dispensados de pronunciar o seu nome.

Mas nós lembramo-nos do seu nome, quando perdemos o rasto. Como é espantoso poder evocar a memória do seu nome, precisamente quando somos os seres do começo, há pouco anunciados. Talvez esteja aí o futuro da fé: Deus é sempre vindouro. Se não houvesse a noite e o dia, as idades e as estações, a alegria e o cansaço, teríamos a «fé dos anjos». A nossa fé é a do tempo do homem, da evidência da juventude à idade madura em que se descobre que a impaciência do tempo se tornou paixão da interioridade.

Sentinelas dessa madrugada que nasce entre nós… Atentos a essas palavras que não podemos pronunciar, que quereriam dizer tudo aquilo que somos e que se entregam num olhar, num silêncio, numa emoção contida. Sentinela do nosso ser que desperta, sentinela do outro, da sua felicidade, e sentinela junto da infelicidade do outro.

Tudo nos vem por reflexo, por eco, por transparência. Entre aquilo que ignoramos do infinito de Deus e aquilo que descobrimos de nós mesmos, nós penetramos no universo maravilhoso das correspondências. Captá-las quando elas passam é a contemplação de que somos capazes.

Bernard Feillet – Les arbres dans la mer. Paris, DDB, 2002, p.70-72.

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