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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Responder com coragem à incerteza do Futuro

As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte IV

Um convite a ser corajosos

A coragem talvez fosse a sua maior virtude. Graças à sua coragem, Etty confrontou-se com o seu caos pessoal e encontrou a sua identidade; graças à sua coragem, ela foi mais fundo na sua viagem de exploração, descobrindo o terreno divino do seu coração; graças à sua coragem, Etty recusou-se a odiar; finalmente, graças à sua coragem, recusou-se a esconder-se, optando por abraçar o destino do seu povo e por perder a sua vida. Etty mostra que uma vida verdadeiramente humana vive-se seguindo a vida corajosa e paradoxal da autodescoberta e do autoesvaziamento. Assim, no meio da escuridão, Etty encontrou a alegria e manteve-se viva naquele lugar, apesar do poder da morte.

Nas circunstâncias do nosso tempo, de modo particular no meio do nosso medo e do nosso pessimismo acerca do futuro, Etty também nos convida a viver com coragem.

Os que viveram na década de 1960 poderão olhar para trás - sem dúvida com uma grande dose de nostalgia - recordando-a como um tempo de grande otimismo, libertação e novas experiências; como um tempo de rebentar com o horrível colete de forças de tudo o que inibira a vida através da austeridade dos anos do pós-guerra. A década de 1960 convidou-nos à exploração de um novo futuro. Com a sua cor e os seus excessos, com a sua tentativa de derrubar todas as fronteiras, foi uma década que gerou um sentimento de que vinham lá mudanças e de que tudo era possível.

Cinquenta anos mais tarde, passada a primeira década do século XXI, estamos num lugar muito diferente. Esse espírito de otimismo evaporou-se por completo, dando lugar a um profundo sentido de pessimismo quanto àquilo que o futuro nos reserva. Não é exagerado dizer que muita gente, talvez sobretudo as pessoas mais velhas, sentem - segundo Etty Hillesum - que o mundo «se encontra num estado de colapso». Não do colapso violento e apocalíptico por que ela passou, mas de uma lenta e. contínua desintegração da nossa confiança no futuro.

(...)
Ao falar de um mundo que se ia desintegrando com violência à sua volta, Etty interpela o nosso pessimismo, convidando-nos a ser corajosos. Etty convida-nos a olhar de frente para quaisquer situações difíceis com que possamos confrontar-nos, quer pessoais quer muito mais vastas, e a envolvermo-nos nelas, procurando a vidaatravés desse empenhamento.

Integrando o negativo

No caso de Etty, este empenhamento envolveu a aceitação consciente daquilo que não podia ser evitado, uma firme recusa em entregar-se à ilusão, e o acolhimento percetivo dos desgostos e das perdas. Ela confrontou-se com uma situação que parecia completamente isenta de esperança e integrou em si aquilo que parecia completamente negativo, e isso deixou-a livre para enfrentar o presente com coragem, e para acreditar no futuro com esperança. Nisto consistiu a sua transformação. Foi, como já vimos, uma batalha - Etty refere-se a isso como «uma luta» - mas, com tanta honestidade e coragem ela deixou de ser vítima da sua situação, tornando-se plenamente ela própria, nesse contexto. No princípio de julho de 1942, Etty escreveu:

«Sim, nós transportamos tudo dentro de nós, Deus, o Céu, o Inferno, a Terra, a Vida e a Morte, e toda a história. Os aspetos exteriores são apenas outros tantos apoios; tudo aquilo de que precisamos está dentro de nós. E temos de aceitar tudo o que venha: tanto o mal como o bem, o que não signi­fica que não devamos dedicar a nossa vida a curar o mal.»

Eis uma afirmação extraordinariamente abrangente. Etty afirma que traz «Deus» e o «Céu» dentro de si, e talvez com estas palavras se queira referir a momentos e recordações de paz (no exterior, ao sol, junto ao castanheiro?), ou à amizade (em sua casa?), ou ao entendimento (com Spier?), ou à comunidade (os serões musicais que partilhavam?). Mas também escreve que transporta dentro de si o «Inferno» e a «Morte»: que queria ela dizer com estas palavras? Seria a violência imediata que a cercava? Ou talvez a recordação de amigos que tinham desaparecido de repente? Ou a imagem de casas em ruínas destroçadas pelas bombas? Ou o terror estampado no rosto das crianças? Ou a fome e o medo entre os velhinhos, tão vulneráveis? Ou estaria a referir-se ao futuro com que todos se confrontavam: o sofrimento e a morte num campo de extermínio, que, em seu entender, não podiam ser evitados?

Etty viu tudo isto ou esforçou-se por absorvê-lo. Ela transportava tudo dentro de si. Ela não pretendia alhear-se de tudo o que se estava a passar, nem desviar os olhos do que estava para vir. Tudo isso tinha de ser «transportado» dentro de si. Tudo isso fazia parte dela.

Mas, para o fazer - para aceitar plenamente os factos negativos e para viver com uma abertura tão indefesa frente à totalidade daquilo que a vida nos atira à cara - é preciso ter uma coragem imensa.

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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