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sábado, 2 de novembro de 2013

O Vaticano na Bienal de Arte de Veneza de 2013

Nota: esta imagem não representa nenhum dos trabalhos apresentados pela Santa Sé
Encontro entre Bíblia e arte contemporânea promovido pela Santa Sé

Erradamente, a arte contemporânea e a fé são para muitos termos incompatíveis. Os postulados são apresentados como uma espécie de contradictio in adjecto, seja porque se entende que a liberdade estética, a transgressão e o declarado caráter transiente [transitório] da arte contemporânea são incompatíveis com o ideário do belo, do bom e do verdadeiro, porque se observa na arte contemporânea uma imoralidade estratégica, ou porque, por outro lado, se defende que a fé está definitivamente afastada das matérias profanas da atividade artística. Esta atitude serve apenas radicalismos inúteis, mas fáceis. Além de falácias sediciosas, alimenta um antagonismo que, na verdade, reescreve a relação de proximidade que o impulso artístico tem mantido ao longo de séculos com a intuição da fé.

A arte contemporânea é frequentemente enigmática, renegoceia, não raro, as relações entre o belo e o feio, mas não deixa de constituir uma procura, mesmo que situada, pela revelação de uma certa transcendência. Ainda que esta transcendência não se manifeste no impulso da fé, há justamente um espaço de abertura que trespassa a gestualidade moderna, da música de Stockhausen às coreografias de Pina Bausch ou às telas rasgadas de Lucio Fontana.

O Cardeal Gianfranco Ravasi, que preside ao Conselho Pontifício para a Cultura, salientava esta abertura ao absoluto do gesto aparentemente destrutivo, mas rico de intencionalidade de Fontana, numa conferência, em Lisboa, em novembro passado, defendendo a necessidade de recuperar a intimidade entre a busca da arte contemporânea e a Igreja, atacada pela desconfiança dos últimos tempos, na senda da abertura dialógica que o catolicismo convoca.

Um passo importante nesta direção é o pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza (…). Com curadoria do Cardeal Ravasi, esta é a primeira vez que o Vaticano participa na Bienalle, este ano subordinada ao tema "O Palácio Enciclopédico", com um tríptico concebido a partir do Livro de Génesis.

Neste modelo triádico configura-se a criação, a descriação, ou destruição, e a recriação. Ao invés de uma funcionalização litúrgica da arte, as obras, do fotógrafo checo Josef Koudelka, do pintor americano Lawrence Carrol e do coletivo multimédia italiano Studio Azzurro, configuram o círculo da criação, apresentando a arte contemporânea em diálogo com o mais antigo manifesto de estética, o Livro de Génesis e a sua representação mais perfeita, a humanidade. Um encontro radioso a visitar até 24 de novembro.

Isabel Capeloa Gil
Vice-reitora da Universidade Católica Portuguesa
In Página 1, 29.5.2013
Com SNPC a 30.05.13

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