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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sobre a Eucaristia

Porque a Páscoa se aproxima, parece-me oportuno algumas leituras em profundidade sobre o mistério da Eucaristia

Exigência da Eucaristia

A Eucaristia não é a conservação mágica de uma presença materializada, é a oferenda infinitamente real de uma presença universal à qual não podemos unir-nos senão tornando-nos nós próprios universais: na realidade a Eucaristia, que reúne toda a Igreja, que é o lugar eminente da Caridade, é uma exigência formidável.
É que a Eucaristia supõe que nós estejamos dispostos a todos os despojamentos, a todas as humildades, a todos os perdões que o nosso encontro com o Homem-Deus implica.
A Eucaristia implica que, para suscitar a humanidade dos nossos irmãos, para que os nossos irmãos se tornem ou sejam homens autênticos e verdadeiros, seja necessário mostrar-lhes em nós mesmos esse espaço ilimitado e silencioso onde se respira Deus!

Algumas comparações

Se a Eucaristia tem tanto valor para nós, é porque não se trata de maneira nenhuma de um rito mágico.
Tentemos algumas comparações, eu sei que é um terreno um pouco perigoso mas é preciso mesmo assim esclarecer a nossa religião.
Não é porque um livro está em cima da mesa que podemos agarrar, com a mão, a ciência que ele contém com a mão. É que o livro é o símbolo de um saber que nos será necessário assimilar por meio de uma presença espiritual: será preciso, para que ele signifique alguma coisa essencial para nós, que refaçamos à nossa escala todo o trabalho do escritor, todo o trabalho do sábio se for um livro de ciência, e é quando vós próprios tiverdes entrado no diálogo com a verdade que ele contém, que o livro terá cumprido a sua função.
A ciência não pode ser colocada em cima da mesa. Do mesmo modo que não se pode colocar a vossa amizade em cima da mesa, o vosso sorriso em cima da mesa, e pô-lo ao alcance da vossa mão ou da nossa.
Podeis trazer no vosso casaco a carta, e o pensamento, de um ser amado, mas sabeis muito bem que o pensamento do vosso amigo, tal como ele está expresso na carta, vós não o meteis no bolso. Colocais a carta no bolso, mas não o pensamento que ela exprime. Esse, vós colocai-lo no vosso espírito.
Na Eucaristia há algo de análogo: nós não pomos Deus em cima da mesa ou sobre o altar, não colocamos Deus na nossa boca ou no nosso bolso, mas há o pão e o vinho consagrados, como na carta, o veículo de uma presença real, do mesmo modo que a carta é o veículo de um pensamento real. E tal como não podeis entrar em contacto com esse pensamento real na carta ou no livro senão lendo a carta ou o livro, e assimilando espiritualmente o seu conteúdo, da mesma maneira para a Presença real eucarística: ela é infinitamente real, escusado será dizer, mas não é de modo nenhum local, de modo nenhum tangível, de modo nenhum fisicamente acessível, e de modo nenhum podeis entrar em contacto com ela senão através das espécies que, essas, podeis tocar.
Podeis tocar o pão e o vinho consagrados, transportá-los, consumi-los, bebê-los e comê-los, mas todos estes actos não se relacionam com a presença do Senhor, o pão e o vinho consagrados não são outra coisa senão o seu sacramento: a manducação física é o sinal que representa e realiza uma assimilação espiritual, se nós estivermos realmente presentes.

Presença real recíproca

Deus escapa-nos enquanto não vivermos na caridade, Deus escapa-nos enquanto não estivermos na corrente do amor. Deus escapa-nos enquanto não entrarmos nesse horizonte universal. De outro modo, ele seria então um «pequeno Bom Deus» feito à nossa medida, seria um ídolo!
Daqui resulta que a Eucaristia é essencialmente uma presença comunitária, uma presença à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.
Não é que Cristo não esteja presente: Ele está sempre inteiramente presente a cada um de nós! É que se nós não podemos ser presentes e interiores aos outros, no interior dos outros, porque somos limitados e as nossas fronteiras nos impedem essa presença aos outros, e porque o nosso egoísmo nos enclausura na nossa solidão, Cristo, Ele, não tem fronteiras, nem limites e, por conseguinte, é interior a cada um de nós: Ele habita-Se no interior dos outros.
Cristo já está portanto presente em todos, dignos ou indignos, Ele é presente em todos, nós é que não estamos presentes em Cristo, e na Eucaristia trata-se precisamente de nos tornarmos presentes nEle, de nos apossarmos dEle, não um apossar-se material, não! Trata-se de, com a nossa intimidade, assimilar esta intimidade de Deus que se nos oferece. E, precisamente, o gesto comunitário, se o realizarmos lealmente, vai dar os seus frutos.
Finalmente, que fazemos nós na liturgia? Não pronunciamos palavras mágicas para pôr Deus num cálice. Que fazemos na Eucaristia? Fazemos com que toda a humanidade invoque Cristo e se solidarize com Ele dizendo sobre Ele: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue!», vindo toda a humanidade colocar-se aos pés da Cruz.
E Cristo com as mesmas palavras investe a Sua comunidade e dá-Se à humanidade dizendo sobre ela: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue.» E, no termo da formulação destas palavras, a Presença real é realizada dos dois lados, e Cristo, na refeição da fraternidade, dá-Se verdadeiramente aos seus, dá-Se à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.

Uma comparação grosseira

Se quiserdes, ainda uma comparação extremamente grosseira: na missa, ligamos o rádio juntos para entrar em contacto e assimilar uma Presença que já lá está, precisamente como as ondas já lá estão na sala antes de acender o rádio, nós ligamos o rádio para captar essa Presença que é oferecida sempre, que já está em nós, mas à qual nós ainda não estamos presentes. As espécies eucarísticas são uma abertura para essa Presença.
Não se trata de imaginar que Cristo cai do céu sob a forma do pão e do vinho, trata-se bem de ver que o pão e o vinho se abrem a uma Presença que já lá está, interior a nós-mesmos, dada a cada um: ela abre-se e permite-nos entrar em contacto com ela porque, precisamente, as espécies são o símbolo da fraternidade visto que estamos ali numa refeição que reúne virtualmente a humanidade inteira e realiza um horizonte universal.
Nós não nos apossamos fisicamente de Cristo pela Eucaristia, apossamo-nos espiritualmente, e o sinal de que essa ligação espiritual é verdadeiramente realizada é que estamos juntos e realizamos juntos a comunidade humana da qual ninguém é excluído.
E isto é de tal modo verdade – ouvi bem – é de tal modo verdade que, se já não houvesse no mundo um só ser aberto pelo menos no estado de desejo, toda a consagração seria impossível, porque faltaria então a condição essencial: ser um apelo da comunidade, para a comunidade e na comunidade.
Se a consagração pudesse ser válida sem esta garantia de amor, sem esta garantia de uma intimidade humana oferecendo-se à intimidade de Deus, então Deus verdadeiramente seria apanhado na armadilha das fórmulas, e os sacramentos seriam ritos mágicos!
Mas não! Os sacramentos são o horizonte comunitário expresso por meio de sinais que comunicam realmente a presença de Deus tal como a carta comunica realmente o pensamento, tal como o livro comunica realmente a ciência, tal como um beijo comunica realmente a ternura sob a condição de que haja ternura, sob a condição de que as intimidades estejam reconciliadas e se fundem uma na outra.
É claro que, quando as portadas estão fechadas, o sol não pode penetrar, mas não é por culpa do sol. De igual modo Deus quando Ele está presente: se as nossas portadas estiverem fechadas, a sua presença permanece ineficaz.
É claro que todo o sobrenatural repousa sobre esta corrente de amor ao mesmo tempo que sobre esta comunhão da nossa intimidade com a intimidade de Deus: se separardes essa corrente de amor da nossa intimidade com Deus, já não existe senão magia!

A assimilação espiritual a Cristo

Se colocarmos um livro em cima da mesa, o livro contém na verdade o saber, mas o saber não está em cima da mesa, e é preciso que nós assimilemos o saber, e o livro é o sacramento do saber quando todo o nosso ser se abrir a ele.
Do mesmo modo, quando recebemos a carta de um amigo, podemos meter a carta no bolso mas não podemos meter no bolso o pensamento do amigo. O nosso pensamento e o nosso coração é que assimilam o conteúdo da carta: a carta é o sacramento do pensamento e da amizade ou do amor do amigo.
Da mesma maneira, não metemos Cristo na nossa boca quando comungamos. A manducação é o sacramento da nossa assimilação espiritual a Cristo que vem realizar-se através dela.
Sem amor não pode haver consagração válida: para que a consagração seja válida, é preciso que haja um apelo vindo do coração da comunidade e, se já não houvesse amor, já não haveria Igreja. A consagração supõe a comunidade que se dá como partilha de amor.
Todos os sacramentos têm um horizonte comunitário com um apelo universal, e não devemos fazer de Deus um ídolo: se já não houvesse uma intenção de amor no sacramento, já não haveria senão uma escandalosa magia!
O sacramento considerado a partir da aparência, sem a nossa presença sobrenatural, é um absurdo e uma negação de Deus e do homem. O sacramento traça um horizonte comunitário e preserva-nos assim da tentação de nele ver magia, e de reduzir Deus à nossa medida.
No sacramento é exigida a nossa presença.
O drama do sobrenatural mágico é de todos os tempos. E na medida em que a cristandade adere a este drama, ela tem a obrigação perante a humanidade de se insurgir contra esse Deus limite e obstáculo, colocado sob tutela.
A nossa intimidade com Deus não pode constituir-se senão como presença a um Deus sem limites e sem fronteiras.

(textos extraídos de MAURICE ZUNDEL, Un autre regard sur l’Eucharistie –Textes inédits présentés par Paul Debains. Paris, Éditions du Jubilé, 2006)


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