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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Conclusões preliminares do Sínodo dos bispos sobre a Família (parte 2)

A tradução para português já se encontra disponível no site do Vaticano. Passo a citar os pontos referentes aos homossexuais:

Acolher as pessoas homossexuais

50. As pessoas homossexuais têm dotes e qualidades para oferecer à comunidade cristã: somos capazes de acolher estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade nas nossas comunidades? Muitas vezes elas desejam encontrar uma Igreja que seja casa acolhedora. As nossas comunidades são capazes de o ser, aceitando e avaliando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica acerca de família e matrimónio?

51. A questão homossexual interpela-nos a uma séria reflexão acerca do modo como elaborar caminhos realistas de crescimento afectivo e de maturidade humana e evangélica, integrando a dimensão sexual: apresenta-se portanto como um desafio educativo importante. No entanto, a Igreja afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimónio entre homem e mulher. Nem sequer é aceitável que se queiram exercer pressões sobre a atitude dos pastores ou que organismos internacionais condicionem ajudas financeiras para a introdução de normativas inspiradas na ideologia do gender.


52. Sem negar as problemáticas morais ligadas às uniões homossexuais, tomamos consciência de que há casos nos quais o apoio recíproco até ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros. Além disso, a Igreja dedica atenção especial às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reafirmando que devem ser sempre postas em primeiro lugar as exigências e os direitos dos filhos.

(Ler na íntegra aqui)


Alguns comentários a estas conclusões

As conclusões preliminares referentes à primeira parte do Sínodo dos bispos, realizado no Vaticano no passado mês de Outubro e a continuar no próximo ano, trouxeram algumas novidades e abordagens diferentes em vários temas relacionados com a sociedade e a família. Muitas dioceses em todo o mundo, incluindo o patriarcado de Lisboa, vão realizar sínodos locais, onde estes mesmos temas serão abordados, discutidos e aprofundados nas paróquias, movimentos e grupos, para que os bispos locais se inteirem das reflexões dos fiéis (leigos e consagrados) e possam, de alguma forma, serem seus porta-vozes no Sínodo a realizar em Roma.

Parece-me que esta é uma oportunidade rara e histórica para a Igreja. Desejo que esta possibilidade de escuta e de um maior conhecimento das realidades tão plurais da Igreja não seja desperdiçada.

No que diz respeito aos homossexuais, o relatório contém um curto capítulo, a que dá o nome de: Acolher as pessoas homossexuais. O número 50 é efectivamente inesperado – nele encontramos alguns aspectos nunca antes referidos em nenhum documento oficial da Igreja. Perante a afirmação “As pessoas homossexuais têm dotes e qualidades para oferecer à comunidade cristã”, coloca-se a questão: “somos capazes de acolher estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade nas nossas comunidades?”  O documento continua: “Muitas vezes elas desejam encontrar uma Igreja que seja casa acolhedora. As nossas comunidades são capazes de o ser, aceitando e avaliando a sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica acerca de família e matrimónio?”

É realmente espantoso ver esta nova abordagem que fala em aceitar a orientação sexual. Acredito que a vontade do Papa Francisco seria em não haver tantos “Mas” e “Ses”, no entanto, temo que haja ainda demasiados bispos ordenados por João Paulo II ou por Bento XVI que não irão na mesma linha de pensamento. O meu receio prende-se a pequenos aspectos que teimam em aparecer no texto, como se fossem almas penadas: o que se entende por “avaliar a sua orientação sexual” e o que quer dizer exactamente “sem comprometer a doutrina católica acerca de família e matrimónio”?

O número seguinte começa por outra afirmação surpreendente “A questão homossexual interpela-nos a uma séria reflexão acerca do modo como elaborar caminhos realistas de crescimento afectivo e de maturidade humana e evangélica, integrando a dimensão sexual: apresenta-se portanto como um desafio educativo importante”. E tão surpreendente é esta parte do parágrafo, quanto o contraste absoluto com o que vem depois: “No entanto, a Igreja afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimónio entre homem e mulher.” Fica-me a questão: porque houve a necessidade de voltar ao velho discurso, qual criança caprichosa que já não sabe porque teima?

Igualmente incompreensível é a sequência de ideias que se segue, que parece não ter qualquer cabimento na lógica do discurso e que, de tão abstracta, não é inteligível qualquer ligação com o mundo real: “Nem sequer é aceitável que se queiram exercer pressões sobre a atitude dos pastores ou que organismos internacionais condicionem ajudas financeiras para a introdução de normativas inspiradas na ideologia do gender.” Será que é uma tentativa de denúncia do lobby-gay no Vaticano? Mas, se for este o caso, o ataque teria de se dirigir ao ambiente propício à homofobia, à misoginia e à omissão de qualquer acompanhamento sério psicológico (não digo espiritual) vigente em muitos dos seminários diocesanos.

O último ponto volta a começar por um tom mais positivo: “Sem negar as problemáticas morais ligadas às uniões homossexuais, tomamos consciência de que há casos nos quais o apoio recíproco até ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros.” E continua: “Além disso, a Igreja dedica atenção especial às crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reafirmando que devem ser sempre postas em primeiro lugar as exigências e os direitos dos filhos.” E é aqui que volta a minha desconfiança: é verdade que a Igreja não soube, durante muito tempo, o que fazer com essas crianças cujos pais “viviam em pecado”. Assim, por um lado, nota-se aqui uma directiva que promove a integração das crianças na comunidade paroquial.

Mas necessitam estas crianças de uma atenção “especial”? Parece-me que deviam receber a mesma atenção (chamemos-lhe especial) que qualquer ser humano tem o direito de receber. E qualquer filho tem o direito de viver com os seus pais, mães, pai e/ou mãe sem que outros lhe andem a chatear o juízo... E, já agora, só faltava manipular e interferir nas exigências dos filhos? (que exigências???)

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