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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

Viver como cristãos a condição homossexual

Viver como cristãos
a condição homossexual
Uma conversa com Pedro Sottomayor e Rui Aleixo
Jacob lutando com o anjo, Alexandre Louis Leloir, 1865

Na Fronteira de Deus e do Mundo

Encontros do Lumiar 2010-2011

Agradecimentos

Às Irmãs Dominicanas pelo convite que nos fizeram. Foi, para nós, um privilégio podermos ser porta-vozes de um tema ao qual somos sensíveis e damos grande importância e, para o qual, nem sempre encontra dentro da Igreja um espaço de acolhimento. Encontrámo-lo no seio desta comunidade tão fecunda e reflectora do espírito evangélico das Bem-aventuranças. Estamos muito gratos pela vossa ousadia, coragem, alegria e assertividade, e também pelo vosso acolhimento caloroso, pelos mimos e pela ternura que puseram nos pequenos detalhes, pela história de amizade que encontrou aqui a sua génese.
Gostaríamos de agradecer, igualmente, a todas e todos os cristãos que nessa tarde de Sábado chuvoso ousaram vir ao Lumiar para se porem à escuta do que os nossos corações tentaram exprimir. Obrigado por serem rostos de uma Igreja em que acreditamos, e por serem esperança palpável de uma Igreja mais próxima do desejo amoroso de Deus, mais evangélica, mais santa.
Por fim, a nossa expressão de gratidão por cada um que faz, fez e fará parte do nosso grupo de oração e partilha de vida, em especial pelo nosso grande amigo, irmão e “pai”, que nos acompanha, sustenta e fortalece nesta feliz peregrinação.
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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade

Trouxemos este poema de Eugénio de Andrade para dar começo a esta nossa partilha. Além de ser um grande poeta português do século passado, também ele era de condição homossexual.
Através destas palavras pretendemos ilustrar que os homossexuais não são indiferentes à ideia do Amor: também eles a concebem, experimentam e vivem. E partilham-na com o mundo, com quem se puser à escuta. Trazem, assim, um contributo legítimo e válido para uma compreensão global (universal) mais profunda e mais ampla de um mesmo amor – que não é exclusivo de uns, nem vedado a ninguém.
Falamos de amor, mas poderíamos falar igualmente de amizade, paz, solidão, ou de tantas outras realidades mais ou menos palpáveis: umas vividas, outras temidas ou evitadas, outras desejadas por todos os seres humanos.
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Pedro Sottomayor, 42 anos, é formado em Teologia e director geral de uma Instituição de Solidariedade Social.
1
A condição homossexual
A minha intervenção não é fruto de um estudo aprofundado deste tema, mas da minha experiência pessoal enquanto homossexual e cristão, da relação com pessoas que vivem a mesma condição que eu e daquilo que fui apreendendo e observando ao longo da vida.
No Evangelho de São João, Jesus diz: “É este o Meu mandamento: amem-se uns aos outros como Eu vos amei.” O Amor é a mensagem essencial do cristianismo, é a sua raiz. Quando Jesus nos pede que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou, pede que sejamos como Ele foi. E ser como Ele foi manifesta-se na capacidade de viver do e para o Amor, de maneira universal. É a forma como amo que me afirma cristão ou não, que diz de onde bebo, que fala daquele que me alimenta, porque Deus é amor e todo o amor provém d’Ele.
Se ser Cristão é isto, então eu considero-me Cristão. Tudo o mais que caracteriza o cristianismo é importante, mas, face a esta mensagem central, acaba por ser acessório e uma consequência deste mandamento basilar.
A homossexualidade, como tantas outras realidades, tem que ser vista e analisada sob esta perspectiva do Amor. Isto porque em si ela não é uma coisa boa ou má, a forma como eu a vivo é que a torna boa ou má. Se a vivo como caminho para o Amor, como forma de me construir e de crescer no Amor, então é uma coisa boa – assim como é a heterossexualidade e outras realidades da condição humana. É o Amor ou a ausência dele que classifica todas as coisas de boas ou más, construtivas ou destrutivas.

O que é a homossexualidade?
Antes de mais, para a entendermos, é importante deixar cair um conjunto de estereótipos que são alimentados em sociedade. Não raras vezes os homossexuais são considerados homens efeminados ou mulheres com expressões masculinas, são conotados com determinadas profissões, ligados a determinados grupos sociais, classificados como promíscuos e adjectivados com inúmeras palavras depreciativas. Mas, se é verdade que esses estereótipos podem falar de algumas expressões da homossexualidade, não revelam aquilo que ela é na sua essência e não exprimem seguramente aquilo que é o universo das pessoas homossexuais. Porque as há mais masculinas ou mais femininas nos homens (nas mulheres de igual modo), porque as encontramos em todas as profissões e grupos sociais e tantas vezes no seio da própria Igreja. Estão presentes em todo o lado, fazem parte da sociedade e do mundo em toda a sua diversidade de profissões meios sociais, culturas e religiões, só que ainda muito escondidos por causa das próprias contingências que lhes são impostas.
Surgem então as perguntas sobre a homossexualidade. Qual a sua origem? É uma coisa genética e nasce com uma pessoa? É inata ou adquirida? É uma doença? É uma opção?
Importa pois esclarecer que a homossexualidade não está ligada à genética. Até à data a ciência não conseguiu estabelecer qualquer relação entre código genético e homossexualidade, ou seja, ela não está inscrita no nosso ADN. Quando o genoma humano foi descodificado, não se descobriu nenhum gene que estivesse directamente relacionado com a orientação sexual dos seres humanos. Não se nasce pois homossexual.
Também não se pode dizer que é adquirida, pelo menos a psicologia ainda não consegue chegar a resultados conclusivos. Pela minha observação reconheço que muitas pessoas homossexuais tiveram percursos de vida muito idênticos na sua infância e adolescência, mas esta experiência torna-se inconclusiva quando identifico percursos semelhantes em pessoas que são heterossexuais. O que é um facto é que até hoje também não é possível afirmar que a homossexualidade seja o resultado de um conjunto de vivências psico-afectivas dos primeiros anos de vida ou do início da adolescência.
Neste sentido, não se pode afirmar que a homossexualidade seja uma doença. A maior parte das associações de psicologia e psiquiatria um pouco por todo o mundo já o concluíram e a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) já a retirou da lista de doenças. Não há pois uma percepção clara sobre o que é a homossexualidade e qual a sua origem. Não tem uma origem física e não é uma desordem do foro psicológico, ou pelo menos não há conclusões definitivas sobre isso.
Por aquilo que vivencio enquanto homossexual, ouso dizer que esta expressão da afectividade tem origem na identidade mais profunda. Aquilo que sou interiormente manifesta-se de muitas maneiras e a homossexualidade é um dos modos de exteriorizar uma identidade que me é própria, de uma especificidade que é minha enquanto pessoa. Tem a ver com o ser, quase que arriscaria a afirmar que é uma questão ontológica.
Por isto que disse, podemos perceber que também não é uma escolha. Ouvimos tantas vezes falar da homossexualidade como uma opção, como se um ser humano em algum momento da sua vida pudesse ter escolhido que se iria sentir atraído pelo sexo masculino ou feminino. Para além disso, a homossexualidade ultrapassa o facto das pessoas se sentirem atraídas por pessoas do mesmo sexo, é uma questão de manifestação de identidade e esta não se escolhe. Não é pois uma opção, é anterior a ela, é uma condição. Eu sou de condição homossexual, a homossexualidade é uma condição da minha existência.

Descobrir-se homossexual
Há um ponto muito decisivo na vida de um homossexual e que tem a ver com a descoberta da sua homossexualidade.
Neste ponto há experiências muito diferentes, na medida em que há pessoas que se descobrem homossexuais muito cedo, no início da adolescência, e outras que só tomam consciência da sua condição mais tarde, já na idade adulta. Estou convencido que mesmo estas últimas sempre souberam da sua condição, embora o processo de descoberta possa ter acontecido de maneira diferente, por condicionantes do próprio desenvolvimento. A condição não muda a meio da vida.
Esta tomada de consciência foi muito difícil para mim e penso que o é para quase todas as pessoas, porque nascemos em ambientes que não aceitam a homossexualidade com naturalidade.
Começando pelas próprias famílias, que não estão preparadas para ter um filho homossexual e que desenvolvem espontaneamente uma atitude de repulsa em relação a esta questão, porque a educação sexual está ausente ou é mal tratada, porque existem comentários desadequados às pessoas homossexuais, porque a homossexualidade é tida como uma coisa grotesca e nojenta.
Quando a família é católica, somam-se a estas dificuldades o próprio conservadorismo destes agregados, o discurso oficial da Igreja, a posição de muitos movimentos católicos e a fraca pastoral nas questões da moral sexual.
A sociedade em geral também dificulta essa aceitação, tendo início na própria escola, passando pela política e pela comunicação social que, apesar de se ter aberto a este tema nos últimos anos, na maioria das vezes trata-o mal. A homossexualidade é continuamente abordada com desprezo, gozo, desconfiança, aproveitamento e todo o tipo de excessos. Normalmente é ofensivo dizer que alguém é homossexual, gay ou maricas.
Um adolescente que se descobre homossexual neste contexto, tem grandes dificuldades em conviver com isso, entra em pânico em relação à sua própria identidade e não consegue assumi-la. Sente medo, luta contra esta condição e quer ser outra coisa. Combate com todas as armas que tem ao seu alcance e com todas as suas forças para esconder o mais possível aquilo que é.
Se em muitos casos isto acontece assim na adolescência e juventude, em muitos outros esta situação prolonga-se pela idade adulta. As pessoas sabem-se de condição homossexual e vivem escondidas, no silêncio, de si para si, reprimidas.
Como é evidente, esta atitude gera um sofrimento profundo e permanente, dando origem a difíceis dramas interiores. Estas pessoas criam barreiras relacionais muito grandes, sistemas de auto-defesa que dificultam qualquer relação humana.
Por um lado, não deixam ninguém aproximar-se muito com medo que descubram a sua condição, escondem o desejo e reprimem a afectividade continuamente. Por outro, também não se dão muito a ninguém, uma vez que isso poderá expor de alguma maneira esta sua realidade, que o próprio considera uma fragilidade.
É um vazio imenso, porque se sente bem no fundo que nunca se será aceite naquilo que se é. Até se pode ter muitos amigos e relações, mas resta sempre o sentimento de que “se eles realmente me conhecessem, não seriam meus amigos”. Nunca há a sensação de uma aceitação completa e os sentimentos de angústia e solidão vão ganhado raízes.
Quanto mais tardia é a aceitação desta condição, mais fortes e consistentes se tornam estes sentimentos, aumentando seriamente as probabilidades de doenças do foro psiquiátrico, como a depressão e distúrbios de personalidade.
Acredito que a própria promiscuidade, de que tantas vezes os homossexuais são acusados, tem aqui a sua origem primeira. É recorrente ouvir-se dizer que os homossexuais se relacionam sexualmente com muitos parceiros, que vivem em grupos muito fechados e que frequentam sítios degradantes. Até poderá ser verdade em muitos casos, mas não se restringe aos homossexuais. Nunca diria que a promiscuidade é fruto da homossexualidade, mas que as pessoas homossexuais têm tempos curtos e reservados para se poderem conhecer, além de trazerem consigo marcas profundas de todas as suas vivências anteriores, de grande isolamento e de negação do desejo.

Aceitar-se homossexual
A aceitação da própria condição, o exprimir aquilo que se é junto daqueles com quem se vive, é o passo decisivo para a libertação do colete-de-forças, para começar a trabalhar as marcas negativas da repressão e para desenvolver um olhar positivo sobre si e sobre o facto de se ser homossexual.
Quando falo de aceitação, falo do processo de começar a falar com os amigos, com a família, com os colegas de escola ou trabalho; falo do processo que leva à possibilidade de se viver o dia-a-dia de forma natural com tudo aquilo que se é na condição homossexual.
Quanto mais cedo, mais saudável será e menos “marcas” deixará. Varia muito com o percurso de cada um, mas acredito que a grande maioria se aceita tardiamente, através de processos normalmente difíceis e dolorosos.
Naturalmente que este coming out gera conflitos fortes com os modelos que condicionaram e oprimiram, conduzindo frequentemente a rupturas, zangas contra aqueles grupos que foram responsáveis por isso. Apesar de tudo o que de bom essas instituições possam ter dado, nesta altura o que sobressai é uma enorme mágoa por todo o sofrimento que desnecessariamente causaram, mágoa essa que é convertida em raiva e afastamento.
A Igreja também é apanhada nesta reacção, até porque esta não tem uma imagem acolhedora face à diferença junto da maioria das pessoas. A Igreja não é vista como um lugar de aceitação e integração destas realidades, numa perspectiva positiva das mesmas. Neste caso, não permite que uma pessoa viva plenamente a sua realidade, enquanto pessoa homossexual, de uma forma rica e fecunda, numa relação com outra pessoa do mesmo sexo que seja caminho de amor e crescimento recíproco.
Esta fase da aceitação, embora seja o tempo da rotura e das zangas, é um período muito positivo porque dá início a um processo de enorme libertação: desperta-se de novo para a vida, deixam-se cair as brutais barreiras defensivas que se construíram e iniciam-se relações novas, mais autênticas e verdadeiras, com as pessoas já conhecidas. É pois um tempo intenso de crise, de dor e muitas vezes de depressão; mas paralelamente é um tempo de construção, de vida nova e, arrisco a dizer, de ressurreição.

O lado difícil de ser homossexual
Este está muito associado ao sofrimento de todos estes processos que referi atrás. Apesar dos progressos dos últimos dez anos, ainda há muitas pessoas em Portugal que vivem sob a opressão da sua própria condição, no medo de se manifestarem e desabrocharem naquilo que são.
É difícil, pois, em primeiro lugar, pela dificuldade de aceitação daquilo que somos por nós próprios e pelos outros.
É difícil porque as zangas que este estado de vida gerou são de digestão lenta e sofrida. A reconciliação com a família é complexa e nem sempre possível. Se por um lado esta não consegue aceitar o filho ou irmão como homossexual; por outro, a pessoa homossexual tem dificuldade em aceitar o modo como foi educada na sua afectividade e sexualidade.
É difícil, porque é muito complicado perdoar essa família, os amigos, determinados meios sociais em que se esteve inserido, a Igreja e os grupos eclesiais… enfim, tudo aquilo que impediu de valorizar a própria identidade e de desabrocha-la de forma positiva e saudável.
É difícil a dor da exclusão, do preconceito e das mudanças de olhar. Tudo isto ainda está muito presente na vida de um homossexual. A grande maioria não consegue viver com naturalidade a sua condição nas várias realidades do seu dia-a-dia.
Eu sinto de maneira muito particular estas mudanças de olhar. O olhar do antes de saber que a pessoa é homossexual e o olhar do depois de saber. Passar de um reconhecimento positivo daquilo que a pessoa é e faz, para uma desvalorização de tudo. Parece que diante desse facto tudo o mais perde valor e crédito.
É difícil viver escondido, viver ainda subjugado por medos que subsistem. Medo de que se saiba em determinados meios, medo que me descubram e que isso me possa prejudicar a nível profissional, social e até eclesial. Quantas não são as pessoas na Igreja que, pelo facto de serem homossexuais, são afastadas das funções a que tanto se deram.
Finalmente, é difícil este sentimento de estar constantemente a desbravar caminho. Há um percurso longo a fazer pela aceitação natural e saudável da homossexualidade e os homossexuais têm que conquistar terreno continuamente. No entanto, estes esforços de cada dia, a luta permanente por uma aceitação e a justificação constante são extremamente desgastantes.

O lado positivo de ser homossexual
Porque efectivamente o ser homossexual é uma vivência sofrida, a minha intervenção até este momento centrou-se no lado mais pesado desta realidade; todavia, penso que é urgente trabalhar o olhar positivo sobre esta condição.
Começo por salientar o próprio facto de se ser homossexual. Esta realidade confere riqueza, porque é diferente, única, com um papel incontornável na sociedade e na Igreja. A sensibilidade, a afectividade e tudo o mais que é específico das pessoas homossexuais constitui uma realidade complementar às demais condições e, por isso, insubstituível, de um valor inestimável.
É positivo o lugar que o amor homossexual pode ocupar na sociedade, embora haja um imenso espaço de reflexão a fazer nesta matéria. Acredito que o amor entre duas pessoas do mesmo sexo pode ser de uma fecundidade enorme, como qualquer outra relação de amor verdadeiro, entrega e comunhão. Todo o amor dá fruto e é por isso urgente ajudar as pessoas homossexuais a descobrir a dimensão da fecundidade na sua vida como casais, ou mesmo individualmente.
Esta fecundidade poderá resultar no simples facto das pessoas se tornarem mais humanas no seu dia-a-dia. No fundo, de serem capazes de amar mais e melhor as pessoas com quem lidam quotidianamente. Mas também pode passar pela constituição de uma família ou pela entrega da sua vida a favor de causas diversas.
Como disse, este é um tema que carece de uma reflexão mais aprofundada. Por um lado, a sociedade e a Igreja têm que deixar o amor homossexual expandir-se, ou seja, não continuar a permitir que estas relações fiquem fechadas sobre elas próprias, esgotando-se rapidamente, mas atribuir-lhes o valor e credibilidade que têm para que possam frutificar. Por outro lado, as pessoas homossexuais têm que ser ajudadas a encarar o amor como um projecto de vida altruísta, empenhado em construir a sociedade e o mundo. Também aqui há muito caminho a desbravar.
Outro aspecto positivo é a possibilidade de fazer destes percursos de vida difíceis um ponto de força e não de fragilidade. O sofrimento bem enfrentado, quando vivido com sentido, leva-nos muitas vezes a pôr em causa muitas verdades inquestionáveis, a ir mais fundo na busca de respostas e a alargar horizontes. Pode também ajudar-nos a ser mais tolerantes, compassivos e abertos à diferença do outro.
A mim próprio deu-me a possibilidade de mudar o olhar, deixar de ver as pessoas como realidades encerradas em critérios morais, para passar a realçar a riqueza da sua especificidade, sem julgamentos. A partir do momento que me comecei a libertar, comecei também a encarar o mundo de maneira diferente, de forma mais aberta, mais positiva.

Ser homossexual e cristão
Não é uma coisa nada óbvia, porque a grande maioria das pessoas homossexuais tem a percepção de uma Igreja fechada a esta questão. De alguma maneira conhecem o discurso do magistério, que é difícil de aceitar e integrar, e sentem na pele a igreja dos movimentos e das pessoas que classificam, julgam e excluem. Poucas são as pessoas homossexuais que conhecem cristãos que tenham abertura e uma atitude de integração relativamente a pessoas da sua condição.
Um homossexual, como qualquer outra pessoa, só se torna verdadeiramente cristão quando ultrapassa as imagens erradas de Deus que lhe são dadas a conhecer por este lado da Igreja. Só se converte no encontro com o Deus do Amor, com a verdadeira pessoa de Jesus Cristo, com aquele que diz: “amo-te exactamente como és e não quero que sejas outra coisa se não tu próprio”.
Não se imagina a importância desta descoberta, deste reconhecimento do verdadeiro olhar de Deus sobre si: “Ele ama-me enquanto homossexual”. Deixou de ser o deus que gosta muito de mim, mas que não aceita a minha homossexualidade, quer que mude essa minha parte; para ser Aquele que me deseja tal como sou e que ama o facto de eu ser homossexual. É aquele que diz: “se não fores homossexual serás outro e eu não quero que sejas outro porque és tu quem eu amo”.
A verdadeira conversão só é possível a partir daqui e quando se começa a dar graças a Deus por se ser homossexual, assim como por tudo o que de bom essa condição traz à vida. Parece muito evidente, mas o conseguir verbalizar isso é resultado de um longo caminho. Durante muitos anos a oração era dirigida no sentido de pedir a Deus para não se ser homossexual, como quem pede a cura de uma doença, pelo que só depois de muito trabalho interior se consegue passar a agradecer de coração esta condição e tudo aquilo que dela resulta.
Só é possível quando se encontra a Igreja corpo, do qual eu, enquanto cristão, sou parte integrante, na minha especificidade e na lealdade à minha consciência pessoal. O magistério, tem a missão de ajudar a formar e orientar esta consciência pessoal de cada um de nós, mas nunca se pode impor. É a consciência pessoal que me diz se sou ou não cristão, se estou ou não em comunhão com Jesus e se comungo ou não quando vou à missa, entre tantas outras coisas.
Só é possível porque há muitas pessoas nesta Igreja que acolhem e mostram caminho. São estes cristãos que dão a conhecer a outra face de Deus e a outra face da Igreja. Dão testemunho corajoso de acolhimento, valorização e integração à semelhança daquilo que Jesus faz. Estão à frente do seu tempo como Jesus esteve.
É este Jesus e esta Igreja que é preciso dar a conhecer às pessoas homossexuais.
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Rui Aleixo, 34 anos, é artista plástico, músico (cantor), tradutor e formador; estuda Canto na Escola Superior de Música.
2
Ser cristão e homossexual
No seguimento do que já foi abordado, vou-me debruçar sobre a dupla questão de “ser homossexual cristão”. Só o poderei fazer, evidentemente, a partir da minha experiência e do meu percurso.

Conversão e aceitação
O meu processo da “aceitação da homossexualidade” começou muito naturalmente pela aceitação dos outros. Não me estou a referir apenas à questão da homossexualidade, estou a falar da aceitação em geral do Outro, na sua particularidade – as pessoas são diferentes umas das outras, cada qual tem as suas características, o seu feitio. Quando, na nossa vida, “trabalhamos” diariamente o aceitar o outro ou a outra, como ele ou ela é, em vez de desejar que ele ou ela seja como nós queríamos que fosse – e isto é uma construção que se faz também numa vida de casal e numa família, dos pais para os filhos, dos filhos para os pais –, estamos a empreender um trabalho válido que, no meu caso, tornou a aceitação da homossexualidade dos outros numa consequência muito natural, espontânea e, até, evidente.
Daí até à aceitação da homossexualidade em mim, foi um percurso muito mais longo. Porque uma coisa é nós aceitarmos os outros como eles são, outra coisa – para mim, muito mais complicada – foi eu aceitar-me a mim mesmo como eu era. E esta aceitação foi, numa primeira fase, uma aceitação puramente racional, no campo da inteligência. Só num terceiro momento é que, não só aceitei qualquer coisa em mim, mas houve uma verdadeira aceitação de mim, ou seja, passei de uma aceitação intelectual – de pensar: “OK, eu sou assim mesmo, não há muito a fazer!” –, para começar, com o coração, a aceitar-me assim.
Esta aceitação de mim é uma aceitação total de mim, como um Ser criado por Deus e como um Ser amado por Deus. Este processo de aceitação é também um processo de conversão – no meu caso foi, e acredito que na maioria dos homossexuais cristãos também seja. Antes, o meu amor por Deus estava ainda muito próximo de um amor-temor, toldado pela culpa, cheio de escrúpulos; não era bem medo – a minha experiência de fé não passou pela sombra do medo –, mas era um amor muito baseado na sensação da culpa ou da não-culpa e, por isso, limitado por ela. O que me levava mesmo a considerar-me não merecedor do amor de Deus. Achava que Deus amava todas as pessoas mas, se calhar, a mim não tanto. E este foi o meu grande pecado, pois era falta de fé no poder e na dimensão deste amor de Deus.[1]
Esta conversão (esta aceitação em mim), é um processo que já começou há algum tempo mas que ainda dura, e corresponde à descoberta e ao verdadeiro acolhimento do amor de Deus. É passar de um conceito passivo a uma fé activa. Talvez resida aqui o meu grande crescimento e maturação a nível de fé.
Este amor de Deus – que eu, de facto, fiquei a conhecer – é um amor completo, incondicional, inclusivo e libertador. Um amor completo, porque total, uno, fecundo e pleno, que sacia. É um amor incondicional, sem “Ses”: “eu amo-te se fizeres isto”, “eu amo-te se fores assim”. É um amor inclusivo, um amor de Deus por aquilo que eu sou: e eu sou alma, sou espírito, sou razão, sou sensibilidade, sou também afectividade, sou corpo e também sou sexualidade – muitas vezes falta ao discurso da Igreja falar com naturalidade deste amor, deste amor que me ama inteiro; falam-se muito dos primeiros tópicos, fica-se pelo lado espiritual não incarnado: os últimos ficam sempre na gaveta, são esquecidos ou desvalorizados. É um amor libertador: quem ama não aprisiona, quem ama deixa voar, quem ama deixa ser, quem ama deixa tornar-se e quem ama deixa crescer. E isto é a grande dificuldade em todas as formas de amor, começando pelo amor de mãe e de pai. Quem é pai ou mãe sabe que, a um determinado momento, tem de deixar o seu filho ou filha voar, deixar que seja ele mesmo ou ela mesma, e não quem (ou aquilo que) queria que fosse. Se isto não acontecesse, os filhos não passariam à idade adulta: seriam seres humanos sempre dependentes da opinião e da aprovação dos pais, viveriam apenas segundo as expectativas e escolhas destes. Creio que o mesmo se passa com o amor de Deus e, por isso, descobri-o como libertador. Compreender o amor de Deus, levou-me a tentar amar-me como sou não como idealizava ser, ou seja, permitiu-me passar do plano das ideias (e dos ideais) para o plano da realidade.

A vocação da Igreja
A propósito destes níveis distintos – o das ideias e o da realidade –, gostaria de falar um pouco sobre a Igreja.
A Vocação da Igreja, a meu ver, é de acolhimento, de caridade, de amor, e de serviço, e é uma vocação evangélica, de pôr a Palavra em prática – a Igreja é chamada a lê-la e aplicá-la à vida quotidiana, a resgatá-la da pedra e gravá-la na carne do coração de cada cristão.
Muitas vezes, nesta etapa de aceitação da sua vida e do seu processo, um homossexual cristão depara-se com uma realidade visível da Igreja que não corresponde exactamente à resposta a esta sua vocação primeira. Mesmo que o homossexual não se depare com tomadas de posição de recusa, condenação ou não aceitação da sua homossexualidade, existe, efectivamente, um silêncio, uma grande omissão na Igreja sobre todas estas questões que, para ele/ela são vitais. E omissão é pecado: a Igreja não deveria ser omissa, não pode omitir! Porque é falta de compromisso, falta de atenção, falta de caridade, falta de discernimento, é não estar com os olhos abertos para a realidade que está à sua volta e dentro dela, é não dar um passo para o acolhimento da pessoa homossexual.
Regra geral, o discurso da Igreja é moralista – não me refiro a um discurso moral, que seria bem mais saudável –, porque está muito baseado apenas na genitalidade. O discurso da Igreja em relação à moral não é completo, é parcial. E é este que chega aos ouvidos do homossexual cristão, juntamente com uma atitude de falta de escuta por parte da Igreja, que vem precisamente dos “discursos feitos”, pré-estabelecidos, estandardizados, prêt-à-porter – que têm forçosamente de encaixar em toda a gente. É certo que há realidades e verdades que estão à disposição de todas as pessoas, que são para todos, mas tem de haver, de facto, uma escuta atenta dos anseios da alma humana: as roupas não servem em todos os corpos.
Por isso, em todo o processo de aceitação de si mesmos, muitos homossexuais encontram na Igreja visível uma certa inflexibilidade, intolerância e até arrogância. A Igreja usa o poder de julgar, de condenar, de classificar, de rotular, de fazer distinções – o bom e o mau crente, o melhor e o pior. Muitas destas “classificações”, nem o próprio Jesus as fez quando viveu entre nós. Cada homem e cada mulher homossexual é um Ser criado por Deus, tal como cada homem e mulher heterossexual. A Igreja usurpa uma responsabilidade e um poder que é exclusivo de Deus; em última instância, é Ele quem conhece os nossos corações melhor que nós próprios, é a Ele que cabe fazer juízos e julgar.[2]
É nesta fase e neste contexto que um homossexual cristão se vê a repensar a pertinência de estar na Igreja, começa a ponderar seriamente se faz sentido nela permanecer. E é aqui que muitos partem. Milhares e milhares de homossexuais decidem afastar-se, por não se sentirem amados, queridos, estimados, escutados, apoiados, incluídos, acolhidos, inteiros…
Então, faz algum sentido continuar na Igreja?

Faz sentido continuar na Igreja?
Apenas posso falar por mim, partindo da minha experiência: Sim, para mim faz!
Muitas das nossas decisões, tomamo-las ao longo da nossa vida de uma forma natural e integrada, pouco racionalizada. Mas, reflectindo sobre esta questão, e por ter de a expor, vi-me obrigado a organizar as ideias e, até, chegar a algumas conclusões que, porventura, de outra forma não seria capaz de apresentar de uma forma tão clara. Porque é que, para mim, faz sentido estar na Igreja?
Antes de mais porque tenho fé, sou um crente, acredito! E a Fé é um dom, que não vem de mim nem é dado a todos: para mim, isto já é uma razão suficiente, é fazer uso de um dom que me foi oferecido.
Em segundo lugar, porque não só estou na Igreja mas Sou Igreja. Esta descoberta é muito importante e há muita gente que não chega a uma maturidade de fé que o(a) leve a este discernimento de sentir ser parte da Igreja. E sou Igreja como qualquer outro ou outra crente homossexual, heterossexual, casado ou casada, solteiro ou solteira, viúvo ou viúva, divorciado ou divorciada, celibatário ou celibatária, missionário ou missionária, monge ou monja, irmão ou irmã, frade, padre, bispo ou, até, como qualquer Papa. Sou baptizado num mesmo Baptismo, sou consagrado a Deus e aos irmãos e irmãs num mesmo Baptismo. É importante afirmá-lo aqui, publicamente, foi importante para mim compreendê-lo, e está a ser muito importante poder dizê-lo neste contexto que nos reúne aqui e agora.
E os membros da Igreja são diferentes, mas formam um todo. Recordo, a este respeito, o capítulo 12 da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios:
Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito. O corpo não é composto de um só membro, mas de muitos. Se o pé dissesse: “Uma vez que não sou mão, não faço parte do corpo”, nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. E se o ouvido dissesse: “Uma vez que não sou olho, não faço parte do corpo”, nem por isso deixaria de pertencer ao corpo. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Deus, porém, dispôs os membros no corpo, cada um conforme lhe pareceu melhor. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. Não pode o olho dizer à mão: “Não tenho necessidade de ti”, nem tão pouco a cabeça dizer aos pés: “Não tenho necessidade de vós.” Pelo contrário, quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários, e aqueles que parecem ser os menos honrosos do corpo, a esses rodeamos de maior honra, e aqueles que são menos decentes, nós os tratamos com mais decoro; os que são decentes, não têm necessidade disso. Mas Deus dispôs o corpo, de modo a dar maior honra ao que dela carecia, para não haver divisão no corpo e os membros terem a mesma solicitude uns para com os outros. Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria.[3]
Compreendi então que eu preciso da Igreja, mas a Igreja também precisa de mim, ou melhor, eu preciso tanto da Igreja quanto ela precisa de mim, porque também eu sou Igreja.
Sem as minhas características, dons e talentos, a Igreja ficaria mais pobre: ficaria menos criativa, menos solidária, menos alegre, menos cultural, menos sensível, menos activa, menos inquieta, menos curiosa, menos exigente, menos aberta, menos acolhedora, menos artística, menos musical, menos comunicativa, menos contemplativa, menos prática… e até menos gay.
Agora: haveria vantagens em sair da Igreja? Com certeza que sim! Por um lado eu teria a vida muito menos complicada, sofreria menos, teria menos lutas e teria muito mais tempo livre. Para o lado da Igreja também seria vantajoso, porque se veria menos sobrecarregada por bastantes “coisas chatas” – as minhas, as que me são próprias – mas, mesmo assim, a Igreja ficaria mais pobre: teria muito menos trabalho, menos preocupação e vontade de se aperfeiçoar e menos um caminho de santidade a percorrer.

Onde estão Eles?
Muitas vezes os homossexuais cristãos são referidos como sendo “eles”. Mesmo o nosso patriarca, numa entrevista que deu a uma revista, referia-se com o distanciamento da terceira pessoa. Ele, que é o pastor de todos nós… parece-me curioso referir-se a uma parte do seu rebanho como se não a conhecesse ou não a quisesse conhecer, como se não fizéssemos parte de um mesmo rebanho, como se houvesse um rebanho de primeira e outro de segunda…
Quem são “eles”? Onde estão “eles”? Com esta formulação não “os” vamos descobrir. Eles não são “eles”!
Existem em grande número, estão nas paróquias, nos movimentos e nos grupos, muitos são católicos implicados e empenhados nas responsabilidades pastorais, sociais e paroquiais. Eles não são “eles”, fazem parte de “nós”, nós todos que somos Igreja.
Então porque é que não os vemos? Porque não andam com bandeiras nem rótulos colados na testa. Porque muitos não são reconhecíveis por gestos, trejeitos, conversas ou palavras. Mas também porque muitos já lá não estão, foram-se de facto embora. Mas há outros que ainda estão e, entre esses, muitos recalcam a sua identidade e sexualidade, vivem a sua condição em silêncio, com angústia ou numa espécie de anestesia ou “coma induzido”. Alguns têm vida sexual activa, conseguem conciliar a sua fé com a sua condição homossexual, mas vivem escondidos, mentindo, omitindo, vivem no medo, como se fossem fugitivos ou exilados.
Um homossexual cristão vive neste ingrato limbo de ser chamado na terceira pessoa, tanto pela Igreja – “Eles, os homossexuais” –, como pela comunidade homossexual – “Eles, os católicos”. No meio homossexual parece incompreensível e incompatível que continuemos a ser crentes, no meio eclesial parece incompatível e incompreensível que sejamos homossexuais.

Do Eu ao Nós
Neste momento gostaria de falar um pouco do movimento de passagem do “eu” ao “nós”. Quando um homossexual cristão chega a este ponto do seu caminho e acredita que vale a pena continuar a Ser Igreja, ou seja, em vez de se encerrar num “eu” quer continuar a ser parte de um “nós”, pergunta: “Como é que eu me encontro nesta Igreja? Como é que posso situar este “eu” concreto, que sou, neste “nós” concreto, que somos?
Quem se descobriu, quem se ama e quem se aceita, não quer viver parcialmente, quer viver inteiro. E isto não é válido apenas para os homossexuais, mas para todos aqueles e aquelas que, de alguma forma, se puseram em contacto com o seu íntimo, chegaram mais longe no que diz respeito ao seu auto-conhecimento, fizeram a morosa e incrível viagem ao seu centro vital.
Quem está neste ponto, e quer viver em verdade consigo, com os irmãos e irmãs e com Deus tem de procurar a sua vocação verdadeira na Igreja, isto é, um serviço a que se vai dedicar de acordo com os seus próprios dons e de acordo com as necessidades desta.
Quem quer crescer na fé e torná-la fecunda, tem de procurar celebrações bem vividas, aprofundadas, que não fiquem pela rama. Uma coisa é ir à missa na paróquia, ser um entre muitos (anónimo e passivo). Outra coisa – a desejável – é isso não bastar, e cada cristão poder aprofundar e esclarecer a sua fé, e ser um elemento activo na construção deste nosso Corpo: a Igreja. E é para ajudar a crescer na fé que existem tantas comunidades, movimentos e grupos. E estes podem ajudar a responder à sede, que tantas pessoas têm, de se sentirem integradas, acolhidas, amadas, escutadas, activadas e fortalecidas. São “instrumentos” da Igreja para tocar nos corações, para chegar lá onde não chegaria uma instituição sem rosto nem palavra personalizada.
É normal o ser humano querer reunir-se com os seus pares, com quem partilha mais coisas em comum. E é por isso que, na Igreja, há uma enorme oferta, com carismas variados para sensibilidades e espiritualidades diferentes: grupos de oração, missionários e de pastoral social (trabalho com pobres, imigrantes, crianças, pessoas idosas ou doentes…), grupos musicais ou artísticos (coros, grupos de teatro…), grupos de jovens, de adolescentes, de famílias, de casais e, também, grupos de homossexuais.

Os grupos de homossexuais cristãos
e a pastoral homossexual
Começo por afirmar que, neste domínio, há pouca informação. A divulgação faz-se pela transmissão oral e, raramente, através de instituições públicas ou da própria Igreja.
Tem-se verificado, um pouco por todo o “mundo católico”, e também noutras confissões cristãs, que alguns cristãos de condição homossexual se organizam e reúnem em grupo, convidando – ou não – um padre ou uma irmã que os acompanhe. O desejo destes cristãos é encontrarem-se com os seus pares num contexto de fé e de partilha, de oração e de reflexão, para – como qualquer outro grupo cristão – poderem ir fazendo a leitura das suas vidas com os olhos postos no Evangelho e sustentados por uma comunidade fraterna.
Em Itália há dioceses com padres especificamente “destacados” para o acompanhamento de pessoas e grupos de cristãos homossexuais, através de dinâmicas de oração, leitura da Palavra e partilha de vida. Tentam contextualizá-los e integrá-los, ajudar a viver a condição homossexual enraizada na experiência de Deus. Aliás, há uns anos, saiu um livro que se chama “As portas de Sião”, onde aparecem recolhas, com base neste tipo de experiências, de testemunhos de cristãos homossexuais italiano(a)s.[4]
Nos Estados Unidos da América há experiências semelhantes. Nos anos 80 do século passado a Igreja rompeu o silêncio com uma “Carta” da Comissão Episcopal da Família (uma nota pastoral dedicada ao tema) intitulada “Eles e elas são nossos filhos”. A arquidiocese de Los Angeles tem mesmo um “Ministério com Lésbicas e Gays Católicos”, e o mais espantoso é que este serviço nem sequer é feito “às escondidas”. Na página de Internet da arquidiocese[5] pode-se ler o seguinte (traduzo-vos alguns parágrafos):
Dentro da nossa Comunidade Católica existem muitas pessoas que são gays e lésbicas. A Igreja tem a responsabilidade de responder com preocupação, calma e oração profunda, recordando a compaixão de Jesus para com aqueles que lutaram para encontrar o Reino de Deus. […]
O Ministério com Lésbicas e Gays Católicos (MLGC) reconhece que todas as pessoas com orientação homossexual são capazes de levar uma plena vida católica unidos com todos os membros da Igreja. […]
A Igreja ensina que uma orientação lésbica ou gay, por si só, não é pecado. Qualquer católico(a) que descobre que é lésbica ou gay continua a ser membro da Igreja e é chamado a participar na vida paroquial como qualquer outro católico. A pessoa que é gay ou lésbica não é menos que outro membro da Igreja e é chamado(a) a participar nas alegrias, dificuldades e desafios dos ensinamentos católicos sobre a sexualidade humana. A Igreja lamenta os distanciamentos e afastamentos que lésbicas e homossexuais experimentaram. O nosso ministério procura “aliviar” mal-entendidos ou diferenças e procura construir uma ponte de entendimento e de apoio para lésbicas e gays, suas famílias e seus amigos. Se podemos ajudar, por favor ligue-nos ou escreva-nos. Respeitaremos os seus direitos de privacidade e acolhê-lo(a)-emos como acolheríamos a Cristo.”
Em Portugal ainda estamos longe de viver uma realidade semelhante, mas existem alguns padres que acompanham pessoas ou grupos, que estão sensíveis e atentos a esta pastoral junto de pessoas de condição homossexual e que respondem a esta necessidade no seio da própria Igreja.
A nível nacional tem havido vários grupos desta natureza. Alguns têm nome, outros não; uns querem ser uma presença mais visível, outros mantêm-se na discrição; uns fazem ouvir a sua voz junto da Igreja, tendo uma implicação mais activa em acções sociais ou manifestações activistas, outros não; uns são de total iniciativa e responsabilidade leiga, outros contam com o apoio de um director espiritual.
Outra dinâmica – que tem surgido de forma natural a nível internacional – é a criação de blogues, sites e plataformas que abordam estas questões de homossexualidade e fé. São muito participados e talvez sejam, na actualidade, o que existe de mais democrático neste campo – chegam a mais gente, em mais línguas, a todos os países, sem que, quem os procura e chega até eles, tenha de viver num meio urbano, cosmopolita, desenvolvido e socialmente e culturalmente mais receptivo. Além disto, são também meios em que é preservada a privacidade e o anonimato dos visitantes e participantes, ou seja, é muitas vezes uma forma de chegar, inclusivamente, a pessoas em fases diferentes deste processo de descoberta, recusa, aceitação, reconciliação e contextualização da própria orientação sexual e vida afectiva.

Responder a um apelo:
sair da zona de conforto
Uma vez mais, falando da minha própria experiência, tive a sorte de encontrar um grupo, um grupo que não tem nome mas que vai vivendo um pouco à semelhança dos primeiros cristãos: de forma discreta, sem grandes alaridos. Tomei conhecimento deste grupo através de um amigo, e foi assim com todos os outros que participam nos encontros do grupo. Somos acompanhados por um padre e reunimo-nos quinzenalmente, alternando tempos de oração com partilha de vida e organizando esporádica, mas regularmente, retiros e tempos de convívio mais informal (almoços ou jantares de confraternização).
Poderia acabar aqui a minha apresentação, nesta espécie de “final feliz” do: “Ok, já estou safo! Encontrei o meu cantinho na Igreja”.
Não foi exactamente isto que aconteceu. No mês de Março de 2010 soube que estava a ser feito um trabalho de investigação jornalística sobre o tema da religião e da homossexualidade por uma jornalista do jornal Público. Este trabalho seria posteriormente publicado na revista Pública.
Na altura já tinha falado da minha homossexualidade aos meus pais e às pessoas que me eram mais próximas. Pensei: “Eu tenho a sorte de ter uma experiência de Igreja, desta realidade para mim não me ser obscura, de não ter grandes dilemas ou dificuldades em me sentir e saber amado por Deus e parte da Igreja; mas há muitas pessoas que não têm este privilégio. Eu tenho a Graça de ter um grupo de oração composto por cristãos homossexuais e de rezar semanalmente com outro pequeno grupo de pessoas – um casal heterossexual, outro rapaz e eu –, que funciona como uma pequena célula de “Igreja doméstica” que me aceita como sou: sei bem que isto não é dado a todos, muitas pessoas não têm esta possibilidade.”
Tomei, então, a decisão de participar na entrevista, e posso dizer que foi um momento de grande importância para mim: pela primeira vez coloquei os vários aspectos e facetas da minha vida num mesmo plano, o passado e o presente, a minha vida profissional e afectiva, a minha fé. Foi uma decisão difícil, que trouxe consequências, mas penso ter sido a decisão certa. A reportagem saiu no dia 12 de Abril com o título “Eles são católicos, homossexuais e praticam” e foi o tema principal desse número da revista. [6]
Para preparar a entrevista tive dois encontros com a jornalista Alexandra Lucas Coelho e, entre os dois, reflecti: “O que adianta às pessoas lerem que existem grupos e que há quem tenha encontrado um caminho pessoal para viver em Igreja, se não houver nenhuma porta que se abra, nada que as possa ajudar individualmente a colocarem as suas próprias questões e a partilharem os seus receios, experiências e questões?
Decidi então criar um blogue para os cristãos homossexuais, e divulguei-o logo no segundo encontro com a jornalista, para sair publicado na entrevista. O blogue chama-se Moradas de Deus e tem como subtítulo “um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja”.[7] Apesar de ser vocacionado para cristãos homossexuais, não é monotemático: muitos dos temas abordados são questões ligadas à homossexualidade, mas é um blogue igualmente com preocupações culturais, sociais, solidárias, históricas e informativas, de actualidade, partilha de leituras críticas, reflexões e pontos de vista alternativos, ou seja, é um blogue mais abrangente e que procura situar a homossexualidade dentro de outros temas que considero igualmente importantes.
O blogue ontem ultrapassou as 18.000 visitas, o que é muito impressionante, a meu ver, por se tratarem de temas pouco abordados pela Igreja. Há ainda um endereço de e-mail ligado ao blogue: muitas pessoas escrevem, pessoas que o descobriram por acaso, outras porque lhes falaram, são pessoas que querem simplesmente desabafar ou confrontar pontos de vista.
Para mim a dinamização deste blogue tornou-se num serviço pastoral e foi uma saída da minha zona de conforto: um desinstalar que senti como chamamento e que vai exigindo o meu constante discernimento e dedicação; uma espécie de seguimento natural do pôr-me ao serviço daqueles e daquelas que reconheço como irmãos e irmãs que têm fome e sede, que são prisioneiros e prisioneiras, que estão despidos e despidas, doentes, desprotegidos e desprotegidas, que são rejeitados e rejeitadas e, como nos diz o Evangelho, que são a própria imagem de Jesus: é a Ele que sirvo e quero para sempre servir.




[1] Cf. 1 João 4, 16-18
[2] Cf. Salmo 139 (138), Romanos 8, 31-39, 1 João 3, 18-20
[3] 1 Coríntios 12, 12-27
[4] Alle porte di Sion – voci di omessessuali credenti, de Domenico Pezzini, Editrice Monti, 1998 (não está publicado em língua portuguesa)
[5] http://www.archdiocese.la/ministry/mlgc/index.php
[6] Pode-se ler on-line a entrevista em: http://www.publico.pt/Sociedade/eles-sao-catolicos-homossexuais-e-praticam_1431894?all=1
[7] http://moradasdedeus.blogspot.com/
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“Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.”

“No amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor; de facto, o temor pressupõe castigo, e quem teme não é perfeito no amor.”
[1 Jo. 4, 16.18]

Monjas dominicanas – Mosteiro de Santa Maria

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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