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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sobre a Eucaristia

Porque a Páscoa se aproxima, parece-me oportuno algumas leituras em profundidade sobre o mistério da Eucaristia

Exigência da Eucaristia

A Eucaristia não é a conservação mágica de uma presença materializada, é a oferenda infinitamente real de uma presença universal à qual não podemos unir-nos senão tornando-nos nós próprios universais: na realidade a Eucaristia, que reúne toda a Igreja, que é o lugar eminente da Caridade, é uma exigência formidável.
É que a Eucaristia supõe que nós estejamos dispostos a todos os despojamentos, a todas as humildades, a todos os perdões que o nosso encontro com o Homem-Deus implica.
A Eucaristia implica que, para suscitar a humanidade dos nossos irmãos, para que os nossos irmãos se tornem ou sejam homens autênticos e verdadeiros, seja necessário mostrar-lhes em nós mesmos esse espaço ilimitado e silencioso onde se respira Deus!

Algumas comparações

Se a Eucaristia tem tanto valor para nós, é porque não se trata de maneira nenhuma de um rito mágico.
Tentemos algumas comparações, eu sei que é um terreno um pouco perigoso mas é preciso mesmo assim esclarecer a nossa religião.
Não é porque um livro está em cima da mesa que podemos agarrar, com a mão, a ciência que ele contém com a mão. É que o livro é o símbolo de um saber que nos será necessário assimilar por meio de uma presença espiritual: será preciso, para que ele signifique alguma coisa essencial para nós, que refaçamos à nossa escala todo o trabalho do escritor, todo o trabalho do sábio se for um livro de ciência, e é quando vós próprios tiverdes entrado no diálogo com a verdade que ele contém, que o livro terá cumprido a sua função.
A ciência não pode ser colocada em cima da mesa. Do mesmo modo que não se pode colocar a vossa amizade em cima da mesa, o vosso sorriso em cima da mesa, e pô-lo ao alcance da vossa mão ou da nossa.
Podeis trazer no vosso casaco a carta, e o pensamento, de um ser amado, mas sabeis muito bem que o pensamento do vosso amigo, tal como ele está expresso na carta, vós não o meteis no bolso. Colocais a carta no bolso, mas não o pensamento que ela exprime. Esse, vós colocai-lo no vosso espírito.
Na Eucaristia há algo de análogo: nós não pomos Deus em cima da mesa ou sobre o altar, não colocamos Deus na nossa boca ou no nosso bolso, mas há o pão e o vinho consagrados, como na carta, o veículo de uma presença real, do mesmo modo que a carta é o veículo de um pensamento real. E tal como não podeis entrar em contacto com esse pensamento real na carta ou no livro senão lendo a carta ou o livro, e assimilando espiritualmente o seu conteúdo, da mesma maneira para a Presença real eucarística: ela é infinitamente real, escusado será dizer, mas não é de modo nenhum local, de modo nenhum tangível, de modo nenhum fisicamente acessível, e de modo nenhum podeis entrar em contacto com ela senão através das espécies que, essas, podeis tocar.
Podeis tocar o pão e o vinho consagrados, transportá-los, consumi-los, bebê-los e comê-los, mas todos estes actos não se relacionam com a presença do Senhor, o pão e o vinho consagrados não são outra coisa senão o seu sacramento: a manducação física é o sinal que representa e realiza uma assimilação espiritual, se nós estivermos realmente presentes.

Presença real recíproca

Deus escapa-nos enquanto não vivermos na caridade, Deus escapa-nos enquanto não estivermos na corrente do amor. Deus escapa-nos enquanto não entrarmos nesse horizonte universal. De outro modo, ele seria então um «pequeno Bom Deus» feito à nossa medida, seria um ídolo!
Daqui resulta que a Eucaristia é essencialmente uma presença comunitária, uma presença à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.
Não é que Cristo não esteja presente: Ele está sempre inteiramente presente a cada um de nós! É que se nós não podemos ser presentes e interiores aos outros, no interior dos outros, porque somos limitados e as nossas fronteiras nos impedem essa presença aos outros, e porque o nosso egoísmo nos enclausura na nossa solidão, Cristo, Ele, não tem fronteiras, nem limites e, por conseguinte, é interior a cada um de nós: Ele habita-Se no interior dos outros.
Cristo já está portanto presente em todos, dignos ou indignos, Ele é presente em todos, nós é que não estamos presentes em Cristo, e na Eucaristia trata-se precisamente de nos tornarmos presentes nEle, de nos apossarmos dEle, não um apossar-se material, não! Trata-se de, com a nossa intimidade, assimilar esta intimidade de Deus que se nos oferece. E, precisamente, o gesto comunitário, se o realizarmos lealmente, vai dar os seus frutos.
Finalmente, que fazemos nós na liturgia? Não pronunciamos palavras mágicas para pôr Deus num cálice. Que fazemos na Eucaristia? Fazemos com que toda a humanidade invoque Cristo e se solidarize com Ele dizendo sobre Ele: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue!», vindo toda a humanidade colocar-se aos pés da Cruz.
E Cristo com as mesmas palavras investe a Sua comunidade e dá-Se à humanidade dizendo sobre ela: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue.» E, no termo da formulação destas palavras, a Presença real é realizada dos dois lados, e Cristo, na refeição da fraternidade, dá-Se verdadeiramente aos seus, dá-Se à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.

Uma comparação grosseira

Se quiserdes, ainda uma comparação extremamente grosseira: na missa, ligamos o rádio juntos para entrar em contacto e assimilar uma Presença que já lá está, precisamente como as ondas já lá estão na sala antes de acender o rádio, nós ligamos o rádio para captar essa Presença que é oferecida sempre, que já está em nós, mas à qual nós ainda não estamos presentes. As espécies eucarísticas são uma abertura para essa Presença.
Não se trata de imaginar que Cristo cai do céu sob a forma do pão e do vinho, trata-se bem de ver que o pão e o vinho se abrem a uma Presença que já lá está, interior a nós-mesmos, dada a cada um: ela abre-se e permite-nos entrar em contacto com ela porque, precisamente, as espécies são o símbolo da fraternidade visto que estamos ali numa refeição que reúne virtualmente a humanidade inteira e realiza um horizonte universal.
Nós não nos apossamos fisicamente de Cristo pela Eucaristia, apossamo-nos espiritualmente, e o sinal de que essa ligação espiritual é verdadeiramente realizada é que estamos juntos e realizamos juntos a comunidade humana da qual ninguém é excluído.
E isto é de tal modo verdade – ouvi bem – é de tal modo verdade que, se já não houvesse no mundo um só ser aberto pelo menos no estado de desejo, toda a consagração seria impossível, porque faltaria então a condição essencial: ser um apelo da comunidade, para a comunidade e na comunidade.
Se a consagração pudesse ser válida sem esta garantia de amor, sem esta garantia de uma intimidade humana oferecendo-se à intimidade de Deus, então Deus verdadeiramente seria apanhado na armadilha das fórmulas, e os sacramentos seriam ritos mágicos!
Mas não! Os sacramentos são o horizonte comunitário expresso por meio de sinais que comunicam realmente a presença de Deus tal como a carta comunica realmente o pensamento, tal como o livro comunica realmente a ciência, tal como um beijo comunica realmente a ternura sob a condição de que haja ternura, sob a condição de que as intimidades estejam reconciliadas e se fundem uma na outra.
É claro que, quando as portadas estão fechadas, o sol não pode penetrar, mas não é por culpa do sol. De igual modo Deus quando Ele está presente: se as nossas portadas estiverem fechadas, a sua presença permanece ineficaz.
É claro que todo o sobrenatural repousa sobre esta corrente de amor ao mesmo tempo que sobre esta comunhão da nossa intimidade com a intimidade de Deus: se separardes essa corrente de amor da nossa intimidade com Deus, já não existe senão magia!

A assimilação espiritual a Cristo

Se colocarmos um livro em cima da mesa, o livro contém na verdade o saber, mas o saber não está em cima da mesa, e é preciso que nós assimilemos o saber, e o livro é o sacramento do saber quando todo o nosso ser se abrir a ele.
Do mesmo modo, quando recebemos a carta de um amigo, podemos meter a carta no bolso mas não podemos meter no bolso o pensamento do amigo. O nosso pensamento e o nosso coração é que assimilam o conteúdo da carta: a carta é o sacramento do pensamento e da amizade ou do amor do amigo.
Da mesma maneira, não metemos Cristo na nossa boca quando comungamos. A manducação é o sacramento da nossa assimilação espiritual a Cristo que vem realizar-se através dela.
Sem amor não pode haver consagração válida: para que a consagração seja válida, é preciso que haja um apelo vindo do coração da comunidade e, se já não houvesse amor, já não haveria Igreja. A consagração supõe a comunidade que se dá como partilha de amor.
Todos os sacramentos têm um horizonte comunitário com um apelo universal, e não devemos fazer de Deus um ídolo: se já não houvesse uma intenção de amor no sacramento, já não haveria senão uma escandalosa magia!
O sacramento considerado a partir da aparência, sem a nossa presença sobrenatural, é um absurdo e uma negação de Deus e do homem. O sacramento traça um horizonte comunitário e preserva-nos assim da tentação de nele ver magia, e de reduzir Deus à nossa medida.
No sacramento é exigida a nossa presença.
O drama do sobrenatural mágico é de todos os tempos. E na medida em que a cristandade adere a este drama, ela tem a obrigação perante a humanidade de se insurgir contra esse Deus limite e obstáculo, colocado sob tutela.
A nossa intimidade com Deus não pode constituir-se senão como presença a um Deus sem limites e sem fronteiras.

(textos extraídos de MAURICE ZUNDEL, Un autre regard sur l’Eucharistie –Textes inédits présentés par Paul Debains. Paris, Éditions du Jubilé, 2006)


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Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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