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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quem era Maria Madalena?

Santa caluniada e glorificada

Em 1989, Giovanni Testori pediu-me para introduzir um perfil bíblico a um seu volume dedicado à iconografia de Maria de Magdala na história da arte (tema em que sagrado e eros se entreteciam, segundo uma tipologia cara ao escritor). Escolhi como título: «Uma santa caluniada e glorificada». Sim, porque bem arraigado na mente dos leitores está o estereótipo que classifica esta mulher evangélica como uma prostituta redimida por Cristo.

A sua história é efetivamente feita de equívocos, que se consumaram a vários níveis. A vida desta discípula de Jesus começa em Magdala (do hebraico "migdol", torre), povoação de pescadores no litoral ocidental do lago de Tiberíades, centro de comércio piscatório denominado em grego "Tarichea", "peixe salgado", descoberto pela arqueologia, ainda que submergido sob as águas daquele lago.

Partiremos da parte final da sua existência. Estamos na alvorada primaveril do primeiro dia de Páscoa, segundo o Evangelho de João (20, 1-18). Maria está diante do sepulcro onde, poucas horas antes, estava deposto o corpo sem vida de Jesus.

Paradoxal é o equívoco que tem por protagonista a mesma mulher que confunde Jesus, regressado à nova vida e presente diante dela, pelo cuidador do recinto cemiterial de Jerusalém. Como é possível ter ocorrido aquele engano? A resposta está na própria natureza do acontecimento pascal que incide na história, mas é ao mesmo tempo um ato sobrenatural, misterioso, transcendente. Para "reconhecer" o Ressuscitado, não chegam os olhos do rosto, nem sequer ter andado com ele e escutado os seus discursos nas praças palestinas, ou ceado com ele. É necessário um olhar profundo, uma via de conhecimento superior. De facto, Maria "reconhece" Jesus só quando ele a chama pelo nome, e os olhos da sua alma se abrem e «exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» (20,16), e, assim, recebe a missão de ser testemunha da ressurreição: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: "Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus." Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: "Vi o Senhor!" E contou o que Ele lhe tinha dito» (20,17-18).

Ora, Maria de Magdala entrou em cena pela primeira vez no Evangelho de Lucas como uma das mulheres que assistiam Jesus e os discípulos com os seus bens. Naquela ocasião, foi acrescentada uma precisão muito significativa: dela «tinham saído sete demónios» (8,1-3). Foi precisamente sobre esta informação que se consumou o equívoco radical que nunca mais a deixou. Esta expressão na linguagem bíblica podia indicar um gravíssimo (o sete é o número da plenitude) mal físico ou moral, que tinha atingido a mulher e de que Jesus a tinha libertado.

Mas a tradição, mil vezes repetida na história da arte e persistente até aos nossos dias, fez de Maria uma prostituta. Isto aconteceu apenas porque na página evangélica precedente - o capítulo 7 de Lucas - é narrada a história da conversão de uma anónima «conhecida naquela cidade como pecadora», que tinha derramado óleo perfumado aos pés de Jesus, hóspede na cada de um fariseu distinto, lavou-os com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Foi assim, sem nenhuma ligação textual real, que se identificou Maria de Magdala com aquela prostituta sem nome.

Este gesto de veneração será repetido noutra ocasião, aquando do encontro de Jesus com uma outra Maria, a irmã de Marta e Lázaro (João 12,1-8). E assim se consumará um outro equívoco para Maria de Magdala, que em algumas tradições populares será identificada com esta Maria de Betânia, depois de ter sido confundida com a prostituta da Galileia.

Mas ainda não tinha terminado a deformação do rosto desta mulher. Alguns textos apócrifos cristãos, compostos no Egito cerca do séc. III, identificam Maria de Magdala até mesmo com Maria, a mãe de Jesus! Lentamente, a sua transformação ampliou-se a tal ponto que, em alguns escritos não canónicos, converteu-se num símbolo, isto é, numa imagem da Sabedoria divina que sai da boca de Cristo. É por isto - e não por maliciosas alusões a que seremos tentados a crer a partir de uma leitura superficial, alusões transformadas em desprezíveis "provas" históricas de "O código Da Vinci", de Dan Brown - que o Evangelho apócrifo de Filipe diz que Jesus «amava Maria mais do que todos os discípulos e a beijava na boca».

Ora, na Bíblia diz-se que a Sabedoria «sai da boca do Altíssimo» (Ben-Sirá 24,3). Estranho destino o de Maria de Magdala, rebaixada a prostituta e elevada a Sabedoria divina. Por felicidade, o único que a chamou pelo nome e a reconheceu foi o próprio Jesus, o seu Mestre, o Rabbuni, naquela manhã de Páscoa.

Aqui chegados, regressemos brevemente ao livro a que fazíamos referência. A obra introduz Maria Madalena com um perfil totalmente espiritual, mas sempre segundo os equívocos acima indicados, que a faziam irmã de Marta e Lázaro e, naturalmente, ex-prostituta.

A elaboração deste retrato coube a um importante representante da escola francesa de espiritualidade, o cardeal Pierre de Bérulle, nascido em 1585 no castelo de Sérilly, em Troyes, cidade onde foi assinado o famoso tratado homónimo que pôs fim ao segundo período da Guerra dos Cem Anos. Pierre de Bérulle exerceu um notável influxo sobre a cultura religiosa do seu tempo, fundou uma congregação, compôs uma vasta bibliografia, delineou uma espiritualidade fortemente cristocêntrica de matriz paulina, que tinha como eixo temático a "kénosis" - isto é, o "esvaziamento" que o Filho de Deus experimenta ao tornar-se homem, ou seja, na Incarnação -, e chegou a ser conselheiro do rei francês Luís XIII e da sua mãe, Maria de Médici, antes de morrer, em 1629.

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura
In Il Sole 24 Ore

Trad.: rjm in SNPC publicado a  07.08.13

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Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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