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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

sábado, 19 de março de 2011

Quem é Jesus? (O moralismo reduz a pessoa de Cristo)

Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano
Em entrevista à Ecclesia, o padre José Tolentino Mendonça defende que Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano e que o moralismo reduz a pessoa de Cristo.

Apresentamos a primeira parte da conversa entre o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e o responsável pela Agência Ecclesia, Paulo Rocha. Alguns excertos da entrevista vão ser transmitidos durante a Quaresma nos programas da Ecclesia (RTP 2, de segunda a sexta-feira, às 18h00).

“Quem dizem os homens que eu sou?” foi uma pergunta de Jesus que causou perplexidade desde o momento que foi proferida. Já está respondida?
É uma pergunta que continua em aberto. Tem a ver com o estilo de Jesus, que é aberto e inclusivo. Vemos que as suas ações e palavras não tinham uma interpretação única, e nesse sentido dependiam da qualidade do acolhimento que lhes era proporcionada. E por isso a pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” é muito plausível porque dizem-se, em todos os tempos, coisas muito diferentes acerca de Jesus, já que acerca dele, e nele, nós refletimos as perguntas do próprio coração humano.

Sente que nos diálogos de hoje essa pergunta continua a ser formulada?
Jesus continua a ser uma pergunta fundamental no coração humano. Veja-se, por exemplo, como de uma forma secular e laica, Jesus passou do vitral para a montra. E há uma curiosidade enorme por ele: a quantidade de publicações, filmes, conversas e as tentativas, muitas vezes tentações, de entrar por veredas um pouco estranhas representam, no fundo, o desejo de tocar Jesus.
Aquela imagem que os evangelistas nos dão da multidão que se acotovelava em torno a ele, para o tocar, continua a ser a situação do homem contemporâneo. Nós também fazemos pressão para romper a multidão, para romper as ideias conhecidas acerca de Jesus, porque cada um tem a necessidade de um toque original em relação à sua pessoa.

Jesus nunca teve a preocupação de dar respostas conclusivas acerca de si...
Isso é interessante na pedagogia de Jesus, que é aberta. Jesus não dá respostas. E as palavras que diz solicitam sempre um caminho de adesão. Nunca nada é imediato em relação a Jesus.
É uma pessoa que não aponta soluções mas caminhos...
Jesus é uma pergunta, mais do que uma resposta. No evangelho de São João ele diz “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Mas não os explica. Temos de ser nós, pelo exercício do compromisso, do discipulato, a descobrir que verdades são essas.

Jesus escolhe sempre palavras quase enigmáticas para falar da sua pessoa... Por exemplo, “Eu sou o pão da vida”.
Isso é muito interessante porque se prende com a poética de Jesus. Ele utiliza uma linguagem que não é fechada nem de sentido único, mas sempre com uma semântica plural, uma diversidade de sentidos. Isso dá à sua palavra uma riqueza enorme e uma responsabilidade de apropriação, no sentido que cada leitor, cada ouvinte, é chamado também a apropriar-se de uma forma original daquilo que lê e ouve.

Muita dessa poética de Jesus está apropriada em ambientes litúrgicos, ou até mais moralistas, em alguns setores eclesiais?
São duas coisas diferentes. A liturgia é vida e também faz uma apropriação poética de Jesus, dado que a oração é uma experiência aberta. Aquilo que Romano Guardini chamava o jogo da liturgia. Ele dizia uma coisa interessante: “Só quem sabe brincar com um brinquedo entende a liturgia”. Porque ela é feita de cor, é feita para os nossos sentidos perceberem. E por isso ela é também uma linguagem aberta.
O moralismo é outra coisa. É fazer um traçado de sentido único a uma realidade que tem de ser aberta e ampla.

É um traçado que não interessa...
Porque reduz Jesus. A experiência cristã não é, antes de tudo, uma experiência moral, mas uma experiência do ser. É a partir dela e da experiência do amor que nós chegamos à decisão moral, à decisão ética, que é sempre um momento segundo em relação à verdade do amor.

O que é que a História nos diz acerca de Jesus?
É uma personalidade fascinante, da qual, mesmo parecendo que são poucas, temos muitas informações. Sabemos que Jesus é um crente judeu. Sabemos que ele lê a tradição dos pais, a tradição das Escrituras, e que as comenta de uma forma que, ao mesmo tempo, é em continuidade com a tradição profética e messiânica de Israel, mas também é uma forma nova. 
Sabemos que Jesus era um mestre considerado no seu tempo porque os fariseus o acolhiam e o convidavam para suas casas. Sabemos que ele fez uma experiência como os rabis faziam, que é a de ter um grupo de discípulos que ele inicia.
Sabemos também que ele tem uma lógica de diferenciação, e mesmo de rutura, em relação ao seu tempo. Jesus prega uma palavra que é original, uma palavra de amor e inclusão, uma palavra de perdão, num sistema religioso demasiado fechado para o admitir.
E a forma como ele fala de Deus é nova, original. Há uma dicção de Deus que ele faz como ninguém – “Quem me vê, vê o Pai”, diz Jesus a Filipe.
E depois há o seu próprio destino. Não podemos esquecer que Jesus morre como um maldito. Jesus é excluído daquele sistema religioso porque a sua palavra, o seu estilo e a sua mensagem não eram comportáveis pelo universo religioso do seu tempo. (continua)

© Ecclesia | 16.03.11 publicado em SNPC

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Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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