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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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domingo, 10 de dezembro de 2017

História de Maria e nossa história

Carl Heinrich Bloch
Comentário a Lucas 1, 26-38

«Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José, que era descendente de David. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». 

O Evangelho de Lucas desenvolve a narrativa do anúncio a Maria como o zoom de uma câmara de cinema: parte da imensidão dos céus, restringe progressivamente o olhar até uma pequena povoação, depois a uma casa, ao primeiro plano de uma jovem entre muitas, ocupada nas suas atividades e nos seus pensamentos. O anjo Gabriel veio até ela. É belo pensar que Deus te acaricia, te toca na tua vida diária, na tua casa. Fá-lo num dia de festa, no tempo das lágrimas ou quando dizes a quem amas as palavras mais belas que conheces.

A primeira palavra do anjo não é uma simples saudação, dentro vibra aquela coisa boa e rara que todos os dias procuramos: a alegria: regozija-te, rejubila, sê feliz. Não pede: reza, ajoelha-te, faz isto ou aquilo. Mas simplesmente: abre-te à alegria como uma porta se abre ao sol. Deus aproxima-se e aperta-te num abraço, vem e traz uma promessa de felicidade.

A segunda palavra do anjo revela o porquê da alegria: és cheia de graça. Um termo novo, nunca ressoado na Bíblia ou nas sinagogas, literalmente inaudito, de tal maneira que perturba Maria: és repleta de Deus, que se inclinou sobre ti, enamorou-se de ti, deu-se a ti e dele transbordas. O seu nome é: amada para sempre. Ternamente, livremente, sem arrependimento amada. Cheia de graça chama-a o anjo, Imaculada di-la o povo cristão. E é a mesma coisa. Não está cheia de graça porque disse "sim" a Deus, mas porque Deus disse "sim" a ela, antes ainda da sua resposta. E di-lo a cada um de nós: cada qual cheio de graça, todos amados como somos, por aquilo que somos; bons e menos bons, cada qual amado para sempre, pequenos ou grandes cada um repleto de céu.

A primeira palavra de Maria não é um sim, mas uma pergunta: como é possível? Está diante de Deus com toda a sua dignidade humana, com a sua maturidade de mulher, com a sua necessidade de entender. Uma a inteligência e depois pronuncia o seu sim, que então tem o poder de um sim livre e criativo. Seguramente, como disseram profetas e patriarcas, sou a serva do Senhor. Serva é palavra que nada tem de passivo: serva do rei é a primeira depois do rei, aquela que colabora, que cria juntamente com o Criador.

«A resposta de Maria é uma realidade libertadora, não uma submissão remissiva. É ela pessoalmente a escolher, em autonomia, a pronunciar aquele "sim" corajoso que a contrapõe a todo o seu mundo, que a projeta nos desígnios grandiosos de Deus» (M. Marcolini).

A história de Maria é também a minha e a tua história. Uma vez mais o anjo é enviado à tua casa e diz-te: alegra-te, és cheio de graça! Deus está dentro de ti e cumula a vida de vida."

por Ermes Ronchi in "La Chiesa"
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

terça-feira, 15 de março de 2011

Singularidades de uma oração cristã

Rezar até à impossibilidade de rezar
A cada instante da sua vida, Jesus reza. Tome-se, por exemplo, o testemunho que nos dá o Evangelho de São Lucas. É «no momento em que Jesus se encontra em oração» que o Espírito se manifesta no batismo (3,21): «Tu és o meu Filho muito amado; em ti coloquei toda a minha alegria»; antes de escolher os Doze, Ele «passa toda a noite a rezar a Deus» (6,12); a questão que provoca a «confissão de Pedro» é colocada aos discípulos «num dia que Ele rezava» (9,18); e se um deles lhe pede para que os ensine a orar, é porque viu o próprio Senhor «rezando» (11,1). Cristo ora ainda para que a fé de Pedro não desfaleça (22,32) e, pregado à Cruz, Ele reza ao Pai pelos homens (23,34): «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem», e por si mesmo (23,46): «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.»

Para Jesus, a oração não fazia apenas parte da vida: ela era a vida. A sua existência era cumprida na presença de Deus, seu Pai, a cada instante. Jesus não esconde nada ao Pai. As suas alegrias e dores, as suas esperanças e as suas noites foram sempre partilhadas com o Pai.

A oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo. Não é um movimento introspetivo. Não é uma diagnose dos nossos pensamentos e moções externas ou íntimas. A oração cristã é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante da sua presença, com uma atenção vigilante Àquele que nos convida a um diálogo sem cesuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos, mas entregar-lhe todos os pensamentos, tudo o que somos e experimentamos.

A oração é uma conversão de atitude, porque a verdadeira oração cristã descentra-nos de nós mesmos - das nossas preocupações e afanos, dos nossos desejos egóticos e pouco purificados - e orienta-nos para Deus, de modo que tudo o que passamos a desejar é a vontade de Deus, o dom do seu olhar que, como dizia Santo Agostinho, é «mais íntimo a nós que nós próprios». Isso que a “Oração de Abandono”, do Beato Charles de Foucauld, traduz tão bem:


Meu Pai,
Eu me abandono a ti,
Faz de mim o que quiseres.
O que fizeres de mim,
Eu te agradeço.
Estou pronto para tudo, aceito tudo.
Desde que a tua vontade se faça em mim
E em tudo o que Tu criaste,
Nada mais quero, meu Deus.
Nas tuas mãos entrego a minha vida.
Eu te a dou, meu Deus,
Com todo o amor do meu coração,
Porque te amo.
E é para mim uma necessidade de amor dar-me,
Entregar-me nas tuas mãos sem medida
Com uma confiança infinita
Porque Tu és... meu Pai!


Quanto tempo devemos rezar? É essencial que existam tempos fortes neste caminho quotidiano de entrega e, com todo o realismo, temos mesmo de reservar em cada dia um quinhão para Deus e Deus só. Mas não nos iludamos: a oração não pode ser um compartimento do meu dia, um pequeno nicho que eu encho de pensamentos e fórmulas piedosas. A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, rezar é viver, com todas as nossas forças e com toda a nossa realidade, na presença de Deus. Precisamos passar de um entendimento egocêntrico da oração, para um entendimento teocêntrico, fundado afetiva e efetivamente em Deus. Pondo os nossos olhos em Cristo, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. Todo o Ser de Jesus é uma intimidade e uma revelação permanente do Pai. «Ninguém viu jamais o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai» (Jo 6,46).

Quanto tempo devemos rezar? No nosso interior devemos sentir que rezamos continuamente. Não há, talvez, outra maneira mais simples ou mais vibrante de compreender a natureza da oração de Jesus. Que lição maravilhosa e necessária nos concede o clássico da espiritualidade cristã, “Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual”. Começa assim: «Por graça de Deus sou homem e sou cristão; pelas minhas ações sou um grande pecador. Meus bens são: as costas, uma sacola com pão duro, a santa Bíblia no bolso e só... Por estado, sou peregrino da mais baixa condição, andando sempre errante de um lugar a outro. No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer as minhas orações durante a liturgia. Estava a ser lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: "Orai incessantemente" (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida.»

A verdade é que a nossa conversão à oração incessante está longe de ser fácil. Experimentamos uma resistência inexplicável à ideia de vivermos vulneráveis, pobres e sem defesas diante de Deus. Não foram apenas Adão e Eva que, ao ouvirem os passos de Deus no jardim, se esconderam (Gn 3,8). Certamente, dispomo-nos a amar a Deus e a adorá-lo, mas queremos guardar para nós uma parte da nossa vida espiritual. Por isso caímos frequentemente na tentação de escolher muito bem os pensamentos que vamos ter presentes nos nossos colóquios com Deus. Seja por medo ou por insegurança, facilmente damos um caráter demasiado introspetivo à oração e, muitas vezes, escondemos de Deus (mas será que podemos esconder?) aquilo, em nós, que está mais necessitado da sua ação transformante e pacificadora.

O peregrino russo faz um longo caminho, e longo também será o nosso. Mas, ajudado pela comunidade orante, ele chega realmente àquele ponto em quê a oração se torna a presença ativa do Espírito de Deus, que conduz pela mão a nossa vida.

Lembremos algumas palavras marcantes que constituíram pedras de apoio no caminho do peregrino russo, que no fundo é o itinerário de todo o cristão.
1. «O Apóstolo disse: “Orai sem cessar”(l Ts 5,17), isto é, ele diz-nos que nos lembremos de Deus em qualquer altura e em todas as coisas. Em tudo o que faças, deves ter em mente o Criador de todas as coisas. Se vês a luz, lembra-te de quem ta deu. Se vês o Céu, a terra, o mar e tudo o que neles se encontra, admira e enaltece o seu Criador. Ao vestires-te, lembra-te de quem te deu essa dádiva e agradece-lhe, a Ele, que provê a tua vida. Enfim, qualquer que seja o movimento, será uma razão para lembrar e enaltecer o Senhor. A tua alma estará sempre alegre, se rezares sem cessar.»
2. «A oração interior permanente é o esforço constante do espírito do homem para com Deus. Para se ter sucesso nesse piedoso exercício, deve pedir-se a Deus que Ele nos ensine a orar sem cessar. Ao orares mais e aplicadamente, a oração por si só mostrar-se-á permanente. Para isso, é necessário bastante tempo.»
3. «Dá graças a Deus, querido irmão, por Ele ter despertado em ti o insuperável gosto do conhecimento pela oração interior permanente. Aceita o reconhecimento de Deus e acalma-te, certo de que até ao momento presente se operou em ti uma experiência de acordo com a tua vontade aos olhos de Deus, e que te foi dado compreender que não se alcança a luz celestial - a oração interior sem cessar – pelo conhecimento do mundo onde se vive, nem pelo desejo do conhecimento externo, mas, ao contrário, pela pobreza do espírito e pela experiência ativa, na simplicidade do coração.»
4. «Senta-te em silêncio e isolado, baixa a cabeça, fecha os olhos, respira silenciosamente, imagina-te a olhar para dentro do teu coração e faz com que o teu raciocínio, isto é, o teu pensamento passe da cabeça para o coração. Ao respirares diz: «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!»,mexendo os lábios silenciosamente ou apenas em pensamento. Esforça-te por afugentares os pensamentos, não te impacientes e repete cada vez mais este exercício.»
5. «A oração interior e permanente de Jesus é a invocação ininterrupta do nome divino de Jesus Cristo, com os lábios, com a cabeça e com o coração, imaginando-o sempre na nossa presença, e pedindo-lhe a graça para todos os nossos atos, em qualquer lugar, em qualquer momento, até durante o sono. Expressamo-la com as seguintes palavras: "Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim." Finalmente, passado algum tempo, comecei a sentir que a oração, por si própria, passava para o coração, isto é, o coração no seu próprio ritmo, lá no seu interior, começou como que a dizer as palavras da oração, acompanhando a cadência: l - Senhor... 2 - Jesus... 3 - Cristo... e assim por diante. Deixei de dizer a oração com os lábios e comecei a escutar com fervor o que dizia o coração.»

Jesus é o verdadeiro Mestre da oração cristã, quer porque a sua oração é o modelo de toda a oração, quer porque Ele nos ensina a rezar. A parábola que Jesus conta em Lucas 18,9-14 é um importante ensinamento sobre a oração.
«Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, publicano ou cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: "Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo." O publicano, manten-do-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem pie­dade de mim, que sou o pecador." Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.»

Podemos rezar como o fariseu. O vocativo inicial, «Ó Deus», confere às suas palavras uma cadência solene e retórica. A sua é uma oração autorreferenciada: ouve-se o «eu», «eu», «eu» por toda a parte. O motivo de louvor que encontra é a diferenciação face aos outros, que são isto e aquilo: ladrões, adúlteros, injustos, que são sobretudo como aquele publicano que está atrás dele no templo. Ele é um bom praticante, que se contempla a si mesmo, deslumbrado com as suas obras que, na oração dele, não têm um caráter penitenciai ou de súplica.

Enquanto o fariseu faz um uso do espaço sem grandes preocupações nem pruridos (ele está simplesmente de pé e fala, fala muito), o publicano distingue o próximo e o distante, o alto e o baixo, o corpo e a palavra: ele sente-se «longe», não ousa erguer o olhar e bate no peito enquanto profere algumas escassas palavras. Tem consciência daquilo que o afasta. Desloca-se não no eixo horizontal, mas no vertical. Ele não finge uma proximidade que não existe. Mas mostra-se assim, tal qual, a Deus. Quando, na oração, ele se identificar como «o pecador», isso não será um mero artifício do discurso, mas corresponderá a uma verdade existencial que a intensidade simbólica da sua atitude corporal vibrantemente corrobora.
Diversos autores consideram que o gesto do publicano bater no peito deve ser interpretado como um sinal da sua contrição. O significado mais frequente deste gesto, no mundo daquela época, é o de uma emoção intensa, provocada por um desgosto ou por uma situação desesperada, associando-se também à ideia de lamento. A sua angústia, porém, não é total: do fundo áspero da sua noite ele clama a Deus. E reza: «Ó Deus, tem misericórdia de mim, o pecador.» Esta passagem é a única do Evangelho em que a «pecador» se junta o artigo (o pecador). Isto não quer dizer que o publicano seja o maior pecador à face da terra, mas é assim que ele se sente e se coloca diante de Deus.

O ponto espiritual de viragem na parábola é esta atitude de verdade do publicano, em significativo contraste com a do fariseu. Ele faz convergir para Deus toda a sua vida, o seu bloqueio, as suas lágrimas, o seu desespero. Ele coloca-se completamente na dependência de Deus. Que Deus faça. Que Deus tenha misericórdia. Rezar, outra coisa não é que expor-se a Deus, sem máscaras, nem véus, nem falsas virtudes, nem diferenciações. É expor tudo. Expor até a nossa impossibilidade de rezar.

José Tolentino Mendonça
In O tesouro escondido, ed. Paulinas, publicado por SNPC

sexta-feira, 11 de março de 2011

As mulheres dos evangelhos: a inominada

Anthony Frederick Sandys

O dia da Mulher passou de forma despercebida, entre o Carnaval e o feriado, a chuva e a festa. Publico um texto a propósito de uma mulher do tempo de Jesus, que vulgarmente se associa à imagem de Maria Madalena mas, de facto, nunca o seu nome foi nomeado. É uma bela imagem para esta Quaresma que começamos: imagem de acolhimento, louvor, perdão, serviço, humildade e amor.
Uma mulher aos pés de Jesus
Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!» Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» - respondeu ele. «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.» (Lucas 7, 36-50)

O terceiro Evangelho [Lucas] é aquele que guarda mais relatos de mulheres: é, por exemplo, o único que conta a história de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a viúva de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (19, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a viúva insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (23, 27-31). Para lá daquelas mulheres cuja referência partilha com os outros Sinópticos, como é o caso da sogra de Simão (5, 38-39; Mateus 8, 14-15; Marcos 1, 29-31), a hemorroíssa e a filha de Jairo (8, 40-56; Mateus 9, 18-26; Marcos 5, 21-43), a viúva que dá tudo quanto tinha para o tesouro do Templo (21, 1-4; Marcos 12, 41-44), as mulheres galileias que descobrem o túmulo vazio (24, 1-8; Mateus 28, 1-8; Marcos 16, 1-8).

Para um leitor de Lucas não é, portanto, estranho que uma mulher acorra à procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E à partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo à narração.

O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, é o modo como apresenta a mulher: «uma pecadora». Isto é tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas não caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em relação aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de silêncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso não nos é referido por Lucas, que poderia ter utilizado o substantivo πóρνη, como o faz noutra passagem, Lucas 15,30. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (v.37), e tal é reiterado pelo próprio fariseu (v.39).

A mulher irrompe pela narrativa. A sua presença não tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra à mesa do fariseu. É, portanto, desde o início, um personagem que se coloca na órbita de outro e assume essa dependência.
Uma justificação que o narrador subtilmente avança para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece à mulher um motivo, uma função; e, por outro, empresta uma espécie de ingrediente novo e específico à narrativa. Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage às abluções, às disputas dos lugares ou à lógica retributiva que presidia à organização dos banquetes. O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intricar: a qualidade do acolhimento a Jesus.

É difícil permanecer indiferente ao trânsito deste personagem que nos é descrito num impressionante regime de showing. A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitenciai do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois «desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra»).

Nas passagens paralelas a Lucas 7, 36-50 (Marcos 14, 3-9; Mateus 26, 6-13; João12, 1-8) a mulher unge Jesus, mas não chora. No episódio lucano as suas lágrimas substituem a água da hospitalidade que faltou. «Pelas minhas lágrimas, eu conto uma história», explica Roland Barthes. Segundo aquele ensaísta as lágrimas são uma realidade tudo menos insignificante. Porque temos muitas formas de chorar e essas revelam não só a intensidade do nosso desgosto, mas também a natureza da nossa sensibilidade. Porque ao chorar, mesmo na mais estrita solidão, nos dirigimos a alguém: esforçamo-nos para o outro não ver que nós choramos, mas a verdade é que nós choramos sempre para um outro ver. Porque as lágrimas emprestam um realismo particular, dramático à expressão de nós próprios. Na tradição bíblica é muito comum que o pranto acorde no homem a consciência da dependência divina. Ele reconhece a sua insuficiência, a debilidade das suas seguranças e reclama a intervenção favorável e protectora de Deus (1 Samuel 1, 10; Lamentações 1, 16).

A inominada não cumpre os rituais de hospitalidade ao serviço da casa do fariseu. Em relação ao fariseu ela é uma intrusa, e não uma associada. O seu nexo é com Jesus: os seus gestos, tão distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferença que se requer a quem habitualmente presta, aos hóspedes, esse serviço, são interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na fé: por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada. E a transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo não só na perícope, mas pelo próprio Evangelho.

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé do texto original.

José Tolentino Mendonça
In A Construção de Jesus, ed. Assírio & Alvim
publicado por SNPC

sábado, 20 de novembro de 2010

Os fardos com que a Igreja nos carrega

Jesus disse: "Ai de vós também, doutores da Lei, porque carregais os homens com fardos insuportáveis e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos!" "Ai de vós, doutores da Lei, porque vos apoderastes da chave da ciência: vós próprios não entrastes e impedistes a entrada àqueles que queriam entrar!" (Lucas 11, 46.52)

Não consigo ler estas duras críticas de Jesus sem fazer um paralelo com a actualidade da Igreja. Os doutores da Lei eram homens rectos e respeitados, homens de poder, referências religiosas e intelectuais.

Assim também acontece com a hierarquia da Igreja: os que ditam as leis e as condutas, os que as declaram universais e sagradas. Mas bem sabemos que estes "fardos" muitas vezes deixam de ser um caminho e ganham o estatuto de meta. Muitas leis são ideais que se querem forçar, são utopias. Eu até compreendo o desejo de as traçar. Só não compreendo a falta de acompanhamento e de escuta que as acompanham. E é nisto onde revejo não haver um dedo que toque nesses fardos.

Aliás, sabemos que muitos dos membros do clero nem conseguem viver as próprias leis que defendem. Com que "lata" se pode exigir ao outro o que o próprio não vive? A verdadeira Lei é aquela que é passada pelo exemplo de vida, e é esta a mais efectiva.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O evangelista do Amor

Na pequena comunidade de oração e reflexão com que me reuno semanalmente (que até há uns meses era apenas formada por mim e por um casal, e que desde então conta com mais um elemento) estamos a ler o evangelho de S. Lucas. Inicialmente achei-o duro, seco e demasiado teatral e pedagógico nalguns dos seus episódios, com uma linguagem que se adequava pouco às nossas (pre)ocupações do 3º milénio. Parecia povoada por exorcismos e com cenas desconexas tiradas de uma peça de teatro escolar.
Contudo não posso deixar passar em branco os hinos dos primeiros capítulos, a infância de Jesus e as parábolas que, à medida que vamos avançando, começam a ser mais fecundas, frequentes e ricas. E é por essa razão que partilho um texto publicado no site da Pastoral da Cultura sobre este Evangelho.

Lucas, o evangelista do amor, pobreza, oração, renúncia e alegria


Lucas é o Evangelho do amor. O livrinho de parábolas do capítulo 15, a célebre parábola do samaritano, o “discurso da planície” (6, 17-49), a atenção de Jesus pelos excluídos, a eleição dos pobres e dos oprimidos, a dádiva aos pecadores, a fidelidade à História são elementos que repropõem ao crente de hoje um empenho renovado de solidariedade, de amor e de justiça segundo as novas e actuais coordenadas históricas. O Evangelho de Lucas apresenta-se como um apelo a redescobrir a dimensão social da fé, sem que ela se esgote numa simples proposta política. A história humana é um espaço onde o cristão deve sujar as mãos para contribuir para a plena realização do homem amado por Deus.

Lucas é o Evangelho da pobreza. Os pobres são evangelizados (cf. 4, 18): os pastores, a viúva que dá tudo, os discípulos que devem deixar tudo, os miseráveis que Jesus encontra no seu caminho cão os cidadãos do Reino de Deus, enquanto que os ricos insensatos (12, 13-21), os fariseus «amantes do dinheiro» (cf. 16, 9.14), aqueles que estão saciados e levam uma vida despreocupada são expulsos e refutados por Cristo. O jovem rico, apesar dos seus dons humanos e religiosos, não serve a Jesus se não distribui aos pobres «tudo quanto possui» (18, 22); «como é difícil para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!» (18, 24-25). Contra a idolatria do consumismo e do bem-estar, Lucas celebra o afastamento e a doação, exaltando a escolha preferencial de Cristo e dos cristãos pelos pobres.

Lucas é o Evangelho da oração. Cristo é retratado como o perfeito orante que nos momentos decisivos da sua vida se confia ao diálogo íntimo com o Pai. Lucas é um verdadeiro “catecismo da oração”. Uma atenção particular merecem os hinos do Evangelho da infância, que entraram na liturgia cristã (“Magnificat”, “Benedictus”, “Gloria in excelsis”, Nunc dimittis”): o seu aprofundamento permitirá celebrá-los com mais intensidade e revelar-nos-á a sua riqueza, ao mesmo tempo que nos faz entrar em sintonia com a oração da comunidade cristã das origens.

Lucas é o Evangelho da renúncia. «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (9, 62). Para seguir Jesus é preciso decidir por uma escolha radical, é preciso libertar-se de todo o compromisso, sobretudo com o dinheiro. É um imperativo diário de distanciamento que exige «deixar tudo» (5, 11) e «tomar a sua cruz, dia após dia» (9, 23). Lucas lança-nos um convite permanente a libertarmo-nos da idolatria das coisas e do egoísmo para ser, como Jesus e com Jesus, em marcha para a cidade do nosso verdadeiro destino.

Lucas é o Evangelho da alegria. O evangelista utiliza cinco verbos para a exprimir a alegria em 27 passos do seu escrito. Cristo, com a sua vinda à trama quotidiana dos nossos dias e nas nossas obras, lança a semente da felicidade e da esperança messiânica, sobretudo no coração dos homens «perdidos reencontrados», como se comprova na parábola do capítulo 15 (cf. versículos 5.6.7.9.10.23.25.32). Com Lucas há, portanto, a recuperação da dimensão jubilosa do Reino e da experiência da fé. Alegria que se manifesta sobretudo quando um «irmão que era morto regressa à vida», quando um «irmão que estava perdido é reencontrado» (15,32).
D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura

In Il Vangelo di Luca
Trad.: rm
© SNPC (trad.)
18.10.10
http://www.snpcultura.org/pedras_angulares_sao_lucas.html

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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