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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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domingo, 8 de abril de 2018

Amarás o estrangeiro

Eu e o estrangeiro

Tempo virá
em que, exultante,
te saudarás a ti mesmo chegado
à tua porta, no teu próprio espelho
e cada qual sorrirá ante a saudação do outro,
e dirá: Senta-te aqui. Come.
Amarás de novo o estrangeiro que era o teu Eu.
Dá vinho. Dá pão. Devolve o coração
a ele próprio, ao estrangeiro que te amou
toda a tua vida, que ignoraste.

Como sempre, a poesia, para ser apreciada, requer uma leitura serena: antigamente, cada leitura dos textos escritos exigia a pronúncia exterior, de modo que as palavras reverberassem, deixando em torno de si quase como que um halo, um eco interior. Citámos aqui versos da poesia “Amor após amor”, do grande poeta Derek Walcott, o cantor dos mestiços, nascido numa ilha das Caraíbas, Santa Lúcia, em 1939.

Como se intui, unem-se e sobrepõem-se duas fisionomias diversas, a minha e a do outro, o estrangeiro. Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas.

«Amarás o estrangeiro que era o teu Eu», diz o poeta. «Amarás o teu próximo como a ti mesmo», diz a Bíblia. Neste paralelo há dois amores que se fundem, o espontâneo por si próprio e aquele que o é para os outros, muitas vezes conquistado com algum esforço mas que deverá ser, da mesma maneira, intenso.

Devemos tentar reconduzir o nosso coração «a si mesmo», isto é, à sua consciência profunda, e aí descobriremos que há o estrangeiro dentro de nós porque ele é semelhante a nós por causa do próprio Deus que o criou, do próprio Cristo que o redimiu, do próprio amor que foi deposto nele e em nós, e do próprio pecado que obscurece a nós e a ele.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura In "Avvenire"
Tradução e adaptação de Rui Jorge Martins para SNPC

segunda-feira, 26 de março de 2018

Pina Bausch: a imperfeição do amor

PINA BAUSCH (1940-2009): o método e o amor

Viktor. 1986

Em 1982, algum tempo antes de Dezembro, no estúdio de Wuppertal onde concebia as suas obras, é certo que Pina Bausch se sentou com os seus colaboradores e bailarinos e lhes perguntou: digam ou façam ”qualquer coisa sobre o primeiro amor”; “como imaginavam o amor quando eram crianças?”; “duas frases sobre o amor”; “como imaginam o amor?”; “se alguém vos quer obrigar a fazer amor, como reagem?”; destas questões saíram os gestos, movimentos, cenas, situações, narrativas ou micronarrativas de Nelken, como de muitas outras questões nasceram muitas outras obras.
Trata-se, ou tratava-se, como se sabe, do método de trabalho criativo coreográfico de Pina Bausch. Para cada obra, tinha a autora um sortido de palavras, palavras soltas, que depois se combinavam em expressões, questões, frases – por exemplo, se se partia da palavra “ternura”, podia-se ir parar à necessidade de “seres terno contigo mesmo”, e daí para uma sucessão de ocorrências que geravam uma obra de teatro ou de dança ou de teatro-dança.

Todas as obras de Pina Bausch assim começavam: na relação entre questões e improvisação, das questões e a partir das questões, era necessário fazer dezenas, centenas, milhares (como a autora referia) de perguntas aos bailarinos, era, consequentemente, necessário em absoluto ficar suspenso naquele impressivo fio da navalha e naquela angústia de estar “dependente” dos outros para fazer nascer a obra própria, os movimentos despegados da coesão clássica do próprio movimento (e da sua narratividade), chegar à história para aportar ao fragmento. Ora, a angústia resultava do facto de, “por vezes, não sair nada”. Inevitavelmente.

Nunca é pois demais sublinhar que em Bausch a palavra antecedia o movimento, a conversa, o diálogo, aquela estranha comunhão autoral colectiva (sim, porque não?), antecedia a decisão autoral individual que aproximava, quando aproximava, a obra daquilo que ainda, apesar de tudo se chamava “Dança” (e note-se que todos os seus bailarinos tinham – têm – rigorosa formação clássica). Este método é interessantíssimo no actual contexto da produção e da valorização, digamos, capitalista, pois daqui não só poderia sair “nada” (uma “improdução” absoluta e estética), como, a sair, saía muito lentamente, Bausch falava sempre do tempo largo que necessitava para criar (juntamente com os “seus”). Temos, portanto, primeiro o nada, depois o fragmento, depois a pergunta, a resposta, a frase e a arte de uma cerzideira de restos ou “totalidades” que embatiam noutras “totalidades” sem formar UMA “totalidade”.

É extremamente interessante também ler relatos de alguns bailarinos(as) de formação clássica que precisavam de trabalhar o corpo em exercícios regulares técnicos e, em vez disso, tinham de se sujeitar a estes jogos de perguntas/respostas ou, acima de tudo, creio-o bem, sessões de contenção corporal, de, como diria Alain Badiou noutro contexto, gestos de “negação da obediência imediata a impulsos”. A dança era uma espécie de negação de si mesma, isto se entendêssemos a dança como a arte de “obedecer ao impulso”, que aqui era banida, pois tratava-se antes de “guardar”, “esperar”, habitar o tempo sem limite de tempo (se fosse caso disso).

Maurice Nadeau, em 1958, falava do surrealismo como de um cruzamento entre o maravilhoso, o inconsciente, o sonho e a loucura, e os estados alucinatórios. Será este o contexto da obra de Pina Bausch? Muitos ligam-na ao surrealismo, outros ao dadaísmo, outros a ambos (o Routledge Companion to Theatre and Performance), recordando não apenas o contexto da dança expressionista, mas também autores como Alfred Jarry ou Artaud.

Quanto a mim, recordo-me de me ter “zangado” com este universo ao ver, pela primeira vez (depois de ter visto várias peças), a obra Viktor, realizada a partir de uma estadia em Roma (que inauguraria uma série de obras que resultavam das famosas relações entre a companhia de Bausch e cidades em particular, por onde passaria também Lisboa, na obra Mazurca Fogo). Porque vi ali um registo de pessimismo e de incomunicabilidade que se me afigurava demasiado insistente. Mas, pouco depois, li correctamente tudo ao contrário, e, em Café Müller, de 1978, tornara-se claro que um dos temas da autora era o amor. Neste lúgubre café há um inesquecível “encontro” entre o bailarino eleito de Bausch, Dominique Mercy, e uma mulher: ela sobe para o colo de Mercy, abraça-o, ele aparentemente nada faz (apesar de ser “ensinado” por um terceiro) e ela cai ao chão – tudo se repete infinitas vezes. Pode não parecer, mas Mercy é o paradigma ou símbolo do amor, nesta situação aflitiva. Porque o amor não é um contrato fechado, completo e pelo menos desde S. Paulo sabemos que só o ser incompleto pode amar. Mercy, assim, nunca se “completa” com a mulher que se lança infindas vezes aos seus braços – por isso, o infinito pode repetir-se até ao infinito. É este o retrato da infinitude e da imperfeição do amor.

domingo, 25 de março de 2018

Felizes os pacificadores

Com amor desinteressado

«Estou firmemente convencido de que a verdade desarmada e o amor desinteressado terão a última palavra. É mais do que nunca necessário tornar a escutar agora (e sempre) a voz dos pacificadores, já “beatificados” por Jesus no Discurso da Montanha.»

Proponho hoje uma frase do discurso pronunciado a 11 de dezembro de 1964 por Martin Luther King no momento de receber o prémio Nobel da paz.

É uma palavra de esperança e de otimismo que deve expandir-se – com esforço e dificuldade – no meio da cizânia da guerra, da prevaricação, da opressão, da injustiça, uma densa e luxuriante vegetação maligna que cobre o mundo e que tem as raízes nos corações dos seres humanos.

A tentação do desencorajamento é forte mas não é cristã, como também não o é do crente no sentido mais universal do termo. Porque as religiões, no seu espírito mais íntimo, são fontes de vida e de paz; só a maneira com que os seus seguidores as incarnam é que as tornam ofensivas, agressivas, exclusivistas.

Para ter confiança no secreto poder da «verdade desarmada» e do «amor desinteressado» é preciso ser autenticamente religioso e, portanto, corajoso e otimista, certo de que Deus nunca está alinhado com as armas e a força bruta.

Gandhi, que desta certeza foi uma testemunha inabalável, declarava que «para praticar a não violência é preciso ser intrépido e ter uma coragem a toda a prova». Mas a meta, sempre luminosa e feliz, é a das Bem-aventuranças: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus».

P. (Card.) Gianfranco Ravasi In Avvenire
Tradução: SNPC

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sobre oração e discernimento

Rezar é superar o isolamento

O que significa hoje rezar e como exercitar a arte do «discernimento», questão escolhida pelo papa Francisco para o próximo Sínodo dos Bispos, que em outubro vai debater a relação da Igreja com os jovens? Entrevista ao padre, teólogo e artista esloveno Marko Ivan Rupnik, que entre outras obras de arte concebeu o painel de mosaicos situado atrás do altar da basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

A oração é a primeira das três práticas que o cristão é chamado a redescobrir na Quaresma [a par do jejum e da esmola]. O homem de hoje ainda tem espaço para rezar, ou a oração arrisca-se tornar-se uma prática fora de uso?
Se a oração é entendida como um exercício requerido por uma religião, é normal que se torne difícil e árdua, e que muitas vezes não se consiga ver nela o sentido. Sobretudo se a religião se baseia na educação, fazendo da oração uma obrigação, um dever. Rezando deste modo o homem contemporâneo, tirando alguns efeitos muito superficiais e psíquicos de uma certa pacificação ou algo de semelhante, não pode entrever. Mas para nós, cristãos, a oração não é absolutamente isso. A oração dos cristãos é expressão de uma vida que se recebe em dom no Batismo.

A oração é perceber-se a si próprio unido a Cristo, ou melhor, como parte dele. Rezar quer dizer viver a própria vida em relação com o Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo, que continuamente plasma a nossa mentalidade de filhos.

É um estado dialógico, uma superação do isolamento. No Batismo somos enxertados no Corpo de Cristo e no Espírito Santo é nos dada a vida filial. Segundo a nossa fé, toda a nossa humanidade, do Batismo em diante, é fundada na humanidade de Cristo, e isto não acontece através de um exercício individual e subjetivo mediante um esforço de concentração ou de auto-sugestão, mas através de uma realidade verdadeiramente objetiva como são os sacramentos. Daqui se conclui que também a oração pessoal, como a eclesial, cresce desta realidade sacramental da nossa humanidade em Cristo. É uma expressão da nossa vida em Cristo. Antes de se encontrar em Cristo, a oração é sobretudo a súplica e o pedido pela misericórdia.

Na última oração do Angelus, o papa definiu a oração como uma ocasião para exercitar um combate contra o diabo. Como operar, não só na Quaresma, o discernimento?
Uma vez que Deus se fez homem em Cristo, comunica com o homem numa linguagem humana. Tal como a Palavra de Deus é comunicada por meio da palavra humana e em Cristo todo o universo de Deus, tudo o que é a comunhão das Pessoas divinas comunica-se na humanidade do Filho. Isto quer dizer que o discernimento é a arte de como entender-se com Deus, e como Deus fala através dos nossos pensamentos e sentimentos, é uma questão de descobrir quais são.

Os pensamentos podem chegar-me de muitas fontes, mas é preciso ver, como dizem os grandes mestres espirituais, que espírito sopra através deles. Tudo depende da orientação fundamental do coração. Se o coração é filial e está orientado para o Pai, o inimigo da salvação do ser humano procurará corrompê-lo com um ataque pelas costas, sugerindo dúvidas, aumentando as dificuldades no caminho, esvaziando de sentido as ações, os pensamentos, os passos, as relações, concentrando assim aos poucos o ser humano em si próprio.

Os sentimentos e os pensamentos ligam-se na ótica da direção na qual nos impelem e levam: se nos movem para uma comunhão cada vez mais real ou se nos fecham em nós. O combate espiritual significa saber ler-se a si próprio no que respeita à comunhão ou ao isolamento, o individualismo ou a abertura. O medo por si ou o dom de si. Isto é, ver o sentido da própria Páscoa.

Quando fala de oração, o papa Francisco exorta muitas vezes a chamar Deus com o nome de «Pai». Que necessidade há de paternidade, naquela que o pontífice define frequentemente como uma «sociedade de órfãos»?
Os últimos séculos tornaram a vida espiritual muito problemática, porque Deus foi maioritariamente abordado em chave filosófica e Cristo em chave de homem perfeito, modelo da humanidade. Mas o próprio Cristo, no Evangelho segundo João (8, 19), diz: «Vós não conheceis nem a mim nem o meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai». Isto quer dizer que o lugar do conhecimento é a relação e a inteligência é a do ágape, do amor. Se Deus não é experimentado como o Pai, que tem um amor louco pelo Filho, é difícil também a oração do Pai-nosso.

Uma pessoa sente-se filho quando está à mesa a falar com o pai. Sente-se filho quando sabe a origem e a meta. Quando o amor não é a meta a atingir mas o ponto de partida, as coordenadas da existência e a festa do cumprimento. O Pai é o garante do amor livre, é o porto que espera, é a segurança ontológica e, portanto, existencial. São tudo realidades de que hoje se ouve o grito da necessidade.

O discernimento é também o tema do próximo sínodo dos bispos. Para os jovens é uma arte talvez ainda mais difícil do que para os adultos; encontram eles mestres capazes de os ensinar a exercitá-lo?
Parece-me que os jovens procuram a vida e nós ainda nos deixamos ofuscar pelos métodos, pelas aproximações pastorais que tentam captar o seu interesse, para nos fazer próximos deles, mas creio que eles percebem imediatamente que essa é uma metodologia; ao contrário, o amor não é metodologia mas é o nosso modo de existência que revela também o conteúdo da fé.

Os jovens são particularmente sensíveis ao discernimento, mas como isso significa entender-se com Deus, é necessário fazer com que eles se encontrem com Deus, com Cristo, descubram que existe o Espírito Santo, que é dom de uma vida particular, que move como o vento faz à vela, isto é, toda a humanidade.

Não acredito que seja possível conhecer Cristo se não na misericórdia, no sacramento da amnistia, num abraço forte que, aquecendo o coração, abre novos horizontes.

M. Michela Nicolais In SIR
Traduzido e publicado por SNPC

Deus não nos quer submissos

No amor não há submissão

A igreja estava calorosa e acolhedora na festa da Sagrada Família, no passado mês de dezembro. Antes que a missa começasse, ofereci a minha oração habitual para estar aberta às graças da liturgia. Logo depois o meu coração fechou-se abruptamente quando ouvi a leitura da epístola. Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio.

Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? (…)

Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis?

A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade».

O papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito».

Expandindo até à noção de amor matrimonial, escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão.

A compreensão que o papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma onde em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover completamente esses textos dos nossos lecionários.

Acabou o tempo.

Nancy Small In National Catholic Reporter
Tradução e edição: SNPC

domingo, 18 de março de 2018

Autonomia e Solidão

Criados pelo amor dos outros

"Penso que é consensual elogiar a nossa autonomia, a autonomia pessoal – cada um de nós se sentir com capacidade de levar a sua vida por diante e fazer responsavelmente as suas escolhas, viver segundo o seu jeito, a seu modo, a sua arte, a sua vocação. Cada um poder desenvolver as suas competências dessa forma autónoma é alguma coisa muito boa nas nossas vidas – sentirmos que a responsabilidade da nossa vida é nossa e que nós temos de responder, e que ninguém vai viver por nós as várias etapas da nossa vida. Somos nós, muitas vezes na nossa irredutível solidão, no nosso silêncio, que temos de dar o passo em frente. E construímos a nossa vida para assumir a responsabilidade que a existência significa.

Viver significa agarrar nas próprias mãos a vida e levá-la por diante. O grande perigo é nós acharmos que somos completamente autónomos, que dependemos apenas de nós, que vivemos em função de nós e que a nossa missão e a nossa vocação fundamental se esgotam no cuidado de nós próprios e na afirmação pessoal nas diversas áreas que compõe a nossa humanidade. Porque, se pensarmos bem, a nossa vida em todos os seus momentos fundamentais foi um dom, foi um dom. Foi objeto de uma conspiração amorosa para que nós pudéssemos ser, para que nós pudéssemos viver.

Ainda esta semana tive a alegria de ser mais uma vez tio-avô. E, a preparação do nascimento da criança que nasceu, o envolvimento de toda a gente, o correr, o andar de um sítio para o outro, fez-me recordar aquilo que está na origem da vida de todos nós e que às vezes nós temos uma dificuldade enorme em trazer à nossa memória: talvez na etapa fundamental da nossa vida, que é a nossa entrada na vida, nós não fomos os protagonistas. Erámos o alvo de toda a atenção, de todo o cuidado, tantas mãos se juntaram, tantas vidas se juntaram para que aquele momento pudesse ser um momento feliz, um momento de chegada tranquila. Mas, naquele momento, nós fomos completamente criados pelo amor dos outros, pela ternura dos outros, pelo profissionalismo dos outros que geraram a nossa vida.

Então, há esta memória fundamental em todos nós que é: Como é que tu nasceste? Como é que tu chegaste? Como é que tu começaste? Mas não só não foi apenas há 80 anos, há 50 anos que aconteceu isto, se olharmos bem está sempre a acontecer.

Por isso, na leitura do profeta Ezequiel, o pastor que representa Deus diz: “Eu cuido diretamente das minhas ovelhas, eu vou cuidar delas, pego-as ao colo, trato da ferida da que anda doente, robusteço e encorajo aquela que está forte. Sou Eu.” Há uma rede de cuidados da qual muitas vezes nós não tomamos consciência, porque olhamos para a vida de uma forma automática. Por um lado, como se tivéssemos direito a tudo, como se o nosso dinheiro comprasse todos os serviços e todo o amor que nos rodeia. Muitas vezes achamos que o pão sai do nosso saco em casa, que as coisas que enchem o nosso frigorífico saem diretamente do nosso frigorífico, que as pequenas e grandes coisas do nosso quotidiano não têm por trás uma rede de cuidadores da nossa própria vida. E não apenas em relação à vida presente, ao aqui e ao agora. Na Carta de S. Paulo aos Coríntios, neste magnífico capítulo 15, S. Paulo diz: “Assim como por um homem começou a existência no mundo, a nova vida, a nova criação também começa por Jesus Cristo.” E Ele vem para dar uma nova criação, para ressuscitar-nos e para garantir que Deus seja tudo em todos. Então, na nossa origem e na nossa escatologia, no nosso meio, nós somos objeto desse cuidado permanente. Por isso, penso que há uma gratidão à vida, há uma gratidão aos outros, um reconhecimento de que, de facto, somos objeto de um amor que muitas vezes nós não temos olhos para o ver, para o saudar, para dizer obrigado, obrigado, obrigado. Por todos os dias, por tudo aquilo que recebemos incessantemente, incessantemente. Se é verdade que às vezes nos lamentamos e nos queixamos: falta isto, falta aquilo, poderia ser de outra maneira, isto foi feito desajeitadamente, não era o que eu merecia. Mesmo assim, o bem supera em larga medida o lado desajeitado ou o lado mais cru da própria existência. Por isso, nós precisamos de aprender a gratidão e de dizer mais vezes obrigado, tomando consciência da rede que nos sustenta, que é uma rede que não é apenas económica. Achar que é a dimensão económica, é o nosso porta-moedas, que resolve o cuidado da nossa vida é tão pouco, é tão pouco. Porque essa é apenas uma parte, é apenas uma mediação, é apenas uma condivisão do dom. Porque, o cuidado mais importante é impagável, o cuidado mais verdadeiro, aquele que nos embala, aquele que nos dá colo não tem preço, não tem medida. E precisamos agradecer, precisamos agradecer e tomar consciência de como Deus cuida de nós, como somos cuidados, como a nossa vida é estimável – é inestimável a nossa vida. E nós somos embalados diariamente nesse amor. Não vivamos como se tivéssemos direito a tudo, como se tudo nos fosse devido, mas expressemos mais vezes o nosso reconhecimento tomando consciência de que, por um lado, nós somos os protagonistas da nossa vida, mas há tantos coprotagonistas sem os quais a nossa vida não seria possível que verdadeiramente o nosso coração se tem de encher de reconhecimento.

A consciência de que somos cuidados tem de nos tornar cuidadores da vida uns dos outros, se não a vida é uma oportunidade perdida. Se não nos tornamos cuidadores perdemos a vida, perdemos a vida. É isso que Jesus nos diz neste capítulo do Evangelho de S. Mateus, onde Ele diz, quase de uma forma crua, como se fosse um juízo universal, o juízo final. Porque tem de haver um momento em que nós percebemos: ou acertei ou falhei. Não vamos andar sempre a enganarmo-nos, não vamos andar sempre numa bolha de ilusão. Há um momento, e na vida de todos nós esses momentos acontecem, em que se despertam sorrisos ou se acordam lágrimas em que nós percebemos: eu perdi a minha vida ou valeu a pena ter vivido, valeu a pena ter estado ali, valeu a pena ser quem era, valeu a pena o caminho que eu fiz porque pude ser, pude servir, pude cuidar. E é, de facto, a dimensão do cuidado que é para Jesus o ponto que nos deve servir para perceber se a nossa vida valeu, ou se a nossa vida em algum momento ficou para trás, em algum momento se perdeu. Jesus é muito concreto, Ele diz: “Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino. Porque tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, era peregrino e Me recolhestes, era peregrino e Me vestistes, estive doente e viestes visitar-Me, estava na prisão e fostes ver-Me.”

Podemos dizer: isto é para interpretar simbolicamente. E é também simbolicamente porque muitas pessoas nos dão de comer. Para mim, às vezes um texto, uma palavra, é como um pão. É tão saborosa ou mais saborosa do que o pão que como. E aquilo que nos dá de beber, e aquilo que nos veste é uma rede também simbólica, é. Mas também, é literal, é literal e nós não podemos esquecer isso. Quer dizer, nós cuidamos uns dos outros de forma simbólica, damo-nos uns aos outros e essa dádiva é muito importante. Mas a literalidade destas palavras que Jesus repete às ovelhas e aos cabritos devem entrar-nos verdadeiramente no coração.

Porque, às vezes, andamos perdidos com muitas coisas, muitas coisas importantes, muitas coisas urgentes, muita coisa que nos enche, muita coisa que nos envaidece. E depois? O essencial da vida, a luta pela sobrevivência, os momentos de crise, os momentos decisivos da vida dos outros nós falhamos, nós falhamos. Porque não damos de comer, não damos de beber, não vestimos, não visitamos, não acompanhamos o dilema, os momentos dilemáticos crucificantes da vida dos outros. E, se não estamos lá, é a nossa vida que perdeu a sua função. Nós não nos tornamos conspiradores para que o grande milagre da vida possa acontecer, deixamo-nos como um pão que fica no saco e fica duro de um dia para o outro, até ter de ser deitado fora porque já não tem utilidade. Não deitemos a nossa vida fora. No último domingo do ano, Jesus vem dizer-nos isto: não deitemos a nossa vida fora, tornemo-nos artesãos deste cuidado fundamental, desta assistência à vida, tornemo-nos parteiros da vida todos os dias fazendo a vida acontecer, trazendo a vida cá para fora, alimentando a ovelhinha fraca, encorajando aquela que caminha, reparando, restaurando, recosendo, alimentando, vestindo.

Sabem, às vezes os nossos amigos oferecem-nos imagens que depois nos ficam na cabeça, eu tenho a certeza de que este amigo já se esqueceu daquilo que fez. Mas eu todos os dias tenho pensado nisso. A semana passada, em Roma, num dia depois de jantar, fomos passear ali pela praça de S. Pedro, e estão muitos sem-abrigo a dormir debaixo das colunas. Íamos a conversar, aquelas coisas importantes que os padres e os teólogos conversam, e ele olhou – e depois eu também olhei – para um homem que estava a dormir, estava muito frio, o homem tinha um cobertor mas tinha os pés de fora, os pés assim espetados de fora. E ele deixou-nos e foi e tapou os pés ao homem. E nós ficamos: “Mas o que é que estás a fazer?” E ele chegou ao pé de nós, olhou para o que fez e viu que o outro pé ainda estava por cobrir, e foi outra vez cobrir o pé daquele homem que dormia com os pés destapados.

Aquele gesto eu não me esqueci e penso nele todos os dias. Já não me lembro do que estávamos a conversar, mas lembro-me que ele deixou a conversa para fazer a única coisa que era importante: que era ver quantos pés estavam destapados e tapar os pés daqueles que dormiam na rua. Às vezes pensamos: o que ele teria de fazer era levar o homem para outro sítio. Não, o que temos de fazer é oferecer um copo de água, é dar uma palavra de alento, é limpar uma lágrima, é tapar um pé que está ao frio."

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXXIV do Tempo Comum in Capela do Rato

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Amar é uma necessidade

O que é o amor?

Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros». (Do Evangelho do 5.º Domingo do Tempo Pascal, Jo 13, 31-33a.34-35)
Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Mas pode-se mandar amar? Um amor imposto é uma caricatura, frustrante para quem ama, enganador para quem é amado.

Amar, na lógica do Evangelho, não é uma obrigação, mas uma necessidade para viver, como respirar: «Todos temos necessidade de muito amor para viver bem» (J. Maritain). É mandamento no sentido de fundamento do destino do mundo e da sorte de cada um: amai-vos uns aos outros, isto é, todos, de outra forma a razão será sempre do mais forte, do mais violento ou do mais astuto.

«Novo», declara Jesus. Em que consiste a novidade destas palavras se também na lei de Moisés já estavam reportadas: amarás o próximo como a ti mesmo? Ela emerge das palavras que se seguem. Jesus não diz, simplesmente, «amai-vos». Não basta amar, poderia ser apenas uma forma de possessão e de poder sobre o outro, um amor que tudo prende e nada dá. Há também amores violentos e desesperados. Amores muito tristes e até destrutivos.

O Evangelho acrescenta uma palavra particular: amai-vos uns aos outros. Numa relação de comunhão, num face a face, tu a tu. Na reciprocidade: amor dado e recebido; a felicidade desta vida pesa-se no dar e receber amor.

Não se ama a humanidade em geral; ama-se este homem, esta criança, este estramgeiro, este rosto. Imergindo-se na sua intimidade concreta. Amam-se as pessoas uma a uma, rosto a rosto. Ou doze a doze, como fez Francisco com os doze refugiados sírios de Lesbos.

Mas a novidade evangélica não se reduz somente a isso. Jesus acrescenta o segredo da diferença cristã: como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.

O específico do cristão não é amar, isso fazem-no já muitos, de muitos modos, sob todos os céus. Mas amar como Jesus. Não quanto Ele, é impossível para nós viver a sua medida, mas como, com o estilo único de Jesus, com a revolução da ternura combativa, com as revoluções que operou. Livre e criativo, fez coisas que ninguém nunca fez: se Eu vos lavei os pés, assim fazei também vós, fazei-o a partir dos mais exaustos, dos mais pequenos, dos últimos. Jesus ama primeiro, ama em perda, ama sem contar. Veio como narrativa inédita da ternura do Pai.

Por tudo isto saberão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros. «Não basta ser crente, devemos também ser credíveis» (Rosario Livatino). Deus não se demonstra, mostra-se.

Cada um deve fazer-se, como Ele, narrativa inédita do rosto de amor de Deus, canal não bloqueado, veia não obstruída, através da qual o amor, como água que fecunda, circule no corpo do mundo.

Ermes Ronchi in "Avvenire"
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Amor sem barreiras

Beyond Love

"A Black Sheep, uma agência de publicidade polaca baseada em Israel decidiu criar um vídeo onde promove a tolerância e a liberdade.

No vídeo em causa não há lugar para discriminações independentemente do sexo, religião, orientação sexual, expressão de género ou tipo de família. Em três dias o vídeo “Beyond Love” (...) foi visto mais de 25 mil vezes."

Por Paulo Monteiro in Dezanove


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Em carne viva

De que carne se fez Deus?

"O que distingue um ser humano de um cadáver é que o ser humano é carne e o cadáver é matéria. Temos plena consciência da dureza da afirmação que acabou de ser proferida. Mas a vida – olhe-se em redor e veja-se o que se passa fora dos ambientes adocicados pelo ar condicionado – é diamantinamente dura e não se compromete com mentiras, antes delas se livra assim que pode. A radical verdade do ato do real acaba sempre por emergir, aniquilando toda a impostura, toda a ilusão.

O que se comemora no Natal não é algo outro que não a humana e terrena consubstanciação do amor de Deus pelo mundo e pelos seres humanos na forma da carne. Repetimos, na forma da carne. O bebé Jesus não é um espírito com carne, um fantasma que se reveste de matéria, o bebé Cristo é carne. E por tal, rigorosamente por tal, é vida, a Vida.

O literal advento de Deus na forma da humana carne é o momento culminante do ser: não há ser mais perfeito do que este. Os anjos nunca tiveram um Deus que fizesse o equivalente a “incarnar” em forma de anjo. E os anjos, segundo o forte mito cristão, bem disso necessitam, pois é da sua estirpe o tentador. Mas não há incarnação do bebé Jesus para as criaturas-anjo em carne-de-anjo, pois esta última não existe.

Melhor, há uma incarnação, mas é no modo da colateralidade da assunção da plena forma humana: este ato, em humana carne, é dado ao todo do criado, mas é dado na forma precisa da carne. Não numa outra qualquer. Significativo. Porque não há uma outra qualquer. Só o ser humano possui carne.

Desta carne não se encontra no talho, salvo no talho da humana perversidade histórica, quando a carne humana sacrifica a carne humana. Como se fez ao menino Cristo em tempo pascal.
Mas a carne humana do menino já homem assim sacrificado, incarnando a morte, revisitou o mundo em que nascera, amara, fora morta.

Só há Páscoa como Segundo Natal. O Natal só termina, isto é, só começa na madrugada do retorno da carne ao mundo que a vira nascer, crescer – em sabedoria e graça – e morrer. Os Natais, Primeiro e Segundo, significam o nascimento, crescimento, morte e ressurreição da carne. Mas significam, sobretudo, que a carne, se morre, não é aniquilada: é Cristo-amor que desce aos infernos, não é um fantasma ou uma ideia de Cristo que o faz. Não há, nesta descida, um «que», há um «quem» e não há «quem» sem carne, não um «quem» humano, e Cristo é sempre plenamente humano ou não é Cristo.

É a carne de Cristo, que é o seu amor em forma humana – a carne de Cristo é a forma humana do seu amor –, que desce aos infernos; é ela que, é ele que, nela, ressuscita, trazendo as marcas da perversidade da morte, morte que a carne assume, transfigura, anula como ato retransfigurado, como marca incarnada da vitória da vida. A vida do ressuscitado assume e transporta consigo a morte, parte fundamental da vida. Só os mortos ressuscitam: é preciso morrer para que se possa ressuscitar.

Natal é a sagração, a eucaristização da carne. O espírito de Deus desprofaniza definitivamente a matéria. Uma vez incarnada por Deus, a matéria torna-se, toda ela, sagrada.
Não é, pois, na matéria que reside o mal do mundo. É na relação carnal do ser humano com ela.

Qual é a minha relação com a matéria?

Sigo o paradigma divino do menino-Deus, assim a santificando ato após ato? Ou sigo o paradigma da besta, assim a pervertendo, ato após ato?

Que mundo é o meu, o da sagrada carne de Jesus ou o do profano cadáver, não do que me transcende, mas de mim mesmo?

Neste Natal, escolha-se, sabendo que, desde há cerca de dois mil anos, não há já desculpa.
Bem-vinda Santa Carne!"

Américo Pereira, Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
SNPC

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Aceitar o olhar benigno de Deus

William-Adolphe Bouguereau
Nada pode afastar a ternura divina

"«Somos os filhos amados de Deus, sempre. Compreendeis então que não aceitar-se, viver descontentes e pensar de modo negativo significa não reconhecer a nossa identidade mais verdadeira? É como voltar-se para o outro lado enquanto Deus quer pousar o seu olhar sobre mim, é querer apagar o sonho que Ele tem para mim», vincou.

Nada há na história ou na personalidade de cada ser humano que possa afastar o enlaço e a ternura divinas: «Deus ama-nos assim como somos, e nenhum pecado, defeito ou erro Lhe fará mudar de ideia. Para Jesus – assim no-lo mostra o Evangelho –, ninguém é inferior e distante, ninguém é insignificante, mas todos somos prediletos e importantes: tu és importante».

«E Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens: a seus olhos, não vale mesmo nada a roupa que vestes ou o telemóvel que usas; não lhe importa se andas na moda ou não, importas-lhe tu. A seus olhos, tu vales; e o teu valor é inestimável», prosseguiu.

Por isso, vincou o papa, «Deus é fiel» no amor, «até mesmo obstinado»: «Ajudar-nos-á pensar que Ele nos ama mais do que nos amamos nós mesmos, que crê em nós mais de quanto acreditamos nós mesmos, que sempre nos apoia como o mais irredutível dos nossos fãs. Aguarda-nos sempre com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado».

«Afeiçoar-nos à tristeza, não é digno da nossa estatura espiritual. Antes pelo contrário; é um vírus que infecta e bloqueia tudo, que fecha todas as portas, que impede de reiniciar a vida, de recomeçar. Deus, por seu lado, é obstinadamente esperançoso: acredita sempre que podemos levantar-nos e não se resigna a ver-nos apagados e sem alegria», declarou.

A certeza do amor incondicional de Deus, deve configurar a existência, e para que dele não haja esquecimento ou desconsideração, Francisco sugeriu um gesto diário: «Lembremo-nos disto, no início de cada dia. Far-nos-á bem dizê-lo na oração, todas as manhãs: "Senhor, agradeço-vos porque me amais; fazei-me enamorar da minha vida". Não dos meus defeitos, que hão de ser corrigidos, mas da vida, que é um grande dom: é o tempo para amar e ser amado».

Para quem se afastou de Deus, o regresso à amizade e comunhão com Ele pode ser feito através do sacramento da Reconciliação: «Queridos jovens, não vos envergonheis de lhe levar tudo, especialmente as fraquezas, as fadigas e os pecados na Confissão: Ele saberá surpreender-vos com o seu perdão e a sua paz».

«Não tenhais medo de lhe dizer "sim" com todo o entusiasmo do coração, de lhe responder generosamente, de o seguir. Não vos deixeis anestesiar a alma, mas apostai no amor formoso, que requer também a renúncia, e um "não" forte ao doping do sucesso a todo o custo e à droga de pensar só em si mesmo e nas próprias comodidades», apelou.

A proximidade com Deus e a transformação pessoal dela resultante refletem-se depois em gestos concretos numa sociedade descrente e cética: «Poderão considerar-vos sonhadores, porque acreditais numa humanidade nova, que não aceita o ódio entre os povos, não vê as fronteiras dos países como barreiras e guarda as suas próprias tradições, sem egoísmos nem ressentimentos».

«Não desanimeis! Com o vosso sorriso e os vossos braços abertos, pregais esperança e sois uma bênção para a única família humana, que aqui tão bem representais», apontou.

Com «o olhar de Jesus», que «não se resigna perante os fechamentos, mas procura o caminho da unidade e da comunhão» e que «não se detém nas aparências, mas vê o coração», é possível «fazer crescer outra humanidade, sem esperar louvores, mas buscando o bem por si mesmo, felizes por conservar o coração limpo e lutar pacificamente pela honestidade e a justiça».

«Não vos detenhais à superfície das coisas e desconfiai das liturgias mundanas do aparecer, da maquilhagem da alma para parecer melhor. Em vez disso, instalai bem a conexão mais estável: a de um coração que vê e transmite o bem sem se cansar. E aquela alegria que gratuitamente recebestes de Deus, gratuitamente dai-a porque muitos esperam por ela», assinalou."

Excertos da homilia do Papa Francisco nas JMJ em Cracóvia
por Rui Jorge Martins em SNPC a 31 de julho de 2016

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Para não ser demasiado tarde

partilho um testemunho que nos alerta para não perdermos tempo. Seria bom que os pais que não aceitam os seus filhos o lessem. A vida são dois dias...

Até hoje
por João André Costa

"Eu e o Paulo temos uma relação. Pronto, já o disse. Eu e o Paulo sempre tivemos uma relação logo desde o primeiro momento em que nos vimos na Secundária. Ainda retenho a imagem na mente: ele na esquina do Pavilhão A, de calças à anos 90, justas e magras, como as pernas, compridas do chão ao tronco, um tronco elegante, despreocupado, à vontade por debaixo de um rosto calmo, curioso, de olhos negros como o cabelo forte, daquele cabelo que dá vontade de agarrar e encher as mãos, quase animalesco de tão farto. Bastou-nos meio segundo, e depois ele desviou o olhar.

Nessa tarde encontrámo-nos por detrás do ginásio, ele calado e eu também, ele a querer saber, a saber, e eu com as mãos suadas atrás das costas, a tremer, com um pé atrás e outro à frente, ele mais alto que eu, assim ao pé de mim, e eu a percebê-lo mais velho, talvez no 10º ou 11º, e eu ainda no 9º e tantos nervos, nunca tinha beijado ninguém e não queria deixar de beijar, os lábios dele vermelhos de sangue, de dor, vontade, paixão?, amor?, um passo em frente e fechei os olhos.
Até hoje.

Não sei quem teve mais dificuldade em aceitar a nossa relação, se os pais dele se os meus. Quando finalmente arranjei coragem para contar a toda a gente à mesa de jantar, a minha irmã desatou a rir-se, a minha mãe desatou a chorar e o meu pai perdeu a fala.
Até hoje.

E eu a pensar, a ansiar, a desejar tirar este peso de cima dos ombros, eu a querer contar, partilhar este amor, este ardor no peito de coração aos saltos sempre que estivemos juntos e sós, desde o escuro do anfiteatro da Universidade à sala de cinema, passando pela casa quando mais ninguém lá estava até à sala de enfermagem ao fim do turno. Eu a querer dar-lhes tudo e em trinta segundos perder um pai e uma mãe, porque a minha irmã não conta e a minha irmã já sabia (sempre soube) entre amigos e amigas, conversas de rua e conversas de escola. A minha irmã também é enfermeira. Até hoje.

Mas ao menos os meus pais não me puseram na rua. Pura e simplesmente deixaram de o ser, pais, demitindo-se com justa causa e por escrito. Já com os pais do Paulo foi bem pior, e como, mal ou bem, já estávamos os dois a trabalhar, alugámos um T1 no bairro e, aos 21, começámos uma vida juntos.
Até hoje.

Entretanto casámos, pelo Civil, pois claro, o Paulo pediu-me em casamento no nosso 3º aniversário depois de um jantar de mãos dadas e uma vida de mãos dadas e eu disse que sim, para sempre, e para sempre fechei os olhos. Na cerimónia apenas os padrinhos do Paulo e os meus, os que não fugiram, os que não nos deixaram.
Até hoje.

Hoje caminhamos na marcha. De mãos dadas com as alianças bem à vista, para todos, para que todos saibam e todos vejam, o meu pai, a minha mãe (porque a minha irmã não conta, já o disse). E não, pai, eu não trago o rabo à mostra nem penas ou asas de todas as cores, sou apenas eu, eu e Paulo e uma bandeira em cada mão, essa sim com todas as cores, como sempre fomos, de todas as cores desde que o vi na esquina do Pavilhão A. Podia ter sido uma rapariga, foi o Paulo, e eu nunca deixei de ser quem sou, nunca deixei de lutar, estudar e trabalhar, e o que se passa na cama e lá em casa é só connosco e mais ninguém. Não é pai? Porque mais ninguém tem nada com isso e eu também nunca te perguntei o que fizeste com a mãe antes de me fazeres ou enquanto me fizeste.

Estou a caminho de casa e o Paulo vem comigo. Batemos à porta e a minha mãe, com dois poços fundos de lágrimas no lugar dos olhos, abraça-me. Já não vou poder dizer nada ao meu pai."
in Público P3 a 25 de junho de 2017

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Deus bem-me-quer

Ou a descoberta de um amor que liberta

Texto escrito a convite de Ricardo Passos para o seu livro "Love Box - A Sagração do Profano"

Os homossexuais não são indiferentes à ideia do Amor: também eles o concebem, experimentam, desejam e vivem. Se para alguns esta afirmação não traz nada de novo, para outros é polémica e provocadora. Poderia falar de muitos países e culturas que, nos dias de hoje, continuam a ignorar os direitos universais do ser humano ao torturar, criminalizar, perseguir e matar homens e mulheres pelo simples facto de serem homossexuais. Mas, mesmo em sociedades que fizeram avanços em questões de igualdade de tratamento, reconhecimento, legislação e defesa dos direitos de pessoas LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, trans ou intersexuais), o preconceito, a discriminação e o desconhecimento – para não dizer ignorância – estão longe da extinção (tal como a abolição da escravatura não erradicou o racismo e a xenofobia e as leis de igualdade de género não fizeram desaparecer o sexismo e o machismo da sociedade).

Em 2010 saiu na revista do jornal Público uma reportagem de Alexandra Lucas Coelho sobre uma realidade pouco conhecida e pouco falada em Portugal: os cristãos praticantes que são homossexuais. Um homossexual cristão vive neste ingrato limbo de ser considerado “bastardo” ou “profano” tanto pela Igreja como pela comunidade homossexual: na subcultura gay é visto como incompreensível, bizarro e incompatível que se possa ser crente, no meio eclesial católico (e no de outras confissões cristãs) é inaceitável e inconcebível que alguém se assuma e “viva como” gay.

Com vista a preparar esse trabalho a jornalista quis entrevistar-me. O contacto foi feito através de uma amiga que, conhecendo a minha condição homossexual, sabia que eu não abandonara a fé e a participação na vida da Igreja, nomeadamente num grupo de reflexão formado por gays cristãos. Ao ser entrevistado pela Alexandra apercebi-me que era urgente deixar uma porta aberta para homossexuais que viessem a ler a reportagem e, sendo cristãos, não tivessem a “sorte” de terem percorrido – ou encontrado alguém que os ajudasse a percorrer – um caminho de fé onde as dimensões da sua sexualidade e afectividade fossem bem integradas. Decidi então criar o blogue “Moradas de Deus”, que tem como subtítulo “um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja”. Os leitores podem aqui encontrar informação, ferramentas, e publicações relativas a uma questão que, apesar de ser muito pessoal, tem repercussões sociais e gera grande sofrimento e isolamento em muitos e muitas dos que vivem esta dupla condição de ser homossexual e crente.

Como chegar a este ponto de pacificação em que deixa de haver um combate constante e uma medição de forças entre consciência e razão? O que hoje é claro para mim, nem sempre o foi. Todos já teremos ouvido a frase “Ama a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Foi Jesus quem resumiu nesta frase os mandamentos do Antigo Testamento, espelhando nesta forma tão “destilada” uma métrica pela qual a vida de qualquer cristão se deve reger. Mas amar ao próximo como a nós mesmos pressupõe que nos amemos a nós mesmos... Quanta gente vive esta angústia de não se amar a si mesmo?

Na minha experiência, a interiorização deste “ama ao outro como a ti mesmo” começou por uma descoberta simétrica: “ama-te a ti mesmo como amas ao outro”. Posso assumir que o meu caminho de auto-aceitação e de descoberta do auto-amor começou muito naturalmente pela aceitação dos outros, do Outro, da sua diversidade e da sua particularidade. Quando, na vida quotidiana, se vai “trabalhando” a receptividade face ao Outro, aceitando-O como é – abdicando de desejar que seja como nós queremos – a aceitação das suas características (aquilo que lhe é característico) torna-se evidente e natural. A homossexualidade será apenas uma das muitas características dessa pessoa.

Para um homossexual, amar-se a si mesmo passa invariavelmente pela aceitação da sua própria condição homossexual ou homoafectiva que, idealmente, o leva a viver a sua sexualidade de uma forma mais integrada e saudável – deixa de viver em negação ou reprimido, dominado pelo medo, sentimento de culpa ou vergonha. A aceitação da minha própria homossexualidade foi um percurso longo e menos evidente do que a aceitação da homossexualidade nos outros. Passou pela aceitação da minha totalidade, como um Ser totalmente criado e amado por Deus – se Deus é criador e me ama, não terá criado nem escolhido amar apenas uma parte “conveniente” de mim. Ocorreu uma espécie de “conversão”: outrora o meu amor por Deus surgia ainda toldado e limitado pelo receio e por escrúpulos, agora manifesta-se no próprio acolhimento e descoberta do Seu amor incondicional, completo, inclusivo e libertador. Foi fazer a transição entre um conceito fundado na minha própria capacidade ou incapacidade, força de vontade, fraqueza e estoicidade – uma atitude que, contrariamente ao que seria expectável, era pouco receptiva à Graça e à transcendência de Deus – e uma abertura radical a este amor gratuito e generoso de Deus. Um amor completo, fecundo e pleno, que sacia, sem condições, um amor por tudo aquilo que eu sou – alma, espírito, razão, sensibilidade, afectividade, corpo, sexualidade... Um amor que se incarna em mim, que não aprisiona, que me deixa voar, que quer que eu seja. Compreender este amor de Deus, levou-me a tentar amar-me como sou e não como idealizava ser, permitiu-me passar do plano das ideias e dos ideais para o plano da realidade. Saber que sou amado por Deus torna-me, assim, mais real. E este amor torna-me livre.

Muitas vezes, nesta etapa do caminho do auto-reconhecimento, um homossexual cristão depara-se com uma realidade visível da Igreja que não corresponde exactamente à sua vocação primordial de Mãe que congrega, ama e acolhe. O discurso mais oficial da Igreja é omisso, moralista, obcecado pelo carácter genital do acto sexual e alheado da riqueza da afectividade, do cultivo de um amor e da construção de uma vida em comum entre duas pessoas homossexuais. A voz da Igreja que mais se faz ouvir soa a inflexível, desrespeitadora, castradora e arrogante. E é aqui que um homossexual cristão se vê a repensar a pertinência de permanecer na Igreja. Muitos decidem então afastar-se, por sentirem que não são integralmente amados, queridos, estimados, escutados, apoiados, incluídos e acolhidos.

No meu caso nunca pesei seriamente esta questão. Sou crente e valorizo ter sido dotado de inteligência e de sentido crítico: procuro viver de forma esclarecida e consequente. Há muito que compreendi que a minha maior responsabilidade não é estar na Igreja, é ser Igreja. Eu preciso tanto da Igreja quanto ela precisa de mim, de todas as minhas características, dons e talentos. Sem mim a Igreja ficaria mais pobre, menos criativa, menos solidária, menos alegre, menos cultural, menos sensível, menos activa, menos inquieta, menos curiosa, menos exigente, menos aberta, menos acolhedora, menos artística, menos comunicativa, menos contemplativa, menos prática, menos gay... Faço falta à Igreja e, felizmente, vou tendo confirmações disso.

Em Portugal há padres e freiras que acompanham pessoas homossexuais cristãs. Enquanto os documentos oficiais da Igreja vão a passo de caracol, vão-se multiplicando as intervenções de figuras da hierarquia e de teólogos que incitam a uma urgência, seriedade e aprofundamento na reflexão sobre estas matérias. Termino com a tradução de alguns parágrafos da página de Internet da arquidiocese de Los Angeles, que me parecem ser uma lufada de ar fresco ao abandonarem o tom moralista do discurso da Igreja – que subestima e profana a dignidade dos cristãos homossexuais e a sacralidade do seu amor:

“Dentro da nossa Comunidade Católica existem muitas pessoas que são gays e lésbicas […] A Igreja ensina que uma orientação lésbica ou gay, por si só, não é pecado. Qualquer católico(a) que descobre que é lésbica ou gay continua a ser membro da Igreja e é chamado a participar na vida paroquial como qualquer outro católico. A pessoa que é gay ou lésbica não é menos que outro membro da Igreja e é chamado(a) a participar nas alegrias, dificuldades e desafios dos ensinamentos católicos sobre a sexualidade humana. A Igreja lamenta os distanciamentos e afastamentos que lésbicas e homossexuais experimentaram. O nosso ministério procura “aliviar” mal-entendidos ou diferenças e procura construir uma ponte de entendimento e de apoio para lésbicas e gays, suas famílias e seus amigos. […] Respeitaremos os seus direitos de privacidade e acolhê-lo(a)-emos como acolheríamos a Cristo.”

Rio Azur, autor do blogue Moradas de Deus

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Na oração quem fala é o amor

Oração em Teresa de Ávila
A oração de S. Teresa enquanto amizade é comunicação gratuita, excluindo a lógica do «custo-benefício». Tem a marca da amizade e da graça. De facto, «para aproveitar muito neste caminho [da oração]…, não se trata de pensar muito, mas de amar muito» (4M 1,7). (...)

A oração é vida diante de Deus. (...)

Na oração «quem fala é o amor» (Livro da Vida 34,8). (...)

A linguagem da oração, realizando uma ligação com Deus, desvelava a verdade da pessoa a si própria; por ela (...) «sabemos quem somos» (1M 1,2). Rezar a Deus é uma forma de ser humano, de se experimentar profundamente, de se perceber genuinamente e de se exprimir superiormente. (...)

excertos de texto de Armindo dos Santos Vaz publicado em SNPC

sábado, 18 de janeiro de 2014

Amar não é sonhar

O amor cristão é concreto

O papa Francisco vincou esta quinta-feira no Vaticano que o amor cristão, em particular o que é referenciado na primeira carta de João, proclamada hoje nas missas, é totalmente distinto daquele que é narrado nos folhetins que passam na televisão.

«Vede que o amor de que fala João não é amor das telenovelas! Não, é outra coisa. O amor cristão tem sempre uma qualidade: a concretude. O amor cristão é concreto. O próprio Jesus, quando fala do amor, fala-nos de coisas concretas: dar de comer aos famintos, visitar os doentes e muitas coisas concretas», apontou na missa a que presidiu, revela a Rádio Vaticano.

O excerto bíblico lido nas celebrações eucarísticas desta quinta-feira começa assim: «Nós devemos amar, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: “Amo a Deus” e odiar o seu irmão, é mentiroso. Quem não ama o seu irmão, que vê, não pode amar a Deus, que não vê».

Quando não há factos concretos que sustentem o amor, «pode viver-se um cristianismo de ilusões, porque não se compreende bem onde está o centro da mensagem de Jesus. Este amor não chega a ser concreto: é um amor de ilusões», sublinhou.

«Nós em Deus e Deus em nós: esta é a vida cristã. Não permanecer no espírito do mundo, não permanecer na superficialidade, não permanecer na idolatria, não permanecer na vaidade», acentuou Francisco.

Segundo o papa, o «primeiro critério» dos cristãos é «amar com as obras, não com as palavras. Palavras leva-as o vento. Hoje existem, amanhã não. O segundo critério de concretização é: no amor é mais importante dar do que receber. Quem ama, dá, dá… Dá coisas, dá vida, dá-se a si próprio a Deus e aos outros».

Pelo contrário, «quem não ama, quem é egoísta, procura sempre receber, procura sempre ter coisas, ter vantagens. Permanecer com o coração aberto, não como o dos discípulos, que estava fechado, que não compreendia nada».

Com estas palavras, o papa referia-se à leitura do Evangelho de hoje (cf. "Artigos relacionados"), quando os apóstolos se assustam ao ver Jesus a caminhar sobre o mar: «O seu espanto nasce de uma dureza de coração».

Rui Jorge Martins
in SNPC | 09.01.14

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Servir o próximo

O Papa no Rio
parte 6

Serviço

Ele que é frequentemente apelidado de «papa dos pobres», ele que escolheu o nome de Francisco e que não hesitou, alguns dias depois da eleição, a celebrar a Quinta-feira Santa numa prisão e lavar os pés a jovens detidos, aproveitou a viagem ao Brasil para transmitir uma mensagem social, mas também convocar os jovens a colocarem-se ao serviço uns dos outros.

«Para anunciar Jesus, Paulo fez-se "escravo de todos". Evangelizar significa testemunhar pessoalmente o amor de Deus, significa superar os nossos egoísmos, significa servir, inclinando-nos para lavar os pés dos nossos irmãos, tal como fez Jesus.» (Homilia na missa final)

Cruz

«Muitos rostos acompanharam Jesus no caminho para o Calvário: Pilatos, o Cireneu, Maria, as mulheres... Eu pergunto-vos hoje: Vós, como quem quereis ser? Quereis ser como Pilatos, que não teve a coragem de ir contracorrente para salvar a vida de Jesus e lavou as mãos? Dizei-me: Vós sois dos que lavam as mãos, fazem-se distraídos e olham para o outro lado, ou sois como o Cireneu, que ajuda Jesus a levar aquele madeiro pesado, como Maria e as outras mulheres, que não têm medo de acompanhar Jesus até ao fim, com amor, com ternura. E vós, com qual deles quereis ser? Como Pilatos, como o Cireneu, como Maria? Jesus olha para ti agora e diz-se: queres ajudar-me a levar a cruz? Irmão e irmã, com toda a tua força de jovem, que lhe respondes?» (Via-sacra)

Aymeric Christensen
In La Vie

ler mais em:
SNPC
neste blogue:
parte 1
parte 2
parte 3
parte 4
parte 5

Vida a dois

Compromisso para a construção de uma relação

Antes de tudo,
comprometo-me a considerar
[a nossa união]
como a realidade mais sagrada da minha existência.

Por isso não tenho outra expectativa
que não seja a de amar-te contra ventos e marés.

Anseio poder dar o melhor de mim
para contribuir para a tua realização,
ajudar-te a valorizar os teus talentos,
ser água e luz para a flor única que tu és.

Farei tudo para te acolher como és, e não como eu te sonhei.

Habituar-me-ei a estar disponível para te ouvir,
entrar no teu universo
e abrir-te a porta do mundo que me habita.

Não serei um vigilante dos teus jardins secretos.

Procurarei evitar os mal-entendidos.

Desejo ser suficientemente inteligente
para respeitar a tua visão das coisas:
«a tua diferença engrandece-me».

Aplicar-me-ei em não deixar escapar
as confidências que achares por bem fazer-me,
mesmo se elas me perturbam ou me põem em questão.

Esforçar-me-ei por não caricaturar ou refrear
as tuas opiniões
quando contrariam as minhas.

Habituar-me-ei a expulsar os meus pensamentos negativos
e a alargar os recursos do humor.

Esforçar-me-ei por não manifestar irritação
se a tua gestão do tempo
não tem o mesmo ritmo que a minha.

Tentarei afastar todo o ciúme,
porque a minha confiança
é o mais belo presente que te posso oferecer.

Não cairei na cilada do queixume reivindicativo e amargo.

Evitarei toda a afronta estéril:
as crises podem ser oportunidades para crescermos juntos.

Comprometo-me a procurar contigo
a harmonia dos nossos desejos nos nossos abraços,
e a não me recusar a ti por ressentimento.

E como me acontece
«não fazer o bem que quero, e fazer o mal que não quero» (Rm 7,19),
comprometo-me a ser suficientemente humilde
para saber pedir-te perdão.

Desejo nunca adormecer antes de ter extinguido
todo o foco de discórdia entre nós.

Não serei escasso de elogios.
Uma palavra gentil, um gesto terno, um sorriso,
enchem de sol o dia.

Que Deus, que nos confiou um ao outro,
venha em nosso auxílio!

adaptação a partir de P. Stan Rougier
In Prier Trad.: rjm Adaptação: rioazur
publicado in SNPC a 01.08.13

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ser o amor


A maior doença é não ser amado

Deus continua hoje a amar tanto o mundo que entrega cada um de nós para amarmos o mundo, para sermos o amor Dele, a compaixão Dele. É um pensamento tão belo para nós - e é uma convicção - de que nós podemos ser esse amor e essa compaixão.

Sabemos quem são os nossos pobres? Conhecemos os nossos vizinhos, os pobres da nossa área de residência? É fácil falarmos sem cessar sobre os pobres de outros locais. Muitas vezes, temos os que sofrem, temos os que estão sozinhos, temos as pessoas velhas, indesejadas, sentindo-se profundamente infelizes - que estão perto de nós e nós nem sequer as conhecemos. Nem sequer temos tempo para lhes sorrir.

A tuberculose e o cancro não [são] grandes doenças. A meu ver, doença muito maior é não ser querido, não ser amado. A dor que estas pessoas sofrem é muito difícil de compreender, de penetrar. Parece-me que é por essa dor que a nossa gente está a passar em todo o mundo, em todas as famílias, em todas as casas.

Este sofrimento repete-se em cada homem, em cada mulher e criança. Parece-me que Cristo está novamente a sofrer a Sua Paixão. E temos de ser nós a ajudar essas pessoas - temos de ser Verónica, temos de ser Simão para eles.

Madre Teresa de Calcutá
In Vem, sê a minha luz, ed. Aletheia

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ama primeiro!

Dá o primeiro passo

Há séculos que o nosso Deus se nos adianta no amor. Há 2000 anos que Jesus nos precede e nos espera na Galileia, essa Galileia do primeiro encontro, essa Galileia que cada um de nós tem em algum lugar do coração. O sentirmo-nos precedidos e esperados acelera o ritmo do nosso caminhar para que o encontro aconteça mais depressa. O mesmo Deus que «nos amou primeiro» também é o Bom Samaritano que se faz próximo e nos diz (...) «Vai e procede da mesma maneira».

Simplesmente, fazer o que Ele faz: sê primeiro entre os teus irmãos no amor; não esperes ser amado, ama primeiro. Dá o primeiro passo. Esses passos que nos farão sair da sonolência (o não ter podido velar com Ele) ou de qualquer quietismo sofisticado. Passo de reconciliação, passo de amor. Dá o primeiro passo na tua família, dá o primeiro passo nesta cidade; faz-te próximo dos que vivem à margem do necessário para subsistir: cada dia são mais. Imitemos o nosso Deus, que nos precede e ama primeiro, realizando gestos de proximidade para os nossos irmãos que sofrem solidão, indigência, desemprego, exploração, falta de tecto, desprezo por serem migrantes, doença, isolamento entre os idosos. Dá o primeiro passo e leva, com a tua própria vida, o anúncio: Ele ressuscitou. Então colocarás, no meio de tanta morte, uma centelha de ressurreição, que Ele quer que tu leves. Então a tua profissão de fé será credível.
Card. Jorge Bergoglio (papa Francisco)
Vigília Pascal, 2000
In El verdadero poder es el servicio, ed. Claretianas
publicado por SNPC

domingo, 12 de maio de 2013

O cristão é uma pessoa inquietante

Ser cristão é entrar noutro mundo


Ser cristão é sair da calha social. Sempre o foi. Quando vivemos a fundo a verdade da Fé, entramos num mundo um pouco estranho. Num outro mundo do mundo. (...)
Um cristão a sério, um cristão a fundo, torna-se uma pessoa inquietante. Se isto não acontece, (...) assumimos um cristianismo que, no fundo, não passa de um resíduo de si mesmo.

Em certo sentido, é compreensível que assim seja: porque é complicado dar o (...) salto decisivo. (...) Nem toda a gente consegue assumir a solidão e o risco necessários para proceder a essa rutura, a essa metamorfose. Contudo, é por esse caminho de perigos que se espreita a felicidade.

A primeira diferença que deve constituir a identidade do cristão é a transparência do mundo: quem segue Cristo intui em tudo a presença de Deus, e cada momento da sua existência, por mais mínimo que seja, faz todo o sentido.
Aprender a ver o mundo entrevendo nele a Deus é um dos pontos mais difíceis da vida de um cristão. Porque a tendência é pensar coisas como: num mundo onde há crianças que morrem de fome onde poderá estar Deus? É curioso que nunca nos ocorre que essas crianças em muitos casos morrem de fome por nossa culpa: podíamos fazer por elas muito mais do que fazemos. Por isso mesmo, a pergunta não deveria ser "Onde está Deus?", mas sim "Onde estou eu?".

O papel da dor na vida humana é outra das estranhezas do cristianismo. Jesus chamava-lhe a Cruz. Mas não se trata de dores sem sentido, mas uma alavanca misteriosa de felicidade, um alicerce de eternidade.
(...) Não existe, para quem tem fé em Cristo, uma dor fechada em si mesma, no seu horror: pelo contrário, cada sofrimento vem acompanhado de uma felicidade, que se lhe segue e que é sempre mais plena, mais feliz do que a felicidade anterior.

Outra perplexidade colocada pelo cristianismo é a de ele supor que cada pessoa existe em fusão absoluta com todas as outras pessoas. Ao dizer «Ama o teu próximo como a ti mesmo», Cristo não estava a enunciar simplesmente um princípio de bondade, de solidariedade humana. Estava sim a afirmar algo de muito mais profundo: cada homem vive embebido nos outros homens. A realidade de que, em nós, devem caber todos os seres humanos é das mais difíceis de compreender na vida cristã.

Para Jesus cada pessoa existe para se dar, para se entregar, e não para realizar as suas ambições: esta é uma das convicções que também afasta os cristãos do pensamento habitual.
A ideia cristã é a de que nós nos percamos naquilo que fazemos. As pessoas que se centram em si próprias e nada de si dão aos outros não se obtêm a si mesmas, enquanto aqueles que a tudo e a todos se entregam acabam por, paradoxalmente, se conquistarem a si próprios.

Mais uma vez um princípio cristão estranho, surpreendente, acaba por se ver confirmado pela vivência concreta. Se queres saber quem és, entrega-te ao mundo e aos outros. Nesse caminho de perda de ti, contigo te encontrarás. Assim, se queres possuir uma coisa, terás de a dar.
Mas não é fácil aprender este caminho de dádiva: os primeiros passos doem, como se fossem dados contra a nossa natureza. Contudo, pouco a pouco, a nossa alma aprende a respirar a brisa encantadora da generosidade. E nada há que nós tenhamos dado que não nos seja devolvido por Deus em alegria, em plenitude, em profunda posse de tudo. Enquanto não nos dermos seremos um presente por abrir.

Gabriel Magalhães
In Espelho meu, ed. Paulinas
publicado por SNPC

sábado, 15 de dezembro de 2012

Até que a morte nos separe

Um filme a não perder, que certamente não deixará ninguém indiferente. Passo a publicar a crítica de Margarida Ataíde.

"Amor": incómodo e imensamente belo


Três anos após conquistar uma vasta gama de prémios pelo seu “O Laço Branco”, profunda e perturbante meditação sobre a condição humana, Michael Haneke voltou a arrebatar a mente e o coração de júris, crítica e público com o seu mais recente filme: "Amor".

Georges e Anne Laurent, casal octogenário, vivem confortavelmente a sua reforma na cidade de Paris, na sequência de uma vida dedicada à música. O carinho que nutrem um pelo outro é notório. Um dia, são surpreendidos pela doença de Anne. Um grave problema de natureza vascular, evidenciado por um súbito estado de ausência, limitará, num brevíssimo espaço de tempo, a sua mobilidade. Primeiro confinada a uma cadeira de rodas e mais tarde a uma cama, o estado de Anne agrava-se de dia para dia.

Ao longo deste processo Georges não hesita em assumir, com recurso mínimo à ajuda de terceiros, os cuidados necessários a Anne, sejam de ordem física ou afetiva. Indiferente à sua própria debilidade física e relegando para segundo plano a dor provocada pela degradação humana da mulher da sua vida, é o amor que prevalece, a cada dia, ante a perspetiva de uma morte anunciada...

Com a questão da doença e da morte em solidão a afligir uma envelhecida Europa em tempos de crise e de dúvida, entre tantos outros problemas que apelam à reflexão e à ‘inflexão’ urgente de modelo social e afetivo, “Amor” é uma muito pertinente meditação sobre nós. Todos nós.

Magnificamente interpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, os dois atores que em tempos atraíram uma geração às salas de cinema pela sua sedutora vitalidade física e emocional, emprestam os mesmíssimos dons artísticos à encarnação de duas personagens no final das suas vidas.

Incómodo e imensamente belo, eis um filme que trata, de modo igualmente notável e delicado, a questão do amor e da morte, em intimíssima relação e definindo claramente o que na nossa natureza prevalece.

Mais uma meditação que Haneke séria e generosamente nos entrega, em que as soluções dificilmente podem ser consideradas ou debatidas sem se olhar aos caminhos que a umas ou outras conduzam...

Margarida Ataíde

Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Agência Ecclesia / SNPC
06.12.12

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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