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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lucian Freud

Morreu um grande homem das artes, foi um marco na pintura do século XX. Chama-se Lucian Freud. A ele presto a minha homenagem e fico-lhe grato pelo contributo que deu ao mundo.

Ler aqui e aqui um artigo sobre a sua vida, obra e morte.

Ver trabalho de Lucian Freud no Porto

Uma das mais famosas pinturas de Lucian Freud, que morreu quarta-feira em Londres, está patente no Espaço Fundação EDP Porto até 23 de outubro, integrada na exposição «My Choice - Obras Selecionadas por Paula Rego na Colecção British Council».

Para conhecer melhor o trabalho de Lucian Freud, pode visitar algumas das suas obras aqui.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A caridade cristã é para todos os seres humanos: mais um retrato de um perito do Vaticano II

Jean Daniélou: Um regresso às fontes
No ano de 1967 dizia Jean Daniélou em “Evangelho e Mundo Moderno”, ao falar do amor, que «a caridade cristã abrange todo o homem, mas precisamente porque o abrange totalmente, vê-o à luz do que lhe dá a plenitude, a sua vocação de eternidade». O padre Daniélou sabia do que falava, pois sendo filho de um anticlerical podia entrever de perto no que poderia consistir a ausência desta vocação para o eterno. Seu pai, Charles Daniélou fora deputado e ministro da 3.ª República francesa. Sua mãe, Madeleine Daniélou, era uma mulher cristã que fundou o Instituto de Santa Maria e uma universidade feminina gratuita. 

Jean Daniélou nasceu no dia 14 de maio de 1905 em Neuilly-sur-Seine, França. Realizou os seus estudos primários e secundários na sua cidade natal, para os continuar na Sorbonne onde termina a licenciatura em Letras e faz a agregação em Gramática no ano de 1927, tornando-se professor associado da mesma disciplina. E no ano de 1929 entra na Companhia de Jesus em Laval, onde fará os seus votos a 21 de novembro de 1931.

Após os estudos de teologia na Universidade Católica de Lyon, é ordenado sacerdote a 24 de agosto de 1938 e no ano de 1941, em plena 2.ª Guerra Mundial, volta a Paris para dar início ao seu doutoramento no Instituto Católico da capital francesa.

Durante este tempo é simultaneamente capelão do Grupo Católico de Letras e da Escola Superior Feminina de Sèvres. No ano de 1942 publica um pequeno livro intitulado “Le Signe du Temple ou de la Présence de Dieu”. Dado que o seu interesse intelectual e académico versava sobre os Padres da Igreja, Daniélou dá início em 1941, com o padre Henri de Lubac, à coleção “Sources chrétiennes”, cujo primeiro volume foi “La vie de Moïs”, de São Gregório de Nissa, publicado em 1943. Em 1944 termina o seu doutoramento com uma tese sobre a espiritualidade daquele santo, tornando-se nesse mesmo ano professor de História das Origens do Cristianismo, no Instituto Católico de Paris.

Em 1961 o padre Daniélou torna-se decano da Faculdade de Teologia daquele Instituto e no ano seguinte, quando tem início o 2.º Concílio Ecuménico do Vaticano, é chamado a participar como “perito”, tendo trabalhado no documento “Gaudium et Spes”, sobre a relação da Igreja no mundo. Quatro anos após terminar o Concílio é ordenado bispo em Paris, no dia 21 de abril de 1969, sendo nomeado cardeal pelo Papa Paulo VI sete dias depois da ordenação episcopal. No ano de 1972, a 9 de novembro, o cardeal Daniélou é eleito membro da Academia Francesa, tendo sido oficialmente recebido na mesma no dia 22 de novembro de 1973, um ano antes da sua morte.

O cardeal Daniélou foi autor de numerosas obras no campo da História da Igreja no que diz respeito às suas fontes (“Origéne” [1948]; “Histoire des doctrines chrétiennes avant Nicée” em 3 volumes [1958]; “Les origines du christianisme latin”; “L’être et le temps chez Grégoire de Nysse” [1970]), contribuindo assim para um regresso às fontes histórico-patrísticas do cristianismo, do qual ainda hoje somos devedores e beneficiários, pelas preciosas e rigorosas edições das “Sources chrétiennes”.

Por L. Oliveira Marques in SNPC

segunda-feira, 21 de março de 2011

O poema: abraço à impureza do mundo

O poema

Simone Weil lamentava que se considerasse a estética como um estudo especial, uma recôndita disciplina universitária, pois «a estética é aquilo que nos torna o espaço e o tempo sensíveis». Sophia de Mello Breyner escreve: «Dizer que a obra de arte, que o poema faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. O poema, a obra de arte faz parte do real». De facto, a beleza não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o Ser e a Beleza se pudessem, de alguma maneira, separar. Aquilo que o poema ensina é que a beleza é uma metafísica concreta, um ponto de união entre o  invisível e o visível,  encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, o poema restaura a inevitabilidade da experiência. 

Procurar uma sílaba: poder-se-ia descrever assim a sua demanda. Enfrentar o máximo no mínimo, no insignificante, no inútil,  no ínfimo, no reduzido, no simples fragmento, na pequena dobra, no pormenor. Enfrentar o absoluto no débil e relativo, a imensidão no côvado minúsculo do que diariamente, do que obscuramente divisamos. Isso que nos esforçamos por esquecer, porque a nossa vida estremeceria se em vez dos discursos que nos saem tão fluidos ou temos à mão para explicar tudo, para nos justificar a nós próprios, tivéssemos que passar pelo embaraço de procurar as sílabas, de habitar o silêncio, a infatigável atenção, a longa e áspera noite do não-saber com seus corredores desertos e alagados, como quem espera a salvação. 

Se a filologia ensina alguma coisa sobre os processos humanos, podemos então concluir que o poema é, antes de tudo, uma forma de ação. A existência é feita de ações: lavar o rosto, preparar os alimentos, declarar um amor, cumprir um rito de tristeza, levantar a mão num aceno quase impercetível. De todas as ações que compõem a vida, umas são exteriores, outras interiores. Umas são passadas, outras ainda chegarão. Mas nenhuma destas divisões é muito rígida. Porque, simplesmente, há coisas que não passam. E há acontecimentos exteriores que se gravam em nós, nunca saberemos bem de que maneira, como o nosso segredo mais íntimo. O poema é uma ação humana, entre outras. Só isso. Que sabedoria a daqueles poetas chineses para quem a arte dos versos não se sobrepunha à arte de varrer o pátio da sua casa.

O poema só pode ser um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira), publicado por SNPC

quarta-feira, 16 de março de 2011

Um teólogo do Ecumenismo

Yves Congar: entre a paciência e a esperança
Embora se considerasse um homem impaciente, Yves Marie Joseph Congar afirmou: «As pessoas que têm muita pressa, que desejam compreender o objeto dos seus desejos imediatamente, são incapazes de o fazer. O semeador paciente, que confia a sua semente à terra e ao sol, é também o homem de esperança. Coventry Patmore disse também que o homem que espera que as coisas se revelem em si mesmas, demonstra ter a coragem de não negar na escuridão o que viu na luz».

O teólogo dominicano nasceu a 8 de abril de 1904 em Sedan, França. Durante a Primeira Guerra Mundial a sua casa é ocupada pelos alemães e o jovem Congar escreve vários diários sobre a longa permanência germânica.

Durante os anos 20, após o armistício, passa três anos num convento carmelita, onde encontra a filosofia tomista veiculada pela leitura das obras do filósofo católico Jacques Maritain e de Lagrange. Mais tarde sente-se atraído pela vida beneditina, o que o leva a passar algum tempo com esta congregação. Em 1925, nova mudança: entra no noviciado dos frades dominicanos em Amiens, de onde não voltaria a sair.
Terminado o noviciado, segue os seus estudos teológicos no Seminário de Le Saulchoir in Etiolles, perto de Paris, onde se fazia sentir a preponderância dada à teologia histórica e onde tem como professor Marie-Dominique Chenu.

Sente-se chamado a trabalhar na causa ecuménica. Após a ordenação sacerdotal, em 1930, escolhe como tema da sua tese “A Unidade da Igreja”, pela qual haveria sempre de se bater.
Enquanto docente no Seminário de Le Saulchoir toma contacto com o teólogo protestante Karl Barth, de quem se torna amigo. Na primavera de 1932 conhece D. Lambert Beauduin, que a pedido do Papa Pio XI havia fundado um mosteiro de monges de rito oriental e ocidental. Ainda em 1932 conhece o Abbé Courtier, que foi o preponente da oração universal pela unidade dos cristãos. Desta amizade nasce o convite feito em 1936 a Congar para realizar um conjunto de sermões no primeiro Oitavário pela Unidade dos Cristãos, na histórica paróquia do Sacré Coeur, em Paris. Estas pregações estiveram na origem, em 1937, do seu livro “Cristianismo dividido: um estudo católico sobre o problema da reunião”. O livro chamou a atenção da autoridade eclesial. As suas intervenções sobre a unidade do cristianismo tornam-se um aspeto importante na sua vida e no seu ministério.

Em 1939, início da 2.ª Guerra Mundial, foi chamado para o exército francês, como capelão. De 1940 a 1945 foi feito prisioneiro de guerra pelos alemães em Colditz.

Após o conflito, Congar continuou a ensinar e a escrever, tornando-se um dos mais influentes teólogos católicos em matéria de eclesiologia e ecumenismo, influenciando inclusive o pensamento de Karol Wojtyla, futuro papa João Paulo II.

Em 1947 vê recusado o pedido de publicar um artigo que lhe fora encomendado pelo Conselho Mundial da Igrejas. E durante o pontificado de Pio XII é proibido de ensinar e publicar. Em obediência, retira-se no ano de 1954 para Jerusalém.

Após a eleição do cardeal Roncalli para papa (João XXIII) dá-se a convocação do 2.º Concílio Ecuménico do Vaticano. O padre Congar foi, em 1960, consultado para as comissões de preparação. Tomou parte do Concílio (1962-1965) como perito. Ao que parece é notória a sua influência em muitos dos documentos finais.

Viria a ser ‘feito’ cardeal pelo papa João Paulo II, no ano de 1994, mas por impossibilidade de saúde não pôde tomar parte no consistório.

Yves Congar morreria a 22 de junho de 1995, com 89 anos de idade. A sua vida foi como a do sementeiro paciente que soube aliar à paciência e à cruz a virtude da esperança: «A cruz é a condição de toda a obra sagrada. Deus está no trabalho, que nos parece uma cruz. Apenas por seu intermédio as nossas vidas adquirem uma certa autenticidade e profundidade… Só quando um homem sofreu pelas suas convicções é que ele reconhece nelas uma certa força, uma certa qualidade do inegável, e ao mesmo tempo, o direito de ser ouvido e respeitado».

L. Oliveira Marques
in SNPC

terça-feira, 15 de março de 2011

Um teólogo do Vaticano II

Bernard Häring
Bernard Häring foi o 11.º de 12 irmãos. O seu pai abandonou os estudos para ir trabalhar para o campo, trabalhando na herdade da esposa.
Quando confrontado com a pergunta sobre o papel que a fé desempenhava em sua casa, respondeu: «Como o ar que se respira. Crescemos escutando os nossos pais a rezar. A minha mãe pela manhã e pela noite dava-nos a sua bênção convidando-nos a fazer o sinal da cruz. Nas longas noites de inverno, passadas na companhia de muitos amigos que frequentemente ficavam em nossa casa, ela lia uma página da Sagrada Escritura, convidando-nos depois a todos a uma oração comum».
De seus pais guardava uma memória feliz, pois estes, segundo diz o próprio padre Häring, educaram todos os filhos na virtude do altruísmo.

Häring nasceu a 10 de novembro de 1912 em Württemberg, Alemanha. Com doze anos entra no seminário, pois desejava ser missionário, como os jesuítas Francisco Xavier e Mateus Ricci. A sua decisão vocacional concretiza-se em 1933 e, apesar da sua sedução pela Companhia de Jesus, entra nos Redentoristas, onde tinha estudado. Nesse tempo manifestou ao superior que gostaria de ser missionário no Brasil. Os seus caminhos, contudo, haveriam de ser outros.

Entra na congregação de Santo Afonso Maria de Ligório, em Gars am Inn, perto de Munique, três meses depois de Hitler subir ao poder. Quando iniciou os estudos de Teologia, sentia-se inclinado para a Filosofia, mas gostava também de História da Igreja e de Sagrada Escritura. Todavia, o seu provincial comunicou-lhe que os professores achavam que devia estudar Moral. Aceitou por obediência, como confessará, mas acaba por se apaixonar por aquela disciplina depois de ler a obra do teólogo Tilmann.

Foi ordenado padre no dia 7 de maio de 1939, no ano em que teve início a 2.ª Guerra Mundial, com a invasão da Polónia pela Alemanha nazi. Em setembro desse ano o jovem padre alistou-se no exército, onde serviu conjuntamente com estudantes de medicina, sacerdotes e estudantes de teologia numa secção sanitária, primeiro na Polónia, depois na França e ainda na Rússia. É aqui que participa na batalha de Leninegrado, que o marcará para sempre. Mais tarde reconhece que este confronto, assim como a própria experiência da guerra, contribuíram para o nascimento da sua obra fundamental – “A Lei de Cristo”.

Em 1945, após o fim da guerra, regressa à Alemanha, mas agora para Estugarda. Continuava a querer ser missionário no estrangeiro. Mas o superior da congregação recomenda que volte a estudar e faça o doutoramento, que conclui em 1947.

Obtido este grau académico, começa a lecionar no Seminário de Gars. Dois anos depois o novo provincial pretende abrir nova universidade em Roma, a futura Academia Alfonsiana, dedicada à Teologia Moral, destinada a formar os religiosos redentoristas e depois aberta a todos. Em 1948 é enviado para Roma por um semestre para conhecer a realidade da cidade e ajudar na edificação do projeto. A instituição abriu em 1957 e o padre Häring permaneceu nela 30 anos desde a inauguração, ou seja, até 1987.

Com Congar, Chenu, de Lubac e Rahner, é chamado a participar no Concílio Vaticano II (1962-1965), primeiro na comissão preparatória e, mais tarde, como perito. Foi secretário na sub-comissão encarregue de elaborar o documento que viria a ser intitulado ‘Gaudium Et Spes’, a constituição sobre a presença da Igreja no mundo. Neste tempo conhece o cardeal Karol Wojtyla, futuro Papa João Paulo II, que integra a comissão em 1964.

Häring escreveu mais de 80 livros, entre os quais se destaca “Livres e fiéis em Cristo” (1979), em três volumes, e mais de mil artigos. Morreu a 2 de julho de 1998 em Gars, Alemanha, onde regressou após a docência em Roma.

Por L. Oliveira Marques, in SNPC

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um elogio à sombra ou documentário sobre Lourdes de Castro

nota: esta fotografia não corresponde ao documentário
Na próxima quarta-feira, dia 16 de Março, na Capela do Rato em Lisboa. Recordo ainda que uma obra desta artista está exposta no altar da mesma capela.




"Pelas sombras" abre ciclo de cinema e espiritualidade
A Capela do Rato, em Lisboa, vai projetar o documentário "Pelas sombras", de Catarina Mourão, na próxima quarta-feira, 16 de março, pelas 21h00.

O filme é o primeiro do Ciclo de Cinema e Espiritualidade, a decorrer mensalmente naquele espaço, numa iniciativa do Departamento de Cinema da Universidade Lusófona e da Secção de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

O filme da jovem realizadora Catarina Mourão, que estará presente na sessão, documenta a inspiradora vida e obra de Lourdes Castro, numa tocante homenagem à luz e transparência da artista madeirense.

Escolha do júri "Signis" (Igreja católica) para atribuição do Prémio Árvore da Vida na edição de 2010 do Indielisboa, o filme e a sua passagem pela Capela do Rato cumprem o que, nas palavras do diretor do SNPC, padre Tolentino Mendonça, é “o cinema como lugar teológico, também lugar sacramental, pois está a ver o mais profundo do coração humano”.

A sessão constitui também um convite à reflexão e aprofundamento das relações entre cinema e Igreja, através de um debate que conta com a presença de Inês Gil, professora de Cinema e Fotografia da Universidade Lusófona, Paulo Pires do Vale, professor de Filosofia da Universidade Católica e padre Tolentino Mendonça.

Margarida Ataíde / in SNPC

sábado, 12 de março de 2011

Um filósofo católico do século XX

Maurice Blondel: o pensamento da ação
Diz-se que o seu pensamento filosófico influenciou a teologia contemporânea, bem como o próprio Concílio Vaticano II (1962-1965), uma vez que focou a relação entre a história e a verdade, entre o homem e a graça por meio de uma inclusão originária na qual o verdadeiro real é o sobrenatural, isto é, a comunicação com Deus. O ‘filósofo da ação’ como é muitas vezes designado Maurice Blondel foi sem dúvida um filósofo eminente do seu tempo, influenciando teólogos católicos como Maréchal, Lubac, Rahner.

O ano de 1861 via nascer no dia 2 de novembro um dos maiores filósofos católicos do século XX. Filho de uma família de sólida tradição católica, Maurice Blondel, estudou no liceu da sua terra natal, onde começou a desenvolver a sua vocação filosófica, que continuará na universidade, onde toma contacto com os clássicos do pensamento filosófico, mas também com o espiritualismo francês e com a filosofia de Kant. Contacta com a obra de Maine de Biran e com o pensamento de Leibniz. Da aproximação a este nasce a ideia para uma tese de licenciatura. Em 1881, aos vinte anos, Blondel entra para a Escola Normal Superior de Paris.
Em 1883, um ano depois de casar com Rose Royer, da qual teve três filhos, Blondel defende a sua tese na Sorbonnem intitulada “A Ação. Ensaio de uma crítica da vida e de uma ciência prática”.

Nesta obra, o autor desenvolve uma ‘filosofia da ação’, uma vez que a condução dos espíritos à verdade do catolicismo passava por uma argumentação em torno do caráter decisivo da ação, porque é na ação que se decide a resolução do problema da vida. Blondel desenvolverá uma fenomenologia da ação, no sentido do agir moral como sendo intrinsecamente religioso, pois na vida é necessário optar, sendo que esta opção é essencialmente religiosa.

Todavia a sua tese não teve grande aceitação da parte do júri por ser considerada pouco filosófica, pois faz uma apologia da prática religiosa de onde parte. Fica-lhe mesmo vedado o acesso a uma cátedra de Filosofia em Aix-en-Provence, a qual lhe será dada em 1897, após ter sido “Maître de Conférences”.

Não obstante a crítica, o trabalho foi acolhido pelo público e muito criticado, nomeadamente pelos pensadores católicos da época. Embora tenha sido reimpressa três vezes, Blondel proíbe a sua reimpressão, em 1915, por a considerar uma obra imperfeita e uma filosofia incompleta.

O filósofo francês procede à sua revisão - que nunca concluirá – articulando-a numa primeira trilogia composta pelos dois volumes de “La Pensée” (1934), por “L’Être et les êtres” (1935) e pelos dois volumes de “L’Action” (1936-1937). Segue-se uma segunda trilogia intitulada “La Philosphie et l’Esprit chrétien”, da qual apenas são publicados dois volume em 1944 e 1946.

Os críticos, tanto filósofos como teólogos, parecem não se entender sobre esta reelaboração de Blondel. Contudo, é inegável a contribuição do filósofo cristão da ação, para o pensamento filosófico e teológico do século XX. Maurice Blondel morre no dia 4 junho de 1949 em Aix-en-Provence.

por Luís Oliveira Marques
In SNPC

sábado, 5 de março de 2011

Rufus Wainwright: vida e obra

Rufus McGarrigle Wainwright nasceu em Nova Iorque a 22 de Julho de 1973. É um cantor e compositor canadiano/norte-americano. Desde 1998, Rufus Wainwright gravou cinco álbuns de canções originais, alguns EPs e várias canções que fizeram parte da banda-sonora de filmes conhecidos.


Infância e Adolescência

Rufus Wainwright nasceu em Rhinebeck, Nova Iorque, e é filho dos cantores e músicos folk Loudon Wainwright III e Kate McGarrigle, que se divorciaram quando ele era criança. Rufus começou a tocar piano aos seis anos de idade, e aos 13 já fazia tournés com a sua irmã Martha Wainwright (também cantora e compositora). (...). Rufuz viveu em Montreal com a sua mãe a maior parte da infância, e frequentou a McGill University, onde estudou piano clássico e moderno. Algumas de suas canções foram escritas em Francês. Wainwright ainda mantém residência no Canadá.


Assumiu a sua homossexualidade ainda adolescente. No dia 11 de Novembro de 1999 na revista Rolling Stone, Rufus afirmou que o seu pai sabia da sua homossexualidade. "Nós estávamos no carro, e começou a tocar 'Heart of Glass', e balbuciei a letra da música, fingindo ser a Blondie. Isso foi só um sinal para outras coisas que estavam por vir".[1] Ruz afirmou mais tarde: "A minha mãe e meu pai nunca souberam lidar com o facto de eu ser gay. Nunca falámos abertamente sobre isso".[2]

Ruz começou a interessar-se por ópera durante a sua adolescência. Várias das suas músicas são inspiradas na música erudita, por exemplo, a canção Barcelona tem partes da composição de Giuseppe Verdi. Também se tormou um fã de intérpretes como Edith Piaf, Al Jolson e Judy Garland.

Aos 14 anos, Rufus foi violado no Hyde Park, em Londres depois de ser levado de um bar por um homem.[2] O cantor ficou celibatário durante os sete anos que se seguiram ao incidente. Mais tarde falou sobre essa noite numa entrevista: "Eu disse que gostaria de ir ao parque e ver como estava a correr o grande espectáculo que estava a acontecer naquele momento. Achei que seria uma caminhada romântica num parque, mas ele violou-me e roubou-me e, depois, ainda me tentou estrangular".[3] Rufus afirmou que só sobreviveu porque fingiu ser epilético simulando um ataque.[4]

Ascensão à fama

Após tornar-se numa atracção regular em Montreal - tocando no Cafe Sarajevo todas as semanas - Rufus gravou uma série de demos, que foram produzidas por Pierre Marchand (que também produziu "Poses"). As fitas acabaram nas mãos do executivo da DreamWorks, Lenny Waronker, e a marca assinou contrato com ele. Rufus mudou-se para Nova Iorque na primavera de 1996 e começou a tocar no clube Fez para conquistar público. Depois mudou-se para Los Angeles no outono de 1996 para gravar o seu primeiro álbum com o produtor Jon Brion. Lançou então o álbum auto-intitulado Rufus Wainwright na primavera de 1998; a editora recebeu uma série de críticas aclamando-o, e foi reconhecido pela Rolling Stone magazine como um dos melhores álbuns do ano.


Foi igualmente nomeado pela Rolling Stone magazine como “melhor novo artista" do ano. Wainwright saiu em tournée com Sean Lennon no verão de 1998, e no mesmo ano saiu na sua própria digressão. Em dezembro de 1998, apareceu num anúncio da Gap tocando piano e cantando "What Are You Doing New Year's Eve?". A promoção trouxe mais atenção para sua carreira, e aumentou drasticamente as vendas do seu álbum. No dia 1º de Março de 1999 em Hoboken, Nova Jersey, no Maxwell's, Rufus começou uma digressão até meados de Maio. No verão de 1999 fez uma pausa para descansar e compor. Viveu no Chelsea Hotel em Nova Iorque durante seis meses, e nesse tempo escreveu a maioria das canções do seu próximo álbum. A 5 de Junho de 2001, Poses, o segundo álbum de Rufus, foi lançado trazendo uma quantidade de aclamações comparável ao seu primeiro álbum, apesar de Rufus não tenha ficado satisfeito com as vendas.

De 2001 a 2004, ele fez uma tournée com Tori Amos, Sting, Ben Folds, e Guster, e fez uma digressão a solo entre 2001 e 2002 para lançar o "Poses". Rufus também toca com sua irmã, Martha Wainwright.

Apesar de um crescente grupo de fãs e da grande aclamação da crítica, Ruz alcançou somente um pequeno sucesso comercial.

Vício
 
No início de 2000, Rufus viciou-se em metanfetamina. Durante algum tempo ficou temporariamente cego pelo uso da droga. Em 2002, o seu vício alcançou o ponto máximo. Aí decidiu que "ou ia para uma clínica de reabilitação ou ia viver com meu pai. Eu sabia que precisava de um idiota para gritar comigo, e senti que esse papel era dele".[5]


Nesse período, Rufus percebeu que precisava de algum tipo de orientação na sua vida, então ligou para o seu amigo Elton John, que o convenceu a entrar no centro de reabilitação Hazelden Foundation em Minnesota. Fez a desintoxicação e terapia. Não há confirmação acerca da sua sobriedade.

Discografia

Rufus Wainwright

Data de lançamento: 19 de Maio de 1998

Poses
Data de lançamento: 5 de Junho de 2001

Want One
Data de lançamento: 23 de Setembro de 2003

Want Two
Data de lançamento: 16 de Novembro de 2004

Release the Stars
Data de lançamento: 15 de Maio de 2007

Rufus Does Judy at Carnegie Hall
Data de lançamento: 4 de Dezembro de 2007

Milwaukee at Last!!!
Data de lançamento: 22 de Setembro de 2009

All Days Are Nights: Songs For Lulu!!!
Data de lançamento: 5 de Abril de 2010

Outras gravações
Waiting for a Want (EP; 2004, DreamWorks)
Alright, Already: Live in Montréal (EP; 2005, DreamWorks/Geffen)
All I Want (DVD; 2005)
Want (2005, DreamWorks/Geffen) — relançamento de Want One e Want Two como um só álbum, com duas faixas extras.

Singles
"I Don't Know What It Is" (2004, UK)
"Crumb by Crumb" (2005, UK)
"Hallelujah" (2007, UK)
"Going to a Town" (2007, UK)

Curiosidades
 
Escreveu a música "Tulsa" do seu quinto álbum Release the Stars sobre Brandon Flowers, vocalista da banda The Killers, que conheceu num bar em 2005. Rufus encontrou-o novamente em 2007 no Glastonbury e disse que Brandon ficou muito lisonjeado e um pouco tímido com a homenagem.

A canção "Tudo Se Perdeu" do álbum SóNós de Paula Toller é uma versão em português de "Vicious World" do álbum Want One (2004). De acordo com o jornal O Globo, Wainwright "aprovou a letra em português e partilhou os direitos com Paula". [6]

Rufus participou no dvd Strangers, da banda britânica Keane, cujo vocalista é Tom Chaplin.
[1] "rants & raves - Brief Article", in Advocate, a 7 de Dezembro de 1999.
[2] WAINWRIGHT FEARED BEING HIV POSITIVE AFTER RAPE In www.contactmusic.com
[3] "Rufus Wainwrights Rape Tragedy", in Female First, a 1 de Março de 2005
[4] Goldstein, Richard. "A Torch Song Named Desire", in Village Voice LLC, a 25 de Agosto de 1999 - artigo interessante
[5] "Crystal clear", in Guardian - Observer Music Monthly, a 20 de Fevereiro de 2005, uma entrevista com Tim Adams
[6] Globo.com

Adaptado a partir de Wikipedia
Ler mais no site oficial

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poesia em tempos de penúria

Richard Vizcarra
Li um artigo que desvenda um nome na penumbra e na penúria do tempo que vivemos. Pela sua extensão não o inclui em mensagem: limito-me a citar um poema de Adília Lopes e dar o link desse mesmo texto. Vale a pena descobri-la!

«Para que servem poetas
em tempos de penúria?
Para que servem poetas?
Para que servem
tempos de penúria?
Para que servem?
Para que servis?
Para que servem servos?»

Adília Lopes

Ler artigo inteiramente dedicado à obra de Adília Lopes: As armas desarmantes de Adília Lopes

terça-feira, 1 de março de 2011

O Louvor é o motor da Poesia

Foto: AP
Paul Claudel: a poética de Deus
Vida e obra


Sobre a inspiração poética disse Paul Claudel: «o talento poético, a inspiração poética, é como a profecia, uma graça». Para este poeta, diplomata e dramaturgo do século XX, o grande motor da poesia, dado pela religião a par com o «significado» e a «dramática», é o «louvor», uma vez que ele representa a «mais profunda necessidade da alma, a voz da alegria e da vida».

Nascido em França a 6 de julho de 1868 em Villeneuve-sur-Fère, numa família de agricultores e funcionários do governo, o pai de Paul Claudel, Louis-Prosper, dedicava-se a hipotecas e transações bancárias. Enquanto que a sua mãe, Louise Cerceaux trabalhava na agricultura, pois era oriunda de uma família católica de agricultores de Champagne, existindo até sacerdotes católicos na família. Paul Louis Charles Marie Claudel seria batizado no dia 11 de outubro de 1868. Todavia, os pais de Claudel, segundo o testemunho do próprio, eram indiferentes em matéria religiosa.

Claudel passou os primeiros anos da sua vida em Champagne, onde morava. A princípio foi instruído por um professor particular, tendo passado depois para o liceu de Bar-le-Duc e para o liceu Louis-le-Grande em 1881, quando os seus pais se mudaram para a Paris. É na escola da “Cidade das Luzes” que perde a fé, pois considerava-se um naturalista, um monista e um materialista influenciado pelos pensadores da época, inclusive pela leitura da “Vida de Jesus” de Renan. O sofrimento e a morte do avô, que sofria de cancro, serão vividos pelo jovem Paul com dramatismo e angústia, ganhando pavor da morte.

O «primeiro brilho da verdade», como dirá, veio-lhe da leitura de um grande poeta de época de seu nome Artur Rimbaud, nomeadamente, a leitura de dois textos:“Illuminations” e “Une saison en Enfer”.

Aos 18 anos, angustiado e desesperado, a 25 de dezembro de 1886, entra na catedral de Notre-Dame de Paris, onde toma parte na missa cantada, com moderada alegria. Voltando à sé ao final da tarde para as Vésperas de Natal, entra quando começa o cântico evangélico do ‘Magnificat’, cantado por meninos do coro e jovens seminaristas. E nesse momento dá-se uma conversão súbita e «fulminante». Dirá Paul Claudel no ano de 1913 em “A Minha Conversão”: «Ali se deu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num momento, o meu coração sentiu-se tocado, e tive fé (…) não ficava margem para nenhuma espécie de dúvida».

A verdade é que aconteceu na vida deste “poeta de Deus e do homem” aquela experiência dramática, de significado e de louvor que parece conter a poética de Deus e que ele próprio tão bem soube expressar.

Paul Claudel estudará em Paris, no Instituto de Estudos Políticos, embora tenha pensado entrar para os Beneditinos. Em 1893 começa a sua carreira diplomática, que continua até 1936.

A 15 de março de 1906 casa-se com Reine Sainte-Marie Perrin. Depois de ser cônsul em vários pontos do globo, Claudel terminará a sua carreira em Bruxelas. Durante o tempo da magistratura diplomática, revela-se um grande dramaturgo e poeta cristão. Assim, utilizou o cristianismo, na sua confissão católica, como base do seu pensamento e da sua escrita poética e dramática.

A tetralogia “Le Soulier de Satin” (composta entre 1914 e 1924 e estreada em 1943) é uma obra de arte que integra texto, música e dança. Na peça “L´Échange”(1910), Claudel problematiza pela primeira vez o conflito de uma mulher que se debate entre amor e casamento.

Além de romances, peças teatrais e ensaios, compôs também poemas que foram buscar inspiração à poesia bíblica. Em 1946 foi escolhido como membro da Academia Francesa. Morre a 23 de fevereiro de 1955, deixando uma obra de prosa, poética e dramática enorme, cuja influência depressa se fez sentir.

L. Oliveira Marques
In SNPC

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As sombras e a luz na vida de um artista: transcendência, quotidiano, sexualidade, fuga, liberdade e doença


São João Baptista

Caravaggio, 400 anos: balanço e perspetiva


2010 ficou marcado pela celebração do centenário da morte de um dos artistas que mais marcou a arte europeia. Depois da sua virtual redescoberta, nos anos de 1950, através da grande exposição organizada por Roberto Longhi em Milão, pode dizer-se que Caravaggio tem vindo a crescer em celebridade. A sua vida aventurosa acresce ao fascínio da sua arte. Envolta em mistérios, prestou-se a filmes de sucesso e a livros diversos, onde realidade e especulação se misturam. Talvez nenhuma outra figura artística do passado se tenha transformado tão decididamente num objeto de culto, transcendendo os limites do mundo erudito da arte barroca, para se firmar no turbilhão da cultura de massas, como, antes de si, os seus contemporâneos literários Shakespeare e Cervantes.

Em 1999, uma grande especialista da pintura seiscentista, Helen Langdon dedicou-lhe uma biografia, que se transformou num clássico. No ano anterior, Peter Robb publicou sobre o artista um romance fascinante, solidamente pesquisado e recheado de hipóteses explicativas sedutoras sobre a génese de algumas obras e os enigmas da sua vida. Mistura de erudição e livro de aventuras, rapidamente se transformou num “best-seller”.

Em 2003, um famoso romancista, hoje membro da Academia Francesa, Dominique Fernandez, deu à estampa uma “psicobiografia”do pintor, onde propõe uma inteligente leitura do significado profundo dos principais temas caravaggescos.

Também a historiografia tem vindo a dar resposta a algumas das questões ainda pendentes sobre uma vida cheia de peripécias, vislumbradas a partir de relatórios de polícia e atas de tribunais. Um académico maltês, Keith Sciberras, deslindou finalmente o motivo da queda em desgraça do artista, logo após o seu maior momento de triunfo: a admissão na prestigiosa Ordem de São João de Jerusalém (vulgarmente conhecida por Ordem de Malta). Uma altercação física envolvendo um superior hierárquico ("cavaliere nobilíssimo")levou ao seu encarceramento (e posterior fuga) num dos fortes da ilha de Malta. Numa sociedade rigidamente estratificada e de “ethos”aristocrático, o feitio impetuoso de um pintor plebeu, por muito cavaleiro de graça magistral que fosse, não podia ser tolerado. Resta ainda por confirmar a muito provável intervenção do próprio grão-mestre Alof de Wignacourt, no sentido de facilitar a fuga do artista que o retratara e que se viu forçado a mandar prender e erradicar.

A mais espetacular descoberta do ano ocorreu no verão, quando uma equipa interdisciplinar de uma instituição científica de Ravena, sob a orientação do Prof. Giorgio Gruppioni, pôde identificar os restos mortais do pintor de entre uma pilha de ossos exumados da cripta do cemitério de San Sebastiano de Porto Ercole. Mais exatamente, o crânio, as mandíbulas e o fémur. Aplicada a datação por carbono e outras técnicas forenses, apurou-se que os ossos pertenciam a um indivíduo de cerca de 38 anos e confirmou-se a data de 1610. Recolhido o DNA de membros atuais da família Merisi (longínquos parentes colaterais do pintor), ficou confirmada a identidade. O grau de fiabilidade das conclusões foi estabelecido em 85%.

Morte da Virgem
(Caravaggio não usa o tradicional termo de "dormição")
A análise dos ossos permitiu ainda lançar luz sobre a tão debatida razão da morte do artista. De facto, foi encontrada neles uma dose pouco usual de chumbo, justificada pelo contacto do artista com tintas e pigmentos, mas indiciando fortemente um grau de intoxicação plúmbea, conhecida como saturnismo. Ou seja, terá sido um Caravaggio já muito debilitado internamente que suportou a insolação e o esgotamento naquele julho tórrido de 1610, numa zona infestada de malária. Afastadas ficam, pois, as teorias conspirativas e de assassínio.

Neste mês de julho de 2010, os restos mortais identificados foram transportados para a sua cidade natal de Caravaggio, onde ficaram expostos no município. Regressaram, posteriormente, num veleiro, a Porto Ercole, onde foram levados para o Forte Stella, tendo sido celebrada uma missa, antes do sepultamento definitivo nessa localidade, onde morreu.

Um mês antes, em junho, a polícia alemã localizou em Berlim e apreendeu um dos quadros do mestre, anteriormente roubado do Museu de Odessa. Trata-se de uma das versões da “Captura de Cristo”, durante muito tempo considerada o original, até à descoberta, há duas décadas, da outra versão, hoje exposta em Dublin, na National Gallery of Ireland. A tela, escurecida, jazera largos anos em silêncio numa residência da comunidade jesuíta da capital irlandesa, à qual fora oferecida por uma benfeitora, sem qualquer noção do seu valor. A saga da redescoberta, limpeza e restauro do quadro é narrada por Jonathan Harr, no seu livro “A Obra Prima Desaparecida”, uma crónica que se lê como um verdadeiro romance de aventuras. Trata-se indiscutivelmente da versão original e é um dos quadros mais densos e dramáticos jamais criados por Michelangelo Merisi da Caravaggio, que nele se faz representar, como um criado que ergue uma lanterna para alumiar a cena noturna. Eu próprio tive ocasião de propor uma releitura da obra, à luz deste autorretrato nela inserido, que transforma a cena numa verdadeira alegoria da pintura, no sentido em que a arte “dá a luz”que permite ver a realidade.

Há anos, uma outra redescoberta veio lançar luz sobre a técnica do pintor nos seus anos finais. Foi identificado, numa coleção privada suíça, um “S. João”, como sendo a última tela de Caravaggio, transportada consigo na sua última viagem para Roma, que terminaria fatidicamente num albergue de Porto Ercole. O quadro, presente em algumas das principais exposições dedicadas ao artista nos últimos anos, foi objeto de reconhecimento unânime pela comunidade científica. (...)


Natividade com São Francisco e São Lourenço
 A obra autografa de Caravaggio hoje existente não ultrapassa as cinco ou seis dezenas de quadros. Vários outros, citados pela documentação seiscentista, não chegaram até nós. E, já no século XX, há a lamentar a perda da primeira versão do “S. Mateus e o Anjo”, bem como do retrato de “Fillide”, ambos queimados em Berlim, nos dias derradeiros da II Grande Guerra. Em 1969, de um oratório de Palermo, foi roubada a “Natividade com S. Francisco e S. Lourenço”, que nunca mais apareceu. Os quadros de Berlim são-nos conhecidos por velhas fotografias a preto e branco; da tela siciliana, existem reproduções a cores.

O constante interesse do público pela obra de Caravaggio fez multiplicar, nos últimos anos, o número das exposições a ele consagradas (...).

Neste ano celebratório, centraram-se em Itália, como era de esperar, as principais manifestações em torno do centenário, com particular realce para a grande exposição, que decorreu em Roma, nas “Scuderie”do Quirinal, entre fevereiro e junho. As cavalariças do venerável palácio, que foi dos Papas, dos Reis de Itália e que hoje alberga a Presidência da República Italiana, transformaram-se naquele que é, talvez, o mais espetacular espaço expositivo da capital. Aqui se reuniram 24 obras-primas do artista, quase metade de toda a sua produção remanescente, todas indiscutíveis, em termos de atribuição. Aos tesouros dos museus romanos, milaneses e florentinos, juntaram-se telas vindas de Nova Iorque, S. Petersburgo, Londres, Nancy, Dublin, Messina, Berlim, Viena, Kansas City e Fort Worth. Comissariada por Rossella Vodret e Francesco Buranelli, a exposição completava-se com a proposta de visita dos extraordinários quadros de altar que ornam as igrejas de Sant’Agostino, Santa Maria dei Popolo e San Luigi dei Francesi, todos eles expoentes máximos da produção do artista.

De facto, entre museus e igrejas, concentra-se em Roma cerca de um terço de toda a obra de Caravaggio, inigualável pela qualidade. No último fim de semana da mostra (12/13 de junho), uns e outras mantiveram-se abertos ininterruptamente durante 36 horas, admitindo os últimos milhares de visitantes. Ainda em Roma, em dezembro, no PalazzoVenezia, foi reconstituído o estúdio do artista (“Caravaggio. La Bottega dei Génio”). Prosseguindo as festividades, já este ano, abrirá na primavera, no mesmo museu, uma exposição dedicada ao mestre e aos seus seguidores, organizada em colaboração com o Hermitage de S. Petersburgo. (...)

Um contributo bastante original para este ano de festejos foi a estreia, a 19 de novembro, no festival de cinema de Mar dei Plata, de um filme polémico, “I'm Caravaggio”, de Derek Stonebarger, onde algumas das peripécias da vida do artista são transpostas para a atualidade de um "ghetto" de Las Vegas. (...)

Como se explica este permanente fascínio que continua a prender tão grande número de pessoas? Já em 1986, o filme biográfico de Derek Jarman constituíra um sucesso. As biografias romanceadas de Peter Robb e Dominique Fernandez foram “best-sellers”. As grandes exposições arrastaram largos milhares de visitantes...

Em primeiro lugar, o impacto do realismo brutal das suas figuras, moldadas de luz e sombra, escapando a todas as formas de idealização clássica e saídas do mundo fascinante e violento das ruas e das tabernas, para encarnar santos e anjos, sem, contudo, deixar de dar testemunho da sua própria realidade corpórea. Essa espiritualidade incarnada no quotidiano continua a ser um dos aspetos mais extraordinários da sua arte. As suas figuras são espantosamente modernas e, ao sê-lo, tornam-se intemporais e capazes de dizer algo aos homens do nosso próprio tempo. A mistura de transcendente e quotidiano, patente em tantas das suas telas, tem significado também nesta época sincrética, em busca incessante de valores espirituais, filosóficos, mágicos ou esotéricos, que sejam capazes de transfigurar o mundo material imediato.


detalhe de O martírio de São Mateus
 Em segundo lugar, a “vexata quaestio”da tão debatida sexualidade do artista. Na sua primeira fase, correspondente aos primeiros anos passados em Roma, e sob o alto patrocínio do refinado cardeal Francesco Maria dei Monte, produziu um conjunto de quadros, representando efebos de sexualidade ambígua. Do que sabemos da sua vida, resta a mesma ambi­guidade, que vai da forte relação com duas mulheres, Fillide Melandroni e a prostituta Lena, até ao apego e intimidade com o seu companheiro e discípulo Mário Minniti e outros homens.

Os mistérios da sua vida aventurosa, os anos passados em fuga e, contudo, tão espantosamente produtivos em termos artísticos, o constante papel dos apegos afetivos e da violência na sua vida acrescem ainda ao fascínio do artista.

Michelangelo Merisi é o exemplo acabado do romântico “avant la lettre”, que vive intensamente, produz uma obra artística de altíssimo impacto e valor, para morrer jovem e desamparado, com a liberdade ao alcance da mão, já tão perto e contudo inalcançada.

Na sua complexidade e ambivalência, Caravaggio surge-nos como perfeitamente contemporâneo. Violento e frágil, rebelde e insubmisso, amigo de banqueiros, cardeais, aristocratas, e também de vagabundos e rufias, portador de uma visão nova e única, revolucionário na técnica e na temática, inovador na expressão plástica do quotidiano mais banal e da mais alta espiritualidade, assim nos aparece hoje este homem, cuja arte ultrapassou as barreiras do tempo. Quatro séculos decorridos desde a sua morte, está mais vivo do que nunca na consciência contemporânea, como paradigma prometaico de quem se não resigna às limitações do quotidiano, antes molda o seu próprio destino. Pagou, por isso, um alto preço: fuga, clandestinidade, prisão, banimento, morte trágica às portas de Roma e da liberdade. Pelo caminho, deixou um legado artístico sem par, que hoje ainda continua a maravilhar e a arrastar multidões.

José Alberto Gomes Machado
(Professor catedrático de História da Arte, diretor da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Évora)

In Brotéria 172 (n.º 1/2011)
Publicado por SNPC

Ler no blogue:
http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/quando-beleza-doi.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/parabens-caravaggio.html
Ver no blogue:
http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/caravaggio-em-imagens.html

A nudez na arte: do pudor ao que interessa

Nota: neste artigo de opinião "pornográfica" deveria ser substituída bastantes vezes por "erótica" pois, a meu ver, pornográfico é tudo o que é produzido pela "indústria do sexo" e para consumo de um determinado mercado; "erótico" não é tão restrito, é algo que estimula os sentidos e o desejo, mas que não está vocacionado para o mercado da "indústria pornográfica". Contudo, por lealdade para com a autora do texto, não fiz a substituição de um termo pelo outro, cabendo ao leitor a tarefa de discernimento. 

Caminhos cruzados: a arte, a nudez e a pornografia

Male nude known as Hector, David jacques Louis
O corpo humano causa fascínio e é exaltado como algo naturalmente belo. Instintivamente, a nudez sempre foi e será o meio pelo qual o homem busca uma ligação com o seu próprio ser e com a criação.

O poeta e pintor inglês William Blake afirmou que “a arte jamais poderia existir sem expor a beleza da nudez.” Desde os primórdios dos tempos a nudez pertence à arte, estando presente nos ateliês de artistas clássicos e contemporâneos, assim como está presente em todas as outras vertentes artísticas. O corpo humano é visto como uma obra de arte. E como tal é contemplado. Afinal, é uma notável composição de músculos, uma máquina que reage e funciona à base de emoções. Que sangra, que expressa. Que causa prazer para quem sente e vê, de uma desconcertante (im)perfeição.

Mas antes da admiração, há uma eterna e cansativa discussão acerca do que é arte e do que é pornografia. Discussão errada. Com isto, infelizmente, a retratação da nudez ganhou rótulos, que se tornaram mais importantes do que a própria arte.

O rapto das Sabinas, Rubens
Todos sabemos o que é algo pornográfico, não é necessário dizer. A arte pode ser pornográfica, sem dúvida. Mas nem toda a pornografia pode ser arte. É, no entanto, delicado determinar o que é ou não arte. Cada um vê a beleza de modo muito particular. Por isso, coloca-se uma questão mais importante: é boa arte? Por vezes uma mente imatura, ou puritana, execra toda e qualquer manifestação da nudez, sem levar em consideração que não se trata apenas da estética, mas sim do conceito que encarna naquela obra. É preciso ver para além do que se vê. Isso deixa claro que, em determinadas ocasiões, é uma questão puramente de moralismo: ofender-se com uma imagem pornográfica é mais conveniente, desqualificando-a como arte.

É estranho que algumas pessoas se escandalizem com a exposição dos órgãos genitais, alegando que é algo grotesco e que alude puramente a luxúria, mas não se importam em admirar uma imagem sensual. Ora, a simples sensualidade é tão obscena quanto a pornografia, pois revela o que não está, desperta a imaginação, usa a nudez como pano de fundo para uma ideia mais subtil, mas que seduz e convence. Pablo Picasso disse ser “a arte algo perigoso, pois é reveladora”. E não é somente uma arte pornográfica que revela.


Prometheus, Christian Griepenkerl
Então esqueça os rótulos de pornográfico, erótico ou o que o valha. Não é isso o que importa. Independente da maior ou menor exposição do corpo é preciso entender que mais importante é identificar a qualidade artística de um trabalho. Alguns deles não pretendem mesmo ser mais do que apenas o sexo, numa exposição direta. É a libido na sua forma mais crua e explícita, mas nem por isso deixa de ser arte.

A famosa escultura de David – de Michelangelo – é a mais óbvia e explícita exposição do corpo humano. É pornografia ou é arte? A pergunta soa estúpida, não? A questão é que David é uma das mais belas obras a exaltar o corpo humano. É tecnicamente bem feito, é hiper-realista, é inebriante. Uma obra espectacular incontestável do Renascimento que fala connosco por meio da nudez e muito além da nudez. Se for boa arte, o que chamará a atenção não será apenas o corpo exposto mas sim uma série de impressões e conceitos inerentes a ela. É o que acontece com o bom observador.


L'apparition, Daniel Barkley
O escritor britânico Joseph Conrad disse sabiamente que “o autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor”. Creio que tal ideia pode ser aplicada à arte. O observador é uma extensão daquilo que observa, pois é dele a interpretação, independente da intenção do artista. São os conhecimentos e as inferências feitas pelo observador que vão responder à pergunta que realmente deve ser feita: é boa arte?

Adaptação para português (de Portugal) de um texto de Rejane Borges, in Obvious

Ler um texto de opinião sobre o trabalho de Egon Schiele

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quando a beleza dói

 O artista que escolheu gente comum para encarnar personagens da Bíblia

Caravaggio recorria a pessoas comuns das ruas de Roma (e dos outros sítios por onde passou) para retratar Maria e os apóstolos. A sua inspiração estava entre os comerciantes, prostitutas, marinheiros e todo o tipo de pessoas que não eram de nobre estirpe.

A obra de Caravaggio

Grande parte da sua pintura foi de cariz religioso (ou sacro) - a maioria dos seus mecenas foram homens da Igreja que, conhecendo um pouco do mau génio do pintor e da sua conduta de vida, não deixaram que o "julgamento" sobre as suas acções o impedissem de trabalhar para esta instituição.

É impressionante como as personagens que habitam as suas telas emanam a humanidade e a realidade da vida comum das pessoas, e como o artista consegue "construir o sagrado" a partir do "humano", ou seja, como consegue compreender o mistério da Encarnação divina e do amor de Deus pelo homem e pela mulher (o próprio Jesus escolheu rodear-se de pescadores, pecadores, pobres e prostitutas).

O artista levou este princípio estético às últimas consequências, a ponto de ter sido acusado de usar o corpo de uma prostituta apanhada morta no rio Tibre para pintar A Morte da Virgem. Esta foi uma das duas mais importantes características das suas pinturas: retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos, usando o povo comum das ruas de Roma.

Outra característica marcante foi a dimensão e impacto realista que ele deu aos seus quadros, ao usar um fundo sempre raso, obscuro, muitas vezes totalmente negro, e agrupar a cena em primeiro plano com focos intensos de luz sobre os detalhes, geralmente os rostos - uma abordagem quase cénica ou teatral dos acontecimentos representados. Este uso de sombra e luz é marcante nas suas telas e atrai o observador para dentro da cena - como é tão claro em A Ceia em casa de Emmaus. Os efeitos de iluminação que Caravaggio criou receberam um nome específico: tenebrismo.

A nova linguagem

Caravaggio reagiu às convenções do Maneirismo e opôs a elas uma pintura natural, directa, e até mesmo brutal e crua que, pela sua franqueza, renovou até a mera natureza morta (Cesta de frutas - 1596), as cenas profanas (Baco, 1593-1594) e os temas religiosos (Descanso durante fuga para o Egipto, 1594-1596).

No fim do Renascimento, os grandes mestres caminhavam para uma visão mais obscura e realista das escrituras sagradas. Caravaggio pintou versões próprias desses temas - A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco e Crucificação de São Pedro - que ilustram como foi capaz de igualar, e até superar os seus mestres.

A própria vida do artista, entre conflitos e fugas, terá imprimido e inspirado muito do sofrimento representado nas suas obras. Na obra de Caravaggio, a beleza do ser humano é posta à luz nas suas formas, volumes e corpos. E é uma beleza que não se abstém do feio, do vulgar, da dor, do sofrimento, da violência, da velhice, da luta interior, dos vis sentimentos: é uma beleza amassada com a dureza da vida.

Curiosidade:
A 10 de Novembro de 2006, um quadro do pintor, parte da colecção da Rainha Isabel II de Inglaterra, foi autenticado depois de seis anos de análise tecnica. Até então, fora considerado uma cópia.
Mensagem escrita a partir de informações encontradas em Wikipedia
Ler neste blogue: biografia de Caravaggio

domingo, 7 de novembro de 2010

Daniel Faria: um poeta muito, muito grande

Daniel Faria foi um poeta que descobri pouco antes da sua morte. Ouso dizer que a sua escrita me pôs a caminho, e continua a lançar pontes, a abrir horizontes internos e a fazer-me vibrar como uma caixa de ressonância de um violoncelo. Serve a presente mensagem para anunciar a publicação das comunicações de um colóquio sobre a sua poesia. E, já agora, para quem não conhece, acrescento uma pequeníssima biografia e algumas páginas a ver.

Daniel Faria: comunicações do colóquio publicadas
 
Foram publicadas as comunicações do colóquio sobre Daniel Faria realizado em 2009, ano em que se assinalou o 10.º aniversário da morte do poeta.
As 273 páginas do livro, intitulado “E agora sei que oiço as coisas devagar – Evocação e Escuta de Daniel Faria”, foram organizadas por Marco de Oliveira Marques e Francisco Topa, que prefacia a edição.

Os 17 textos são assinados, entre outros, por D. Carlos Azevedo, valter hugo mãe, Ana Catarina Marques, Rosa Maria Martelo e Rui Laje. (Jornal de Letras/SNPC)
ISBN: 978-989-96206-4-3
 
Biografia:
Nasceu a 10 de Abril de 1971 em Baltar, Paredes.
 
Licenciou-se em Teologia na Universidade Católica Portuguesa e em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
 
Recebeu vários prémios literários relativos a inéditos de poesia e conto. Algumas publicações: Oxálida, A Casa dos Ceifeiros, Explicação das árvores e de outros animais, Homens que são como lugares mal situados, e o póstomo Dos líquidos. Colaborou em várias revistas.
 
Quando faleceu (na sequência de uma queda), em 9 de Junho de 1999, era noviço no Mosteiro de Singeverga.
 
A sua obra poética está reunida em Poesia, Quasi edições, 2003.
http://www.danielfaria.org/ (site oficial: muito bom)
 
Sobre a obra:
 
"O Daniel Faria era um poeta muito, muito grande, tão grande na humildade quanto na poesia."
 
"Tocar os poemas de Daniel Faria é como amanhecer em braçadas de luz total."
 
"Viveu só 28 anos, mas "a respirar como um clarão"."
Vera Voga
 
"Gostava de pedras, de plantas de árvores povoadas; de linhas leves, muito ténues, e de formas concisas, muito simples, de cores fortes; de coisas pobres, que transmutava em esplendor matérico ou formal; de poesia, de pintura, de música e silêncio; do fulgor ígneo da inteligência e dos degraus pacientes da humildade."

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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