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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Bispo sai do armário

Bispo da igreja anglicana assume homossexualidade

Nicholas Chamberlain, bispo de Grantham, admitiu publicamente estar numa relação com outro homem depois de uma publicação britânica ter ameaçado revelar detalhes da sua vida privada
Um bispo britânico tornou-se (...) no primeiro clérigo da Igreja Anglicana em Inglaterra a anunciar publicamente a sua homossexualidade, em entrevista publicada no diário inglês The Guardian, adiantou a Agência France Presse.

Nicholas Chamberlain, bispo de Grantham, no centro de Inglaterra, disse ao jornal inglês que mantinha uma relação de vários anos com um homem, depois de outra publicação ter dito que iria divulgar um artigo sobre a sua vida privada.

"Não foi uma decisão minha fazer alarido deste anúncio", disse, acrescentando que obedece às regras da igreja anglicana que estipulam que os clérigos homossexuais devem ser celibatários.

O bispo disse que a igreja sabia da sua homossexualidade quando assumiu este título e funções, no ano passado.

Afirmou ainda que as pessoas sabem que é gay, mas que esse facto não costuma ser a primeira coisa que diz a alguém.

"A sexualidade é parte de quem sou, mas é no meu sacerdócio que me quero concentrar", afirmou.

O arcebispo da Cantuária - líder da igreja anglicana -, Justin Welby, disse que a homossexualidade do bispo de Grantham era "completamente irrelevante". "A sua escolha teve por base as suas competência e vocação para servir a igreja na diocese de Lincoln", afirmou Welby. Um porta-voz da Igreja de Inglaterra -- a casa mãe da igreja anglicana a nível mundial -- disse que teria sido injusto não nomear Chamberlain bispo com base na sua sexualidade.

A Igreja de Inglaterra abandonou em 2013 a sua oposição a que clérigos homossexuais em uniões de facto pudessem tornar-se bispos, ainda que muitos fiéis da igreja anglicana em todo o mundo -- cerca de 80 milhões -- fossem contra.

A Igreja Anglicana do Uganda declarou em 2014 que considerava separar-se da casa mãe inglesa, se este pressionasse o país em relação à sua opressiva legislação anti-homossexualidade.

In DN, a partir de Lusa, a 3 de Setembro de 2016

Entrevista a um padre gay

"A Igreja é hipócrita porque não aceita uma realidade que é sua"

Polaco, filho de uma família muito crente, cujo apoio o surpreendeu quando revelou ser homossexual, o padre Krzystof Charamsa testemunha a sua vivência no seio do clero, onde assegura que metade são gays. Revolta-se e acusa a Igreja de falsidade por nem sequer querer iniciar o debate do tema

Como o devo tratar, por padre?
Na realidade, porque não? Não sou um ex-padre, sou um padre suspenso. O sacramento do sacerdócio não se pode cancelar. Hoje sinto-me mais padre do que antes. Estou a realizar a minha vocação, em defesa dos direitos humanos, dos homossexuais, das mulheres ...

O Vaticano alegou que tinha violado o voto do celibato. Contrapõe que essa obrigatoriedade visa a relação do padre com uma mulher. Com um homem não é o mesmo?
É a mesma coisa para mim, mas não para a minha igreja, esse é o problema. O direito canónico diz-se contra o concubinato com uma mulher e não contempla o direito de uma relação com um homem.

Não admitem essa possibilidade.
Porque a Igreja é homofóbica e cancela a existência da homossexualidade, só a aceita como uma patologia, uma doença. Para me suspenderem nunca usaram a frase "relação afetiva com um homem ou homossexualidade", usaram o número do cânone que fala do concubinato e outros delitos sexuais. Na minha vida não são delitos sexuais, sinto muito, e também não me podem suspender por ter uma relação com uma mulher.

Concorda com o celibato?
Na maior parte da minha vida fui defensor do celibato, hoje não. Na congregação da Santa Sé, de que fazia parte, fui encarregue de um estudo sobre esse tema. Queriam que o celibato fosse obrigatório para todos os padres - não é na igreja oriental, não é para os padres romenos e ucranianos, para os que vêm de outras confissões -, é só para os padres latinos. Percebi que não havia razão bíblica, teológica, para que isso.

O que espera com este livro?
É uma novela com apontamentos biográficos. Mas na realidade, é um testemunho da evolução de uma pessoa e a sua relação com a instituição onde trabalha, a quem quer e com a qual se identifica e, ao mesmo tempo, descobre que é a instituição que não lhe permite aceitar-se. Neste caso, é um testemunho de um padre, um gay, e a Igreja, a quem considera a sua casa, a sua família, porque é um crente, mas tem um significado mais universal. É o testemunho de uma luta interior e de uma libertação, de uma libertação completa e que não é fácil de explicar a uma sociedade católica, que domina tudo com os seu juízos de valor, que julga em vez de escutar e, assim, oculta a realidade.

Conhecia a doutrina quando decidiu ser padre. Não concordou?
Sim, concordei. Essa foi a razão pela qual escondi a mim próprio que era gay, não queria aceitar, porque ia contra a doutrina que confessava, com a qual me identificava. Depois descobri que a congregação professava uma teoria que não praticava.

Acusa a Igreja de hipócrita.
É hipócrita porque não aceita uma realidade que é sua, que está no seu interior. Quando a Igreja fala dos gays, jamais diz nós, são os outros.

Constatou que há homossexuais que se refugiam no clero?
Sim. As famílias quando percebem que um filho não vai casar com uma mulher, pensam num local para onde ir sem revelar quem é e, assim, realizava-se socialmente.

Afirma que 50% do clero é gay.
O viver da homossexualidade na Igreja é muito mais forte do que na sociedade em geral. Avanço um número, é uma hipótese de trabalho, a igreja não pode ignorar mais este tema. Porque é que reconhece os direitos dos homossexuais.

Porque?
Quer manter o domínio sobre a sociedade, que é patriarcal e machista. E abrir-se à compreensão da homossexualidade exige uma grande reforma do pensamento católico.

O papa Francisco não vai conseguir mudar isso?
Convocou dois Sínodos sobre um tema que é urgente: a família, o matrimónio, as sexualidade, mas no final, foi silenciado pelos bispos, por um Vaticano que não tem capacidade para estudar as questões que a realidade exige. E até agora, não conseguiu nada. Disse muitas coisa boas, na realidade abre a cabeça das pessoas, mas o Vaticano tem minado praticamente qualquer possibilidade de discussão.

Ficou desiludido por não ter respondido à sua carta?
Esperava a resposta do papa Francisco aos homossexuais católicos, não a mim. Esperava uma resposta institucional, de líder espiritual da Igreja Católica e parecia que o Sínodo era um espaço para isso. E ele voltou a repetir as condenações do passado, não disse uma palavra positiva sobre os homossexuais.

O que esperava quando revelou ser homossexual?
Sabia que ia pagar um preço, mas esperava que falassem comigo, que o meu superior me recebesse. O Papa Francisco diz que a Igreja é como um hospital de campo, que procura os feridos, que deve acolher quem está perdido. E o que fizeram foi: "Não trabalhas mais aqui!"

O que faz atualmente?
Sou escritor. Tenho muitos projetos. Vivo na Catalunha, com o Eduardo, é a minha casa e a minha pátria. Da Polónia, na maior parte do tempo recebi ódio e ressentimento. A minha família é muito crente e apoia-me de uma maneira extraordinária. Eles é que sofrem, a minha mãe está a sofrer o que eu devia ter sofrido.

Há muitos padres gays a contactá-lo?
Muitíssimos, por email, facebook, mensagens, mas tudo de foram confidencial, todos com medo, este medo que paralisa. E, finalmente, trata-se só de pensar, estudar um pouco mais o que dizem sobre as relações humanas, A Igreja deveria ajudar a sociedade a respeitar os direitos das minorias, mas se nem aceita os direitos das mulheres?

Uma vez que é tão crente em Deus, há alguma outra confissão religiosa onde se pudesse enquadrar?
Não. Tive propostas de outras confissões, que me queriam receber, mas sou católico, um padre em exílio.

Manter-se numa Igreja que acusa de falsidade e hipocrisia?
Porque nem tudo está mal. Estamos num momento histórico, de compreensão da sexualidade e dos direitos ligados à sexualidade. A Igreja está a perder esse momento, mas não pode continuar fechada.

A pedofilia é uma consequência da falta de debate sobre a sexualidade?
Sim, é uma consequência da incapacidade de falar abertamente sobre a sexualidade humana. Somos católicos, estamos obcecados com a masturbação dos adolescentes, parece que é o maior pecado, quando encobrimos a pedofilia, não lhe demos importância. Formámos sociedades católicas onde as pessoas não querem saber da pedofilia, preferem estigmatizar a vítima. É uma cultura formada por este tabu da sexualidade que a Igreja tem debaixo do seu domínio.

Percebeu que era gay na adolescência e foi para padre, porquê?
Sim, mas não aceitava esse facto, lutava contra os meus desejos, vivia num engano de que não podia ser verdade, porque ia contra a doutrina que eu professava. Hoje a minha consciência de homossexual é a consciência de um padre. A Igreja precisa de padres homossexuais e heterossexuais, pessoas falam da nossa identidade. Os homossexuais têm a experiência humana de uma minoria que precisa de ser vivida e aceite.
por Diana Quintela, para DN, 25 de Outubro de 2016

segunda-feira, 19 de março de 2018

Apolo e Ciparisso. Jacinto e Zéfiro

Os jovens amantes dos deuses e dos heróis mitológicos
parte V

Os Amores de Apolo

Apolo tornou-se o deus mais popular de toda a Grécia antiga. Era o deus protetor da arte, da luz, da medicina, entre várias designações. Era tido como o deus da beleza perfeita e ideal perseguida pelos gregos. A prática de desportos era uma tradição na Grécia antiga, tendo Apolo como o deus protetor. Nos ginásios desportivos, os atletas praticavam exercícios totalmente nus. Era na prática da ginástica que muitos romances nasciam entre homens.

O mito de Apolo descreve intensamente a prática da ginástica com os seus amantes, mostrando uma virilidade que se buscava nos corpos nus dos ginásios. Um dos famosos amores homossexuais do deus foi Ciparisso, filho de Telefo e Jacinta. Apolo venerava a beleza do seu amado, fazendo-se terno e apaixonado. Juntos praticavam a corrida e o arremesso de dardos. Os corpos nus e perfeitos dos amantes corriam ao sol por entre os bosques. Um dia Apolo presenteou o jovem amante com um cervo. Ciparisso apegou-se àquele animal, fazendo-o sagrado. Certa vez, ao jogar os dardos com Apolo, feriu, por acidente, mortalmente o cervo. Ciparisso ficou inconsolável, sendo acometido de uma tristeza profunda. Derramava lágrimas intensas pelo animal sagrado. Na sua infinita dor, pediu ao amante que permitisse as suas lágrimas para sempre, sem jamais esgotar o fluxo. Não podendo negar um pedido ao amante, Apolo transformou-o em uma árvore cuja resina formava gotículas de lágrimas no tronco, nascia o cipreste.

O amor homossexual mais famoso de Apolo foi o belo Jacinto. O deus disputou o amor do jovem com Zéfiro, o vento oeste. O deus do vento jamais aceitou ser preterido por Apolo. O deus da arte e o amante costumavam praticar ginásticas e outros jogos. O arremesso de disco era um dos jogos preferidos dos amantes. Numa dessas práticas, Apolo arremessava o disco aos céus com perfeição, sendo observado pelo amado. Quando Jacinto arremessou o disco, Zéfiro, em sinal de vingança, soprou-o na direção do jovem, atingindo-o no rosto, fazendo com que caísse morto sobre a relva, coberto de sangue. Ao ver a fatalidade que acontecera ao amado, Apolo ainda tentou ressuscitá-lo, mas já era tarde, Jacinto fora arrebatado ao hades. O seu belo rosto tinha sido destruído pela tragédia. Desesperado com a morte do amado, Apolo fez nascer do sangue derramado de Jacinto, uma flor púrpura, com cálice em forma de lírio. Em Esparta, cidade de Jacinto, foi instituída uma festa e jogos em seu louvor, as Jacintas, que se realizavam todos os anos.

Belas, muitas vezes trágicas, outras vezes felizes, as lendas dos amores homossexuais da mitologia grega, tinham alguns pontos em comum; o objeto da paixão de um deus ou herói era de uma beleza rara, na maioria das vezes na idade adolescente. Normalmente a tradição grega permitia que, a partir dos doze anos, os jovens tivessem um homem mais velho como amante. Nas lendas, eles são, com poucas exceções, extremamente novos, mas, essencialmente adolescentes, já com a maturidade sexual do corpo latente, cravada na puberdade, longe da pedofilia. É preciso ter em mente que a fase da adolescência não existia para as culturas antigas, ao rapaz, ao transformar o corpo, ao nascer-lhe os pêlos pubianos e aflorar o órgão genital, era considerado um jovem adulto, assim como as mulheres, transformadas em adultas na primeira menstruação. Atingida esta fase, o jovem adulto era preciso ser iniciado na vida sexual e intelectual da sua cidade. E as lendas legitimavam este costume, só encerrado pela cristianização da civilização helênica.

In GEOCAZ
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Héracles e Iolau, Filoctetes, Jasão, Teseu, Hilas. Aquiles, Pátroclo e Troilo. Pirítoo

Os jovens amantes dos deuses e dos heróis mitológicos
parte IV


Amores entre os soldados gregos

Na Grécia antiga, a homossexualidade estava também ligada às tradições militares. A prática era aliada aos bons e leais soldados, a amizade viril entre militares fazia-os mais leais e unidos uns aos outros. Naquela sociedade, composta por uma grande maioria de soldados, acreditava-se que o envolvimento sexual e emotivo entre os militares fazia com que estivessem mais dispostos a dar a vida uns pelos outros, fazendo deles guerreiros ferozes e leais. Portanto, a iniciação com homens experientes poderosos, era fundamental na educação sexual e militar dos soldados.

Os heróis soldados da Grécia, traziam os mitos com lendas que relacionavam a coragem à homossexualidade. É o caso de Héracles, o maior herói da mitologia grega. Filho de um incesto de Zeus com a mortal Alcmena, o herói sofreu a vida inteira com a perseguição de Hera, levando-o à loucura, às grandes aventuras, à morte e finalmente, à ascensão ao Olimpo, já como imortal.

Várias passagens do mito de Héracles trazem a sua força viril, que conta, teria engravidado as cinquenta filhas de Téspio, rei da Beócia, gerando cinquenta varões. Mas o amor homossexual ronda o mito, sendo aceite nalgumas variações da lenda o seu relacionamento com o sobrinho Iolau, que o ajudou em alguns dos seus trabalhos. Iolau foi presenteado por Héracles com uma esposa, a bela Mégara. Héracles e Iolau tornaram-se símbolo da fidelidade entre casais masculinos, que ao pé da suposta tumba do amante de Héracles, faziam juras e promessas. As Ioléias, jogos ginásticos e equestres celebrados em Tebas, reverenciavam o amor de Héracles e Iolau, presenteando os vencedores com armas e vasos de bronze.

Além de Iolau, outros amantes foram atribuídos a Héracles: Filoctetes, Jasão, Teseu e, o mais recorrente nas lendas, Hilas. 

Segundo a lenda, na famosa expedição dos Argonautas, símbolo da expansão grega sobre o Mar Negro e às terras ao redor, Héracles foi acompanhado pelo belo Hilas, por quem se apaixonou ardorosamente. Os dois mantiveram-se inseparáveis durante toda a aventura. Seriam separados quando a nave Argos parou em Mísia, na Ásia Menor. Ali, as Naiades, ninfas dos lagos e das fontes, encantaram-se pela beleza reluzente de Hilas. Envolvidas pelo fascínio e pela paixão, atraíram o belo jovem até um lago, raptando-o e fazendo-o desaparecer. Desesperado, Héracles abandonou a expedição para encontrar o amado. Gritava com a voz embargada pela dor da perda. Foi inútil a procura, Hilas nunca mais foi visto por nenhum mortal. Restava ao grande Héracles chorar a dor da perda do amado.


Aquiles foi considerado o maior guerreiro da mítica Guerra de Tróia. O mais valente e feroz de todos os soldados gregos. A sua força viril contrastava com a vulnerabilidade do calcanhar, única parte do corpo que não era imortal, e com a sua instabilidade emocional. A sua amizade de Pátroclo era um elemento essencial da sua força, imprescindível também, para a força dos soldados gregos. Era esta amizade que se via como o verdadeiro ideal, esta amizade masculina levada ao extremo criou as condições para que a homossexualidade tomasse lugar de honra na sociedade grega. Criados juntos desde a infância, Pátroclo e Aquiles são inseparáveis. Quando Agamenão ofende Aquiles e este abandona os campos de batalha, será a morte de Pátroclo, que o fará voltar, com uma grande sede de vingança. Usando a armadura de Aquiles, Pátroclo é morto por Heitor, o maior guerreiro troiano. O corpo de Pátroclo é deixado nu no campo de batalha, e a armadura de Aquiles roubada. Enlouquecido pela morte do amigo, Aquiles toma-lhe o corpo nu, carregando-o como o troféu da dor. Furioso com a morte do amigo, Aquiles voltará aos campos, matará Heitor e muitos troianos, lutando até à morte.


Ainda em Tróia, Aquiles apaixona-se por Troilo, o mais novo dos príncipes troianos, filho de Príamo. A profecia dizia que, se Troilo chegasse à idade madura, Tróia jamais sucumbiria. Troilo é perseguido pelos gregos. Quando Aquiles se depara com ele, fica irremediavelmente encantado com a sua beleza, apaixonando-se e oferecendo-lhe o seu amor. Mas Troilo recusa o afeto do herói grego, fugindo para o templo de Apolo. Inconformado com a rejeição, Aquiles executa o príncipe troiano no altar do templo. A execução de Troilo garante a vitória dos gregos sobre os troianos.


Finalmente Teseu, o herói militar mais valente e famoso de Atenas, matador do Minotauro, viveu amores por iguais, tendo nutrido uma paixão por Héracles, a quem ajudou a derrotar os centauros numa batalha sangrenta. Teseu era amigo inseparável de Pirítoo, com quem teria vivido uma relação de amantes. Juntos, urdiram raptar Perséfone (Prosérpina), esposa de Hades (Plutão), o senhor do Érebo, para que Pirítoo a desposasse. Como castigo pela audácia, os deuses aprisionaram os amigos no hades por quatro anos. Teseu seria libertado pelo amigo Héracles; quando tentou libertar Pirítoo, foi impedido por Zeus. Pirítoo despediu-se do amigo, ficando encerrado para sempre no mundo dos mortos, enquanto Teseu continuou a sua jornada pela terra, como um dos maiores heróis da Grécia antiga.


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Laio e Crisipo

Os jovens amantes dos deuses e dos heróis mitológicos
parte II

Laio e o amor que lhe trouxe a maldição

Segundo a tradição, apesar de o rapto de adolescentes ter sido uma prática que encontrou o apogeu em Creta, teria sido iniciada em Tebas. A lenda do rapto de Crisipo, príncipe filho do rei Pélope, por Laio, na época príncipe tebano, teria originado o costume do sequestro aos adolescentes, que se espalharia não só por Tebas e Creta, como também por Corinto. A lenda de Laio e Crisipo teria sido a primeira a abordar a homossexualidade na mitologia grega.

Laio era filho de Lábdaco, rei de Tebas. Quando o pai morreu, o príncipe ainda era muito jovem para reinar, tendo Lico, fiel seguidor de Lábdaco, assumido a regência. Mas uma velha pendência entre o regente e os irmãos Anfião e Zeto, cuja mãe tinha sido maltratada por ele, fez com que perdesse o reino para os rivais. Com medo de ser morto pelos dois invasores, Laio fugiu para a Élida, sendo acolhido com honras pelo rei Pélope e por seu filho, o jovem Crisipo.

Uma paixão avassaladora nasceu entre Laio e o virginal Crisipo. Às escondidas, os amantes vivem um amor intenso. Laio possui com furor o belo Crisipo, fazendo dele um homem. Quando o amor dos dois é descoberto, Laio teme a retaliação de Pélope, num ato desesperado, rapta Crisipo.

É a única lenda que encontra uma certa oposição à homossexualidade, vinda da parte de Pélope. Talvez por Laio também ainda ser muito jovem, quase adolescente, o que não era comum na pederastia grega, já que a iniciação era privilégio dos homens mais velhos e de posição social e cívica definidas. Ou talvez por Crisipo ser, entre os três filhos de Pélope, o seu preferido.

Diante da perseguição do pai e do escarnecimento das pessoas, Crisipo, um jovem medroso e desestruturado pela descoberta da paixão, suicida-se, deixando Laio apenas com a dor da perda e perseguido por um ressentido e vingativo rei. Ao saber da morte do filho, Pélope dispara um grito de dor que ecoa por todos os reinos, lançando uma maldição sobre todas as gerações descendentes de Lábdaco, passadas, presentes e futuras.

Assim, Laio encerra a sua primeira paixão, nutrida pelo frágil Crisipo. Volta para Tebas, reassume o poder, casando-se com a bela Jocasta, que lhe dará um filho, Édipo, que o matará e casar-se-á com a própria mãe. Foi o preço que Laio pagou por seu amor infeliz ao príncipe Crisipo, a maldição sobre a sua cabeça.

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Zeus e Ganímedes

Os jovens amantes dos deuses e dos heróis mitológicos
parte I

A mitologia grega traz relatos de lendas que contam o amor entre homens, um costume comum e cultural daquela civilização. Ao contrário dos ensinamentos judaico-cristãos que viam nas relações entre duas pessoas do mesmo sexo um crime contra a natureza e a religiosidade da sua sociedade, a iniciação sexual na Grécia antiga através da pederastia era uma forma de elevação social, onde homens aristocratas mais velhos passavam os seus conhecimentos culturais, militares e religiosos aos mais jovens, usando para esse fim o amor através do sexo.

Amar um jovem adolescente constituía para a sociedade grega a representação do sentimento puro, sendo ele preparado para o amor à virtude, aos ideais helénicos e para a vida, inclusive a sexual. A passagem do adolescente pelas mãos de um homem mais velho era breve, encerrando-se tão longo ele entrasse na idade adulta e viril e que se casasse, assumindo as obrigações cívicas.

O jovem adolescente que não estabelecesse laços de amizade e de amor com um homem mais velho era menosprezado pela sociedade, visto que não tinha quem o ensinasse a sabedoria da vida e da filosofia, a arte da guerra e as virtudes de ser um bom cidadão. Não ser honrado com o amor de um homem mais velho era não cumprir com os costumes e deveres cívicos.

Para que estes costumes fossem legitimados, eram transmitidos através de exemplos da religião politeísta pelos deuses e heróis. Não são todos os deuses ou todos os heróis mitológicos que trazem lendas do amor viril entre homens, sendo uma honra apenas dos mais poderosos e populares. Zeus (Júpiter), o senhor dos deuses, o mais poderoso do Olimpo, considerado o pai dos deuses e dos heróis de toda a Grécia, deixa a sua função procriadora para amar o jovem e belo Ganímedes. Poseidon (Neptuno), o senhor dos mares, apaixona-se perdidamente pelo renascido Pélope, filho de Tântalo. Apolo, o mais popular e cultuado dos deuses, tem o maior número de amantes homens de toda a mitologia, sendo o amor disputado com Zéfiro, o vento das brisas suaves, por Jacinto, o mais famoso. Héracles (Hércules), o mais famoso e poderoso dos heróis gregos, também traz uma lista de lendas em que se apaixona por vários jovens do mesmo sexo. Teseu, o maior herói de Atenas, vive uma amizade viril com o amigo Pirítoo. Aquiles, o mais bravo guerreiro grego da famosa Guerra de Tróia, não esconde os seus amores por Pátroclo ou por Troilo. Finalmente Laio, pai de Édipo, o mais humano dos mitos gregos, ao raptar o príncipe Crisipo, levando-o à paixão e ao suicídio, desperta para si a maldição que teria feito sucumbir todas as gerações dos seus descendentes através da tragédia. Assim, deuses olímpicos, reis gregos, heróis militares, todos eles, principais representantes da hierarquia aristocrática grega, justificam com as suas lendas, o costume da pederastia e amor entre homens como a erudição do sentimento perfeito e puro da iniciação sexual e da vida social dos seus cidadãos.

O Rapto de Ganímedes

Um jovem quando muito belo, despertava a paixão e o desejo de homens maduros. Ser raptado por um homem mais velho era comum em sociedades como a cretense, sendo autorizado pela lei, estabelecendo um prazo de convivência entre raptor e raptado, que cessava com a volta do jovem trazendo presentes que a lei da cidade especificava, como um boi para ser sacrificado a Zeus, em uma festa que o jovem dava, declarando publicamente se havia concordado ou não com o rapto e com o relacionamento que estabelecera com o amante. Se ao ser raptado, o jovem noivo não concordasse com o amante, ele poderia, no momento do sacrifício do boi e da festa, exigir uma reparação e desligar-se da relação. Dificilmente este facto acontecia, visto que era uma desgraça social um jovem bonito e de família abastada não possuir amante em consequência da sua má conduta para com quem o raptasse. Os que eram raptados tornavam-se companheiros dos seus amantes, usufruindo privilégios especiais, como usar roupas da melhor qualidade; ocupar os lugares de honra nas corridas e danças, indicando que eram especiais para os seus amantes.

A lenda do rapto de Ganímedes por Zeus, o senhor do Olimpo, legitimava o ato de raptar adolescentes, dando ao costume a ritualização religiosa necessária. Zeus, pai absoluto dos deuses e dos heróis, tem as suas lendas voltadas para os amores impetuosos que sempre teve e que o levaram a raptar e amar diversas mulheres, com as quais sempre teve filhos. Para que as suas conquistas não fossem descobertas por sua colérica e ciumenta esposa Hera (Juno), Zeus usava os mais complexos disfarces para atrair as amantes: metamorfoseou-se de touro para atrair Europa ou de Cisne para amar a bela Leda. Fugindo da função dos amores fugazes e procriadores, surge a lenda de Ganímedes, um príncipe troiano que arrebatou o coração do mais poderoso dos deuses do Olimpo, fazendo-o por um momento, amante do amor que sublimava o belo, esquecendo-se da função milenar da procriação.

Ganímedes era um príncipe troiano, que, ao despertar a puberdade no corpo e na alma, trazia uma beleza rara. Seus traços de homem-menino reluziam pelos campos aos arredores da cidade de Tróia, onde cuidava dos rebanhos do pai. Foi numa tarde de primavera, que a beleza maliciosa de Ganímedes chamou a atenção de Zeus. O senhor do Olimpo, ao avistar beleza tão sublime, foi fulminado pela paixão. Impossível resistir à graciosidade do rapaz, ao rosto ainda imberbe, a transitar entre a juventude e à idade viril. Enlouquecido pelo desejo e pela paixão, Zeus transformou-se numa águia, indo pousar junto ao jovem. Encantado pela beleza omnipotente da ave, Ganímedes aproxima-se, acariciando-lhe a plumagem. Imediatamente Zeus envolve o rapaz, tomando-o pelas garras, levando-o consigo para as alturas. Cego de paixão, o senhor do Olimpo possui o jovem ali mesmo, em pleno vôo. Ganímedes após ter sido ludicamente amado por Zeus, foi levado para o Olimpo.

Ao contrário das lendas das amantes de Zeus, que após o idílio do amor, eram perseguidas pelos ciúmes de Hera ou pela ira dos pais, sofrendo até o momento do parto do filho do deus, Ganímedes, apesar da fúria de Hera, chega ao Olimpo intacto, onde é recebido com honras, assumindo o posto privilegiado de servir o néctar da imortalidade aos deuses, substituindo Hebe na função. Após servir aos deuses, Ganímedes derramava os restos sobre a terra, servindo também aos homens.

A lenda legitima os privilégios que os jovens raptados tinham ao lado dos amantes. Evita-se o castigo, comum às amantes de Zeus, mostrando que o amor de um homem mais velho com um jovem era lícito, puro e honroso. Ganímedes é hoje um dos satélites do planeta Júpiter, uma homenagem ao mito.

In GEOCAZ

domingo, 10 de dezembro de 2017

O que a Bíblia NÃO diz sobre a homossexualidade



Bibliografia:
- ALISON, James. Fé Além do Ressentimento: fragmentos católicos em voz gay. São Paulo: É Realizações, 2010.
- ALTHAUS-REID, Marcella. The Queer God. London: Routledge, 2001.
- BESSON, Claude. Homossexuais Católicos: Como sair do Impasse. São Paulo: Edições Loyola, 2015.
- BUSIN, Valéria Melki. Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da autoimagem de gays e lésbicas. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008.
- CANDIOTTO, Cesar; SOUZA, Pedro de (orgs.). Foucault e o cristianismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
- CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais. 1986.
- ENDSJØ, Dag Øistein. Sexo e Religião: do baile das virgens ao sexo sagrado homossexual. São Paulo: Geração Editorial, 2014.
- FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988 [1976].
- GOMES, Ademildo; TRASFERETTI, José. Homossexualidade: orientações formativas e pastorais. São Paulo: Paulus, 2011.
- GREENBERG, Steven (Rabino). Judaísmo e Homossexualidade. Palestra (em inglês) oferecida em 26 de maio de 2014, no Midrash Centro Cultural, Rio de Janeiro:
- MACHADO, Maria das Dores Campos; PICCOLO, Fernanda Delvalhas (orgs.). Religiões e Homossexualidades. Rio de Janeiro: FGV, 2010.
- MUSSKOPF, André. A Teologia que sai do armário - um depoimento teológico. Impulso, Piracicaba, 14(34): 129-146, 2003.
- MUSSKOPF, André. Talar Rosa: Homossexuais e o Ministério na Igreja. São Leopoldo: Oikos, 2005
- NATIVIDADE, Marcelo. Deus me aceita como eu sou? A disputa sobre o significado da homossexualidade entre evangélicos no Brasil. Tese (Doutorado em Sociologia e Antropologia). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, 2008.
- REDELL, Petra Carlsson. Mysticism as Revolt: Foucault, Deleuze and Theology Beyond Representation. Aurora, Colorado: The Davies Group, 2014.
- RUBIO, Alfonso García. Elementos de Antropologia Teológica: salvação cristã: salvos de quê e para quê? 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
- SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Catequético Geral. DCG. 1971.
- SEVERO, Julio. O Movimento Homossexual. Venda Nova: Betânia, 1998.
- WINK, Walter et. al. Homossexualidade: Perspectivas Cristãs. São Paulo: Fonte Editorial, 2008

domingo, 26 de novembro de 2017

Em 1994 era assim

A primeira campanha publicitária a incluir um casal gay

Homossexualidade e parentalidade


E esta, hem?

A 13 de novembro deste ano, no programa "E se fosse consigo" da SIC notícias, o tema abordado foi a homossexualidade e parentalidade. Aconselho a visualização do mesmo, pela actualidade e pela relevância do assunto. O programa aborda temas como preconceito, discriminação e aceitação e explora também a reacção das pessoas perante essa mesma discriminação que, por vezes, chega a impressionar.

Ver este programa deixou-me esperançoso e orgulhoso com o país onde vivo.

Ver AQUI

sábado, 21 de outubro de 2017

Um conto de fadas censurado

Este ano a Disney estreou um filme onde, pela primeira vez, existe uma personagem homossexual. Nalguns países a polémica foi grande e chegou a haver censuras e cortes para que o filme fosse exibido. Cito algumas das notícias referentes ao assunto.

Corte de cena "homossexual" adia estreia de "A Bela e o Monstro" na Malásia

"Os estúdios Disney adiaram a estreia de "A Bela e o Monstro" na Malásia, que estava marcada para quinta-feira, depois de o país ter aprovado a exibição de uma cena, uma vez cortada, com uma personagem homossexual.

A estreia do filme tinha sido aprovada pelo Comité de Censura da Malásia, depois de lhe ter sido retirada uma cena que envolvia o que os censores classificaram como um "momento homossexual", mas as duas maiores exibidoras do país receberam ordens para adiar o filme, sem adiantar as razões, como escreve a Associated Press.

O jornal malaio de língua inglesa "The Star" escreve, citando os estúdios Disney, que a estreia do filme foi adiada para uma "avaliação interna".

Nesta versão do filme de animação da Disney, agora com atores reais, está em causa a personagem LeFou, comparsa de Gaston, o vilão da história, e que, segundo o realizador Bill Condon, "está confuso sobre a sexualidade dele".

A afirmação foi aproveitada pelos media para se referirem a LeFou como a primeira personagem da Disney assumidamente homossexual, mas o ator que a interpreta, Josh Gad, veio a público dizer que "não havia nada no argumento que indicasse que LeFou era 'gay'".

Certo é que na Malásia, maioritariamente muçulmana e onde, até 2010, vigoraram fortes restrições sobre conteúdos sexuais e religiosos, o filme foi sujeito a cortes e classificado para maiores de 13 anos.

Na semana passada, a Rússia revelou que o mesmo filme foi classificado para maiores de 16 anos.

"A Bela e o monstro", que também se estreia na quinta-feira nos cinemas portugueses, é uma nova versão do filme de animação da Disney, de 1991, e conta a história de Bela, uma rapariga que aceita viver no palácio de um príncipe que, por estar sob o efeito de um feitiço, assume a figura de um monstro.

Esta nova versão conta no elenco com Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Ewan McGregor, Emma Thompson, Ian McKellen, Stanley Tucci e Kevin Kline."

14 de março de 2017 in JN

Em Alabama, um cinema recusou-se a exibir o filme

"A Disney aposta em atores para dar roupa nova à eterna magia de "A Bela e o Monstro", o antigo conto francês de 1740 que já foi imortalizado pelo estúdio em forma de animação em 1991.

Desde que o diretor Jason Scott Lee irritou os puristas com um Mowgli adulto em "O Livro da Selva" (1994) e principalmente a partir de "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton (2010), o estúdio lançou várias versões atualizadas das suas animações mais famosas, gerando quatro mil milhões de dólares em todo o mundo.


Nos últimos anos, este processo acelerou, tendo em conta os resultados muitas vezes inesperados nas bilheteiras.

Após "Cinderela" (2015) e mais uma versão de "O Livro da Selva" (2016), com efeitos especiais de espantar, é a vez de "A Bela e o Monstro", um dos tesouros da Disney, de receber um 'lifting' em versão carne e osso.

Com a inglesa Emma Watson, de 26 anos, que cresceu a interpretar Hermione Granger na saga "Harry Potter", no papel de Bela, o filme estreia na quinta-feira nos cinemas portugueses.

É pouco dizer que a obra é ansiosamente esperada: o seu trailer foi visto 92 milhões de vezes num único dia, um recorde.

"A Bela e o Monstro" custou a soma impressionante de 300 milhões de dólares, mas não deve ter dificuldades em recuperar os seus custos: já se tornou o filme para toda a família que mais vendeu ingressos em pré-venda da história, de acordo com o site Fandango, batendo "À Procura de Dory".

Os analistas esperam 150 milhões de dólares de receitas só no fim de semana de estreia nos EUA.

Uma nova versão rodeada de polémica
Este também poderá ser um dos 'remakes' mais controversos da história da Disney.

Muitas polémicas movimentaram as redes sociais: da forma do bule da Sra. Potts a uma imagem um pouco desnuda de Emma Watson na revista Vanity Fair, que se defendeu dizendo que expor o contorno dos seios não contradizia o seu compromisso de embaixadora das Nações Unidas para a causa das mulheres.

Para não esquecer a polémica sobre Le Fou, o lacaio de Gaston, claramente gay na nova versão (interpretado por Josh Gad), o que faz dele o primeiro personagem abertamente LGBT dos estúdios Disney.

Pelo menos um cinema do Alabama, estado conservador do sul dos Estados Unidos, recusou-se a exibir o filme. E o governo russo propôs uma proibição antes de declarar o filme impróprio para menores de 16 anos, enquanto o governo da Malásia optou pela censura, cortando 'um momento gay', levando a Disney a optar pelo seu adiamento.

"Qual é o objetivo desta história de 300 anos? Trata-se de olhar mais de perto e aceitar as pessoas pelo que realmente são", afirmou o realizador Bill Condon ("Twilight", "Dreamgirls") numa recente conferência de imprensa com jornalistas, em los Angeles.

"De uma forma simbólica para a Disney, incluímos todo o mundo", acrescentou.

Seis anos após o último dos oito "Harry Potter", Emma Watson, que recusou o papel que valeu o Óscar a Emma Stone em "La La Land" para poder ser ar Bela, surge no mais importante papel da sua vida adulta.

"O slogan do filme é 'um conto tão antigo quanto o mundo' e é verdade", avaliou a atriz na antestreia em Hollywood, cujo elenco apresenta uma verdadeira constelação: Kevin Kline, Emma Thompson, Ewan McGregor, Ian McKellen, Stanley Tucci... e Dan Stevens (de "Downton Abbey") na pele peluda do Monstro.

"Adoro o facto de que, na nossa versão, a Bela não é alguém distante e isolada. No nosso filme, ela é uma ativista na sua própria comunidade", destacou Emma Watson, que disse amar tanto a versão cinematográfica de Jean Cocteau e René Clément de 1946 quanto a animação de 1991.

Se não é um fã das versões 'live action' dos clássicos da Disney, saiba que é melhor preparar para os próximos anos: 13 outros títulos estão atualmente em várias fases de produção, incluindo "Cruela", sobre a vilã de "101 Dálmatas", e ainda "Mulan", "Dumbo" e "Aladdin"."

14 de março de 2017 in Mag Sapo

Lei da “propaganda gay” quase levou a Rússia a censurar A Bela e o Monstro

A notícia seguinte não se confirmou, o filme foi moderadamente exibido e antecipadamente declarado um fracasso de bilheteira. Serve a notícia para contextualizar a polémica gerada na Rússia.

"Novo filme tem o primeiro personagem abertamente gay da história da Disney e inclui uma cena de amor homossexual. Alguns políticos russos estão a pedir para que seja banido do país.

A Rússia tem uma controversa lei que proíbe aquilo a que chama “propaganda gay” junto de crianças e é ao abrigo deste diploma que alguns políticos estão agora a pedir que A Bela e o Monstro, remake do filme de animação da Disney de 1991, seja banido do país. Motivo: a nova produção, que não é animada, inclui o primeiro personagem abertamente gay dos célebres estúdios e uma cena de amor homossexual.

LeFou (Josh Gad), o braço-direito do mulherengo Gaston (Luke Evans), o antagonista da história que quer ganhar o afecto de Belle (Ema Watson) a todo o custo, começa por se mostrar confuso em relação à sua orientação sexual e acaba… Bom, Bill Condon, o realizador, não quer revelar o destino desta personagem, mas numa entrevista recente à revista Attitude Magazine, que trazia os protagonistas do remake na capa (Watson e Dan Stevens, o “Monstro” do título), garantiu que a obediência de LeFou ao seu senhor vai além da lealdade e que o filme inclui um “bom momento exclusivamente gay”.

O ministro da Cultura russo, Vladimir Medinski, está a ser pressionado para que se pronuncie sobre se o filme viola ou não a lei em vigor relativa à difusão de conteúdos de natureza homossexual a menores. Isto para que possa decidir-se a exibição (ou não) nas salas de cinema espalhadas pelo país.

O deputado Vitaly Milonov, do partido Rússia Unida, o do Presidente Vladimir Putin, já veio dizer que o filme é uma “vergonhosa propaganda do pecado” e pediu ao ministro da Cultura para que o proíba.

Milonov é um dos principais adeptos do diploma que ficou conhecido como a lei da “propaganda gay” e que foi aprovado em 2013, apesar dos protestos de vários movimentos de direitos humanos, sobretudo da comunidade LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros e Intersexuais), dentro e fora do país.

Segundo o diário britânico The Independent, esta lei descreve a homossexualidade como uma “relação sexual não-tradicional” e proíbe todos os conteúdos capazes de promover “a negação dos valores tradicionais da família”.

Alexander Sholokhov, que tal como Milonov pertence às fileiras do partido conservador, está entre os que exigem ao ministro que tome medidas de imediato.

Na sequência desta polémica recente, o responsável pela Cultura já garantiu que a nova produção vai ser passada a pente fino: “Assim que tivermos uma cópia do filme […] vamos examiná-lo à luz da lei”, disse Vladimir Medinski.

A homossexualidade foi descriminalizada na Rússia em 1993, recorda a televisão britânica BBC, e removida da lista nacional de distúrbios psiquiátricos seis anos depois, mas a perseguição à comunidade LGBTI continua.

A estreia russa está agendada para 16 de Março. A Bela e o Monstro prepara-se para ser um sucesso de bilheteiras à escala planetária, com ou sem a Rússia."

a 5 de março de 2017 in Público

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Para não ser demasiado tarde

partilho um testemunho que nos alerta para não perdermos tempo. Seria bom que os pais que não aceitam os seus filhos o lessem. A vida são dois dias...

Até hoje
por João André Costa

"Eu e o Paulo temos uma relação. Pronto, já o disse. Eu e o Paulo sempre tivemos uma relação logo desde o primeiro momento em que nos vimos na Secundária. Ainda retenho a imagem na mente: ele na esquina do Pavilhão A, de calças à anos 90, justas e magras, como as pernas, compridas do chão ao tronco, um tronco elegante, despreocupado, à vontade por debaixo de um rosto calmo, curioso, de olhos negros como o cabelo forte, daquele cabelo que dá vontade de agarrar e encher as mãos, quase animalesco de tão farto. Bastou-nos meio segundo, e depois ele desviou o olhar.

Nessa tarde encontrámo-nos por detrás do ginásio, ele calado e eu também, ele a querer saber, a saber, e eu com as mãos suadas atrás das costas, a tremer, com um pé atrás e outro à frente, ele mais alto que eu, assim ao pé de mim, e eu a percebê-lo mais velho, talvez no 10º ou 11º, e eu ainda no 9º e tantos nervos, nunca tinha beijado ninguém e não queria deixar de beijar, os lábios dele vermelhos de sangue, de dor, vontade, paixão?, amor?, um passo em frente e fechei os olhos.
Até hoje.

Não sei quem teve mais dificuldade em aceitar a nossa relação, se os pais dele se os meus. Quando finalmente arranjei coragem para contar a toda a gente à mesa de jantar, a minha irmã desatou a rir-se, a minha mãe desatou a chorar e o meu pai perdeu a fala.
Até hoje.

E eu a pensar, a ansiar, a desejar tirar este peso de cima dos ombros, eu a querer contar, partilhar este amor, este ardor no peito de coração aos saltos sempre que estivemos juntos e sós, desde o escuro do anfiteatro da Universidade à sala de cinema, passando pela casa quando mais ninguém lá estava até à sala de enfermagem ao fim do turno. Eu a querer dar-lhes tudo e em trinta segundos perder um pai e uma mãe, porque a minha irmã não conta e a minha irmã já sabia (sempre soube) entre amigos e amigas, conversas de rua e conversas de escola. A minha irmã também é enfermeira. Até hoje.

Mas ao menos os meus pais não me puseram na rua. Pura e simplesmente deixaram de o ser, pais, demitindo-se com justa causa e por escrito. Já com os pais do Paulo foi bem pior, e como, mal ou bem, já estávamos os dois a trabalhar, alugámos um T1 no bairro e, aos 21, começámos uma vida juntos.
Até hoje.

Entretanto casámos, pelo Civil, pois claro, o Paulo pediu-me em casamento no nosso 3º aniversário depois de um jantar de mãos dadas e uma vida de mãos dadas e eu disse que sim, para sempre, e para sempre fechei os olhos. Na cerimónia apenas os padrinhos do Paulo e os meus, os que não fugiram, os que não nos deixaram.
Até hoje.

Hoje caminhamos na marcha. De mãos dadas com as alianças bem à vista, para todos, para que todos saibam e todos vejam, o meu pai, a minha mãe (porque a minha irmã não conta, já o disse). E não, pai, eu não trago o rabo à mostra nem penas ou asas de todas as cores, sou apenas eu, eu e Paulo e uma bandeira em cada mão, essa sim com todas as cores, como sempre fomos, de todas as cores desde que o vi na esquina do Pavilhão A. Podia ter sido uma rapariga, foi o Paulo, e eu nunca deixei de ser quem sou, nunca deixei de lutar, estudar e trabalhar, e o que se passa na cama e lá em casa é só connosco e mais ninguém. Não é pai? Porque mais ninguém tem nada com isso e eu também nunca te perguntei o que fizeste com a mãe antes de me fazeres ou enquanto me fizeste.

Estou a caminho de casa e o Paulo vem comigo. Batemos à porta e a minha mãe, com dois poços fundos de lágrimas no lugar dos olhos, abraça-me. Já não vou poder dizer nada ao meu pai."
in Público P3 a 25 de junho de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conceitos LGBTI: Gay, Gaydar, Género

Glossário LGBTI: letra G

Reconhecendo as minhas próprias limitações relativas a alguns conceitos utilizados ao falar de questões ligadas à comunidade LGBTI, resolvi partilhar com os leitores do blogue um glossário dos termos mais recorrentes. Esta publicação será faseada e é baseada numa publicação do site da rede ex aequo

"Conscientes dos efeitos de estereotipização e da tentativa de normalização, não se pretende com este glossário contribuir ainda mais para o aumento dessa problemática. Pretendemos apenas clarificar alguns conceitos básicos para que possamos todos/as falar a mesma língua.

Gay – 1) diz-se de um homem que se sente atraído fisicamente, emocionalmente e psicologicamente por um outro homem. 2) usado por vezes como sinónimo de homossexual. Em inglês o termo gay engloba quer o homem homossexual quer a mulher homossexual.

Gaydar – termo usado para referir a perceção que as pessoas LGBT têm para reconhecer outras pessoas LGBT.

Género – 1) sistema de classificação que atribui qualidades de masculinidade e de feminilidade aos corpos do homem e da mulher. As características de género são muitas vezes arbitrárias e podem mudar quer ao longo do tempo quer de cultura para cultura. 2) Muitas vezes confunde-se o conceito de género com o conceito de sexo biológico. Separar os conceitos é bastante útil para compreender os diferentes comportamentos e também para a compreensão de fatores que dizem respeito ao desejo sexual e à expressão de género ou identidade.

Género (expressão de) – diz respeito aos maneirismos, forma de vestir, forma de apresentação, aspeto físico, gostos e atitudes de uma pessoa. 

Género (identidade de) – identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença."

terça-feira, 18 de abril de 2017

A homossexualidade e a Rússia

Noutro artigo do Público é-nos apresentada uma análise sobre a forma como a homossexualidade é encarada na Rússia. Por Clara Barata:

Na Rússia, a homossexualidade é só um acto e as pessoas podem ser castigadas ou curadas

Os Jogos Olímpicos de Sochi fizeram explodir os protestos por causa da discriminação dos gays russos. Mas esta é uma história com raízes profundas

Na Rússia, a rejeição da homossexualidade é uma coisa séria. A lei que torna crime a “propaganda da homossexualidade” junto de menores não é apenas uma ideia do Presidente Vladimir Putin — é realmente apoiada pela população.

Segundo uma sondagem do Instituto Pew de Junho do ano passado, quando foi publicada esta lei, apenas 16% dos russos considera que a homossexualidade deve ser aceite pela sociedade. Em 2007 eram 20%, pelo que a Rússia está a tornar-se ainda mais intolerante.

Estes dados não surpreendem Laurie Lessig, professora de Sociologia e Género, Sexualidade e Estudos Feministas na Universidade de Middlebury, no estado de Vermont (Estados Unidos da América), que entre as décadas 1980 e 1990 viveu na Rússia e fez trabalho de campo a investigar a comunidade gay na União Soviética — que então se estava a desagregar. “Será preciso muito mais do que boicotes e estrelas da pop para tornar este país mais tolerante. A Rússia tem uma história da sexualidade muito diferente da do Ocidente, e o que se passa hoje é o resultado dessa história”, afirmou.

A Rússia está a ser alvo de uma intensa campanha motivada pela lei que pune com uma multa que pode ir até 10.600 euros e com penas de prisão quem faça “propaganda homossexual” — embora sem definir o que seja essa propaganda. A investigadora norte-americana, que escreveu um livro publicado em 1999 sobre o seu trabalho na Rússia — Queer in Russia: A Story of Sex, Self, and the Other — falou com o PÚBLICO sobre a forma como a Rússia encara a homossexualidade: como meros actos, que podem ser criminalizados ou tratados.

É surpreendente que as sondagens mostrem que a lei que criminaliza a “propaganda gay” junto de menores seja apoiada por mais de 80% da população russa. Por que é que a Rússia não se aproximou mais do Ocidente nas suas atitudes em relação à sexualidade?É importante compreender que a Rússia tem uma história da sexualidade diferente da do Ocidente. Como escreveu [o filósofo] Michel Foucault, no Ocidente nasce-se homossexual. Na Rússia, os actos homossexuais sempre foram considerados apenas verbos — nunca se transformaram em substantivos, em espécies sexuais, o homossexual e o heterossexual. Isto é potencialmente negativo: se os actos sexuais são apenas acções, então as pessoas podem ser castigadas ou curadas. De 1934 a 1993, os homens podiam ser enviados para campos de trabalho por fazerem sexo com outros homens e as mulheres eram muitas vezes internadas em hospitais psiquiátricos por desejarem outras mulheres.

Nos tempos soviéticos, a homossexualidade era tratada como a tuberculose — atravessava as fronteiras, vinda do Ocidente burguês, e podia infectar qualquer um. Qualquer pessoa mesmo. Esta visão da sexualidade reduzida a meros actos sexuais criava uma atmosfera em que qualquer um podia sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo. Não te tornarias homossexual ou heterossexual por causa das relações sexuais que tivesses — isso humanizava as pessoas, dava-lhes uma certa dose de liberdade, em especial após a queda da União Soviética, quando as grandes cidades russas fervilhavam de possibilidades queer [gays, lésbicas, bissexuais, transgénero], de activismo e artísticas.

Os cientistas e os profissionais de medicina russos não tentam contrariar esta visão discriminatória da homossexualidade como doença ou crime?Mas esta pode não ser a melhor maneira de combater este preconceito.

Há muitos psicólogos, sociólogos e antropólogos que estão a trabalhar para combater esta ideia de “contágio gay”. Mas será esta a melhor maneira de combater este preconceito? Na América, uma coisa tão complexa como o desejo foi reduzida ao conceito “nasci assim”. Isto parece uma simplificação absoluta para muitos cientistas russos (e americanos), que fazem uma análise mais profunda, olham para os registos antropológicos e históricos e defendem que o sexo é algo bastante mais complicado.

Os cientistas russos devem investir na noção de os gays simplesmente nasceram assim? Talvez, mas não tenho a certeza de que isso poderá proteger os gays na Rússia. Afinal de contas, outros grupos que também “nasceram assim” – como as minorias raciais e os judeus – também são alvo de discriminação. Mas talvez insistir na ideia de que os gaysnascem assim possa diminuir o pânico em relação aos homossexuais, reduzir o pânico de que a homossexualidade seja infecciosa. Acredito que há muitas pessoas a trabalhar no duro para contrariar este pânico – académicos, activistas, jornalistas. O que eu não acredito é que devam ser os académicos americanos a dizer-lhes o que devem fazer.

Os direitos das minorias sexuais existe como tema da agenda política? A oposição pega nele?Sim, mas não no Parlamento, que votou unanimemente a lei sobre a propaganda
gay. Mas há inúmeros grupos de defesa dos direitos humanos e dos direitos dos homossexuais que lutam contra esta forma de discriminação. Infelizmente, os media são quase completamente controlados pelo Governo e dizer alguma coisa sobre a homossexualidade pode resultar em ser multado por quebrar a lei. Portanto, se não houver uma imprensa livre na Rússia, estes grupos nunca conseguirão mobilizar muita gente.

A comunidade gay na Rússia já começou de facto a organizar-se, apesar de todas estas dificuldades?Há organizações gay, mas têm uma eficácia limitada, porque não há uma imprensa livre, e não existe o direito à livre manifestação. Além disso, alguns líderes da comunidade gay tentaram mostrar-se como “russos autênticos”, manifestando um perturbante anti-semitismo. Outros, no entanto, estão a fazer alianças com organizações que defendem judeus e povos da Ásia Central – se se unirem, os que são considerados “poluição estrangeira” podem conseguir muito mais do que se trabalharem sozinhos.

O fenómeno dos ataques violentos contra homossexuais colocados online por um grupo que se identifica como Occupy Pedophilia, que parecem ser neonazis, é algo de novo, ou é apenas um novo rosto de uma violência que já existia em tempos soviéticos?
Nos tempos da União Soviética havia os
remontniki, os “reparadores”, que andavam de carro à procura de pessoas que pareciam homossexuais ou punks, ou de alguma forma uma ameaça à pureza russa, nos quais pudessem bater. Estes Occupy Pedophilia são apenas a versão destes remontniki da Idade da Internet. Tal como no tempo dos sovietes, as autoridades ignoram esta forma de vigilantismo, desde que isso sirva os seus interesses – que é manter a população receosa e sob controlo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Igreja ainda atira a primeira pedra, mesmo com telhados de vidro

Uma notícia recente do Jornal Público sobre o livro lançado pelo ex-padre Krzystof Charamsa. 

Ex-padre acusa a Igreja Católica de hipocrisia quanto à homossexualidade

"Um ex-sacerdote católico polaco, que pertenceu à Congregação para a Doutrina da Fé, acusa a Igreja Católica de "hipocrisia", relativamente à homossexualidade, e desafia a hierarquia "a despertar do seu sono desumano que atingiu o insuportável".

Krzystof Charamsa faz estas afirmações na obra A primeira pedra. Eu, padre gay, e a minha revolta contra a hipocrisia da Igreja, que é publicada na quarta-feira, em Portugal, numa tradução de Marta Pinho/João Quina Edições.

Segundo afirma o ex-monsenhor, "o problema da Igreja não é apenas a perseguição dos homossexuais, mas também a sexualidade de toda a humanidade".

Krzystof Charamsa, de 44 anos, conta neste livro o seu percurso como católico fervoroso, sacerdote, que iniciou carreira na nomenclatura da Santa Sé, tendo sido segundo secretário da Comissão Teológica Internacional e oficial da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício). Em Outubro do ano passado, assumiu publicamente a sua homossexualidade, tendo-lhe sido retiradas todas as funções, por ter quebrado o voto de celibato.

Referindo-se à assumpção da sua homossexualidade, Krzystof Charamsa escreve: "Rezava a Deus para que aquele homem verdadeiro nunca mais me deixasse sozinho. Mas como? Na verdade, ele deveria deixar-me o mais rapidamente possível, porque eu... era padre. E ele não sabia". Todavia, segundo afirma, nessa altura, viu Deus que o amava e aceitava porque o compreendia.

"Eu, especialista em Deus e em tudo o que é divino e ... homofóbico ao mesmo tempo, vira finalmente Deus. Encontrava um homem, mas vira Deus. E felizmente estava a perder de vista a sua Igreja medíocre".

Sacerdote católico durante 18 anos, período durante o qual contactou com outros padres homossexuais, Krzystof Charamsa inclui no livro uma carta que enviou, em Outubro do ano passado, ao papa Francisco, na qual rejeita "publicamente a violência da Igreja relativamente às pessoas homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais".

"Não posso continuar a suportar o ódio homofóbico, a exclusão, a marginalização e a estigmatização das pessoas como eu", escreveu o sacerdote polaco ao papa Francisco.

Esta carta foi enviada nas vésperas do Sínodo sobre a família, que se reuniu em Roma, e cujas conclusões o desapontaram.

Krzystof Charamsa publicou na mesma altura, e inclui nesta obra publicada pela Planeta Editora, o Novo manifesto de libertação gay em dez pontos, que aponta como "indispensável para que as pessoas LGBTIQ [Lésbicas, Gay, Bissexuais, Transsexuais, Intersexuais e Queer (teoria segundo a qual considera que o género e as relações são fluídas e não estáticas)] possam encontrar paz na Igreja Católica".

Este manifesto também indica, na sua opinião, os dez passos que a Igreja deve dar para um "programa de 'conversão' intelectual e espiritual", pois, como afirma, "a Igreja está ainda à espera da sua revolução de Stonewall", referindo-se ao movimento contestatário em defesa dos direitos dos homossexuais, que emergiu em 1969, num bar nova-iorquino, contra a violência policial.

Para Krzystof Charamsa, actualmente ativista dos direitos LGBTIQ, em Barcelona, "defendendo-se os direitos das minorias, defende-se os direitos de todos"."
Ler também o artigo do moradas de deus "o padre que saiu do armário".

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O homem que eu amo: a love story

Quase todos os filmes, livros e referências que temos de vida conjugal feliz e duradoura dizem respeito a casais heterossexuais. O Jornal Público, em 2012, publicou uma entrevista ao cientista Alexandre Quintanilha e ao escritor Richard Zimler que, generosamente falaram sobre uma história de amor e de vida em comum que partilham há 39 anos.




por Anabela Mota Ribeiro, a 11 Nov 2012

Excertos da Entrevista:

Muito mais do que um rótulo: o inesperado de uma paixão
(...)
A.Q. - Os meus pais não eram nada preconceituosos. Não disse que era gay, não existia essa expressão quando tinha 16 anos. Disse aos meu pais que estava apaixonado por um homem e que não percebia. Não havia role models [exemplos] para isso. O meu pai disse-me que não era uma coisa que ele percebesse, mas que se isso me preocupava podia arranjar uma pessoa com quem eu pudesse falar. E fui falar com um psiquiatra, duas vezes. (...) Na primeira vez em que estive com esse homem extraordinário, dei-lhe a ler um diário meu. Estava convencido de que era uma obra-prima da literatura [riso]. Na sessão seguinte, entregou-mo e disse: "Você está apaixonado. Isso é uma sensação maravilhosa. Devia estar satisfeito por estar apaixonado." Eu não tinha a certeza se era mesmo gay ou se era bi. A minha mãe, a única coisa que me disse foi: "Quero é que sejas feliz."
(...)

Olhando retrospectivamente, acha que se apaixonava de facto por homens e por mulheres ou estava a tentar perceber se era mesmo homossexual?
A.Q. - Se calhar, as duas coisas. Com 20 anos, sabemos muito pouco. Quando temos uma grande atracção por uma pessoa, quando a atracção e a admiração, e a paixão, se tornam muito intensas, duvido de que não haja uma parte física, seja qual for a pessoa. Esta coisa de nos definirmos como hetero ou homo... não me defino dessa maneira. Defino-me como uma pessoa que gosta de literatura, que gosta de música, de ciência. Deixou de ser um label[rótulo].
(...)

A.Q. - (...) O que me surpreendeu não foi ser atraído fisicamente por homens e por mulheres; foi apaixonar-me por uma pessoa, o que é diferente. Tenho alguma pena das pessoas que fazem uma separação entre o emocional e o sexual. (Agora faço essa separação, porque somos essencialmente monogâmicos, não queremos ter outras relações.) É uma pena ver duas pessoas que estão muito atraídas uma pela outra espiritualmente e que têm medo de se tocar para além da festa.
(...)

Homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade
(...)
Freud dizia que potencialmente somos todos bissexuais.
A.Q. - Não sei se somos.
R.Z. - Há pessoas que são totalmente heterossexuais - uma minoria - e há pessoas totalmente homossexuais - outra minoria. São poucas as que são 50/50. Sou 90% homossexual. Já tive relações, mas não seria possível manter uma relação duradoura com uma mulher.
A.Q. - É muito forte em mim esta repulsa pelas camisolas. Pertencer ao Futebol Clube do Porto ou ser do Benfica, ser católico ou ser protestante. Ou ser de Joanesburgo, sul-africano, moçambicano. O que é que eu sou? Tenho uma mãe alemã, um pai açoriano, nasci em Moçambique, vivi na África do Sul muito anos, estive na Califórnia, estou em Portugal, tenho nacionalidade portuguesa e americana. Não me faz confusão nenhuma não saber identificar-me.
(...)

Exibicionismo ou preconceito?
(...)
R.Z. - Todos os dias vejo jovens a beijarem-se em frente a toda a gente; isso também é exibicionismo? Se um casal homossexual fizesse isso, toda a gente ficava horrorizada, mas acontece todos os dias em Lisboa e no Porto e ninguém diz nada. Há um duplo standard. Sou gay, sou judeu, sou americano em Portugal. Há a tendência por parte de pessoas liberais, não-progressistas, de dizer: "Não gosto nada dos judeus, mas gosto de si." Ou: "Não gosto nada de homossexuais, mas tu és fixe." Nessas circunstâncias sou o mais judeu, o mais americano e o mais homossexual possível. Não quero ser aceitável. Quem sou eu para julgar aquele homossexual efeminado ou aquele judeu religioso, ou aquele americano que só come hambúrgueres e pizza?
(...)

Relações de longa duração
(...)
Insisto na longevidade da vossa relação, depois da turbulência dos primeiros anos. O mais difícil numa relação, independentemente da orientação sexual dos cônjuges, é estarem tanto tempo juntos e bem. Por isso as pessoas perguntam: "Qual é o segredo?"
R.Z. - Temos um bocadinho de sorte, e foi um bocadinho de trabalho. Em qualquer relação que é um verdadeiro casamento (e há casamentos que não são casamentos, são duas pessoas a viver juntas), existe a pessoa A, a pessoa B e o casamento. Há três seres vivos numa relação e tem de se ter muito cuidado com o terceiro ser vivo: o próprio casamento. Tem de se valorizar, polir, prestar atenção, senão a relação vai acabar. Os dois estamos muito conscientes disso. Apaixonarmo-nos por uma pessoa é muito fácil (com algumas pessoas que conheço, acontece de duas em duas semanas). Mas é preciso aprender a respeitar o outro. Para o Alexandre, era mais natural, tinha dois pais muito respeitosos. Eu não tinha isso. Os meus pais diziam coisas um ao outro que eu não diria ao inimigo mais feio do mundo, coisas reles. Apaixonar-me por ele era superfácil, mas respeitar a sua opinião, a sua maneira de ser, as coisas que ele dizia e com as quais não concordava, as coisas que ele fez e que não compreendi, levou-me anos.
A.Q. - Não acredito que haja relações duradouras se cada uma das pessoas não tem a sua própria vida construída. Quando o Richard está a escrever (já sei, porque escreveu vários livros), está de tal maneira obcecado com a escrita que eu sou uma espécie de audiência. E quando estou muito ocupado e ando muito cansado, ele sabe que estou a fazer qualquer coisa que para mim é importante. Nessas alturas, temos muito respeito para não exigir mais do outro. Isto aprende-se. Quando a pessoa começa a sentir uma verdadeira realização pessoal com a realização do outro, quando deixa de haver aquela necessidade egocêntrica - "preciso que me dês mais atenção porque estou inseguro" -, isso é que é uma relação conseguida.
(...)

Casar para quê?
(...)
Por que é que para si foi importante casar?
R.Z. - Simbolismo. Ainda há sítios no mundo em que ser homossexual pode ser punido com sentença de morte, com penas de dez anos, ou mais, de prisão. Para mim, como escritor, como ser humano, o facto de ser um crime exprimir o que é melhor dentro de nós, a afeição, a paixão, a solidariedade e a amizade, é inconcebivelmente injusto. É muito importante reivindicarmos os nossos direitos no Ocidente, para que um jovem que tenha acesso à Internet no Burkina Faso, na Nigéria ou na Birmânia, possa ir ao site do PÚBLICO em Portugal [e ler esta entrevista].

É também por isso que dão a entrevista?
R.Z. - Claro que sim. Vivi num mundo em que não era possível as pessoas das pequenas aldeias dos Estados Unidos assumirem-se. E em Portugal talvez ainda não seja possível em aldeias do interior. Falo disto para que aquela jovem lésbica de Castelo Branco, ou o jovem transexual de Fafe possam olhar para mim e para o Alexandre e descobrir: "Não tenho de mudar para ser aceite. Posso ser como sou. Tenho os mesmos direitos dos outros. Não há cidadãos de segunda em Portugal."
A.Q. - Pensei muito sobre se devia dar esta entrevista ou não, porque não tenho de explicar rigorosamente nada. As pessoas são aquilo que fazem e aquilo que são, e não aquilo que dizem. Há uma pequenina coisa que é muito importante: a questão dos role models. A grande diferença entre um casal heterossexual e homossexual, para já - no futuro não vai ser assim - é que os casais heterossexuais têm filhos, têm netos. No nosso caso, como não temos filhos (já pensámos adoptar, volta e meia, mas não foi uma coisa muito premente), essas relações têm de ser substituídas por outras. Temos de inventar outras partes da nossa relação que sejam alternativas a essas. Temos de nos reinventar e dar a noção a outros gays de que isso é possível, realizável. É preciso que o mundo à nossa volta perceba que não me acho especial, positiva ou negativamente, por ser assim. Tive muita sorte em encontrar uma pessoa como o Richard, tive muita sorte em ter os pais que tive, em viver nos sítios onde vivi, apesar de às vezes me sentir muito só e de ter momentos muito difíceis de afirmação pessoal. Isso também é uma história que vale a pena divulgar. Numa sociedade que está cada vez mais competitiva, é importante as pessoas falarem daquilo que não é competição selvagem. É a partilha, é sentirmos - isto parece uma treta... - que o mundo, se tivermos boa vontade e se funcionarmos de boa-fé, vale a pena.

Um conselho de moradasdedeus, vale mesmo a pena ler a entrevista.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Falando de família...

Excerto da homilia do Pe Tolentino no dia de abertura do Sínodo dos Bispos

(...)
Nós sabemos como este Sínodo é uma segunda etapa deste acontecimento que o Papa Francisco quis promover para aprofundar a teologia da família, o significado da família no mundo contemporâneo, e para pensar no interior da Igreja o que é a beleza da missão da própria família, ao mesmo tempo meditando sobre o modo como a Igreja há de exercer o seu ministério da misericórdia sobre as feridas, as vulnerabilidades, as fragilidades da própria família.

Ainda ontem o Santo Padre, na vigília na Praça de S. Pedro, dizia precisamente isso: “Este Sínodo é, por um lado, para todos termos mais claro a beleza da família. O que significa a família, a sua importância na história de cada um de nós, no futuro da Humanidade. A família é um laboratório do nosso futuro. Por isso a família tem de ser redescoberta, a família tem de ser celebrada na sua vocação e na sua missão. E ao mesmo tempo, termos uma atenção misericordiosa para com as fragilidades da família, as vulnerabilidades da família.”


(...) É preciso ir ao encontro das vidas feridas, é preciso ir ao encontro com misericórdia. Nós sabemos que hoje a realidade, o fenómeno, a experiência, a condição da homossexualidade feminina e masculina ganhou nas nossas sociedades uma visibilidade que nós não podemos ignorar. As pessoas têm de viver e temos de escutar a voz das pessoas, temos de escutar o que elas vivem e temos de aprender, temos de acolher e temos de aprender, fazer um caminho com as pessoas. Porque, no fundo, nós muitas vezes pomos o dedo: “Este é este, aquela é aquela.” E nós ignoramos tanto da vida dos outros, do sofrimento dos outros… A verdade é que muitas vezes impomos cargas aos ombros dos outros que nós nem com um dedo as levamos.

Nesse sentido, temos de fazer silêncio e escutar. A Igreja também precisa de escutar, também precisa de ouvir a voz daqueles que muitas vezes não têm voz no meio de nós, e encontrar formas de diálogo, de acompanhamento. Isso é tão importante.

Aqui, na nossa comunidade, há uma experiência de cristãos homossexuais que se reúnem para rezar uma vez por mês na nossa capela. É tão importante dar esse espaço para que as pessoas rezem as suas vidas, para que as pessoas se confrontem com a palavra de Deus de uma forma que não seja para as julgar, para as condenar à partida. Mas, pelo contrário, para dizer que os homossexuais são nossos filhos, são nossos irmãos, são nossos amigos, são nossos companheiros de trabalho, são cristãos como nós, estão na nossa comunidade. Nós temos de encontrar um modelo pastoral, porque também é disso que se trata. Temos de encontrar um modelo pastoral onde a integração seja uma realidade mais vivida, e este ministério da compaixão que Jesus Cristo confia à Igreja seja um ministério praticado por todos nós.

Vamos por isso rezar ao Senhor, é uma hora muito importante da vida da Igreja este mês de outubro, não é um mês qualquer, é um mês importante, jogam-se coisas decisivas. O Santo Padre pediu aos bispos para falarem com liberdade. A palavra grega é uma palavra que vem muito no Cristianismo, que é “parrésia”. “Falem com parrésia”, isto é, falem com desassombro, falem com abertura, falem com verdade, digam o que pensam. Foi isso que o Santo Padre pediu aos bispos, aqueles 270 que estão ali, e pede à Igreja. Falemos com esta abertura, com esta simplicidade, com esta verdade para encontrarmos um caminho comum que tem de ser o caminho da comunhão.

Pe José Tolentino Mendonça

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

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