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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Ética da Atenção

Advento: atender e estar atento

A “atenção” (attentio) vem de “atender” (attendere) e significa orientar o espírito e a mente para aquilo que vem. Esta orientação corporal de si pressupõe a vigilância e a meditação enquanto experiência espiritual e lugares onde se exercita a atenção. A oração é um ato corpóreo, de quase suspensão do tempo e do espaço, de mobilização sensível que nos envolve totalmente na reciprocidade de uma relação. O tempo de advento é um tempo de exercitação da atenção, de prática de uma “ética da atenção”, como escreve a filósofa francesa Natalie Depraz (in Attention et vigilance. À la croisée de la phénoménologie et des sciences cognitives).

Atender é olhar o tempo de um outro modo, a partir da doação e da dádiva. Dar tempo, é dar-se por inteiro nesse tempo de espacialidades e vida cruzadas, sem o esgotar e sem se esgotar, é um ato de reconhecimento de que a condição temporal nos é dada; é a acreditação da possível vinda de… Dar o seu tempo é ser dom para os que se sentem esquecidos nas brumas temporais da história, sem eternidade. Dar algo do seu tempo, é fazer do presente grávido de futuro promitente; é atender, olhar o outro/a, é dizer que em cada sobressalto invernal pode florir uma amendoeira; é perguntar: O que te perturba?” (Simone Weil). Vigiar é atender, qual ato litúrgico expectante de floração em tempos de “esplendor do caos” (Eduardo Lourenço) e de barbárie.

Muitos são os lugares e espaços expressivos do exercício vigilante da vida, de desabrochamento da criatividade adormecida dos humanos. A arte, em sua manifestação profunda da condição humana de outrem (além do contentamento autobiográfico), é uma das expressões onde se poderá exercitar essa “ética da atenção”, do olhar proexistencial e proafetivo, de cuidado das vítimas da voragem mecânica dos mercados e da solidão inóspita do abandono total.

Simone Weil, filósofa e mística de olhos abertos ao drama do homem moderno, dá corpo à «ética da atenção», quando, no seu livro À espera de Deus, escreve que «não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo senão de homens capazes de lhe prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre; é um milagre».

O ato sábio de saber olhar não é algo inato. A visão sim! O olhar exige aprendizagem em profundidade e amplitude. O olhar, se o é, é sempre um olhar atento, de expectação e pasmo diante do que ou de quem nos chega como absolutamente inesperado. Por que será que deixamos de nos espantar? A filosofia é tida como a arte do questionamento, melhor a arte do espanto diante dos fenómenos que vêm até nós à espera de acolhimento interpretativo. Paul Tillich, filósofo e teólogo crente, tem razão quando escreve que «a espera antecipa o que não é ainda real. Se esperarmos com esperança e paciência, o poder daquilo que esperamos age em nós… Nós somos mais fortes na expectativa do que na posse».

Na base da vigilância está a atenção e a meditação. A atenção porque coloca o sujeito em estado de tensão, de atendimento, de mobilização corpórea da sua sensibilidade para o que vem ou que possa advir de qualquer evento, do interior ou do exterior, de si ou da relação intercorpórea com a “carne do mundo”. A meditação porque ela exercita e coloca em ato a mente corpórea, o estar no mundo como devir, como processo, à espera da irrupção do novo que advém imprevisivelmente. A «atenção é uma espera, e não há consciência sem uma certa atenção à vida. O devir é aí: ele chama-nos, ou melhor ele nos atrai para ele; esta tração ininterrupta, que nos faz avançar sobre a rota do tempo, é a causa de agirmos continuamente. Toda a ação está sedimentada sobre o futuro» (Natalie Depraz) que vem inesperadamente até nós.

De igual modo, o neurofisiologia alemão Wolf Singer assegura que a «meditação é um processo muito ativo, que exige atenção em grande medida, como processos de aprendizagem, que levam a mudanças duradouras das redes neuronais respetivas... Atividades do cérebro deixam vestígios» (referência facultada pelo professor Manuel Moreira Costa Santos). Esta atividade meditativa, mobilização sensível toda de si ou de uma comunidade, gera uma prática intercorpórea da atendibilidade. A meditação profunda, exercitada quotidianamente, é um ato de kenose, de descentramento e despojamento de si, que permite imaginar novas realidades e transfigurar a existência a partir da palavra, do gesto, do silêncio, do encontro, da saudade, da promessa ou da angústia…

A experiência de tudo isso, como uma constante e variante existencial, precede as pias formulações inquestionáveis. A experiência cristã vive da parusia, da atendibilidade, e por isso, o crente dirige a sua atenção, o seu olhar, o seu movimento corpóreo singular e comunitário para à vinda do corpo glorioso. Adventus de advenio, advinda, chegada ou vinda (de algo para vir). A conversão do olhar e de acolhimento afetivo do Outro que nos chega, que surpreendentemente nos aparece e advém até nós. Atender é tornar-se disponível para o quotidiano e para a sua possível transfiguração. A atenção é uma espera, que «não possuímos, e por isso mesmo esperamos» (Paul Tillich), na surpresa e no espanto de um novum existencial.

Este ato de espera é simultaneamente passivo-ativo. Passivo porque nos é dado, está para além das nossas capacidades e méritos, tal como recebemos o nosso nascimento passivamente. Ativo porque envolve a pessoa toda, o seu empenho e compromisso ao longo da sua existência com os outros. E, nesse sentido, é um ato livre, consciente e responsável do humano crente, de reciprocidade aceitante ou não daquilo que vem como dom, como oferta e como totalidade.

Para Natalie Depraz, que tem procurado realizar um profícuo entrelaçamento entre fenomenologia, espiritualidades ortodoxa e neurociências, existe uma ética atencional que «é um movimento de abertura orientado para as coisas, para os outros e para o mundo; ser consciente, é ser consciente de qualquer coisa». Esta consciência corpórea, na medida em que o corpo se movimenta no espaço intersubjetivo de relação a outrem, é uma consciência em vigilância, «qualidade de presença a si que é condição de presença justa aos outros».

Esta dimensão particular do tempo que envolve a espera ativa e vigilante, na atenção e na meditação orante, parece ter desaparecido em geral da experiência cristã contemporânea, excetuando algumas e belas experiências monásticas de alto perfil antropológico. Paradoxalmente, o esquecimento de uma “teologia do advento” enquanto “ética da atenção e da vigilância” é o mais puro esquecimento de Deus feito carne, de uma vida crente centrada mais na formulação doutrinária, na organização estrutural (sedimentação do presente) sem profecia nem poesia.

Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, num artigo recente, di-lo doutro modo: «Eis o verdadeiro Natal cristão: nós recordamos o teu nascimento em Belém, Senhor, atendemos a tua vinda gloriosa, acolhemos o teu nascimento em nós, hoje. Por isso o místico do século XVII Angelo Silesio podia afirmar: "Mesmo que Jesus nascesse mil vezes em Belém, se não nasce em ti… tudo é inútil"».

João Paulo Costa
SNPC

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Responder com coragem à incerteza do Futuro

As quatro vias para a espiritualidade cristã contemporânea de Etty Hillesum
parte IV

Um convite a ser corajosos

A coragem talvez fosse a sua maior virtude. Graças à sua coragem, Etty confrontou-se com o seu caos pessoal e encontrou a sua identidade; graças à sua coragem, ela foi mais fundo na sua viagem de exploração, descobrindo o terreno divino do seu coração; graças à sua coragem, Etty recusou-se a odiar; finalmente, graças à sua coragem, recusou-se a esconder-se, optando por abraçar o destino do seu povo e por perder a sua vida. Etty mostra que uma vida verdadeiramente humana vive-se seguindo a vida corajosa e paradoxal da autodescoberta e do autoesvaziamento. Assim, no meio da escuridão, Etty encontrou a alegria e manteve-se viva naquele lugar, apesar do poder da morte.

Nas circunstâncias do nosso tempo, de modo particular no meio do nosso medo e do nosso pessimismo acerca do futuro, Etty também nos convida a viver com coragem.

Os que viveram na década de 1960 poderão olhar para trás - sem dúvida com uma grande dose de nostalgia - recordando-a como um tempo de grande otimismo, libertação e novas experiências; como um tempo de rebentar com o horrível colete de forças de tudo o que inibira a vida através da austeridade dos anos do pós-guerra. A década de 1960 convidou-nos à exploração de um novo futuro. Com a sua cor e os seus excessos, com a sua tentativa de derrubar todas as fronteiras, foi uma década que gerou um sentimento de que vinham lá mudanças e de que tudo era possível.

Cinquenta anos mais tarde, passada a primeira década do século XXI, estamos num lugar muito diferente. Esse espírito de otimismo evaporou-se por completo, dando lugar a um profundo sentido de pessimismo quanto àquilo que o futuro nos reserva. Não é exagerado dizer que muita gente, talvez sobretudo as pessoas mais velhas, sentem - segundo Etty Hillesum - que o mundo «se encontra num estado de colapso». Não do colapso violento e apocalíptico por que ela passou, mas de uma lenta e. contínua desintegração da nossa confiança no futuro.

(...)
Ao falar de um mundo que se ia desintegrando com violência à sua volta, Etty interpela o nosso pessimismo, convidando-nos a ser corajosos. Etty convida-nos a olhar de frente para quaisquer situações difíceis com que possamos confrontar-nos, quer pessoais quer muito mais vastas, e a envolvermo-nos nelas, procurando a vidaatravés desse empenhamento.

Integrando o negativo

No caso de Etty, este empenhamento envolveu a aceitação consciente daquilo que não podia ser evitado, uma firme recusa em entregar-se à ilusão, e o acolhimento percetivo dos desgostos e das perdas. Ela confrontou-se com uma situação que parecia completamente isenta de esperança e integrou em si aquilo que parecia completamente negativo, e isso deixou-a livre para enfrentar o presente com coragem, e para acreditar no futuro com esperança. Nisto consistiu a sua transformação. Foi, como já vimos, uma batalha - Etty refere-se a isso como «uma luta» - mas, com tanta honestidade e coragem ela deixou de ser vítima da sua situação, tornando-se plenamente ela própria, nesse contexto. No princípio de julho de 1942, Etty escreveu:

«Sim, nós transportamos tudo dentro de nós, Deus, o Céu, o Inferno, a Terra, a Vida e a Morte, e toda a história. Os aspetos exteriores são apenas outros tantos apoios; tudo aquilo de que precisamos está dentro de nós. E temos de aceitar tudo o que venha: tanto o mal como o bem, o que não signi­fica que não devamos dedicar a nossa vida a curar o mal.»

Eis uma afirmação extraordinariamente abrangente. Etty afirma que traz «Deus» e o «Céu» dentro de si, e talvez com estas palavras se queira referir a momentos e recordações de paz (no exterior, ao sol, junto ao castanheiro?), ou à amizade (em sua casa?), ou ao entendimento (com Spier?), ou à comunidade (os serões musicais que partilhavam?). Mas também escreve que transporta dentro de si o «Inferno» e a «Morte»: que queria ela dizer com estas palavras? Seria a violência imediata que a cercava? Ou talvez a recordação de amigos que tinham desaparecido de repente? Ou a imagem de casas em ruínas destroçadas pelas bombas? Ou o terror estampado no rosto das crianças? Ou a fome e o medo entre os velhinhos, tão vulneráveis? Ou estaria a referir-se ao futuro com que todos se confrontavam: o sofrimento e a morte num campo de extermínio, que, em seu entender, não podiam ser evitados?

Etty viu tudo isto ou esforçou-se por absorvê-lo. Ela transportava tudo dentro de si. Ela não pretendia alhear-se de tudo o que se estava a passar, nem desviar os olhos do que estava para vir. Tudo isso tinha de ser «transportado» dentro de si. Tudo isso fazia parte dela.

Mas, para o fazer - para aceitar plenamente os factos negativos e para viver com uma abertura tão indefesa frente à totalidade daquilo que a vida nos atira à cara - é preciso ter uma coragem imensa.

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé.
por Patrick Woodhouse, In Etty Hillesum - Uma vida transformada, ed. Paulinas
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Não significar...

Duas ideias sobre Arte
 do nobel da literatura Séamus Heaney

«Não que os artistas sejam profetas, mas frequentemente encontram maneiras de ver e dizer, de novo, chegam a imagens que avançam. Uma nova metáfora que seja verdadeira em relação à realidade faz avançar as coisas»

«Gosto de recordar o episódio de Cristo e da adúltera. Antes de dirigir aos olhos acusadores a frase “quem está sem pecado, atire a primeira pedra”, Cristo desenha um sinal na areia. Para mim esse sinal é a arte. Não significa nada mas cria a pausa; não pode terminar o linchamento nem mudar as intenções do grupo, mas institui um tempo para a concentração»

in SNPC

sábado, 19 de outubro de 2013

O mistério da unidade

Sou um católico aberto a toda a Igreja?

O papa Francisco acentuou esta quarta-feira a importância da unidade dentro de uma Igreja formada por muitas línguas e culturas, e perguntou aos católicos se são sensíveis aos fiéis em dificuldades ou se se fecham no seu grupo e privatizam a fé.

Na audiência geral realizada esta no Vaticano, o papa recordou perante mais de 50 mil pessoas que no Credo, os fiéis professam que «a Igreja é única» e é «unidade em si própria». Excertos da intervenção:

«Se olharmos para a Igreja católica no mundo, descobrimos que compreende quase três mil dioceses espalhadas por todos os continentes: tantas línguas, tantas culturas!»

«A Igreja está espalhada em todo o mundo, e todavia as milhares de comunidades católicas formam uma unidade. Como pode isto acontecer?»

«A Igreja é uma só para todos. Não há uma Igreja para os asiáticos, uma para quem vive na Oceânia; não, é a mesma em todo o lado. É como numa família: pode estar-se longe, disperso pelo mundo, mas os laços profundos que unem todos os seus membros permanecem sólidos, qualquer que seja a distância.»

«Penso, por exemplo, na experiência da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro: naquela interminável multidão de jovens na praia de Copacabana, ouviam-se falar tantas línguas, viam-se rostos de traços muito diferentes entre eles, encontravam-se culturas diversas, e no entanto havia uma profunda unidade, formava-se uma única Igreja, havia e sentia-se unidade.»

«Os pilares» que «sustentam a Igreja e a mantêm unida» são os que estão gravados no Catecismo: «Uma só fé, uma só vida sacramental, uma única sucessão apostólica, uma esperança comum, a mesma caridade.»

«Perguntemo-nos todos: eu, como católico, sinto esta unidade? Eu, como católico, vivo esta unidade da Igreja? Ou não me interessa porque estou fechado no meu pequeno grupo ou em mim próprio? Sou daqueles que “privatizam” a Igreja para o próprio grupo, a própria nação, os próprios amigos?»

«É triste encontrar uma Igreja privatizada por este egoísmo e esta falta de fé. É triste. Quando oiço que tantos cristãos no mundo sofrem, sou indiferente ou é como se sofresse um membro da família? Quando penso ou oiço dizer que muitos cristãos são perseguidos, e até dão a vida pela sua fé, isso toca o meu coração ou não me afeta? Estou aberto àquele irmão ou àquela irmã da família que está a dar a vida por Jesus Cristo?»

«Quantos de vós rezam pelos cristãos que são perseguidos? Quantos? Cada um responda no seu coração: “Rezo por aquele irmão, por aquela irmã, que passa dificuldades por confessar e defender a sua fé?”. É importante olhar para fora do próprio recinto, sentir-se Igreja, única família de Deus.»

«Um cristão, antes de dizer mexericos, dever morder a língua. Isso far-lhe-á bem porque a língua incha e, assim, não se podem dizer mais mexericos. Os mexericos ferem e são motivo de divisão.»
Fontes: Rádio Vaticano, Vatican Insider
Edição/trad.: Rui Jorge Martins in SNPC

segunda-feira, 14 de março de 2011

A frescura da experiência contemplativa

A palavra que leva ao silêncio
É um novo livro que desafia o cristão a viver a sério a Espiritualidade na sua vida diária.
Título: A palavra que leva ao silêncio

Autor: John Main

Editora: Pedra Angular

Ano: 2011

Páginas: 110

ISBN: 978-989-971-193-8



O autor
John Main (1926-1982) nasceu em Londres, no seio de uma família católica irlandesa. Diplomou-se em Direito. Inscreveu-se no Serviço Britânico dos Estrangeiros e foi colocado na Malásia, que se revelaria uma estação providencial. Aí contactou com as formas de meditação e oração orientais. No seu regresso tornou-se monge beneditino.

O seu grande contributo foi recuperar e repropor a experiência contemplativa para as pessoas comuns dentro da tradição cristã. Nos ensinamentos de João Cassiano (século IV) e dos Padres e Madres do Deserto, ele aprofundou o significado da chamada «oração pura» e compreendeu que esta forma de oração poderia facilitar a busca de uma vida espiritual mais profunda.

Em 1977 foi convidado pelo arcebispo de Montreal, Canadá, a fundar um pequeno mosteiro beneditino, dedicado à prática e ao ensino da Meditação Cristã.

in SNPC

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cultivar uma "virtude artificial": maturar a espera que alcança

A Paciência

Para ser sincero, há momentos em que a minha admiração converge toda para a impaciência. Por alguma razão, a mim misteriosa, nunca me pareceu um peso lidar com os impacientes (fossem os outros ou eu próprio). Facilmente se ativa o meu humor perante alguém que ferve em menos água do que aquela que tem um oceano. E, da mesma maneira que me comove a reverência verdadeira, admiro os irreverentes, aprendo com os que se empenham em contrariar indefinidas esperas, agradeço aos que sacodem a estabilidade preguiçosa dos nossos tiques, procuro balançar os motivos dos que dizem “não estou para isso”.

Contudo, acho que descubro sempre mais que a paciência é uma preciosa estação interior na qual todos precisamos maturar. Quando penso na paciência, ancoro muitas vezes na imagem da semente, no desprendimento e na lentidão da semente que aceita a escuridão da terra como condição para florescer. Tanto os que semeiam os campos, como os que depositam sementes nos corações, deveriam primeiro ter formado a alma na paciência. Pois a paciência, ao revelar o escondido processo de germinação da vida, também torna claro que é essa a única forma de cuidar bem dela, de a entender até ao fim, de acompanhá-la, passo a passo, com esperança.

É curiosa a etimologia da nossa palavra “paciência”. Deriva de “passio”, isto é, paixão, no sentido de coisa a suportar, a padecer ou no sentido de resistir. A paciência faz-nos mergulhar, como se vê, no âmago da vida. Deve, é claro, ser ensinada às crianças, mas é uma tarefa para ser levada a cabo por um coração adulto. A paciência pede que apreendamos a complexidade de que somos tecidos, que nos debrucemos sobre esta íntima narrativa tecida de esforço e de graça, de sede e de água, de noite e de riso. Não nos deixa esbracejar à tona do tempo, num simplismo atropelado e ofegante. A paciência pede e dá-nos tempo, dilatando as provisórias metas e juízos que equivocadamente erigimos em absolutos. Há uma harmonia secreta, há um suculento sabor que só colhe da vida aquele que abraça com confiança a demora, a lentidão e a espera. São estas frequentemente as ferramentas da paciência, os instrumentos com que ela transforma a nossa agitação epidérmica em expectação serena e criativa. No fundo, a paciência prova-nos como se provam os metais de valor, averiguando o seu (o nosso) grau de autenticidade.

Santa Teresa de Ávila, segundo o que ela conta de si mesma e no acordo dos seus biógrafos, não possuía um temperamento propriamente paciente. Era abrupta na ação, emotiva nos dilemas e combates, inconsolável no desejo de Deus. A paciência raramente é uma virtude natural. A maior parte das vezes faz-se de decisão e caminho. E por isso a impaciente Teresa escreveu um dos mais belos elogios da paciência:

Nada te turbe
nada te espante
quem a Deus tem nada lhe falta.

A paciência tudo alcança
só Deus basta.

Há também um título de um opúsculo de Kierkegaard que podia-nos acompanhar estrada fora: «Adquirir a sua alma pela paciência». O filósofo dinamarquês recorda-nos a verdade essencial: estamos tanto mais em nós mesmos quanto mais aceitamos o desafio da maturação paciente da existência.

José Tolentino Mendonça

In Diário de Notícias (Madeira), publicado por SNPC

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Silêncio

Na verdade, é preciso querer para se ter um bom silêncio, é preciso querê-lo e dar-lhe valor. Nesse caso, consegue-se sempre. E se uma vez ele é saboreado, fica-se sem se perceber como se podia viver sem ele. É preciso que o silêncio não seja apenas uma coisa exterior, como no caso em que ninguém fala nem se mexe. O silêncio verdadeiro implica que os pensamentos, os sentimentos e o coração estejam igualmente em repouso.

(desconheço a autoria)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Encontro entre religiões através da meditação

XIX ENCONTRO INTER-RELIGIOSO DE MEDITAÇÃO
na Comunidade Bahá’í de Portugal

3ª Feira, 21 de Setembro de 2010, 18H30 (Entrada livre)

A Comunidade Bahá’í de Portugal convida todas as comunidades religiosas, e público em geral.

A recepção será a partir das 18H00 e o Encontro terá início às 18H30 com algumas leituras de textos de cada comunidade presente, seguidos de meditação (25 min.).

Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião, derivam a sua inspiração de uma só Fonte divina e são os súbditos de um único Deus”.

Av. Ventura Terra, 1 – Lisboa (Junto ao Metro de Telheiras)

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

Este blogue também é teu

São benvindos os comentários, as perguntas, a partilha de reflexões e conhecimento, as ideias.

Envia o link do blogue a quem achas que poderá gostar e/ou precisar.

Se não te revês neste blogue, se estás em desacordo com tudo o que nele encontras, não és obrigado a lê-lo e eu não sou obrigado a publicar os teus comentários. Haverá certamente muitos outros sítios onde poderás fazê-lo.

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Os textos e as imagens

Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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