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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Eu e TU

Excerto de homilia sobre Oração e a relação com Deus

Hoje um dos temas das leituras que vamos proclamar é a oração. E a oração que nos diz que a nossa vida é uma vida escutada, o Senhor escuta-nos. Escuta o que dizemos e o que não dizemos, o que somos e o que não conseguimos ser, aquilo que são os nossos sonhos mas também as nossas dúvidas, as nossas hesitações. O Senhor escuta aquilo que nem lhe chegamos a dizer. (...)

Esta é, de facto, a grande força, a grande originalidade dos crentes. É que, para nós, (...) Deus é alguém, Deus é uma presença de amor. (...) E aquilo que nós podemos fazer é comunicar, é entrar em relação, é expormo-nos diante de Deus, é abrirmo-nos na nossa nudez, na nossa vulnerabilidade. É confiarmos tanto que nos entregamos no nosso estar, no nosso falar, no nosso calar, sentindo que Deus é o interlocutor privilegiado das nossas vidas.

O Senhor que criou o universo e os mundos, e o que vemos e o que não vemos, Ele é este “Tu” que eu posso invocar, que eu posso nomear. Por isso, fundamental na oração é o reconhecimento de que Deus é um parceiro da nossa vida, que Deus é um “Tu” a quem nos podemos dirigir. Mas, só há oração verdadeira quando também nós somos um “eu” e sentimos que a nossa vida é também a possibilidade de rezarmos, descobrirmos essa possibilidade dentro de nós.

Às vezes acontece que, sendo cristãos há muitas décadas, há muitos anos ou há pouco tempo, nós ainda não desenvolvemos em nós a capacidade de rezar, nós ainda não descobrimos que somos seres orantes, que temos em nós este dom maravilhoso que é de nos podermos abrir, nos podermos dizer, nos podermos expor em oração.

(...) A verdadeira oração nasce quando nós compreendemos isto: eu sou uma oração, a nossa vida é uma oração. (...) Porque a nossa vida (...)  é um grito, é um apelo, é uma chamada, é um estar diante de Deus. Nós somos continuamente na sua presença, e por isso nós somos uma oração. (...) Antes de tudo, a nossa oração é esta tomada de consciência profunda de que nós estamos diante de Deus e do que isso significa. Porque a nossa vida toda é chamada a exprimir-se, a expressar-se com confiança diante de Deus.

E essa relação, que necessariamente é uma relação de amizade e de amor, que é uma relação de um filho para com o Pai, que é uma relação de criatura para com o Criador, que é uma relação de enamoramento, de confiança, que é uma relação fusional e ao mesmo tempo também uma relação na diferença, porque Deus é Deus e nós somos mulheres e homens, nós somos criaturas, é esta relação fulcral que é no fundo o mistério da oração.

(...) A primeira coisa é: antes de querer aprender orações, aprende que o rezar é respirar, aprende que o rezar é estares diante de Deus, é tomares consciência de que Deus está aqui. Ao longo do nosso dia nós podemos fazer momentos de oração em qualquer lado. O que é um momento de oração que nós construímos? É um momento mais agudo, mais intenso da nossa parte, um momento de consciência, uma tomada de consciência de que nós estamos perante Deus e nessa tomada de consciência há uma qualidade de relação, há uma qualidade de comunicação espiritual que se intensifica e que torna aquele momento um momento precioso, torna aquele momento um momento de comunicação. (...)

A verdadeira oração (...) é a oração que hipoteca todo o nosso ser. (...)

É claro, se nós vivermos com o nome de Jesus nos lábios, se nós vivermos a respirar o nome de Jesus isso transforma a nossa vida por completo, transforma-nos, só pode ser. Nós tornamo-nos uma cristofania, tornamo-nos uma manifestação de Cristo, porque Ele está sempre em nós, a oração é uma habitação. (...) Essa habitação não é habitar numa casa, é habitar no interior de uma relação. O Evangelho de S. João, por exemplo, explica a oração como um permanecer, é uma forma de permanecer. São tudo verbos que mostram o quê? Que a oração tem de ter uma continuidade, que a oração não são as fórmulas que nós dizemos. A oração é um estar, é a nossa vida ser aquilo, ser transformada por aquilo. (...)

Por isso, isto que diz Jesus: O que é a oração? A oração é rezar sem desanimar, oração é insistir na oração, oração é uma insistência com Deus. Quer dizer: a oração é a felicidade da repetição, a felicidade da repetição. Nós estarmos e voltarmos a estar, nós exprimirmos, nós cansarmos Deus com a nossa oração, nós cansarmo-nos a nós mesmos com a nossa oração.

(...) Não podemos fazer depender a oração das nossas sensações, se eu sinto oração, se eu não sinto oração, se eu sinto um eco, uma reverberação luminosa. Nós lemos o diário espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ela diz que nunca sentiu nada, nunca sentiu nada. Nunca teve nenhuma experiência favorável, nunca sentiu o coração cheio, nunca sentiu a alma a transbordar de luz. Pelo contrário, seca, seca, seca como um carapau, seca, seca, seca; nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada. E às vezes a nossa oração é o nada, nada, nada, nada. Ou, como dizia Santa Teresa de Ávila, outra grande mestra da vida espiritual, ela dizia que rezou anos e anos e a oração sabia-lhe a palha – é como estar a comer palha.

(...) A oração é sobretudo uma prática e aí é que nós falhamos. Oração é concretizar oração, oração não é uma filosofia, oração é rezar. Por isso, vamos pedir ao Senhor que reze em nós e nos ajude a rezar. Nos ajude a rezar a nossa vida, nos ajude a rezar uns pelos outros, nos ajude a louvar.

Na nossa peregrinação a Assis eu fiquei muito impressionado quando me dei conta que, o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, que é aquele poema maravilhoso: “Senhor, altíssimo sempre eterno, eu te dou graças pelo sol, eu te dou graças pelo calor, pela água…”, S. Francisco de Assis o escreveu enquanto enfermo e praticamente cego. Nós pensamos que uma pessoa que faz um elogio ao mundo, à beleza do mundo, à beleza da criação é um jovem, está apaixonado, está a agradecer tudo aquilo que ele vive. Não, Francisco de Assis estava cego, estava enfermo, estava a meses da sua morte quando escreveu este que é um testamento espiritual inacreditável. Isto também é alguma coisa que só a força da oração nos permite, que é no fundo uma grande liberdade face até aos contextos adversos e uma compreensão de que nada nos falta.

Às vezes andamos com carências enormes, com fomes, com necessidades imaginárias e reais, não importa, a oração enche o nosso coração. A experiência de oração é também a experiência de que nada nos falta e que o encantamento pela vida não depende de estarmos a viver tempos cor-de-rosa, S. Francisco já não via nada e ele via tudo.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXIX do Tempo Comum

Ler na íntegra em Capela do Rato

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Excerto da homilia do papa Francisco, missa de abertura do sínodo dos bispos 2015

Igreja: chamada a não apontar o dedo para julgar

O papa afirmou hoje, no Vaticano, que a Igreja é chamada a viver a sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas, fiel à sua natureza de mãe, sente-se no dever de procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia».

Na missa de inauguração do Sínodo dos Bispos, dedicado à família, que decorre no Vaticano até 25 de outubro, Francisco vincou que a Igreja deve ser «capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida», e tendo sempre presente que «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado».

Na homilia, perante os cardeais, bispos, padres e leigos que participarão no Sínodo, Francisco citou o papa S. João Paulo II, para quem «o erro e o mal devem sempre ser condenados e combatidos, mas o homem que cai ou que erra deve ser compreendido e amado».

«Uma Igreja com as portas fechadas atraiçoa-se a si mesma e à sua missão e, em vez de ser ponte, torna-se uma barreira», assinalou Francisco.


por Rui Jorge Martins a 4 de Outubro de 2015 in SNPC

sábado, 26 de abril de 2014

O diabo existe?

O «deus dinheiro» marca celebração da Paixão no Vaticano

O pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa, proferiu esta Sexta-feira Santa, no Vaticano, uma intervenção veemente contra o mal causado pelo «deus dinheiro», tendo questionado a corrupção e o desequilíbrio na distribuição da riqueza, nomeadamente entre administradores de empresas e os seus trabalhadores.

A intervenção do sacerdote italiano na celebração da Paixão de Jesus presidida pelo papa Francisco, na basílica de S. Pedro, baseou-se no dinheiro que Judas recebeu dos sumos-sacerdotes e oficiais do templo de Jerusalém para trair Jesus e entregá-lo às autoridades.

O religioso franciscano capuchinho lembrou que Judas começou por «roubar um pouco de dinheiro da bolsa comum», tendo a seguir questionado: «Isso não diz nada a certos administradores do dinheiro público?»

«Homens colocados em lugares de responsabilidade que deixaram de saber em que banco ou paraíso fiscal acumular os rendimentos da sua corrupção encontraram-se no banco dos réus, ou na cela de uma prisão, precisamente quando estavam para dizer a si próprios: “Agora regala-te, alma minha”», afirmou.

Mesmo «sem pensar nesses modos criminosos de ganhar dinheiro», é «escandaloso que alguns recebam salários e pensões cem vezes maiores do que daqueles que trabalham ao seu serviço» e que «levantem a voz mal se perfile a eventualidade de ter que renunciar a algo, em vista de uma maior justiça social».

«O apego ao dinheiro é a raiz de todos os males», acentuou o padre Cantalamessa, acrescentando que «por trás de todo o mal» da sociedade «está o dinheiro, ou pelo menos está também o dinheiro».

Seguiram-se os exemplos: «O que está por trás do tráfico de droga que destrói tantas vidas humanas, a exploração da prostituição, o fenómeno das várias máfias, a corrupção política, o fabrico e o comércio das armas, e até - coisa horrível de se dizer - a venda de órgãos humanos extraídos das crianças?».

«E a crise financeira que o mundo atravessou e que este país [Itália] ainda está a atravessar, não é, em grande parte, devida à "deplorável ganância por dinheiro" (…) por parte de alguns poucos?», interrogou.

«Quem é o verdadeiro inimigo, o concorrente de Deus, neste mundo? Satanás? Mas nenhum homem decide servir Satanás sem motivo. Se o faz, é porque acredita obter dele algum poder ou benefício temporal», afirmou.

«Quem é, nos factos, o outro senhor, o anti-Deus, Jesus no-lo diz claramente: “Ninguém pode servir a dois senhores: não podeis servir a Deus e a Mamona” O dinheiro é o "deus visível", em oposição ao verdadeiro Deus, que é invisível», acrescentou.

por Rui Jorge Martins in SNPC a 18.04.14

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Igreja: um banquete para todos?

Papa Francisco fala sobre comunhão, festa, cristianismo e Igreja
publicado em e por Rumos Novos a 7 de Novembro de 2013

No âmago do Cristianismo encontra-se um convite para o banquete do Senhor. Esta foi a mensagem do Papa Francisco na Missa desta manhã (5 de novembro) na Casa de Santa Marta. O papa disse que a Igreja “não é somente para pessoas boas”, pois o convite para ser parte dela diz respeito a toda a gente. Acrescentou que devemos “participar integralmente” no banquete do Senhor e com toda a gente. Não podemos tirar e escolher. Os cristãos, disse o Papa, não se podem contentar em constar simplesmente da lista de convidados: não participar integralmente é o mesmo que lá não estar.

As leituras do dia, disse o Papa, são a identidade do cristão e destacou que “antes de mais, a essência cristã é um convite: somente nos tornamos cristãos se formos convidados.” É um “convite grátis” à participação que Deus nos faz. Não podemos pagar para entrar no banquete, avisou ainda: “ou se é convidado ou não podemos entrar,” Se “na nossa consciência”, disse, “não tivermos esta certeza de sermos convidados” então “não compreendemos o que é ser cristão”: “Um cristão é alguém que é convidado. Convidado para quê? Para uma loja? Para ir dar um passeio? O Senhor pretende dizer-nos algo mais: És convidado a juntar-te ao banquete, à alegria de seres salvo, à alegria de seres perdoado, à alegria de partilhar a vida com Cristo. Isto é uma alegria! És convocado para uma festa! Um banquete é uma reunião de pessoas que caminham, riem, celebram, estão felizes juntas. Nunca vi ninguém fazer uma festa sozinho. Isso seria muito aborrecido, não é verdade? Abrir a garrafa de vinho… Isso não é uma festa, é outra coisa qualquer. Temos de festejar com outros, com a família, com os amigos, com aqueles que foram convidados, tal como eu fui convidado. Ser cristão significa pertencer, pertencer a este corpo, às pessoas que foram convidadas para o banquete: isto é a pertença cristã.”

Voltando-se para a carta aos romanos, o Papa afirmou então que este banquete é um “banquete de unidade”, tendo sublinhado o facto de todos terem sido convidados, “os bons e os maus”. E os primeiros a serem convidados são os marginalizados: “A Igreja não é somente a Igreja para as pessoas boas. Será que queremos descrever quem pertence à Igreja, a este banquete? Os pecadores. Todos nós pecadores estamos convidados. Neste momento há uma comunidade que tem diversos dons: um tem o dom da profecia, outro o do ministério… Todos temos qualidades e forças. Porém, cada um de nós traz para o banquete um dom comum. Cada um de nós é chamado a participar integralmente no banquete. A existência cristã não pode ser compreendida sem esta participação. “Eu vou ao banquete, mas não passo da antecâmara porque somente quero estar com as três ou quatro pessoas com as quais estou mais familiarizado…”. Não podemos fazer isto na Igreja! Ou se participa integralmente ou ficamos no exterior. Não podemos selecionar e escolher: a Igreja é para todas as pessoas, a começar por aquelas que já referi: as mais marginalizadas. É a Igreja de toda a gente!”

Falando acerca da parábola na qual Jesus disse que alguns dos que foram convidados começaram a encontrar desculpas, o Papa Francisco disse: “Eles não aceitam o convite! Dizem ‘sim’, porém as suas ações dizem ‘não’.” Estas pessoas, disse o Papa, “são cristãos que se contentam em estar na lista de convidados: cristãos escolhidos.” Porém, avisou, isto não é suficiente, porque se não participamos não somos cristãos. “Estávamos na lista,” disse, mas isto não é suficiente para a salvação! Isto é a Igreja: entrar na igreja é uma graça; entrar na Igreja é um convite.” E este direito, acrescentou, não pode ser comprado. “Entrar na Igreja”, disse, “é tornar-se parte duma comunidade, a comunidade da Igreja. Entrar na Igreja é participar em todas as virtudes, as qualidades que o Senhor nos deu no nosso serviço de uns pelos outros.” O Papa Francisco continuou, “Entrar na Igreja significa ser responsável por aquelas coisas que o Senhor nos pede.” Finalmente, acrescentou, “entrar na Igreja é entrar neste povo de Deus, na sua caminhada em direção à eternidade.” Ninguém, avisou, é o protagonista da Igreja: mas temos UM,” que fez todas as coisas. Deus “é o protagonista!” Nós somos os seus seguidores… e “aquele que não O segue é aquele que se exclui a si próprio” e não vai ao banquete.

O Senhor é muito generoso. O Senhor abre todas as portas. O Senhor compreende igualmente aqueles que Lhe dizem, “Não, Senhor, eu não quero ir contigo.” Ele compreende e espera-os, porque é misericordioso. Porém, o Senhor não gosta daqueles que dizem ‘sim’ e fazem o contrário; que pretende agradecer-Lhe por todas as coisas boas; que têm bons modos, mas que seguem o seu próprio caminho e não o caminho do Senhor: aqueles que sempre apresentam desculpas, aqueles que não conhecem a alegria, que não experimentam a alegria da pertença. Peçamos ao Senhor esta graça da compreensão: o quão maravilhoso é ser-se convidado para o banquete, o quão maravilhoso é tomar parte nele e partilhar as nossas qualidades, o quão maravilhoso é estar-se com Ele e o quão errado é oscilar entre o ‘sim’ e o ‘não’, para dizer ‘sim’, mas contentar-se em ser simplesmente um cristão de fachada.

Artigo original: NEWS.VA
Tradução: José Leote (Rumos Novos)

sábado, 2 de novembro de 2013

Comunhão e partilha

Homilia de Francisco no Corpo de Deus

Não devemos ter medo da solidariedade, diz papa, que pede comunhão e partilha

«Caros irmãos e irmãs, no Evangelho que escutámos, há uma expressão de Jesus que me impressiona sempre: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Lc 9,13). Partindo desta frase, deixo-me guiar por três palavras: seguimento, comunhão, partilha.

1. Antes de tudo: quem são aqueles a quem dar de comer? Encontramos a resposta ao início do trecho evangélico: é à multidão. Jesus está no meio das pessoas, acolhe-as, fala-lhes, cura-as e mostra-lhes a misericórdia de Deus. No meio delas escolhe os doze apóstolos para estarem com Ele e se imergirem como Ele nas situações concretas do mundo. E as gentes seguem-no, escutam-no porque Jesus fala e age numa maneira nova, com a autoridade de quem é autêntico e coerente, de quem fala e age com verdade, de quem dá a esperança que vem de Deus, de quem é revelação do rosto de um Deus que é amor. E as gentes, com alegria, bendizem Deus.

Esta noite somos nós a multidão do Evangelho; também nós procuramos seguir Jesus para o ouvir, para entrar em comunhão com Ele na Eucaristia, para o acompanhar e para que nos acompanhe. Perguntemo-nos: como é que eu sigo Jesus? Jesus fala em silêncio no mistério da Eucaristia e todas as vezes nos recorda que segui-lo quer dizer sair de nós mesmos e fazer da nossa vida não uma possessão nossa mas um dom a Ele e aos outros.

2. Demos um passo em frente: de onde nasce o convite que Jesus faz aos discípulos para que tirem eles mesmos a fome à multidão? Nasce de dois motivos: em primeiro lugar da turba que, seguindo Jesus, se encontra em campo aberto, longe de lugares habitados, enquanto se faz noite; e, depois, da preocupação dos discípulos que pedem a Jesus para despedir as pessoas para que vá para as terras vizinhas para encontrar alimento e alojamento (cf. Lc 9,12). Diante da necessidade da multidão, eis a solução dos discípulos: que cada um pense em si próprio; despedir a multidão! Quantas vezes nós, cristãos, temos esta tentação. Não fazemos caso da necessidade dos outros, despedindo-os com um piedoso «Que Deus te ajude", ou com um não tão piedoso "Boa sorte"...

Mas a solução de Jesus vai noutro sentido, um sentido que surpreende os discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Mas como é que é possível sermos nós a dar de comer a uma multidão? «Só temos cinco pães e dois peixes, a menos que vamos nós comprar alimento para toda esta gente» (Lc 9,13). Mas Jesus não se desencoraja: pede aos discípulos para fazerem sentar as gentes em comunidades de cinquenta pessoas, levanta os olhos ao céu, recita a bênção, parte os pães e dá-os aos discípulos para que os distribuam (cf. Lc 9,16). É um momento de profunda comunhão: a multidão saciada pela palavra do Senhor é agora alimentada pelo seu pão de vida. E todos foram saciados, nota o evangelista (cf. Lc 9,17).

Esta noite, também nós estamos à roda da mesa do Senhor, à mesa do sacrifício eucarístico, no qual Ele nos dá mais uma vez o seu Corpo, torna presente o único sacrifício da cruz. E na escuta da sua palavra, no nutrir-se do seu Corpo e do Seu Sangue, que Ele nos faz passar do ser multidão ao ser comunidade, do anonimato à comunhão. A Eucaristia é o sacramento da comunhão, que nos faz sair do individualismo para vivermos juntos o seguimento, a fé nEle. Devemos então perguntar-nos diante do Senhor: como vivo eu a Eucaristia? Vivo-a de modo anónimo ou como momento de verdadeira comunhão com o Senhor, mas também com todos os irmãos e irmãs que partilham esta mesma mesa? Como são as nossas celebrações eucarísticas?

3. Um último elemento: de onde nasce a multiplicação dos pães? A resposta está no convite de Jesus aos discípulos: «Dai vós mesmos...», "dar", partilhar. O que é que os discípulos partilham? O pouco que têm: cinco pães e dois peixes. Mas são precisamente aqueles pães e aqueles peixes que nas mãos do Senhor tiram a fome a toda a multidão. E são os próprios discípulos, perplexos diante da incapacidade dos seus meios, na pobreza do que podem colocar à disposição, a fazer acomodar as pessoas e a distribuir - confiando-se na palavra de Jesus - os pães e peixes que alimentam a multidão. E isto diz-nos que na igreja, mas também na sociedade, uma palavra chave de que não devemos ter medo é «solidariedade», saber colocar à disposição de Deus o que temos, as nossas humildes capacidades, porque só na partilha, no dom, a nossa vida será fecunda, dará fruto. Solidariedade: uma palavra malvista pelo espírito do mundo.

Esta noite, mais uma vez, o Senhor distribui para nós o pão que é o seu Corpo, faz-se dom. E também nós experimentamos a "solidariedade de Deus" com o homem, uma solidariedade que nunca se esgota, uma solidariedade que não cessa de nos surpreender: Deus faz-se próximo de nós, no sacrifício da cruz abaixa-se, entrando na escuridão da morte para dar-nos a sua vida, que vence o mal, o egoísmo e a morte. Jesus também esta noite dá-se-nos na Eucaristia, partilha o nosso próprio caminho, faz-se alimento, o verdadeiro alimento que sustém a nossa vida mesmo nos momentos em que o caminho se torna duro e os obstáculos abrandam os nossos passos. E na Eucaristia o Senhor faz-nos percorrer o seu caminho, o do serviço, da partilha, do dom, e aquele pouco que temos, aquele pouco que somos, se partilhado, torna-se riqueza, porque o poder de Deus, que é o do amor, desce à nossa pobreza para a transformar.

Perguntemos então esta noite, adorando o Cristo presente realmente na Eucaristia: deixo-me transformar por Ele? Deixo que o Senhor que se dá a mim, me guie a sair cada vez mais do meu pequeno espaço, a sair e a não ter medo de dar, de partilhar, de amar a Ele e aos outros?
Irmãos e irmãs: seguimento, comunhão, partilha. Rezemos para que a participação na Eucaristia nos leve sempre: a seguir o Senhor a cada dia, a sermos instrumentos de comunhão, a partilhar com Ele e com o nosso próximo aquilo que somos. Então a nossa existência será verdadeiramente fecunda. Ámen.»

Papa Francisco
Solenidade do Corpo de Deus, Roma, 30.5.2013
in SNPC (trad.) a 31.05.13

terça-feira, 21 de maio de 2013

D. Manuel Clemente e o Pentecostes

Fazer a paz, reconciliar sempre

(...) Um cristão, batizado e crismado, tem (...) uma única tarefa e missão: fazer a paz, reconciliar sempre. Oiçamos de novo: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados…”. Sim, é verdade, que a reconciliação sacramental é feita pela Igreja através dos ministros ordenados, na sucessão do ministério apostólico. Mas o Espírito de Cristo, que todos recebemos e hoje reforça em vós a Sua presença, (...) conta convosco para a obra de reconciliação universal que, de algum modo, a todos incumbe. (...) Deixai-O trabalhar então, realizando em vós aquela absoluta unidade de inteligência e vontade, sensibilidade e propósito que havia em Cristo, Filho de Deus e homem perfeito. E (...) acontecerá em vós como aconteceu em tantos homens e mulheres que o Espírito fez santos, a mais linda e urgente aventura: gente reconciliada para reconciliar o mundo. Gente de perdão, para retomar as vidas, primavera final dum recomeço sem retorno. (...)
Contrariamente ao que se diga, todos somos insubstituíveis, e o que cada um não fizer, por fazer ficará, nesse modo e ocasião. Deixai-me pedir-vos (...): - Acolhei o que o Espírito vos pedir, no fundo da consciência e na interpelação da Igreja. Tem alguma razão o nosso povo, quando diz que “cada qual é para o que nasce”; mais razão há decerto para que o Espírito requeira de cada um de vós a coincidência da vida com uma vocação específica. Na vida laical ou na vida religiosa, no sacerdócio ou na missão, para cada um de vós o Espírito tem um segredo e um apelo. Escutai-O hoje, que para tal o recebereis de seguida. Aí encontrareis a felicidade, que só reside na vontade de Deus. Aí a encontrarão tantos outros, que esperam o vosso sim. O Espírito em vós, para a salvação do mundo. Nada menos do que isso e precisamente assim. Amen!»

11.5.2008
Responder às difíceis circunstâncias da sociedade

«E este mundo que nos toca, caríssimos irmãos, este mundo que hoje nos toca a todos, precisa tanto de ser recriado pelo Espírito de Deus! Amados irmãos, (...) percebei o que verdadeiramente se oferece neste Pentecostes do Espírito. Em Cristo, Deus reabilita a humanidade, esta mesma que cada um transporta e concretiza, tão magnífica de potencialidades e tão tragicamente desmentida por tantas contradições íntimas e sociais. Em Cristo, a nossa vida é vivida de forma novamente bela e finalmente refeita, segundo o desígnio de Deus.
Só por isso seremos plenamente cristãos. Reconhecemos em Cristo o que profundamente desejamos ser. Desde o batismo, o seu Espírito atesta em nós que tal é possível. E que nem conseguimos imaginar a totalidade cristã a que o Espírito nos levará… (cf. Ef 3, 20). (...) Prosseguirá através de vós a obra de Cristo no mundo, na força recriadora do Espírito divino. Precisamente assim é que a Igreja de Cristo responde atualmente à expectativa de todos, nas difíceis circunstâncias da sociedade que integramos e onde havemos ser “sal” de conservação e sabor, assim como “luz” de esclarecimento e ânimo (cf. Mt 5, 13-16).»
Sé do Porto, 12 de junho de 2011
Beija a tua cruz e ela há-de florir

«(...) O que aconteceu há dois mil anos com Jesus de Nazaré foi bom de mais, verdadeiro de mais, belo de mais, para que pudesse ficar morto e sepultado como naquela trágica sexta-feira…
E realmente não ficou assim. Este “realmente” refere-se à ressurreição de Jesus, hoje aqui connosco, como na alvorada primeira da Páscoa de que vivemos. Quando repetimos convictamente “Ele está no meio de nós!”, sabemos o que dizemos e experimentamos a vitória de Cristo sobre a morte; a dele e a nossa, como sucede e sucederá também. (...) Cinquenta dias depois da Páscoa (passadas 7 semanas de 7 dias, tempo pleno da colheita pascal), o Espírito que movia Jesus - por isso mesmo “Cristo”, ungido pelo Espírito de Deus - desceu sobre os discípulos para que nada se perdesse do que dissera e nada findasse do que fizera e o Evangelho continuasse, como continua agora, porque “nós também damos testemunho”.
Caros crismandos: Recebereis o Espírito para testemunhar a Cristo e ao seu Evangelho. Há tanta gente à vossa volta que espera de vós o testemunho de Cristo, mais ou menos conscientemente o espera. Não desiludais a esperança do mundo, agora porventura mais insistente ainda. Cada um de vós demonstrará que com Cristo é possível, porque a sua ressurreição é o indubitável futuro do mundo. Na escola e no trabalho – ou na recriação deste –, na família e na comunidade cristã, aqui ou onde for, um crismado é sinal vivo da vitória de Cristo, esperança fundada do futuro que será, certamente será.
Caríssimos irmãos, fragilizados por qualquer enfermidade ou circunstância: O Espírito reproduzirá em vós o sentimento e a fortaleza com que Cristo suportou a fragilidade humana, fazendo mesmo dela instrumento e meio da nossa redenção.
Ofereceram-me há dias uma cruz com esta inscrição: “Beija e tua cruz e ela há de florir”. Dum modo que dificilmente se explica, mas realmente se vive, há dois milénios que o Espírito nos ensina que é assim. A vida salva-se como é, tão magnífica como frágil, qual cálice do vidro mais perfeito. Esse mesmo cálice da nossa vida frágil bebeu-o Jesus, garantindo-nos a sua comunhão absoluta com o que somos e nele havemos de ser. Não temos propriamente um seguro de vida, mas em Cristo temos a vida segura em Deus. Isso nos segreda o seu Espírito e isso mesmo testemunhamos nós, na paz e na esperança. Oferecemos com Cristo o pouco que somos, ganhamos com Cristo o tudo de Deus.
Sé e Vila d’Este, 27 de maio de 2012
D. Manuel Clemente
In Diocese do Porto
publicado por SNPC

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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Os textos e as imagens

Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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