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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

O que procuras?

Quando nos aproximamos de Deus, temos de clarificar o que procuramos

Um vizinho encontrou o Sr. Simão de gatas, em plena rua, à procura de alguma coisa no chão. «Que procuras, amigo?» Simão, erguendo o olhar como quem pede ajuda, respondeu: «A minha chave. Perdi-a». Por isso o bom vizinho ajoelhou-se ali mesmo e os dois puseram-se à procura da chave perdida. Passado largo tempo, o vizinho perguntou-lhe: «Onde a perdeste?». Simão, quase como se se desculpasse, com uma voz que saía para dentro, respondeu: «Dentro de casa». «Santo Deus! Então porque é que andamos à procura no meio da rua?» «Porque aqui há mais luz» (tomado com alguma liberdade criativa de Anthony de Mello, “O canto do passáro”).

É uma verdade bastante óbvia, mas estou convencido de que não só é importante saber o que estamos à procura, como também ter claro onde o fazer; quando queremos aproximar-nos de Deus temos de clarificar primeiro o que é que procuramos, o que é que queremos dele; por que o invocamos, o que lhe pedimos... Mas isto não basta. Também é importante definir muito bem onde o vamos procurar; porque pode ser que haja lugares aparentemente iluminados que nos parecem mais próprios para encontrar Deus; e, todavia, Ele pode estar à nossa espera noutro lugar menos luminoso, como a nossa vida normal e quotidiana.

Costumo começar a experiência dos Exercícios Espirituais perguntando às pessoas «o que procuram?», porque me parece fundamental que cada uma estabeleça o seu próprio encontro com o Senhor esclarecendo, para si mesma, o que a leva a procurá-lo. As motivações que se desvelam diante de nós são muito variadas e, muitas vezes, contraditórias. O milagre que essa experiência realiza é muito simples: quando aclaramos o que procuramos, quando dizemos que procuramos Deus, então começa a concretizar-se o lugar onde o devemos procurar.

Uma pergunta como esta foi a que Jesus lançou um dia a dois dos discípulos de João Batista, que o seguiam pelo caminho: «Que procurais?» Eles disseram: «Mestre, onde vives?». A resposta foi: «Venham e vejam». A Igreja propõe-nos este texto do Evangelho porque quer suscitar em nós a fome do encontro com Deus e o desejo de saber mais dele. Peçamos-lhe (...) que Ele nos mostre onde vive, para que o conheçamos cada vez mais, para que mais o amemos e o sigamos nas nossas vidas. O importante é não acabarmos como o protagonista da história, procurando onde Ele não está.

P. Hermann Rodríguez Osorio, S.J.
Decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Xaveriana, Bogotá, Colômbia
In "Periodista Digital"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins
Publicado em 22 de Janeiro de 2015 in SNPC

sexta-feira, 23 de março de 2018

5ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

A sede de Jesus

«A sede de Jesus”, sinal da sede existencial do ser humano, esteve no centro da quinta meditação dos exercícios espirituais do papa Francisco e da Cúria Romana (...).

O poeta e teólogo português referiu-se à sede de Jesus na hora em que foi crucificado, «prova da sua incarnação» e «sinal do realismo da sua morte», e à sede simbólica e espiritual, constituem a «chave vital de acesso» para colher o sentido profundo da sua vida e morte.

O evangelista João menciona três vezes a expressão «ter sede», além daquela assinalada no Calvário. Quando Jesus encontra a samaritana, diz-lhe: «Quem bebe desta água terá de novo sede; mas quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede».

Depois, no discurso do pão da vida, Jesus declara: «Quem vem a mim não terá fome e quem crê em mim não terá sede, nunca!». Por fim, durante a festa das Tendas, Jesus anuncia: «Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim».

A sede da samaritana


«No encontro com a samaritana há uma troca de papéis que não pode passar desapercebido», apontou o pregador: Jesus pede de beber mas é Ele quem dará a beber. A samaritana não entende logo as palavras de Jesus, interpretando-as como referidas a uma sede física. Mas desde o início Jesus jogava com um sentido espiritual.

O desejo de Jesus aponta sempre para uma outra sede, como explicou à mulher: «Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz “dá-me de beber”, tu ter-lhe-ias pedido a Ele e Ele te teria dado água viva”».

A sede no Calvário
No Calvário Jesus manifesta o seu desejo de beber, mas não é compreendido e em vez de água recebe vinagre; depois de o ter recebido, diz «está cumprido» e, inclinada a cabeça, restitui o espírito.

«A sede é assim o selo do cumprimento da sua obra e, ao mesmo tempo, do desejo ardente de fazer dom do Espírito, verdadeira água viva capaz de dessedentar radicalmente a sede do coração humano», observou o vice-reitor da Universidade Católica.

Ter sede é crer em Cristo
Ainda na festa das Tendas, explicita-se que ter sede «é crer em Jesus» e que beber é ir a Cristo.

«Na verdade, a sede de que Jesus fala é uma sede existencial, que se aplaca fazendo convergir a nossa vida com a sua. Ter sede é ter sede dele. Somos assim chamados a viver de uma centralidade em Cristo: sair de nós próprios e procurar nele essa água que extingue a nossa sede, vencendo a tentação de auto-referencialidade que tanto nos adoece e tiraniza».

A carência de sentido e o desejo de salvação

A sede de Jesus permite, portanto, «compreender a sede que habita o coração humano e dispor-nos a servi-la», respondendo «à sede de Deus, à carência de sentido e de verdade, ao desejo que subiste em cada ser humano de ser salvo, ainda que seja um desejo oculto ou esteja sepultado sob os detritos existenciais».

Romper as cadeias e libertar as energias para dar esperança
Como ensina Madre Teresa de Calcutá, as palavras de Jesus «tenho sede», presentes em todas as capelas das Missionárias da Caridade, por ela fundada, «não dizem respeito apenas ao passado, mas estão vivas hoje».

A sede de Jesus «é romper as cadeias que se fecham na culpabilidade e no egoísmo, impedindo-nos de avançar e de crescer na liberdade interior».

«A sua sede é libertar as energias mais profundas ocultas em nós, para que possamos tornar-nos homens e mulheres de compaixão, artesãos da paz como Ele, sem fugir ao sofrimento e aos conflitos do nosso mundo fragmentado, mas tomando o nosso lugar e criando comunidades e espaços de amor, de modo a levar uma esperança a esta terra», declarou.

Roberta Gisotti In Vatican News

Tradução e edição em SNPC
Ler 4ª meditação

quinta-feira, 22 de março de 2018

4ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Quando renunciamos à sede começamos a morrer

A acédia, estado de apatia, desânimo, fraqueza, tristeza e melancolia, é o contrário da sede e do desejo de vida: foi este o tema que esteve no centro da meditação proposta na manhã desta quarta-feira pelo P. José Tolentino Mendonça durante os exercícios espirituais da Quaresma que o papa Francisco e membros da Cúria Romana estão a realizar em Ariccia (...).

«Quando renunciamos à sede, então começamos a morrer. Quando desistimos de desejar, de encontrar gosto nos encontros, nas conversa, nos intercâmbios, na saída de nós mesmos, nos projetos, nos trabalhos, na própria oração», apontou o poeta e biblista português na sua quarta reflexão.

Este desânimo que atinge a relação com Deus tem outros sintomas: «Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito, e tudo nos soa como um requentado “déjà vu” que consideramos como um peso inútil, incongruente e absurdo, que nos esmaga».

Parece que a vida que «eu vivo» é a de outra pessoa, recordava Kierkegaard (séc. XIX), enquanto que Evágrio Pôntico (séc. IV) falava do «demónio da acédia» e S. João Cassiano (sécs. IV-V) recordava as consequências na vida dos monges: uma insatisfação profunda que leva à perda do entusiasmo.

A própria exortação apostólica “Evangelii gaudium”, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, do papa Francisco, adverte para os efeitos nefastos da «psicologia do túmulo», «que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu» e pode conduzir «a uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como o mais precioso elixir do demónio».

Os estados depressivos não se curam só com comprimidos

A contemporaneidade «medicalizou a acédia, enfrentando-a como uma patologia que deve ser tratada do ponto de vista psiquiátrico». «Mesmo dentro de um quadro clínico, é evidente que a acédia ou os estados depressivos» não se podem curar só com «pastilhas», mas «devem envolver na cura a pessoa inteira».

«Há muitos sofrimentos ocultos cuja origem devemos descobrir que se radica no mistério da solidão humana», e nesse contexto pertencem também ao domínio do itinerário espiritual (...).

O “burnout”: Um esgotamento emocional


Há também outro problema que «se amplia cada vez mais», o “burnout”, que literalmente significa “queimar-se”, um esgotamento emocional que pode atingir inclusivamente os sacerdotes.

Em geral, quando uma pessoa se sente abandonada, permanece apenas um vazio, que se enche com angústia ou com falsos paliativos, como a mundanidade, o álcool, as redes sociais, o consumismo ou a hiperatividade. Há quem traga as feridas de lutas ou fracassos, do abandono ou abusos quando eram crianças, da pobreza económica, da guerra.

Jonas, Jacob e o jovem rico

São três as figuras que podem fazer compreender esta dinâmica. Na história de Jonas vê-se como o diálogo entre surdos é muitas vezes o que caracteriza a nossa relação com Deus, na qual não se ouve porque se está «relutante ao conteúdo da vontade de Deus», à lógica da sua misericórdia.

Jacob, ao contrário, lutou com Deus até ao amanhecer: há nele um desejo de vida, enquanto que Jonas é «caprichoso», colide com o desejo de vida de Deus, que quer introduzir todos os seres humanos numa relação existencial nova.

A tristeza ligada à acédia recorda também a do jovem rico, que obedecia a todos os mandamentos mas na hora decisiva prefere os seus bens, em vez da aventura aberta de viver na confiança. «Não é raro que a nossa tristeza provenha desta incapacidade», afirmou o P. Tolentino Mendonça.

Urge fazer um exame sobre a desvitalização do desejo: nem sempre o problema é o excesso de atividade, mas o não ter as motivações adequadas.

Amar como Jesus
A resposta à acédia está em Jesus. O laço com Ele passa necessariamente pela configuração na Paixão. Na palavra da esposa do Apocalipse, «vem», revela-se a necessidade profunda que a Igreja experimenta em relação à vinda do Espírito, como destacava também Simone Weil.

«Nesta palavra está a marca de tudo aquilo de que temos necessidade, a razão do nosso grito, a razão da nossa esperança e, muitas vezes, a razão da nossa desesperança, do nosso fracasso, do nosso cansaço, e a necessidade de superar tudo isto em Deus.

Aquele a quem dizemos “vem!” é o mesmo que nos diz: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei alívio. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim”», assinalou o P. Tolentino Mendonça.

Debora Donnini In Vatican News

Tradução e edição de SNPC
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3ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Egon Schiele, 1910
Dei-me conta de estar com sede

A sede de Deus e a capacidade de a reconhecer estiveram no centro da segunda meditação de hoje do P. José Tolentino Mendonça, pregador dos Exercícios Espirituais para o papa e a Cúria Romana que decorre até sexta-feira em Ariccia, próximo do Vaticano.

O poeta e teólogo português apontou, sob o título «dei-me conta de estar com sede», a predisposição de alma e os instrumentos necessários para interpretar o desejo de Deus que está em nós, a contemplá-lo e a educá-lo para valorizar a espiritualidade da sede. Neste contexto, o biblista sublinhou que «entrar em contacto com a própria sede não é uma operação fácil, mas se não o fazemos a vida espiritual perde adesão à nossa realidade».

Tomar consciência da nossa sede

Temos por isso de perder o medo de reconhecer a nossa sede e a nossa secura. Como primeira ação, o P. Tolentino exortou a não se intelectualizar demasiadamente a fé:

«Construímos um fenomenal castelo de abstrações. Não é por acaso que a teologia dos últimos séculos se deteve tanto tempo a debater as questões levantadas pelo Iluminismo e se tenha afastado das colocadas, por exemplo, pelo Romantismo, como as da identidade, coletiva e pessoal, do emergir do sujeito ou do mal de viver.

Estamos mais preocupados com a credibilidade racional da experiência da fé do que com a sua credibilidade existencial, antropológica e afetiva. Ocupamo-nos mais da razão do que do sentimento. Deixamos para trás das costas a riqueza do nosso mundo emocional».

O ser humano é uma «mistura de muitas componentes emocionais, psicológicas e espirituais, e de todas devemos ganhar consciência». Assim como a vida espiritual não é prefabricada mas está «envolvida na radical singularidade de cada sujeito».

Falar da sede é falar da existência real, e não da ficção de nós mesmos à que tantas vezes nos adaptamos, é iluminar uma experiência, mais do que um conceito. Por isso é preciso sacudir o torpor quotidiano porque «pode acontecer que tenhamos a maior dificuldade até mesmo de admitir que estamos com sede». Um dos requisitos para receber a água da vida é reconhecermo-nos com sede.

Interpretar a sede

Depois de tomar consciência da própria sede, é preciso interpretar esta necessidade que existe em nós. O P. Tolentino evidenciou que nesta fase deve distinguir-se o desejo de uma mera necessidade, que se aplaca e se satisfaz com a posse de um objeto:
«Não confundamos o desejo com as necessidades. O desejo é uma falta nunca completamente satisfeita, é uma tensão, uma ferida sempre aberta, uma interminável exposição à alteridade. O desejo é uma aspiração que nos transcende e que não determina, como a necessidade, um termo e um fim. A necessidade é uma carência contingente do sujeito. O infinito do desejo é desejo de infinito».

«O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais», e ser humano significa «sentir que a existência depende deste reconhecimento mais do que qualquer outra coisa». Este anseio é mortificado nas sociedades capitalistas, que exploram avidamente as conpulsões de satisfação de necessidade induzida, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos.

Na prática, o discurso capitalista promete libertar o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada. E quando isto se verifica, «o prazer, a paixão, a alegria a esgotarem-se num consumismo desenfreado, tanto de objetos como de pessoas», chega-se à extinção da sede, à agonia do desejo. A vida perde o seu horizonte.

A sede de Deus
«Como o veado anseia pela água.» O P. Tolentino referiu-se ao Salmo 42 para realçar a busca para saciar a sede de Deus. Se se contempla o mundo com amor, descobre-se que «é todo o Criado a ser atravessado por este desejo visceral».

O primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura apelou à valorização da espiritualidade da sede, mais que as estruturas: «Talvez precisemos de redescobrir o desejo, a sua itinerância e abertura, em vez das codificações em que tudo está previsto, estabelecido, garantido. A experiência do desejo não é um título de propriedade ou forma de possessão; é antes uma condição de mendicidade. O crente é um mendigo de misericórdia».

A concluir, o P. Tolentino dirigiu-se em particular aos pastores, chamando-os à reconciliação com a sua vulnerabilidade, e recordou a advertência do papa Francisco: «Uma das piores tentações é a auto-suficiência e a auto-referencialidade». Ao contrário, abraçar a própria vulnerabilidade e aceder ao desejo de ser reconhecido e tocado como o leproso que foi ter com Jesus (cf. Mateus 8, 3), como a sogra de Pedro na cama com a febre (cf. Mateus 8, 15), como a mulher que há 12 anos sofria de hemorragias (cf. Mateus 9, 20), como aqueles que gritavam «Filho de David, tem piedade de nós!» (Mateus 8, 27).

Marco Guerra In Vatican News

Tradução e edição de SNPC
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2ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

A ciência da sede

A promessa de Deus diante da escassez humana
A última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse é um convite: «Quem tem sede, venha». Foi desta passagem que o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa desenvolveu a sua reflexão para guiar os participantes a compreender os contornos da «abundância» e «gratuidade» de vida que o filho de Deus oferece ao ser humano e a valorizar hoje a sua resposta.

Jesus promete-nos saciar a sede quando reconhecemos que somos «incompletos e em construção». Ele sabe quantos são os obstáculos que nos travam e quantas são as «derivas que nos retardam». Estamos «tão próximos da fonte e andamos tão longe». No desejo e na sede estão dois sentimentos em contraste: a atracão e a distância, o ardor e a vigilância. Por isso a pergunta a colocar é: desejamos Deus? Sabemos reconhecer a nossa sede? Damo-nos tempo para a decifrar?

Não é fácil reconhecer a sede de Deus

A partir destes questionamentos o poeta e biblista percorreu um trajeto que foi da Bíblia aos textos do dramaturgo romeno Ionesco, passando pelas páginas do “O principezinho”, de Saint-Exupéry, para evidenciar os contornos efetivos da sede como necessidade física, como reconhecimento dos nossos limites, da nossa vulnerabilidade extrema.

«A sede priva-nos de respirar, esgota-nos, desgasta-nos. Deixa-nos sitiados e sem forças para reagir», afirmou, «leva-nos ao limite extremo.» «Percebe-se como não é fácil expor-se à sede.» Se tivéssemos de contar a parábola da nossa sede, prosseguiu, talvez emergissem os traços de Jean, o protagonista masculino de “A sede e a fome”, de Ionesco. É uma figura devorada por um «infinito vazio», por uma inquietação que nada parece poder aplacar e que o torna num «homem sem raízes, nem casa, incapaz de criar laços, perdido no vazio do labirinto em que escuta apenas o rumor solitário dos próprios passos».

A sede insatisfeita do homem de hoje
Eis a sede do homem de hoje. Uma sede que, explicou o P. Tolentino, «se transmuta numa enorme insatisfação, na desafeção em relação àquilo que é essencial, numa incapacidade de discernimento». O consumismo, hoje, não é apenas material, é também espiritual, e o que se diz de um ajuda a compreender o outro. O facto é que as nossas sociedades, que «impõem o consumo como critério de felicidade, transformam o desejo numa armadilha»: de cada vez que pensamos apagar a nossa sede numa «montra», numa «aquisição», num «objeto», a posse comporta a sua desvalorização, e isso faz crescer em nós o vazio. O objeto do nosso desejo é um «ente ausente», é um «objeto sempre em falta». Por isso, «o Senhor não cessa de nos dizer: “Quem tem sede, venha; quem deseja, beba gratuitamente a água da vida”».

Recoloquemos em Deus a nossa sede
Há muitas «maneiras de enganar as necessidades e adotar uma atitude de evasão espiritual sem nunca tomar consciência de que estamos em fuga», apontou o P. Tolentino, que aludiu às «sofisticadas razões de rentabilidade e de eficácia» que substituem a «auscultação profunda do nosso espaço interior e o discernimento da nossa sede». E continuam a não existir «comprimidos capazes de resolver mecanicamente os nossos problemas».

Daqui partiu o convite conclusivo da primeira meditação do segundo dia do retiro quaresmal do papa Francisco e dos seus colaboradores: abrandemos o «nosso passo», «tomemos consciência das nossas necessidades», sentemo-nos à mesa da fé, não por motivos materiais ou económicos, mas «por razões de vida». A sede «de relações, de aceitação e de amor» está presente em cada ser humano, é um património «biográfico» que somos chamados a reconhecer e do qual dar graças. Não é uma coisa banal, e por isso «recoloquemos em Deus a nossa sede».

Gabriella Ceraso In Vatican News
Tradução e edição de SNPC
Ler 1ª meditação

1ª meditação do P. Tolentino no retiro do papa

Abre o teu coração. Dá-me o que és

"O papa e os colaboradores da Cúria Romana, chegados na tarde deste domingo à Casa Divino Mestre em Ariccia, próximo do Vaticano, escutaram o pregador português P. José Tolentino Mendonça comentar a primeira parte do excerto do Evangelho segundo João dedicado ao encontro entre Jesus e a samaritana no poço de Jacob (4, 5-24).

Jesus que, sentado no poço, pede à samaritana «dá-me de beber», maravilha-nos, deixa-nos desarmados pelo espanto. Um judeu que fala com uma mulher da Samaria, habitada por dissidentes com os quais os judeus não estavam de acordo, surpreende-nos como Jesus que se dirige a nós para nos pedir: “Dá-me aquilo que tens. Abre o teu coração. Dá-me o que és”.

Na primeira meditação do retiro, dedicado ao tema “Elogio da sede”, o poeta e biblista sublinhou que o pedido de Jesus provoca em nós perplexidade e desconcerto, porque «somos nós aqueles que vão beber» do poço, e sabe-se que a sede é fadiga e necessidade. Jesus está cansado da viagem e está sentado junto ao poço. E no Evangelho aqueles que estão sentados para pedir são os mendigos. Também Jesus mendiga, o seu corpo «experimenta o cansaço dos dias: desgastado pelo cuidado amoroso pelos outros». Não é só o ser humano que é mendigo de Deus. «Também Deus é mendigo do ser humano

O P. Tolentino prosseguiu a introdução, intitulada «Aprendizes do espanto», assinalando que, com a sua debilidade, Jesus «veio procurar-nos». «No mais abissal e noturno da nossa fragilidade, sentimo-nos incluídos e procurados pela sede de Jesus». Que não é uma sede de água, é maior: «É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas». Ele pede-nos: «“Dá-me de beber”. Dar-lhe-emos? Daremos o bem uns aos outros?», questionou.

Reconheçamo-nos chamados porque é Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. «Por muito grande que seja o nosso desejo, ainda maior é o desejo de Deus.» E quando Jesus diz à mulher a verdade da sua vida, «isso não a humilha nem a paralisa. Pelo contrário, sente-se encontrada, visitada pela graça, libertada pela verdade do Senhor».

Sintamo-nos abraçados, concluiu o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, porque «Deus sabe que nós estamos aqui». E nestes dias, «desaprendamos, para aprender essa graça que tornará possível a vida dentro de nós». No nosso íntimo digamos: «Senhor, estou aqui à espera de nada». Que é como quem diz: estou somente à tua espera, «à espera daquilo que Tu me dás».

Retiro quaresmal ao papa Francisco e à Cúria Romana | Ariccia, Itália | 18.2.2018

Alessandro Di Bussolo, In Vatican News
Tradução SNPC
Publicado em 23.02.2018

A boa solidão

Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire, publicado pelo SNPC em 15 de fevereiro de 2018

sábado, 17 de março de 2018

Padre Tolentino Mendonça orientou a reflexão quaresmal do Papa

Marc Chagall
Tolentino Mendonça. A vida do padre-poeta que orientou o retiro do Papa

por João Francisco Gomes, a 24 de fevereiro de 2018, in Observador

Padre, poeta, cronista. Tolentino Mendonça foi chamado pelo Papa para orientar o seu retiro espiritual. Quem é o português que o Vaticano considera "das vozes mais autorizadas da cultura do seu país"?

No início da década de 90, pouco depois de ter sido ordenado padre e de ter concluído um mestrado em Roma, José Tolentino Mendonça regressou a Lisboa. Foi nomeado capelão da Universidade Católica, onde começou a dar aulas. Foi lá que Pedro Mexia, na altura estudante de Direito, conheceu o jovem sacerdote. Ele e os colegas descobriram um padre diferente do habitual. “Lembro-me de as pessoas ficarem muito cativadas com o estilo dele. Houve até pessoas que passaram a ir à missa para o ouvir”, recorda o poeta português, 25 anos depois. “Nós dizíamos uns aos outros que achávamos que aquele tipo ia longe. Agora, o Papa também acha.”

Foi longe. No final do mês passado, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, anunciava que o padre e poeta português tinha sido escolhido para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e dos restantes membros da Cúria Romana (os órgãos de governo da Igreja Católica). “Teólogo e poeta, é uma das vozes mais autorizadas da cultura do seu país“, lê-se no artigo, que anunciava que Tolentino Mendonça iria passar uma semana na Casa do Divino Mestre, nos arredores de Roma, a orientar o Papa nas dez meditações do retiro, dedicadas ao “elogio da sede”.

Tolentino Mendonça aceitou de imediato, “com muita humildade”, o desafio de se tornar no primeiro português a orientar a reflexão do Papa. “Sou um simples padre, e acolho [o pedido] com um sentido de serviço à Igreja e ao Santo Padre”, disse ao portal Vatican News. Porém, as crónicas que assina semanalmente na revista do Expresso e a sua vasta obra literária levam a uma conclusão diferente. Tolentino Mendonça não é só um simples padre. É um professor, poeta e ensaísta dono de perspetivas muito próprias sobre a fé, que podem surpreender os mais distraídos.

“Quando ele escreve um texto no Expresso sobre o Bruce Springsteencomo se estivesse a falar de São Francisco de Assis, a primeira reação é de perplexidade. De facto, não há razão nenhuma para essa perplexidade. Ele consegue encontrar pontos de contacto com a dimensão religiosa, mesmo naquilo que, numa cultura, podia parecer hostil ou alheado dessas questões. São fórmulas inesperadas“, resume Pedro Mexia ao Observador.

As fórmulas que usa na sua obra literária são as mesmas a que recorre nas salas da Universidade Católica, onde hoje é vice-reitor. O padre Miguel Vasconcelos, jovem sacerdote que não esconde a alegria de hoje ser sucessor de Tolentino Mendonça no cargo de capelão daquela universidade, lembra as aulas com o poeta. “Uma das coisas que marcam a ação dele é a capacidade de olhar para os Evangelhos com a sensibilidade dos artistas. É uma teologia contemplativa, com a lupa da estética. E isso é próprio dele, por ele ser poeta, não é uma fabricação”, conta o sacerdote.

De facto, esta análise da fé pelos olhos da arte marcou a semana de retiro do Papa, que terminou na sexta-feira. Logo no domingo, na primeira meditação, que dedicou ao tema “Aprendizes do espanto”, Tolentino Mendonça colocou a literatura ao lado da Bíblia, para sugerir ao Papa Francisco e aos participantes dos exercícios espirituais uma leitura do episódio da Samaritana, do Evangelho de João, a partir de citações de Fernando Pessoa e de Lev Tolstoi.

“Não há uma distinção clara entre o padre e o poeta“, explica o crítico literário João Pedro Vala, admirador convicto da obra de Tolentino Mendonça. “Quando se ouve um sermão do padre Tolentino, ou se lê um poema ou uma crónica, não existe uma distinção. Os sermões são poéticos, e os poemas, não sendo pregações, vêm da mesma pessoa, têm a mesma doçura. Trata o leitor como um membro da sua paróquia.” Por isso foi escolhido como pregador para o Papa, assume sem dúvidas quem o conhece.

Em todas as dimensões da sua vida — poeta, escritor, professor e padre especialista em estudos bíblicos — as palavras ocupam um lugar de destaque. “A palavra é o grande lugar para o conhecimento que faço de mim próprio“, disse Tolentino Mendonça numa entrevista à RTP. A paixão pelas palavras nasceu durante a infância passada entre a ilha da Madeira, onde nasceu e para onde regressou aos nove anos, e Angola, para onde se mudou com a família ainda bebé e onde viveu os primeiros anos da sua vida.

Madeira, Angola, a avó e o amor a Herberto Hélder

José Tolentino Mendonça nasceu em Machico, na ilha da Madeira, a 15 de dezembro de 1965. Com apenas um ano de idade, deixou a terra natal para se mudar para o Lobito, em Angola, onde o seu pai e os seus tios, uma família de pescadores, já viviam. Numa longa entrevista que deu ao Público em 2012, Tolentino Mendonça recordava esses momentos. “Lembro-me de uma viagem que fiz com o meu pai. Na minha cabeça ia também pescar. Dei comigo, para lá dos enjoos típicos de um iniciante pelo mar fora, na borda do barco, a olhar as paisagens. Praias que ainda não tinham sido exploradas, rochedos, o azul do mar, o fundo do mar”, contou.

“Essa contemplação despertava em mim uma emoção enorme, enorme. Ficava boquiaberto. Como se aquela vida intacta, da paisagem do mundo, tivesse em mim um impacto que não sabia expressa”, continuava o padre, lembrando que foi na infância que as portas da literatura se abriram para si. Particularmente no difícil regresso à Madeira, depois do 25 de Abril, que viveu com nove anos. A melhor palavra talvez nem seja regresso, uma vez que Tolentino Mendonça tinha vivido toda a sua infância, até ali, em Angola.

A mudança de vida, lembrava o sacerdote na mesma entrevista, “teve um dramatismo mais literário do que literal”. “Senti que me estava a despedir daqueles lugares. Fui com o meu cão, sozinho. Digo que foi literário porque quis chorar, abraçado ao cão, sentindo que era a última vez que estava ali“, contou, detalhando como encarou aquele momento como “uma aventura no porão de um barco, numa cidade desconhecida”.

Com apenas nove anos, viveu o regresso à Madeira de forma diferente dos seus pais, que sofreram uma “ansiedade enorme” com a mudança de vida. “A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades — no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem — protegeu-me. Quando penso na infância nem por uma vez me lembro de medo, de ansiedade”, disse na entrevista ao Público.

Da vida na Madeira, Tolentino Mendonça recorda sobretudo a relação com a natureza e com o mar. “Vivia no Machico, num mundo ainda rural, muito próximo do mar, com grandes espaços em que dava para me deitar na terra e olhar as estrelas. Tinha um caderno em que apontava os barcos que passavam, observava as árvores. O meu pai, que era pescador, quando ia às Ilhas Selvagens trazia-me de presente uma cagarra. É um mundo próximo da natureza, tutelado pelas profissões artesanais, atravessado pela poesia, pelos elementos”, lembrava, numa entrevista ao Sol, em 2013.

Com 11 anos, entrou no seminário. “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”, recordou na mesma entrevista, destacando o papel da família crente na descoberta da fé. Personagem fundamental na definição do seu percurso foi João Henrique Silva, até 2015 diretor regional dos Assuntos Culturais na Madeira, que na altura era professor no seminário. “Era um homem que gostava muito de cinema. Mostrou-me que era possível viver a fé e escolher uma vocação religiosa em relação com o mundo da cultura.”

Entrar no seminário foi também a oportunidade de entrar numa biblioteca pela primeira vez. Antes, o seu contacto com a literatura era exclusivamente através da sua avó materna. “A minha avó foi a minha primeira biblioteca“, dizia na entrevista ao Público, lembrando que a senhora, que não sabia ler nem escrever, conhecia vários romances e histórias orais de cor. “Numa recolha recente que se fez do romanceiro oral da Madeira uma das pessoas que está lá é a minha avó”, contou Tolentino Mendonça, dizendo-se comovido com essa recordação da avó.

Um outro episódio marcou a sua entrada no mundo literário: uma senhora, também ela analfabeta, zeladora da igreja que frequentava, citava muitas vezes de cor o Cântico dos Cânticos. “Uma vez disse-me aquele poema e fiquei aturdido, extasiado, aquelas palavras apoderaram-se de mim”, contou o padre, garantindo que “há um antes e um depois daquele momento“. Viria a estudá-lo e a traduzi-lo para português durante os seus estudos teológicos.

Finalmente, aos 16 anos, escreveu o primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, admitia ao Público, lembrando que aquele poema era sobre a sua própria infância, “uma infância que podia ter sido a de Herberto Hélder“, também “no contexto insular”. Logo no primeiro verso do primeiro poema, Tolentino Mendonça definiu com clareza aquilo que viria a ser o seu percurso literário: “No princípio era a ilha“. Um verso que dizia estar “embebido da palavra divina” ao mesmo tempo que representa o seu “princípio biográfico”, antevendo uma obra em que fé e poesia se confundem.

Em 1982 começou a estudar teologia e em 1990 foi ordenado padre — no mesmo ano em que lançou o primeiro livro de poemas, Os Dias Contados. Depois da ordenação, mudou-se para Roma para fazer um mestrado em Ciências Bíblicas, formação que viria a completar com um doutoramento em Teologia Bíblica, em Portugal, na Universidade Católica de Lisboa. Tornou-se capelão da universidade, professor na Faculdade de Teologia e continuou a publicar com frequência livros de poesia — até hoje publicou mais de três dezenas.

Padre ou poeta?

Pintado numa grande fachada de um prédio em Machico, o poema “Caminho do Forte, Machico“, publicado em 2006 na colectânea A noite abre meus olhos, é a homenagem daquele município madeirense ao poeta da terra. O poema não é propriamente um texto religioso — mas também não é esse o ponto fundamental da obra de Tolentino Mendonça. O crítico literário João Pedro Vala destaca que, mesmo havendo cada vez mais padres católicos com preocupações literárias, poéticas, “a grande novidade do padre Tolentino é que ele não parece obcecado ou centrado na necessidade de usar a literatura para passar uma mensagem religiosa“. “Não me parece que ele procure fazer da literatura um palco para os seus sermões, e isso é diferente de muitos outros padres que também são poetas, que usam a literatura para passar a mensagem do Cristianismo”, diz o crítico ao Observador.

Também Francisco José Viegas, o diretor da editora Quetzal, que publicou o mais recente livro do poeta, sublinha que o âmbito da obra de Tolentino Mendonça extravasa os limites da mensagem religiosa. “Ele é um omnívoro, como eu costumo dizer. Um homem que lê tudo, que cita vários autores, de origem muito diversa. Isso é uma coisa nova no discurso de alguém da hierarquia da Igreja. Deixa contaminar o discurso religioso com uma marca poética“, afirma o editor.

Para o poeta Pedro Mexia, a dimensão literária e a dimensão religiosa de Tolentino Mendonça não devem ser encaradas “como se fossem facetas diferentes ou opostas”. Mexia destaca a “capacidade de chegar às pessoas” do padre Tolentino Mendonça, que “sempre se interessou pelas coisas mais diversas, até ao ponto de as pessoas poderem ficar um bocadinho perplexas”.

“As pessoas estão à espera de que um padre tenha um certo tipo de referências e ele às vezes tem referências muito diferentes”, continua Pedro Mexia, sublinhando como Tolentino Mendonça, padre e poeta, mas também cronista, tem “vontade de procurar a linguagem do nosso tempo, porque a linguagem religiosa tem uma dimensão que não é do nosso tempo“.

Francisco José Viegas considera que esta “contaminação” positiva entre a linguagem artística e a linguagem religiosa “era algo que fazia falta à Igreja Católica”. “Uma das coisas que mais me fascinam no Tolentino Mendonça é a forma como ele pode trazer alguma beleza ao discurso da Igreja”, explica o editor.

“A Igreja procura um novo discurso, um discurso que diga mais às pessoas do nosso tempo, que possa absorver um pouco mais das sensibilidades contemporâneas, mas, mais do que isso, que fale para as pessoas do nosso tempo. As pessoas estão muito recetivas a um discurso que venha contaminado pela beleza, em vez de ser um discurso mais seco, mais tradicional“, destaca Francisco José Viegas, acrescentando que é essa a novidade que Tolentino Mendonça representa.

“Acho que hoje nós não temos a noção do que é um intelectual católico, porque os católicos perderam muitos dos seus intelectuais. Houve um tempo em que a Igreja produzia intelectuais, como George Bernanos, de que assinalamos agora os 120 anos do nascimento, mas também nomes como Alçada Baptista ou Moreira das Neves. Durante muito tempo faltou à Igreja a capacidade de falar para o mundo dos intelectuais. No caso do Tolentino Mendonça, há esta mistura de perspetivas”, defende Francisco José Viegas.

Exemplo deste discurso “contaminado pela beleza” é a forma como vê a Bíblia Sagrada. Biblista de formação, Tolentino Mendonça olha para os escritos fundamentais da Igreja como uma obra de arte. “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo”, defendia Tolentino Mendonça na entrevista ao Público. “Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.

A esta reconhecida capacidade artística, junta-se um “enorme conhecimento dos estudos bíblicos que faz dele um ótimo professor”, diz o padre Miguel Vasconcelos, que não só foi aluno de Tolentino Mendonça em três cadeiras do seu curso de teologia — Evangelhos Sinópticos, Escritos de São Paulo, e Estética e Teologia — como foi seu colaborador na edição portuguesa de uma coletânea de poemas da poetisa brasileira Adélia Prado.

“Ele tem uma capacidade de traduzir a Tradição da Igreja para a linguagem atual, para que a possamos entender hoje, que poucos têm. Ou seja, o conteúdo da Tradição é a verdade que a Igreja acredita ter sido revelada por Deus. Mas a formulação não pode ser sempre igual, muda consoante o destinatário, e o padre Tolentino é um fator de tradução importante, diz as coisas de sempre numa linguagem que é a nossa. E para isso é preciso ter uma vontade de se dedicar ao diálogo, de conhecer os seus destinatários e de estar diante do resto do mundo“, diz o capelão da Universidade Católica de Lisboa.

Esta abertura ao resto do mundo é outra das característica fundamentais de Tolentino Mendonça, que tem um discurso fundamentalmente dedicado aos não crentes. “Interessa-me a religião expressa de forma não-religiosa. Aprendo muito com os não-religiosos, ateus e indiferentes, pois os que não creem fazem perguntas aos que creem e é importante que estes as escutem e aprendam”, dizia o padre, numa entrevista ao Diário de Notícias em 2017.

“Acredito que a crença é um laboratório de descrença e que dentro de um crente há sempre um não crente. Mesmo quem vê Deus por todo o lado faz a experiência de que Ele não está em sítio algum e o contrário também é verdade”, afirmava na mesma entrevista. Antes, na entrevista ao Público, tinha mesmo assumido: “Não tenho um discurso para crentes“.

O poeta Pedro Mexia destaca esta dimensão do sacerdote, notando que “sempre foi claro que Tolentino Mendonça era uma pessoa particularmente cativante, que congregava pessoas que não eram muito obviamente interessadas em questões religiosas lato sensu, e que com ele as ouviam de outra maneira”. “Já tive oportunidade de apresentar dois livros dele e nas apresentações vi gente de todas as estirpes, do ponto de vista social e político“, recorda Mexia.

Na dicotomia padre-poeta, nenhuma das dimensões tem o protagonismo, apesar de uma não viver sem a outra. Segundo conta quem o conhece, nem o sacerdócio de Tolentino Mendonça pode ser entendido sem a poesia, nem os seus escritos podem ser lidos sem ser à luz da sua vocação de padre. João Pedro Vala destaca a dimensão pessoal da sua poesia e das suas crónicas. “Uma pessoa, quando lê as crónicas do padre Tolentino, sente-se sempre em contacto com ele. Sente que está a conhecer uma pessoa boa, é isso que me fascina”, explica o crítico. A posição é partilhada por Pedro Mexia, que sublinha que o padre “está muito atento à vida das pessoas e nos seus poemas aparece muito a relação com a intimidade, com as pessoas e com o segredo”.

A literatura no retiro do Papa

Precisamente por ser um teólogo diferente, um biblista experiente e um poeta contemporâneo, o Papa Francisco acabou por convidá-lo para orientar as meditações do retiro anual que faz com os membros da Cúria Romana, no início da Quaresma. “Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe que eu sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado ‘Elogio da Sede'”, contou Tolentino Mendonça num artigo publicado no jornal italiano Avvenire, aqui numa tradução para português do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Não tenho dúvidas de que as suas qualidades artísticas, além das teológicas, contribuíram para a escolha do Papa”, diz Francisco José Viegas, garantindo que “ele é uma pessoa em ascensão na hierarquia da Igreja, a quem a hierarquia presta cada vez mais atenção”. “Ele arrasta multidões. Durante o processo de lançamento do livro anterior, que já saiu na Quetzal, percebi o interesse com que as pessoas o ouvem. O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”, conta o editor.

A hierarquia da Igreja já tem, na verdade, o padre Tolentino Mendonça debaixo de olho há vários anos. O sacerdote, que hoje é o capelão da Capela do Rato, em Lisboa, foi o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um organismo da Conferência Episcopal Portuguesa criado em 2004, destinado a promover o diálogo entre a Igreja e a esfera cultural. Pelo meio, em 2011, foi nomeado consultor do Conselho Pontifício da Cultura, um órgão da Cúria Romana destinado a fazer a ponte entre o Papa e o mundo da cultura — nomeação que viria a ser renovada em 2016.

“Não posso imaginar os critérios que levaram à escolha do padre Tolentino, mas sei que ele é conselheiro do Conselho Pontifício para a Cultura, portanto é levado muito a sério por quem organiza estas coisas. Certamente, o percurso biográfico e teológico, em termos de estudos bíblicos, faz dele capaz do que lhe foi pedido”, diz o padre Miguel Vasconcelos.

Durante esta semana, Tolentino Mendonça presidiu a meditações diárias — uma de manhã e uma à tarde — perante o Papa e os seus colaboradores mais próximos. Nessas meditações, a literatura e a poesia estiveram sempre em cima da mesa. Logo na primeira, citou Fernando Pessoa e Lev Tolstoi para pedir aos participantes que “aprendam a desaprender”. Na segunda meditação, citou Clarice Lispector e Simone Weil para sublinhar a importância de não descurar os escritores e poetas no estudo da teologia.

Na sexta-feira, último dia do retiro, o Papa Francisco agradeceu a Tolentino Mendonça pelas meditações diferentes das tradicionais. “Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático”, disse o Papa. “Obrigado por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela”, acrescentou, terminando: “Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Vigiar

Pensar como Cristo

"Jesus diz que a vinda do Filho do homem será «como foi nos dias de Noé». Mas que dias foram os de Noé? Eis a resposta: «Nos dias que precederam o dilúvio, comia-se, bebia-se, os homens casavam e as mulheres eram dadas em casamento» (Mateus 24, 37-39).

A geração de Noé, no fundo, o que fazia de mal? Satisfaziam as necessidades fundamentais, como comer, e os instintos primários, como a procriação. Mas Jesus acrescenta: «Não deram por nada até chegar o dilúvio, que a todos arrastou».

Não se deram conta do que estava a acontecer, e toda uma geração foi destruída. Alimentar-se e reproduzir-se: quando se reduz a vida humana só a isto, é-se esmagado pela própria vida que se faz. Comer e unir-se sexualmente sem dar conta de nada é próprio dos animais, não dos seres humanos.

Desta maneira, a geração do dilúvio é uma figuração de cada geração degenerada. Ao contrário, vigiar significa não reduzir a própria vida à pura satisfação das necessidades, das pulsões e dos instintos primários que, com o tempo, nós, humanos, aprendemos a refinar e a civilizar.

Mas vigiar significa também não nos reduzirmos a apagar os instintos sociais cujo nome é interesse, lucro, vantagem. Com efeito, Jesus Cristo veio para «nos ensinar a viver neste mundo» (Tito 2,12), ou seja, para nos ensinar um modo de viver as relações, de plasmar uma geração, de criar uma civilização, em síntese, um modo de estar no mundo segundo a vontade de Deus.

Por isso, vigiar é precisamente o contrário daquele não se dar conta de nada. Vigiar é dar-se conta de tudo. Dizendo «vigiai», o Senhor diz a cada um de nós: «Dai-vos conta de tudo», isto é, sê tudo em cada coisa. Coloca tudo aquilo que és na mais pequena coisa que fazes. Sê inteiro e não excluas nada de ti.

Vigiar significa então dar-se conta de que na nossa humanidade e a nossa fé joga-se inteiramente nas ações grandes ou pequenas que cada dia cumprimos e nas palavras importantes ou simples que saem da nossa boca.

Vigiar significa estar consciente de que a qualidade do nosso estar no mundo é dada pelas escolhas como pelas renúncias a que cada dia somos chamados, muitas vezes forçados, a fazer.

Vigiar é uma decisão da vontade e não um impulso do instinto. Sempre que se vigia noite adentro, deve estar-se preparado para o cansaço, para a resistência, até à luta consigo próprio, com os seus medos, as fraquezas, o torpor do sono. Mas preparar-se também para a fadiga de exercitar a inteligência iluminada pelo Evangelho, única condição para não se adequar passivamente àquilo que todos dizem e todos fazem.

Só quando constatarmos a distância e, por vezes, a total incompatibilidade do nosso pensar com o pensamento dominante, é que teremos então começado a ter em nós «o pensamento de Cristo» (1 Coríntios 2,16). Vigia por Cristo quem tem o pensamento de Cristo. "

Ir. Goffredo, Mosteiro de Bose, In "Monastero di Bose"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins para SNPC a 10 de dezembro de 2015

domingo, 3 de dezembro de 2017

Alegria e Natal

George Platt Lynes, 1934
A alegria do Natal

«O anjo disse-lhes: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 10-11)
É preciso falar alegremente da alegria, cantá-la como os anjos, na noite do nascimento de Jesus. Dado que não tenho a voz de um anjo, recolhamos ao menos a sua mensagem no nosso coração, à imagem de Maria silenciosa. É uma boa nova que cantam os anjos, uma grande alegria para todo o povo, para todas as pessoas. Acabou o tempo do medo, vivemos sem temor. Chegaram os tempos messiânicos. Aquele que devia vir está no meio de nós. Ele vem para nos salvar do pecado, do mal e da morte. Ele traz a redenção e o perdão. Ele oferece-nos o amor gratuito de Deus e a vida eterna. Ele dá-nos a sua alegria, alegria alicerçada na fonte inesgotável do dom infinito do Pai. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» (Lucas 2, 14).

Sinal de uma vida que se expande, a alegria era considerada no Antigo Testamento como manifestação do tempo da salvação e da paz dos últimos tempos.

No Novo Testamento, João Batista terá sido dos primeiros a senti-la: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, já grávida de Jesus, «o menino saltou-lhe de alegria no seio» (Lucas 1, 41).

Já depois do nascimento de Jesus, os magos, «ao ver a estrela, sentiram imensa alegria», conta o evangelho segundo Mateus a propósito do astro que lhes indicou o lugar onde Maria tinha dado à luz.

«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa», disse Jesus aos discípulos (João 15,11). Alegria de comunhão, de amizade, alegria por partilhar a sua vida de ressuscitado, mesmo se essa vida é acompanhada pela aflição: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! … O vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (João 16, 20-22).

E os nossos corações? Estão plenamente felizes? Não haverá um fundo de tristeza? Porquê? O Natal traz-nos alegrias, é certo, mas a alegria, será que a conhecemos? Ó homens de pouca fé!

Ficamos demasiado presos aos nossos medos, à nossa autossuficiência, à nossa independência, ao nosso orgulho, às nossas riquezas de pacotilha, em suma a nós mesmos, para ter a audácia da alegria espiritual e nos deixarmos dilatar à medida do dom de Deus. A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento.

É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total. Aos poucos o adulto coloca a sua alegria no ter, por vezes muito material. Mas possuir é mais da ordem do prazer; no receber e no dar é que está a alegria. E a alegria é sempre um dom, ela traz sempre a marca da gratuidade, da festa. O adulto não sabe muitas veses receber gratuitamente, com toda a simplicidade, na pobreza cheia do não-ter que, só ela, dá acesso aos verdadeiros bens. Na nossa sociedade de consumo ambiciona-se poder comprar tudo, ter tudo. Mas não se compram senão coisas. Perseguem-se e acumulam-se. Possui-se muito mas não é nelas que se acha a alegria. Nelas só se encontra o prazer insaciável e, no limite, o aborrecimento. A alegria, ao contrário, é filha da pobreza, da gratuidade, da ousadia da vida que vive e ri em nós.

O contemplativo deve ter algo desta sabedoria da criança, da sua aptidão ao dom, ao abandono. Muitos parecem crer que só as pessoas “sérias” são sérias: a sabedoria deve obrigatoriamente manifestar uma atitude solene e um rosto franzido. O homem de negócios do “Princípezinho” está demasiado ocupado a contar e a “possuir” as estrelas para ver a sua beleza e abrir-se ao seu canto. Sejamos simples, não tenhamos medo de ser alegres.

Tendo perdido a espontaneidade da simplicidade, iremos procurá-la com o peso da razão?

A alegria de Maria

Entremos na escola de Maria para aprender a alegria. Temos muito poucas palavras dela e as que temos são de uma grande densidade por serem portadoras de um imenso peso de silêncio. Há o “fiat”, o sim pelo qual Maria consente livremente no dom de Deus, no dom que Deus lhe faz de si mesmo, à ação misteriosa do Espírito Santo pelo qual Jesus é nela concebido. E Jesus é concebido na alegria. O coração de Maria está repleto de alegria, da alegria de um pobre que soube acolher a vida:

«A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lucas 1, 46-47).

Alegria cuja partilha desperta a alegria no coração de Isabel. O bebé no seio da sua mãe alimenta-se da sua substância, constrói-se a partir do que ela é. Tudo acontece no silêncio de uma simbiose intensa entre duas pessoas. Maria está só com o seu bebé oculto; para o bebé, o seu universo é o seio de Maria.

Depois é chegado o tempo em que o Menino sai para entrar no mundo dos homens. É quando acontece a primeira separação que lhe vai permitir ser Ele que está entre nós, para nós. A alegria de Maria é dar Jesus ao mundo. O seu coração está cheio de uma alegria que em nada diminui a pobreza do seu nascimento, num estábulo, recebida entre os animais, nenhum lugar entre os homens havia para eles.

Mas o bebé é rei, rei pobre, duas vezes rei. Os anjos cantam o seu deslumbramento, anunciam a alegria da sua vinda àqueles que estão mais preparados para o receber: os pobres, os pastores e os que o procuram pelos caminhos da sabedoria humana, os magos.

Não sabemos de nenhuma palavra de Maria. Ela permanece silenciosa, ocupada a proteger este pequeno corpo tão vulnerável, a embrulhá-lo em panos e a deitá-lo na manjedoura. Ela é mãe, deve ater-se às obrigações da maternidade, ao mesmo tempo que permanece unida ao seu filho no seu coração. Mas agora há um face a face, duas pessoas entreolham-se, o amor torna-se mais pessoal, amor de amizade; em breve o sorriso do bebé responderá ao seu.

Mas Maria nunca diz nada. Ela deixa os pastores e os magos prestarem a sua homenagem diante do seu filho. São os anjos que cantam a sua glória. Ela, ela conserva todas estas coisas, guarda-as no seu coração.

Quem era este ser dela nascido? O seu coração sabe mais do que a inteligência pode dizer. Ela não é a Palavra mas a sua serva. O seu silêncio fala por ela, diz do seu amor.

Será assim toda a sua vida. Durante os longos anos tranquilos de Nazaré, a sua alegria é a intimidade constante com Jesus, a vida partilhada com este rapaz que cresce diante dos seus olhos. É o seu filho, e no entanto, um dia, mal tinha feito doze anos, ele diz: «Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lucas 2, 49). Jesus regressou a Nazaré, a vida continuou mas nunca mais foi a mesma. A marca do Pai estava sobre ele; à alegria da sua intimidade acrescenta-se uma nota grave, de respeito, perante o mistério do seu ser.

Numa dialética de intimidade e separação, pouco a pouco Jesus revela-se à sua mãe – como aos seus discípulos, como a nós. De cada vez há um aprofundamento. Até que um dia ele irá radicalmente relegar para segundo plano os laços de sangue que os uniam: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3,35).

É sobre a rocha da vontade de Deus que a relação entre ambos deve fundar-se e fortalecer-se a partir daí, ao ponto que seja aceite a separação final de uma morte brutal. Onde está agora a tua alegria, Maria? Ela está sempre lá, onde se renova o sim do teu amor e da tua fé, no silêncio, numa solidão terrível. Nunca foste tão mulher como agora. E assim tu te tornas mãe do Corpo de Cristo, de todos nós. Alegria grave de um amor que dá mais do que si mesmo.

O amor é mais forte do que a morte, a alegria mais forte do que a tristeza. A luz da ressurreição vai inundar o espaço da sua fé e enchê-la de uma alegria que não terá fim. A assunção ao céu é a manifestação da plenitude desta alegria que impregna todo o seu ser, incluindo o seu corpo.

Maria não deixou uma palavra sobre Jesus, uma teologia, um discurso. A sua vida é a sua palavra, o seu amor, o seu conhecimento, o seu dom total à vontade de Deus e à ação oculta do Espírito nela, a sua pobreza, a transparência da sua pureza.

Essa alegria é o Cristo nela, é o Cristo em nós. Desejo-a a todos de todo o meu coração.

Nós somos responsáveis pela nossa alegria.

Monge Cartuxo In "Vivre dans l'intimité du Christ"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 24 de dezembro de 2014

Preparar o Natal

Lisa Lapointe
Como será este Natal?

Estamos empenhados em preparar a vinda do Senhor, em preparar-lhe simbolicamente um espaço, e isso torna-se uma parábola do grande acolhimento, da grande hospitalidade à qual estamos dispostos. E dizemos: «Vem, Senhor Jesus».

Abrimos as casas, encontramos um lugar no seu interior, preparamos formas diferentes para o tráfico dos nossos dons, das palavras, dos sentimentos, dos votos e desejos. Encontramos na nossa vida um modo de Deus chegar. As portas estão abertas. A contagem decrescente começou.

E então dá-se o volte-face: ao rei David, que tem um papel emblemático na expetativa messiânica, Deus diz: «Não és tu que me preparas uma casa, sou Eu que preparo uma casa para ti».

Não mergulhamos profundamente no mistério do Natal se não acolhermos esta reviravolta no nosso coração: não somos nós que preparamos um presépio para Deus nascer; é Deus que prepara o lugar, é Deus que prepara a possibilidade, as condições do renascimento de cada um de nós.

Jesus é o Deus que se torna homem para que o homem e mulher que somos se possa divinizar. Ele nasceu para potenciar os nossos nascimentos.

Como Maria, podemos perguntar: «Como será isso, se eu não vejo essa possibilidade? Que o Menino possa nascer simbolicamente em minha casa, eu acredito, mas que a minha casa toda e o que ela significa possa renascer, não vejo como. Que eu me possa preparar e abrir as portas para o Deus connosco vir, isso entendo; mas que eu, na minha rigidez, nos meus entraves, nos meus dilemas, no caminho que estou a fazer, possa verdadeiramente recomeçar e renascer, não vejo como».

A dupla palavra do anjo é uma das grandes palavras de Natal: «Não temas». Não desanimes, não penses que não é para ti. O Espírito Santo virá em teu socorro, a sombra do Altíssimo te cobrirá. E o mistério que acontece na nossa vida, humaníssima e fragilíssima, é ação do próprio Deus: é Ele que pode renovar, é Ele que pode transformar as nossas vidas; é Ele que pode fazer acontecer, dentro de cada um de nós, o Natal, essa irrupção de vida nova e cintilante, a possibilidade de uma esperança maior do que aquela de que somos capazes.

O que é este novo nascimento? S. Paulo, com uma palavra só, com uma das palavras mais importantes desse texto maior da memória cristã que é a carta aos Romanos, diz: o grande mistério, esperado desde sempre e agora revelado, é este: Deus Pai confirma-nos. Uma palavra só: «Confirma-nos».

O que é o Natal de [2017] que estamos prestes a celebrar? É sentir dentro de si que se é confirmado por Deus, confirmado como filho e filha amado, querido, em quem Deus coloca todo o seu amor. E a nossa vida passa a valer mais: porque não é só o que somos, o que conseguimos, o que trazemos - não é só isso; é o olhar de Deus pousado na fragilidade que eu sou.

É o olhar de Deus que me confirma, muitas vezes para lá das evidências e contrariando-as, contra toda a esperança. Deus confirma-nos e diz: «Tu és a minha filha, tu és o meu filho». É isso que nos faz nascer: a certeza do amor de Deus depositado, mostrado por Jesus face a face na nossa história, a certeza indefetível desse amor que não falha, desse amor em que podemos confiar. O Deus connosco é um Deus credível, em quem um homem e uma mulher podem acreditar. Nós acreditamos nesse amor, e acreditamos que ele nos é dado como fundamento, como pedra angular, como razão, como possibilidade, como manjedoura onde nascemos.

Temos de olhar para os nossos dias e sentir que não somos nós que estamos a construir uma manjedoura; é Deus que faz do tempo da nossa vida, deste tempo onde estamos, deste aqui e agora, o lugar da nossa confirmação, o lugar do nosso nascimento. Abramos, por isso, o nosso coração em alegria."

P. José Tolentino Mendonça
Capela do Rato, Lisboa, 21 de dezembro de 2014

sábado, 2 de dezembro de 2017

Tempo de Cura

Natal, tempo para curar feridas

«Permiti-me que vos exorte a transformar este Santo Natal numa verdadeira ocasião para curar cada ferida e para curar-se de cada falta. »

«Por isso exorto-vos a curar a vossa vida espiritual, a vossa relação com Deus, porque ela é a coluna vertebral de tudo o que fazermos e de tudo o que somos. Um cristão que não se alimenta com a oração, os sacramentos e a Palavra de Deus, inevitavelmente vai desfalecendo e seca.»

«Curar a vossa vida familiar, dando aos vossos filhos e aos vossos queridos não apenas dinheiro, mas sobretudo tempo, atenção e amor.»

«Curar as vossas relações com os outros, transformando a fé em vida e as palavras em boas obras, especialmente para os mais necessitados.»

«Curar o vosso falar, purificando a língua das palavras ofensivas, da vulgaridade e do léxico da decadência mundana.»

«Curar as feridas do coração com o óleo do perdão, perdoando as pessoas que nos feriram e tratando as feridas que infligimos aos outros.»

«Curar o vosso trabalho, fazendo-o com entusiasmo, com humildade, com competência, com paixão, com alma que sabe agradecer a Deus.»

«Curar-se da inveja, da concupiscência, do ódio e dos sentimentos negativos que devoram a nossa paz interior e nos transformam em pessoas destruídas e destrutivas.»

«Curar-se do rancor que nos conduz à vingança e da indolência que nos conduz à eutanásia essencial, do apontar o dedo que nos conduz à soberba, e do lamentar-se continuamente que nos conduz ao desespero.»

«Eu sei que algumas vezes, para conservar o trabalho, fala-se mal de alguém para defesa própria; entendo estas situações, mas o caminho não acaba bem – no fim seremos todos destruídos entre nós e isso não serve.»

«Pedir a Deus a sabedoria de morder a língua a tempo para não dizer palavras injuriosas que mais tarde te deixam a boca amarga.»

«Curar os irmãos frágeis (...), os idosos, os doentes, os esfomeados, os sem-abrigo e os estrangeiros, porque por isto seremos julgados.»

«Curar o santo Natal, para que ele não seja nunca uma festa do consumismo comercial, da aparência ou dos presentes inúteis, ou dos gastos supérfluos, mas da alegria de acolher o Senhor no presépio do coração».

Imaginemos como o nosso mundo mudaria se cada um de nós começasse agora, e aqui, a curar-se seriamente e a curar generosamente a sua relação com Deus e com o próximo. Cada um de nós pode pensar: qual é a coisa que precisa mais de cura? E curá-la.»

«Mas sobretudo a família, a família é um tesouro, os filhos são um tesouro. Uma pergunta que os jovens pais podem fazer-se: tenho tempo para brincar com os meus filhos, ou estou sempre comprometido, comprometida, e não tenho tempo para eles? Deixo a perguntar. Brincar com os filhos é semear o futuro.»

Papa Francisco no Encontro natalício com os colaboradores da Santa Sé
Vaticano, 22 de dezembro de 2014
Tradução e adaptação de Rui Jorge Martins , publicado em SNPC

sábado, 21 de outubro de 2017

Como seres inacabados

«Nas mãos do oleiro/ o universo descobre-se/ inacabado»

Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora de tempo, na nossa vida. E numa vida adulta avançada, muitas vezes é isto que experimentamos: descobrimo-nos inacabados porque nos descobrimos nas mãos do oleiro.

É importante associar a experiência da vida em aberto e a experiência de estarmos a viver continuamente um processo de criação.

Este dia da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, em que parece que já vivemos tudo o que havia a viver, é um dia da criação.

«O que se instala na perfeição/ desconhece aquilo/ que só a indigência revela»

Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a ideia ou desejo de perfeição, porque eles se configuram como o anseio de sair para fora da nossa vida, imaginar uma vida outra, viver com a culpa ou a miragem de uma vida que não é nossa.

O objetivo do trabalho espiritual não é colocar-nos fora de órbita, mas reenviar-nos para o coração da existência, para o que somos, abrindo-nos para uma arte inesperada que é a da indigência - percebermos que na nossa imperfeição há uma sabedoria que está a ser revelada.

A verdadeira sabedoria, que nos faz tocar o coração da vida, é a da indigência, da pobreza, do tosco. Tudo o resto são fórmulas, que podem até ser úteis, mas não são a experiência; podem ser um belo sentimento, uma bela paixão, mas não são aquilo que nós podemos viver.

«Diariamente repito/ escolhas e imperfeições:/ a natureza dos seres em solidão»

É importante percebermos que a nossa escolha é sempre imperfeita, e que diariamente habitamos o imperfeito de forma estável.

É importante levarmos a sério a nossa própria vida, aquilo que somos, abraçarmos a nossa solidão. Porque esse abraço àquilo que somos de forma desprevenida, despojada, é a única possibilidade de um abraço de Deus, a única possibilidade de um abraço que nos salva.

«O meu desejo na primavera:/ que mesmo as flores selvagens/ venham florir à minha porta»

Gostamos da arte da jardinagem, e por vezes a nossa vida é uma arte permanente. Olhamos para o jardim, gostamos, não gostamos, intervimos, cortamos, cerceamos; é muitas vezes um jardim à maneira francesa, com aquele gosto pelas figuras geométricas, pelas formas, pelo jogo da simetria, pelo pandã.

Por vezes, a nossa forma de arrumação torna-se uma obsessiva ilusão, porque a vida é viva, isto é, é informe, em bruto, não trabalhada. Temos de desejar os nossos canteiros muito bem ordenados e floridos, mas também desejar que as flores selvagens, de que não conhecemos o nome nem a forma, venham florir à nossa porta.

Elas dão-nos o espelho do nosso inacabamento, dão-nos a impressão não de uma vida doméstica, que é sempre uma vida domesticada, mas a impressão de uma vida outra, de uma vida na sua torrente, na sua originalidade, na sua verdade.

«A vida monástica/ é uma forma de nudez/ que não se envergonha de si»

É essencial olharmos para uma das imagens iniciais do livro do Génesis, quando Adão e Eva se descobriram nus e se esconderam de Deus. Esta metáfora é também muito da nossa existência.

A nossa vida espiritual é muitas vezes uma arte de esconder, uma arte de não revelar. E a vida que mostramos a Deus é subtraída, é uma vida que nós queremos ser digna de ser vista por Deus, mas que deixa de ser a nossa própria vida.

Os mestres da vida espiritual mostram-nos precisamente o contrário: a Deus, temos de levar a nossa nudez, isto é, a nossa radical verdade, a vida destapada, desoculta e informe."

José Tolentino Mendonça 

Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, Lumiar, Lisboa a 9 de novembro de 2013
In SNPC

Que o Espírito Santo desinstale a Igreja e mude os corações de pedra

Papa pede à Igreja para não resistir ao Espírito Santo e abdicar de «posições estáticas e imutáveis»

"O papa Francisco pediu hoje aos católicos para não se oporem à ação do Espírito Santo, ainda que essa atitude implique desinstalação e fadiga, porque «é Ele que dá harmonia à Igreja».

«Trata-se de uma perspetiva de esperança, mas ao mesmo tempo laboriosa, na medida em que está sempre presente em nós a tentação de resistir ao Espírito Santo, porque transtorna, porque mexe, faz caminhar, impele a Igreja a andar em frente», afirmou na missa a que presidiu na catedral do Espírito Santo, em Istambul, Turquia.

Para a Igreja «é sempre mais fácil descansar nas próprias posições estáticas e imutáveis. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de o regular e domesticar».

A Igreja, frisou, «mostra-se também fiel ao Espírito Santo quando deixa de parte a tentação de olhar para si mesma. E nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonamos um estilo defensivo para nos deixarmos conduzir pelo Espírito», que é «frescura, fantasia, novidade».

Depois de lembrar que o Espírito Santo suscita os múltiplos carismas na Igreja, o que «aparentemente» é motivo de «desordem» mas constitui uma «imensa riqueza», Francisco alertou para os perigos de as comunidades cristãs se enclausurarem em si mesmas.

«Quando somos nós a querer fazer a diversidade e nos fechamos nos nossos particularismos e exclusivismos, levamos a divisão; e quando somos nós a querer fazer a unidade segundo os nossos planos humanos, acabamos por levar a uniformidade e a homologação», apontou.

A abertura e o discernimento são elementos essenciais da identidade da Igreja: «As nossas defesas podem manifestar-se com o enraizamento excessivo nas nossas ideias, nas nossas forças», ou «com uma atitude de ambição e de vaidade».

Nas anteriores intervenções do papa na Turquia, com autoridades religiosas e civis, Francisco apelou ao entendimento entre islão e cristianismo, baseado nos seus pontos de convergência; a mesma mensagem foi agora dirigida para o interior das comunidades cristãs.

«Os mecanismos defensivos impedem-nos de compreender verdadeiramente os outros e de nos abrirmos a um diálogo sincero com eles. Mas a Igreja, que brota do Pentecostes, recebe o fogo do Espírito Santo, que incendeia o coração, mais do que enche a cabeça de ideias», apontou.

O «vento» do Espírito Santo, prosseguiu o papa, «não transmite um poder, mas capacita para um serviço de amor, uma linguagem que cada um é capaz de compreender».

«No nosso caminho de fé e de vida fraterna, quanto mais nos deixarmos guiar com humildade pelo Espírito do Senhor, mais superaremos as incompreensões, as divisões e as controvérsias, e seremos sinal credível de unidade e de paz», declarou o papa Francisco."

por Rui Jorge Martins, em 29 de novembro de 2014 in SNPC

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O papa fala aos jovens

Por ocasião do Dia Mundial da Juventude (próximo Domingo de Ramos), aqui vão aguns excertos da mensagem do papa Francisco:

Queridos jovens,

(…) gostaria nos próximos três anos de reflectir, juntamente convosco, sobre as Bem-aventuranças que
lemos no Evangelho de São Mateus (5, 1-12). Começaremos este ano meditando sobre a primeira: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5, 3); para 2015, proponho: "Felizes os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5, 8); e finalmente, em 2016, o tema será: "Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7).

A força revolucionária das Bem-aventuranças

É-nos sempre muito útil ler e meditar as Bem-aventuranças! Jesus proclamou-as no seu primeiro grande sermão, feito na margem do lago da Galileia. Havia uma multidão imensa e Ele, para ensinar os seus discípulos, subiu a um monte; por isso é chamado o "sermão da montanha". Na Bíblia, o monte é visto como lugar onde Deus Se revela; pregando sobre o monte, Jesus apresenta-Se como mestre divino, como novo Moisés. E que prega Ele? Jesus prega o caminho da vida; aquele caminho que Ele mesmo percorre, ou melhor, que "é" Ele mesmo, e propõe-no como "caminho da verdadeira felicidade". Em
toda a sua vida, desde o nascimento na gruta de Belém até à morte na cruz e à ressurreição, Jesus encarnou as Bem-aventuranças. Todas as promessas do Reino de Deus se cumpriram n'Ele.

Ao proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a segui-Lo, a percorrer com Ele o caminho do amor, o único que conduz à vida eterna. Não é uma estrada fácil, mas o Senhor assegura-nos a sua graça e nunca nos deixa sozinhos. Na nossa vida, há pobreza, aflições, humilhações, luta pela
justiça, esforço da conversão quotidiana, combates para viver a vocação à santidade, perseguições e muitos outros desafios. Mas, se abrirmos a porta a Jesus, se deixarmos que Ele esteja dentro da nossa história, se partilharmos com Ele as alegrias e os sofrimentos, experimentaremos uma paz e uma alegria que só Deus, amor infinito, pode dar.

As Bem-aventuranças de Jesus são portadoras duma novidade revolucionária, dum modelo de felicidade oposto àquele que habitualmente é transmitido pelos "mass media", pelo pensamento dominante. Para a mentalidade do mundo, é um escândalo que Deus tenha vindo para Se fazer um de nós, que tenha morrido numa cruz. Na lógica deste mundo, aqueles que Jesus proclama felizes são considerados "perdedores", fracos. Ao invés, exalta-se o sucesso a todo o custo, o bem-estar, a arrogância do poder, a afirmação própria em detrimento dos outros.

Queridos jovens, Jesus interpela-nos para que respondamos à sua proposta de vida, para que decidamos qual estrada queremos seguir a fim de chegar à verdadeira alegria. Trata-se dum grande desafio de fé. Jesus não teve medo de perguntar aos seus discípulos se verdadeiramente queriam segui-Lo ou preferiam ir por outros caminhos (cf. Jo 6, 67). E Simão, denominado Pedro, teve a coragem de responder: "A quem iremos nós, Senhor? Tu tens  palavras de vida eterna" (Jo 6, 68). Se souberdes, vós também, dizer "sim" a Jesus, a vossa vida jovem encher-se-á de significado, e assim será fecunda.

A coragem da felicidade

O termo grego usado no Evangelho é makarioi, "bem-aventurados". E bem-aventurados quer dizer felizes. Mas dizei-me: vós aspirais deveras à felicidade? Num tempo em que se é atraído por tantas aparências de felicidade, corre-se o risco de contentar-se com pouco, com uma ideia "pequena" da vida. Vós, pelo contrário, aspirai a coisas grandes! Ampliai os vossos corações! Como dizia o Beato Pierjorge Frassati, "viver sem uma fé, sem um património a defender, sem sustentar numa luta contínua a verdade, não é viver, mas ir vivendo. Não devemos jamais ir vivendo, mas viver" ("Carta a I. Bonini", 27 de Fevereiro de 1925). Em 20 de Maio de 1990, no dia da sua beatificação, João Paulo II chamou-lhe "homem das Bem-aventuranças".

Se verdadeiramente fizerdes emergir as aspirações mais profundas do vosso coração, dar-vos-eis conta de que, em vós, há um desejo inextinguível de felicidade, e isto permitir-vos-á desmascarar e rejeitar as numerosas ofertas "a baixo preço" que encontrais ao vosso redor. Quando procuramos o sucesso, o prazer, a riqueza de modo egoísta e idolatrando-os, podemos experimentar também momentos de inebriamento, uma falsa sensação de satisfação; mas, no fim de contas, tornamo-nos escravos, nunca estamos satisfeitos, sentimo-nos impelidos a buscar sempre mais. É muito triste ver uma juventude "saciada", mas fraca.

Escrevendo aos jovens, São João dizia: "Vós sois fortes, a palavra de Deus permanece em vós e vós vencestes o Maligno" (1 Jo 2, 14). Os jovens que escolhem Cristo são fortes, nutrem-se da sua Palavra e não se "empanturram" com outras coisas. Tende a coragem de ir contra a corrente. Tende a coragem
da verdadeira felicidade! Dizei não à cultura do provisório, da superficialidade e do descartável, que não vos considera capazes de assumir responsabilidades e enfrentar os grandes desafios da vida.

Felizes os pobres em espírito...

A primeira Bem-aventurança, tema da próxima Jornada Mundial da Juventude, declara felizes "os pobres em espírito", porque deles é o Reino do Céu. Num tempo em que muitas pessoas penam por causa da crise económica, pode parecer inoportuno acostar pobreza e felicidade. Em que sentido podemos conceber a pobreza como uma bênção?

Em primeiro lugar, procuremos compreender o que significa "pobres em espírito". Quando o Filho de Deus Se fez homem, escolheu um caminho de pobreza, de despojamento. Como diz São Paulo, na Carta aos Filipenses: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus: Ele, que
é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-Se semelhante aos homens" (2, 5-7). Jesus é Deus que Se despoja da sua glória. Vemos aqui a escolha da pobreza feita por Deus: sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). É o mistério que contemplamos no presépio, vendo o Filho de Deus numa manjedoura; e mais tarde na cruz, onde o despojamento chega ao seu ápice.

O adjectivo grego ptochós (pobre) não tem um significado apenas material, mas quer dizer "mendigo". Há que o ligar com o conceito hebraico de anawim (os "pobres de Iahweh"), que evoca humildade, consciência dos próprios limites, da própria condição existencial de pobreza. Os anawim confiam no Senhor, sabem que dependem d'Ele.

Como justamente soube ver Santa Teresa do Menino Jesus, Cristo na sua Encarnação apresenta-Se como um mendigo, um necessitado em busca de amor. O Catecismo da Igreja Católica fala do homem como dum "mendigo de Deus" (n. 2559) e diz-nos que a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa (n. 2560).

São Francisco de Assis compreendeu muito bem o segredo da Bem-aventurança dos pobres em espírito. De facto, quando Jesus lhe falou na pessoa do leproso e no Crucifixo, ele reconheceu a grandeza de Deus e a própria condição de humildade. Na sua oração, o *Poverello* passava horas e horas a perguntar ao Senhor: "Quem és Tu? Quem sou eu?" Despojou-se duma vida abastada e leviana, para desposar a "Senhora Pobreza", a fim de imitar Jesus e seguir o Evangelho à letra. Francisco viveu "a imitação de Cristo pobre e o amor pelos pobres" de modo indivisível, como as duas faces duma mesma moeda.

Posto isto, poder-me-íeis perguntar: Mas, em concreto, como é possível fazer com que esta *pobreza em espírito* se transforme em estilo de vida, incida concretamente na nossa existência? Respondo-vos em três pontos.

Antes de mais nada, procurai "ser livres em relação às coisas". O Senhor chama-nos a um estilo de vida evangélico caracterizado pela sobriedade, chama-nos a não ceder à cultura do consumo. Trata-se de buscar a essencialidade, aprender a despojarmo-nos de tantas coisas supérfluas e inúteis que nos sufocam. Desprendamo-nos da ambição de possuir, do dinheiro idolatrado e depois esbanjado. No primeiro lugar, coloquemos Jesus. Ele pode libertar-nos das idolatrias que nos tornam escravos. Confiai em Deus, queridos jovens! Ele conhece-nos, ama-nos e nunca se esquece de nós. Como
provê aos lírios do campo (cf. Mt 6, 28), também não deixará que nos falte nada! Mesmo para superar a crise económica, é preciso estar prontos a mudar o estilo de vida, a evitar tantos desperdícios. Como é necessária a coragem da felicidade, também é precisa a coragem da sobriedade.

Em segundo lugar, para viver esta Bem-aventurança todos necessitamos de "conversão em relação aos pobres". Devemos cuidar deles, ser sensíveis às suas carências espirituais e materiais. A vós, jovens, confio de modo particular a tarefa de colocar a solidariedade no centro da cultura humana. Perante
antigas e novas formas de pobreza - o desemprego, a emigração, muitas dependências dos mais variados tipos -, temos o dever de permanecer vigilantes e conscientes, vencendo a tentação da indiferença. Pensemos também naqueles que não se sentem amados, não olham com esperança o futuro, renunciam a comprometer-se na vida porque se sentem desanimados, desiludidos, temerosos. Devemos aprender a estar com os pobres. Não nos limitemos a pronunciar belas palavras sobre os pobres! Mas encontremo-los, fixemo-los olhos nos olhos, ouçamo-los. Para nós, os pobres são uma
oportunidade concreta de encontrar o próprio Cristo, de tocar a sua carne sofredora.

Mas - e chegamos ao terceiro ponto - os pobres não são pessoas a quem podemos apenas dar qualquer coisa. Eles "têm tanto para nos oferecer, para nos ensinar". Muito temos nós a aprender da sabedoria dos pobres! Pensai que um Santo do século XVIII, Bento José Labre - dormia pelas ruas de Roma e vivia das esmolas da gente -, tornara-se conselheiro espiritual de muitas pessoas, incluindo nobres e prelados. De certo modo, os pobres são uma espécie de mestres para nós. Ensinam-nos que uma pessoa não vale por aquilo que possui, pelo montante que tem na conta bancária. Um pobre, uma pessoa sem bens materiais, conserva sempre a sua dignidade. Os pobres podem ensinar-nos muito também sobre a humildade e a confiança em Deus. Na parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18, 9-14), Jesus propõe este último como modelo, porque é humilde e se reconhece pecador. E a própria viúva, que lança duas moedinhas no tesouro do templo, é exemplo da generosidade de quem, mesmo tendo pouco ou nada, dá tudo (Lc 21, 1-4).

… porque deles é o Reino de Deus

Tema central no Evangelho de Jesus é o Reino de Deus. Jesus é o Reino de Deus em pessoa, é o Emanuel, Deus connosco. E é no coração do homem que se estabelece e cresce o Reino, o domínio de Deus. O Reino é, simultaneamente, dom e promessa. Já nos foi dado em Jesus, mas deve ainda realizar-se em plenitude. Por isso rezamos ao Pai cada dia: "Venha a nós o vosso Reino".

Há uma ligação profunda entre pobreza e evangelização, entre o tema da última Jornada Mundial da Juventude - "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" (Mt 28, 19) - e o tema deste ano: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5, 3). O Senhor quer uma Igreja pobre, que evangelize os pobres. Jesus, quando enviou os Doze em missão, disse-lhes: "Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem
cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento" (Mt 10, 9-10). A pobreza evangélica é condição fundamental para que o Reino de Deus se estenda. As alegrias mais belas e espontâneas que vi ao longo da minha vida eram de pessoas pobres que tinham pouco a que se agarrar. A evangelização,
no nosso tempo, só será possível por contágio de alegria.

Como vimos, a Bem-aventurança dos pobres em espírito orienta a nossa relação com Deus, com os bens materiais e com os pobres. À vista do exemplo e das palavras de Jesus, damo-nos conta da grande necessidade que temos de conversão, de fazer com que a lógica do "ser mais" prevaleça sobre a lógica
do "ter mais". Os Santos são quem mais nos pode ajudar a compreender o significado profundo das Bem-aventuranças. Neste sentido, a canonização de João Paulo II, no segundo domingo de Páscoa, é um acontecimento que enche o nosso coração de alegria. Ele será o grande patrono das Jornadas Mundiais da Juventude, de que foi o iniciador e impulsionador. E, na comunhão dos Santos, continuará a ser, para todos vós, um pai e um amigo.

(…)

Queridos jovens, o Magnificat, o cântico de Maria, pobre em espírito, é também o canto de quem vive as Bem-aventuranças. A alegria do Evangelho brota dum coração pobre, que sabe exultar e maravilhar-se com as obras de Deus, como o coração da Virgem, que todas as gerações chamam "bem-aventurada" (cf. Lc 1, 48). Que Ela, a mãe dos pobres e a estrela da nova evangelização, nos ajude a viver o Evangelho, a encarnar as Bem-aventuranças na nossa vida, a ter a coragem da felicidade.

Vaticano, 21 de Janeiro - Memória de Santa Inês, virgem e mártir - de 2014.

FRANCISCO

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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