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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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terça-feira, 10 de abril de 2018

Thomas Merton

Do ermitério fez um púlpito sem fronteiras: solidão e comunhão, contemplação e ação

«No último dia de janeiro de 1915, sob o signo de Aquário, num ano de uma grande guerra, na fronteira com a Espanha, à sombra dos montes franceses, vim ao mundo. Feito à imagem de Deus, e por isso livre por natureza, fui todavia escravo da violência e do egoísmo, à imagem do mundo em que nasci. Aquele mundo era o quadro do inferno, cheio de homens como eu, que amavam Deus e contudo o odiavam, e, nascidos para o amar, viviam no temor e no desespero de apetites contrários.» Assim escreveu Thomas Merton no início daquele que é, talvez, o seu trabalho mais conhecido, “A montanha dos sete patamares”, de 1948, evocando o dia do seu nascimento, em Prades, de Owen, neozelandês, e de Ruth Jenkins, norte-americana, pintores “globe-trotter”.

Um aniversário a assinalar por vários motivos que encheram uma vida de apenas 53 anos mas que foi intensa e original, como a sua espiritualidade. Escritor que evoca o visionário William Blake, Merton foi protagonista de um corajoso compromisso pela paz (fonte de diatribes com os superiores, depois valorizado por João XXIII e Paulo VI, com quem trocou correspondência), e também ponto de referência para o movimento não violento pelos direitos civis, preconizando uma paz fundada em argumentos evangélicos e confiada ao testemunho («uma parte essencial da Boa Nova é que as medidas não violentas são mais fortes do que as armas: com armas espirituais a Igreja primitiva conquistou todo o mundo romano»), que permanece hoje com toda a atualidade, como mostra o seu ensaio “Paz na era pós-cristã”.

Antes, ainda, Merton foi sobretudo um monge inquieto, mas que transformou o eremitério, com a pena, num púlpito sem fronteiras, e, com a oração, num tabernáculo onde guardava, juntamente com a Eucaristia, cada irmão; um trapista defensor da vida monástica eremítica e comunitária, convicto de «ter viva no mundo moderno a experiência contemplativa e manter aberta para o homem tecnológico dos nossos dias a possibilidade de recuperar a integridade da sua interioridade mais profunda». Até transformar a sua própria parábola numa narrativa incessante da procura de Deus, vivendo-a entre solidão e comunhão, contemplação e ação.

Além disso, Merton é recordado como homem do ecumenismo e do diálogo, respeitador das diferenças e concentrado no essencial. No diálogo inter-religioso, mais explorativo que funcional, foi pronto a abrir-se a hinduístas, budistas, judeus, islâmicos, a procurar as fontes vitais das outras religiões («se me afirmo como católico apenas negando tudo que é muçulmano, judeu, protestante, hindu, budista, no fim descobrirei que me não resta muita coisa com que me possa afirmar como católico. Certamente não terei o sopro do Espírito com o qual possa afirmá-lo»), e com uma forte atenção às expressões orientais: vejam-se as suas reflexões reunidas por William H. Shannon (“A experiência interior”), ou a recolha em que reinterpreta um dos pais do taoismo (“A via de Chuang-Tzu”).

Merton distingue-se também pelo diálogo com os não crentes, declinado na capacidade de ver sinais de «fé inconsciente» nos ateus, ou de «ateísmo inconsciente» nos crentes («o grande problema é a salvação daqueles que, sendo bons, pensam que já não têm necessidade de serem salvos e imaginam que a sua tarefa é tornar os outros bons como eles»). Uma vida contemplativa, a sua, nunca isolada da realidade. E uma vida consagrada concebida como porta aberta ao amor.

Ficando órfão ainda criança, com o irmão John Paul (perde a mãe em 1921 e o pai dez anos depois), Thomas passa parte da infância nos EUA, e da sua formação na França e na Inglaterra passa a Nova Iorque em 1934, completando os estudos na Universidade de Columbia. Chegado ao catolicismo em 1938, deixando para trás a busca de prazer («a minha conversão foi ajuda de Deus, como cada conversão, e da minha parte foi estudo e procura»), três anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, entra na abadia de Nossa Senhora do Getsémani, no estado do Kentucky, entre os Cistercienses de Estrita Observância. Em 1949 é ordenado padre.

Uma “meta” após um percurso marcado por estudos, viagens, desorientações, encontros, pelo contínuo interrogar-se sobre o sentido da vida, até à atração pelo claustro. Um percurso cujas etapas se refletem em muitas páginas, por vezes atormentadas, mas orientadas na direção da Graça, espalhadas entre “Nenhum homem é uma ilha” (1953), “O sinal de Jonas” (1952), “Sementes de destruição” (1966), sem esquecer “Sementes de contemplação” (1949), e outros escritos, onde a vida contemplativa nunca é fuga do mundo, mas entrada num diálogo profundo com o ser humano.

Enquanto se aguarda que um editor se disponibilize a publicar a versão integral dos seus diários, poder-se-á ler “Merton na intimidade: sua vida em seus diários”, organizado pelos irmãos Patrick Hart e Jonathan Montaldo, síntese que segue o percurso traçado pelo diário que Merton escreveu desde os 16 anos até à morte.

Desde o apartamento no n.º 35 de Perry Street, em Manhattan, e das câmaras de abrigo em Miami e Cuba, até ao “bungalow” de Banguecoque, onde um ventilador o fulminou, a 10 de dezembro de 1968 (encontrava-se lá para um congresso sobre monaquismo, e, como documenta o “Diário da Ásia”, estava bem preparado), passando pelos espaços a ele familiares na abadia do Getsémani (a enfermaria, a cripta dos livros raros, onde escrevia, o depósito escolhido como dormitório), a sequência irradia os pensamentos do monge «viandante de reinos» nascido há cem anos. Tão distante e tão próximo.

Marco Roncalli In "Avvenire"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins, publicado em 28 de janeiro de 2015 in SNPC

sábado, 7 de abril de 2018

Igreja é Comunhão

«Comunhão», um dos mais belos nomes da Igreja

Se nos pudéssemos lembrar sempre de que Cristo é comunhão ...

Ele não veio à Terra para criar mais uma religião, mas para dar a todos a possibilidade de uma comunhão em Deus. Os seus discípulos são chamados a, humildemente, ser fermento de confiança e de paz na humanidade.

Quando a comunhão entre os cristãos é uma vivência, e não uma teoria, transporta um brilho de esperança. Mais ainda: ela pode sustentar a indispensável busca da paz do mundo.

Assim sendo, como é que os cristãos podem continuar ainda separados?

A reconciliação dos cristãos é hoje urgente. Não pode ser eternamente adiada para mais tarde, até ao fim dos tempos.

Ao longo dos anos, a vocação ecuménica proporcionou partilhas extraordinárias. São as premissas de uma reconciliação. Mas quando a vocação ecuménica não se concretiza em comunhão, não leva a lado nenhum.

O Patriarca ortodoxo grego de Antioquia, Inácio IV, é o autor destas palavras impressionantes: «As nossas divisões tornam Cristo irreconhecível. Precisamos urgentemente de iniciativas proféticas que façam sair o ecumenismo dos meandros nos quais receio que se esteja a enterrar. Temos uma necessidade urgente de profetas e de santos que ajudem as nossas Igrejas a converterem-se através do perdão recíproco.» E o Patriarca apelava a que se «privilegiasse a linguagem da comunhão em vez da linguagem da jurisdição».

O papa João Paulo II, ao receber em Roma os responsáveis da Igreja Ortodoxa da Grécia, falava do «ecumenismo da santidade, que nos conduzirá por fim à comunhão plena, que não é nem uma absorção nem uma fusão, mas um encontro na verdade e no amor».

Na longa história dos cristãos, a certa altura, multidões de crentes deram por si separadas, por vezes sem sequer saberem porquê. Hoje é essencial fazer tudo para que o maior número possível de cristãos, frequentemente inocentes nessas separações, se descubram em comunhão.

Será que a Igreja pode dar sinais de grande abertura, tão grande que se possa constatar que os que no passado estavam divididos já não estão separados, mas vivem agora em comunhão?

Será dado um passo em frente quando se verificar que existe já uma vida de comunhão em alguns lugares do mundo. Será preciso coragem para o constatarmos e para nos adaptarmos. Os textos virão depois. Se privilegiarmos os textos, não acabaremos por nos distanciar da interpelação do Evangelho: «Vai primeiro reconciliar-te»?

São inúmeras as pessoas que desejam a reconciliação do fundo do coração. Aspiram a esta alegria infinita: um só amor, um só coração e uma só e mesma comunhão.

Sim, a comunhão é a pedra de toque. Ela nasce em primeiro lugar no coração de cada cristão, no silêncio e no amor. Começa, desde logo, no interior de cada pessoa.
Há cristãos que, sem esperar mais, vivem já reconciliados nos lugares onde se encontram, de forma muito humilde e simples.

Através das suas próprias vidas, gostariam de tornar Cristo presente para muitas outras pessoas. Sabem que a Igreja não existe para si mesma, mas para o mundo, para nele depositar um fermento de paz.

«Comunhão» é um dos mais belos nomes da Igreja: nela não há lugar para a brusquidão recíproca, mas apenas para a clareza, a bondade do coração, a compaixão...

Nesta comunhão única que é a Igreja, Deus dá-nos tudo para irmos às fontes: o Evangelho, a Eucaristia, a paz do perdão... E a santidade de Cristo deixa de ser inalcançável; está presente, muito próxima.

Permitam-me que volte a dizer que a minha avó materna descobriu, intuitivamente, uma espécie de chave da vocação ecuménica e que ela me abriu um caminho para a concretizar.

Depois da Primeira Guerra Mundial, habitava nela o desejo de que ninguém tivesse de viver aquilo que ela tinha vivido: na Europa, os cristãos tinham pegado em armas para combater uns contra os outros. Que ao menos eles se reconciliem para tentar impedir uma nova guerra, pensava ela. A minha avó era de origem evangélica mas, começando a reconciliação por si própria, começou a ir à igreja católica, sem, no entanto, romper com as pessoas da sua tradição.

Marcado pelo testemunho da sua vida, e ainda muito novo, encontrei a minha identidade de cristão seguindo as suas pisadas, reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé católica, sem quebrar a comunhão com ninguém.

Ir. Roger de Taizé
In "Não pressentes a felicidade?", ed. Paulinas
Publicado em Janeiro de 2015 in SNPC

sábado, 21 de outubro de 2017

O paraíso é um estado de alma

Na comunhão com Deus o ser humano alcançará a plena maturação

"«Mais do que um lugar», o «Paraíso» é um estado de alma, afirmou hoje o papa Francisco na audiência geral semanal que decorreu na Praça de S. Pedro, no Vaticano.

A poucos dias do início do Advento, tempo litúrgico que a partir de domingo evoca o fim dos dias e a vida eterna com Deus, o papa realçou que nessa comunhão o ser humano alcançará «a plena maturação», refere a Rádio Vaticano.

«Seremos finalmente revestidos da alegria, da paz e do amor de Deus de modo completo, sem mais nenhum limite, e estaremos face a face com Ele. É belo pensar nisto, pensar no Céu», assinalou.

O que se passará após a morte e a eternidade estão entre algumas das inquietações mais profundas do ser humano, desde sempre: «Surgem em nós, espontaneamente, algumas perguntas: quando acontecerá esta passagem final? Como será a nova dimensão na qual a Igreja entrará? O que será então da humanidade? E da criação que nos rodeia?».

«Estas perguntas não são novas, já as tinham colocado os discípulos a Jesus», recordou Francisco, acrescentando: «São perguntas humanas, perguntas antigas. Também nós fazemos estas perguntas».

Francisco lembrou que para o cristianismo há continuidade entre a Igreja que está no Céu e a que vive na Terra: «Na perspetiva cristã, a distinção já não é entre quem já morreu e quem ainda não está, mas entre quem está em Cristo e quem não está. Este é o elemento determinante, verdadeiramente decisivo para a nossa salvação e para a nossa felicidade».

De acordo com a revelação bíblica, o que se perspetiva é uma «nova criação»: «Não é, portanto, uma destruição do cosmo e de tudo o que nos rodeia, mas um levar cada coisa à sua plenitude de ser, de verdade, de beleza». (...)."

Redação: Rádio Vaticano, Trad. / edição: Rui Jorge Martins, Publicado em 26 de novembro de 2014 in SNPC

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quem recebe a comunhão?

A comunhão não é prémio para os perfeitos, mas alimento para os crêem em Jesus e querem segui-lo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Comunhão e partilha

Homilia de Francisco no Corpo de Deus

Não devemos ter medo da solidariedade, diz papa, que pede comunhão e partilha

«Caros irmãos e irmãs, no Evangelho que escutámos, há uma expressão de Jesus que me impressiona sempre: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Lc 9,13). Partindo desta frase, deixo-me guiar por três palavras: seguimento, comunhão, partilha.

1. Antes de tudo: quem são aqueles a quem dar de comer? Encontramos a resposta ao início do trecho evangélico: é à multidão. Jesus está no meio das pessoas, acolhe-as, fala-lhes, cura-as e mostra-lhes a misericórdia de Deus. No meio delas escolhe os doze apóstolos para estarem com Ele e se imergirem como Ele nas situações concretas do mundo. E as gentes seguem-no, escutam-no porque Jesus fala e age numa maneira nova, com a autoridade de quem é autêntico e coerente, de quem fala e age com verdade, de quem dá a esperança que vem de Deus, de quem é revelação do rosto de um Deus que é amor. E as gentes, com alegria, bendizem Deus.

Esta noite somos nós a multidão do Evangelho; também nós procuramos seguir Jesus para o ouvir, para entrar em comunhão com Ele na Eucaristia, para o acompanhar e para que nos acompanhe. Perguntemo-nos: como é que eu sigo Jesus? Jesus fala em silêncio no mistério da Eucaristia e todas as vezes nos recorda que segui-lo quer dizer sair de nós mesmos e fazer da nossa vida não uma possessão nossa mas um dom a Ele e aos outros.

2. Demos um passo em frente: de onde nasce o convite que Jesus faz aos discípulos para que tirem eles mesmos a fome à multidão? Nasce de dois motivos: em primeiro lugar da turba que, seguindo Jesus, se encontra em campo aberto, longe de lugares habitados, enquanto se faz noite; e, depois, da preocupação dos discípulos que pedem a Jesus para despedir as pessoas para que vá para as terras vizinhas para encontrar alimento e alojamento (cf. Lc 9,12). Diante da necessidade da multidão, eis a solução dos discípulos: que cada um pense em si próprio; despedir a multidão! Quantas vezes nós, cristãos, temos esta tentação. Não fazemos caso da necessidade dos outros, despedindo-os com um piedoso «Que Deus te ajude", ou com um não tão piedoso "Boa sorte"...

Mas a solução de Jesus vai noutro sentido, um sentido que surpreende os discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Mas como é que é possível sermos nós a dar de comer a uma multidão? «Só temos cinco pães e dois peixes, a menos que vamos nós comprar alimento para toda esta gente» (Lc 9,13). Mas Jesus não se desencoraja: pede aos discípulos para fazerem sentar as gentes em comunidades de cinquenta pessoas, levanta os olhos ao céu, recita a bênção, parte os pães e dá-os aos discípulos para que os distribuam (cf. Lc 9,16). É um momento de profunda comunhão: a multidão saciada pela palavra do Senhor é agora alimentada pelo seu pão de vida. E todos foram saciados, nota o evangelista (cf. Lc 9,17).

Esta noite, também nós estamos à roda da mesa do Senhor, à mesa do sacrifício eucarístico, no qual Ele nos dá mais uma vez o seu Corpo, torna presente o único sacrifício da cruz. E na escuta da sua palavra, no nutrir-se do seu Corpo e do Seu Sangue, que Ele nos faz passar do ser multidão ao ser comunidade, do anonimato à comunhão. A Eucaristia é o sacramento da comunhão, que nos faz sair do individualismo para vivermos juntos o seguimento, a fé nEle. Devemos então perguntar-nos diante do Senhor: como vivo eu a Eucaristia? Vivo-a de modo anónimo ou como momento de verdadeira comunhão com o Senhor, mas também com todos os irmãos e irmãs que partilham esta mesma mesa? Como são as nossas celebrações eucarísticas?

3. Um último elemento: de onde nasce a multiplicação dos pães? A resposta está no convite de Jesus aos discípulos: «Dai vós mesmos...», "dar", partilhar. O que é que os discípulos partilham? O pouco que têm: cinco pães e dois peixes. Mas são precisamente aqueles pães e aqueles peixes que nas mãos do Senhor tiram a fome a toda a multidão. E são os próprios discípulos, perplexos diante da incapacidade dos seus meios, na pobreza do que podem colocar à disposição, a fazer acomodar as pessoas e a distribuir - confiando-se na palavra de Jesus - os pães e peixes que alimentam a multidão. E isto diz-nos que na igreja, mas também na sociedade, uma palavra chave de que não devemos ter medo é «solidariedade», saber colocar à disposição de Deus o que temos, as nossas humildes capacidades, porque só na partilha, no dom, a nossa vida será fecunda, dará fruto. Solidariedade: uma palavra malvista pelo espírito do mundo.

Esta noite, mais uma vez, o Senhor distribui para nós o pão que é o seu Corpo, faz-se dom. E também nós experimentamos a "solidariedade de Deus" com o homem, uma solidariedade que nunca se esgota, uma solidariedade que não cessa de nos surpreender: Deus faz-se próximo de nós, no sacrifício da cruz abaixa-se, entrando na escuridão da morte para dar-nos a sua vida, que vence o mal, o egoísmo e a morte. Jesus também esta noite dá-se-nos na Eucaristia, partilha o nosso próprio caminho, faz-se alimento, o verdadeiro alimento que sustém a nossa vida mesmo nos momentos em que o caminho se torna duro e os obstáculos abrandam os nossos passos. E na Eucaristia o Senhor faz-nos percorrer o seu caminho, o do serviço, da partilha, do dom, e aquele pouco que temos, aquele pouco que somos, se partilhado, torna-se riqueza, porque o poder de Deus, que é o do amor, desce à nossa pobreza para a transformar.

Perguntemos então esta noite, adorando o Cristo presente realmente na Eucaristia: deixo-me transformar por Ele? Deixo que o Senhor que se dá a mim, me guie a sair cada vez mais do meu pequeno espaço, a sair e a não ter medo de dar, de partilhar, de amar a Ele e aos outros?
Irmãos e irmãs: seguimento, comunhão, partilha. Rezemos para que a participação na Eucaristia nos leve sempre: a seguir o Senhor a cada dia, a sermos instrumentos de comunhão, a partilhar com Ele e com o nosso próximo aquilo que somos. Então a nossa existência será verdadeiramente fecunda. Ámen.»

Papa Francisco
Solenidade do Corpo de Deus, Roma, 30.5.2013
in SNPC (trad.) a 31.05.13

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Comunidade, comunhão e integração

Três meses depois das JMJ no Rio de Janeiro, recolho algumas das palavras que Francisco disse aos jovens, à Igreja, e ao mundo:

O Papa no Rio
parte 2

Jesus não nos quer sozinhos

«Jesus não disse: "Vai", mas "Ide": somos enviados em grupo. Queridos jovens, sintam a companhia de toda a Igreja e também a comunhão dos Santos nesta missão. Quando enfrentamos juntos os desafios, então somos fortes, descobrimos recursos que não sabíamos que tínhamos. Jesus não chamou os Apóstolos para que vivessem isolados; chamou-lhes para que formassem um grupo, uma comunidade.» (Homilia na missa final)

Contra a exclusão

No avião que o transportou para o Brasil, os jornalistas que acompanharam Francisco notaram o recurso a esta expressão, regularmente retomada. A proteção e integração dos mais frágeis, a começar pelos jovens e idosos, é um dos temas favoritos do papa.

«Em muitos ambientes, e em geral neste humanismo economicista que se nos impôs no mundo, abriu-se caminho a uma cultura da exclusão, uma "cultura do descartável". Não há lugar para o idoso nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com aquele pobre na rua. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas estão reguladas por dois "dogmas": eficiência e pragmatismo. Queridos bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, e vós, seminaristas que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir a contracorrente dessa cultura.» (Homilia na missa com bispos, padres, religiosos e seminaristas)

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um cristão não é uma ilha

De onde nos vem a fé?

«A fé é um ato pessoal: “eu creio”, eu respondo pessoalmente a Deus que se faz conhecer e quer estabelecer amizade comigo. 
Mas eu recebo a fé dos outros, numa família, numa comunidade que me ensina a dizer “eu creio”, “nós cremos”. 
Um cristão não é uma ilha! Nós não nos tornamos cristãos em laboratório, nós não nos tornamos cristãos sozinhos e com as nossas forças, mas a fé é um presente, é um dom de deus que nos é dado na Igreja e através da Igreja.»

Papa Francisco

in SNPC

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Abraçados podemos voar

Partilho este belíssimo texto sobre o amor e o casamento

Abraçados podemos voar


(...) Tenho tido nestes anos, como padre, a gratíssima alegria de casar dezenas de amigos. Sei por eles, e da forma mais pura, a verdade daquele verso de Dante que diz: «o amor move o sol e as outras estrelas». Ao olhar para o interior das suas vidas, para dentro dos seus sonhos e até dos seus temores é esse incomparável mistério que se deteta: o modo como o amor, como a frágil força do amor é capaz de mover, de transfigurar e de unir, até ao fim, cada fragmento do corpo e cada filamento da alma.

Um outro autor italiano escreveu: «Somos anjos de uma asa apenas. Só permanecendo abraçados podemos voar». O casamento é a serena e criativa conjugação destes dois sentimentos que, fora dele, pareciam destinados a existir unicamente em contraste: a solidão e a comunhão. O amor agudiza a consciência de sermos um; descobre, aos nossos próprios olhos, a irresolúvel incompletude que individualmente nos caracteriza, a nossa insuperável carência; e ensina-nos o sabor de uma, até aí desconhecida, solidão: aquela que se sente por estar privados do ser amado. No bíblico livro de Rute isso vem assim explicitado: «a vida tratar-me-á com duros rigores se outra coisa, a não ser a morte, me impedir de olhar diariamente o teu rosto» (Rt 1,17). A solidão incandescente com que o amor fere os que se amam é, porém, o que faz dele uma prática de desejo e de caminho, um exercício de mendicância (na verdade, o amor é sempre uma conversa entre mendigos) e de busca, uma forma de entrega e de súplica. Por alguma razão a experiência religiosa da mística recorre a uma linguagem próxima desta amorosa. Os enamorados percebem o estado dos grandes orantes e vice-versa, creio.

Mas o amor é sobretudo milagre da comunhão. Uma comunhão construída também com esforço, é claro, conquistada continuamente ao território muito defendido do egoísmo, traduzida em decisões quotidianas e vigilantes. Porém, não é propiamente de uma conquista que se trata, mas do arrebatamento comum pelo dom, do espanto inesgotável, de uma hospitalidade radical. «Se me tapares os olhos: ainda poderei ver-te. Se me tapares os ouvidos: ainda poderei ouvir-te. E mesmo sem pés poderei ir para ti. E mesmo sem boca poderei invocar-te». O fundamental é vislumbrado e servido em completa dádiva, acontece sem porquês, no âmbito de uma gratuidade infatigável, numa geografia sem condições nem reservas. O amor não se explica: implica-se. É uma voluntária hipoteca, um sigilo de sangue, entrelaçamento vital. Os enamorados conspiram com o milagre e, por isso, tornam-se, de forma tão íntima, cúmplices de Deus.

Compreendo o aviso meio irónico que Auden faz contra as festas de casamento. Ele diz que os noivos deviam ser humildes e não fazer logo no primeiro do seu casamento uma festa colossal, quando, no fundo, está ainda tudo por construir. Mas também acho impossível não celebrar a alegria do casamento, e fazê-lo com uma simbólica desmesura. Poucos momentos dão a ver assim a vida na sua transparência.
José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira, 14.09.11
Publicado em SNPC

domingo, 1 de abril de 2012

Comparação e imitação: o perigo de seguir um modelo

Viver sem se comparar

Para falar, o homem usa comparações. Não são elas essenciais à descoberta e à expressão da verdade? O próprio Cristo age assim quando quer «revelar» coisas escondidas desde a fundação do mundo. «Com que hei-de comparar o Reino dos céus…?» E Santo Inácio, para que se torne visível o que é invisível, propõe à pessoa que está a fazer retiro uma «composição de lugar» que é uma verdadeira «comparação corporal»!

Contudo, se tem de comparar, o homem deve reconhecer que comparar-se é entrar no jogo mortal da rivalidade e da inveja. Para nos encontrarmos a nós mesmos, devemos renunciar a todo o modelo, isto é, num primeiro sentido: «aquilo que se reproduz por imitação. Latim: “modulus” medida… por analogia pessoa, objecto… que merecem ser imitados.» (Grand Larousse encyclopédique de 1963).

A imitação é um conceito que, para ser bem compreendido e vivido, deve ser convertido, sobretudo quando se trata «de imitar Jesus-Cristo». Seguir Jesus-Cristo é passar para além do mimetismo para deixar viver o desejo. Quando Cristo nos diz: «Amai-vos como eu vos amei», o como é analógico, respeita a diferença; segundo bons exegetas, dever-se-ia traduzi-lo «segundo a medida do meu amor». E cada um segundo a medida da sua graça! Com efeito, Cristo é único e inimitável. Aliás, há vários «modelos» no Evangelho. Qual escolher? O da Galileia ou o de Jerusalém? Temos opção?

Paradoxalmente é renunciando a toda a imagem imitável, mesmo à de Jesus Cristo, que nos tornaremos nós próprios, e conseguiremos assemelhar-nos àquele cuja imagem somos chamados a reproduzir (Romanos 8, 29). (…)

Assim, sem sacralizar nenhuma via, mesmo que ela seja excelente, chegaremos àquela que as «ultrapassa a todas»: a via do amor verdadeiro.

«Senhor, e que vai ser deste…?
Se eu quiser… que tens tu com isso? Tu, segue-me!» (João 21, 21-22)

[Editorial do n.º 133 Janeiro de 1987 da revista CHRISTUS]

Imitar e seguir

No filme Viridiana, de Buñuel, uma jovem noviça é levada, por razões de família, a deixar o convento. Depois da sua saída, tenta imitar com exactidão no mundo aquilo que ela tinha ouvido e aprendido no convento da vida exemplar de Jesus. Reúne mendigos à volta dela, dá-lhes de comer e quereria fazer deles um grupo de devotos. Contudo, a «santa empresa» falha e provoca precisamente o contrário daquilo que a jovem mulher se propunha. Produz-se uma explosão de violência à qual a própria benfeitora escapa a muito custo.

A questão posta por este filme de Buñuel não é artificial; uma observação atenta descobre alguma coisa análoga na vida dos santos. Antes da sua conversão, Inácio de Loyola era um cavaleiro ambicioso e um soldado. Ferido em combate, entusiasmou-se, sob a influência de uma vida dos santos, por um ideal novo, e pôs-se a copiar, a partir do exterior, o género de vida de São Francisco e de São Domingos, e tentou mesmo superá-los aos dois por meio do rigor das mortificações corporais. Tudo correu bem durante alguns meses, depois desencadeou-se uma crise que o mergulhou numa perturbação profunda e que cresceu até à tentação do suicídio. A imitação de um ideal a partir do exterior tinha resultado muito rapidamente nele numa auto-agressão maciça. Não foi senão graças a um claro discernimento dos efeitos devastadores do seu zelo cego e a uma nova experiência do Espírito que ele foi libertado desse estado insuportável e perigoso. Por esta reviravolta da sua maneira de pensar (espécie de «segunda conversão»), Inácio aprendeu a distinguir entre imitar a partir do exterior e seguir segundo a condução do Espírito. Mais tarde, ele devia desenvolver o método dos Exercícios a partir desta visão central.

O mecanismo da imitação

René Girard analisou minuciosamente, utilizando grandes romances da literatura universal, a relação que existe entre a imitação/mimésis e a agressão. Ele mostra, com o testemunho dos grandes escritores, que os homens não se bastam a si próprios, aspiram a realizar-se mais e imitam desejos que lhes são alheios, porque eles próprios não sabem o que poderia dar-lhes a felicidade ardentemente desejada. Todas as espécies de modelos fascinantes podem suscitar a imitação, mas ela nasce, no fim de contas – antes de todo o julgamento e de toda a comparação – de uma «imediatidade quase-osmótica»[1] com essa imagem ideal que entra por acaso numa vida. Como este desejo é uma cópia de um desejo alheio, ele é espontaneamente dirigido para o bem que o modelo já procura alcançar. Se o bem for limitado, o conflito é inevitável porque dois desejantes não podem possuir o bem de uma maneira igual. Tal é a origem da célebre estrutura triangular do desejo que desempenha um papel determinante não só nas relações eróticas mas também na luta pelo poder e mesmo em todo o lugar em que se trate de influência e de relações.

As análises de Girard permitem compreender que da admiração, e mesmo da união «quase-osmótica» com um ideal, podem nascer espontaneamente conflitos e rivalidades, sem que uma intenção consciente perversa ou uma agressão congénita devam entrar necessariamente em jogo. A imitação fundada na admiração leva à rivalidade pelo seu dinamismo próprio. Estas mesmas análises mostram além disso que a continuação do conflito é determinada pela mimésis porque a hostilidade incipiente leva também à imitação. Assim a rivalidade pode facilmente crescer até à agressão consumada e à violência. Nesta questão, representações abstractas e ideias estranhas à vida desempenham também frequentemente um papel de modelos. Por exemplo, o Dom Quixote de Cervantes tinha perante o seu olhar interior, em todas as suas acções, o rei Artur dos romances de cavalaria. Esta imitação, a bem dizer, não o desviava para a violência física, porque o seu modelo/adversário (o rei Artur) estava demasiado distante e era absolutamente impossível combatê-lo fisicamente uma vez que ele não existia senão nos livros; mas Dom Quixote movia-se num mundo irreal e ele foi levado a lutar contra moinhos de vento.

Girard analisa também, em relação com a mimésis, os problemas da auto-agressão. Um modelo que sente que um desejo admirador e imitador aspira à mesma coisa que ele, adopta habitualmente uma conduta hostil a seu respeito. Normalmente, ele não fica apesar disso menos um modelo. É por isso que a sua tendência agressiva contra o «discípulo» é copiada também por este. Deste modo o imitador – numa união «quase-osmótica» com o seu modelo que se vira contra ele - é levado a «lutar» contra si mesmo. Fenómenos tais como o sadismo e o masoquismo podem encontrar assim uma explicação elucidativa.[2]

Estas análises da mimésis tornam muito explícitas as primeiras experiências religiosas de Inácio, porque o cavaleiro basco, depois da sua conversão, parece ter-se extraviado de duas maneiras no mecanismo da imitação. Por um lado, ele imitava os aspectos exteriores austeros do género de vida e as mortificações corporais dos santos que lhe tinham surgido como modelos novos e ele punha-se a tratar duramente o seu próprio corpo. Por outro lado, o velho ideal cavaleiresco, segundo o qual é preciso «superar» e «suplantar» os outros, continuava a actuar nele. Por isso é que ele queria fazer ainda mais do que os seus modelos novos e as suas rudes mortificações corporais. Deste modo ele foi arrastado para uma dupla dureza e «agressão» contra si próprio, e teve de experimentar que, no fim de contas, crescia nele a tentação do suicídio.

O mecanismo da mimésis ajuda a compreender de uma maneira nova tanto os personagens de romances como muitas experiências tiradas das vidas dos santos. Poder-se-ia ilustrar também a sua importância considerável com exemplos triviais como os da publicidade televisiva, porque esta publicidade não elogia, em geral, produtos isolados de todo o contexto, mas mostra pessoas sedutoras que desempenham a função de modelos e possuem o produto em questão. Deste modo é suscitado no telespectador o desejo secreto de ter o mesmo objecto. Os especialistas da publicidade parecem portanto ter descoberto instintivamente esta lei da mimésis da qual Girard fez uma análise sistemática. Mas, para o nosso tema, o que é mais significativo é que, graças a uma inteligência mais penetrante do mecanismo da mimésis, textos bíblicos capitais se tornam mais eloquentes.

A via de Cristo e a imitação

«O Reino de Deus está próximo.» Jesus inaugura a sua vida pública com esta mensagem. Antes de tentar converter os homens a um comportamento novo, indica-lhes um bem novo, o Deus próximo, capaz de satisfazer completamente a sua aspiração mais profunda e que não provoca nenhuma rivalidade, porque Ele está pronto a dar-se a todos sem limite. Os homens, no fundo do seu coração, não têm de se colocar sob uma lei nova ou sob um modelo novo, mas de perceber uma realidade nova, de se deixarem abrir a ela e determinar por ela. Jesus proclamava que o Pai celeste era um Deus intimamente próximo dos homens e que se interessava pelos pecadores com amor. Para poder reconhecer neste «Pai» o verdadeiro Deus, é preciso seguramente romper com a atracção instintiva dos modelos terrestres.

É por isso que Jesus, pela sua mensagem do poder de Deus muito próximo, exigia também aos homens uma transmutação radical daquilo que é considerado como um modelo segundo os olhos do mundo (Bem-aventuranças). Face aos ricos ele coloca os pobres, face àqueles que riem os que choram, face aos guerreiros e aos combatentes vitoriosos os mansos e os artífices da paz. No lugar dos que o mundo admira instintivamente, ele elogia os homens normalmente considerados sem valor. Deste modo ele tenta abrir para novas experiências e dar novas possibilidades de vida.

No Antigo Testamento fazia autoridade o princípio «olho por olho, dente por dente» (Êxodo 21, 24). Não era um princípio de dureza cruel como frequentemente o pensam, mas uma máxima de moderação sensata num mundo de pecado. Com efeito, os homens tendem por si mesmos para represálias sem limites, como bem o mostra o Génesis com as personagens de Caim e de Lamec que tinham por princípio vingar-se sete vezes, até setenta vezes sete (Génesis 4, 23). Jesus não se afastava somente de Caim e de Lamec; pela sua mensagem ele visava mesmo mais do que a lei das represálias únicas e comedidas, e atacava assim o mecanismo da mimésis. Com efeito, aí onde segundo o princípio «olho por olho, dente por dente» se responde a uma má acção com uma retaliação proporcionada, aí reina a imitação que, por si – apesar da tentativa de sábia moderação -, não tem fim, estando cada um persuadido de que não foi ele quem começou com o mal, mas que ele deve apenas «exercer represálias» contra uma anterior má acção do seu adversário. A escalada no mal não pode pois ser superada na raiz senão se o mecanismo da imitação for revelado e se resistirmos desde o início à sua secreta atracção.

É justamente o que Jesus pede com esta palavra decisiva: «Não oponhais resistência ao mau» (Mateus 5, 39). Com isso Ele não queria de maneira nenhuma incitar a entregar-se passivamente ao malvado visto que Ele mesmo travou um «combate impiedoso» contra as forças de perdição. A sua exortação dirigia-se contra a tendência espontânea dos homens para se oporem ao mal no mesmo plano e com as mesmas armas – tendência que não é outra coisa senão uma das múltiplas variantes da mimésis. Tanto tempo quanto ela dominar, toda a tentativa de moderação sensata está ameaçada e espreita-nos o perigo da vingança renovada sete vezes e setenta vezes sete. Afastando claramente este mau excesso, Jesus fala do excesso do amor e convida os seus discípulos a um perdão renovado setenta vezes sete (Mateus 18, 22), portanto a um comportamento que de modo nenhum se deixa arrastar, pela maldade quase sem limites do adversário, para «contramedidas» que se lhe assemelhem.

Não foi com palavras apenas que Jesus preveniu contra o perigo das retaliações imitadoras: ele teve também de enfrentar até ao fim este problema na sua própria vida. Como Ele se apresentava com poder e, pelo seu comportamento, tornava visível em sinais o mundo novo do seu Pai celeste, Ele podia suscitar em muitos uma confiança nova. Com as suas palavras sublimes e os seus sinais de salvação ele resplandecia de glória, fascinava e tinha sucesso entre o povo. Ele também era secretamente admirado pelos dirigentes (cf. João 11, 47ss.) ao mesmo tempo que foi rapidamente sentido como um concorrente. E justamente, a sua conduta plena de poder e de fascínio provoca ainda mais essa rivalidade que Ele queria superar na sua raiz. Nisto se manifesta o poder dissimulado do mal que, por meio da mimésis, pode incendiar-se também contra o seu contrário.

Nesta rejeição de Jesus, a mimésis desempenhava um papel determinante sob um outro ponto de vista, como bem o mostra sobretudo o Evangelho de São João. Depois da narrativa da actividade pública de Jesus, ele tem esta reflexão: «Embora Jesus tivesse realizado diante deles tantos sinais portentosos, não acreditavam nEle… Apesar disso, até entre os chefes, muitos acreditaram nEle, mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da Sinagoga, pois amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus» (João 12, 37-43).

Aquilo que neste texto é chamado «glória» (consideração), coincide largamente com aquilo que nós considerámos até aqui nos vocábulos de «mimésis» e de «imitação». Aquele que se deixa levar pela aspiração à glória, conforma-se, no seu agir, com a atitude daqueles que, na sociedade em que estão, já usufruem do reconhecimento social e são considerados como modelos para muitas pessoas. Esta «lei» funciona também no povo ao qual Jesus se dirigia, e funciona em prejuízo dEle. Graças à sua conduta sublime, Ele irradiava na verdade uma autoridade e muitos voltavam-se para Ele; mas havia ainda uma outra autoridade, a dos Fariseus que tinham desempenhado até então o papel de dirigentes. A partir do momento em que estas autoridades entravam em conflito, as pessoas tinham de se determinar e seguiam o partido que era reconhecido desde há muito tempo e que instintivamente admitiam que a grande maioria do povo seguiria no futuro. Quem usufrui da glória é imitado, e quem é imitado por muitas pessoas adquire uma glória suplementar. Assim nasce um turbilhão a cuja atracção, normalmente, as pessoas podem dificilmente escapar.

Esta atracção funcionava também contra Jesus. A sua força aparece claramente no comportamento dos mais próximos dos seus discípulos. Tanto tempo quanto Ele foi senhor dos seus movimentos, a impressão que Ele produzia sobre eles era tão forte que ela podia neutralizar todos os poderes contrários. A partir do momento em que Ele foi preso, a sua «glória» exterior desapareceu e os seus discípulos caíram sob a influência do poder nascido da glória dos Fariseus. O pastor foi ferido e as ovelhas dispersaram-se (Mateus 26, 31). Só os encontros com o Ressuscitado e a descida do Espírito Santo puseram de novo fim a esse fascínio com novas e profundas experiências.

O Espírito Santo e a imediatidade dos modelos

Se o poder atractivo da imitação é tão grande é porque os modelos actuam no fim de contas antes de toda a reflexãoconsciente e antes de toda a comparação consciente, e porque eles determinam as aspirações e a avidez segundo uma imediatidade quase-osmótica. Esta imediatidade permite compreender por que razão as palavras de Jesus deixaram de actuar logo que a acção da sua pessoa foi contestada como modelo a imitar. As suas palavras não puderam exercer uma acção nova senão aí onde uma imediatidade nova – a presença do Espírito Santo – destruiu o fascínio quase-osmótico dos modelos. Graças à experiência do Pentecostes, os discípulos puderam vencer o respeito humano que encontra a sua fonte no jogo do modelo e da imitação.

Ao mesmo tempo, eles aprendiam também a reconhecer com mais profundidade que o Deus pregado por Jesus não é um ídolo ao lado de outros ídolos e que ele não cativa de modo nenhum os homens por meio do fascínio violento do divino. Não tendo ele próprio, no momento da maior aflição humana, nem combatido nem vencido os seus adversários por meio da força exterior, mas tendo-se oposto a eles pela sua Palavra e com toda a liberdade interior, Jesus revelava que o seu Pai era um Deus da liberdade incondicionada. Este Deus da liberdade torna possível a liberdade verdadeira das suas criaturas, porque ele supera, pelo seu Espírito, o respeito humano, o fascínio do colectivo e dos chefes reconhecidos, e a autoridade rígida da letra pretensamente «santa».

O Espírito do Pai desmascara também a verdadeira natureza do «espírito adverso», de «Satanás». A forma mais subtil da mimésis opera aí onde, não uma criatura mas uma «imagem» do próprio Deus, age à maneira de um modelo e suscita a imitação por avidez. Este problema exprime-se em linguagem simples na narrativa da queda original. Dando um mandamento ao primeiro casal humano, Deus mostra-se aí como o senhor do bem e do mal. A voz do tentador, que intervém precisamente a seguir, é uma voz que quer imitar esse Deus, porque ela não sussurra a Eva nada de diferente do desejo de conhecer, como Deus, o bem e o mal. O espírito sedutor e satânico faz-se passar pois pelo espírito da imitação de Deus por avidez.

O Novo Testamento fala claramente, também ele, desse espírito. Na parábola dos maus vinhateiros, mostra-se por exemplo que os caseiros se atiram contra os servos do senhor da vinha e os expulsam ou matam. O motivo para uma tal acção torna-se perfeitamente claro quando surge o próprio filho do senhor da vinha. Então os malvados dizem abertamente um ao outro que querem apoderar-se da herança pela força (Marcos 12, 1-12). Como, segundo a estrutura dos evangelhos, Deus é ele mesmo o senhor e Cristo o seu filho, a parábola descreve os homens que surgem no papel de malvados vinhateiros como seres que querem imitar Deus na sua qualidade de senhor da vinha e Cristo na sua função de herdeiro, para como eles disporem da vinha. «Aquilo que os vinhateiros fazem é o pecado primordial da mimésis, do desejo de querer ser igual a Deus, da hostilidade contra Deus que desencadeia a violência.»[3]

O cúmulo do pecado está portanto exteriormente muito próximo da santidade e o mal não tem ser próprio mas não é outra coisa senão uma imitação do bem. Ele gera a inveja, o espírito do mal manifesta-se antes de mais como esse espírito satânico que imita Deus e transforma-se, desde a vinda de Cristo, em espírito do anticristo que imita o Salvador.[4] Esta táctica subtil, esta arte da vigarice e da distorção não podem ser descobertas nem vencidas apenas por modelos exteriores. Somente o Espírito que introduz completamente na verdade, e está mais intimamente e mais imediatamente próximo dos homens do que qualquer modelo exterior alguma vez poderá estar, é capaz de separar a verdade da aparência ilusória.

Imitar e seguir

Não é necessário entender a crítica da imitação no sentido de que deveria recusar-se todo o modelo para o agir humano e tentar viver na pura espontaneidade. O próprio Girard não tira de modo nenhum essa conclusão da sua análise da mimésis, da rivalidade e da violência. Ele diz pelo contrário: «Os Evangelhos e o Novo Testamento não pregam uma moral da espontaneidade. Eles não pretendem que o homem deva renunciar à imitação; eles recomendam imitar o único modelo que não corre o risco de, se nós o imitarmos verdadeiramente como as crianças o imitam, se transformar por nós em rival fascinante[5]

Esta citação é importante, mas ela permanece ambígua, porque também há, como o mostra o exemplo da Viridiana de Buñuel assim como as experiências de numerosos santos, uma forma de imitação de Cristo que se mantém exterior e que finalmente não supera a rivalidade, mas que não conduz senão a uma forma mais subtil da violência. Girard também conhece esta possibilidade. É por isso que ele escreve, pouco depois da passagem precedentemente citada: «Seguir a Cristo é renunciar ao desejo mimético».[6] Muito tempo antes de Girard, Dietrich Bonhoeffer, no seu livro Nachfolge, põe em evidência a diferença que existe entre imitar e seguir a Cristo. Contrariamente à tradição protestante do sola fide sola gratia que conduziu muitas vezes à ideia de uma «graça a baixo custo»[7] ele sublinha frequentemente a necessidade de seguir o modelo de Cristo na sua própria vida e de obedecer aos seus mandamentos. Encadeando com Lucas 14, 26 onde Jesus exorta os seus discípulos a «odiar» pai, mãe, mulher, filhos, etc., Bonhoeffer mostra de maneira convincente que o verdadeiro discípulo de Cristo deve ultrapassar «a relação imediata com o mundo»[8] - a «imediatidade quase-osmótica» de Girard. Face aos mal-entendidos da tradição católica, ele sublinha mesmo que o «seguimento» de Cristo deve ser dirigido pelo apelo de Cristo e pela fé, e que não é permitido enganar-se a seu respeito considerando-o uma actividade ética. Neste caso, ele (o seguimento, seguir a Cristo) recomeçaria de imediato a suscitar formas subtis de rivalidade com Deus e com os outros homens.

Jesus não colocou na linha da frente as acções exteriores, mas viveu uma experiência nova de Deus; passando pela tentação, ele decidiu-se plenamente por este Deus, e anunciou-o aos homens apresentando-o como Pai deles, «Abba». Olhando para este modelo, nós não temos, nós também não, de copiar primeiro uma ou outra das suas acções mas temos de nos dispor a viver uma experiência nova de Deus e a determinarmo-nos a partir dela, a partir do momento em que esse dom nos é concedido. Esta experiência, sob a sua forma concreta, é única em cada homem e pode, por esta razão, ultrapassar a «pressão mimética». É justamente a entrada nos horizontes abertos pelo modelo Jesus que abre um espaço em que cada ponto de vista é único.

Se prestarmos atenção a todo o caminho seguido por Cristo, torna-se claro por outro lado que ele não viveu apenas a experiência nova de Deus, mas que, nele, o próprio Deus vem até aos homens e comunica-se a eles. Deus já não se manifesta somente como um senhor que exige obediência – e desse modo suscita secretamente rivalidades -, mas apresenta-se como essa insondável e inconcebível liberdade que consente na liberdade humana e que, feito homem, a encontra sob um aspecto que lhe é plenamente conforme.

Mais ainda: Deus revela em Cristo não somente a sua humildade e o seu amor pelos homens mas, na hora da perseguição, expõe-se também à liberdade humana tornada sua rival e percorre o caminho da cruz como um caminho de extrema auto-humilhação. Ele oferece assim um modelo que se opõe em tudo à mimésis por avidez e à rivalidade. Contudo, mesmo este modelo eminente pode ser mais uma vez totalmente invertido. Ele pode, por exemplo, suscitar em alguém a tentação de realizar pelas suas próprias forças uma auto-humilhação igual à de Deus. A humildade mascara então um orgulho satânico.

A acção exemplar do dom de si e do sacrifício pode ser desligada de Cristo, adoptada isoladamente como modelo e imitada. L. Poliakov, no segundo tomo de A Causalidade diabólica[9] que trata da história russa, dá exemplos impressionantes desse orgulho do sacrifício que já não tem nada a ver com o caminho de Deus. O grande historiador do anti-semitismo mostra aqui que papel desempenhou, nos revolucionários nihilistas do século XIX, o «sagrado negativo»[10] . Muitos – sobretudo entre os que tinham sido seminaristas -, primeiro influenciados pelo pensamento cristão do sacrifício e mais tarde perdidos no ateísmo, imitavam aspectos da espiritualidade cristã e esboçavam uma imagem do revolucionário ideal que renuncia a toda a felicidade pessoal e empenha totalmente a sua vida pela causa da revolução. No seu romance Os demónios, Dostoievsky descreveu de modo magistral este «sagrado negativo»; na sua narração do «Grande Inquisidor», ele também desenhou uma outra figura que quer imitar Cristo – contra ele – pretendendo, como ele, sob a sua própria responsabilidade última e na solidão, carregar o pecado e as fraquezas do povo.

O «Grande Inquisidor» não é somente um personagem de romance. Foi também um personagem muito real durante numerosos séculos da história cristã. Os inquisidores de carne e osso nunca quiseram aliás ser anticristãos. De comum acordo com os cruzados e os combatentes da fé, muitos dentre eles testemunhavam mesmo, pela sua vida, uma espiritualidade intensa e acreditavam, pela sua luta contra «heréticos» e «bruxas», seguir o caminho de Jesus. No entanto, outras forças estavam em acção neles. Arriscar a sua vida tentando matar outros homens, ou travar um combate espiritual quando se imita o juízo de Deus e se exige a vida dos outros, isto pouco, e mesmo nada, tem a ver com o espírito do sacrifício de Cristo que não matou outros homens – como também não a si próprio, como o pensa Manuel de Diéguez[11] -, mas se expôs, com um amor dos inimigos livre de toda a violência, ao ataque dos seus adversários e superou desde o íntimo as suas más acções pelo seu amor.

Que a ideia da cruzada e da inquisição tenha podido, contudo, regular o pensamento e a acção dos cristãos, mostra que a mimésis por avidez pode também actuar sob o manto da piedade. Isto mostra também o mal que a avidez foi capaz de gerar em nome de Cristo. É por isso que, seguir verdadeiramente a Cristo, é determinante que o discípulo, antes de todo o agir próprio, acredite totalmente naquilo que Deus fez por ele em Cristo e que ele se deixe pautar por isso. Não são os nossos actos heróicos que podem proteger a imitação de Cristo das perversões subtis, mas somente a fé no Deus que dá e perdoa, e a convicção vivida de que ele se antecipa sempre ao nosso esforço com uma graça inconcebivelmente grande.

Enquanto a voz do tentador, na narração do Paraíso, sussurra aos homens para imitarem Deus por sua livre iniciativa, Jesus-Cristo, no discurso depois da Ceia do Evangelho de S. João, garante aos seus discípulos que recebeu tudo do seu Pai e tudo transmitiu (João 14, 11-14, 26; 15, 15; 17, 7s., 21-24). Se Deus apenas tivesse dado aos homens um dom qualquer e não o dom de si mesmo, o homem não teria sem dúvida alguma nenhum direito a um «mais»; as suas aspirações supremas permaneceriam insatisfeitas, e a impotente rivalidade para com o Criador assim como a tentação satânica de o imitar não deixariam de ter uma aparência de «justificação». Mas porque Deustudo deu aos homens e porque, pelo seu Espírito, ele quer introduzi-los na sua própria vida divina, eles podem tornar-se «como Deus» num sentido muito mais realista do que a ilusão prometida pela voz tentadora da mimésis. Assim se desmascara o extremo absurdo da mimésis por avidez que quer apoderar-se por si mesma daquilo que Deus quereria dar por livre vontade.

A misteriosa unidade do homem

A imediatidade «quase-osmótica» dos modelos mostra intensamente que os homens não se bastam a si mesmos em nenhum domínio do seu ser, mas que têm em tudo e totalmente necessidade dos outros. O livro do Génesis descreve uma forma positiva deste enviar para outrem, quando conta que Deus deu a Adão uma «ajudante» e que os dois vieram a ser «uma só carne» (Génesis 2, 18-24). Mas esta forma de unidade não podia impedir um desejo mais profundo, como o mostra a narração da queda. A história de Israel também atesta que a mimésis por avidez, a rivalidade e a violência não podem ser superadas apenas pela atracção dos sexos um pelo outro. O profeta Miqueias faz mesmo uma advertência: «mesmo àquela que dorme nos teus braços não abras a tua boca» (Miqueias 7, 5). O ser humano não pode ser verdadeiramente feliz a não ser que, sem entrar ao mesmo tempo em conflito com o seu «tu» que o satisfaz plenamente (Deus ou ser humano), o seu coração «de pedra» se transforme em coração de «carne» (Ezequiel 36, 26). Sucede que este «coração de carne» é, no fim de contas, o coração trespassado de Jesus-Cristo que, na força do Espírito, está totalmente aberto a Deus e que, ao mesmo tempo, pode ser recebido pelos fiéis na comunhão. Este «tu» é mais interior aos homens do que o seu próprio eu («Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim», Gálatas 2, 20), por isso ele pode ajudá-los a acolher um «tu» sem rivalidade, porque é ele mesmo o verdadeiro «tu» que satisfaz completamente. Pela comunhão do Corpo de Cristo que sofreu, edifica-se esse corpo que comporta cabeça e membros (1Coríntios 12, 14). Neste corpo, a unidade com este Deus e a unidade dos homens entre si é tão grande que todo o verdadeiro desejo humano é finalmente saciado e a problemática damimésis é superada na raiz, porque o bem que satisfaz plenamente está mais imediatamente próximo dos homens do que todos os modelos exteriores, que nunca o podem estar. A questão da imitação revela-se, no mais profundo, ser assim uma indicação dada sobre o mistério da unidade inconcebível dos homens entre si e com Deus.

Raymond SCHWAGER, s.j. – Innsbruck, Áustria
tradução de Jorge Mendonça

[1]René Girard, To double business bound. Essays on Literature, Mimesis and Anthropology. The John Hopkins University Press, Baltimore and London, 1978, p.89.
[2] René Girard, Mensonge romantique et vérité romanesque. Paris, 1961, pp. 181-196.
[3] R. Pesh, Das Abendmahl und Jesu Todesverständnis, Herder Verlag, 1976, p. 106.
[4] Cf. R. Schwager, «Der Sieg Christi über den Teufel», Zeitschrift für katolische Theologie, 103 (1981), pp. 156-177.
[5] René Girard, Des choses cachées depuis la création du monde.Recherches avec J. M. Oughoulian et Guy Lefort. Paris, 176, p. 452.
[6] Ibid., p. 453.
[7] Bonhoeffer começa a sua obra constatando que «a graça a baixo custo é a inimiga mortal da nossa Igreja… A graça a baixo custo é a graça considerada como uma mercadoria a saldar, o perdão com desconto, a consolação com desconto, o sacramento com desconto… A graça a baixo custo é a graça considerada enquanto doutrina, enquanto princípio, enquanto sistema…» D. Bonhoeffer, op. cit., p. 19.
[8] D. Bonhoeffer, op.cit., p. 68.
[9] L. Poliakov, La Causalité diabolique. Du joug mongol à la victoire de Lénine, 1250-1920. Paris, 1985.
[10] Ibid., pp. 119, 132, 135, 138, 141s, 152.
[11]Manuel de Diéguez, L’Idole monothéiste. Paris, 1981. O autor não pode ver senão, no acto sacrificial de Cristo, uma subtil e perversa imitação dos sangrentos sacrifícios humanos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Quem nos diz se podemos comungar?

Comungar ou não comungar?
5

Nas mensagens anteriores sobre este tema apresentei vários textos e opiniões sobre a Eucaristia e a Comunhão, incidindo sobre o facto do poder ou não comungar. Não me cabe a mim decidir por ti nem dizer-te o que deves fazer, se podes ou não podes comungar, recordo-te apenas o seguinte:
  • É importante que te sintas preparado para receber a comunhão
  • Podes preparar-te para a comunhão
  • Não é a hierarquia da Igreja nem os outros cristãos que te podem dizer se estás preparado ou não para receber esse Sacramento
  • Não te prendas à imagem que os outros têm de ti: comungar exige verdade e não aparência
  • A comunhão não é um troféu, não é um acto social, nem uma medalha de "boas-acções"
  • A comunhão é um sacramento que salva e dá vida, gratuito, reconhecimento do amor de Deus, sinal de pertença ao corpo místico de Cristo
  • A tua consciência é quem te pode dizer se deves ou não e se podes ou não comungar, é a instância acima de qualquer outra instância terrena, é ela que te põe em contacto com as tuas realidades e verdades mais profundas, que te revela o que És acima do que Fazes
  • Procura dar espaço a Deus e à oração na tua vida, procura meditar os teus dias, pô-los a ressoar na tua consciência, apresentá-los a Deus
  • Age de acordo com a tua consciência, isto é, como achas que Jesus agiria
Ler no blogue:
parte 1 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/comungar-ou-nao-comungar-eis-questao.html
parte 2 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/o-ritual-social-e-individual-da.html
parte 3 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/eucaristia-e-conflito-interior.html
parte 4 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/eucaristia-e-uma-resposta-ao-amor-de.html

A Eucaristia é uma resposta ao amor de Deus e não uma medalha de bom comportamento

Outro texto sugerido por um amigo do moradasdedeus, autor de um blogue brasileiro também vocacionado para homossexuais cristãos, é do padre jesuíta Matthew Linn. Este texto foi publicado num livro (1) escrito em conjunto com o seu irmão e com a sua cunhada. O texto não se refere explicitamente aos homossexuais mas, mais uma vez, podemos aqui fazer a associação e inclui-los na lista de "casos" mencionados.

(1) Abuso espiritual & vício religioso, Matthew Linn, Dennis Linn e Sheila Fabricant Linn; Editora Verus, Campinas-São Paulo, 2000; páginas 76-77 e 136

Comungar ou não comungar?
4
 
"Durante anos segui literalmente a lei que recebessem a comunhão somente aqueles que reconhecessem a autoridade do papa, não fossem divorciados e não estivessem em pecado mortal. Eu negava a comunhão a uma parte do corpo místico de Cristo, embora afirmasse durante a comunhão que me tornava Um com o corpo de Cristo. Ignorei o facto de Jesus ter dado comunhão a Judas e de nós chegarmos como pessoas feridas, rezando: “Dizei uma só palavra e serei salvo.”
 
Hoje acredito que a Eucaristia é um sacramento de salvação para ser recebido em resposta ao amor de Deus, não como medalha de honra ao mérito do amor de Deus conseguido através de boas acções. O rebelde em mim quer deixar de lado a letra da lei e agir de acordo com uma lei de amor mais elevada (cf. Mt 22, 34-40).
 
Mas a criança responsável e obediente em mim tem medo de desconsiderar a lei. Sou tentado a obedecer por medo e acho difícil pôr de lado a lei e, com amor, convidar todos para a comunhão. Obedeço por medo, porque não quero arriscar ser censurado pelos bispos e outras autoridades da Igreja.
 
Como posso então amar com minha energia rebelde e, ao mesmo tempo, manter satisfeita a minha criança obediente e responsável?
 
Nos nossos retiros, quando me perguntam sobre a comunhão, cito duas regras, dizendo:
Temos uma regra que não permite que eu publicamente convide a todos para receber a comunhão. Temos outra regra (eu sorrio) que me diz para não recusar comunhão a ninguém que venha recebê-la. Faça o que você acredita que Jesus quer que você faça.
 
Aposto que pode adivinhar o que acontece. Rezo pelo dia em que essas regras farisaicas acabem por ser postas de lado. Até lá, isto é o melhor que posso fazer, porque ainda sou uma criança responsável em processo de cura, assim como é o resto da Igreja.  
(...)

Ao longo dos séculos, quando os cristãos recebem a Eucaristia, as palavras permanecem as mesmas: “O Corpo de Cristo”, às quais a pessoa que comunga responde: “Amen”.
 
Santo Agostinho recordou às pessoas que comungam que “Amen” quer dizer: “Sim, eu sou”. Ao dizer “Amen”, o comungante faz a afirmação mais radical possível para um cristão, ou seja: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Até o nome “cristão”, que vem de alter Christus (outro Cristo), declara: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”.
 
Durante os primeiros séculos da Igreja, todos os cristãos, e não somente os padres, eram considerados e reconhecidos como aqueles cuja identidade mais profunda era aquela do alter Christus.
 
Porque a nossa mais profunda identidade é Cristo (cf. Gal 2, 20), a nossa resposta à lei canónica, à autoridade da Igreja ou a qualquer situação da vida reflecte o nosso verdadeiro eu, até ao ponto de podermos afirmar(...): “Eu fiz o que Jesus teria feito!”"
 
Por Teleny, in retorno (G-A-Y)
 
Ler no blogue:
parte 1 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/comungar-ou-nao-comungar-eis-questao.html
parte 2 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/o-ritual-social-e-individual-da.html
parte 3 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/eucaristia-e-conflito-interior.html

Eucaristia e conflito interior

Comungar ou não comungar?
3

"Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia.

Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual.

Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade da sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam a viver num relacionamento "estável", e procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade".

Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica voltada directamente para os homossexuais (Pastoral para Homossexuais), exista grande confusão neste assunto.

Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade.

Como não encontrei ainda O texto que fale exactamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" [1], que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. [...] A opinião do atual Papa [2] não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar outro ponto de vista..."


Por Teleny, in retorno (G-A-Y)

[1] O texto de Joseph Ratzinger, apresentado anteriormente, é sobre os "casais de segunda união" e a Comunhão eucarística; o autor da mensagem aqui transcrita faz uma analogia entre a situação destes e a dos homossexuais católicos. 
[2] que é o corpo da última mensagem - a parte 2 de "Comungar ou não comungar?"

Ler no blogue:
parte 1 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/comungar-ou-nao-comungar-eis-questao.html
parte 2 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/o-ritual-social-e-individual-da.html

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O ritual social e individual da comunhão

Começo esta série de mensagens com um texto escrito pelo Cardeal Joseph Ratzinger (actual Papa), sobre as pessoas que vivem num casamento civil não reconhecido pela Igreja


Comungar ou não comungar?
2

"Cardeal Joseph Ratzinger: Neste caso, devo precisar primeiro, num sentido jurídico, que essas pessoas não estão excomungadas num sentido formal. A excomunhão é um conjunto de medidas punitivas da Igreja, é uma limitação de se ser membro da Igreja. Essa punição da Igreja não lhes foi imposta. Mesmo que, por assim dizer, o que salta logo à vista, o fato de não poderem comungar, se aplique a eles. Mas, como disse, não estão excomungados num sentido jurídico. São membros da Igreja que não podem comungar por causa de determinada situação na vida. Não há nenhuma dúvida de que isso seja um grande peso, precisamente no nosso mundo, em que o número de casamentos desfeitos aumenta cada vez mais. Julgo que esse peso pode ser suportado quando, por um lado, se torna claro que também existem outras pessoas que não podem comungar. O problema só se tornou tão dramático porque a comunhão é, por assim dizer, um rito social, e uma pessoa é realmente marcada quando não participa. Quando se voltar a tornar visível que muitas pessoas têm de dizer a si mesmas que têm alguma coisa na consciência, e que assim não podem ir à comunhão, e quando, como diz São Paulo, desse modo se voltar a fazer a distinção do Corpo de Cristo, logo tudo será diferente. É uma condição.

O segundo ponto é que devem sentir que, apesar disso, são aceites pela Igreja, que a Igreja sofre com elas.

Peter Seewald: Parece uma ilusão.

CJR: Naturalmente, isso deveria poder tornar-se visível na vida de uma comunidade. E, pelo contrário, também se faz alguma coisa pela Igreja e pela humanidade ao tomar essa renúncia sobre si, ao dar, por assim dizer, testemunho do caráter único do casamento. Julgo que disso também faz parte algo que é muito importante: que se reconheça que o sofrimento e a renúncia podem ser algo positivo, e que temos de voltar a encontrar uma nova relação com eles. E, por fim, que voltemos a tomar consciência de que também se pode participar da missa, da Eucaristia, de modo fecundo, sem ir sempre à comunhão.

É uma questão difícil, mas julgo que, quando diversos fatores que estão relacionados uns com os outros se resolverem, também isso será mais fácil de suportar.

PS: O padre pronuncia as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”. Por conseguinte, os outros deveriam sentir-se infelizes.

CJR: Infelizmente, a tradução tornou o sentido da frase pouco claro. Essa expressão não se relaciona diretamente com a Eucaristia. É tirada do Apocalipse e refere-se ao convite para o banquete nupcial definitivo, representado na Eucaristia. Quem, portanto, não pode comungar no momento, não tem de estar excluído do banquete nupcial eterno. Trata-se sempre de um exame de consciência, de que se pense ser algum dia capaz desse banquete eterno, e que agora também se comungue. Mesmo quem agora não possa comungar, é admoestado através desse apelo, como também todos os outros, a pensar no seu caminho, que um dia será aceite nesse banquete nupcial eterno. E talvez, porque sofreu, possa ter ainda melhor aceitação.

In O sal da terra”, Cardeal Joseph Ratzinger & Peter Seewald; Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997; páginas 163-165
Por Teleny, In Retorno (G-A-Y)
 
Nota: O tom desta entrevista é maioritariamente paternalista, tentando ser um conforto para quem, pelas palavras do cardeal, "não pode comungar". São afirmadas algumas verdades, respeitantes ao lado social da Eucaristia - o facto de não comungar, em muitas comunidades, pode fazer alguém sentir-se "de fora" -, e é muito importante que cada um tenha a liberdade interior para comungar ou não comungar de acordo com o seu "exame de consciência", como também é afirmado pelo cardeal. E por esta razão, parece-me essencial que "o que os outros ficam a pensar" nunca entre nesta balança que só pode ser medida pelo acesso à consciência mais profunda, consciência esta à qual só tem acesso Deus e o(a) próprio(a).
 
Ler Comungar ou não comungar?: parte 1

Comungar ou não comungar? Eis a questão

Comungar ou não comungar?
1

Inspirado por um amigo do moradasdedeus, autor de um blogue irmão brasileiro intitulado retorno (G-A-Y), e aproveitando o seu precioso trabalho de pesquisa de textos e documentos, irei num futuro próximo abordar uma questão importante para muitos homossexuais cristãos: deverei ou não comungar?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Encontrar a Trindade é escapar da solidão

ícone de Rublev
Conversando com Françoise Dolto


«Há cem anos nascia Françoise Dolto (1908 – 1988). A psicanalista tinha, além do apartamento parisiense, onde viveu e morreu, uma casa de férias em Antibes, a que chamou “La Soledad”. Podemos imaginar a razão desse nome dado a um espaço conquistado às rotinas e fadigas, abrigo de intimidade, criação e silêncio. Um dos seus últimos livros leva também esse nome. É um volume que recolhe dispersos e uma longa conversa acerca do lugar da solidão (e, logo, sobre o desejo de comunhão), e seus efeitos sobre construção inacabada e frágil da vida.

Aí, conversando sobre a solidão, Françoise Dolto irrompe, inesperadamente, a falar da Trindade. E modo como o faz, não a partir das categorias catequéticas tradicionais, mas com a linguagem que ela sempre usou para avaliar e cuidar da vida interior, pode ser muito iluminante. Na tradição cristã, há a consciência que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar as palavras por balbucios. [...]

Ela escreve: “Acho maravilhoso encontrar em Deus a Trindade, essa relação de amor a três. É algo que encontramos justamente no desejo de viver de cada um de nós. Assumimos aí o nosso papel no interior de uma situação triangular: pai, mãe, filho. […] O facto de remontar à Trindade, ou seja, aos três desejos divinos circulantes, é extraordinário, pois foi assim que fomos concebidos”.

[...] [Em t]odos os “segundos nascimentos”, sempre que a vida nos impele a um recomeço, seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de encontros e esperanças, o “esquema trinitário” é-nos imprescindível. “A nossa solidão só pode ser curada quando expressa criativamente e quando ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim uma situação triangular. Somos dois, conversamos: o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre de outro, prova que somos três”.»

José Tolentino Mendonça

In O hipopótamo de Deus e outros textos (2.ª ed.), Assírio & Alvim
http://www.snpcultura.org/vol_o_regresso_de_o_hipopotamo_de_Deus.html

sábado, 20 de novembro de 2010

A quem rezamos afinal: a Deus, a Maria, aos santos, aos anjos?

10 pistas para a Oração

8ª pista
A quem rezar: ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo?

 «Os primeiros discípulos rezavam ao Deus dos seus Pais, que se tornou para eles o Pai de Jesus, aquele que Jesus amou e tornou conhecido como seu Pai e nosso Pai. É a Ele que damos graças, em particular pelo dom que nos concedeu através do seu Filho. Ao deixar que o Espírito ore em nós, comungamos com o amor de Jesus pelo Pai. É por isso que a oração cristã se dirige ao Pai, pelo Filho, no Espírito», lembra o P. Michel Rondet, jesuíta.

«A nossa oração pode partir do Filho, da meditação das suas palavras, da contemplação dos seus gestos, mas conduz-nos necessariamente ao Pai. Reciprocamente, não podemos rezar ao Pai sem nos revestirmos dos sentimentos de Jesus e viver do seu Espírito. A oração introduz-nos no movimento que une o Pai, o Filho e o Espírito, na sua comunhão. Não rezamos a Maria ou aos santos como rezamos ao Pai. Pedimos-lhes: ‘Ora por nós’, e não ‘Atendei-nos’».

Um conselho: na comunhão dos santos, unimo-nos à oração de Maria pelos homens, de que ela se tornou mãe aos pés da cruz. Confiamos nela porque, na nossa humanidade, foi associada de maneira única à obra da Trindade. E unimos os santos à nossa oração porque acreditamos que eles participam conosco nos cuidados pelo Reino.

Martine de Sauto
in La Croix
tradução de Rui Martins para o site da SNPC (publicado a 19 de Novembro de 2010)

Ler no blogue:

Orações "prontas-a-usar", a repetição e a oração em grupo

10 pistas para a Oração

7ª pista
Recitar uma oração é rezar?

Jesus condenou a repetição mas também deu como exemplo a viúva que não teve receio de importunar o juiz com um pedido insistente (Lucas 18, 1-8). A tradição cristã oferece muitas orações. O “Pai-nosso”, ensinado por Jesus aos seus discípulos, tem lugar privilegiado. Outras encerram uma referência evangélica, como a “Avé Maria” e o “Magnificat”, ou têm um lugar importante na tradição da Igreja, como o Símbolo dos Apóstolos (Credo) ou o Glória. É também possível meditar nos mistérios do Rosário ou dizer a “prece do coração” – «Senhor Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim, que sou pecador».

«O risco é a recitação maquinal, sem ser animado pelo desejo de união a Cristo», assinala o P. Patrice Gourrier, de Poitiers.

A prece do coração, explica, «foi concebida pelos padres orientais para afastar o fluxo dos pensamentos, abrir o vazio e criar um espaço de silêncio interior, para que Cristo habite sempre e cada vez mais a nossa personalidade.

Um conselho: rezar uma ou algumas destas orações em grupo atenua o risco da recitação mecânica. A oração em grupo é um apoio e uma experiência de comunhão.

Martine de Sauto
in La Croix
tradução de Rui Martins para o site da SNPC (publicado a 19 de Novembro de 2010)

Ler no blogue:

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dos homens e dos deuses: ode à fé, ao amor ao próximo e ao serviço

Um filme que não quero perder. Quando o vir comentá-lo-ei. Entretanto aqui fica a opinião da Margarida Ataíde:

"Dos homens e dos deuses": fé e despojamento
 Em 1996, sete monges da Ordem Cisterciense da Estrita Observância são raptados e assasinados em Tibhirine, aldeia aninhada na região argelina do Magrebe. É o culminar da escalada de violência que opõe o Grupo Islâmico Armado (GIA), extremista, ao governo que acusa de corrupto. O impacto deste horrível desaparecimento, cujos contornos exactos estão ainda por esclarecer, extende-se até aos nossos dias, levado agora ao cinema sob direção do realizador francês Xavier Beauvois.

A obra, reconhecida com o Grande Prémio do Festival de Cannes e merecedora da forte e comovida chuva de aplausos que encheram o Palais des Festivals na noite do passado 23 de maio, é uma extraordinária ode à fé, ao amor ao próximo e ao espírito de serviço que cumpre, em estilo e estrutura narrativa, o despojamento do seu sujeito.
Com efeito, é-nos dado comungar a forma abnegada como uma comunidade de homens lida com uma realidade adversa para a qual não contribui senão com a sua vocação de amor e dádiva. Uma vocação reafirmada ao arrepio das pressões externas para abandonarem a aldeia que servem à sua sorte.

Sem ceder a tentações sensacionalistas, Beauvois desvenda aos nossos olhos o dia-a-dia daquele pequeno mosteiro de Tibhirine, dos seus sete habitantes e da pacata população da aldeia local, induzindo progressivamente o adensar do contexto violento que involuntariamente envolve uns e outros.

Simples e acessível, a linguagem fílmica pretere o horror dos acontecimentos, trágicos, e da crescente violência, ao espírito com que aquela irmandade os enfrenta. Um espírito sustentado na sua extraordinária força e revitalizado na dúvida e fraqueza pela oração, pelo permanente desejo de união e comunhão, pelo tempo e oportunidade concedidos ao discernimento.
Mais que um nefasto episódio da história política ou religiosa, estamos perante uma obra que nos propõe um caminho, pela busca do verdadeiro sentido da vida: o que os sete monges sacrificados, na sua fé cristã, encontraram, e que Xavier Beauvois tão bem percorre, alumiando-o para crentes e não crentes.
Dos Homens e dos Deuses” (122 minutos) estreia em Portugal esta 5.ª feira, 11 de novembro.
Margarida Ataíde


in © SNPC 10.11.10
http://www.snpcultura.org/vol_dos_homens_e_dos_deuses_fe_despojamento_amor_ao_proximo.html

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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Os textos e as imagens

Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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