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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

João Paulo II A biografia


Reuters
Autor Andrea Riccardi


Editora Paulinas


Ano 2011


Páginas 608
Preço 23,00 €
ISBN 978-989-673-156-4



O mistério Wojtyła

Um estrangeiro
«O novo Papa é africano?», era a pergunta que circulava entre as pessoas na Praça de São Pedro, naquele 16 de outubro de 1978, à tarde, depois das dezoito horas, quando o cardeal Pericle Felici anunciou, em latim e com a sua pronúncia romana, o nome do eleito: «Annuntio vobis gaudium magnum; habemus papam: Eminentissimum ac Reveren dissimum Dominum Carolum Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Wojtyła, qui sibi nomen imposuit Ioannem Paulum II.» O eleito não era Carlo Confalonieri, o cardeal decano já com mais de oitenta anos, como se pensou num primeiro momento, quando se ouviu «Carolum», Carlo. A idade avançada do decano não lhe permitia que participasse no conclave (mas assistiu ao anúncio, do seu terraço sobre a Praça de São Pedro). Não era um africano, ao contrário do que aquela pronúncia peculiar do apelido fazia pensar: era o cardeal de Cracóvia, o primeiro Papa não italiano desde 1523, depois da morte de Adriano IV, holandês de Utreque. Uma notícia surpreendente.

Por que razão tinham os cardeais quebrado uma tradição com mais de quatro séculos e meio? Durante o Concílio, encerrado havia quase treze anos, algumas vozes tinham lamentado o excessivo caráter italiano da Cúria romana. Paulo VI, depois do Vaticano II, tinha internacionalizado a Cúria e nomeado o cardeal Villot, um francês, como seu secretário de Estado. Contudo, por morte de Paulo VI, o Sacro Colégio continuou a tradição, escolhendo um Papa italiano. O eleito foi o Patriarca de Veneza, Albino Luciani, que faleceu passados somente trinta e três dias de pontificado. Os cardeais que acorreram a Roma para o novo conclave, em outubro de 1978, estavam numa situação que a Times Magazine definiu eficazmente como «A Igreja em choque». Era preciso encontrar um sucessor capaz de tomar nas suas mãos uma Igreja desorientada. [...]
Quando João Paulo II aparece à varanda da basílica de São Pedro, diante de uma multidão curiosa, incerta e festiva, tem-se a sensação de uma pessoa calorosa e humana...

Depois, abandonando a pose hierática, espontaneamente revela o receio de ser considerado estrangeiro: «Não sei se posso explicar-me bem nesta vossa... nossa língua italiana. Se me engano – diz cometendo um erro –, corrigir-me-eis.» Mas quem é o Papa que pede para ser corrigido? O jornal diário de esquerda francês Libération fala dele como de um «beau gosse» (bom rapaz), «um Papa telegénico para uma política new look». É uma impressão superficial. Para a grande parte dos católicos, para larguíssimos setores do mundo eclesiástico, para quase todos os observadores, Karol Wojtyła é um mistério. Os serviços do Leste, que em Roma seguiam o conclave, como os legados nas embaixadas húngara e checoslovaca, não tinham de modo nenhum previsto a eleição de um Papa não italiano ou proveniente dos países comunistas: ficaram atónitos. [...]

Karol Wojtyła é uma personagem a descobrir. Hoje, depois de João Paulo II ter sido Papa durante vinte e sete anos, e de a sua imagem ter sido tão familiar a mais de uma geração, esta afirmação parece inverosímil. Então, Wojtyła era um homem quase desconhecido. No entanto, quem já o tivesse encontrado ficaria impressionado com a sua humanidade original. Henri de Lubac, o grande teólogo francês, impressionado com a figura de Wojtyła, repetia aos amigos: «Depois de Paulo VI, o meu candidato é Wojtyła.» E acrescentava, irónico: «Mas não tem nenhuma chance».

Um papa polaco

«Ele não fugirá diante das espadas como este italiano...»
Já vimos que, diferentemente dos seus antecessores, Karol Wojtyła, depois de eleito Papa, nunca iria separar-se da sua história pessoal e nacional. Antes, haveria de continuar a voltar a ela e voltar a contá-la. O seu sacerdócio nasceu no cadinho do grande mal da guerra, «diante das espadas», como escreve Słowacki. É aqui que está o germe da missão que, mais tarde, sente como sua. Wojtyła conhece o texto de uma das revelações da Irmã Faustina relativamente a uma visão de Jesus: «Amo a Polónia de modo particular e, se for obediente à minha vontade, levantá-la-ei em poder e santidade. Dela sairá a centelha que preparará o mundo para a minha última vinda.» Não é fácil saber quanto estas palavras, também com tonalidades messiânicas (a centelha que prepara a vinda de Jesus), teriam ressonância na alma de João Paulo II. Numa obra de Juliusz Słowacki, lê-se uma profecia análoga sobre um renascimento da Polónia graças a um Papa eslavo. [...]

A «vocação» de Karol nasce no «grande mal» da ocupação nazi, quando ele nutre esperanças da fé, mas também da épica polaca. A sua vocação é desafiada pelas «espadas», pela guerra e pela violência daqueles anos. Imediatamente depois do fim do conflito, o jovem tem de haver-se com o comunismo soviético. Uma vez mais, encontra-se – para usar as palavras de Słowacki – «diante das espadas». Já não há guerra, mas o futuro polaco parece escuro e marcado por uma violência de outro tipo. [...]

Um europeu
Depois da sua eleição, João Paulo II foi geralmente considerado, no Ocidente, muito marcado pela sua origem polaca e por um catolicismo sobremaneira fechado e nacionalista. Na realidade, desde jovem, o polaco Wojtyła teve uma importante experiência humana europeia. Em 1979, durante a primeira viagem do Papa à Polónia, ele haveria de insistir nos seus discursos precisamente sobre a dimensão unitária da Europa, manifestando a consciência de que tinha a missão de exprimir a unidade espiritual do continente, estando este dividido em dois mundos. Karol Wojtyła sente-se europeu. Cracóvia é uma cidade centro-europeia. Na história habsbúrgica da «cidade real», Viena não ficava muito longe, e Cracóvia está muito ligada à cultura austríaca e alemã. [...]

Sentido de universalidade
Com a primeira viagem fora da Polónia, Wojtyła abre-se ao conhecimento do mundo italiano e europeu. Entre as visitas deste período, merece ser recordada a que fez a Assis. Vai lá tendo como guia o livro do luterano dinamarquês Johannes Joergensen, que se converteu ao catolicismo através da via franciscana. O texto, publicado em 1907, representa a primeira renovada biografia católica do santo (uma obra central, além da de Paul Sabatier, protestante liberal que tinha descoberto algumas dimensões de Francisco, ocultadas pela literatura devota). Assis haveria de ser sempre uma memória viva para Wojtyła que, durante o seu pontificado, fez dela «outra Roma», centro católico sem o peso institucional da Urbe, mas terreno de abertura ao universal como uma janela para o mundo. Para aqui, haveria de convocar dois encontros inter-religiosos, em 1986 e em 2002, e a oração pelos Balcãs, num momento de guerras e de choque religioso. [...]

Um bispo fenomenólogo
O amor pela cultura, feito de investigação e de muitas leituras, foi a sua resposta pessoal à clausura dos anos 50-70, típica de um regime totalitarista. Em Pessoa e Ato, a obra filosófica mais criativa de Wojtyła, publicada em 1969, ele fala de «totalismo»: um sistema que «subordina totalmente o indivíduo e o seu bem à comunidade e à sociedade». O cardeal é crítico para com o individualismo, que tudo concentra no bem do indivíduo. Embora critique o individualismo (ocidental), o Papa distancia-se intelectualmente do regime comunista, para afirmar a centralidade da pessoa humana, parte de uma comunidade. Nesta obra, sente-se a dívida intelectual do autor ao filósofo francês Jacques Maritain, especialmente no que se refere ao pensamento personalista. Para Wojtyła, o «totalismo» é um individualismo às avessas, que vê na pessoa «substancialmente o inimigo da comunidade e do bem comum». Por isso, afirma com força que «a realização do bem comum não deve basear-se na constrição». Em 1976, na procissão do Corpus Domini, declara em público: «O próprio materialismo é incapaz de formar um homem forte, uma sociedade forte».

Como criar um homem forte e uma sociedade coesa? O arcebispo não crê no homem novo, prometido como fruto de uma sociedade constritiva e totalizante, que sufoca a pessoa. Em Pessoa e Ato,Wojtyła fala da comunidade e propõe o valor da «solidariedade»: «O homem solidário faz o que lhe compete, não só porque é membro da comunidade, mas também pelo “bem do conjunto”, isto é, pelo bem comum.» [...]
Neste fundo filosófico radica uma atitude humana em que, sobretudo com o pontificado e não obstante as suas altas responsabilidades, Wojtyła revelar-se-á um homem mais propenso à escuta do que a impor a sua opinião. O hábito de receber visitas continuamente, de tomar as refeições sempre com hóspedes, praticado em Cracóvia e, depois, sistematizado em Roma, exprime o desejo radicado de aprender de todas as pessoas. O culto do encontro manifesta uma inclinação pessoal, mas também se radica numa reflexão teórica. Wojtyła, pensador original e não académico, não trabalha com um desenvolvido aparato crítico nas suas obras, mas vai à procura de significados para a vida. João Paulo II haveria de fazer do método fe nomenológico e experiencial um sistema de vida e de governo da Igreja.

O Marxismo e o seu império

A Leste: uma luta muito dura
Durante dez anos, no quadrante do Leste, trava-se uma luta muito dura, que algumas vezes parece chegar à rutura. O Papa pretende alargar os espaços de liberdade, forçando o sistema comunista. É esta a expressão que o líder socialista Bettino Craxi usa numa conversa com Wojtyła, em 1983, da qual sai muito contente com o entendimento: «Tendo feito observar a Wojtyła que, em certo sentido, se podia forçar a situação na Polónia, o Papa grunhiu uma espécie de assentimento». Era o modo típico de João Paulo II manifestar o acordo. A política de fortalecimento do Cristianismo do povo no Leste era uma «coação» calculada. Deve notar-se a flexibilidade do Papa que não renuncia a criar e defender espaços de liberdade na Polónia, mas evita chegar à plena crise que determinaria uma invasão soviética. Para Brzezinski, «sem o Papa, sem a sua tenacidade, sem aquele conjunto de moderação e de obstinação que são o seu estilo, muitas das coisa que se realizaram diante dos nossos olhos nunca teriam começado a acontecer». De facto, a ação de João Paulo II na Polónia é tenaz e obstinada, mas não utópica, porque tem em conta os equilíbrios de influência em que o país está inserido.[...]

Para o Kremlin, não obstante o apreço formal pela atividade do Papa a favor da paz, o juízo sobre João Paulo II é bastante negativo: nota-se uma atitude persistente antissocialista que, segundo Gromyko, é fruto da ligação com os círculos ocidentais. Na realidade, os soviéticos tentam desvalorizar completamente a energia profunda e histórica dos fenómenos espirituais e religiosos (portanto, do catolicismo polaco e da personalidade do Papa). A resistência de Wojtyła não nasce do contacto com os ocidentais, mas é algo de espontâneo na sociedade do Leste. Os documentos atestam que, para os soviéticos, Wojtyła é enquadrável numa «posição de direita». Renuncia «aos ataques frontais contra o socialismo» por motivos políticos e usa «a tática vaticana de expansão através do diálogo».

O líder global

Não renunciar à libertação
Em 1981, na Encíclica Laborem exercens, escrita num tempo em que o mundo marxista parecia sólido, João Paulo II escreve: «Os reagrupamentos inspirados pela ideologia marxista, como os partidos políticos, tendem, em função do princípio da “ditadura do proletariado” e com o exercício de in fluências de vários tipos, inclusive a pressão revolucionária, ao monopólio em cada uma das sociedades, para introduzir nelas... o sistema coletivista ». O Papa denuncia a ditadura do proletariado e relança a doutrina social da Igreja num mundo onde ainda existem dois sistemas económicos: o capitalista e o comu nista. [...] Contudo, a firme condenação do comunismo não ate nua o juízo crítico sobre o Ocidente, que o Papa repete na sua próxima encíclica social – Sollicitudo rei socialis [...]. A Igreja católica não aceita o sistema marxista, mas não se deixa esmagar pelo capitalismo. Como se viu nas conversações com Gorbachev, o Papa não espera que o Oriente europeu se reconstrua sobre os modelos ocidentais. Durante o pontificado wojtyłiano assiste-se ao relançamento da doutrina social da Igreja, sobre a qual o Papa escreve três encíclicas. Para ele, essa doutrina deve ser uma instância crítica face aos dois sistemas económicos vigentes. Põe de lado as indecisões católicas, segundo as quais não é possível cultivar – depois do Concílio – uma doutrina social, como se representasse uma utópica terceira via. Wojtyła está convencido de que a Igreja, «perita em humanidade» (como dizia o papa Montini), tem a propor uma larga experiência histórica e social, e visões amadurecidas no tempo.

Depois de 1989, a exigência de uma doutrina social torna-se ainda mais forte, se a Igreja não quiser identificar-se inteiramente com o capitalismo ocidental. O Papa não renuncia à crítica do sistema ocidental, mesmo quando este é já vencedor com a queda do Muro [de Berlim] e a globalização. É expressão disso a Encíclica Centesimus annus de 1991, em que João Paulo II mostra como o fim do comunismo não significa ainda a realização do programa social da Igreja. Até usa palavras duras contra o «capitalismo selvagem» e repropõe novas relações entre o Norte e o Sul do mundo.

A paz e o viver juntos

A visão de Assis
João Paulo II crê que a Igreja católica tem uma missão, para levar mundos diferentes a viverem juntos. Esta visão teve a sua explicitação máxima na jornada de 27 de outubro de 1986, realizada sob o signo franciscano e irénico de Assis. Este encontro inter-religioso foi estudado sob diversos aspetos. Clau dio Bonizzi fala de «ícone de Assis», para significar que foi um evento criativo relativamente à Nostra ætate. [...]

João Paulo II convoca para Assis os líderes mundiais das religiões, depois de contactos e solicitações recebidas (fala-se, entre outros, de Carl Friedrich von Weizsäcker, irmão do presidente alemão que tinha pedido um «concílio da paz», com os representantes cristãos). A ideia alarga-se às religiões – como testemunha o cardeal Willebrands (figura-chave na política ecuménica) – e «a todos aqueles que, empenhados no plano religioso, creem na oração e reconhecem a paz como dom transcendente». Trata-se de uma jornada de jejum e de oração. O evento permanece um das imagens religiosas mais conhecidas e evocativas do séc. XX. É uma imagem simples e fascinante: os líderes das diferentes religiões, reunidos, oram, já não «uns contra os outros», mas uns ao lado dos outros, e não o fazem juntos para evitar uma confusão indesejável. [...]

Assis manifesta algo da mensagem wojtyłiana: os cristãos não devem perder identidade no confronto com as outras religiões; mas estas podem viver juntas em paz, exprimindo a sua dimensão religiosa, que emerge sobretudo na oração. Esta mensagem torna-se uma proposta ao mundo contemporâneo, onde pessoas de religiões diferentes já vivem juntas; onde os não-cristãos emigram para países de antiga tradição cristã; onde povos de religiões diferentes se aproximam e juntam a povos que durante séculos viveram sem comunicação.

A prova da terra Santa
Nesta perspetiva, a obra-prima de João Paulo II é a visita à Terra Santa, no ano 2000, onde, há mais de meio século, a convivência entre tradições e religiões não encontra solução. Durante a viagem, o Papa conseguiu compor aspetos que parecem contraditórios: a tradicional atenção vaticana à causa palestiniana, a peregrinação aos lugares santos cristãos, uma mensagem ao coração de Israel. [...]

Mas a visita à Terra Santa, centrada na peregrinação aos lugares santos cristãos, revela, sobretudo, a «diplomacia» especial de Wojtyła: ser ele próprio com a sua mensagem, compreender as razões dos vários interlocutores, não permitindo que ninguém o empurre para uma ou outra posição, antes transcendendo-as numa visão original e não política. Não é habilidade diplomática, mas a arte do Papa fenomenólogo, espiritual e humano, já velho e doente. O Papa foi capaz de falar a Israel sem se esquecer dos Palestinianos.

Karol Józef Wojtyla nasceu a 18 de maio de 1920 na cidade polaca de Wadowice. Foi eleito papa a 16 de outubro de 1978 e morreu a 2 de abril de 2005. Será beatificado no próximo domingo, dia 1 de maio, em Roma. O livro estará disponível a 3 de maio.

Andrea Riccardi


in SNPC

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ouvir o Cântico dos Cânticos

Henry Scott Tuke

Luís Miguel Cintra lê Cântico dos Cânticos na Capela do Rato 
                                      
Luís Miguel Cintra, actor e encenador do Teatro da Cornucópia, lê o livro bíblico do “Cântico dos Cânticos”, na Capela do Rato, no dia 20 de Março (próximo Domingo), às 21h30.

O Cântico dos Cânticos é um dos poemas mais antigos da humanidade, considerado um dos tesouros dessa biblioteca que é a Bíblia judaico-cristã. A natureza erótica do Cântico dos Cânticos não impediu que ele seja o texto bíblico mais lido e comentado pela mística ocidental.

A oportunidade de ouvir esta obra, lida pelo actor e encenador Luís Miguel Cintra desperta justamente a maior expectativa.

O “Cântico dos Cânticos” começa desta maneira:

«Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores são as tuas carícias que o vinho,
ao olfacto são agradáveis os teus perfumes;
a tua fama é odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas»

A Entrada é Livre.

Capela do Rato (Calçada Bento Rocha Cabral, 1B, Lisboa)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Beleza da experiência cristã: unidade, unicidade e vida interior

A palavra que leva ao silêncio
Unificar

"A beleza da visão cristã da vida é a sua visão da unidade. Aos seus olhos, toda a humanidade foi unificada no Único que está em união com o Pai. Toda a matéria, toda a criação se encontra também arrojada ao movimento cósmico para a unidade, que será a realização da harmonia divina. Não é esta uma visão abstrata. Exauda uma profunda alegria pessoal, porque nela se afirma o valor de cada pessoa. Nem uma só e singular beleza se perderá nesta grande unificação, mas cada uma será em todos levada à culminação. Na união tornamo-nos quem somos chamados a ser. Só na união sabemos plenamente quem somos.

Eis a magnífica e preponderante visão que, durante séculos, dominou a tradição cristã. Sem ela, não podemos chamar-nos Seus discípulos. E, no entanto, a tarefa de cada um de nós é alçar-nos a esta visão na nossa experiência pessoal, vê-la por nós próprios ou, antes, com os olhos do Senhor. A tarefa central da nossa vida, na visão cristã, é chegar à união, à comunhão. Afirmar isto sob o ponto de vista em que quase todos começamos significa ir além de todo o dualismo, de toda a cisão dentro de nós mesmos e da alienação que nos separa dos outros. O dualismo que caracterizou as heresias é que ameaçou destruir a fina centralidade, o equilíbrio da perspetiva cristã. É também este dualismo que suscita, para cada um de nós, o impossível e irrealista «ou-ou», que tanta angústia inútil origina: Deus ou a humanidade, o amor de si ou o amor do próximo, o claustro ou a praça pública."

Acção e Contemplação

"Para comunicar a experiência cristã da união, a experiência de Deus em Jesus, temos de resolver estas falsas dicotomias, antes de mais, em nós mesmos. Temos de nos fazer um só por meio do Único que é uno.
Aparentemente, a natureza das dualidades consiste em propagarem-se a si mesmas e, desta forma, em complicarem a totalidade e a simplicidade de que partimos e à qual nos faz regressar a oração profunda. 

Uma das dualidades mais básicas tem sido a polarização de vida ativa e vida contemplativa, e o seu efeito mais nocivo foi alienar a maioria dos cristãos desta mesma oração profunda que transcende a complexidade e restaura a unidade. Acabámos por nos imaginar a nós próprios ou como contemplativos ou como ativos, e esta distinção aplicou-se aos religiosos e aos leigos. Enquanto ativos, encontrávamo-nos no seio da vasta maioria cuja vida espiritual se baseava nas devoções ou no elemento intelectual, e que não tinha pretensões enfatuadas a uma experiência de Deus. Como contemplativos, fazíamos parte de uma minoria restrita, privilegiada, separada do corpo principal não só por altos muros e estranhos costumes, mas também, muitas vezes, por vocabulários especializados ou até por uma total ausência de comunicação.

Como todas as heresias, esta revelou-se plausível e duradoura, porque possuía um grão de verdade. Há os que são chamados a viver no Espírito à margem da atividade do mundo e cujos valores primordiais são o silêncio, a quietude e a solidão. Os contemplativos não são, porventura, pregadores, mas devem, apesar de tudo, comunicar a sua experiência, porque esta se notifica e transmite a si mesma. A sua experiência é a experiência do amor e o amor estende-se, difunde-se, partilha-se para alargar o reino da sua própria comunhão. A conclusão eduzida da falsa compreensão da dimensão contemplativa da Igreja distorceu o ensinamento explícito do Novo Testamento, a saber, que o apelo à santidade é universal. O apelo do Absoluto dirige-se a cada um de nós e só este apelo nos faculta o sentido derradeiro; o nosso valor último é a liberdade que nos é dada de lhe respondermos. A exclusão da maioria dos cristãos deste apelo teve profundos e desmesurados efeitos na Igreja e na sociedade. Se o nosso valor e significado derradeiros forem negados, como poderemos esperar que a reverência humana recíproca seja o princípio orientador das nossas relações habituais?"

Todos somos seres orantes

Não há na Igreja e no mundo atual necessidade mais urgente do que a compreensão renovada de que é universal o apelo à oração, à oração profunda. Também a unidade entre os cristãos, a longo prazo a unidade entre os diferentes povos e credos assenta na nossa descoberta do princípio interior da unidade como uma experiência pessoal dentro dos nossos corações. Se quisermos perceber que Cristo é, de facto, a paz entre nós, temos de saber que «Cristo é tudo e está em todos». E nós n'Ele. A autoridade com que a Igreja comunica esta experiência será o grau com que nós, a Igreja e o Corpo de Cristo, a tivermos pessoalmente realizado. A nossa autoridade será humilde, isto é, deve enraizar-se numa experiência que nos leve, além de nós mesmos, à plena pessoalidade. A nossa autoridade como discípulos é a nossa vizinhança e contiguidade ao Autor, muito longe do autoritarismo ou do complexo de medo e de culpa com que o poder é utilizado pelo homem contra o homem. Os cristãos, na sua oração, renunciam ao seu próprio poder; deixam para trás o Si mesmo. Ao fazê-lo, têm uma fé absoluta no poder de Cristo como o único poder que aumenta a unidade entre todos os seres humanos, porque é o poder do amor, o poder da própria união. Quando, como cristãos, homens e mulheres de oração abrem os seus corações a este poder, ampliam a capacidade de todas as pessoas para encontrar a paz acima de e para lá da sua compreensão habitual."

Como recuperar a oração

"Que os cristãos devem orar não é uma ideia nova. O repto verdadeiramente atual é que temos de recuperar um modo de oração profunda que nos encaminhará para a experiência da união, longe das distrações superficiais e da autocomiseração. As questões que hoje se levantam sempre ali existiram: Como é que oramos a este nível? Como aprenderemos a disciplina que isso implica? Como concentrar-nos a nós mesmos, de modo inteiramente natural, na mais profunda realidade da nossa fé? Como consumar a transição essencial da imaginação para a realidade, do conceptual para o concreto, do assentimento nocional para a experiência pessoal? Não basta abordarmos estas questões como problemas intelectuais. Elas são muito mais urgentes do que isso. São desafios à nossa existência e só podem ser respondidos com a nossa vida, e não mediante ideias.

A maneira mais simples de responder à questão «Como orar?» pode encontrar-se na afirmação de S. Paulo: «Nem sequer sabemos como devemos rezar, mas o Espírito ora em nós». O cristão, relativamente a todas as questões problemáticas acerca da oração, foi contemplado com a liberdade pela revelação de que o que ele chama a «sua oração» é tão-só um imergir e entrar na experiência orante do próprio Jesus, no Espírito, no vínculo de união com o Pai. Esta experiência pessoal de Jesus é a realidade presente, eternamente presente, no coração de cada consciência humana. Toda a nossa busca de conhecimentos secretos, todos os caminhos ou ensinamentos ocultos se tornaram supérfluos, porque o segredo derradeiro foi revelado: «o segredo é este - Cristo em vós». Por isso, na oração, não nos esforçamos por que algo aconteça. Já aconteceu. Estamos tão-só a cumprir o que já é, caminhando e ingressando mais profundamente na consciência unificada de Jesus, no milagre e na maravilha da nossa própria criação. O cárcere da fixação em si mesmo, que nos impede a realização desta jornada, já não consegue reter os que podem compreender que «possuímos o espírito de Cristo».

Quando percebemos que o centro da oração está em Cristo, não em nós, podemos então perguntar «Como?» e receber uma resposta adequada. A jornada que fazemos até este ponto de partida é uma primeira etapa, e será talvez uma jornada difícil, solitária. Mas, neste momento da nossa vida, acordamos para nós mesmos no seio da comunidade de todos aqueles que já aqui chegaram e que foram mais além. [...]O importante é que reconheçamos e acatemos a oportunidade de conferir plena realidade à nossa experiência pessoal.

A tradição da meditação cristã é uma resposta simples e, acima de tudo, prática a esta questão; e no entanto, no seu seio, está concentrada a rica e profunda experiência dos santos, conhecidos e desconhecidos. É uma tradição radicada nos ensinamentos de Jesus, a tradição religiosa em que viveram e ensinaram a Igreja apostólica e os Padres da Igreja. Bem depressa ela se tornou na Igreja cristã uma tradição associada aos monges e ao monaquismo e, desde sempre, tem sido um canal essencial pelo qual ela se difundiu em todo o Corpo e o alimentou. A meu ver, nada há de misterioso a este respeito. Os monges são, no essencial, homens e mulheres cuja prioridade fundamental é a prática e não a teoria, cuja pobreza interior e exterior visa facilitar mais a «experiência em si» do que a reflexão sobre a experiência. É, pois, natural e até inevitável que a meditação se encontre no coração do monaquismo. E, porque aí se encontra, o monaquismo é importante para a Igreja e para o mundo."

Não é preciso procurar longe

"Semelhante monaquismo, claro quanto à sua própria prioridade, será mais um movimento inclusivo do que exclusivo na Igreja. Saberá que a experiência tem apenas de ser realmente vivida para ser comunicada. Onde a senda é seguida por uns quantos, outros serão arrastados para ela. Algo se deve dizer, por escrito ou em discussão. Mas o ensinamento mais profundo, o fim de todas as palavras será uma participação no momento criativo da oração. O silêncio dos monges é a sua verdadeira eloquência.
As pessoas expressam, por vezes, alguma preocupação acerca da disponibilidade da tradição monástica de meditação. Ao comunicá-la, perguntam «não dizem os monges que ela é a única via? Subjacente está aqui, com muita frequência, o receio de que se faça uma exigência demasiado absoluta aos «cristãos ordinários», aos «não-contemplativos». Mas esta é a exigência, a oportunidade, proposta pelo Evangelho a todos homens e a todas as mulheres em cada época e cultura. Foi a «todos» que Jesus revelou a condição para o seguirem. A ironia é que as pessoas «comuns», aos milhares, têm procurado este caminho fora da Igreja; elas não conseguiram encontrar este ensinamento espiritual na Igreja quando a ela o foram procurar e, por isso, olharam para o Oriente ou para formas da religião oriental, importadas para o Ocidente. Quando tais pessoas ouvem falar da sua própria tradição ocidental cristã de meditação, expressam surpresa: «Porque é que isso nos foi ocultado?», perguntam. O encontro do Oriente e do Ocidente no Espírito - uma das grandes características da nossa época - só pode ser frutuoso se for realizado ao nível da oração profunda. Decerto, isto também vale para a união das diferentes denominações cristãs. A condição prévia é que redescubramos a riqueza da nossa própria tradição, e tenhamos a coragem de a abraçar."

Utopia no bulício da vida?

"Mas não passará tudo isto de uma simples utopia religiosa? Este livro baseia-se na convicção de que não é assim. E tal convicção baseia-se na experiência que tivemos como um mosteiro comunicando e partilhando esta tradição enquanto realidade viva. Na nossa Comunidade temos, como prioridade nossa, quatro períodos de meditação em cada dia, que estão integrados na recitação da Liturgia das Horas e na Eucaristia. Além disso, o nosso trabalho é comunicar e partilhar a nossa tradição com quem quer que a ela deseje abrir-se. A maioria dos que acorrem aos nossos grupos semanais de meditação, dos que vêm estar connosco como hóspedes ou meditar connosco nos nossos tempos comunitários de oração, são pessoas com famílias e carreiras, com as responsabilidades normais e exigentes da vida. Todavia, a meditação falou-lhes fundo, criou nas suas vidas, em cada manhã e à noite, um espaço de silêncio, e isto proporcionou-lhes a estrutura e a disciplina na sua demanda de profundeza e de enraizamento em Cristo. Rotulá-los, sem mais, de «ativos» ou «contemplativos» erra o alvo. São pessoas que escutaram o Evangelho e que, no nível mais profundo do seu ser, tentam responder à dádiva infinita que receberam no amor de Deus, que vem a nós em Jesus. Sabem que esta resposta é uma jornada para as profundezas infindas do amor de Deus. Começaram tão-só a empreender esta jornada.

Este livro foi suscitado e estimulado pela resposta dessas pessoas à meditação. A sua substância, o seu conteúdo, é um conjunto de gravações feitas, há alguns anos, na Inglaterra como introdução à meditação e como meio de encorajamento para aqueles que começaram a meditar, sobretudo para os que não podiam visitar-nos ou estar connosco. Iniciou-se, pois, com a palavra falada e penso que esta continua a ser o meio ideal de comunicar semelhante tradição. O mistério a que a meditação nos conduz é um mistério pessoal, o mistério da nossa própria pessoalidade, que encontra o seu cumprimento na pessoa de Cristo. E assim, quanto mais pessoal for o modo de ele ser comunicado, tanto mais se aproximará da sua fonte e da sua meta.

Peço, por isso, que vos lembreis de que as palavras impressas neste livro vieram originalmente à vida como palavras proferidas e espero que, ao recordar isso, elas vos falem a partir de uma tradição que sempre se há de reavivar na nossa própria experiência."
  
John Main
In A palavra que leva ao silêncio, ed. pedra Angular
publicado por SNPC

quarta-feira, 2 de março de 2011

Adília Lopes: poesia

Poesia reunida de Adília Lopes

Título: Dobra - Poesia reunida
Autora: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
Ano: 2009
Páginas: 688
ISBN: 978-972-371-349-7

Dir-se-ia que na poesia de Adília Lopes tudo se passa à superfície, mas uma superfície de onde se avista o abismo. (...)

A sua poesia é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afectivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis. (António Guerreiro, in Expresso, 7 de Novembro de 2009)

S. João da Cruz

Mesmo que pudesse
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim


Deus é um boomerang

Deus é um boomerang
e eu sou a sua filha pródiga


Deus é a nossa mulher-a-dias

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa


O tempo é sagrado

O tempo
é sagrado

O tempo
é templo


Deixa o dia de ontem

Deixa
o dia de ontem
com Deus

E vive
em paz
a espera

A cada dia
basta
a sua pena

E
o amanhã
é
como o arco-íris

Um anjo
está contigo
quando desanimas

Um anjo
está contigo
quando te alegras

Sempre
um anjo
está contigo

E
o arco-íris
brilha
como a água
que corre


O poema não deve ser raciocinado

O poema
não deve ser
raciocinado
deve ser
extasiado


É tudo tão novo

É tudo
tão novo
para mim

Novo
como um ovo

Novo
como um noivo

José
noivo de Maria
é novo

Um ovo
de serpente
um ovo
de Eva
um ovo
de Maria


A ti tudo te foi dado

A ti tudo
te foi dado
e não tratas
os outros
com doçura

És um nababo
e és um nabo
(quem te dera
seres um nabo)


Textos ensanguentados

Textos
ensanguentados
como feridas

Gralhas
ensanguentadas

Textos
gelados
como árvores
no Inverno

Textos
como árvores
cortadas
aos bocados

Textos
como lenha

Textos
como linho

Textos
brancos
como a noite

Textos
brancos
como a neve

Textos
sagrados

Textos
bifurcados
como ramos

Textos
unos
como troncos


A hera escreve

A hera
escreve
sobre a era
os nomes
e os números
vegetais

A escrita
de Deus
de súbito
matéria

A pedra
transcendente
a lagartixa
anjo

O opaco
transparente
como água
boa para beber

A escrita
de Deus
não pode
ser descrita

Ficar à escuta

Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio


Nota 4

Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!


Sur la croix

Sur la croix
on gémit
et on prie


Adília Lopes


Nota: Estes poemas integram o livro «Sur La Croix», edição do SNPC limitada a 60 exemplares para assinalar a 2.ª Jornada da Pastoral da Cultura (2006).
In SNPC

terça-feira, 1 de março de 2011

Sexualidade e educação

Sexualidade e educação para a felicidade


«Talvez nunca como hoje a sexualidade ande tanto nas bocas do mundo. O que não quer dizer que seja pelas melhores razões, mesmo quando se constitui matéria de “educação nacional”.

E se outros motivos não houvesse, estes justificariam, plenamente, o objetivo da publicação: repensar, no contexto atual, os modos de inscrição da sexualidade no ser e no agir do homem; no corpo, nos sentimentos, mas relações interpessoais, na visão do mundo e da vida, no projeto de formação para a felicidade.

Tendo por quadro de referência os valores do humanismo de inspiração cristã, reúnem-se nesta obra os principais contributos saídos do 2.º Congresso Internacional de Pedagogia, subordinado ao tema que dá título à publicação.

O encontro decorreu na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, nos dias 6 e 7 de outubro de 2009.» (in texto de apresentação)

“Sexualidade e Educação para a Felicidade”, editado pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Braga), foi organizado por Miguel Gonçalves, Carlos Bizarro Morais e José Manuel Martins Lopes, integrando textos de Nilo Ribeiro Júnior, José Tolentino Mendonça, Enrique Rojas e Eduardo Sá, entre outros autores.

In SNPC

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Quem são os inimigos, estes que somos chamados a amar?

David e Saul
Amar os inimigos
Das leituras para o 7.º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Da santidade de Deus desce o mandamento de amar o próximo como a si mesmo (1.ª leitura); da perfeição de Deus brota o mandamento de amar o inimigo (Evangelho). Os textos propõem uma ética teologal, uma ética que encontra no ser e no agir de Deus para o homem o seu fundamento. O critério ético que orienta o agir humano pode ser expresso assim: “Como Deus agiu para ti, também tu age da mesma fora para com os outros”. Desta maneira, não só se supera o nível da vingança. do “Faz também ao outro o que ele fez a ti”, como é fundado e tornado praticável o amor do inimigo graças à fé em Cristo que amou também os inimigos.

As palavras de Jesus em Mateus 5, 38-42 enfrentam o problema da violência. Se a lei de Talião é já uma barreira à violência indiscriminada e desmesurada, Jesus propõe uma prática de ativa não-violência aplicada a diversos âmbitos. Mas ainda antes de propor uma estratégia que se opõe à violência, a Bíblia e a palavra evangélica em particular, ajudam o homem a discerni-la, a desmascará-la nas suas camuflagens e a reconhecer que não lhe é estranha.

O caso da bofetada (v. 39) refere-se aos casos de explosão violenta nas relações familiares e sociais de todos os dias, integrando-se por conseguinte no horizonte da vida quotidiana. Todos nós conhecemos uma violência diária e subtil que – sem derramamento de sangue e sem cair na agressão física, mas o deixando o coração profundamente ferido – ocorre no interior das relações familiares, nas relações entre irmãos, entre pais e filhos, entre homem e mulher, a do homem que não sabe domesticar a animalidade que habita o próprio coração, a que começa de maneira escondida ou pouco visível, que se insinua furtivamente num olhar, num comportamento, em palavras.

O caso apontado no v. 40 diz respeito a um processo de arresto: entreveem-se as situações de injustiça e violência social, estrutural; as instituições que, colocadas ao serviço da justiça, podem tornar-se instrumentos de injustiça. Podemos pensar na violência da burocracia, com a sua impessoalidade e indiferença à individualidade humana.

O caso do v. 41 refere-se à coação, à tirania, à violência do abuso, de dobrar a vontade do outro para que ele faça o que nós queremos. E o alcance do abuso abrange o plano físico e sexual, psicológico e espiritual. E pode também configurar-se como violência a pressão, a insistência de um pedido para obter dinheiro e empréstimos (v. 42). O âmbito económico é certamente desencadeador de cobiça e violência.

Jesus pede ao crente para não opor resistência ao malvado: esta dimensão negativa será completada pelo mandamento positivo de amar o inimigo (v. 41). A violência faz parte do mundo não libertado, opondo-se ao Reino de Deus, pelo que não pode reentrar na prática messiânica. O pedido de amar os inimigos situa-se no coração da “diferença cristã”: o que é que diferencia o cristão em relação a pagãos e publicanos, a indiferentes e não crentes? Jesus pede aos crentes para sair do fechamento daquilo que é homólogo, similar, recíproco, autoreferencial: amar quem já se ama, saudar só os irmãos. Trata-se, em vez disso, de ousar a alteridade, de ter a coragem da diversidade e de vencer com o amor o medo do diferente e do outro. São fatores de violência a absolutização do mesmo, do idêntico, que se pode traduzir na redução das relações sociais à mera materialidade dos elementos naturais, à exaltação da consanguinidade, da homogeneidade do elemento étnico.

Praticar o amor com o inimigo contém em si uma promessa escatológica que tem implicações históricas no hoje: «Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu» (v. 45). Viver o amor do inimigo significa estar imerso no amor de Deus que em Cristo se manifestou como amor pelos inimigos: essa imersão regenera o crente, dá à luz um filho de Deus, pertencente a Deus e semelhante a Jesus Cristo. O útero e a matriz deste nascimento à semelhança de Deus (cf. v. 48) é a experiência do amor universal de Deus, do seu amor a bons e maus, da sua bondade incondicional.

Luciano Manicardi, da Comunidade de Bose

Tradução de Rui Martins in SNPC
Ler sobre o Mosteiro de Bose

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Religiosidade: um novo livro

Religiosidade - O seu caráter irreprimível - Perspectivas contemporâneas

Organizadores Manuel Sumares, Helena Catalão, Pedro Valinho Gomes
Editora Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Braga)
Ano 2010
Páginas 288
ISBN 978-972-697-192-4

Índice (conteúdos e contributos)

I – Religiosidade e ciência contemporânea
1. A ciência e a experiência religiosa (Alfredo Dinis)
2. Deus e a espiritualidade sob olhares científicos pós-modernos: Limites e possibilidades da nova biologia, da genética e da neurociência no campo da(s) Ciência(s) da Religião (João J. Queiroz)

II – Religiosidade, dom e experiência originária
1. Experiência religiosa e metafísica: Breve leitura de Jean-Luc Marion (João Manuel Duque)
2. A negação, o dom e a perspetiva da “kenosis” no horizonte da experiência religiosa no contemporâneo (Adelino Francisco de Oliveira)
3. “Sacrum Facere”: A cidade dos dons sacrificiais (Pedro Valinho Gomes)
4. Reconhecimento, dom e comunicação não violenta (Helena Catalão)
5. Estética do originário e absoluto nas imediações da fenomenologia de Mikel Duprenne (Carlos Morais)

III – Religiosidade e viragens
1. A religião numa era “pós-cristã” (José Rui da Costa Pinto)
2. Laicismo pós-moderno e privatização da fé (Elias Couto)
3. Religião e educação na pós-modernidade: pressupostos de uma prática (Maria Luiza Guedes)
4. Velhice e pós-modernidade: dimensões e espiritualidade (Ruth Lopes, Suzanna Medeiros, Elisabeth Marcadante)

IV – Religiosidade e contextos
1. Impacto da pós-modernidade sobre o Kardecismo brasileiro: um estudo psicoantropológico de caso (Edênio Valle)
2. Do enigma à verdade no pensamento português contemporâneo (José Gama)
3. Retiradas nordestinas: Condição humana e valor transcendente (Hermide Braga)

V – Religiosidade, linguagens e bio-grafias
1. Os embaraços da língua (e do testemunho) cristão (José Augusto Mourão)
2. Podem as experiências religiosas fundamentar as crenças religiosas? A resposta de William Alston (Gerson Júnior)
3. “Adequatio mentis et viate”: Sobre a experiência religiosa (Manuel Sumares)

Material e espiritual: alma versus corpo?

O Dualismo Material-Espiritual

Um outro dualismo associado à visão tradicional da experiência religiosa é o dualismo matéria-espírito. É comum afirmar-se que a experiência religiosa pertence à esfera espiritual e não à esfera material. Mas o que se entende exatamente por "espiritual"? Tradicionalmente, o "espiritual" é uma dimensão do ser humano radicalmente diferente do material. O espírito é praticamente identificado com a alma, e a matéria com o corpo. Por isso, a experiência religiosa é fundamentalmente de natureza espiritual e tem lugar na alma, embora, dada a união profunda das duas dimensões do ser humano, ela se manifeste visivelmente no corpo material. A teologia cristã tem sempre afirmado a indivisa natureza do ser humano, mesmo afirmando a distinção entre corpo e alma. Mas parece ser a categoria antropológica de relação a que melhor permite entender a experiência religiosa do ser humano enquanto unidade corpo-alma.

O teólogo Joseph Ratzinger considera na sua obra “Introdução ao Cristianismo”que numa linguagem histórica e atualizada, contraposta a uma linguagem mais tradicional e metafísica, a expressão "ter alma", poderá ser substituída, numa lingua­gem mais atual, pela expressão "ser objeto de uma especial relação com Deus":

«Ter alma espiritual quer dizer exatamente ser quisto, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos 'ter alma, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e atual, “ser interlocutor de Deus”.

Ratzinger rejeita claramente a metafísica dualista da filosofia grega por estar pouco de acordo com a conceção antropológica bíblica. Por conseguinte, o autor não concebe a existência dos dualismos tradicionais, corpo-alma, matéria-espírito, natural-sobrenatural, em sentido estritamente substancialista. De acordo com Ratzinger: «é impossível, em última analise, fazer uma distinção clara entre 'natural' e 'sobrenatural'; o diálogo fundamental, que em primeiro lugar constitui o ser humano enquanto tal, passa a ser, sem rutura, diálogo da graça, que se chama Jesus Cristo».

Nota: Esta transcrição omitiu as notas de rodapé e adotou o novo acordo ortográfico.
Alfredo Dinis, in Religiosidade - O seu caráter irreprimível - Perspetivas contemporâneas, ed. Faculdade de Filosofia, UCP, Braga

Ler mais em SNPC

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Grupo de leitura: Amor e Responsabilidade

Na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo do Alto do Lumiar, em Lisboa, um grupo de cristãos reúne-se para fazer uma leitura partilhada do livro "Amor e Responsabilidade" de Karol Wojtyla  (João Paulo II). Os encontros começaram no dia 27 de Janeiro e são quinzenais, de entrada livre, às quintas-feiras pelas 21h30 (no dia 19 de Maio será às 22h30).

"Karol Wojtyla publicou Amor e Responsabilidade em 1960, e esta obra é fruto do seu trabalho pastoral, especialmente entre os jovens. A sua análise do verdadeiro significado do amor humano transforma a vida de quem o lê e dá uma nova luz a velhos temas:
  • a autenticidade do amor
  • o significado da amizade
  • as relações entre homem e mulher
  • como alcançar maior intimidade no casamento
e muito mais…

O livro encontra-se à venda na Fnac. A tradução portuguesa é uma edição de 1999 da Editora Rei dos Livros. A sua compra é recomendada mas não obrigatória!"

Contactos e informações: Maria José Vilaça / 917969041 mjvilaca@sapo.pt
 
Nota: Este grupo de leitura publica eventos no facebook. Basta procurar "Amor e Responsabilidade".

domingo, 23 de janeiro de 2011

Encontrar a Trindade é escapar da solidão

ícone de Rublev
Conversando com Françoise Dolto


«Há cem anos nascia Françoise Dolto (1908 – 1988). A psicanalista tinha, além do apartamento parisiense, onde viveu e morreu, uma casa de férias em Antibes, a que chamou “La Soledad”. Podemos imaginar a razão desse nome dado a um espaço conquistado às rotinas e fadigas, abrigo de intimidade, criação e silêncio. Um dos seus últimos livros leva também esse nome. É um volume que recolhe dispersos e uma longa conversa acerca do lugar da solidão (e, logo, sobre o desejo de comunhão), e seus efeitos sobre construção inacabada e frágil da vida.

Aí, conversando sobre a solidão, Françoise Dolto irrompe, inesperadamente, a falar da Trindade. E modo como o faz, não a partir das categorias catequéticas tradicionais, mas com a linguagem que ela sempre usou para avaliar e cuidar da vida interior, pode ser muito iluminante. Na tradição cristã, há a consciência que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar as palavras por balbucios. [...]

Ela escreve: “Acho maravilhoso encontrar em Deus a Trindade, essa relação de amor a três. É algo que encontramos justamente no desejo de viver de cada um de nós. Assumimos aí o nosso papel no interior de uma situação triangular: pai, mãe, filho. […] O facto de remontar à Trindade, ou seja, aos três desejos divinos circulantes, é extraordinário, pois foi assim que fomos concebidos”.

[...] [Em t]odos os “segundos nascimentos”, sempre que a vida nos impele a um recomeço, seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de encontros e esperanças, o “esquema trinitário” é-nos imprescindível. “A nossa solidão só pode ser curada quando expressa criativamente e quando ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim uma situação triangular. Somos dois, conversamos: o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre de outro, prova que somos três”.»

José Tolentino Mendonça

In O hipopótamo de Deus e outros textos (2.ª ed.), Assírio & Alvim
http://www.snpcultura.org/vol_o_regresso_de_o_hipopotamo_de_Deus.html

Já podemos encontrar "o evangelho segundo os Simpson" nas livrarias

"O hipopótamo de Deus" voltou às livrarias


A Assírio & Alvim lançou recentemente a 2.ª edição, revista e ampliada, de “O hipopótamo de Deus e outros textos”, do director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre e poeta, José Tolentino Mendonça.

O volume apresenta cinco textos novos em relação à primeira edição: “Avança devagar”, “Para que serve a Economia?”, “O evangelho segundo ‘os Simpson’”, “De que falamos quando falamos de santidade” e “O turista e o peregrino”.

In SNPC
http://www.snpcultura.org/vol_o_regresso_de_o_hipopotamo_de_Deus.html

sábado, 15 de janeiro de 2011

Poesia Incompleta, um local de culto

Poesia incompleta é uma livraria. Mas não uma livraria qualquer... É um pequeno mundo de poesia que se esconde atrás de uma pequena porta de vidro, perto do Príncipe Real, em Lisboa. A crise bate a muitas portas, esta será uma delas.

Pela qualidade do seu serviço, pela oferta e atendimento familiar, recomendo-a neste blogue. Quem gosta de poesia, quem compra ou oferece poesia, não pode ignorar este espaço - é lá que costumo ir comprá-la, evitando as grandes superfícies ou as multinacionais. Saibam que aí encontram o que procuram e até o que nem supunham encontrar. Aqui fica uma sugestão: quando pensarem em poesia, em conhecê-la ou em descobri-la, dêem um passeio até esta parte da cidade. Há pequenos rituais que animam os nossos dias. Pensem nesta sugestão com carinho.

De seguida apresento uma mensagem que recebi de outra cliente desta casa.

Actualmente existe, em Lisboa, uma livraria absolutamente única no país: uma livraria integralmente dedicada à poesia. Sucede, contudo, que, apesar de fantástica, ela encontra-se com alguma dificuldade em sobreviver. O que não se compreende: tem à sua frente um jovem livreiro que, além de extremamente eficiente, como verão, possui um total conhecimento do que está a vender: conhece os autores, as edições, tudo!


A livraria de que vos falo chama-se Poesia Incompleta, fica na Rua Cecilio de Sousa nº 11 (Príncipe Real) e vai com certeza ser uma revelação para quem a visitar. Abrange todas as épocas e o que não tem, o Mário, o dito livreiro, arranja, normalmente - e com uma brevidade que, no mínimo, surpreende.


Peço-vos - a vós que sois leitores, presumo - que façam uma visitinha a este sitio, que não pode de maneira nenhuma fechar e que, pela sua qualidade, vai-se tornar, mais tarde ou mais cedo, como aliás disse Vasco Graça Moura, num local de culto. Isto, claro, se não fechar, coisa que, passando a palavra e recomendando a amigos este tão singular espaço, podemos evitar.

Agradecida pelo vosso tempo.
De um simples cliente.

Saber mais:
http://poesia-incompleta.blogspot.com/

Luz do Mundo

Como considero importante o conhecimento para evitar opiniões sem fundamento, aqui vai a capa deste livro do papa Bento XVI, que já tem feito correr muita tinta:

Luz do Mundo - O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos
Uma conversa com Peter Seewald
Editora Lucerna
Novembro 2010
ISBN 9789728835750

O Papa também tem medos e revela fragilidades

O Papa Bento XVI a confessar-se em público. Pelos primeiros comentários de quem já leu "Luz do Mundo – o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos", esta obra em forma de entrevista revela as interrogações, por vezes os medos do Papa. E aparece longe da imagem inflexível que ficou colada a Ratzinger antes de ser eleito Papa.

Bento XVI sugere no novo livro-entrevista que pode renunciar ao cargo
Confissões e medos do Papa num livro que já é sensação
 
“O livro desmantela completamente a imagem de Ratzinger obscurantista, retrógrado”, avalia o vaticanista Sandro Magister, após a apresentação do livro. Conceituado especialista do Vaticano, crítico de Ratzinger, Magister dizia à AFP que o Papa manifesta agora “vontade de compreender o mundo”.

A questão do preservativo marcou mediaticamente, desde sábado [estamos a falar do mês de Novembro; para ler artigos no blogue sobre esta questão ir ao mês de Novembro ou ver as etiquetas de preservativo e  bentoxvi], a pré-publicação do livro. Nesse dia, o "L’Osservatore Romano", jornal do Vaticano, divulgou excertos. Ali se lia que, “em casos pontuais, justificados”, se pode usar o preservativo.

A afirmação teve reacções positivas em todo o mundo, nomeadamente de organizações de luta contra a sida. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse, em entrevista ao PÚBLICO, que o Papa era “bastante pragmático e realista”. A directora da Organização Mundial de Saúde, Margaret Chan, falou em “boas notícias”.

“É uma maravilhosa vitória do senso comum e da razão”, reagiu Jon O’Brien, do grupo Católicos pela Escolha [Catholics for Choice], citado pela Reuters. E o director da Onusida, Michel Sidibe, falou num passo “positivo”.

O autor da entrevista, Peter Seewald, considerou ontem “penoso” e ridículo” que os media se concentrem apenas no preservativo. “O livro aborda a sobrevivência do planeta ameaçado, o Papa lança um apelo a toda a humanidade, o nosso mundo afunda-se e metade dos jornalistas só se interessa pela questão do preservativo”, afirmou na apresentação.

Muitos outros temas da Igreja e do mundo, bem como dos cinco anos de pontificado de Ratzinger, passam pelo livro, que não ignora polémicas provocadas por afirmações do Papa — o tema do preservativo surge nesse contexto, quando Bento XVI explica o que pretendeu dizer na viagem a África. E, confessa, algumas das polémicas foram para si inesperadas.

Ratzinger abriu uma importante brecha no tema da contracepção, mas mantém outras ideias da doutrina tradicional: a homossexualidade, por exemplo, “opõe-se à vontade de Deus”, mas os homossexuais “merecem respeito” e “não devem ser rejeitados por causa disso”.

Estas afirmações provocaram ontem a reacção da mais importante associação de defesa dos direitos de homossexuais italianos. A Arcigay afirmou: “As palavras do Papa humilham milhões de vidas que têm que suportar discriminações todos os dias.” E anunciou “contestação directa ao Papa” no futuro imediato.

A recusa de ordenação de mulheres é outro tema de conversa entre Bento XVI e Peter Seewald, jornalista alemão que já antes publicara outras duas entrevistas com o então cardeal Joseph Ratzinger ("O Sal da Terra" está editado na Tenacitas). A não-ordenação de mulheres “é uma vontade de Deus”, afirma, retomando afirmações suas segundo as quais o debate está dado por terminado pelo Vaticano.

Divorciados e renúncia

O Papa sugere, entretanto, ser necessária “uma reflexão” sobre a proibição de pessoas divorciadas que voltaram a casar não poderem comungar. E, pela primeira vez publicamente, assume também a possibilidade de resignação do cargo. “Não se pode fugir quando o perigo é grande. Em consequência, não é certamente o momento de me demitir”, diz no livro, citado pela AFP. Mas “se o Papa não estiver em forma fisicamente e espiritualmente”, a hipótese de abdicar do cargo deve ser colocada.

Polémica, no início de 2009, foi também a retirada da excomunhão (mas sem o ter reintegrado na Igreja Católica) do bispo integrista Richard Williamson, que nega o Holocausto. Bento XVI confessa “não ter tomado consciência de quem se tratava”. Na altura, comentou-se que alguém no Vaticano teria omitido informação ao Papa sobre Williamson, pois o negacionismo do bispo era conhecido.

A primeira grande polémica, após o discurso de Ratisbona sobre a violência, em que Bento XVI citou uma frase que se referia a Maomé, foi originada por um discurso “mais académico que político”, afirma agora Ratzinger. Ao contrário do que as manifestações dessa altura evidenciaram, católicos e muçulmanos estão “comprometidos hoje numa luta comum, a defesa dos valores religiosos”.Também a propósito do islão, acrescenta: “É importante que permaneçamos intensamente em contacto com todas as forças muçulmanas abertas ao diálogo, para que se possam produzir mudanças onde o islão liga verdade e violência.”
Outras afirmações do livro trazem novas polémicas no bico: as afirmações sobre Pio XII, o seu antecessor que governou a Igreja no tempo da II Guerra Mundial, provocaram a reacção de organizações judaicas. Pio XII foi “um dos grandes justos, que salvou os judeus mais do que ninguém”, afirma Bento XVI no livro. “Naturalmente, podemos perguntar sempre: ‘Por que é que ele não protestou com mais vigor?’ Creio que ele viu as consequências que poderia ter havido com um protesto público”.

Vários responsáveis judaicos protestaram. Entre eles, o rabino David Rosen, do Comité Judaico Americano, que respondeu à AFP: “Há certamente muitos argumentos para rejeitar as acusações de imobilismo de Pio XII enquanto a vida dos judeus e de outros estava em perigo. Mas não só Pio XII nunca interpelou directamente o regime nazi sobre a questão do extermínio dos judeus, como, mais grave, nunca exprimiu publicamente a condenação, nem mesmo o lamento, após o fim da II Guerra Mundial.”
 
In público, por António Marujo a 23 de Novembro de 2010
http://www.publico.pt/Sociedade/confissoes-e-medos-do-papa-num-livro-que-ja-e-sensacao_1467777

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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