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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sábado, 18 de janeiro de 2014

Amar não é sonhar

O amor cristão é concreto

O papa Francisco vincou esta quinta-feira no Vaticano que o amor cristão, em particular o que é referenciado na primeira carta de João, proclamada hoje nas missas, é totalmente distinto daquele que é narrado nos folhetins que passam na televisão.

«Vede que o amor de que fala João não é amor das telenovelas! Não, é outra coisa. O amor cristão tem sempre uma qualidade: a concretude. O amor cristão é concreto. O próprio Jesus, quando fala do amor, fala-nos de coisas concretas: dar de comer aos famintos, visitar os doentes e muitas coisas concretas», apontou na missa a que presidiu, revela a Rádio Vaticano.

O excerto bíblico lido nas celebrações eucarísticas desta quinta-feira começa assim: «Nós devemos amar, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: “Amo a Deus” e odiar o seu irmão, é mentiroso. Quem não ama o seu irmão, que vê, não pode amar a Deus, que não vê».

Quando não há factos concretos que sustentem o amor, «pode viver-se um cristianismo de ilusões, porque não se compreende bem onde está o centro da mensagem de Jesus. Este amor não chega a ser concreto: é um amor de ilusões», sublinhou.

«Nós em Deus e Deus em nós: esta é a vida cristã. Não permanecer no espírito do mundo, não permanecer na superficialidade, não permanecer na idolatria, não permanecer na vaidade», acentuou Francisco.

Segundo o papa, o «primeiro critério» dos cristãos é «amar com as obras, não com as palavras. Palavras leva-as o vento. Hoje existem, amanhã não. O segundo critério de concretização é: no amor é mais importante dar do que receber. Quem ama, dá, dá… Dá coisas, dá vida, dá-se a si próprio a Deus e aos outros».

Pelo contrário, «quem não ama, quem é egoísta, procura sempre receber, procura sempre ter coisas, ter vantagens. Permanecer com o coração aberto, não como o dos discípulos, que estava fechado, que não compreendia nada».

Com estas palavras, o papa referia-se à leitura do Evangelho de hoje (cf. "Artigos relacionados"), quando os apóstolos se assustam ao ver Jesus a caminhar sobre o mar: «O seu espanto nasce de uma dureza de coração».

Rui Jorge Martins
in SNPC | 09.01.14

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Descer à realidade das próprias sombras

Para uma espiritualidade terrena

Quem ignora as suas necessidades, permite que a sua espiritualidade trace caminhos agressivos. A agressividade contra si mesmo conduz à dureza na relação com os outros. Quem reprime as suas próprias dúvidas, luta contra todos aqueles que não acreditam ou acreditam de forma diferente e contra aqueles que escolhem outro caminho espiritual.

Só quem encontra a coragem de descer ao reino das sombras da sua própria repressão se livra de tais divisões. E então passará a lidar de forma misericordiosa consigo e com os outros. Deixará de projetar o seu lado reprimido nos outros, e percorrerá com o caminho da mudança interna juntamente com eles.

Espiritualidade terrena significa ainda outra coisa para mim. Ela tem formas concretas. Ela não se passa apenas na cabeça ou nas emoções. Ela não está suspensa sobre a realidade, mas encontra na vida de todos os dias a sua expressão. Exprime-se em rituais purificadores e numa cultura de vida cristã.

Eu vejo hoje muitos cristãos que estão suspensos de Deus e das suas experiências profissionais. Mas a sua vida não espelha nada de Deus. A sua piedade não muda a sua vida. Ela não é visível no exterior. O caminho espiritual precisa de formas muito concretas para ser visível aos outros, mas acima de tudo para nos mudar.

Precisamos de uma cultura de vida cristã. O espírito quer tornar-se carne. A espiritualidade precisa de visibilidade. Se um pregador fala de amor de Deus, mas a sua face exprime brutalidade, não convence as pessoas. Não tem qualquer efeito se alguém delira de tão crente e confiante, e os seus ombros exprimem medo. As pessoas querem ver e experimentar espiritualidade.

(…)
Às pessoas, hoje, não interessa em primeira linha a verdade das palavras, mas a aparência de uma pessoa e aquilo que ela irradia. É no seu corpo, nos seus olhos, no seu contacto com as coisas, que se vê se ela está realmente penetrada pelo espírito de Deus.

Durante a celebração da missa e na própria sacristia, nota-se pela atitude do sacristão se existe espiritualidade na sua comunidade. Quando o cálice e os seus panos estão sujos, então sinto a falta de atenção, que se insinua também no encontro com Deus. Nesta paróquia celebram-se missas, mas fala-se de Deus de forma tão insensível, é-se tão pouco atencioso com os rituais e os objetos litúrgicos que isso não passa despercebido às pessoas. Não é naquilo que transmitimos que a nossa fé se torna visível, mas naquilo que somos, naquilo que transmitimos para o exterior.

A espiritualidade terrena de São Bento leva a Terra a sério. Aqui na Terra mostra-se se o Céu está aberto sobre nós. Na minha carne está escrito se Deus habita em mim. Na minha cultura de vida vê-se se eu sou espiritual ou não.

A espiritualidade terrena também tem um aspeto comum. Ela consegue - como Norbert Lohfink diz - uma cultura cristã contrária, uma cena espiritual alternativa. Ela tem um carácter público. Torna-se visível na forma como o serviço religioso é celebrado. Aí as pessoas podem observar espiritualidade ou não. A espiritualidade terrena é visível no aspeto dos edifícios, na forma como os quartos estão mobilados, como os jardins estão dispostos, como os hóspedes são recebidos, como as pessoas se relacionam entre si.

Para muitos, isto pode parecer tudo regulamentação interior. Mas São Bento alerta-nos hoje para nos protegermos de grandes palavras, quando estas não estão revestidas de vida. A palavra quer tornar-se carne. Cristo desceu dos Céus para tornar o Céu uma realidade terrena, para apresentar a Terra de forma mais habitável ou mais humana. A espiritualidade tem de se tornar terrena, para poder modificar a Terra.

Anselm Grün
In Bento de Núrsia, ed. Paulinas

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O segredo inviolável do Real

Bill Viola
Uma fenda no mundo. Do espiritual na arte contemporânea (III)

3. A morte de Deus e depois – niilismo e mística

Uma distância muito grande separa-nos dos povos primitivos. O nosso tempo cultural não pode esconder a sua base de incredulidade, ausência de sentido, a “filosofia materialista”, como lhe chamava Kandinsky. Esta diferença é incontornável: o sistema simbólico onde o artista se move desde o início do século XX é outro. E um marco teológico-filosófico-sociológico fundamental é a declaração da “morte de Deus”. Se no núcleo do pensamento moderno está a morte de deus, tinha que produzir consequências no campo da arte. Uma hora noturna: a nossa geração caminha na noite, escreveu Holderlin; assassinou Deus com as próprias mãos e apagou o horizonte – confirmou Nietzche. Martin Buber preferiu a expressão eclipse de Deus: uma escuridão momentânea. E esclarece: “um eclipse do sol é algo que tem lugar entre o sol e nossos olhos, não no sol mesmo.” (1).

Kandinsky, em 1910, afirmava profeticamente que o seu tempo, marcado pelo materialismo, pelo desespero e pela incredulidade, “prepara-se agora, (...), para mergulhar no vazio.” (2). Este mergulho no vazio, este encontro com o Nada, com a Noite do sentido e não apenas dos sentidos, é determinante para compreender a experiência estética contemporânea. Mergulhar no vazio é expressão niilista ou mística? Não há verdadeira oposição porque a experiência mística subsume, contém e ultrapassa, o niilismo. Nega-o dialecticamente: “o niilismo só se deixa contestar partindo do seu interior, somente das trevas da sexta-feira santa, onde Deus sofre e morre por amor ao mundo, é possível proclamar a vitória da vida e da beleza, porque aquela morte é a morte da morte.” (3). Percebe-se assim que não se chega à luz senão através das trevas, à vida senão através da morte, à fé senão através da dúvida e da prova do ateísmo.

O professor de Estética e Filosofia da Religião Amador Vega afirma mesmo ser necessário “compreender a negatividade na arte moderna como a expressão mais potente da experiência espiritual a que dá lugar a ausência da experiência religiosa.” (4). É sobre a negatividade que agora nos debruçaremos, na análise da obra de Fernando Calhau (1948), preocupada pela passagem do tempo e pela obscuridade.

O tempo e a serialidade. Logo nos primeiros trabalhos de Fernando Calhau encontramos séries de fotografias dos estratos sobrepostos das placas tectónicas, como a memória do mundo aí visível e nessa memória a da nossa própria memória e tempo. E noutras obras o que está em obra é o tempo passagem, o tempo suspenso, o tempo morte. Numa instalação de 1976 coloca lado a lado estas duas possibilidades: a imagem do mar em movimento (filme) e a imagem parada do mesmo mar (slide). E o sentido de estranheza é imenso: uma foi roubada ao tempo, está fora do tempo, e a outra mantém-se na continuidade ininterrupta da vida, na mudança permanente, em devir. A imagem fixa não é deste mundo. Coloca-nos fora: num tempo fora do tempo. Esta oposição do tempo finito e da infinita eternidade está também presente numa série de obras em chapa de ferro, marcado pela ferrugem e a passagem temporal, onde as junções ficam à vista rasgando uma linha vertical – que lembram a obra metafísica de Barnet Newman. Nessas placas de ferro de 1996, a meio, escreveu palavras em neon: Timeless. Dead end. Endless. (Sem tempo. Beco sem saída. Sem fim.). Também nas esculturas expostas na sua última exposição, com Rui Chafes, no Pavilhão Branco em Lisboa, sintomaticamente intitulada Um passo no escuro, essa tensão dos limites corporais-temporais era evidente: para além da palavraTime, setas em néon indicavam em caixas de ferro os limites do objeto, como os limites de um corpo. A fronteira, o fim. Calhau morreria pouco depois.

O negro e a obscuridade têm lugar cativo na obra deste artista: no filme Destruição, de 1975, apresenta um quase programa-resumo-semente da sua obra. Nele apaga-se: vemo-lo arrancar a imagem com se com um pincel cobrisse de negro o ecrã, até que o filme fica todo negro e ele escondido por detrás. Aqui, como em tantos dos seus trabalhos, afirma a recusa da imagem, da figuração, da ilusão. Nega-a. Nada para ver, nada por detrás. Ironia já presente numa série de serigrafias dos anos 70, onde a fotografia de uma ostensiva moldura barroca enquadra uma cruz, um xis, um nada, recusando assim a imagem devida à moldura. O vazio emoldurado.

(...)
Se Calhau problematiza a utilização da imagem, negando-a, o artista norte-americano da mesma geração, Bill Viola (1951), parece enaltece-la, interrogando-a nos seus excessos. Utilizando como meio a imagem em movimento (muitas vezes em câmara lenta, o que nos impõe outro modo temporal que não o da perceção humana habitual), Bill Viola, pioneiro da vídeo-arte, coloca na sua obra alguns dos problemas antropológicos anteriormente abordados: a relação que estabelecemos com o mundo e a sua perceção, o problema da morte e a sua articulação com a vida, a experiência de um tempo deslizante, automático e rápido que é necessário fazer parar.

As instalações e os vídeos de Viola apresentam um profundo manancial simbólico, a que não é estranho a formação budista do autor, o conhecimento da história das religiões e da arte e mística cristã – por isto tantas vezes é criticado por corresponder a uma certa formulação sincrética espiritualista de tipo New Age. A utilização da água e do fogo, a apresentação da morte e do nascimento, a relação entre a luz e as trevas. E nos últimos anos a referencia e citação de outras obras da arte cristã. Os títulos de algumas das suas obras são já reveladores dos seus interesses: “O quarto de S. João da Cruz”; “Passagem”; “A cidade dos homens”; “O portão dos anjos”; Santuário”; “Céu e terra”; “Rezar sem cessar”; “Pneuma”; “A saudação”; “O mensageiro” e mais recentemente a instalação “Cinco anjos para o milénio”. A propósito da relação das suas obras com a experiência religiosa afirmou: “julgo que a relação (...) tem a ver com um conhecimento, uma tomada de consciência ou reconhecimento que há qualquer coisa em cima, atrás, por baixo, do que está à frente dos nossos olhos, daquilo que a nossa vida diária foca. Há uma outra dimensão que sabes que está lá, que pode ser a fonte do conhecimento real, e a procura de me ligar com isso e identificá-lo é o ímpeto para fazer estas experiências e o meu trabalho.” (5).

Bill Viola explica que foi através das tradições orientais, hindu e budista, que descobriu as raízes místicas da sua própria tradição cristã: os padres do deserto, os gnósticos do cristianismo primitivo, Mestre Eckart, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, e obras como A nuvem do não saber: exemplos da via negativa, apofática. E cita Mircea Eliade para lembrar que “o sagrado é uma parte da estrutura da consciência e não um estádio na evolução da consciência. Ou seja, não houve uma época em que as coisas eram mais espirituais do que hoje. (...) Vivemos numa época que não o reflete ou encoraja ou foca da maneira que outras culturas o fizeram no passado onde a religião era dominante. Mas não significa que não esteja lá.” (6)

Conclusão

Os caminhos da arte são múltiplos, e se podemos dizer que toda a obra de arte é espiritual porque resulta de uma ação espiritual, de um ato humano superior, procurámos investigar obras que abrem mundos ou fendem este. Que refletem sobre o segredo inviolável do real. E, nos poucos exemplos aqui apresentados, foi possível perceber como são tantas as possibilidades abertas neste último século: desde o regresso à renúncia primitiva – que nunca é um verdadeiro regresso, senão seria esvaziado de alma; passando pela atenção redentora ao quotidiano – experimentar a intensidade da vida nos gestos simples, nos objetos ou atos comuns; até à apresentação de uma arte apofática, que da negatividade faz caminho e não muro, aproximando alguns percursos artísticos contemporâneos da mística tradicional.

Há quase um século, Wassily Kandinsky, nosso guia nesta deambulação, escreveu que as boas obras “defendem a alma de toda a vulgaridade. Mantêm-na numa certa tonalidade, como o diapasão às cordas de um instrumento” (7) . Se o mundo quotidiano nos pode enquistar, tornar desafinados – para usar essa metáfora musical fundamental para o pintor russo e para a sua arte abstrata – a obra de arte deve esticar as cordas da alma para que o som correto, espiritual, se mantenha e nos mantenha. Afinar-nos, é esse o objetivo da arte.

(1) Martin Buber, Eclipse de Dios, México, FCE, 1993, p.48
(2) Kandinsky, Do espiritual..., p.22
(3) Bruno Forte, A porta da Beleza, p.69
(4) Amador Vega, Arte y Santidad. Cuatro lecciones de estéticapofática, Pamplona, Universidade Publica de Navarra, 2005, p.52
(5) Bill Viola in David Ross e Peter Sellars, Bill Viola, New York, Whitney Museum of American Art, 1998, p.143
(6) Ibidem, p.147
(7) Kandinsky, Do espiritual..., p.23

Paulo Pires do Vale
Comunicação na Semana de Estudos de Teologia, UCP, Lisboa, 2007
01.04.09

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Qual a realidade apurada com os Censos?

Já se falou muito na imprensa sobre os falsos recibos verdes e como esta questão não vai aparecer clara nos resultados dos Censos 2011. Os trabalhadores independentes, depois de afirmarem que o são, têm também que indicar qual a principal actividade da "sua empresa", realidade difícil de definir para quem presta tipos diferentes de serviços a entidades não menos variadas. E agora há a questão das uniões de facto, ou das pessoas que vivem com o compabheiro ou companheira... Será esta uma amostra da realidade nacional ou teremos de esperar por 2021?

Censos: Não se vai saber quantas uniões de facto de casais do mesmo sexo existem em Portugal

O Instituto Nacional de Estatística (INE) vai ser obrigado a eliminar duas perguntas do Censos 2011, avança o semanário Sol. Em causa está uma pergunta do Questionário de Família sobre se uma pessoa tem uma relação em união de facto com um parceiro do mesmo sexo ou de sexo diferente e se reside com esse parceiro. A outra pergunta que está a levantar polémica pede a cada cidadão que indique o nome e o sexo das pessoas que, não sendo residentes no seu alojamento, aí estavam presentes no dia 21 de Março. A Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) considera que a informação tratada nessas duas perguntas é "sensível" e referente à "esfera privada". O INE não poderá registar, nas suas bases de dados, as informações recolhidas através dessas duas perguntas. Com esta decisão invalida-se a possibilidade de saber quantos casais do mesmo sexo vivem em união de facto em Portugal.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O poema: abraço à impureza do mundo

O poema

Simone Weil lamentava que se considerasse a estética como um estudo especial, uma recôndita disciplina universitária, pois «a estética é aquilo que nos torna o espaço e o tempo sensíveis». Sophia de Mello Breyner escreve: «Dizer que a obra de arte, que o poema faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. O poema, a obra de arte faz parte do real». De facto, a beleza não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o Ser e a Beleza se pudessem, de alguma maneira, separar. Aquilo que o poema ensina é que a beleza é uma metafísica concreta, um ponto de união entre o  invisível e o visível,  encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, o poema restaura a inevitabilidade da experiência. 

Procurar uma sílaba: poder-se-ia descrever assim a sua demanda. Enfrentar o máximo no mínimo, no insignificante, no inútil,  no ínfimo, no reduzido, no simples fragmento, na pequena dobra, no pormenor. Enfrentar o absoluto no débil e relativo, a imensidão no côvado minúsculo do que diariamente, do que obscuramente divisamos. Isso que nos esforçamos por esquecer, porque a nossa vida estremeceria se em vez dos discursos que nos saem tão fluidos ou temos à mão para explicar tudo, para nos justificar a nós próprios, tivéssemos que passar pelo embaraço de procurar as sílabas, de habitar o silêncio, a infatigável atenção, a longa e áspera noite do não-saber com seus corredores desertos e alagados, como quem espera a salvação. 

Se a filologia ensina alguma coisa sobre os processos humanos, podemos então concluir que o poema é, antes de tudo, uma forma de ação. A existência é feita de ações: lavar o rosto, preparar os alimentos, declarar um amor, cumprir um rito de tristeza, levantar a mão num aceno quase impercetível. De todas as ações que compõem a vida, umas são exteriores, outras interiores. Umas são passadas, outras ainda chegarão. Mas nenhuma destas divisões é muito rígida. Porque, simplesmente, há coisas que não passam. E há acontecimentos exteriores que se gravam em nós, nunca saberemos bem de que maneira, como o nosso segredo mais íntimo. O poema é uma ação humana, entre outras. Só isso. Que sabedoria a daqueles poetas chineses para quem a arte dos versos não se sobrepunha à arte de varrer o pátio da sua casa.

O poema só pode ser um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira), publicado por SNPC

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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