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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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terça-feira, 4 de novembro de 2014

A "escandalosa tolerância" de Jesus

Jesus, o escandaloso!

Se nos atemos ao que contam os Evangelhos, nos surpreendemos com o fato de que Jesus foi escandalosamente tolerante com pessoas e grupos com os quais nenhum homem, reconhecido como observante e exemplar do ponto de vista religioso, podia ser tolerante. Ao mesmo tempo em que se mostrou extremamente crítico com aqueles que se viam a si mesmos como os mais fiéis e os mais exatos em sua religiosidade, Jesus foi tolerante com os publicamos e pecadores, com as mulheres e com os samaritanos, com os estrangeiros, com os endemoniados, com as multidões dos gentios (óchlos), uma palavra dura que designava a “plebe que não conhecia a Lei e era maldita”, no juízo dos sumos sacerdotes e dos fariseus observantes (Jo 7, 49; cf. 7, 45).

E é curioso, mas essa gente é a que aparece constantemente acompanhando a Jesus, escutando-o, buscando-o... Os relatos dos Evangelhos são eloquentes neste ponto concreto e repetem muitas vezes que o “gentio”, a “multidão”... buscava a Jesus, que o ouvia, que estava perto dele. E aquela mistura de Jesus com os “gentios” chegou a ser tão angustiosa, que até a família de Jesus chegou a pensar que ele havia perdido a cabeça (Mc 3, 21). Jesus compartilhava mesa e toalha com os pecadores, o que dava pé a murmurações por causa de semelhante conduta (Lc 15, 1s).

José María Castillo
in blog Teología sin Censura


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quem era Maria Madalena?

Santa caluniada e glorificada

Em 1989, Giovanni Testori pediu-me para introduzir um perfil bíblico a um seu volume dedicado à iconografia de Maria de Magdala na história da arte (tema em que sagrado e eros se entreteciam, segundo uma tipologia cara ao escritor). Escolhi como título: «Uma santa caluniada e glorificada». Sim, porque bem arraigado na mente dos leitores está o estereótipo que classifica esta mulher evangélica como uma prostituta redimida por Cristo.

A sua história é efetivamente feita de equívocos, que se consumaram a vários níveis. A vida desta discípula de Jesus começa em Magdala (do hebraico "migdol", torre), povoação de pescadores no litoral ocidental do lago de Tiberíades, centro de comércio piscatório denominado em grego "Tarichea", "peixe salgado", descoberto pela arqueologia, ainda que submergido sob as águas daquele lago.

Partiremos da parte final da sua existência. Estamos na alvorada primaveril do primeiro dia de Páscoa, segundo o Evangelho de João (20, 1-18). Maria está diante do sepulcro onde, poucas horas antes, estava deposto o corpo sem vida de Jesus.

Paradoxal é o equívoco que tem por protagonista a mesma mulher que confunde Jesus, regressado à nova vida e presente diante dela, pelo cuidador do recinto cemiterial de Jerusalém. Como é possível ter ocorrido aquele engano? A resposta está na própria natureza do acontecimento pascal que incide na história, mas é ao mesmo tempo um ato sobrenatural, misterioso, transcendente. Para "reconhecer" o Ressuscitado, não chegam os olhos do rosto, nem sequer ter andado com ele e escutado os seus discursos nas praças palestinas, ou ceado com ele. É necessário um olhar profundo, uma via de conhecimento superior. De facto, Maria "reconhece" Jesus só quando ele a chama pelo nome, e os olhos da sua alma se abrem e «exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» (20,16), e, assim, recebe a missão de ser testemunha da ressurreição: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: "Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus." Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: "Vi o Senhor!" E contou o que Ele lhe tinha dito» (20,17-18).

Ora, Maria de Magdala entrou em cena pela primeira vez no Evangelho de Lucas como uma das mulheres que assistiam Jesus e os discípulos com os seus bens. Naquela ocasião, foi acrescentada uma precisão muito significativa: dela «tinham saído sete demónios» (8,1-3). Foi precisamente sobre esta informação que se consumou o equívoco radical que nunca mais a deixou. Esta expressão na linguagem bíblica podia indicar um gravíssimo (o sete é o número da plenitude) mal físico ou moral, que tinha atingido a mulher e de que Jesus a tinha libertado.

Mas a tradição, mil vezes repetida na história da arte e persistente até aos nossos dias, fez de Maria uma prostituta. Isto aconteceu apenas porque na página evangélica precedente - o capítulo 7 de Lucas - é narrada a história da conversão de uma anónima «conhecida naquela cidade como pecadora», que tinha derramado óleo perfumado aos pés de Jesus, hóspede na cada de um fariseu distinto, lavou-os com as suas lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Foi assim, sem nenhuma ligação textual real, que se identificou Maria de Magdala com aquela prostituta sem nome.

Este gesto de veneração será repetido noutra ocasião, aquando do encontro de Jesus com uma outra Maria, a irmã de Marta e Lázaro (João 12,1-8). E assim se consumará um outro equívoco para Maria de Magdala, que em algumas tradições populares será identificada com esta Maria de Betânia, depois de ter sido confundida com a prostituta da Galileia.

Mas ainda não tinha terminado a deformação do rosto desta mulher. Alguns textos apócrifos cristãos, compostos no Egito cerca do séc. III, identificam Maria de Magdala até mesmo com Maria, a mãe de Jesus! Lentamente, a sua transformação ampliou-se a tal ponto que, em alguns escritos não canónicos, converteu-se num símbolo, isto é, numa imagem da Sabedoria divina que sai da boca de Cristo. É por isto - e não por maliciosas alusões a que seremos tentados a crer a partir de uma leitura superficial, alusões transformadas em desprezíveis "provas" históricas de "O código Da Vinci", de Dan Brown - que o Evangelho apócrifo de Filipe diz que Jesus «amava Maria mais do que todos os discípulos e a beijava na boca».

Ora, na Bíblia diz-se que a Sabedoria «sai da boca do Altíssimo» (Ben-Sirá 24,3). Estranho destino o de Maria de Magdala, rebaixada a prostituta e elevada a Sabedoria divina. Por felicidade, o único que a chamou pelo nome e a reconheceu foi o próprio Jesus, o seu Mestre, o Rabbuni, naquela manhã de Páscoa.

Aqui chegados, regressemos brevemente ao livro a que fazíamos referência. A obra introduz Maria Madalena com um perfil totalmente espiritual, mas sempre segundo os equívocos acima indicados, que a faziam irmã de Marta e Lázaro e, naturalmente, ex-prostituta.

A elaboração deste retrato coube a um importante representante da escola francesa de espiritualidade, o cardeal Pierre de Bérulle, nascido em 1585 no castelo de Sérilly, em Troyes, cidade onde foi assinado o famoso tratado homónimo que pôs fim ao segundo período da Guerra dos Cem Anos. Pierre de Bérulle exerceu um notável influxo sobre a cultura religiosa do seu tempo, fundou uma congregação, compôs uma vasta bibliografia, delineou uma espiritualidade fortemente cristocêntrica de matriz paulina, que tinha como eixo temático a "kénosis" - isto é, o "esvaziamento" que o Filho de Deus experimenta ao tornar-se homem, ou seja, na Incarnação -, e chegou a ser conselheiro do rei francês Luís XIII e da sua mãe, Maria de Médici, antes de morrer, em 1629.

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura
In Il Sole 24 Ore

Trad.: rjm in SNPC publicado a  07.08.13

quarta-feira, 16 de março de 2011

As perguntas de Job...

Ilda David

Actualidade e sentido das perguntas de Job
Porque temos um livro bíblico como o de Job? O que é que a sua leitura provoca ou ilumina em nós? Duas perguntas que se juntam às inúmeras interrogações que percorrem aquele livro sapiencial do Antigo Testamento.

«A longa reflexão que enche prateleiras de bibliotecas inteiras e os inúmeros cenários dramáticos da vida no mundo atual, impressos em nós pela insistência dos meios de comunicação social, sublinham a pertinência do diálogo entre as nossas e as perguntas que este livro nos oferece.» (Texto de apresentação do curso)

As sessões do curso livro “As perguntas de Job – Atualidade e sentido” decorrem em Lisboa, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), à quarta-feira, entre as 18h00 e as 20h00.

O livro de Job

«O livro de Job constitui, no contexto da Bíblia, um dado bem característico e original. Em primeiro lugar, porque enfrenta a questão da experiência religiosa pessoal como um objeto de reflexão e porque o faz com uma profundidade humana e um dramatismo dignos do melhor humanismo e da mais requintada arte literária; em segundo lugar, porque não representa muito diretamente a linguagem teológica mais característica do Antigo Testamento. O facto é que este livro se impôs como um dos mais elevados momentos literários da Bíblia; e, para a História da teologia, da filosofia e da cultura, até aos dias de hoje, ficou a ser um verdadeiro marco miliário da tomada de consciência dos dramas da experiência humana.

A importância que este livro assumiu na Bíblia e nas religiões bíblicas - Judaísmo e Cristianismo - veio-lhe também, em grande parte, do facto de nele se exprimir um dos temas máximos da cultura e da literatura humanistas do Médio Oriente Antigo. É a questão do sofrimento e das suas repercussões, quer diretamente na experiência de quem sofre, quer indiretamente na interação que se produz entre as conceções morais e outras categorias religiosas fundamentais, tais como sofrimento e doença, pecado e castigo, santidade e felicidade. Enfim, é o problema de saber se existe alguma correlação justa ou lógica entre a maneira honesta como se vive e a maneira como a vida nos corre.» (Bíblia Sagrada, ed. Difusora Bíblica)

Programa

23, 30 de março; 13 de abril; 25 de maio
Job na Bíblia Luísa Almendra
6 de abril
Job na Judaísmo Esther Muzcnik
4 de maio
Job na Filosofia Américo Pereira
11 de maio
Job no Cinema Inês Gil
18 de maio
Job nas Artes Visuais Paulo Pires do Vale
1 de junho
Painel interdisciplinar

As inscrições decorrem entre 14 e 22 de março, entre as 16h00 e as 17h00, no secretariado do Centro de Estudos de Religiões e Culturas (UCP), ou noutro horário, mediante marcação.

A inscrição no curso custa 40 €, com 50% de desconto para alunos da UCP ou outras instituições, mediante a apresentação de comprovativo.
in SNPC

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Eucaristia e conflito interior

Comungar ou não comungar?
3

"Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia.

Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual.

Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade da sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam a viver num relacionamento "estável", e procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade".

Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica voltada directamente para os homossexuais (Pastoral para Homossexuais), exista grande confusão neste assunto.

Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade.

Como não encontrei ainda O texto que fale exactamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" [1], que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. [...] A opinião do atual Papa [2] não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar outro ponto de vista..."


Por Teleny, in retorno (G-A-Y)

[1] O texto de Joseph Ratzinger, apresentado anteriormente, é sobre os "casais de segunda união" e a Comunhão eucarística; o autor da mensagem aqui transcrita faz uma analogia entre a situação destes e a dos homossexuais católicos. 
[2] que é o corpo da última mensagem - a parte 2 de "Comungar ou não comungar?"

Ler no blogue:
parte 1 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/comungar-ou-nao-comungar-eis-questao.html
parte 2 http://moradasdedeus.blogspot.com/2011/02/o-ritual-social-e-individual-da.html

domingo, 28 de novembro de 2010

Qual é o verdadeiro pecado de Sodoma

O que qualquer cristão deve saber sobre homossexualidade
"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!" (João 8,32)
7/10

A própria Bíblia e o Filho de Deus dão-nos a chave para corrigir esta maliciosa identificação de Sodoma e Gomorra com a homossexualidade. Segundo os mais respeitados estudiosos das Sagradas Escrituras, o pecado de  Sodoma é a injustiça e a anti-hospitalidade, nunca a violação homossexual.

Prova disto, é que todos os textos que aludem a Sodoma no Antigo Testamento atribuem a sua destruição a outros pecados e não ao "homossexualismo":
  • falta de justiça e de arrependimento (Isaías 1,10-17 e 3,9-11);
  • adultério e hipocrisia (Jeremias 23,14);
  • orgulho, intemperança na comida, insolência e "não socorrer o pobre e oindigente" (Ezequiel 16,49);
  • insensatez, insolência, falta de hospitalidade e escravização (Sabedoria 10,8; 19,14; Ben Sira 16,8).
No Novo Testamento, não há qualquer ligação da destruição de Sodoma com a sexualidade e, muito menos, com a homossexualidade (Mateus 10,14; Lucas 10,11-12; 17,29).

Em toda a Bíblia, é só nos livros neo-testamentários tardios de Judas e Pedro que aparece alguma ligação entre Sodoma e a sexualidade (Judas 6-7; 2 Pedro 2,4.6.10). Mesmo aí, não existe qualquer menção ao "homo-erotismo".

Adaptação de uma publicação do blogue http://www.ggb.org.br/cristao.html que está a ser apresentada em várias mensagens.

Ler no blogue:
sobre homossexualidade ao longo da história

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Liberdade para amar ou Libertinagem?

Publico esta mensagem de um blogue brasileiro para cristãos homossexuais. Parece-me uma boa pista para reflexão e revisão de vida. Não o publico com fins moralistas, de exclusão ou simples julgamento. Faço-o porque sei que enquanto cristãos procuramos ir de encontro à Palavra e procuramos desbravar um caminho por poucos percorrido.

Liberdade para amar, não libertinagem
...
O Evangelho não mudou, não faz acepção de pessoas e é para todo aquele que em qualquer nação faz a Deus o que lhe é agradável. Mas uma coisa é importante termos em mente: não podemos confundir liberdade com libertinagem. “Irmãos, de facto, foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros.” (Gálatas 5, 13).

Falamos de relacionamento, de união e amor entre duas pessoas do mesmo sexo, não estamos a falar de oportunidade e acesso para a prática da libertinagem. A promiscuidade não é aceite por Deus, relações sexuais sem compromisso, múltiplas, puramente instintivas, animalescas... que desfiguram qualquer imagem e semelhança espiritual com Deus.
...
Não é pecado ser heterossexual ou homossexual. O pecado é como cada indivíduo direcciona a sua orientação sexual. Por exemplo, um rapaz casado que trai a sua esposa, está a cometer pecado, entretanto um homossexual que vive um relacionamento monogâmico de fidelidade absoluta ao seu parceiro, está nos planos de Deus.

Não pregamos a inclusão para levar para dentro da Igreja a perversão sexual como ocorria nos templos de prostituição sagrada (…). É preciso ter um cuidado enorme, porque a semente da libertinagem pode, como o cancro, corromper um povo inteiro, sem que se consiga sequer notar que a presença do Espírito Santo já se foi. O Rei Saul, quando o Espírito de Deus se retirou dele, não conseguiu sequer perceber, porque estava “cego” pela contaminação do pecado.

Por outras palavras, não adianta apresentar-se o acesso pelo novo e vivo caminho de Jesus com a libertinagem, pois será um cego a guiar outro cego, nas palavras de Jesus [Cf. Mateus 15, 14].

Ninguém bebe água por um copo sujo! Deus também não pode derramar aquilo que o mesmo tem de mais puro que é o seu próprio Espírito, num templo contaminado, sujo ou imundo. “Mas quem se une ao Senhor, forma com Ele um só espírito. Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo, mas quem se entrega à impureza peca contra o próprio corpo. Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis?” (1 Coríntios 6, 17-19).

Não estamos a falar em abrir as portas da Igreja aos homossexuais para trazerem consigo a libertinagem ao mesmo tempo. Continuamos a crer que Deus não se mistura com a imundície. “Sede santos, porque Eu sou santo.” (1 Pedro 1, 16).

Não é porque o amor de Deus é incondicional, que um relacionamento de amor entre duas pessoas não poderá ser por Ele reprovado. Não é porque Deus é amor e quem ama permanece em Deus, que o corpo, templo do Espírito Santo, pode ser usado de qualquer forma. O véu rasgou-se e o acesso a Deus, em Jesus Cristo, foi aberto a todas as pessoas, mas não queremos usar desta liberdade para permitir a libertinagem!

O acto sexual deve ser considerado como algo santo, momento em que dois seres se tornam uma só carne, um só corpo, uma só vida... A união entre duas pessoas deve ser em pureza, como no acto de união da Igreja com Cristo, e por isso em compromisso, em unidade, em amor... [...]
...
Quando falamos de relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, segundo suas respectivas orientações sexuais, mencionamos um relacionamento de unidade, de amor, de fidelidade entre duas pessoas que se amam, que se completam.
...
Defendemos portanto no nosso seio, o companheirismo, apoio, sustento, amor, como já dissemos. Uma coisa importante a ser salientada é que não há menção neste texto [1], nem no original, nem nas suas traduções, de que uma relação santa aos olhos de Deus tenha necessariamente que ser entre um homem e uma mulher, mas sim entre duas pessoas.
Pe. Nilo
[1] Eclesiastes 4, 9-12 (ver: http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/deus-nao-quer-o-homem-so.html)

http://gayscatolicoscomfe.blogspot.com/2010/10/liberdade-para-amar-nao-para.html

sexta-feira, 14 de maio de 2010

É arriscado escrever sobre estas coisas. Não estão na moda!


Em relação aos escândalos da pedofilia na Igreja e à mensagem que publiquei "Atirar a primeira pedra", gostaria de salientar a atitude de grande coragem de Bento XVI ao afirmar (no avião, a caminho de Portugal, dirigindo-se aos jornalistas) que o grande inimigo está dentro da Igreja, e não fora dela: é o pecado no seio da Igreja. É este pecado que mancha a Santidade de Cristo e da sua Igreja. Parece-me extraordinária esta conclusão do Papa.

De facto, a hierarquia da Igreja e alguns fiéis gastam muita energia em tentar encontrar inimigos e diabos à espreita em cada esquina. Bento XVI procurou pôr as coisas no sítio e deixou uma mensagem clara a desincentivar estas atitudes de recusa da realidade, de "mania da perseguição", de auto-comiseração. Enquanto crentes e fiéis, não nos devemos tornar numa espécie de "Calimero".

Enfrentar com coragem e com garra não significa nem atacar nem armarmo-nos até aos dentes, nem sequer usar coletes à prova-de-bala. Devemos ter o peito a descoberto, o coração bem aberto e tratarmos das nossas próprias feridas - o que arde cura! - para que a nossa carne não apodreça nem o coração se torne de pedra. Enfrentar com coragem e com garra é confrontarmo-nos com o que somos e procurarmos ser melhores. Se fossemos santos, se velássemos pela transparência da nossa imagem, nada teríamos a esconder e nada poderia escandalizar.

O título da mensagem é o do artigo do Público, da autoria de José Manuel Fernandes, que se encontra aqui em baixo:

"Não sou crente. Educado na fé católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir os chamados "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica. Até porque não sei se, como escreveu António Marujo neste jornal - no texto mais informado publicado sobre o tema em jornais portugueses -, estamos ou não perante "A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos".

Tendo porém a concordar com um outro agnóstico, Marcello Pera, filósofo e membro do Senado italiano, que escreveu no Corriere della Sera que se, sob o comunismo e o nazismo, "a destruição da religião comportou a destruição da razão", a guerra hoje aberta visa de novo a destruição da religião e isso "não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie". Por isso acho importante contrariar muitas das ideias feitas que têm marcado um debate inquinado por muita informação errada ou manipulada.

Vale por isso a pena começar por tentar saber se o problema da pedofilia e dos abusos sexuais - um problema cuja gravidade ninguém contesta, ocorram num colégio católico, na Casa Pia ou na residência de um embaixador - tem uma incidência especial em instituições da Igreja Católica. Os dados disponíveis não indicam que tenha: de acordo com os dados recolhidos por Thomas Plante, professor nas universidades de Stanford e Santa Clara, a ocorrência de relações sexuais com menores de 18 anos entre o clero do sexo masculino é, em proporção, metade da registada entre os homens adultos. É mesmo assim um crime imenso, pois não deveria existir um só caso, mas permite perceber que o problema não só não é mais frequente nas instituições católicas, como até é menos comum. Tem é muito mais visibilidade ao atingir instituições católicas.

Uma segunda questão muito discutida é a de saber se existe uma relação entre o celibato e a ocorrência de abusos sexuais. Também aqui não só a evidência é a contrária - a esmagadora maioria dos abusos é praticada por familiares próximos das vítimas - como o tema do celibato é, antes do mais, um tema da Igreja e de quem o escolhe. Não existiu sempre como norma na Igreja de Roma e hoje esta aceita excepções (no clero do Oriente e entre os anglicanos convertidos). Pode ser que a norma mude um dia, mas provavelmente ninguém melhor do que o actual Papa para avaliar se esse momento é chegado - até porque talvez ninguém, no seio da Igreja Católica, tenha dedicado tanta atenção ao tema dos abusos sexuais e feito mudar tanta coisa como Bento XVI.

Se algo choca na forma como têm vindo a ser noticiados estes "escândalos" é o modo como, incluindo no New York Times, se tem procurado atingir o Papa. Não tenho espaço, nem é relevante para esta discussão, para explicar as múltiplas deturpações e/ou omissões que têm permitido dirigir as setas das críticas contra Bento XVI, mas não posso deixar de recordar o que ele, primeiro como cardeal Ratzinger e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois como sucessor de João Paulo II, já fez neste domínio.

Até ao final do século XX o Vaticano não tinha qualquer responsabilidade no julgamento e punição dos padres acusados de abusos sexuais (e não apenas de pedofilia). A partir de 2001, por influência de Ratzinger, o Papa João Paulo II assinou um decreto - Motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela - de acordo com o qual todos os casos detectados passaram a ter de ser comunicados à Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger enfrentou então muitas oposições, pois passou a tratar de forma muito mais expedita casos que, de acordo com instruções datadas de 1962, exigiam processos muito morosos. A nova política da Congregação para a Doutrina da Fé passou a ser a de considerar que era mais importante agir rapidamente do que preservar os formalismos legais da Igreja, o que lhe permitiu encerrar administrativamente 60 por cento dos casos e adoptar uma linha de "tolerância zero".

Depois, mal foi eleito Papa, Bento XVI continuou a agir com rapidez e, entre as suas primeiras decisões, há que assinalar a tomada de medidas disciplinares contra dois altos responsáveis que, há décadas, as conseguiam iludir por terem "protectores" nas altas esferas do Vaticano. A seguir escolheu os Estados Unidos - um dos países onde os casos de abusos cometidos por padres haviam atingido maiores proporções - para uma das suas primeiras deslocações ao estrangeiro e, aí (tal como, depois, na Austrália), tornou-se no primeiro chefe da Igreja de Roma a receber pessoalmente vítimas de abusos sexuais. Nessa visita não evitou o tema e referiu-se-lhe cinco vezes nas suas diferentes orações e discursos.

Agora, na carta que escreveu aos cristãos irlandeses, não só não se limitou a pedir perdão, como definiu claramente o comportamento dos abusadores como "um crime" e não apenas como "um pecado", ao contrário do que alguns têm escrito por Portugal. Ao aceitar a resignação do máximo responsável pela Igreja da Irlanda também deu outro importante sinal: a dureza com que o antigo responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé passou a tratar os abusadores tem agora correspondência na dureza com que o Papa trata a hierarquia que não soube tratar do problema e pôr cobro aos crimes.

De facto - e este aspecto é muito importante - a ocorrência destes casos de abusos sexuais obriga à tomada de medidas pelos diferentes episcopados. Quando isso acontece, a situação muda radicalmente. Nos Estados Unidos, país onde primeiro se conheceu a dimensão do problema, a Conferência de Dallas de 2002 adoptou uma "Carta para a Protecção de Menores de Abuso Sexual" que levaria à expulsão de 700 padres. No Reino Unido, na sequência do Relatório Nolan (2001), acabou-se de vez com a prática de tratar estes assuntos apenas no interior da Igreja, passando a ser obrigatório dar deles conta às autoridades judiciais. A partir de então, como notava esta semana, no The Times, William Rees-Mogg, a Igreja de Inglaterra e de Gales "optou pela reforma, pela abertura e pela perseguição dos abusadores em vez de persistir no segredo, na ocultação e na transferência de paróquia dos incriminados".

Bento XVI, que não despertou para este problema nas últimas semanas, não deverá precipitar decisões por causa desta polémica. No passado domingo, durante as cerimónias do Domingo de Ramos, pediu aos crentes para não se deixarem intimidar pelos "murmúrios da opinião dominante", e é natural que o tenha feito: se a Igreja tivesse deixado que a sua vida bimilenar fosse guiada pelo sentido volátil dos ventos há muito que teria desaparecido.

Ao mesmo tempo, como assinalava John L. Allen, jornalista do National Catholic Reporter, em coluna de opinião no New York Times, "para todos os que conhecem a experiência recente do Vaticano nesta matéria, Bento XVI não é parte do problema, antes poderá ser boa parte da solução".

Uma demonstração disso mesmo pode ser encontrada na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 25 de Dezembro de 2005, ano em que foi eleito. Boa parte dela ocupa-se da reconciliação, digamos assim, entre as concepções de "eros", o termo grego para êxtase sexual, e de "ágape", a palavra que o cristianismo adoptou para designar o amor entre homem e mulher. Se, como referia António Marujo na sua análise, o teólogo Hans Küng considera que existe uma "relação crispada" entre catolicismo e sexualidade, essa encíclica, ao recuperar o valor do "eros", mostra que Bento XVI conhece o mundo que pisa.

Por isso eu, que nem sou crente, fui informar-me sobre os casos e sobre a doutrina e escrevi este texto que, nos dias inflamados que correm, se arrisca a atrair muita pedrada. Ela que venha."

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

Este blogue também é teu

São benvindos os comentários, as perguntas, a partilha de reflexões e conhecimento, as ideias.

Envia o link do blogue a quem achas que poderá gostar e/ou precisar.

Se não te revês neste blogue, se estás em desacordo com tudo o que nele encontras, não és obrigado a lê-lo e eu não sou obrigado a publicar os teus comentários. Haverá certamente muitos outros sítios onde poderás fazê-lo.

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Os textos e as imagens

Os textos das mensagens deste blogue têm várias fontes. Alguns são resultados de pesquisas em sites, blogues ou páginas de informação na Internet. Outros são artigos de opinião do autor do blogue ou de algum dos seus colaboradores. Há ainda textos que são publicados por terem sido indicados por amigos ou por leitores do blogue. Muitos dos textos que servem de base às mensagens foram traduzidos, tendo por vezes sofrido cortes. Outros textos são adaptados, e a indicação dessa adaptação fará parte do corpo da mensagem. A maioria dos textos não está escrita segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, pelo facto do autor do blogue não o conhecer de forma aprofundada.

As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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